Amigos do Fingidor

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Poderes e conflitos na medicina grega



João Bosco Botelho

O papel político assumido pelo médico na polis grega como agente social para melhorar a saúde pública, e que possivelmente também se relacionou à busca do corpo perfeito, sem doença, está expressa em vários textos da Escola Médica de Cós, em especial nos de Políbio, o genro de Hipócrates.
 Sentida por vários autores, inclusive Platão, essa premência de ampliar o espaço social dos médicos foi deslocada pela nova organização social imposta pela urbanização dos hábitos sociais, quando a maior aglomeração de pessoas passou a exigir outras medidas para superar as novas dificuldades que foram aparecendo, como a linguagem exercendo papel extraordinário no convencimento pessoal e coletivo. De certo modo, a análise platônica interpretou o movimento das mentalidades na polis.
Essa posição valorativa dos médicos na Grécia do século 4 a.C., talvez como parte da ocupação dos espaços sociais, também alimentou outra situação: o conflito entre médicos e filósofos, apreendida de modo definitivo em Platão, pois ele adotou o modelo médico dos tempos homéricos e considerou o deus Asclépio o verdadeiro político da saúde, porque teria sido o inventor da Medicina, fazendo a releitura e recolocando o conflito da Medicina com a religião em evidência, ao mesmo tempo em que retirava a filosofia dessa área de atrito.
A interpretação é absolutamente coerente com a compreensão social platônica, ao dividir a sociedade em dominadores e dominados, senhores e escravos, tudo pela vontade dos deuses. Se a sociedade era estratificada, obrigatoriamente, as especialidades sociais que a serviam teriam que ser do mesmo modo. Assim, ele incorporou na sua filosofia as práticas médicas diferenciadas entre os senhores e escravos, ricos que podem ficar doentes e pobres que não têm tempo para adoecer, existente mais de um milênio antes da polis grega e que foram legisladas por Hamurabi.
Platão ao ligar-se mais fortemente à Medicina na magistral obra “Górgias”, deixou bem claro o papel que o agente da cura, o médico, pode desempenhar na relação com o paciente, na dependência da compreensão do sofrimento, quando o doente o procura para refazer a saúde comprometida. Isso porque quando a pessoa enferma vai ao encontro de um médico buscando ajuda, ela o faz movida pela necessidade de interromper a dor, o desconforto e, também, atraído pela complexa malha de confiança que o liga historicamente ao poder do conhecimento do médico. Este, por sua vez, pode agir como os médicos dos escravos, assumindo a posição tirânica frente à fragilidade do doente ou como os que tratavam os homens livres que, além de buscarem a origem das doenças, ensinavam ao paciente a melhor maneira de tratá-las.
É evidente que o platonismo exerceu decisiva importância sobre o atual pensamento ocidental em relação à saúde e à doença. Foi graças à dicotomia corpo-alma do platonismo que foi atenuada parte do avanço proporcionado pela dessacralização da doença, embutida na teoria dos Quatro Humores  – primeiro corte epistemológico da Medicina –, pela primeira vez construindo a saúde e a doença fora do poder dos deuses e deusas, iniciada na Escola de Cós, com a publicação de Políbio, o genro de Hipócrates. 
Dessa forma, acabou predominando no pensamento coletivo da grande tradição herdada das sociedades ágrafas e dos tempos homéricos, que valorizava a origem divina das doenças e o poder da divindade para curar, presente nas mentalidades até hoje.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Java, versão infernal



Pedro Lucas Lindoso

Quando Dr. Chaguinhas começou a advogar não havia computadores e nem internet.
As petições e pareceres eram feitos na “mão grande” ou minutados em máquinas de datilografar. Chaguinhas até hoje tem uma velha máquina “Remington”, devidamente aposentada. Trabalhou anos na Procuradoria de um banco público já extinto. As suas petições e pareceres eram diligentemente datilografados por exímias datilógrafas. Word significava só palavra mesmo, em Inglês, obviamente.
O duro, naquela época, era o acompanhamento dos processos. Não havia internet. Para fazer o acompanhamento processual advogados e procuradores amontoavam-se na beirada dos balcões dos cartórios e varas. Disputava-se a atenção e o atendimento dos serventuários com os estagiários, funcionários de autarquias e procuradorias, além das partes interessadas. Uma loucura.
Certo dia havia uma quantidade enorme de advogados e estagiários disputando a atenção de uma única serventuária que, se fingindo de atordoada, tentava atendê-los com uma irritante e calma soberba. Dr. Chaguinhas precisava urgentemente de um alvará. Tomado de momentânea fúria, Chaguinhas não teve dúvidas. Subiu no balcão. Confusão geral. Chamaram o juiz. A diretora do cartório quase desmaiou. Cadê a OAB? Alguém perguntou. O fato é que deram logo o alvará para o Dr. Chaguinhas, que desceu do balcão e foi-se embora antes que o juiz chegasse ao recinto.
Agora o distinto causídico acompanha tudo pela internet. Mas os problemas que eram reais e físicos passaram a ser virtuais. Ontem estava nervoso porque não conseguia nem peticionar nem entrar no site no tribunal.
Um técnico em informática veio atendê-lo.  O senhor conhece JAVA? Perguntou o rapaz.
– Claro, estudei Geografia no ginásio. É uma ilha na Indonésia. Um vulcão a destruiu no final do século 19. O vulcão Kracatoa – supostamente extinto – entrou em erupção por lá.
 O rapaz não entendeu. Qual a versão do seu JAVA? Perguntou.
Chaguinhas disse que a versão que conhecia do episódio é a de Hollywood com o filme Kracatoa – o inferno de Java.
Para o técnico de informática, JAVA é uma linguagem de programação. É um software. Impulsiona e melhora serviços de aplicativos. Facilita e possibilita a consulta aos sites dos tribunais. 

Instalado o software, Chaguinhas descobriu que há várias versões de JAVA. Mais de oito! Além do Kracatoa, o vulcão que foi o inferno de JAVA, a ilha, o software JAVA, apesar de ajudar como aplicativo, pode ser infernal com suas várias versões.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Lábios que beijei 65


Zemaria Pinto
Janaína banhada de mar



Guardo essa foto como uma relíquia: a índia Janaína banhada de mar até a cintura, os seios à mostra, o sorriso largo, o cabelo curto, os olhos quase fechados. Tantas vezes pensei em transformar aquela foto numa pintura, para tê-la, grande e vistosa, na parede do meu quarto, projeto sempre adiado. Perdi Janaína tantas vezes, e a foto sempre comigo, perdendo as cores. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (10/9/1930 – 4/12/2016)


Gullar, por Diogo D'Auriol.

Primeiros Anos
                    Ferreira Gullar


Para uma vida de merda
nasci em 1930
na Rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam claras sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
E do meu quarto
eu ouvia o século xx
farfalhando nas árvores da quinta.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os culhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
(Buenos Aires, 1975)


In: Na vertigem do dia. Civilização Brasileira: 1980.

Para ler outros poemas de Ferreira Gullar, clique aqui.

Manaus, amor e memória CCXCIII


Praça do Congresso dividida em quatro,
para dar mais espaço a fusca, rural willys e simca chambord.
Fotografia obtida da escadaria do IEA. Ou da janela, sei lá.

sábado, 3 de dezembro de 2016

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A teoria da letra-poema ou de como e porque Bob Dylan ganhou – merecidamente! – o Nobel de Literatura 3/5


Zemaria Pinto


Para ilustrar a categoria letra-poema, vamos ler um fragmento de uma canção que você certamente já ouviu:

Caía
a tarde feito um viaduto
e um bêbado trajando luto
me lembrou Carlitos.

A lua,
tal qual a dona do bordel,
pedia a cada estrela fria
um brilho de aluguel...

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas...
Que sufoco!

Louco,
o bêbado com chapéu-coco
fazia irreverências mil
pra noite do Brasil.

O Bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc; este o poeta, aquele o músico. Dividimos arbitrariamente a letra-poema de Aldir em 9 estrofes, das quais reproduzimos as quatro primeiras. Em nenhuma delas o elemento surpresa se esconde, muito pelo contrário – se escancara. Na tarde que “cai feito um viaduto”, referência ao desabamento de um viaduto, em São Paulo, recente à época em que a canção foi gravada pela primeira vez, em 1979. A lua, comparada à dona de um bordel, pedia às “estrelas de programa”, um brilho qualquer, ainda que falso. Note que a aproximação da noite é triste, e as nuvens escondem “manchas torturadas”, uma alusão explícita à prática velada de tortura nos subterrâneos do regime que começava a agonizar. O bêbado, vestido de negro, desafia o sufoco e, louco, faz “irreverências” à noite que se abate sobre o país. O bêbado e a equilibrista, na voz de Elis Regina (1945-1982), virou emblema da luta pela anistia política, promulgada em agosto daquele ano.

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje quando do sol a claridade
Forra meu barracão sinto saudade
Da mulher, pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Parecia um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros malvestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

Chão de estrelas, letra de Orestes Barbosa para música de Sílvio Caldas, gravada pelo próprio compositor em 1937, já nasceu poema, a começar pela forma. Suas quatro estrofes simétricas, de seis versos decassílabos cada, formando quatro sextetos, tem esquema rímico AABCCB. Mas a poesia de Chão de estrelas não está apenas na forma, que é pétrea mas não é eterna. Façamos uma leitura rápida da letra-poema de Orestes Barbosa.
O eu lírico é um poeta, que relembra uma época de felicidade, comparando sua vida com um palco, e a si próprio com um palhaço, iludido pelo sucesso efêmero. Na segunda estrofe, ele fala do motivo de sua tristeza: a mulher que o abandonara, comparada por ele ao som matinal dos pássaros. O morro emudeceu. A terceira estrofe dá uma nova ideia de como a vida para os dois era uma festa permanente, “sempre feriado nacional”, anunciado nas imagens evocativas do morro onde ambos moravam. A última estrofe traz aquele que Manuel Bandeira reputava como o mais belo verso da poesia brasileira: “tu pisavas nos astros distraída”. Observe que, a despeito do abandono, o poeta-cantor não perde a linha: apesar da extrema pobreza em que viviam, ele acreditava que a ventura de viver consistia em amar e cantar, à luz da lua – mas ela, a mulher-pássaro, não sabia disso. 


(Continua na próxima sexta-feira)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Nonato Tavares: teatro, memória e resistência



O médico político em Platão



João Bosco Botelho

Platão sistematizou e descreveu a necessidade da nova postura do medico no Político, quando firmou, no diálogo entre Sócrates, o Jovem e o Estrangeiro, a semelhança entre a postura do político e do médico ao admitir que ambos, baseados no conhecimento, devem intervir, sempre que necessário para promover melhoras na sociedade.
Estrangeiro: É interessante. Dizem, com efeito, que se alguém conhece leis melhores que as existentes não tem o direito de dá-las a sua própria cidade senão com o consentimento de cada cidadão; de outro modo não.
Sócrates, o Jovem: Muito bem! Não estarão eles certos?
Estrangeiro: Talvez. Em todo caso se alguém dispensa esse consentimento e impõe a reforma pela força, que nome se dará a esse golpe? Mas, espera. Voltemos primeiro aos exemplos procedentes.
Sócrates, o Jovem: Que queres dizer?
Estrangeiro: Suponhamos um médico que não procura persuadir seu doente, senhor de sua arte, impõe a uma criança, a um homem ou uma mulher o que julga melhor, não importando os preceitos escritos. Que nome se dará a essa violência? Seria por acaso o de violação da arte e erro pernicioso? E a vítima dessa coerção não teria o direito de dizer tudo, menos que foi objeto de manobras perniciosas ineptas por parte de médicos que as propuseram.
Sócrates, o Jovem: Dizes a pura verdade.
Estrangeiro: Ora, como chamaríamos aquele que peca contra a arte política? Não o qualificaríamos de odioso, mau e injusto?
Esse diálogo refletiu uma explosão coletiva de consciência, como as que seguem as rupturas com o conhecimento acumulado, a ponto de refletir precisamente a nova posição social assumida pelo médico, capaz de poder interferir politicamente para modificar o conjunto social.
A medicina passou a ser associada à justiça, estando os seus agentes num estrato diferenciado da sociedade, em consequência do conhecimento que eles acumulam e, por essa razão, autorizados a influenciar as pessoas na direção de uma vida melhor. Ao contrário, se o médico não utilizasse a sua capacidade de persuasão, de acordo com os preceitos aceitos pela sociedade grega, estaria incorrendo em falsidade ideológica, capaz de prejudicar outros homens.
O papel do político assumido pelo médico na polis grega, a partir dessa consciência crítica da necessidade de modificar a realidade foi percebida e ampliada ao longo dos séculos.
 Essa premência de ampliar o espaço social dos agentes da saúde foi deslocada pela nova organização social imposta pela urbanização dos hábitos sociais, quando a maior aglomeração de pessoas passou a exigir outras medidas para superar as novas dificuldades que foram aparecendo, a linguagem um papel extraordinário como fator de convencimento.
O conflito entre médicos e filósofos, ocorrido naquela época, também foi percebido por Platão. O grande filósofo adotou o modelo médico dos tempos homéricos e considerou o deus Asclépio o verdadeiro político da saúde, porque teria sido ele o inventor da Medicina. Desse modo, recolocou o conflito da Medicina com a religião em evidência, ao mesmo tempo em que retirava a filosofia da área de atrito.
A interpretação é absolutamente coerente com a compreensão social platônica, ao dividir a sociedade em dominadores e dominados, senhores e escravos, tudo pela vontade dos deuses. Se a sociedade era estratificada, obrigatoriamente as especialidades sociais que a serviam teriam que ser do mesmo modo. Assim, ele incorporou na própria filosofia as práticas médicas diferenciadas entre os senhores e escravos, ricos que podem ficar doentes e pobres que não têm tempo para adoecer.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Catupiry – quem fica com a caixinha?



Pedro Lucas Lindoso

A primeira vez que comi queijo catupiry foi na casa de minha tia Helmosa Fadul, no Rio de Janeiro. Tia Helmosa era irmã de minha avó materna, Brigitta Daou. Era uma senhora muito culta. Ficou conhecida em Manaus por sua habilidade em declamar poesias.
Tia Helmosa foi muito amiga do Dr. Álvaro Maia, que governou o Amazonas por muitos anos. Minha tia datilografou e revisou muitos escritos literários do senador.
Naquele verão de 1965, o Rio de Janeiro comemorava o quarto centenário e eu, menino de calças-curtas, passava as férias na casa de minha tia na cidade maravilhosa.
O senador Álvaro Maia foi visitá-la e trouxe uma caixa redonda embrulhada em papel pardo. Era o famoso queijo catupiry.
Naquela época a embalagem do queijo catupiry era uma caixinha redonda com tampa, feita artesanalmente – uma a uma, de uma folha fina de madeira.
Tia Helmosa serviu o senador e a mim o famoso queijo acompanhado de doce de cupuaçu. O doce veio de Manaus especialmente para ela que o conservava diligentemente. A geleia era servida somente para pessoas e visitas especiais.
O doce de cupuaçu era uma sobremesa muito comum na mesa dos manauaras. Nos dias de hoje, parece que o creme e os bombons ficaram mais populares que a geleia. A receita é simples. Um quilo de polpa de cupuaçu para um quilo de açúcar.
Há muitos anos a embalagem do queijo catupiry passou a ser de plástico e apareceram as bisnagas e os baldes vendidos às pizzarias e restaurantes. A palavra catupiry se tornou sinônimo de requeijão cremoso.
Algumas marcas ficam tão famosas que acabamos nomeando o produto a partir delas. Mas o queijo catupiry, o legitimo da caixinha redonda, não é um simples requeijão. Muito menos ”cream cheese”.
Na década de sessenta não havia cupuaçu no Rio e nem queijo catupiry disponível para venda em Manaus. Era um tempo em que as pessoas levavam encomendas de doce de cupuaçu para os parentes no Rio. E traziam queijo catupiry para Manaus. 
Como já dito, o queijo vinha numa caixinha de madeira redonda com tampa, feita artesanalmente. As pessoas da família brigavam pelo queijo. Mas havia a disputa final – quem fica com a caixinha?

domingo, 27 de novembro de 2016

Manaus, amor e memória CCXCII


Colégio Estadual, o Pedro II.

sábado, 26 de novembro de 2016

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A teoria da letra-poema ou de como e porque Bob Dylan ganhou – merecidamente! – o Nobel de Literatura 2/5


Zemaria Pinto 

A teoria da letra-poema

Tomando por base a música popular brasileira, podemos inferir que a nossa proposta é válida para canções em qualquer língua. E quando nos referimos à música popular brasileira não estamos pretendendo falar apenas de um segmento, normalmente identificado com o lado “culto” da música popular, que acabou virando categoria: a famigerada MPB. Ficam em maus lençóis os que assim agem, por não ter como classificar Luiz Gonzaga, por exemplo. É forró ou MPB? E Martinho da Vila – é samba ou MPB? Cazuza – rock ou MPB? Os exemplos abundam. Então, para nós, tudo é mpb.
Uma letra de música popular pode ser enquadrada em uma das seguintes categorias: poema, letra poética, letra funcional ou letra ordinária. Para efeito didático, dividiremos a categoria poema em duas subcategorias distintas, o poema-letra e a letra-poema, cuja identificação vai responder àquela pergunta inicial sobre se letra de música popular é ou não é poesia.
Poema-letra. Nesta categoria, classificamos poemas publicados antes, em livros, e posteriormente musicados, como “Funeral do Lavrador”, título dado pelo compositor ao trecho citado de Morte e Vida Severina, no capítulo anterior, musicado por Chico Buarque. Os exemplos são inúmeros, embora nem sempre a melodia esteja no mesmo nível do texto. Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Drummond, Cecília Meireles, Mário Quintana, entre tantos, tiveram seus poemas transformados em canções. Não entramos no mérito quanto à qualidade dos poemas, pois, ordinariamente, são trabalhos consagrados, de autores idem.
Letra-poema. Aqui, começamos a fazer julgamento crítico, isto é, de valor. O que nos leva a classificar uma letra inédita como poema, senão sua qualidade intrínseca de poema? Letras-poemas são encontradas na obra de compositores como Chico Buarque (Construção, As vitrines, Mar e lua), Caetano Veloso (Não identificado, Sampa, Terra), Gilberto Gil (Metáfora, Oriente, Super-homem) ou Paulinho da Viola (Sinal fechado, Dança da solidão, Nada de novo). Mas autores pouco badalados, como Paulo César Pinheiro (Viagem, Jogo de Angola, Espelho), criaram – no caso, em parceria – verdadeiros clássicos da poesia brasileira. Para reconhecer um poema-letra o leitor deve saber reconhecer um bom poema; este tem que comunicar muito além do óbvio. A poesia limita-se com as artes plásticas, ao transmitir imagens criadas a partir de palavras que o senso comum não admite, e com a música, dada a musicalidade comum ao poema. Mas é ao promover “a dança do intelecto entre as palavras”, como dizia Pound, que se percebe a verdade transfigurada da poesia. Como tudo o mais na vida, é uma questão de exercício. Se você se exercita para reconhecer a verdade ela acabará se mostrando a você, mesmo em forma de poesia.

(Continua na próxima sexta-feira)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Platão e Sócrates: respeito ao mestre



João Bosco Botelho

A influência de Sócrates sobre Platão foi tão grande que, sobretudo nas suas primeiras obras, é difícil distinguir quem de fato, está falando: se o mestre ou o discípulo. Em muitos escritos platônicos, Sócrates é apresentado como o tipo ideal do filósofo e o mártir do pensamento e da busca da verdade e do bem.
Platão jamais aceitou a injustiça da condenação do mestre e em vários livros renasce Sócrates com as mais belas palavras sobre a verdadeira piedade e sobre a reta educação da juventude. Na parte final do Fedro, 118, onde relata de maneira emocionante a morte do insuperável mestre, Platão define Sócrates: “O homem... que, entre todos os de seu tempo, era o melhor, o mais sábio e o mais justo”. 
A História continua reverenciando Sócrates e não lembra dos nomes dos algozes.
Depois da morte do mestre, Platão retirou-se para Mégara, junto de Euclides e de Terpsíon, também discípulos de Sócrates. Parece que, algum tempo depois, retornou a Atenas e junto aos seus irmãos, se engajou nas campanhas militares de 395 a 394 a.C., na guerra de Corinto.
Como era comum, naquela época, a grandeza do saber estava relacionado ao conhecimento de outros povos e lugares. Em torno do ano 390 a.C., foi ao Egito levando uma carga de azeite para pagar a viagem. A civilização egípcia, com pouca variação, há milhares de anos, influenciou o pensamento de Platão quanto ao pressuposto de ser preferível que os governantes mantenham o equilíbrio social em torno de antigas idéias do que forçar a obediência coletiva às novas ordens.
Do Egito, dirigiu-se para Cirene, onde frequentou a escola do matemático Teodoro, que seria um dos personagens do seu livro “Teeteto”. De Cirene, viajou para a Itália, onde conheceu os pitagóricos Filolau, Árquitas e Timeu. Não existe consenso se elas tenham tido alguma influência na reconhecida crença platônica da transmigração e eternidade das almas.
Quando retornou a Atenas, no ano 388 a.C., com quarenta anos de idade, a guerra estava próxima do fim, por meio da paz de Antálquidas. Contudo, o antigo esplendor ateniense passava por um período político conturbado. É nsse ambiente, pleno de decadência dos valores, onde, de certa forma, predominava o subjetivismo gnosiológico e ético, que se ergue imponente a figura de Sócrates, de quem Platão recebeu a maior influência filosófica e foi amigo e fiel ouvinte durante cerca de oito anos, até a morte do Mestre.
Platão começou a ensinar, mas diverso do mestre Sócrates, para reunir os seus discípulos, comprou um pequeno terreno nas proximidades do ginásio de Academo, perto de Colona, terra natal de Sófocles.
Não se sabe ao certo o ano em que Platão morreu, porém é fixado em 347 ou 346 a.C. A Academia sobreviveu até o ano 529 d. C., quando Justiniano determinou a sua extinção (Fig. 105).
Entre outras obras, Platão escreveu 28 diálogos: Mentira: Hípias menor; Dever: Críton; Natureza humana: Alcibíades; Sabedoria: Cármides; Coragem: Laques; Amizade: Lísis; Piedade: Eutífron e Retórica: Górgias e Protágoras.
Entre 387 e 361 a.C., escreveu os seguintes livros com os enfoques sobre: Menexeno e Ménon: a virtude; Eutidemo:  a erística; Crátilo: a justeza dos nomes; O Banquete: o amor; Fédon e A República: a justiça; Fedro e Teeteto: a ciência.
Os diálogos da maturidade: O Sofista: o ser; O Político e Timeu: a natureza; Crítias: a Atlântida; Filebo: o prazer e As leis: organização social.
É difícil expressar na linguagem oral a grandeza humana de Platão!


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Um milagre para cada santo



Pedro Lucas Lindoso

Minha avó materna era natural de Borba e, como toda borbense, devota de Santo Antônio. Herdei essa devoção. Doutor da Igreja, Santo Antônio afugenta erros, males e faz milagres incríveis.
 Muitos dos santos são especialistas em ser padroeiros ou protetores de certas classes ou profissões. São Lucas é dos médicos, Santo Ivo dos advogados, Santa Bárbara dos militares da Artilharia. São Cristóvão é relacionado a viagens e viajantes. Assim, é venerado por marinheiros, barqueiros e motoristas, principalmente os taxistas.
São Judas Tadeu é um dos santos mais populares e queridos. Conhecido patrono das causas impossíveis. São Sebastião é muito celebrado no Brasil inteiro. Com festas e feriados no dia 20 de janeiro como padroeiro de várias cidades, principalmente a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.
São Francisco é ecologista. O fato de falar com os pássaros e querer ser instrumento de paz o faz com que eu o considere santo nota dez.
Domingo passado fui convidado a almoçar uma caldeirada com uns primos de Manicoré. Havia sardinhas fritas, deliciosas por sinal. De repente um dos meninos se engasgou com espinha. Deram farinha. Nada. Água. Nada. Banana também não resolveu. A solução foi ligar para dona Chiquinha, comadre de minha prima Ana, moradora da Cachoeirinha. Tem solução para tudo. Chiquinha mandou rezar para São Brás. Santo que ficou conhecido porque retirou com a mão uma espinha da garganta duma criança. Mandou Ana rodar o prato três vezes e dizer: ”São Brás, São Brás. Livre-te Deus do mal da garganta”.
Na agonia, Ana trocou o nome do santo e acabou pedindo a São Bento. Saiu do quarto esbaforida. Meu Deus, rezei para o santo errado, dizia ela. Troquei São Brás por São Bento.
Lembrei-me do meu amigo Chaguinhas. Disse-me que só reza para Nossa Senhora do Bom Parto. E explicou-me: como ela não está acostumada a ouvir voz de homem, nos dá prioridade.
Só me restava tranquilizar a minha prima Ana. Disse-lhe que São Bento sempre se mostrou compassivo com os necessitados. Atende todo tipo de aflição. É polivalente. No que ela argumentou:
– Mas garganta não é especialidade dele!
Nessa hora, minha mulher sabiamente tranquilizou-a. Não se preocupe Ana. Quando os pedidos chegam lá em cima, eles redistribuem os milagres. Se for uma moça casadora, mandam direto para Santo Antônio. Os endividados, para Santa Edwiges. Doentes para São Camilo. E assim sucessivamente.
Depois de darem muita banana com farinha para o curumim, ele já tinha se desengasgado e corria pelo quintal. Devem ter redistribuído o pedido da Ana para São Brás. Um milagre para cada santo. Cada santo com o seu milagre.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Macadâmia


Mauri Mrq

Ah, como nadava bem! Macadâmia era esguia, tacos e pernas alongadas rionegrando* na Ponta Negra, ano em que a seleção brasileira ganhou a Copa de 70. O sol lascava o crânio do amazonense e ela nessa flumilândia*. Seu jeito de ser, a educação de sua ascendência britânica, integrava-se à alma da cidade, assaltando o tempo de nossa contemplação ao comer aquele kikão com tanto gosto, na praça de São Sebastião. Era uma moça dos olhos dançantes assistindo a um filme no Guarany.
Subindo a avenida Getúlio Vargas à sombra dos Oitizeiros com o passo levitado, escorria de seus cabelos o suor nas pedras do passeio tradicional de Manaus, exalando o vapor do asfalto a caminho do colégio N. Sra. Auxiliadora, onde estudava. Chegando ao costumeiro matutino destino, costumava sentar-se em um banco de jardim sob frondosa Acácia.
Macadâmia, com seu estado crepuscular, assaltava a inveja de suas colegas, e Petrúcia, sendo altiva e implicante, dominando algumas normalistas, regularmente implicavam com Macadâmia, e ela relevava. Mas, nesse dia, Petrúcia exagerou, puxando os cabelos de Macadâmia, fazendo com que caísse. Petrúcia gabava o feito a suas amigas, quando Macadâmia levanta-se, tirando um lápis da bolsa e em direção à perversa, enfia o grafite em sua cabeça. Com o susto da reação inesperada de Macadâmia, afugenta-se com medo da freira que vinha em direção à chacrinha. Abordada, Macadâmia não denunciou o fato.
Posteriormente quando se avistavam, mudavam de trilho como trem, apesar de Macadâmia almejar desfazer o mal-entendido com Petrúcia, apesar de ter sido sempre perseguida, debita a um sequestro emocional juvenil sua reação. Mas fatos não precisam de nossa concordância para ser o que são.
Macadâmia era um ser alternante, conduzindo sua vida num emaranhado de dúvidas. Intuitiva, nos escritos poéticos, pintando aquarelas e fazendo verdadeiras miniaturas com desenhos em caixa de fósforo, sendo o lápis sua solitária ferramenta, e tendo enfiado este instrumento na cabeça de Petrúcia, passou a usar somente esferográfica, Bic escrita fina.
Certo dia, após tomar um milk shake na Lobrás, dirigiu-se a Drogaria Rosas. Quando efetuava o pagamento de seu produto no caixa, um bandido oferece um assalto para seu desespero e bem ao seu lado. Na ação, quando o ladrão pousa rapidamente a arma apressando a retirada do dinheiro da registradora, Macadâmia, num impulso, reage desferindo com força sua esferográfica de ponta-fina, que costumeiramente segurava como se fosse um terço, como um prego, crucificando a mão do meliante no balcão, fazendo com que soltasse o revólver, que cai no chão, sendo dominado em seguida pelos clientes.
Macadâmia queria continuar a escrever, mas ficou traumatizada com sua reação perfurando a mão do Sapeca, nome que veio a saber do criminoso após o assalto da Drogaria.
Macadâmia passou a escrever com giz de cera, e escrevia cadernos com poemas, contos e seu diário, e os guardava sem mais relê-los. Um dia, a pedido de uma amiga e professora que conhecia seu talento, reuniu seus poemas para inscrevê-los em um concurso de poesia nacional. Quando foi separar os cadernos para entregar, ao abri-los, se assustou ao ver tudo apagado. Com o atrito das páginas, a umidade, a escrita se desfez, como que transformada em aquarela de giz de cera. Macadâmia entrou em desespero pela perda total do que tinha feito. Ficou deprimida e surtada. Passou a escrever com giz de lousa nas paredes de seu quarto, fragmentos de seus poemas que lhe restavam na memória, na angústia de saber que jamais os recuperaria. Esgotada, desmaiou com unhas quebradas e dedos arranhados, adornada de giz sob os lençóis.
Ao acordar, percorrendo a visão pelas paredes transformadas em instalações, retomou em seu ser a ira da lembrança trágica de sua perda. Atira-se nas paredes, arrastando a venta, aspirando o giz de seus escritos, alucinando seu transtorno, entupindo as narinas, sufocando a respiração, cimentando os pulmões com o pó das palavras perdidas na composição de cenas, de uma jovem tão jovem no seu existir, macerando com sua estória para aqui que ficamos, digerir a vida que se nos apresenta. 


(*) Palavras inventadas por Ramayana de Chevalier:
Flumilândia: Região em que dominam águas, ou seja, a Amazônia.
Rionegrando: Quando hidroaviões chegavam após Revolução de 30, e desciam na Baía do Rio Negro – rionegravam.