Amigos do Fingidor

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terça-feira, 16 de abril de 2019

Apelido. Se der corda, pega...



Pedro Lucas Lindoso


Apelido é como relógio antigo: se der corda, pega. Nós, amazonenses, acho que até por razões inexplicáveis e culturais, gostamos de apelidar as pessoas. Principalmente políticos.
Quem é gordinho é sempre apelidado de balão, bolinha ou botijão de gás. O importante é não dar bola. Os altos e magros são varapaus. Os baixinhos são tampinhas. Os muito brancos são macaxeira. E por aí vai. A imaginação para apelidos é muito fértil entre os amazonenses.
Não se pode confundir apelidos com pseudônimos. Muito usados em concursos literários e entre escritores. Os editais exigem o pseudônimo para preservar a imparcialidade dos julgadores. Um amigo participou da banca de um concurso literário na cidade. Houve nove candidatos que escolheram “curupira” como pseudônimo. Todos desclassificados. Se o curupira faz os caçadores se perderem na floresta, na cidade faz os escritores perderem concursos literários.
A alcunha tem um valor depreciativo e é definida a partir de uma característica particular, física ou moral. Já o codinome geralmente é para designar disfarce ou nomes de subversivos. Vem do inglês “code name”.  Aliás, na internet tem se usado também o anglicismo “nickname”. Especialmente em sites de bate papo, visando o anonimato.
Por falar em anonimato, não há artigo da Constituição Federal mais violado do que o inciso IV do artigo 5º, pelo qual é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Ora, em tempos de internet e “fake news”, não se vê outra coisa do que acusações anônimas. A honra dos famosos, políticos e celebridades é jogada na lata de lixo sem dó ou piedade.
Antigamente, os políticos e famosos eram vítimas de cartas anônimas. O mundo não muda tanto assim. Como filho de político, vi minha mãe indignada com essas cartas. Mau caratismo não surgiu com a internet. Podem acreditar.
Os políticos e celebridades que se importam com apelidos e sofrem muito com críticas devem deixar a vida pública. E, como Greta Garbo, pedir para ser esquecido. Para ficar só.
Um deputado do PT chamou um ministro do atual governo de “tchutchuca”. O ministro revidou. Deu corda. Não deveria. Como já disse, apelido é como relógio antigo, se der corda, pega.

terça-feira, 9 de abril de 2019

A Páscoa, o coelho e seus auxiliares



Pedro Lucas Lindoso


A Páscoa de minha infância tinha um sentido mais religioso. A celebração principal era a missa, onde todos os que já tinham feito a primeira comunhão deveriam se confessar e comungar.
O tal coelhinho da Páscoa já existia. Mas parece que não tinha muito prestígio na minha época de menino. Talvez porque não havia o apelo de consumo dos dias atuais. Coelho e Papai Noel vendem muitos produtos. Principalmente para a criançada.
Nos dias atuais, o coelho da Páscoa anda prestigiadíssimo. Minha sobrinha Ceci, de apenas sete anos, que mora nos Estados Unidos, escreveu uma cartinha para um tal de Mr. Lepercon. Trata-se de uma entidade do folclore irlandês. Aparece geralmente no período da Quaresma. É quando se comemora o dia de Saint Patrick, festejado em 17 de março e muito popular por lá.
Mr. Lepercon seria possivelmente um auxiliar do coelho da Páscoa. Também interage com unicórnios, duendes e outros seres que encantam as crianças e alguns adultos mundo afora. Especialmente, as entidades mágicas que andam pelo arco-íris. Local fantástico onde há um pote de moedas de ouro. Parece-me que o tal de Mr. Lepercon administra ou sabe onde está o tal pote de ouro. Como é de conhecimento geral, esse misterioso tesouro se localiza no final do arco-íris.
Dizem que o tal de Mr. Lepercon fica ocupadíssimo na época da Pascoa. Ele tem que auxiliar o coelho na confecção e embalagem de ovos de chocolate. Os ovos são para ser distribuídos entre todas as crianças boazinhas ao redor da terra. Incluindo Ceci, seu irmão Nicholas e os primos brasileiros.
Pois bem. Vamos então falar da cartinha que Ceci escreveu para o tal de Mr. Lepercon.  Ceci, que vem de uma linhagem de gente inteligente e bem sucedida, houve por bem propor negócios com o tal irlandês. Na missiva, a esperta garotinha propõe ao administrador do tal pote de ouro cuidar dos cavalos, dos duendes e dos unicórnios. A contrapartida seria receber o famoso pote como pagamento.
Entre suas obrigações contratuais, a pequena Ceci se compromete ainda a comprar um caminhão e um trailer para facilitar a vida do tal Lepercon na distribuição dos ovos.
Essa minha sobrinha vai longe. Executivos da Wall Street guardem esse nome: Cecilia, conhecida carinhosamente como Ceci.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Esse tal de equinócio



Pedro Lucas Lindoso


Termina o mês de março. Antônio Carlos Jobim, em sua magistral canção, avisa que: “são as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”.
Houve muita chuva neste ano, como sempre. O sertanejo nem precisou esperar o dia de São José, celebrado dia 19 de março, para ter chuva abundante. A festa do santo, pai do Menino Deus, é sempre às vésperas do equinócio de outono no Brasil.
O equinócio ocorre duas vezes no ano, em março e em setembro. No equinócio, ambos os hemisférios da Terra encontram-se igualmente iluminados pelo Sol. Ou seja, o dia e a noite têm 12 horas. São dias aequus que significa igual em Latim. Nox significa noite. Temos o aequus nox. Noites iguais.
Observo que nem todos têm noções básicas de Geografia. Confundem as estações do ano com conceitos de clima. Nós, amazonenses, temos conhecimento do que é fuso horário, por uma questão de sobrevivência. Muitos brasileiros do sudeste não sabem que no verão nosso horário difere em duas horas. Há “call centers” que nos perturbam a partir das 6 da manhã.
A geografia sempre foi valorizada pelos amazonenses. Precisamos conhecer as estrelas e os pontos cardeais. É fundamental saber localizar-se nas florestas e nos rios. O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – IGHA dá precedência à Geografia em sua denominação. Diferente de outros similares, inclusive do pioneiro e balizador IHGB – Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, fundado em 1838, onde a História precede a Geografia. Prestigiado por Pedro II, o IHGB foi inspirado no Institut Historique, de Paris.
Criado por maçons em 1917, o nosso centenário IGHA certamente recebeu a influência marcante de seus fundadores, “experts” em Geografia e Geometria, posto que eram originariamente os construtores dos templos medievais.
Mas a falta de escolaridade formal parece ser epidêmica no nosso país. Somos vergonhosamente desprovidos de políticas educacionais efetivas.
Perguntaram-me quem era esse tal de equinócio. Lembrei-me de Sonia Campos, grande amiga e professora de Geografia. Um aluno perguntou-lhe quem havia tocado fogo no vulcão.
Deve ter sido esse tal de equinócio.

terça-feira, 26 de março de 2019

Tacacazeira profissional



Pedro Lucas Lindoso


O tacacá era o alimento de preferência dos manauaras que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite. Servido com bastante goma de tapioca, muito jambu e com todos os camarões que o freguês tem direito. Hoje, há esses abomináveis “fast-foods” ou então o salgadão com refrigerante. O que também é altamente condenável por qualquer nutricionista de plantão. O tacacá, sem dúvida, é muito mais saudável.
Francisco Gomes, nosso confrade no IGHA-Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, contesta Câmara Cascudo quanto à origem do tacacá como produto dos indígenas paraenses. Para o ilustre historiador, a origem é possivelmente na região da antiga Serpa, hoje Itacoatiara. Diz Gomes que Avé-Lallemant, viajante alemão pela Amazônia, lá pelos anos de 1859, provou o tacacá na velha Serpa, qualificando-o como “a bebida nacional dos Mura”.
Domingo passado conversava com a tacacazeira dona Elsa. A simpática senhora regateava camarões no mercadão Adolpho Lisboa. Disse-me que antigamente seu marido produzia a goma de tapioca e o próprio tucupi.  As únicas coisas que comprava era o camarão e o alho, como estava fazendo agora.
– O jambu, a pimenta e a chicória vêm do meu quintal. O tucupi e a goma de tapioca são fornecidos por um compadre que mora na Cidade Nova. Aqui no mercado é caríssimo, me disse.
Perguntei-lhe qual a dica para se fazer um tacacá bem gostoso. Ela explicou-me rapidamente que deveria levar ao fogo o tucupi em uma panela com o alho bem amassado, o sal, a chicória e a pimenta-de-cheiro. Abaixar o fogo quando começar a ferver. Em outra panela cozinhe o jambu. Muitos sulistas ficam intrigados com o jambu. Provoca sensação de formigamento na boca. Pavulagem, comenta sorrindo.
– Agora vou te contar um segredo: é preciso lavar bem os camarões e ferver por uns cinco minutos. A goma deve ser feita com a água dos camarões. Muita gente não sabe disso.
A senhora não deveria contar esse segredo por aí, argumentei. Ela me disse que não tinha medo de concorrência.
– E não se esqueça de que é preciso retirar a cabeça e a casca do camarão. E fazer tudo com muito amor para ficar gostoso. Outra coisa que é importantíssimo: devemos servir o tacacá em cuia limpa e bem lavada.
Agradeci à dona Elsa e lhe dei os parabéns. Ela, muito vaidosa, despediu-se.
– Sou tacacazeira profissional.

terça-feira, 19 de março de 2019

Ao lado de um grande homem



Pedro Lucas Lindoso


Neste mês dedicado às mulheres muito se tem dito a elas. Flores e presentes em abundância jamais serão suficientes para que nós, homens, possamos quitar o quanto devemos às mulheres. Não só como esposas, mas também como mães, irmãs, filhas, sobrinhas e primas.
A dívida dos homens para com as mulheres é exponencial. A influência que elas exercem na nossa formação fica geralmente no anonimato. Mesmo porque elas nos moldam na intimidade. No aconchego do lar. Elas nos influenciam da maneira mais discreta e do modo mais tranquilo e por isso tão eficaz.
Quando os homens são homenageados e biografados raramente se ressalta o papel que suas mães e esposas desempenharam na formação de sua personalidade. Na construção de seu patrimônio não só monetário, mas também o patrimônio moral e intelectual.
Muitos homens em seus escritos e depoimentos falam de suas mulheres, incluindo mães, avós e filhas, com um amor imensurável. Falam delas com respeito profundo e imensa ternura. Humildemente me incluo nessa categoria.
Outro assunto do momento é a questão da isonomia entre homens e mulheres. Principalmente no que concerne a salários, condições e oportunidades de trabalho. Inclusive ascensão funcional e exercício de cargos de poder e gestão. O outro lado dessa moeda está no fato de que nós homens precisamos ser também responsáveis pelas tarefas domésticas.
Ora, a sociedade do século 21 proclama que homens e mulheres podem e devem exercer funções em todas as áreas. E isso é ótimo. Mas também os homens têm que ter consciência na busca do necessário equilíbrio. Assim, a colaboração entre os casais é fundamental. Só através do esforço conjunto, ambos poderão se aperfeiçoar sem descuidar de fortalecer a família e bem educar os filhos.
Quero terminar essa homenagem às mulheres, fazendo uma confissão: as grandes lições de vida que recebi foram de minha mãe e de minha esposa. Não sei se foram perfeitas em suas influências. Mas uma coisa é certa. Se me afastei ou quando me afasto do que elas me disseram e me ensinaram a culpa é toda minha.
São as mães, muito mais que os pais, que influenciam os filhos e suas condutas. A sorte de ter uma boa mãe e esposa dedicada é tudo para um homem. Ao lado de um grande homem, há sempre uma grande mulher.

terça-feira, 12 de março de 2019

Excelente companheira



Pedro Lucas Lindoso
           

Viajar é sempre uma oportunidade para aumentar conhecimentos. Além de conhecer novos lugares e alargar os horizontes. Não é sem razão que se inventou a lua de mel. A tão sonhada viagem de núpcias. É quando o novo casal tem a efetiva oportunidade de se conhecer.
Viajar para mim é sempre uma grande alegria e quase uma prioridade. É importante até como fonte de inspiração para crônicas ou, quiçá, um novo romance.
Quando se viaja em família e os filhos são pequenos, a viagem é sempre uma oportunidade de crescimento em afetos e conhecimentos. E fundamental. Principalmente nos dias atuais, em que os pais trabalham e a rotina interfere na quantidade e qualidade de horas de convivência entre os membros do núcleo familiar. Viajando, a família fica 24 horas em total convivência. Compartilhando experiências únicas. Diferente do dia a dia, quando filhos estão nas escolas e pais tralhando.
Fiz uma viagem com meus filhos casados e minha netinha Maria Luísa. Três casais. Ou seja, seis pessoas e meia. Meia não, porque Maria Luísa tem muita personalidade. E a viagem, compartilhada com seus pais, avós paternos e tios tinha como objetivo levá-la ao Magic Kingdom, no Disney World, para comemorar seu aniversário de três anos.
Apesar de alguns amigos argumentarem que ela seria muito pequena para aproveitar, não foi o que aconteceu. Maria Luísa enfrenta as viagens de avião sem chorar, sem fazer tolice e passa quase todo o tempo dormindo e sentadinha na cadeira. Reivindica seu “gagau” na hora certa e comporta-se como uma pequena lady, apesar de ser, na verdade, uma princesinha. E de princesa comemorou seu aniversário de três anos.
Naquele 8 de fevereiro, Vera e eu éramos os avós da mais linda das garotinhas princesas do Magic Kingdom. Vestiu-se de Cinderela.
Maria Luísa visita as lojas Disney e comporta-se muito bem. É muita educada e atenciosa. No dia seguinte, fomos aos indefectíveis outlets. Ela me toma pela mão e me mostra uma banca onde há várias bonecas LOL. Compro uma e presenteio à Maria Luísa. E ela pergunta:
– Já pagou vovô? Posso abrir? Já sim, respondi. Muito bem. Primeiro paga-se. Depois é que podemos usar.
Certamente Maria Luísa voltará aos parques de Orlando em outras oportunidades. Maria Luísa é excelente companheira de viagem.

terça-feira, 5 de março de 2019

Você fala a língua do P?



Pedro Lucas Lindoso


Sempre que tia Idalina me telefona, agora somente por WhatsApp, temos novidade ou algo de pitoresco.
Estranhei o horário. Fiquei assustado. Noveleira como ela só, telefonar-me enquanto passa a novela das oito é algo inusitado. Ela me disse que agora aprendeu a usar o globo play. Tia Idalina entrou na era do streaming.
Pergunta-me se quando menino falava a língua do P. Disse à titia que era fluente na língua do P. Ela morreu de rir. Comenta que minha geração é que sabia brincar. Interagia-se com os companheiros de rua, com primos e irmãos em brincadeiras saudáveis.
Contou-me que foi ao playground de seu edifício. Cariocas chamam a área de lazer dos prédios de play. Foi pesquisar como a meninada brinca nos dias de hoje.
– A garotada toda portando celulares. Agora é cabeça, tronco, membros e celulares. Perguntei se sabiam a língua do P. Ninguém sabia. Uns estudavam inglês e francês. Outros, alemão. Havia um rapazinho que além de Inglês estudava mandarim. Ninguém sabia falar a língua do P.
Comentei com tia Idalina que essa brincadeira de criança foi objeto de estudo em Linguística aplicada, quando fiz letras na UnB. Em Portugal se chama Língua dos pês.
A verdade é que o uso lúdico da linguagem é comum em várias culturas. Quando criança, eu usava a língua do P. Quanpandopo criprianpançapa, eupeu upusapavapa apa linpinguapa dopo Pêpê.
Nos países vizinhos onde se fala o espanhol, as crianças brincam de falar o jeringonzo.  Lembro-me de uma colega que morou na Argentina explicá-lo. Recordo-me que pode ser usado em diferentes formas dialetais.
O Inglês não é uma Língua latina e não tem a sonoridade e a nossa fonética. A técnica da língua do P é inaplicável. Vejam que “no”, “know” e “now”, não tem a lógica fonética que os falantes de Português estão acostumados.
Entretanto, nos países de Língua Inglesa também se brinca com a linguagem. Sei que existe a Pig Latin e a Backslang, mas não sei bem como funcionam.
E você, caro leitor, fala a língua do P?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Jacaré-tinga ou do rabo cotó?



Pedro Lucas Lindoso


Quem entra para a vida pública há que se acostumar com críticas e notícias desagradáveis. Além das armadilhas e artimanhas dos partidos de oposição ao seu governo. É inerente à democracia.
Eleito deputado e posteriormente senador pelo Amazonas, meu saudoso pai José Lindoso levou a família toda para Brasília. Cresci e casei-me por lá. Quando José Lindoso tomou posse como governador, não morava por aqui e poucos me conheciam.
Era o dia da posse. Fui cortar o cabelo numa barbearia do centro. Cabeleira devidamente aparada. O barbeiro, que não me conhecia, fazia o acabamento usando com incomum destreza uma afiadíssima navalha. De repetente, alguém comenta.
– Hoje é posse do novo governador José Lindoso. E o barbeiro, ainda com a navalha na mão, terminando o corte no meu cabelo, disse:
– Mais um para roubar.
Eu calado estava, calado fiquei. Terminado o serviço, paguei o homem e saí sorrateiramente da barbearia, evitando constrangimentos.
Os amazonenses têm o hábito de criticar nossos irmãos paraenses usando como mote a gatunice, ou chamando-os de jacaré. É deselegante e injusto. Mesmo porque a maioria dos paraenses que vem para Manaus não é da região de Belém. São na verdade tapajoenses. Óbidos, Oriximiná, Juruti e Santarém são cidades bem mais próximas de Manaus do que de Belém.
Isso explica a forte migração para Manaus e a grande quantidade de paraenses do Tapajós por aqui. Não se justifica a implicância porque a cultura, o sotaque e os costumes são os mesmos dos amazonenses da região do Baixo Amazonas. Já próximo ao Tapajós, lindo rio com belas praias, temos as importantes cidades de Parintins, Maués e Barreirinha.
A marchinha de carnaval da Banda da Bica, que sempre faz críticas aos políticos, chamou o novo governante de jacaré-tinga. Ele é paraense oriundo do Tapajós que é um lindo rio com belas praias. Dizem que sua excelência não gostou do apelido.
Vá se acostumando governador. Faz parte do jogo político. Graças a Deus vivemos numa democracia. É melhor ser chamado de jacaré-tinga do que jacaré do rabo cotó. O jacaré-tinga é também conhecido como jacaré-de-óculos. Olho vivo na democracia.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Lembranças ao Mickey Mouse



Pedro Lucas Lindoso


Ao chegar de férias, encontrei-me com meu colega e amigo Chaguinhas. Estive nos Estados Unidos. Meu amigo é meio antiamericano. Sempre estudou francês. Quando viaja, vai preferencialmente para a Europa. Não toma Coca-Cola. Não porque faz mal à saúde. Mas, segundo Chaguinhas, a Coca-Cola é o símbolo máximo do imperialismo. Bobagens do Chaguinhas. Eu fiz intercâmbio na juventude e sinto-me em casa na terra do Tio Sam.
Em entrevista que rola na rede, Ariano Suassuna ressalta a quase “obrigatoriedade” da classe média brasileira em visitar o Disney World. Um rico anfitrião e sua família ficaram abismados pelo fato de Suassuna não conhecer o Disney World. O inesquecível escritor questiona o fato do mundo ser divido entre as pessoas que foram à Disney e as que ainda não foram.
Chaguinhas comentou que seus filhos, quando crianças, perguntavam-lhe:
– Quando vamos à Disney? Ele sempre dizia:
– Um dia, todos vamos para lá!
Imagine que quase todos os colegas da sala foram à Disney. E a pergunta persistia:
– Quando vamos à Disney? Invariavelmente, Chaguinhas respondia:
– Um dia, todos vamos para lá!

Quando seu pai faleceu, o seu filho mais novo, de cinco anos, questionou:
– Para onde o vovô foi? E Chaguinhas respondeu:
– Um dia, todos vamos para lá!
– O vovô foi para a Disney? Perguntou o garotinho. Risada geral, relatou-me o meu amigo e colega.
Disse ao Chaguinhas que tinha ido à Disney levar a minha netinha Maria Luísa. Comentei que nos Estados Unidos as ruas não têm buracos, as calçadas são largas, planas e bem feitas.
– Não acredito. Isso existe? Pergunta Chaguinhas. Encantado com a possibilidade de andar em ruas largas, planas, sem nenhum buraco e com calçadas bem pavimentadas, Chaguinhas me disse que levaria os filhos e netos à Disney no carnaval.
Dê lembranças ao Mickey Mouse, meu amigo Chaguinhas. Afinal, este ano Mickey Mouse completa 90 anos de idade.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Não se furtam mais gravadores



Pedro Lucas Lindoso


Alguns jovens de hoje não sabem o que é uma fita cassete. O cassete era constituído de dois carretéis e uma fita magnética alojados em uma caixinha de plástico. De fácil manuseio, o que permitia que a fita fosse colocada ou retirada em qualquer ponto da gravação sem a necessidade de ser rebobinada.
A fita cassete possibilitou a gravação e reprodução de músicas por gravadores de áudio portáteis. Os jovens da época produziam as suas fitas, gravando músicas selecionadas especialmente para os amigos e principalmente para as namoradas.
Hoje existe o Spotify, que é o serviço de streaming de música mais popular e usado no mundo. Saudosismos a parte, não é a mesma coisa. Legal mesmo era gravar fitas cassete. Uma coisa é baixar músicas pelo Spotify e assim ter suas playlists favoritas. Outra coisa é ter o trabalho de fazer e gravar sua própria playlist, como nos anos setenta. Grava-se música por música. Escolhendo-as cuidadosamente. Regravando-as. Pedindo discos emprestados, comprando outros, quando a grana dava.  Usar o Spotify, definitivamente, não é a mesma curtição que gravar uma fita cassete.
Colocar um fone de ouvido no celular e sair por aí curtindo músicas no Spotify jamais será a mesma curtição de quem usou e sabe o que é um walkman.
A invenção do walkman, no final dos anos setenta foi uma revolução. O walkman era um reprodutor de cassete supercompacto e de bolso, com possantes fones de ouvido. Foi inventado pela Sony e tornou-se objeto de desejo de toda uma geração.
O meu primeiro e único walkman foi comprado numa viagem aos Estados Unidos. Curti muito a geringonça. Foi furtado dentro de uma sala de aula da UnB. Mas como já tinha meu carrinho, curtia minhas fitas cassetes no gravador instalado no meu fusca. Era preciso retirar o gravador toda vez que se estacionava. Senão roubavam.
Os tempos mudam, a tecnologia avança. Mas sempre tem os amigos do alheio, que furtam as coisas dos outros sem dó nem piedade.
Gravadores de carro e walkmans eram furtados como se furta celular hoje em dia.
Mas como diz o poeta, meu tempo é hoje. Vou ali curtir minha nova playlist no Spotify, com cuidado para não levarem meu novo celular.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Entregadores de pizza, cuidado!



Pedro Lucas Lindoso


Revogou-se o Estatuto do Desarmamento. Se certo ou errado não sei. Não sou especialista em Direito Penal. Pouco entendo de Sociologia do Crime. Não tenho armas. Não critico quem as têm. Cada um sabe de si. Todos têm medo. Há muita violência no país, onde ainda há muita fome e desigualdades.
Liberou-se a posse de armas. Nos Estados Unidos, a posse de armas em casa ou no carro é totalmente liberada. Em alguns estados americanos há restrições. Mas a posse está garantida constitucionalmente.  E lá não se toca na constituição facilmente. A Segunda Emenda, ainda no ano de 1791, da Constituição Americana, diz: “sendo necessária para a segurança de um Estado livre uma milícia bem regulada, o direito de as pessoas manterem e portarem armas não deve ser violado”.
Todavia, no outono de minha vida estou mais afeito à Literatura do que ao Direito. O maior poeta brasileiro do século 20, Carlos Drummond de Andrade, escreveu um significativo poema chamado “A morte do leiteiro”. Tomei a ousadia de resumir a obra de Drummond, cortando algumas partes, juntando as estrofes assim:
“Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. (...) E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir. Mas este entrou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. (...) O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber. (...) Mas o homem perdeu o sono de todo, e foge pra rua. Meu Deus, matei um inocente. (...) Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue… não sei. (...) Formando um terceiro tom a que chamamos aurora.”
Não há leiteiros distribuindo garrafas de leite puro e cru nas madrugadas no século 21. Compra-se leite em pó. Ou industrializados e pasteurizados vendidos em recipientes com conservantes para durar semanas. Leiteiros estão fora de perigo. Então o poema de Drummond estaria totalmente anacrônico?
Acho que não. Preocupam-me os entregadores de pizza.
Devido à facilidade e comodidade, muitos brasileiros preferem pedir pizza em casa. Inclusive de madrugada. Os serviços de entrega de pizzas cresceram nos últimos anos. Faturando bilhões.  Há moços correndo, distribuindo pizza boa para gente ruim. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir. 
Os tiros na madrugada que liquidaram o leiteiro de Carlos Drummond podem acertar no entregador de pizza. Entregadores de pizza, cuidado!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

ASSEAM, 24 anos: palestra e lançamento


Nosso colaborador Pedro Lucas Lindoso lança coletânea de crônicas, já publicadas no blog,
tendo como protagonista a impagável Tia Idalina.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Desculpe aí, patroa!



Pedro Lucas Lindoso


A Polícia Civil do Amazonas montou um esquadrão antigatos. Não é para exterminar os gatos de rua da cidade. Aliás, são muitos. Trata-se de combater preventivamente o furto de energia elétrica em Manaus. Há furtos principalmente porque aqui a energia elétrica é muito cara.
O fato é que a concessionária de energia perdeu mais de 300 milhões de reais com furtos de energia, os famosos “gatos”. Resolveu reforçar a fiscalização, com ajuda da Polícia. Grande parte da população de alguns bairros vai responder criminalmente por furto de energia elétrica. Será?
Há alguns anos, quando a concessionária era pública, houve programa de doação de geladeiras novas para parte da população que usa “gatos”. Geladeiras velhas consumiam o triplo de energia. A concessionária fez grande economia. Todos sabem quem usa “gatos”: o governo, a concessionária e a polícia.
Quando Elizabeth II visitou o Brasil em 1968, a segurança descobriu um “gato” na Embaixada Britânica no Rio de Janeiro. Malandro carioca furtava energia de sua majestade.
No tribunal, Dr. Chaguinhas, colega advogado, lamentava-se porque perdeu um bom partido. O seu melhor partido. Advocacia de partido consiste em prestar assessoria, geralmente à pessoa jurídica, mediante o pagamento de um valor fixo mensal. Teve rescindido o contrato com um banco. Alertou a família da necessidade de apertar o cinto.
Vamos diminuir a conta de energia da casa, decretou. Sendo um sujeito ético e honesto, não pensou em fazer “gato’”. Pediu aos familiares que não usassem ar-condicionado durante o dia. Banhos rápidos e de água fria se possível, bem como outras medidas que promovessem a economia de energia.
A diarista também foi solicitada a evitar ligar o ar. Ao chegar a casa, a mulher de Chaguinhas notou que as janelas e portas estavam fechadas, bem como as cortinas. E o ar ligado em todos os compartimentos. A casa parecia o polo norte. A diarista, sozinha, limpava a casa e cantarolava alegremente.
A mulher de Chaguinhas conversou com a moça, explicando-lhe novamente que era preciso economizar energia, até mesmo para preservar o seu emprego.
A moça alegou que na casa dela usa o ar-condicionado o tempo todo. Porque lá é “gato”. De repente, “caiu a ficha”. E comentou:
– Nossa! Esqueci que a senhora paga energia! Desculpe aí, patroa!

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A diferença é o vatapá



Pedro Lucas Lindoso


O jovem advogado Rodrigo Pinheiro foi escalado para uma reunião de trabalho em Salvador. Foi sua primeira viagem à Bahia. Teria sido uma viagem maravilhosa se não fossem alguns percalços.
A Bahia fica no oriente do Brasil enquanto o Amazonas na parte bem ocidental do país. Deve ser aí a origem da expressão “se oriente”. De fato o Brasil importante fica no leste, no sudeste. O Amazonas só fica perto da Bahia na ordem alfabética: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas e depois Bahia!
Dr. Rodrigo estava sendo esperado para a tal reunião marcada de última hora para o dia 20 de dezembro. Logo na semana do Natal. Sair de Manaus nessa época é um problema. Sabe-se que a saída única, pelo menos a mais viável, é o aeroporto.
Passagem comprada e confirmada para as 14h50min do dia 19 de dezembro, véspera da reunião. Hotel reservado e também confirmado. Tudo parecia perfeito. Dr. Rodrigo estava bastante animado ante a perspectiva de conhecer a boa terra. Finalmente saber o que é que a baiana tem. Afinal a baiana Kamélia, que aparece por aqui no Carnaval, é só uma boneca, literalmente.
Infelizmente, Rodrigo enfrentou um severo engarrafamento na conhecida Av. Torquato Tapajós, que dá acesso ao aeroporto de Manaus. Atrasou-se. Perdeu a viagem. A opção de voo dada ao jovem causídico foi: saída de Manaus a partir das 03h25min, já na madrugada do dia 20. Temos aí um atraso de mais de 12 horas. Com escalas e conexões em Belém, São Luís, Fortaleza e Recife. Rodrigo só chegou à Bahia no final da manhã daquele dia. A reunião estava a pleno vapor. Foi aplaudido de pé. O grupo de WhatsApp acompanhava o périplo de Rodrigo. Entre espanto e admiração só restou aos colegas advogados o aplauso e a necessária empatia.
César Augusto, advogado baiano que mora em Manaus, em férias em Salvador, convidou Rodrigo para comer um peixe. Amazonense é acostumado com cadeirada, peixe frito, assado ou à escabeche. A moqueca era algo a ser testado.
Tudo parecia novidade para Rodrigo. A farofa de farinha fininha, a moqueca em si. Mas havia vatapá. Comida muito popular para o amazonense. Rodrigo esbaldou-se. Quente na Bahia significa apimentado. E foi assim que ele provou o vatapá baiano. Bem quente.
Na volta para Manaus precisou tomar um sal de frutas. O famoso Eno.  É porque o vatapá da Bahia é diferente do nosso, concluiu. Leva amendoim, castanha e gengibre. É verdade. A diferença entre o Amazonas e a Bahia é o vatapá. E viva a Bahia. Axé.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Claudinha na constelação da saudade



Pedro Lucas Lindoso


No início deste mês a família perdeu Claudinha, aos 63 anos de idade. Ela era especial. Em todos os sentidos. Dizem que os portadores da síndrome de Down geralmente não têm uma vida muito longa. Claudinha sempre foi jovem. Era extremamente alegre e gostava de dançar. Muito querida pelos irmãos, tios e primos.
Nasceu numa época em que as pessoas especiais como ela eram chamadas de... É difícil falar. E mais ainda escrever. Não se trata de ser politicamente correto. A palavra é inadequada, pejorativa e agressiva. Remete a um país da Ásia em que as pessoas naturalmente têm os olhinhos puxados.
A síndrome de Down é a ocorrência genética mais comum que existe. Independentemente de raça, país, religião ou condição econômica da família. As pessoas com a síndrome têm 47 cromossomos em suas células em vez de 46, como a maior parte da população.
Quando Claudinha nasceu, em meados da década de 1950, pouco se sabia sobre a síndrome. Em 1959 quando foi descoberta a causa genética da doença, ela já era uma garotinha de quatro anos.
Sabemos que os Down são capazes de sentir, amar, aprender, se divertir e trabalhar. Claudinha fez tudo isso. Só não precisou trabalhar.
Desde novinha mereceu a atenção e os cuidados que necessitava. Foi levada aos melhores especialistas no Rio de Janeiro. Era a mais velha dos irmãos. Todos sempre muito carinhosos e atenciosos com ela. Francisquinha, sua dedicada mãezinha, contou com ajuda de uma tia, dona Isolina. Espírito raro de altruísmo, Isó devotou-se integralmente a ensinar, amar e cuidar dessa garotinha tão alegre e feliz.
Lembro-me de Claudinha sempre rindo e dançando. A palavra Down não combina com ela. Era uma pessoa sempre “up”, para cima. Meu filho Fernando casou-se com Bruna em Búzios. Devido à logística complicada, alguns familiares de Brasília e Manaus não compareceram. Mas Claudinha foi ao casamento. Dançou bastante. Alguém me perguntou:
– Quem é aquela senhorinha tão alegre e tão simpática?
Eu, pai do noivo, disse que era minha prima Claudinha. Filha de um tio muito querido chamado Antônio Lindoso. Claudinha se foi na semana em que seu pai já falecido aniversariava. Mais uma estrelinha nessa constelação que carregamos chamada saudade.



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Caneta Bic é fungível ou infungível?



Pedro Lucas Lindoso


Coisas ou bens infungíveis são os que não podem ser substituídos por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. São coisas insubstituíveis em face de suas qualidades individuais.
Já os bens fungíveis são, ao contrário dos infungíveis, os que podem ser substituídos por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. Qualquer estudante de Direito tem que saber a diferença. Ou então será reprovado em Direito Civil.
Obviamente que ao se saber o que é fungível (nada mais fungível que o dinheiro), se aprende o que é infungível. Empresto a alguém cem reais. A pessoa me devolve os cem reais. Jamais será a mesma nota, obviamente. Eu peço emprestado do meu vizinho um quilo de feijão preto da marca X, para a feijoada de domingo. Devolvo um quilo do mesmo feijão preto da marca X. Estou quite com o meu vizinho.
Já um rico marchand que resolver emprestar um quadro de Portinari ou escultura de Brecheret do seu acervo a alguém ou museu terá que ter de volta o mesmíssimo quadro e a mesmíssima escultura.
Um colega de trabalho emprestou-me uma caneta Bic. Inadvertidamente levei-a para casa, onde ficou esquecida. No dia seguinte, adquiri meia dúzia de canetas Bic.  Devolvi ao colega uma delas. Não houve problemas. As canetas Bic são bens perfeitamente fungíveis.
Um amigo que trabalha no Senado Federal me contou que Ulisses Guimarães assinou a Constituição Federal de 1988 com uma caneta Bic. Não se sabe o destino da caneta. Um objeto que se tornou totalmente infungível. Afinal chancelou a nossa Constituição Federal! É única.
O presidente Bolsonaro usou uma Bic para assinar o termo de posse. Boa pergunta para uma prova de Direito Civil. Afinal, uma caneta Bic é fungível ou infungível?
As canetas Bic são fabricadas no PIM – Polo Industrial de Manaus, desde os anos 1970. A Bic Amazônia está há mais de 43 anos na cidade. São produzidos por dia em Manaus milhões de produtos Bic. Além das famosas canetas esferográficas e lápis, produz isqueiros e barbeadores, dentre outros.
Terezinha, que trabalha lá há décadas, guarda num estojo prateado a caneta Bic que assinou os papéis de seu casamento. É uma Bic tão infungível quando a de Ulisses Guimarães e Bolsonaro.
Fungíveis ou infungíveis as canetas Bic são “Made in Manaus”. Amazonenses da gema. É o Amazonas sempre presente nas grandes celebrações nacionais.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Marca valiosa não se muda



Pedro Lucas Lindoso


O Jornal do Commercio comemora 115 anos de existência. Em nome de sua tradição centenária, continua mantendo a marca JORNAL DO COMMERCIO, com m dobrado. E deve manter essa saudável tradição. Por tratar-se de marca, tem valor econômico expressivo.  O jornal de maior circulação da capital federal, o CORREIO BRAZILIENSE, é grafado com z. Também é uma marca, criada em Londres, em 1808, por Hipólito José da Costa.
Até o início do século 20, quando o Jornal do Commercio foi fundado (em janeiro de 1904), tanto no Brasil como em Portugal a escrita obedecia com radicalidade à raiz latina ou grega das palavras.
O JC já circulava na ainda próspera Manaus de 1907 quando a Academia Brasileira de Letras começa a simplificar a escrita nas suas publicações. Somente em 1924, quando o Brasil já havia comemorado 100 anos de independência, a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras começam a procurar uma grafia comum. Todavia somente em 1931 é aprovado o primeiro Acordo Ortográfico entre o Brasil e Portugal, que visa suprimir as diferenças, unificar e simplificar a língua portuguesa. Contudo só entrou em vigor em 1940 em Portugal e em 1943 no Brasil.
Por esse acordo foi permitida a conservação, para ressalva de direitos, da grafia dos nomes próprios adotada pelos seus possuidores. Assim como da grafia original de firmas comerciais, sociedades, marcas e títulos. Portanto, o Jornal do Commercio tem o legítimo direito de ser grafado Commercio e não Comércio.
Ainda em 1931, quando o Brasil se chamava oficialmente de República dos Estados Unidos do Brasil, e Getúlio Vargas mandava e desmandava por decreto, instituiu-se o de nº 20.108, de 22 de julho de 1931. O decreto dispunha que a grafia usualmente dubitativa de algumas palavras, dentre elas Brasil, seria grafada Brasil e não Brazil (inciso XVI, alínea “a”).
Também pelo mesmo Decreto nº 20.108/1931, Manaus deixou de ser Manáos. A lei mandava grafar “- Com ai, au, eu, iu e oi os ditongos que alguns escrevem com ae, ao, eo, io, oe: pai, pau, céu, viu, herói”. Páo brazil, virou pau brasil. Náo virou nau e Manáos virou Manaus.
Houve outras reformas ortográficas. No início dos anos de 1970 e a mais recente em 2009, com vigência definitiva em 2012.  Mas o Jornal do Commercio conservou-se escrito assim. Marca valiosa não se muda.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Para declamar no Natal


                                                                         Pedro Lucas Lindoso


Poemas são feitos para ser declamados e não simplesmente lidos. Ou seja, para recitar em voz alta, com os gestos e entonações apropriadas. Com técnica e conhecimento específico. Minha tia avó, Helmosa Fadoul, encantava a sociedade amazonense declamando versos. Isso, na primeira metade do século passado. Nos saraus, os declamadores ou declamadoras eram tão prestigiados e tão importantes quanto o pianista. E eram reconhecidos como tal. Dona Helmosa era citada como a melhor declamadora da cidade.
Mas ainda há declamadoras de escol. Nossa amiga Ana Maria Xavier declama com perfeição um dos poemas mais conhecidos entre os verdadeiros amazonenses: “Encontro das Águas”, de Quintino Cunha. E faz questão de usar vestido alusivo ao fenomenal encontro desses dois rios tão fundamentais para o Amazonas: rio Negro e rio Solimões.
Solange Bandeira me pede uma saudação de Natal. Encontro um poema de Luís Alves Pinto. Preciso de uma declamadora. Peço a Ana Maria Xavier que o recite, com sua técnica de excelente declamadora. Eis o poema:

Nasceu o Rei dos Reis
Quando a estrela de Belém brilhou no céu
Sua luz fez o anuncio e
Avisou aos três reis magos
Que o maior dos Reis nasceu
Seguiram sua luz até uma manjedoura
E lhe ofereceram os presentes
A mirra para curar as feridas dos homens
O incenso para trazer a mística e a fé em Deus
O ouro contido na Salvação do espírito
Neste natal deixe que o Menino Jesus
Despeje sobre você e sua família sua bendita Luz
Cure as feridas, desperte a fé em Deus
E o leve à Salvação Divina! Que assim seja!

Luís Alves Pinto foi poeta brasileiro nascido em Recife, no século 18. É pouco conhecido. Compôs vários sonetos e poemas. Versos que não podem ser simplesmente lidos e sim declamados. Um poema perfeito para declamar no Natal.



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Objetos de desejo



Pedro Lucas Lindoso


Recentemente comemoramos o aniversário de 90 anos de nosso companheiro Parimé Pinto. Foi uma alegre festa no restaurante Axerito. Parimé é ex-governador distrital do Rotary e tem se dedicado a produzir textos sobre sua longa experiência como rotariano.
Parimé não usa computador. Seus textos são datilografados. Com o tempo, a sua heroica máquina, de mais de 40 anos de uso, precisou ser substituída. Como não se as fabricam mais, Parimé usou os classificados de jornal (também com os dias contados) para manifestar seu interesse em adquirir uma máquina de datilografia em bom estado de conservação. E conseguiu.
Uma bem conservada Olivetti foi adquirida recentemente por Parimé. Ele só vê vantagens. Não precisa de impressora. Os textos datilografados já saem “impressos”. E mais. Como usa fita bicolor (preto e vermelho) pode realçar os textos com a cor vermelha. Coisa que o computador não faz, segundo Parimé. As fitas também são uma raridade. Ele as compra numa loja especializada no centro. E nos mostra orgulhoso seus textos datilografados com afinco.
Tia Idalina me telefona do Rio de Janeiro pedindo para que eu compre um 3-em-1 National Panasonic na Zona Franca. O 3-em-1 é um aparelho de som que possui rádio AM e FM estéreo, toca-discos e gravador cassete ou tape deck, montados num único gabinete, e um par de caixas acústicas separadas.
Como a máquina de datilografar do companheiro Parimé, não se fabricam mais 3-em-1. E também não há importadoras no centro de Manaus, como antigamente. Tia Idalina me disse que seu 3-em-1 National Panasonic comprado no Centro de Manaus nos anos 1970 não funciona mais.
Disse-lhe que o jeito é procurar na internet, no Mercado Livre ou no OLX. Ou fazer como o companheiro Parimé. Usar os classificados de jornal.
Tenho uma antiga secretária eletrônica. Também da Panasonic. Com minifita K7. Anos oitenta. Não passa de um pequeno gravador que atende as ligações e grava recados. Só serve para telefone fixo.  É o que os americanos chamavam de “telephone answering machine”.
Nem Parimé nem tia Idalina querem a tal secretária eletrônica. Alguém interessado em comprar essa geringonça?


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

No meio do pitiú



Pedro Lucas Lindoso


Um dos problemas de segurança da aviação aérea na Amazônia são os urubus.
Uma grande empresa mineradora contrata parte de sua força de trabalho numa cidade do interior do Amazonas. Há necessidade de transportá-los para a área de extração, no meio da floresta. O aeroporto da cidade fica próximo de um lixão. Portanto, uma grande quantidade de urubus na área.
Houve necessidade de se fechar temporariamente o aeroporto. Tal fato prejudicou o transporte e a efetiva contratação dos empregados daquela cidade.
Com o fechamento do aeroporto e a consequente dispensa de vários trabalhadores, o Ministério Público do Trabalho foi acionado.
A polêmica foi instaurada. De um lado os interessados queriam exterminar os urubus para garantir os empregos e a integridade dos trabalhadores. De outra banda, os ambientalistas ressaltavam a importância dos urubus na natureza.
O pessoal dos órgãos ambientais alega que os urubus contribuem para a manutenção e limpeza do meio-ambiente. Eles ajudam na prevenção da propagação de doenças, evitando putrefações. Consequentemente, se evitam doenças aos seres vivos.
Aqui em Manaus, o Cindacta contrata um fogueteiro para espantar os urubus nas proximidades do Aeroporto Eduardo Gomes. Não há lixão por lá. Acontece que na encruzilhada da estrada do aeroporto com a Avenida do Turismo, frequentemente são feitas oferendas religiosas envolvendo animais. Daí a concentração deles!
Os paraenses foram mais práticos e inteligentes. A grande concentração de urubus em Belém é na região do mercado Ver-o-Peso. Que fica muito distante do aeroporto.
Os urubus fazem a festa e o local é muito disputado. Um urubuzinho novo estava com dificuldade de se alimentar quando um urubu tiozão velho e sábio o interceptou. Deu o seguinte conselho ao urubuzinho:
– Vamos para a Ilha do Marajó. Lá é mais tranquilo. Não há tanta disputa como aqui no Ver-o-Peso.
O urubuzinho seguiu o mais velho até o Marajó. Mas voltou para o Ver-o-Peso no dia seguinte. Ao ser questionado pelo urubu tiozão, respondeu:
– Gosto mais daqui. É mais divertido aqui nessa mixórdia. Eu gosto de ficar por aqui. No meio do pitiú!