Amigos do Fingidor

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Ignorância mata



Pedro Lucas Lindoso


Durante esse confinamento que parece não ter fim, converso com meu amigo Chaguinhas, via WhatsApp, sobre vários assuntos, inclusive a pandemia.
Chaguinhas se diz abismado com algumas atitudes deploráveis perpetradas por algumas pessoas durante a pandemia. E reafirma que está, a cada dia que passa, mais desiludido com o ser humano. Considera que a humanidade não tem jeito. Nem uma pandemia dessas conserta as pessoas. Ao contrário, a pandemia expõe a todos nós a sordidez dos homens. A incúria total das pessoas. A total imprevidência, negligência, ausência de inciativa plausível de governos e autoridades. 
Uma médica de São Paulo foi interditada pelo Conselho de Medicina devido a divulgação de um soro anticoronavírus vendido em seu consultório. Outra médica, famosa dermatologista, repita-se dermatologista, houve por bem receitar hidrocloroquina como profilaxia para toda a equipe de sua clínica. Diz ela que é uma forma de prevenção ao COVID-19.
Viralizou um depoimento de uma senhora aloprada que confundia COVID-19, a doença, com o coronavírus, o vírus que causa a COVID-19. Uma aula de insanidade e desconhecimento. Uma loucura!
Em meio a tanta insanidade foram convocados epidemiologistas, médicos, sociólogos, filósofos, intelectuais e cientistas em geral, para se pronunciarem sobre a epidemia. E pronunciamento é o que não falta nas redes sociais.
Chaguinhas diz que, como bom amazônida, tem respeito pelos conhecimentos tradicionais dos povos da floresta.  Foi aconselhado a tomar mastruz para os pulmões. Chá de gengibre ou mangarataia, casca de panacanaúba, além de casca de quina. Tudo como profilaxia para o terrível vírus.
Por que não damos créditos naquilo que nós ouvimos dos povos tradicionais?  Há uma memória biocultural importante que deve ser respeitada. Um conjunto de saberes, de práticas, que eventualmente adquirem significados aos mesmos cientistas, médicos e pesquisadores de prestígio. Mesmo porque a memória biocultural é fonte de pesquisa aos cientistas do mundo inteiro.
O que é lamentável é o desconhecimento formal e escolar do caboclo leso. Ao receber o resultado do teste para coronavírus como positivo, achou que estava tudo bem. Tudo ok. Tudo positivo. E feliz da vida descuidou de qualquer tratamento.
Ignorância mata, concluiu Chaguinhas.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

O ridículo da vida



Zemaria Pinto


Eu estava às voltas com uma playlist, cujo eixo é a composição “Muito romântico”, de Caetano Veloso. Nunca um tema foi tão aderente: do samba-canção ao iê-iê-iê, da bossa-nova ao sertanejo, do bolero ao tropicalismo, do baião ao rock, do samba ao manguebeat, de Itamar Assumpção a Odair José – cabe de tudo na minha nova lista. Em tempos de isolamento, trocar ideias sobre música é um prazer redescoberto. Mandei à Rubi o link, pedindo-lhe sugestões. Rubi é especialista em fossa, dor-de-cotovelo e gêneros afins. Trabalhou na noite, por muito tempo. Agora, mantém um Salão bem animado, no Zumbi dos Palmares, com um conceito muito atual: enquanto passam horas em minuciosos tratamentos de beleza, as/os clientes vão bebericando e petiscando, sempre ao som de músicas românticas – brasileiras e latinas. O happy hour das sextas e sábados é sempre um acontecimento. O cabaré se inflama, diz Rubi, citando Lupicínio, uma de suas paixões. Por conta da pandemia, o salão está fechado há três meses, com previsão de poder reabrir pelo final de junho. Mas Rubi não parou: atende em domicílio. Delivery de cabelo, ela diz, pronunciando as letras dê e ele com aquela entonação tipicamente cearense. Flor, marido de Rubi, é motorista de Uber. A queda no movimento não o intimidou: trabalha de 12 a 14 horas por dia, para fazer sobrar alguma coisa, além do aluguel do carro e das taxas escorchantes do aplicativo. Os dois são uma pintura: ela, magra, pequena, loura platinada, os olhos azuis; ele, um atarracado índio Baniwa de São Gabriel da Cachoeira, onde Rubi, procurando um Xamã para curá-la de uma tristeza infinda, o encontrou. Arranhando o inglês e o espanhol, Flor era guia turístico numa cidade de raríssimos turistas, quase sempre mochileiros. Florismar, Flor para todo mundo, para ela é Florzinho. Dolores, seu nome de batismo, Rubi quer esquecer. Nome de gente sofredora, ela diz, completando com um cruz-credo. No Salão, Flor a chama respeitosa e carinhosamente de Dona Branca. Nas nossas rodas de conversa, violão e cerveja, comandadas por Mestre Pinheiro, é Branquinha. Não têm filhos. Não quiseram ou não puderam ter. Mas sua casa, lá mesmo no bairro, é um autêntico viveiro: jabutis, pacas, coelhos, marrecos, papagaios, araras, tucanos, além de cães e gatos. Todos em liberdade e convivendo pacificamente, no amplo quintal. Flor diz que são os xerimbabos deles.
Estranhei a demora na resposta de Rubi, sempre tão disposta a conversar fiado. Chequei, ela nem lera. Liguei, não atendeu. Liguei para Flor. Também não atendeu. Diabo. Passava das 10 da noite. Fui até lá. O bairro estava calmo, para um domingo. Na casa, ninguém. Os cachorros latiram, ao perceberem minha presença. Uma vizinha achegou-se e sem muita conversa informou que ambos foram hospitalizados naquela tarde. Caralho. Estão lá no Delphina. Do outro lado da cidade. Eu estava sem máscara. Não iam me deixar entrar. Voltei em casa. Cheguei no hospital quase meia-noite. Movimento intenso, embora menor do que eu imaginara. Depois de algum tempo, consegui localizá-los. Rubi estava respirando artificialmente, na UTI. Flor, na enfermaria, sedado. Se voltasse no dia seguinte, talvez conseguisse falar com ele, me disseram. Cedinho estava lá, de volta. No final da manhã, me deixaram entrar na enfermaria onde estava Flor. Sedado, uma enfermeira me falou por cima dos ombros. Notei a dificuldade dele em respirar. Consegui ver Rubi, pelo vidro da porta. Aparentemente, dormia. Voltei ao hospital no dia seguinte: nenhuma novidade. Na quarta-feira, me informaram que Rubi estava com pneumonia. Tentei interferir, sem saber exatamente o que poderia ser feito. Na quinta-feira, feriado, passamos o dia no hospital, eu e Mestre Pinheiro, impotentes, nada havia a fazer, além de esperar que a medicação fizesse efeito. Conversamos muito. Mestre Pinheiro é uma enciclopédia de música brasileira. Flor agora estava respirando por aparelhos também. Disseram que era por precaução. Saímos do hospital, a noite ia alta, quase sexta-feira.
Em casa, insone, coloquei a playlist, que eu não ouvia desde domingo. Não sei quantas músicas tocaram no modo aleatório. Não estava concentrado, pensando mil coisas ao mesmo tempo. Mas a voz de Dalva de Oliveira me prendeu a atenção. Mandei repetir uma, duas, três, quatro vezes, até que o toque do telefone interrompeu a reprodução. Passava das duas horas. Puta que pariu. Não consegui conter um grito rouco, de dor abafada. Rubi jamais me diria o que achava da lista, nem me daria indicações. Porra. Mil vezes porra. Eu já estava no hospital quando me informaram que Flor também não resistira. Não foram testados. A causa formal de ambos foi pneumonia. E as estatísticas? Li depois que a morte por “problemas respiratórios” aumentou em mais de 1.000% em relação ao mesmo período do ano anterior. Aliás, começou a aumentar na proporção inversa à diminuição da morte causada pela pandemia. Filhos da puta.
Rubi e Flor foram enterrados lado a lado, numa cova só deles. Dia 12 de junho. Rubi, com seu humor amargo, diria que até na morte estiveram sob o signo do amor. Ligo a playlist. O algoritmo inteligente já sabe o que procuro. A voz de Dalva ecoa na sala escura: ...o amor é simplesmente o ridículo da vida.[1]
  



[1] Fragmento da canção “Bom dia”, de Herivelto Martins e Aldo Cabral, gravada pela primeira vez por Linda Batista, no início da década de 1940. Mais de 20 anos depois, Dalva de Oliveira, que fora esposa de Herivelto, daria à canção sua interpretação definitiva. (Colaboração: Mestre Pinheiro)

terça-feira, 9 de junho de 2020

A primavera chinesa de Miss Manga



Pedro Lucas Lindoso


Conheci Miss Manga ainda garotinha. Desde a mais tenra idade desenhava. E muito bem. Gostava de fazer estampas e roupas para suas bonecas. Foi companheira de minha filha Marina. São amigas até hoje. Compravam e produziam roupas para bonecas Barbie. 
Miss Manga acertadamente fez universidade de Designer de Produtos e Gráfico. É pós-graduada. Tornou-se profissional estilista de uma grande empresa. A sua primeira empregadora custeou experiências e treinamentos em grandes centros como Los Angeles e Nova Iorque. Havia sido contratada como etilista do segmento masculino. Contudo, Miss Manga desejava novos desafios, principalmente atuar na área de moda feminina.
 De repente, por meio de contatos via internet, foi fisgada por uma “head hunter”, para trabalhar numa grande multinacional europeia de moda. A oferta consistia em bom salário, seguro saúde e moradia, bem como duas passagens para o Brasil por ano.
Era setembro de 2019 e o posto oferecido a Miss Manga foi em Pequim, na longínqua e misteriosa China. Está explicado o motivo de uma jovem profissional brasileira, filha de amazonense com carioca, estar nesse momento de pandemia, trabalhando na China, onde tudo começou.
Sabe-se que nos dias de hoje a comunicação é relativamente fácil, mesmo que a pessoa esteja nos polos, na Europa ou no Oriente. Mas a China tem suas peculiaridades. Lá não pega Google, nem gmail. Quanto ao conhecido e festejado WhatsApp, os chineses têm o seu exclusivo WE CHAT. Para ter acesso a esses aplicativos, os ocidentais devem baixar um tal de VPN, assim que adentram no espaço aéreo da China.
 Miss Manga estava de férias em Bangkok, na Tailândia, quando a epidemia começou. Os chineses comemoravam o Ano Novo quando o vírus se alastrou. É um feriadão tão importante quanto o nosso Natal e Ano Novo. O ano chinês é lunar. Portanto, com data móvel. Sempre em janeiro ou fevereiro.  Foi uma pena o vírus surgir nessa época.
Há semanas que Miss Manga retornou a Pequim e trabalha normalmente. Por lá, nem parece que morreu tanta gente. O isolamento está liberado. Miss Manga passeia de bicicleta, normalmente pela cidade. Mora num bom apartamento em bairro onde residem muitos ocidentais.  A língua de trabalho é o Inglês.  Miss Manga faz aulas regulares de mandarim, pagas pela empresa. Seu último WE CHAT (WhatsApp chinês) dizia:
– Estou bem. Estou na China! Pequim fica linda na primavera!

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pedro Carvalho desce aos infernos (mas volta)



Zemaria Pinto


No último final de semana, recebi um longo texto do meu amigo Pedro Carvalho, conhecido historiador acreano, médico aposentado, relatando sua experiência de infectado pelo coronavírus e traçando um paralelo histórico com a gripe espanhola, além de nos encantar com sua conhecida verve. Autorizado por PC, editei o texto e atenuei as partes, digamos, mais contundentes, que poderiam ser consideradas ofensivas à bandidagem federal bem como às estaduais e municipais, tudo saco da mesma farinha. Pedro diz que não tem papas nem bispos e nem mesmo vigários na língua, mas tem um milhão de Fradinhos. É um autêntico ING – indivíduo não governamental. Crítico das políticas de saúde pública no Brasil há mais de 50 anos, Pedro Carvalho cunhou a sentença definitiva sobre o assunto: não se faz política de saúde pública só com gaze, esparadrapo e mercurocromo! Com a palavra, Dom Pedro Carvalho de Granada e Sena Madureira. 

Cheguei no hospital com as minhas próprias patas. Não te ofendas, mas, como plantígrados, nós humanos estamos na mesma categoria de outros animais, como os ursos, por exemplo – tu sabes o que é o abraço de um amigo urso, não? Ora, se os animais dessa categoria têm patas, por que nós teríamos pés? Isso é só mais uma evidência da soberbia humana. O engraçado é que para a morte não há separação: morrem os humanos como morrem os animais, incluindo aí os digitígrados e os ungulados, para ficar nos terrestres. A diferença é que só os humanos acreditam no paraíso.
Mas, então, cheguei no hospital com as minhas próprias e gastas patas, levado por um Uber, que, aliás, estava morrendo de medo que eu morresse antes mesmo de chegar, mas cheguei. E quando, já no balcão, baixei a cabeça para pegar a carteirinha do plano de saúde, um redemoinho me atirou ao chão e no instante seguinte tudo escureceu.
Acordei não sei quantas horas depois, em uma enfermaria que mais parecia uma feira aos sábados, tamanho o movimento. Meu primeiro pensamento foi “se não há leito para todos, por que eu?” Às vésperas de completar 80, eu não teria prioridade, mas, já que estou aqui, vou ficando... Aos poucos, fui entendendo que o meu desconforto respiratório não era grave, por isso o uso de ventilação não invasiva. Livrei-me da intubação, que é meio caminho andado para pegar uma carona com Caronte. Meus filhos devem ter informado sobre a hipertensão, pois fiquei sabendo que candesartana cilexetila e a hidroclorotiazida faziam parte do cardápio diário, personalizado. Mas vou te poupar dos detalhes técnicos maçantes. E o inferno que vivi ao longo de sete dias não foi diferente das dezenas de depoimentos diários na televisão e no rádio. Como velho médico, prefiro falar de história.


A título de exercício, para mostrar a mim mesmo que continuava são, repassei mentalmente, várias vezes, o capítulo sobre a gripe espanhola, do meu livro Medicina na Amazônia: crônica de uma tragédia, que se não servir para coisa nenhuma, vale pelo teu prefácio, lúcido e veemente, que escreveste para a segunda edição, e agora, já na quarta, é parte indissociável do livro. As semelhanças com a atualidade são espantosas e as lembranças, terríveis. Entre setembro de 1918 e março do ano seguinte, mais de duas mil pessoas morreram só no Centro de Manaus. A tua Cachoeirinha, por exemplo, era subúrbio, não entrava nas estatísticas. Os relatos da época dizem que foi despovoada, com famílias inteiras dizimadas. Os caminhões militares passavam diariamente pela periferia da cidade, recolhendo os cadáveres, para depositá-los em valas comuns. Não havia caixões para todos, muito menos para os pobres. E em vez de flores, cal, para apressar a decomposição. Eu registrei que, tomando por base números de outros centros, cerca de 6 mil pessoas devem ter morrido em Manaus: 10% da população. E hoje, que o número de mortos por insuficiência respiratória aumentou milhares de pontos percentuais, os números da pandemia, a verdadeira causa mortis, continuam sendo falseados. Naquela época, a culpa era da comunicação precária e infraestrutura tendendo a zero. Hoje, com todos os avanços da tecnologia e da ciência, nós dois sabemos porque a saúde pública do Amazonas, do Acre e do Brasil está de tal jeito que um mandeta, a personificação da mediocridade e da canastrice, faz falta.
Pois, pois, amigo, moronguetá!, como diria meu querido irmão de loja e de boemia, Nunes Pereira. Meu aniversário está chegando, agora em junho, e com certeza ainda não vamos poder nos encontrar. Mesmo que eu tenha adquirido anticorpos, nem penso em submeter os meus ao risco de infecção. Aliás, não te falei como fui contaminado. Me confinei desde o princípio de março, antes mesmo do primeiro caso de Rio Branco, porque tinha certeza, conhecendo a história da espanhola, que o efeito do coronavírus seria devastador. A minha caminhada diária era feita na esteira mesmo, como nos dias de chuva, ouvindo meu amado Bach. Filhos e netos foram mantidos afastados. A Sebastiana vinha em casa diariamente, de ônibus, e nunca apresentou nenhum sintoma. Mas eu fiz compras de restaurante e farmácia por delivery, além de ter saído para tomar a vacina da influenza no modo drive thru. Notaste a importância do inglês na nossa comunicação?  Enfim: não sei, jamais saberei. Mas, voltando ao aniversário: em vez de ganhar presentes, enviei uma garrafa de vinho a cada amigo que viria a uma improvável festa, para que possamos brindar on-line. Não chegam nem a quinze, que a maioria já se foi. Recebeste a tua? 
Repetindo um dito familiar, um Carvalho seca, mas não verga. A quem perguntar por mim, diz que estou fazendo o de sempre: trabalhando. Ah, te autorizo a publicar este entre as crônicas da pandemia, para que mais gente saiba que estou bem, ainda que nunca tenham ouvido falar deste velho casmurro. Como Mário de Andrade, desci aos infernos. Mas voltei.
Que o G.A.U. pavimente com folhas de acácia a tua estrada.


terça-feira, 2 de junho de 2020

Os sudestinos



Pedro Lucas Lindoso


Eu particularmente adoro a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Mas há alguns cariocas imbuídos de um bairrismo exagerado. Acham que o Brasil é o Rio. Ou então que se restringe ao sudeste. Referem-se ao eixo Rio-São Paulo como o coração pulsante do país. O dicionário nos ensina que eixo é uma linha imaginária ou concreta capaz de atravessar o centro de um corpo, possibilitando que algo gire ao seu redor. Só que Rio e São Paulo não ficam no centro do Brasil. Tudo bem, eixo também pode ser uma união imaginária que vai de um ponto a outro: eixo Rio-São Paulo. Mas o Brasil não gira somente ao redor desse eixo.
Desde o Tratado de Tordesilhas, passando pelas capitanias hereditárias, o Brasil foi “dividido” administrativamente de diversas maneiras. Aqui, fomos a colônia do Maranhão e Grão-Pará, apartada do Brasil.
 No meu curso primário estudei que o Brasil tinha as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Leste e Sul. Quando já cursava o ginásio, foi criada a região Sudeste, composta pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo agrupados a Minas Gerais e Espírito Santo. O Nordeste recebeu Bahia e Sergipe. Todo o território de Goiás, ainda não dividido, pertencia ao Centro-Oeste. Criou-se o Tocantins, agrupando-o na região Norte. Mato Grosso também foi dividido, dando origem ao estado de Mato Grosso do Sul.
Os baianos, mineiros, capixabas e cariocas habitavam o leste do Brasil. Os baianos viraram nordestinos. Os outros juntaram-se a São Paulo e tornaram-se sudestinos? Fui ao dicionário e fiquei sem resultados para “sudestinos”.
Mas e o professor Google? Fui lá. Descobri que existe o Wikcionário. E lá estava o que procurava. Sudestino. Significa natural de região conhecida por sudeste ou natural da Região Sudeste do Brasil. Fiquei feliz em ver que o mesmo Wikcionário contempla a palavra centro-oestino. E claro, a fortiori, nortista, nordestino e sulista.
Nós, os nortistas, preferimos ser amazônidas. Mesmo porque os sudestinos e sulistas costumam confundir e chamar os nossos irmãos nordestinos de nortistas. Ou então usar de metonímia. Tomam um estado do Nordeste pelo todo. O carioca chama os nordestinos em geral de paraíbas, enquanto os paulistas os chamam de baianos. De forma pejorativa. Ou então se referem ao norte e nordeste do Brasil como o fim do mundo. Com governadores e prefeitos do fim do mundo.
O coronavírus se espalhou por todo o Brasil. Não poupou nenhuma região. Espera-se que nossos irmãos sudestinos possam nos conhecer melhor. E que o Brasil comemore em 2022, sem tanta divisão e ufanismo barato, o bicentenário de nossa independência.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A última mensagem de Zeca



Zemaria Pinto


As duas devoções de Zeca eram cerveja e santa Rita de Cássia. O sábado, que começava na sexta, era para a cerveja. O domingo, para a missa na igreja da padroeira, logo cedo, acompanhando D. Joca. E depois, cerveja, que nem só de fé se alimenta o ser humano. Os apelidos masculinos derivavam dos prenomes: Maria José e Maria João. Filha e mãe. Conheci Zeca quando ainda era sargento do Exército e cursava Letras, na UFAM. Aluna acima da média, destacava-se pelas ideias originais e polêmicas. Tinha o seu cânone particular, onde não cabiam escritores com preocupações sociais. Amava o mundo sórdido e refinado de Rubem Fonseca, os conflitos sexo-religiosos da classe média de Nelson Rodrigues e o intimismo corrosivo de Clarice Lispector – e tinha uma inexplicável paixão por Euclides da Cunha, o cadete rebelde que atirou o sabre aos pés do ministro da Guerra, o jornalista-poeta que denunciou o genocídio de Canudos e a escravização do seringueiro amazônico. Mas escrevia pra caralho, ela justificava com seu habitual poder de síntese. Aliás, Zeca falava mais palavrões que um presidente da república, só que com mais classe e graça.      
Quando começou a pandemia, Zeca e D. Joca recolheram-se, como mandava o figurino e o bom senso. Elas e o vira-lata Mandrake. Contatos externos, só o essencial. A casa de bairro, com quintal, varanda e churrasqueira, árvores frutíferas e flores, que vivia cheia de amigos, quedou deserta e silenciosa. Grupo de risco, mano, conversa fiada só no uatizápi. Pois foi pelo aplicativo que eu testemunhei uma transformação inimaginável em Zeca. Sua aversão às posições de esquerda terminara em apoio incondicional ao fascismo emergente – só esse doido pra detonar a petralhada, ela dizia. Andamos meio afastados, depois das eleições. À minha incompreensão – como uma professora pobre, preta e homossexual pode apoiar alguém que odeia professores, pobres, pretos e homossexuais? – respondia com meia dúzia de impropérios. Foi o coronavírus que mostrou a ela, afinal, quem eram os fascistas genocidas: em duas semanas de pandemia, a confiança se transformou em aversão. Tu é doido, mano, esse filho da puta quer matar a gente! Não caio nessa, não!
Zeca foi enterrada no dia 6 de maio, aos 63 anos, às 5 e pouco da tarde. Choviam finos cristais de luz à beira da cova coletiva, onde meia dúzia de amigos choravam sem discrição. Sua última mensagem, datada de quatro madrugadas antes, era um resumo do país pedindo socorro: mano, eu tô fudida!    


terça-feira, 26 de maio de 2020

A naninha de Maria Luísa



Pedro Lucas Lindoso


Nunca pensei que ficaria feliz em fazer aniversário na quarentena. Longe de todos os familiares. Sem possibilidade de receber abraços. Os presentes perdem muito sua importância quando atingimos certa idade. Claro que é gostoso recebê-los. Mas quando se anda (ou andava) pelos shoppings e se vê tanta coisa de que não necessitamos...
O fato é que acordei cedo no dia do meu aniversário. Percebi que a cantoria dos passarinhos e outros bichos que voam, bem como de galos que fazem barulho nas alvoradas, aumentou. Moro às margens do Igarapé do Mindu. Apesar de ser área bem urbana, há árvores que dão guarida a esses seres que mencionei.  Fazem algazarra ao amanhecer. E como disse, o barulho aumentou consideravelmente. Seria o silêncio imposto pela pandemia e o isolamento social? Ou será que a fauna e a flora, menos agredida ultimamente, se apresenta com mais efervescência? Esse é um dos lados bons da pandemia.
Minha família me presenteou com uma simpática e farta cesta delivery de café da manhã. Aliás, com um toque especial de queijos e vinhos a ser degustado pela noite. Gostei do presente.
Mas o melhor estava por vir. Temos visto nossa netinha através de sistema drive thru. Vamos vê-la de carro e mantemos a distância recomendada. Todos com as indefectíveis máscaras.
Minha netinha Maria Luísa adora aniversários. Tem sido convidada a participar de aniversários dos amiguinhos por vídeo.
 Minha nora relata que se emociona. As crianças trocam presentes virtuais. Buscam coisinhas delas mesmas e ofertam de faz de conta aos amiguinhos.
O meu aniversário, obedecendo às regras de distanciamento social, foi comemorado ao ar livre. E foi um sucesso. Teve bolo, brigadeiro e balão. Foi a festa da família Shark.  Tudo para deixar a Maria Luísa feliz.  E aí veio a emoção maior.
Maria Luísa achou importante dar presente para o vovô Shark. E me “emprestou” um dos seus bens mais valiosos. O que os psicólogos chamam de “objeto de transição”. O mais famoso é o do personagem Linus, da Turma do Charlie Brown. O da Maria Luísa é uma fraldinha, uma naninha. Requisitado quase sempre na hora do sono. O objeto de transição é bem comum na primeira infância e importante para o desenvolvimento emocional da criança.
Foi o que ela achou para me presentear. “Emprestado”, é claro. Assim, fiquei como fiel depositário do objeto mais precioso e infungível do mundo: a naninha da Maria Luísa.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

É primavera no inferno ou O último pesadelo de António Pinto



Zemaria Pinto


António Pinto viu a luz quando a espanhola, que matara seu pai e um irmão, começava a entrar em declínio. Sua mãe morreu no dia seguinte, de complicações do parto. Ele dizia que não nasceu, apenas sobreviveu, a vida inteira. Cem anos depois, seu rude coração de camponês teima em continuar batendo, mesmo depois de rejeitado em vários centros de atendimento médico de Manaus, sempre sob a alegação de falta de leito, quando o grande empecilho era a data de nascimento: uma escolha natural. Em casa, respirando como um bugio, António Pinto sonha.

Meu corpo flutua sobre as ladeiras e vielas de Lisboa. Ao longe, uma voz cansada entoa um melancólico solau. Não há vivalma nas ruas, mas há flores. As vias colorem-se às margens de florezinhas silvestres anis e amarelas, cagadas pela passarinhada, que nada sabe dos problemas humanos. Há cravos vermelhos, também, lembrando que é abril. Quem os plantou, senão as delicadas mãos de uma rapariga saudosa? Nos campos de Andaluzia, um deserto de homens e bichos, mas em Málaga as ruas sem gente explodem em cores violentas: violetas violáceas, dálias vermelhaças, plurissoleados girassóis e até ruborizadas rubiáceas. No Porto, a ponte de D. Luiz está deserta e os teleféricos de Gaia, parados. Na contracorrente do Tejo, me vou até Santarém, mas nada vislumbro além do sol ofuscante, que me põe de chofre em Catalunha, sob uma chuva fina, como uns dedos feminis que um dia me afagaram a tez adolescente. A Resistência, entre Espanha e Portugal: os fascistas não voltarão, jamais. Na Casa de Alienados, onde fui forçado dois anos, meu corpo abalroa-se às paredes, em penoso desequilíbrio. Mas as flores estão lá, no minúsculo jardim central, que cultivávamos com um símbolo da vida que nos lesavam. Em Barcelona, as constelações cintilam sobre o plenilúnio prenhe de primavera. Será assim o paraíso, meu filho?

A voz de António Pinto saía a custo, entre a oração e o lamento. Nem pensei em anotar nada. Agora, de chegada do cemitério, onde ele foi enterrado em uma cova coletiva, com mais dezessete, entre os quais dois anjinhos em claro azul, anoto sua fala descompassada, temendo embelezar sua crueza ou defraudar sua poesia. António Pinto poeta. Propus-lhe uma feita escrever suas falas, repletas de uma poesia indefinível. Sua resposta foi uma gargalhada rouca, entrecortada por um forte acesso de tosse: a poesia que me comove não cabe nos livros, miúdo, só na vida.    


terça-feira, 19 de maio de 2020

Fiquem em casa. E ponto final.



Pedro Lucas Lindoso


Andava preocupado como tia Idalina estaria administrando sua vida em tempos de isolamento social completo. Ela é do grupo de risco. Fiquei satisfeito. Disse-me que se impôs uma rotina e está se saindo bem, dentro do possível. Explicou-me que começa o dia fazendo ginástica. Disse-me que adora aeróbica. E faz ginástica do método da Jane Fonda. Adquiriu os tapes na década de 1980 e os transformou recentemente em DVD.
– Sou vidrada na Jane Fonda. Ela e eu temos 70 anos, mas parecemos cinquentonas.
Tia Idalina insiste nisso de diminuir a idade. Uma pessoa que ouviu pelo rádio o fim da II Guerra Mundial, não pode ter menos do que 80 anos. Ela mesma conta:
– O conflito terminou na Europa com a invasão de Berlim por tropas soviéticas e a rendição dos alemães em 8 de maio de 1945. Mas só foi completamente encerrado em 15 de agosto, após a capitulação japonesa. Acompanhei tudo pelo rádio que transmitia a BBC diretamente de Londres. Era uma garotinha de 10 anos. Mas me lembro bem.
Pronto. Finalmente sabemos a idade de tia Idalina. No último 8 de maio, a Europa, em plena pandemia, comemorou os 75 anos do final da guerra. Deduz-se que titia está com 85 anos. Mas pratica aeróbica no método da Jane Fonda. Te mete com ela!
Além da aeróbica da Jane, titia matriculou-se em um curso de Inglês on-line. Fez opção por estudar francês quando estudante, mas sucumbiu a necessidade de falar Inglês, imediatamente.
 – Levei um tempo para saber que “password” era senha e que “chat” era bate-papo. Passei a maior vergonha esses dias. Achava que “lockdown” era nome de uma banda de rock Inglês. Quando soube que era fechamento geral das lojas, não tive outro jeito. Matriculei-me no Inglês virtual. Um curso especial para terceira idade. O professor é uma gracinha. Tenho aprendido muitas palavras. O inglês invadiu o Português. God save the Queen! Vou pedir para o professor me ensinar “The Star-Spangled Banner", "A Bandeira Estrelada”, que é o hino nacional dos Estados Unidos.
Finalmente perguntei se ela sabia o que era “hashtag”. Não sabia. Disse-lhe que era o sinal de jogo da velha que se vê na televisão, antes da expressão #FIQUE.EM.CASA.
– Conheço esse sinal em música. Em francês se chama “dièse’’. Mas quando quero ser enfática, não uso “dièse” ou “hashtag”. Digo logo:
– FIQUEM EM CASA. E PONTO FINAL.



terça-feira, 12 de maio de 2020

Saudade federal



Pedro Lucas Lindoso


Esta crônica é uma homenagem póstuma a ILZA GARCIA. As pessoas que tiveram a alegria e o privilégio de conviver com Ilza Garcia sabem o motivo do título desta crônica. Ela gostava de usar essa expressão: Federal! Todos conhecem o sentido de federal como relativo à federação. Mas há um outro sentido: algo intenso, fora do comum.  Ilza Garcia era assim: intensa e fora do comum. Ela era federal! Mãe da Gina. Ilza não foi só uma grande mãe. Foi esposa, irmã, amiga, companheira rotariana, madrinha, tia, administradora, trabalhadora, e muito mais! Uma pessoa de uma grandeza de alma e de uma personalidade intensa. Ou seja, federal!
Ilza Garcia era amiga de minha mãe, Amine Daou Lindoso, desde a adolescência. Desde novinho me ensinaram a chamá-la de tia. Ultimamente ela era o elo mais tangível que me ligava à memória de minha mãe. Cada abraço, cada expressão de carinho, era como se minha mãe nos observasse de onde quer que esteja no plano espiritual.
O nosso último contato pessoalmente foi dias antes dessa terrível pandemia. Missa de celebração pelo centenário de nascimento do tio Agobar Garcia. Seu amado esposo. Cuidou do tio Agobar com desvelo e fidelidade até o dia em que Deus o chamou. Agora, devem estar namorando pelos jardins maravilhosos do Éden.
Aos 98 anos de idade, tia Ilza estava lúcida e caminhando com higidez e a elegância de sempre. Dois dias antes de ser hospitalizada, eu e minha esposa Vera falamos com ela por telefone. Ela estava bem. Vera tinha um respeito e um carinho especial por ela e também a chamava de tia.
  Tia Ilza foi ex-aluna salesiana. Falo com autoridade de filho, irmão e afilhado de mulheres que estudaram com as Irmãs Salesianas. São pessoas especiais. Tornam-se esposas, mães e profissionais diferenciadas. Neste mês de maio em que celebramos as mães, também celebramos a nossa Mãe do Céu. Nossa Senhora Auxiliadora receberá tia Ilza com todas as honras de filha. Ela que soube tão bem amá-la e cultuá-la como nossa mãe e Mãe do Cristo e Salvador do Mundo.
Ilza Garcia foi funcionária da Nestlé, presidente da APAE e participava ativamente da Casa da Amizade de senhoras rotarianas. Foi membro do Conselho da Mulher Executiva dentre as várias atividades na sociedade de nossa Manaus.   
Há alguns meses, disse a ela que havia me lembrado de um comercial da cerveja Skol que dizia: “Entrei no bar com uma sede federal".
Hoje nós que a conhecemos estamos todos com saudade. Uma saudade federal!



Sra. Ilza Garcia.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Festa adiada para 2022



Pedro Lucas Lindoso


O whatzapp e outras mídias fervilham nos nossos celulares com notícias, desabafos, comunicados e, infelizmente, muita “fake news”. Há tristes notícias de conhecidos e amigos infectados e dos falecimentos. Há outras notícias não tão tristes, mas que nos deixam também consternados.
Recebo mensagem de Brasília cancelando a festa de bodas de ouro de dona Maria Teresa e seu Jorge.  A festa seria no dia 30 de maio próximo. Um sábado. Dona Maria Teresa e seu Jorge se casaram dia 30 de maio de 1970. Coincidentemente era um sábado também. Véspera do início da Copa do Mundo de 1970. A copa em que o Brasil foi tricampeão.
Dona Teresa sempre conta que seu Jorge tirou férias de um mês por dois motivos: ia se casar e porque adora futebol. E conta em detalhes:
– Graças a Deus o Brasil só estrearia na quarta-feira, dia 3 de junho, contra a Tchecoslováquia. Ainda bem que o Brasil começou ganhando. Fez uma goleada de 4X1. Assim, minha lua de mel continuou bem animada.
Seu Jorge e dona Maria Teresa passaram a lua de mel em Águas de Lindóia. Eles retornaram a Brasília para o final da Copa. O Brasil ganhou da Itália fazendo outra goleada de 4x1. A final foi no dia 21 de junho de 1970, no famoso Estádio Azteca, na Cidade do México.
Todos os filhos, netos, amigos e conhecidos sabem desses detalhes. Seu Jorge e dona Teresa sempre fazem festa nas copas do mundo desde que se casaram. E ela sempre faz questão de relembrar a sua estória com esses simpáticos detalhes. Lá se vão 13 copas.
 A primeira vez que fomos a casa de seu Jorge e dona Teresa foi na copa de 1994. Essa eu me lembro bem. O Brasil ganhou da Itália na final. Foi em Pasadena nos Estados Unidos. O casal deu uma festança. Já era 17 de julho.
Neste 2020, mesmo porque não tem copa, a festa seria pela primeira vez, no dia certo em que eles se casaram. Até o dia da semana seria o mesmo.  30 de maio, sábado.  Sempre se comemorou no final das copas do mundo, que acontecem geralmente em junho e julho. Triste pandemia. Dona Maria Teresa e seu Jorge adiaram a festa para o final da copa de 2022, no Qatar. Todos devem vir vestidos de árabe. Espera-se que o Brasil seja campeão. E até lá a pandemia seja uma triste experiência já esquecida de todos. Dona Maria Teresa manda um recado:
– Cuidem-se. Fiquem em casa. Quero todos na minha festa em novembro e dezembro de 2022.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

terça-feira, 28 de abril de 2020

Ponto de exclamação!



Pedro Lucas Lindoso


Os sinais de pontuação são sinais gráficos empregados na língua escrita para tentar recuperar recursos específicos da língua falada, tais como: entonação, jogo de silêncio, pausas etc. Também servem para demarcar unidades e sinalizar os limites das estruturas sintáticas nos textos.
Ponto, dois pontos, interrogação, parêntesis, reticências, vírgula. Sim. A famosa vírgula. De todos os sinais de pontuação, a vírgula é aquele que desempenha o maior número de funções.
Mas o assunto não é a vírgula. Em tempo de coronavírus nunca se usou tanto o ponto de exclamação. A gramática nos ensina que devemos usar exclamação após vocativo, frases imperativas e após interjeição. O que é obrigatório em termos gramaticais. Também usamos exclamação após palavras ou frases de caráter emotivo ou expressivo. Aí já fica mais a critério de quem produz o texto.
Quando eu era estudante fazia-se redação. Hoje se faz produção de textos. Tive um professor de Língua Portuguesa que não gostava de exclamação. Tampouco de reticências. Era muito carrancudo! Como muitos professores de português.      
Um cronista não pode prescindir do ponto de exclamação! Numa época de pandemia! Com tantas mortes! Não podemos deixar de ser emotivos:
– Meu Deus! Até quando isso vai durar! Jesus! Os americanos de origem puritana não podem falar o nome de Jesus em vão. E se expressam assim: Gee!
Aqui em Manaus estão fazendo enterros coletivos em vala comum! Como dizer isso sem exclamação?! Devemos mais do que nunca FICAR EM CASA! Se a gramática diz que devemos usar exclamação após frases imperativas, essa tem sido fundamental:
– FIQUE EM CASA!!!
Lembrei-me de minha avó Brigitta Daou que sempre dizia: “Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz!” E meu tio Robert Daou: “Deixe de movimento.” Fique em casa!
Realmente, com essas notícias de contaminação e mortes de pessoas aqui em Manaus, só nos resta clamar e exclamar:
– Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Rogai por nós!



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Escrever é fácil!



Zemaria Pinto


Sempre me perguntam o que tenho a dizer a escritores principiantes. Agora, em tempos de pandemia, todos querem ser Boccaccio ou Shakespeare. Poderia aproveitar para vender uma versão online da minha Oficina de Criação Literária, já testada com várias turmas presenciais, mas, prefiro ser objetivo.
Eu só tenho uma recomendação a dar a quem quer escrever Literatura (essa maiúscula não está aí à toa):

LEIA! LEIA! LEIA MUITO!

Aprenda sobre o que você gosta de ler e aprenda sobre o que você gostaria de escrever. E, sobretudo, tenha prazer na leitura. Se a leitura não está prazerosa, parta para outra. E não se preocupe se o tempo de isolamento não for suficiente para escrever alguma coisa: as leituras não terão sido em vão.
Mas, não é só isso. Você deve ter – ou desenvolver – uma qualidade rara: a disciplina. A disciplina de ter hora para começar a escrever; a disciplina de ter hora para parar de escrever; a disciplina de ter dias para tirar folgas e até férias de escrever; e a indisciplina de ter um caderninho, ou um aplicativo no celular, algum lugar onde você vai anotar as ideias que aparecem do nada, que parecem que caem do céu. É o que os tolos chamam de inspiração. Isso é bobagem, inspiração não existe. Inventaram isso só para você não sentir culpa por não conseguir escrever. O que existe é que você está sempre pensando naquilo sobre o que você está escrevendo.
Entretanto, nada disso tem sentido nenhum se você não tiver uma coisa que eu não sei explicar: talento.
É fácil!



terça-feira, 21 de abril de 2020

Faz doces. Recomeça.



Pedro Lucas Lindoso


Conheci prima Zilá na casa do Chaguinhas. Perguntei a ele se era sua prima. Ele disse que era prima de seu pai. O velho só a chamava prima Zilá. O “prima” se incorporou ao nome. Uma diarista a chamava de dona Prima.
Zilá morou com os pais de Chaguinhas até a morte do velho Chagas e de sua esposa. Chaguinhas filho é muito grato a ela. Ajudou muito a sua mãe com o Alzheimer do velho.
Zilá é de uma família com dois irmãos e uma irmã. Todos casados. Zilá é bem mais nova do que os irmãos. Normalista, começou a dar aulas bem novinha. Formou-se em Língua Portuguesa. E aposentou-se cedo. No século passado as professoras se aposentavam com 25 anos de serviço.
Chaguinhas diz brincando que prima Zilá é solteirona VVC. (velha virgem curiosa). Ela morre de rir. Antes de cuidar dos seus tios, pais de Chaguinhas, cuidou dos seus próprios pais, até morrerem.
Os irmãos de prima Zilá curiosamente são casados com duas irmãs gêmeas idênticas. Diligentemente, enganaram prima Zilá e sua irmã com a divisão da herança.
Prima Zilá diz que uma das gêmeas é boa e a outra má. Como sempre confundiu as duas não sabe qual delas é a boa. E magoada com ambas, e com os respectivos, não quer saber deles. E explica:
– Nossa casa era grande. Meus pais tinham poupança e ações. O que me coube não deu para comprar uma quitinete.
Chaguinhas diz que ela não perturba. É generosa. Quase não fala. Passa as manhãs fazendo doces: brigadeiros, cajuzinhos e quindins. Vende tudo. Inspirou-se em Cora Coralina que disse: “Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”
Em época de coronavírus e para surpresa de Chaguinhas, prima Zilá está querendo comprar grande quantidade de dólares e euros. Com o advento da pandemia prima Zilá está preocupada. Disse que tem uma poupança e que o governo pode querer confiscar tudo. E trata-se de uma senhora poupança. Bastante polpuda. Mais de dois milhões de reais. Quase a quantia que Chaguinhas tinha em ações. Está no prejuízo. As ações não estão valendo nem a metade da metade. Soube que os irmãos e as gêmeas estão em situação bem pior.
Zilá está obedecendo à quarentena com radicalidade. Vai sobreviver ao corona com certeza. E vai em frente, citando Cora Coralina: “Na escola da vida o mestre é o tempo”.
Prima Zilá é antes de tudo precavida.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Ciclo da vida



Pedro Lucas Lindoso


Em época de quarentena liguei para minha querida tia Idalina. Estava preocupado em saber se estava se comportando. Ela me disse estar um pouco entediada. Mas o tédio havia sido quebrado ontem. Eis o seu relato:
– Imagine que ontem, na boquinha da noite, como se dizia antigamente, um casal que mora no apartamento vizinho, começou a brigar. Um horror. O rapaz dizia não aguentar mais as exigências e as manias da esposa. As crianças em casa choravam e gritavam. O marido ameaçava sair de casa. A esposa, às beiras da histeria, dizia que ia pular da janela. Tive que me meter. Afinal eles são muito simpáticos comigo.
Fiquei muito preocupado com o que poderia ter acontecido. Ademais, tia Idalina é do grupo de risco. Diz que só tem 70. Uma pessoa que foi ao funeral de Carmem Miranda, em agosto de 1955, não tem menos do que 80 anos.
Ela mesma me contou que Carmem Miranda faleceu em Los Angeles. Mas o corpo embalsamado foi trasladado para o Rio de Janeiro. Milhares de pessoas acompanharam o enterro. E ela estava lá. O ano era 1955, repita-se.
Mas voltando à confusão de ontem. Ela apertou a campainha do vizinho, pegou as duas crianças e levou para o apartamento dela. Um risco. Segundo o Ministério da Saúde, os velhinhos têm que ficar longe das crianças.
Mas Idalina desobedeceu às normas de quarentena. Acalmou as crianças. Os gritos continuaram por alguns instantes. Depois tudo silenciou. Um silêncio sepulcral. A essa altura as crianças estavam calmas, assistiam televisão e tomavam sorvete.
Idalina preparou uma canja para as duas garotinhas. Deu banho. Vestiu-as com umas roupinhas que alguém esquecera por lá. Não achou conveniente voltar ao apartamento dos pais. No que estava certa. Se uma coisa que Idalina não tem é leseira.
Lá pelas dez da noite, as garotinhas já dormiam no sofá quando os pais vieram buscá-las. Ela que conta:
– Os dois, com cara de paisagem, relaxados, pediram desculpas, pegaram as crianças e foram para casa.
No final dessa quarentena, daqui a nove meses, vai nascer muito menino por aí. É o ciclo da vida. Uns vão morrer outros vão nascer.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Cheia de 2020



Pedro Lucas Lindoso


Tempo. Tempo. Tempo. O dia tem 24 horas. O ano 365 dias. No hemisfério norte começou a primavera. No hemisfério sul, o outono.  Mas isso (as estações do ano) só é referência para quem mora nas zonas temperadas da terra.
Para nós, amazônidas, que vivemos na zona tropical, o que importa é o regime das águas. Na época da cheia, o tempo fica mais chuvoso. Fica “rainy” como se diz em Inglês. Aliás, há duas palavras para tempo no idioma de Shakespeare. “Time” e “weather”.
Quando eu digo que o tempo está passando devagar por causa do corona vírus, é o “time”. Quando eu digo que está chuvoso é o “weather’.
O homem consegue fazer previsão do “weather” para os próximos dias. Mas o que vai acontecer daqui a três dias, somente a Deus pertence.
Na literatura dos povos que vivem em zona temperada são comuns as referências às estações do ano. As estações servem para ativar a memória de fatos importantes nas vidas das pessoas. “Vovô faleceu no inverno de 2013.” “Casamos na primavera de 2005”. “Comecei a trabalhar no outono daquele ano.” “O verão foi divertido.”
Para o nosso caboclo nada disso faz sentido. Mesmo porque durante o ano pouca coisa muda na floresta.  Só nos rios. Na vazante o calor é mais intenso. As praias aparecem e se retiram os animais das marombas.
Em Paris a primavera já se apresenta, apesar da quarentena. Em Nova Iorque não está mais nevando. Mas o Central Park continua assombrosamente vazio. Em Tóquio há cerejeiras em flor ignorando o vírus.
No interior do Amazonas os ribeirinhos estão estranhando porque não há movimento de barcos de recreio, nem balsas, e muito menos as lanchas expressas. Os barcos a jato que levam e trazem pessoas de Manaus para o interior.
Os barcos que vendem mantimentos trouxeram a triste notícia de que uma gripe forte, um tal de coronavírus, ameaça as populações e pode matar.
Aconselha-se não entrar em contato com o pessoal das cidades e vilas. Melhor ficar só com as coisas da floresta e evitar o pessoal da cidade.
As gripes virais geralmente são mais perigosas para indígenas e ribeirinhos. Espera-se que muitos possam sobreviver para contar o que houve na terrível cheia de 2020.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Home office



Zemaria Pinto


Quando apresentei a proposta de home office no sindicato, há uns 3 anos, fui motivo de chacota. Agora estamos todos em estado de chacota. A rotina não tem sido diferente da rotina presencial na fábrica. O pessoal da produção está em casa sem ter o que fazer, mas, como sou administrativo, continuo o ramerrame de despachos, via web. Tenho uma reunião diária, por teleconferência. Comitê de Crise Coronavírus. CCC. Essa sigla é de matar. No dia a dia da fábrica, as reuniões são trimestrais, apenas para apreciação dos indicadores de qualidade – tudo fake, mas o pessoal da matriz gosta deles, é o que importa. Na reunião de hoje, um elemento propôs a adoção do isolamento vertical. Ao ser questionado sobre que merda é essa, o sujeito respondeu com a singeleza dos idiotas “é a proposta do nosso presidente”. Nosso é o cacete, porra, parti pra cima do babaca, pena que ele não estivesse ao meu alcance. A reunião do CCC acabou antes da hora.
Da minha janela, no segundo andar, eu vejo a rua, o açougue, a padaria e o movimento de gente, carros e motos – quase nenhum. Uso o home office como justificativa para me isolar dentro de casa. Afinal faço parte do grupo de risco – o grupo que pode morrer para que a economia se reerga. Minha mulher, respeita o “expediente”. Meus netos não aparecem há três semanas. De noitinha, desço para caminhar na área do cortiço, que uns pedantes chamam de condomínio. Outras pessoas caminham e não respondem aos meus boas noites. Fodam-se. Essa porra só transmite com toques, não com gentileza. O escroto que quer o isolamento vertical do grupo de risco sabe que isso dará a ele um genocídio pra chamar de seu. Como ele não dispõe de judeus, negros ou índios, vai matar os velhos do país. Mas quem se importa? Desde que a bolsa esteja em alta e o dólar em baixa, todo sacrifício é pouco. Pátria amada, pátria minha, patriazinha – que nojo eu tenho de ti!



terça-feira, 31 de março de 2020

Repousar: repousemos...



Pedro Lucas Lindoso


Quando Deus criou o mundo, o fez em sete dias. No primeiro dia criou a luz. No segundo criou o céu. No terceiro dia criou a terra. No quarto criou os corpos celestes. No quinto criou os animais e as aves do céu. No sexto dia os animais da terra, inclusive os humanos.
No sétimo dia, Deus descansou. Ele estava satisfeito. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque era o dia de descanso.
O velho Chaguinhas, pai do meu amigo, era um cristão fervoroso. Católico praticante. Não fazia, não assinava, não decidia nada importante nos dias de domingo.
Após acordar, ia à missa. Em jejum. Até a fisiologia precisa de uma pausa, dizia ele. Ademais, a Santa Madre Igreja nos ensina que devemos comungar em jejum.
O domingo era para ficar com a família, fazer as coisas devagar e respeitar o descanso. Afinal, domingo era um dia santificado. Quando as padarias e outros pequenos comércios começaram a abrir as portas aos domingos, o velho Chaguinhas achou um absurdo.
Eventualmente fumava um cachimbo. Isso podia. Domingo pede cachimbo. E proibia qualquer membro da família de fazer algum trabalho importante. Até mesmo os estudos podiam ser interrompidos.
Certo domingo, recebeu a visita de um amigo que desejava alugar uma casa de Chaguinhas. O velho foi enfático:
– Não faço negócios aos domingos. Volte amanhã.
Quando supermercados e shopping centers começaram a abrir aos domingos, ele profetizou:
– Os homens andam muito gananciosos. Isso desagrada ao Criador.
Tudo e todos precisam de um descanso. Uma pausa. Até na música há pausas. As pausas musicais são intervalos de tempo em que deve haver silêncio, ou seja, nenhuma nota deve ser tocada nesse instante. E continuou:
– Haverá um dia em que esses homens que não param de trabalhar, que não respeitam o domingo santificado pelo Senhor, serão obrigados e fazer uma pausa. Nem que seja compulsoriamente.
Nesses dias de quarentena, lembrei-me do velho Chaguinhas. Ele sempre dizia que devemos repousar. Repousemos.