Amigos do Fingidor

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Ignorância mata



Pedro Lucas Lindoso


Durante esse confinamento que parece não ter fim, converso com meu amigo Chaguinhas, via WhatsApp, sobre vários assuntos, inclusive a pandemia.
Chaguinhas se diz abismado com algumas atitudes deploráveis perpetradas por algumas pessoas durante a pandemia. E reafirma que está, a cada dia que passa, mais desiludido com o ser humano. Considera que a humanidade não tem jeito. Nem uma pandemia dessas conserta as pessoas. Ao contrário, a pandemia expõe a todos nós a sordidez dos homens. A incúria total das pessoas. A total imprevidência, negligência, ausência de inciativa plausível de governos e autoridades. 
Uma médica de São Paulo foi interditada pelo Conselho de Medicina devido a divulgação de um soro anticoronavírus vendido em seu consultório. Outra médica, famosa dermatologista, repita-se dermatologista, houve por bem receitar hidrocloroquina como profilaxia para toda a equipe de sua clínica. Diz ela que é uma forma de prevenção ao COVID-19.
Viralizou um depoimento de uma senhora aloprada que confundia COVID-19, a doença, com o coronavírus, o vírus que causa a COVID-19. Uma aula de insanidade e desconhecimento. Uma loucura!
Em meio a tanta insanidade foram convocados epidemiologistas, médicos, sociólogos, filósofos, intelectuais e cientistas em geral, para se pronunciarem sobre a epidemia. E pronunciamento é o que não falta nas redes sociais.
Chaguinhas diz que, como bom amazônida, tem respeito pelos conhecimentos tradicionais dos povos da floresta.  Foi aconselhado a tomar mastruz para os pulmões. Chá de gengibre ou mangarataia, casca de panacanaúba, além de casca de quina. Tudo como profilaxia para o terrível vírus.
Por que não damos créditos naquilo que nós ouvimos dos povos tradicionais?  Há uma memória biocultural importante que deve ser respeitada. Um conjunto de saberes, de práticas, que eventualmente adquirem significados aos mesmos cientistas, médicos e pesquisadores de prestígio. Mesmo porque a memória biocultural é fonte de pesquisa aos cientistas do mundo inteiro.
O que é lamentável é o desconhecimento formal e escolar do caboclo leso. Ao receber o resultado do teste para coronavírus como positivo, achou que estava tudo bem. Tudo ok. Tudo positivo. E feliz da vida descuidou de qualquer tratamento.
Ignorância mata, concluiu Chaguinhas.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Eu não esqueci



Pedro Lucas Lindoso


Um americano de cor branca ajoelhou-se no pescoço de George Floyd, outro americano, de cor preta. O branco sufocou o preto, matando-o. Milhares de pessoas da raça humana, a qual ambos pertencem, se indignaram e promoveram protestos em todos os cantos do planeta Terra. Não era sem tempo. Muitas minorias são diariamente sufocadas mundo afora. E precisamos dar um basta nisso.  
Aprendi com meu pai que devemos respeitar os seres humanos, independentemente da cor, do gênero, da opção sexual, da religião, da ocupação, da altura ou do peso. Não gosto da expressão “politicamente correto”. As pessoas têm a obrigação de ser humanamente corretas. Em todos os sentidos. Meu pai desaconselhava o uso de palavras como denegrir ou judiar. Eram ofensivas aos negros e aos judeus.
Meu tio padre Moisés me disse que discriminação de pessoas é pecado e transgressão à Lei de Deus. Está nas Escrituras. O pai deles, meu avô, teve um primo que se casou com uma negra. Eles todos de cor branca tiveram uma prima, de cor preta, chamada Eunice.
Os filhos de Eunice, meus primos, são considerados pretos ou pardos. João é considerado preto. Ouço depoimentos de vários pretos na TV e nas redes sociais. São relatos abomináveis sobre eventos em que foram vítimas de crime de racismo. O João não pode se pronunciar porque está doente e esquecido. Então, eu, seu primo de cor branca, vou relatar um fato, vivido por nós dois, em seu lugar.
Tínhamos por volta de 13 anos de idade e morávamos em Brasília. João e sua mãe estavam em nossa casa. Após o almoço, João e eu jogávamos futebol de botão enquanto sua mãe conversava com a minha. Fui solicitado a pagar uma conta de telefone numa agência bancária perto de casa. Convidei João para ir comigo.
Eu entrei no banco sem problemas. João ficou do lado de fora. Eu estava de calção e camiseta. João estava vestindo calça comprida e camisa. A princípio não entendi o que acontecia. Na saída da agência perguntei:
– O que houve João? E ele respondeu:
– Tu não vês que eu sou neguinho. O segurança me barrou.
Quis retornar e tomar satisfação com o guarda. Mas João não deixou. Pediu para que eu esquecesse. Há cinquenta anos atrás era assim mesmo. Ninguém protestava. João anda esquecido. Disso e de outras discriminações pelo qual passou e nunca me disse. João anda mesmo esquecido. De tudo.
Mas eu não esqueci. 



terça-feira, 9 de junho de 2020

A primavera chinesa de Miss Manga



Pedro Lucas Lindoso


Conheci Miss Manga ainda garotinha. Desde a mais tenra idade desenhava. E muito bem. Gostava de fazer estampas e roupas para suas bonecas. Foi companheira de minha filha Marina. São amigas até hoje. Compravam e produziam roupas para bonecas Barbie. 
Miss Manga acertadamente fez universidade de Designer de Produtos e Gráfico. É pós-graduada. Tornou-se profissional estilista de uma grande empresa. A sua primeira empregadora custeou experiências e treinamentos em grandes centros como Los Angeles e Nova Iorque. Havia sido contratada como etilista do segmento masculino. Contudo, Miss Manga desejava novos desafios, principalmente atuar na área de moda feminina.
 De repente, por meio de contatos via internet, foi fisgada por uma “head hunter”, para trabalhar numa grande multinacional europeia de moda. A oferta consistia em bom salário, seguro saúde e moradia, bem como duas passagens para o Brasil por ano.
Era setembro de 2019 e o posto oferecido a Miss Manga foi em Pequim, na longínqua e misteriosa China. Está explicado o motivo de uma jovem profissional brasileira, filha de amazonense com carioca, estar nesse momento de pandemia, trabalhando na China, onde tudo começou.
Sabe-se que nos dias de hoje a comunicação é relativamente fácil, mesmo que a pessoa esteja nos polos, na Europa ou no Oriente. Mas a China tem suas peculiaridades. Lá não pega Google, nem gmail. Quanto ao conhecido e festejado WhatsApp, os chineses têm o seu exclusivo WE CHAT. Para ter acesso a esses aplicativos, os ocidentais devem baixar um tal de VPN, assim que adentram no espaço aéreo da China.
 Miss Manga estava de férias em Bangkok, na Tailândia, quando a epidemia começou. Os chineses comemoravam o Ano Novo quando o vírus se alastrou. É um feriadão tão importante quanto o nosso Natal e Ano Novo. O ano chinês é lunar. Portanto, com data móvel. Sempre em janeiro ou fevereiro.  Foi uma pena o vírus surgir nessa época.
Há semanas que Miss Manga retornou a Pequim e trabalha normalmente. Por lá, nem parece que morreu tanta gente. O isolamento está liberado. Miss Manga passeia de bicicleta, normalmente pela cidade. Mora num bom apartamento em bairro onde residem muitos ocidentais.  A língua de trabalho é o Inglês.  Miss Manga faz aulas regulares de mandarim, pagas pela empresa. Seu último WE CHAT (WhatsApp chinês) dizia:
– Estou bem. Estou na China! Pequim fica linda na primavera!

terça-feira, 2 de junho de 2020

Os sudestinos



Pedro Lucas Lindoso


Eu particularmente adoro a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Mas há alguns cariocas imbuídos de um bairrismo exagerado. Acham que o Brasil é o Rio. Ou então que se restringe ao sudeste. Referem-se ao eixo Rio-São Paulo como o coração pulsante do país. O dicionário nos ensina que eixo é uma linha imaginária ou concreta capaz de atravessar o centro de um corpo, possibilitando que algo gire ao seu redor. Só que Rio e São Paulo não ficam no centro do Brasil. Tudo bem, eixo também pode ser uma união imaginária que vai de um ponto a outro: eixo Rio-São Paulo. Mas o Brasil não gira somente ao redor desse eixo.
Desde o Tratado de Tordesilhas, passando pelas capitanias hereditárias, o Brasil foi “dividido” administrativamente de diversas maneiras. Aqui, fomos a colônia do Maranhão e Grão-Pará, apartada do Brasil.
 No meu curso primário estudei que o Brasil tinha as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Leste e Sul. Quando já cursava o ginásio, foi criada a região Sudeste, composta pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo agrupados a Minas Gerais e Espírito Santo. O Nordeste recebeu Bahia e Sergipe. Todo o território de Goiás, ainda não dividido, pertencia ao Centro-Oeste. Criou-se o Tocantins, agrupando-o na região Norte. Mato Grosso também foi dividido, dando origem ao estado de Mato Grosso do Sul.
Os baianos, mineiros, capixabas e cariocas habitavam o leste do Brasil. Os baianos viraram nordestinos. Os outros juntaram-se a São Paulo e tornaram-se sudestinos? Fui ao dicionário e fiquei sem resultados para “sudestinos”.
Mas e o professor Google? Fui lá. Descobri que existe o Wikcionário. E lá estava o que procurava. Sudestino. Significa natural de região conhecida por sudeste ou natural da Região Sudeste do Brasil. Fiquei feliz em ver que o mesmo Wikcionário contempla a palavra centro-oestino. E claro, a fortiori, nortista, nordestino e sulista.
Nós, os nortistas, preferimos ser amazônidas. Mesmo porque os sudestinos e sulistas costumam confundir e chamar os nossos irmãos nordestinos de nortistas. Ou então usar de metonímia. Tomam um estado do Nordeste pelo todo. O carioca chama os nordestinos em geral de paraíbas, enquanto os paulistas os chamam de baianos. De forma pejorativa. Ou então se referem ao norte e nordeste do Brasil como o fim do mundo. Com governadores e prefeitos do fim do mundo.
O coronavírus se espalhou por todo o Brasil. Não poupou nenhuma região. Espera-se que nossos irmãos sudestinos possam nos conhecer melhor. E que o Brasil comemore em 2022, sem tanta divisão e ufanismo barato, o bicentenário de nossa independência.

terça-feira, 26 de maio de 2020

A naninha de Maria Luísa



Pedro Lucas Lindoso


Nunca pensei que ficaria feliz em fazer aniversário na quarentena. Longe de todos os familiares. Sem possibilidade de receber abraços. Os presentes perdem muito sua importância quando atingimos certa idade. Claro que é gostoso recebê-los. Mas quando se anda (ou andava) pelos shoppings e se vê tanta coisa de que não necessitamos...
O fato é que acordei cedo no dia do meu aniversário. Percebi que a cantoria dos passarinhos e outros bichos que voam, bem como de galos que fazem barulho nas alvoradas, aumentou. Moro às margens do Igarapé do Mindu. Apesar de ser área bem urbana, há árvores que dão guarida a esses seres que mencionei.  Fazem algazarra ao amanhecer. E como disse, o barulho aumentou consideravelmente. Seria o silêncio imposto pela pandemia e o isolamento social? Ou será que a fauna e a flora, menos agredida ultimamente, se apresenta com mais efervescência? Esse é um dos lados bons da pandemia.
Minha família me presenteou com uma simpática e farta cesta delivery de café da manhã. Aliás, com um toque especial de queijos e vinhos a ser degustado pela noite. Gostei do presente.
Mas o melhor estava por vir. Temos visto nossa netinha através de sistema drive thru. Vamos vê-la de carro e mantemos a distância recomendada. Todos com as indefectíveis máscaras.
Minha netinha Maria Luísa adora aniversários. Tem sido convidada a participar de aniversários dos amiguinhos por vídeo.
 Minha nora relata que se emociona. As crianças trocam presentes virtuais. Buscam coisinhas delas mesmas e ofertam de faz de conta aos amiguinhos.
O meu aniversário, obedecendo às regras de distanciamento social, foi comemorado ao ar livre. E foi um sucesso. Teve bolo, brigadeiro e balão. Foi a festa da família Shark.  Tudo para deixar a Maria Luísa feliz.  E aí veio a emoção maior.
Maria Luísa achou importante dar presente para o vovô Shark. E me “emprestou” um dos seus bens mais valiosos. O que os psicólogos chamam de “objeto de transição”. O mais famoso é o do personagem Linus, da Turma do Charlie Brown. O da Maria Luísa é uma fraldinha, uma naninha. Requisitado quase sempre na hora do sono. O objeto de transição é bem comum na primeira infância e importante para o desenvolvimento emocional da criança.
Foi o que ela achou para me presentear. “Emprestado”, é claro. Assim, fiquei como fiel depositário do objeto mais precioso e infungível do mundo: a naninha da Maria Luísa.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Fiquem em casa. E ponto final.



Pedro Lucas Lindoso


Andava preocupado como tia Idalina estaria administrando sua vida em tempos de isolamento social completo. Ela é do grupo de risco. Fiquei satisfeito. Disse-me que se impôs uma rotina e está se saindo bem, dentro do possível. Explicou-me que começa o dia fazendo ginástica. Disse-me que adora aeróbica. E faz ginástica do método da Jane Fonda. Adquiriu os tapes na década de 1980 e os transformou recentemente em DVD.
– Sou vidrada na Jane Fonda. Ela e eu temos 70 anos, mas parecemos cinquentonas.
Tia Idalina insiste nisso de diminuir a idade. Uma pessoa que ouviu pelo rádio o fim da II Guerra Mundial, não pode ter menos do que 80 anos. Ela mesma conta:
– O conflito terminou na Europa com a invasão de Berlim por tropas soviéticas e a rendição dos alemães em 8 de maio de 1945. Mas só foi completamente encerrado em 15 de agosto, após a capitulação japonesa. Acompanhei tudo pelo rádio que transmitia a BBC diretamente de Londres. Era uma garotinha de 10 anos. Mas me lembro bem.
Pronto. Finalmente sabemos a idade de tia Idalina. No último 8 de maio, a Europa, em plena pandemia, comemorou os 75 anos do final da guerra. Deduz-se que titia está com 85 anos. Mas pratica aeróbica no método da Jane Fonda. Te mete com ela!
Além da aeróbica da Jane, titia matriculou-se em um curso de Inglês on-line. Fez opção por estudar francês quando estudante, mas sucumbiu a necessidade de falar Inglês, imediatamente.
 – Levei um tempo para saber que “password” era senha e que “chat” era bate-papo. Passei a maior vergonha esses dias. Achava que “lockdown” era nome de uma banda de rock Inglês. Quando soube que era fechamento geral das lojas, não tive outro jeito. Matriculei-me no Inglês virtual. Um curso especial para terceira idade. O professor é uma gracinha. Tenho aprendido muitas palavras. O inglês invadiu o Português. God save the Queen! Vou pedir para o professor me ensinar “The Star-Spangled Banner", "A Bandeira Estrelada”, que é o hino nacional dos Estados Unidos.
Finalmente perguntei se ela sabia o que era “hashtag”. Não sabia. Disse-lhe que era o sinal de jogo da velha que se vê na televisão, antes da expressão #FIQUE.EM.CASA.
– Conheço esse sinal em música. Em francês se chama “dièse’’. Mas quando quero ser enfática, não uso “dièse” ou “hashtag”. Digo logo:
– FIQUEM EM CASA. E PONTO FINAL.



terça-feira, 12 de maio de 2020

Saudade federal



Pedro Lucas Lindoso


Esta crônica é uma homenagem póstuma a ILZA GARCIA. As pessoas que tiveram a alegria e o privilégio de conviver com Ilza Garcia sabem o motivo do título desta crônica. Ela gostava de usar essa expressão: Federal! Todos conhecem o sentido de federal como relativo à federação. Mas há um outro sentido: algo intenso, fora do comum.  Ilza Garcia era assim: intensa e fora do comum. Ela era federal! Mãe da Gina. Ilza não foi só uma grande mãe. Foi esposa, irmã, amiga, companheira rotariana, madrinha, tia, administradora, trabalhadora, e muito mais! Uma pessoa de uma grandeza de alma e de uma personalidade intensa. Ou seja, federal!
Ilza Garcia era amiga de minha mãe, Amine Daou Lindoso, desde a adolescência. Desde novinho me ensinaram a chamá-la de tia. Ultimamente ela era o elo mais tangível que me ligava à memória de minha mãe. Cada abraço, cada expressão de carinho, era como se minha mãe nos observasse de onde quer que esteja no plano espiritual.
O nosso último contato pessoalmente foi dias antes dessa terrível pandemia. Missa de celebração pelo centenário de nascimento do tio Agobar Garcia. Seu amado esposo. Cuidou do tio Agobar com desvelo e fidelidade até o dia em que Deus o chamou. Agora, devem estar namorando pelos jardins maravilhosos do Éden.
Aos 98 anos de idade, tia Ilza estava lúcida e caminhando com higidez e a elegância de sempre. Dois dias antes de ser hospitalizada, eu e minha esposa Vera falamos com ela por telefone. Ela estava bem. Vera tinha um respeito e um carinho especial por ela e também a chamava de tia.
  Tia Ilza foi ex-aluna salesiana. Falo com autoridade de filho, irmão e afilhado de mulheres que estudaram com as Irmãs Salesianas. São pessoas especiais. Tornam-se esposas, mães e profissionais diferenciadas. Neste mês de maio em que celebramos as mães, também celebramos a nossa Mãe do Céu. Nossa Senhora Auxiliadora receberá tia Ilza com todas as honras de filha. Ela que soube tão bem amá-la e cultuá-la como nossa mãe e Mãe do Cristo e Salvador do Mundo.
Ilza Garcia foi funcionária da Nestlé, presidente da APAE e participava ativamente da Casa da Amizade de senhoras rotarianas. Foi membro do Conselho da Mulher Executiva dentre as várias atividades na sociedade de nossa Manaus.   
Há alguns meses, disse a ela que havia me lembrado de um comercial da cerveja Skol que dizia: “Entrei no bar com uma sede federal".
Hoje nós que a conhecemos estamos todos com saudade. Uma saudade federal!



Sra. Ilza Garcia.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Festa adiada para 2022



Pedro Lucas Lindoso


O whatzapp e outras mídias fervilham nos nossos celulares com notícias, desabafos, comunicados e, infelizmente, muita “fake news”. Há tristes notícias de conhecidos e amigos infectados e dos falecimentos. Há outras notícias não tão tristes, mas que nos deixam também consternados.
Recebo mensagem de Brasília cancelando a festa de bodas de ouro de dona Maria Teresa e seu Jorge.  A festa seria no dia 30 de maio próximo. Um sábado. Dona Maria Teresa e seu Jorge se casaram dia 30 de maio de 1970. Coincidentemente era um sábado também. Véspera do início da Copa do Mundo de 1970. A copa em que o Brasil foi tricampeão.
Dona Teresa sempre conta que seu Jorge tirou férias de um mês por dois motivos: ia se casar e porque adora futebol. E conta em detalhes:
– Graças a Deus o Brasil só estrearia na quarta-feira, dia 3 de junho, contra a Tchecoslováquia. Ainda bem que o Brasil começou ganhando. Fez uma goleada de 4X1. Assim, minha lua de mel continuou bem animada.
Seu Jorge e dona Maria Teresa passaram a lua de mel em Águas de Lindóia. Eles retornaram a Brasília para o final da Copa. O Brasil ganhou da Itália fazendo outra goleada de 4x1. A final foi no dia 21 de junho de 1970, no famoso Estádio Azteca, na Cidade do México.
Todos os filhos, netos, amigos e conhecidos sabem desses detalhes. Seu Jorge e dona Teresa sempre fazem festa nas copas do mundo desde que se casaram. E ela sempre faz questão de relembrar a sua estória com esses simpáticos detalhes. Lá se vão 13 copas.
 A primeira vez que fomos a casa de seu Jorge e dona Teresa foi na copa de 1994. Essa eu me lembro bem. O Brasil ganhou da Itália na final. Foi em Pasadena nos Estados Unidos. O casal deu uma festança. Já era 17 de julho.
Neste 2020, mesmo porque não tem copa, a festa seria pela primeira vez, no dia certo em que eles se casaram. Até o dia da semana seria o mesmo.  30 de maio, sábado.  Sempre se comemorou no final das copas do mundo, que acontecem geralmente em junho e julho. Triste pandemia. Dona Maria Teresa e seu Jorge adiaram a festa para o final da copa de 2022, no Qatar. Todos devem vir vestidos de árabe. Espera-se que o Brasil seja campeão. E até lá a pandemia seja uma triste experiência já esquecida de todos. Dona Maria Teresa manda um recado:
– Cuidem-se. Fiquem em casa. Quero todos na minha festa em novembro e dezembro de 2022.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Ponto de exclamação!



Pedro Lucas Lindoso


Os sinais de pontuação são sinais gráficos empregados na língua escrita para tentar recuperar recursos específicos da língua falada, tais como: entonação, jogo de silêncio, pausas etc. Também servem para demarcar unidades e sinalizar os limites das estruturas sintáticas nos textos.
Ponto, dois pontos, interrogação, parêntesis, reticências, vírgula. Sim. A famosa vírgula. De todos os sinais de pontuação, a vírgula é aquele que desempenha o maior número de funções.
Mas o assunto não é a vírgula. Em tempo de coronavírus nunca se usou tanto o ponto de exclamação. A gramática nos ensina que devemos usar exclamação após vocativo, frases imperativas e após interjeição. O que é obrigatório em termos gramaticais. Também usamos exclamação após palavras ou frases de caráter emotivo ou expressivo. Aí já fica mais a critério de quem produz o texto.
Quando eu era estudante fazia-se redação. Hoje se faz produção de textos. Tive um professor de Língua Portuguesa que não gostava de exclamação. Tampouco de reticências. Era muito carrancudo! Como muitos professores de português.      
Um cronista não pode prescindir do ponto de exclamação! Numa época de pandemia! Com tantas mortes! Não podemos deixar de ser emotivos:
– Meu Deus! Até quando isso vai durar! Jesus! Os americanos de origem puritana não podem falar o nome de Jesus em vão. E se expressam assim: Gee!
Aqui em Manaus estão fazendo enterros coletivos em vala comum! Como dizer isso sem exclamação?! Devemos mais do que nunca FICAR EM CASA! Se a gramática diz que devemos usar exclamação após frases imperativas, essa tem sido fundamental:
– FIQUE EM CASA!!!
Lembrei-me de minha avó Brigitta Daou que sempre dizia: “Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz!” E meu tio Robert Daou: “Deixe de movimento.” Fique em casa!
Realmente, com essas notícias de contaminação e mortes de pessoas aqui em Manaus, só nos resta clamar e exclamar:
– Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Rogai por nós!



terça-feira, 21 de abril de 2020

Faz doces. Recomeça.



Pedro Lucas Lindoso


Conheci prima Zilá na casa do Chaguinhas. Perguntei a ele se era sua prima. Ele disse que era prima de seu pai. O velho só a chamava prima Zilá. O “prima” se incorporou ao nome. Uma diarista a chamava de dona Prima.
Zilá morou com os pais de Chaguinhas até a morte do velho Chagas e de sua esposa. Chaguinhas filho é muito grato a ela. Ajudou muito a sua mãe com o Alzheimer do velho.
Zilá é de uma família com dois irmãos e uma irmã. Todos casados. Zilá é bem mais nova do que os irmãos. Normalista, começou a dar aulas bem novinha. Formou-se em Língua Portuguesa. E aposentou-se cedo. No século passado as professoras se aposentavam com 25 anos de serviço.
Chaguinhas diz brincando que prima Zilá é solteirona VVC. (velha virgem curiosa). Ela morre de rir. Antes de cuidar dos seus tios, pais de Chaguinhas, cuidou dos seus próprios pais, até morrerem.
Os irmãos de prima Zilá curiosamente são casados com duas irmãs gêmeas idênticas. Diligentemente, enganaram prima Zilá e sua irmã com a divisão da herança.
Prima Zilá diz que uma das gêmeas é boa e a outra má. Como sempre confundiu as duas não sabe qual delas é a boa. E magoada com ambas, e com os respectivos, não quer saber deles. E explica:
– Nossa casa era grande. Meus pais tinham poupança e ações. O que me coube não deu para comprar uma quitinete.
Chaguinhas diz que ela não perturba. É generosa. Quase não fala. Passa as manhãs fazendo doces: brigadeiros, cajuzinhos e quindins. Vende tudo. Inspirou-se em Cora Coralina que disse: “Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”
Em época de coronavírus e para surpresa de Chaguinhas, prima Zilá está querendo comprar grande quantidade de dólares e euros. Com o advento da pandemia prima Zilá está preocupada. Disse que tem uma poupança e que o governo pode querer confiscar tudo. E trata-se de uma senhora poupança. Bastante polpuda. Mais de dois milhões de reais. Quase a quantia que Chaguinhas tinha em ações. Está no prejuízo. As ações não estão valendo nem a metade da metade. Soube que os irmãos e as gêmeas estão em situação bem pior.
Zilá está obedecendo à quarentena com radicalidade. Vai sobreviver ao corona com certeza. E vai em frente, citando Cora Coralina: “Na escola da vida o mestre é o tempo”.
Prima Zilá é antes de tudo precavida.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Ciclo da vida



Pedro Lucas Lindoso


Em época de quarentena liguei para minha querida tia Idalina. Estava preocupado em saber se estava se comportando. Ela me disse estar um pouco entediada. Mas o tédio havia sido quebrado ontem. Eis o seu relato:
– Imagine que ontem, na boquinha da noite, como se dizia antigamente, um casal que mora no apartamento vizinho, começou a brigar. Um horror. O rapaz dizia não aguentar mais as exigências e as manias da esposa. As crianças em casa choravam e gritavam. O marido ameaçava sair de casa. A esposa, às beiras da histeria, dizia que ia pular da janela. Tive que me meter. Afinal eles são muito simpáticos comigo.
Fiquei muito preocupado com o que poderia ter acontecido. Ademais, tia Idalina é do grupo de risco. Diz que só tem 70. Uma pessoa que foi ao funeral de Carmem Miranda, em agosto de 1955, não tem menos do que 80 anos.
Ela mesma me contou que Carmem Miranda faleceu em Los Angeles. Mas o corpo embalsamado foi trasladado para o Rio de Janeiro. Milhares de pessoas acompanharam o enterro. E ela estava lá. O ano era 1955, repita-se.
Mas voltando à confusão de ontem. Ela apertou a campainha do vizinho, pegou as duas crianças e levou para o apartamento dela. Um risco. Segundo o Ministério da Saúde, os velhinhos têm que ficar longe das crianças.
Mas Idalina desobedeceu às normas de quarentena. Acalmou as crianças. Os gritos continuaram por alguns instantes. Depois tudo silenciou. Um silêncio sepulcral. A essa altura as crianças estavam calmas, assistiam televisão e tomavam sorvete.
Idalina preparou uma canja para as duas garotinhas. Deu banho. Vestiu-as com umas roupinhas que alguém esquecera por lá. Não achou conveniente voltar ao apartamento dos pais. No que estava certa. Se uma coisa que Idalina não tem é leseira.
Lá pelas dez da noite, as garotinhas já dormiam no sofá quando os pais vieram buscá-las. Ela que conta:
– Os dois, com cara de paisagem, relaxados, pediram desculpas, pegaram as crianças e foram para casa.
No final dessa quarentena, daqui a nove meses, vai nascer muito menino por aí. É o ciclo da vida. Uns vão morrer outros vão nascer.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Cheia de 2020



Pedro Lucas Lindoso


Tempo. Tempo. Tempo. O dia tem 24 horas. O ano 365 dias. No hemisfério norte começou a primavera. No hemisfério sul, o outono.  Mas isso (as estações do ano) só é referência para quem mora nas zonas temperadas da terra.
Para nós, amazônidas, que vivemos na zona tropical, o que importa é o regime das águas. Na época da cheia, o tempo fica mais chuvoso. Fica “rainy” como se diz em Inglês. Aliás, há duas palavras para tempo no idioma de Shakespeare. “Time” e “weather”.
Quando eu digo que o tempo está passando devagar por causa do corona vírus, é o “time”. Quando eu digo que está chuvoso é o “weather’.
O homem consegue fazer previsão do “weather” para os próximos dias. Mas o que vai acontecer daqui a três dias, somente a Deus pertence.
Na literatura dos povos que vivem em zona temperada são comuns as referências às estações do ano. As estações servem para ativar a memória de fatos importantes nas vidas das pessoas. “Vovô faleceu no inverno de 2013.” “Casamos na primavera de 2005”. “Comecei a trabalhar no outono daquele ano.” “O verão foi divertido.”
Para o nosso caboclo nada disso faz sentido. Mesmo porque durante o ano pouca coisa muda na floresta.  Só nos rios. Na vazante o calor é mais intenso. As praias aparecem e se retiram os animais das marombas.
Em Paris a primavera já se apresenta, apesar da quarentena. Em Nova Iorque não está mais nevando. Mas o Central Park continua assombrosamente vazio. Em Tóquio há cerejeiras em flor ignorando o vírus.
No interior do Amazonas os ribeirinhos estão estranhando porque não há movimento de barcos de recreio, nem balsas, e muito menos as lanchas expressas. Os barcos a jato que levam e trazem pessoas de Manaus para o interior.
Os barcos que vendem mantimentos trouxeram a triste notícia de que uma gripe forte, um tal de coronavírus, ameaça as populações e pode matar.
Aconselha-se não entrar em contato com o pessoal das cidades e vilas. Melhor ficar só com as coisas da floresta e evitar o pessoal da cidade.
As gripes virais geralmente são mais perigosas para indígenas e ribeirinhos. Espera-se que muitos possam sobreviver para contar o que houve na terrível cheia de 2020.


terça-feira, 31 de março de 2020

Repousar: repousemos...



Pedro Lucas Lindoso


Quando Deus criou o mundo, o fez em sete dias. No primeiro dia criou a luz. No segundo criou o céu. No terceiro dia criou a terra. No quarto criou os corpos celestes. No quinto criou os animais e as aves do céu. No sexto dia os animais da terra, inclusive os humanos.
No sétimo dia, Deus descansou. Ele estava satisfeito. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque era o dia de descanso.
O velho Chaguinhas, pai do meu amigo, era um cristão fervoroso. Católico praticante. Não fazia, não assinava, não decidia nada importante nos dias de domingo.
Após acordar, ia à missa. Em jejum. Até a fisiologia precisa de uma pausa, dizia ele. Ademais, a Santa Madre Igreja nos ensina que devemos comungar em jejum.
O domingo era para ficar com a família, fazer as coisas devagar e respeitar o descanso. Afinal, domingo era um dia santificado. Quando as padarias e outros pequenos comércios começaram a abrir as portas aos domingos, o velho Chaguinhas achou um absurdo.
Eventualmente fumava um cachimbo. Isso podia. Domingo pede cachimbo. E proibia qualquer membro da família de fazer algum trabalho importante. Até mesmo os estudos podiam ser interrompidos.
Certo domingo, recebeu a visita de um amigo que desejava alugar uma casa de Chaguinhas. O velho foi enfático:
– Não faço negócios aos domingos. Volte amanhã.
Quando supermercados e shopping centers começaram a abrir aos domingos, ele profetizou:
– Os homens andam muito gananciosos. Isso desagrada ao Criador.
Tudo e todos precisam de um descanso. Uma pausa. Até na música há pausas. As pausas musicais são intervalos de tempo em que deve haver silêncio, ou seja, nenhuma nota deve ser tocada nesse instante. E continuou:
– Haverá um dia em que esses homens que não param de trabalhar, que não respeitam o domingo santificado pelo Senhor, serão obrigados e fazer uma pausa. Nem que seja compulsoriamente.
Nesses dias de quarentena, lembrei-me do velho Chaguinhas. Ele sempre dizia que devemos repousar. Repousemos.

terça-feira, 24 de março de 2020

Imortalidade: há controvérsias



Pedro Lucas Lindoso


Brasília completa sessenta anos no próximo dia 21 de abril. A Academia Brasiliense de Letras, fundada em 30 de novembro de 1968, considera-se a entidade literária máxima do Distrito Federal.
Em junho de 1986, um grupo de professores de escolas públicas de Taguatinga, cidade satélite de Brasília, ousaram criar a Academia Taguatinguense de Letras.
Olhada com desdém pelos imortais membros da Academia Brasiliense de Letras, o sodalício taguatinguense hoje abriga um Centro Cultural, uma boa biblioteca, com acervo em braile, e um teatro.
 Existem academias de letras em todos os estados. Seria ótimo se cada município brasileiro tivesse sua academia. Pelo menos uma. Penso que quanto mais academias, melhor.
As academias são associações de escritores, professores e artistas que se deleitam com artes, cultura e humanidades em geral. Criam-se associações para dar suporte de times de futebol a escolas de samba. Não vejo razão para críticas às associações culturais e literárias.
 Todo município do Brasil deveria ter sua academia de letras. Infelizmente, em muitos não há sequer uma biblioteca.
Uma das maiores obras da teledramaturgia do Brasil foi “O bem amado”. Na fantástica novela, Odorico Paraguaçu, prefeito da longínqua Sucupira, tinha o projeto de inaugurar um cemitério novo na cidade. Mas faltavam defuntos. Paraguaçu deveria ter fundado a Academia Sucupirense de Letras. Como diria o próprio Paraguaçu, a obra, ou seja, a academia, “entraria para os anais e menstruais de Sucupira."
A retórica do prefeito, sua grande marca, era cafona, grandiloquente e vazia. Quiçá indecente e escatológica. Todavia, ficou imortalizada na obra do genial e imortal Dias Gomes.
Parece-me que a questão de pertencer a uma academia e ser imortal é assunto controvertido. Como diria o imortal Odorico Paraguaçu:           
– Vamos botar de lado os entretanto e partir logo pros finalmente, quanto à questão da imortalidade: há controvérsias.

terça-feira, 17 de março de 2020

A lua é...


Pedro Lucas Lindoso


No último dia 9 de março, um dia após a comemoração ao dia Internacional da mulher, surgiu nos céus da nossa querida Manaus e do Brasil uma superlua.
Fiquei curioso em saber o porquê desse destaque. O que tornaria aquela lua, muito bonita e bastante brilhante por sinal, uma superlua?
As notícias dos jornais explicavam que a superlua ocorre quando a lua cheia coincide com a sua maior aproximação com a Terra. O fenômeno tem o nome de perigeu. Essa maior aproximação faz o nosso querido e festejado satélite parecer ainda mais brilhante e maior do que as outras luas cheias.
Aprendi no Grupo Escolar Saldanha Marinho, aqui em Manaus, que os índios chamavam a lua de Jaci. Lições de livros editados e oriundos do sul do Brasil. De fato, Jaci na mitologia tupi é a deusa Lua. Mas há outras línguas indígenas importantes, como o Saterê Mauwé. Trata-se de tronco linguístico do tupi, mas a lua se chama Wati.
A lua sempre exerceu um enorme fascínio sobre os homens. Penso até mais do que o sol. Possivelmente pela oportunidade que se tem de observá-la melhor, sem se ofuscar. E esse fascínio parece presente em todas as culturas. Em suas mais diversas manifestações. Na religião, nas artes plásticas, na literatura, em especial na poesia e na música.
A palavra lua e suas derivações, como luar, lunar, lunático, lual e tantas outras só parece rivalizar em variações e conotações quando o assunto são as estrelas, incluindo o sol.
Na boca dos poetas o luar cai sobre a mata, que revela a lua, que no céu flutua. A lua é sempre lembrada poeticamente em metáforas e nas mais diversas figuras de linguagem. A lua chora, pensa, tem pena, escuta e é confidente de muitos.
Carlos Páez Vilaró pintor, escritor e empresário uruguaio, foi proprietário da famosa Casapueblo. Escreveu um belo livro:  Entre meu filho e eu a lua. Seu filho Carlos estava no famoso desastre de avião em que uma equipe de rugby ficou perdida entre as neves dos Andes. Nas noites insones, Vilaró contemplava a lua. Já quase insano, na perspectiva de que seu filho também a contemplava e por ela pudessem se comunicar. Carlos foi um dos sobreviventes.
Há novas descobertas envolvendo o lado oculto da lua. Nessas disputas sobre quem é seu dono, não nos esqueçamos: a lua é dos namorados.

terça-feira, 10 de março de 2020

Outro patamar



Pedro Lucas Lindoso


Tina é uma jovem profissional de sucesso. Ainda está solteira e mora com os pais. Os pais de Tina criam uma neta, Larissa, filha de um dos irmãos de Tina.
Larissa é fruto de um relacionamento fugaz entre o irmão mais novo de Tina e a mãe da garota. Entre idas e vindas, Larissa acabou ficando com os avós paternos. Uma guarda compartilhada e bem-sucedida. A mãe é presente na vida da garotinha. Porém, Larissa desde sempre mora com o pai e os avós. A relação entre os pais de Larissa acabou já há muito tempo. 
O relacionamento de Tina com sua sobrinha Larissa é permeado de muito afeto. Mesmo porque moram na mesma casa. Numa época em que até domesticas iam passear na Florida, Tina resolveu levar Larissa para conhecer os parques da Disney.
Passagem comprada com promoção relâmpago Manaus-Miami. Porém, tudo bem planejado e com bastante antecedência. Depois de tirar os passaportes, foram até Brasília para obter o visto junto à Embaixada Americana.
A ansiedade de Larissa era evidente. Tina também estava apreensiva. Era sua primeira viagem ao exterior e a responsabilidade de cuidar da sobrinha era grande.
Os pais obviamente autorizaram a viagem. Estava tudo certo. Entradas para os parques e hotéis devidamente pagos e reservados. No dia do embarque a família toda foi deixá-las no aeroporto.
Na hora do check-in um pequeno contratempo. Tina não havia reservado os lugares no voo. Só havia disponível lugares separados. Ela explicou para a atendente que Larissa era uma garotinha de dez anos. Estavam indo para a Disney pela primeira vez. Não poderia viajar longe da sua sobrinha. Estava responsável por ela.
A atendente resolveu então disponibilizar uma poltrona na primeira classe para a menina. Disse à Tina que ao seu lado estava um rapaz sozinho. Ele com certeza trocaria de lugar com Larissa na primeira classe. E as duas então poderiam viajar juntas.
Embarque concluído. Na hora da troca, Larissa já aboletada na primeira classe, não queria trocar de lugar como o moço. Larissa, pressionada pela tia, acabou cedendo a cadeira para o rapaz. E foi sentar perto da tia, protestando.
O rapaz, feliz da vida, exclamou:
– Primeira classe é outro patamar!

terça-feira, 3 de março de 2020

Um piscar de olhos



Pedro Lucas Lindoso


Conheci Rebeca num lançamento de livros. Uma jovem senhora professora de Português no Ensino Médio. Muito simpática. Disse-me que havia lido meu livro de crônicas – Uma amazonense em Copacabana. E que iria usá-lo em suas aulas de Português. Fiquei extremamente feliz.
Perguntou-me como surgiam as ideias para minhas crônicas. Sempre me fazem essa pergunta. Disse-lhe que minhas crônicas são geralmente coisas do cotidiano, de Manaus, de experiências e vivências minhas ou emprestadas dos amigos e conhecidos.
Conversando com alguém, como estou fazendo agora, pode surgir a ideia para uma boa crônica. Disse-lhe.
– Posso lhe contar algo que aconteceu esta semana? Talvez possa fazer uma bela crônica.
Rebeca me disse que uma de suas alunas, que sempre lhe confidencia coisas, apaixonou-se por um colega da escola.
A menina, que chamaremos de Alice, foi correspondida e engatou um namoro com Carlos. Alice tem uma “best friend” que chamaremos de Gina.
Tudo parecia correr bem com o namoro de Alice e Carlos. Ambos jovens, bonitos, bons alunos e educados. Mas ocorreu algo de inusitado. Gina contou para Alice que Carlos havia dado uma piscada de olho para ela no pátio da escola. Alice então terminou o namoro com o rapaz, sem maiores explicações. Ela estava desolada e veio conversar comigo, relatou a professora.
Rebeca argumentou com Alice que o piscar de olhos poderia ser simplesmente um cumprimento. Um “oi” que Carlos teria dado para Gina, sabendo que elas eram amigas. Rebeca argumentou que eles faziam um lindo casal. Um namoro assim não deveria acabar “num piscar de olhos”, já fazendo trocadilho da situação.
Alice então resolveu esclarecer a situação com Carlos. E a professora estava certíssima. A piscadela tinha se resumido a um simples olá. Carlos garantiu que nunca teve qualquer interesse em Gina. Reataram o namoro. E como disse Shakespeare, “tudo está bem quando acaba bem”.
Agradeço à professora Rebeca pela conversa. Afinal, as boas ideias para crônicas surgem sempre assim, de repente, num piscar de olhos.



terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Amazônia – um enigma a decifrar



Pedro Lucas Lindoso


Meu amigo Chaguinhas me relata que um cliente do Sudeste precisava de uma certidão a ser obtida junto a um cartório em Coari. Chaguinhas lhe disse que era impossível obter o documento para o mesmo dia. Não havia voo de Manaus para Coari naquela data. Perguntada a distância entre Manaus e Coari, Chaguinhas disse que não chegava a 400 km. Então, o cliente pediu a Chaguinhas para mandar um carro lá. Despesas por conta dele.
Os amazonenses sabem que não há estrada de Manaus para Coari. Mas o pessoal do Sul desconhece a nossa realidade.
Certo dia, quando ainda havia horário de verão, recebi uma ligação de um call center às 6:00 horas da manhã. Argumentei o inconveniente com a atendente que, em total desconhecimento sobre fusos horários, contra argumentava:
– Mas aqui em São Paulo são oito horas, senhor.
Em recente concurso público de nível federal algumas pessoas perderam a prova. O portão fechou pelo horário de Brasília.
O mundo inteiro fala sobre a biodiversidade da Amazônia. Fala-se muito sobre a riqueza de nosso ecossistema. Mas esquecem que aqui existe uma sociedade. Há indígenas, na floresta e nas cidades, há os ribeirinhos, as sociedades tradicionais. Portanto, não há que se falar somente em biodiversidade. É importante reconhecer a nossa sociobiodiversidade.
Os estatutos da ONU sobre biodiversidade preconizam que a utilização dos recursos naturais deve respeitar a cultura e os costumes das populações locais.
Foi criado um conselho para a Amazônia. Espera-se que sejam ouvidos os povos da região. Os povos da Amazônia construíram relações materiais e espirituais que se entrelaçam com esse maravilhoso ecossistema.
Há saberes, tradições, conhecimentos e uma diversidade cultural que precisa ser respeitada. Mesmo porque acredita-se que esses conhecimentos levam, ou melhor, possibilitam, a manutenção do ecossistema, a sobrevivência da floresta. A manutenção da própria vida como um todo.
 Chaguinhas e eu chegamos à conclusão de que a Amazônia é um enigma para os brasileiros do Sudeste. Eles parecem que não nos conhecem mesmo. Para decifrar esse enigma que é a Amazônia, o conselho deve privilegiar e ouvir verdadeiros amazônidas. Senão, a região continuará sendo desconhecida.  E o enigma, indecifrado.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Existe sim!



Pedro Lucas Lindoso


Outro dia fomos a um novo restaurante cinco estrelas. Muito bonito. Ambiente agradável. Várias pessoas bem vestidas e de comportamento elegante. Todos brancos para o padrão brasileiro. Havia um casal visivelmente homoafetivo. Mas não havia nenhum negro no local.
Lembrei-me de uma parada de manutenção ocorrida há muitos anos na refinaria aqui em Manaus. A empresa baiana responsável pela reformulação dos tanques trouxe vários empregados especializados, da Bahia.
A maioria foi alojada no bairro do Japiim durante os três meses em que durou a parada de manutenção. Os trabalhadores baianos eram todos negros. Durante toda a estadia em Manaus faziam a refeição em determinado restaurante no mesmo bairro do Japiim.
O local era modesto, mas tudo era muito arrumadinho. A comida gostosa e tudo muito limpo. O restaurante havia inaugurado com a chegada dos baianos. O dono gostou daquela invasão repentina de fregueses fiéis e bons pagadores. 
Acabada a parada de manutenção os baianos retornaram a Salvador. O restaurante fechou as portas.
Meu pai tinha um tio que se casou com uma negra. Esse tio-avô teve uma filha chamada Eunice. Essa prima de meu pai se casou com um pracinha da II Guerra. Foram morar em Brasília.
Um dia eu jogava ping-pong com um dos filhos da Eunice, meu primo João, quando fui solicitado a pagar uma conta num banco perto de casa. Era 1968 e não havia internet. João não queria ir ao banco comigo. Mas eu insisti para que fosse.
Entrei normalmente no banco. O João foi barrado. Eu paguei a conta e me encontrei com ele lá fora. Ele então me disse:
– Te falei. Neguinho não pode entrar em todo lugar não, meu primo.
Naquele ano de 1968 assassinaram Martin Luther King, nos Estados Unidos. Alguém comentou:
– Ainda bem que aqui no Brasil não existe preconceito de cor. E eu, com meus onze anos, na qualidade de menino metido e atrevido, discordei e disse:
– Existe sim!

P.S. O Brasil ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960 com “Orfeu Negro”. O filme era de um cineasta francês, mas os diálogos eram em Português. Os atores eram todos brasileiros. O presidente Barack Obama disse que sua mãe viu o filme e se encantou com a beleza dos negros. O resto é História.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Manaus lusitana


Pedro Lucas Lindoso




No sudeste do Brasil não se usa a palavra cruzeta para cabide de roupas. Aqui em Manaus é como chamamos os cabides: cruzetas. Além de significar uma pequena cruz, a palavra cruzeta também é nome para a peça em forma de T, usada por operários para nivelar. Há também a acepção de cruzeta para negócios escusos. Parece que esse é o sentido mais conhecido Brasil afora.
Muitos amazonenses foram constrangidos ou ficaram meio sem graça ao usar a palavra cruzeta para pedir cabides em hotéis pelo Brasil afora.
Para os amazonenses, cruzeta é, definitivamente, cabide para roupas. E também para os portugueses! Já escrevi inclusive uma outra crônica sobre esse assunto: cruzeta é cruzeta. Em Manaus e em Portugal.
A minha alegria foi imensa ao entrar em uma loja em Lisboa e descobrir isso. Cruzeta é também como os lisboetas se referem a cabides. Assim, elegi a palavra cruzeta para comprovar a força da influência lusitana no Amazonas.
Um dos símbolos importantes dessa presença portuguesa no Amazonas, além do Hospital Beneficente Português, é o Luso. Fundado como clube de futebol, ao longo de mais de cem anos ofereceu à sociedade manauara atividades artísticas e culturais.
Uma das mais expressivas e inesquecíveis atividades do Luso de outrora eram as pastorinhas. Autos de Natal em que havia a figura do diabo, enfurecido e amedrontador. Pelo menos para mim, menino de calças curtas.
Os portugueses se destacaram na área do comércio e da indústria. Famílias de ilustres lusitanos fundaram o grupo TV Lar e refrigerantes Magistral, dentre vários outros empreendimentos da cidade. Uma das lojas maçônicas mais antigas do Amazonas, a centenária Aurora Lusitana, foi fundada por portugueses.
Hoje há outras e diversas demonstrações culturais na cidade, advindas de outras nacionalidades e influências culturais diversas. Muitas mudanças. E por falar em mudanças, recordemo-nos do grande Luís de Camões sobre o tema:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.