domingo, 7 de maio de 2017
sábado, 6 de maio de 2017
sexta-feira, 5 de maio de 2017
exercício nº 1
Zemaria Pinto
As horas passam como cães
na noite
sobre o meu corpo de
ervas verticais,
mesclando sons, ruídos
ancestrais
ao silêncio do quarto. O
forte açoite
do vento prenuncia a
tempestade.
Relâmpagos inventam
sombras tortas
nas paredes de formas
natimortas:
uma forca, um punhal, uma
deidade
pagã. Em meu peito um
animal freme,
se agita, as mãos
crispadas sobre o torso
nu, já não fala,
balbucia, geme.
Buscando sonhos numa
busca vã,
meu corpo explode em
derradeiro esforço,
nos murmúrios convulsos
da manhã.
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Zemaria Pinto
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Intervenção curadora do homem
João Bosco Botelho
A palopatologia dos fósseis
mostra que os homens e mulheres pré-históricos estavam sujeitos às doenças semelhantes
às que nós, na atualidade, continuamos enfrentando. A fratura traumática
constituiu uma das doenças mais frequentes nos fósseis estudados; em algumas
delas, foram confirmados sinais evidentes de infecção do osso, a osteomielite,
lembrando as encontradas nos hospitais de hoje.
Também se comprovou a
existência de doenças não traumáticas, como a gota das cavernas, uma espécie de
reumatismo. O pólen de Nenúfar, designação de diversas plantas da família das
ninfeáceas, capazes de determinar reação alérgica nos dias atuais, existe desde
o Pleistoceno Médio, isto é, há mais de 100.000 anos. A tuberculose óssea na
coluna vertebral, problema médico em muitos países, inclusive no Brasil, está
documentado no esqueleto de homem do período Neolítico, constituindo, sem
dúvida, o primeiro exemplar médico dessa doença.
A ocorrência de moléstias na
pré-história é indiscutível. Porém, interessa conhecer como os homens
primitivos iniciaram a luta para controlar a dor, conservar a saúde e empurrar
os limites da vida. Desse modo, é importante relembrar que certos animais,
quando feridos, lambem os ferimentos; outros mamíferos, promovem limpeza mútua
dos pelos e comem plantas que provocam vômitos. É provável que o homem
primitivo tivesse se comportado da mesma maneira: lambendo o machucado e
pressionando o local para interromper a hemorragia.
Perdura a questão da
existência de ritual mágico, na pré-história, ligado às concepções míticas, na
busca de cura das doenças. Na gruta de Trois Fréres, nos Pirineus franceses,
está a pintura rupestre de um personagem em movimento de dança, datando de 10.000
anos, travestido de cervo, em atitude que sugere uma espécie de ritual,
semelhante à dança dos bisões, dos índios do norte dos Estados Unidos, e a dos
índios tukanos, no norte do Amazonas, ambas utilizadas em cerimônias
simbolizando o poder animal na cura das doenças.
O conjunto das informações
paleopatológicas, no Neolítico, sugere fortemente a gradual incorporação de
métodos empíricos estruturando a ação intencional do homem sobre outro homem.
Essas atitudes são algumas vezes agressivas, como a trepanação do crânio –
abertura dos ossos do crânio. Essa extraordinária prática é facilmente
comprovada por meio do estudo dos fósseis. E mais, alguns desses homens
pré-históricos submetidos a essa cirurgia sobreviveram muito tempo, comprovado
pelo crescimento do osso cortado.
É interessante assinalar,
sem que existam explicações plausíveis, que as trepanações, realizadas no
Neolítico europeu, também foram executadas até o século 16, em sociedades que
não tiveram contato interétnico, como as da Polinésia Francesa e as do
altiplano peruano pré-colonial.
Fora da dúvida de porque as
craniotomias foram realizadas, não se pode negar que representou algo
absolutamente extraordinário, na medida em que uma parte do corpo, o conteúdo
do crânio, foi exposto intencionalmente, desvendando o escondido atrás da pele.
Essa demonstração explícita
de poder – o homem intervindo no corpo de outro homem – resultaria em grande
destaque no grupo social. Respeitando as devidas proporções, essa relação de
dominação do curador sobre o objeto da sua prática, o doente, sob alguns
aspectos, perdura até os dias atuais como um dos instrumentos da atávica fuga
da dor e a preservação da vida. Pode ter sido um dos pilares sustentadores que
edificaram o homem primitivo no processo de assimilação dos saberes para evitar
a dor e a morte, capaz de impulsionar o ímpeto para desvendar o invisível, como
primeiro passo ao aperfeiçoamento da linguagem e da transmissão dos saberes.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 3 de maio de 2017
terça-feira, 2 de maio de 2017
Quem protesta é intelectual
Pedro Lucas Lindoso
Em governos neoliberais,
geralmente os trabalhadores não têm muito o que comemorar no dia 1º de Maio.
Dia do Trabalhador. Pelo menos tivemos mais um generoso feriadão. A
segunda-feira foi emendada com o fim de semana. Muito mais do que um feriado, a
data tem por objetivo refletir sobre direitos adquiridos e cidadania.
Parece consenso, não só nos
livros de História como no “Google”, que a origem e as manifestações começaram
em 1886, em Chicago. Houve greve geral. Esses protestos ficaram conhecidos como
a “Revolta de Haymarket”. Os trabalhadores reivindicavam a redução da carga
horária de trabalho.
Minha professora de História
Jael Reis nos ensinou que no século 19 o 1º de maio foi uma data bastante usada
para manifestações operárias. Não só nos EUA, mas também na França e em outros
países da Europa. O dia foi comemorado na Suécia pela primeira vez em 1890, com
manifestações e desfiles. Nos Estados Unidos e Canadá, o Dia do Trabalho é
conhecido como Labour Day e é celebrado na primeira segunda-feira do mês de setembro.
O fato é que a data
tornou-se o Dia Internacional dos Trabalhadores, sendo feriado em numerosos
países do mundo. Havia desfiles e grandes comemorações em Moscou, na extinta
União Soviética. Por razões políticas óbvias não poderia haver essas comemorações
nos Estados Unidos, que, como já dito, comemora-se o dia do Trabalho na
primeira segunda-feira do mês de setembro. Na terça começa o ano letivo nas
escolas americanas. Na Austrália, o dia de celebração varia de acordo com a
região.
Para os brasileiros é o dia
de celebrar a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1º de maio
de 1943, por Getúlio Vargas. A CLT está incorporada à Constituição de 1988, mas
parece que os ventos neoliberais querem acabar com a lei ou modificá-la
significativamente,
O Brasil costumava comemorar
o aumento do salário mínimo nesse dia. Mudaram a data. Muitos sindicatos fazem
festa. Alguns sindicatos patronais colaboram.
Birobiro, presidente do
Sindicato dos Picolezeiros do DF e Entorno, festeja a data com cervejada e
churrascada. Há distribuição de brindes. Faz um grande bingo e sorteios de
passagens para o Rio de Janeiro. De preferência, em meio a um grande show com
cantor da hora. E viva o feriadão!
Birobiro, parafraseando
Joãozinho Trinta, diz que companheiro trabalhador gosta é de festejar, quem
gosta de protesto é intelectual.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Beber socialmente
Eu acho absurda a ideia
de beber socialmente – se você não quer ficar bêbado, por que não toma uma
coca-cola?
(Stephen King)
domingo, 30 de abril de 2017
sábado, 29 de abril de 2017
sexta-feira, 28 de abril de 2017
exercício nº 20
Zemaria Pinto
os músculos noturnos retesados
são arcos distendidos contra a luz
que o sol desenha em círculos concêntricos
na pele negrazul da altamanhã
o ritmo das asas são tambores
frenéticos rasgando o espaçotempo
relâmpago de hermes rutilante
em ônix e ébano forjado
o assombro em multidão multiplicado
é um frêmito lascivo em cada corpo
e um grito sufocado na garganta
meu peito não resiste ao chamamento
e um urro sai de mim feito uma lança
NAGÔ ZOROBABÉLIA IORUBÁ
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Zemaria Pinto
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Clisteres e sangrias
João Bosco Botelho
As mudanças iniciadas, o
desvendar dos corpos pela anatomia e a posição dos filósofos, mesmo com a
condenação de Galileu, em 1633, instigam novas leituras da dor, acompanhadas de
inevitáveis rupturas com o passado hipocrático-galênico-cristão. Destacam-se,
no século 17, o médico inglês Harvey, em 1628, com a publicação do “Exercitatio
anatomica de motu cordis et sanguinis in anima”, demonstrando os erros de
Galeno sobre a circulação do sangue.
De modo genial, Marcelo
Malpighi, em 1666, com o livro “De viscerum structura” retirou a doença dos
humores de Hipócrates e recolocando-a na microestrutura, estabeleceu o segundo
corte epistemológico da Medicina como especialidade social: o pensamento
micrológico, que mudaria quase tudo nos selos seguintes até a atualidade.
Ocorreu no século 17 quando
a doença foi retirada da macroestrutura corporal dos humores para a
microestrutura dos tecidos por meio da micrologia – a dimensão celular –,
descrita nos estudos de Marcelo Malpighi (1628-1694), marcando a nova fase dos
saberes da Medicina-oficial.
O resultado foi a
instituição da mentalidade microscópica, inaugurando o desvendar da
multiplicidade das formas e das funções escondidas dos sentidos natos. Pouco a
pouco, o estudo da célula dominou os meios acadêmicos. Hoje, é o sustentáculo
do atual ensino da Medicina-oficial. Mesmo nos hospitais mais bem equipados, os
tratamentos dependem do diagnóstico microscópico quantitativo e qualitativo das
células corporais. Isto significa que a estrutura teórica dos saberes médicos, pelo
menos no Terceiro Mundo, em pleno final do século 20, ainda está alicerçada
sobre os princípios teóricos da patologia celular oriunda do século 17.
A micrologia enfraqueceu as
teorias greco-romanas de Hipócrates e Galeno, entendidas como dogmas das universidades,
no medievo europeu. Não muito depois, pouco a pouco, os processos teóricos que
amparavam a micrologia, a busca da materialidade da doença na microscopia,
substituíram as ideias da Escola de Cós.
Os sistemas teóricos interligados e
dependentes de Hipócrates e Galeno, capazes de explicar a saúde, a doença e a
expressão do ser no social, mostraram-se tão adequados ao observável que
dominaram as regras do diagnóstico, da terapêutica e as bases do ensino da
Medicina oficial no Ocidente durante vinte séculos.
Ao lado dessa forte relação
em torno das teorias hipocrático-galênicas que atravessou a Idade Média, alguns
religiosos, como Miguel Servet, em 1530, estudante da Universidade de Toulouse
(nessa universidade, eu tive a imensa honra de receber o título de Doutor
Honoris Causa), imbuído da leitura dogmática bíblica, ao procurar explicação
para o sopro de ar que deu vida ao primeiro homem, no livro “Christianismi
restituio”, descreveu a pequena circulação coração-pulmão.
Contudo foram os estudos de
Hipócrates e Galeno que suplantaram todas as outras correntes cientificas.
Alcançaram o Brasil Colônia e os médicos da corte portuguesa. Durante vinte e
três dias de febre e convulsão que antecederam a sua morte, a Princesa Paula
Mariana, filha do primeiro Imperador do Brasil, foi submetida às chupadas de
quarenta sanguessugas, onze vesicatórios, oito cataplasmas e sete clisteres,
prescritos pela equipe de dez médicos que se revezaram à cabeceira real.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 26 de abril de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
A menina que roubava folhas de livros
Pedro Lucas Lindoso
Assisti a um filme americano
chamado “A menina que roubava livros”. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma
jovem garota consegue sobreviver na Alemanha nazista através dos livros que ela
rouba. Ajudada por seu pai adotivo ela aprende a ler e partilhar livros com
seus amigos, incluindo um homem judeu que vive na clandestinidade em sua casa.
O jovem judeu escondia-se para evitar ser morto pelo exército nazista.
A garota desta crônica,
Silvia, é amazonense, natural de Anori. Veio para Manaus “deportada”, segunda
ela mesma. Seus pais, produtores rurais no interior, queriam evitar o casamento
de Silvia com algum rapaz não recomendado. E Silvia, mesmo apaixonada, queria
estudar e ser alguém na vida.
As dificuldades de uma
garota séria e determinada, vinda do interior e com poucos recursos, dispensam
maiores comentários. O fato é que ela trabalhava e estudava com afinco.
Silvia, poetisa e professora
aposentada, participa de um projeto da ABEPPA – Associação Brasileira de
Escritores e Poetas Pan-Amazônicos – que leva livros para bibliotecas do
interior. Ao falar sobre o projeto, Silvia se enche de entusiasmo. Percebi que
aquilo parecia ser uma espécie de catarse.
A verdade é que Silvia,
quando estudante adolescente, não tinha tempo de fazer todas as tarefas de
casa. Frequentava a biblioteca pública na hora do almoço. Mas o tempo era
curto. Então Silvia arrancava folhas dos livros para terminar as tarefas entre
uma aula e outra. No dia seguinte, Silvia diligentemente recolocava as folhas
nos livros. Segundo ela, os restauros eram caprichados e o “crime” ficava quase
imperceptível.
A psicanálise talvez explique esse entusiasmo
de Silvia pelo projeto da ABEPPA. Sob a óptica da psicanálise, catarse é o
experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, através de
uma resolução que se apresente de forma eficaz. Ao colaborar para que
estudantes do interior tenham acesso aos livros, Silvia se livra de um
sentimento de culpa por ter dilacerado alguns livros didáticos da Biblioteca
Pública do Estado.
Disse a Silvia que ela não
cometeu crime nenhum. Se a menina alemã que roubava livros foi perdoada,
imagine ela que só cometeu pequenos furtos de uso.
Disse a ela que no furto de
uso, ocorrem dois requisitos: o objetivo de uso momentâneo ou por curto período
da coisa e a devolução espontânea e em sua integralidade do objeto furtado.
Disse ainda que o furto de uso não se enquadra no Código Penal. O ato é
considerado atípico e não passível de pena na esfera criminal.
O mundo estaria bem melhor
com mais pessoas que arriscam tudo para ler e ter acesso a um bom livro.
domingo, 23 de abril de 2017
sábado, 22 de abril de 2017
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Aristóteles Alencar toma posse na AAL
Em cerimônia singela e
por vezes emocionante, o mais novo membro da Academia Amazonense de Letras,
Aristóteles Comte de Alencar Filho, tomou posse ontem, na cadeira n° 39, de
Alfredo da Matta, substituindo Mário de Moraes, falecido no ano passado.
![]() |
| Aristóteles Alencar discursa sob o olhar da mesa diretora. |
No próximo dia 13 de maio, saberemos quem será o substituto de Moacir Andrade na cadeira n° 2, de Euclides da Cunha. Em breve, deverão ser abertas as inscrições para a cadeira n° 40, de Paulino de Brito, vaga com o falecimento do escritor Francisco Vasconcelos.
Na próxima sexta-feira,
28 de abril, a Casa de Adriano Jorge abre novamente suas portas para a outorga da
Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes ao escritor Marcos Frederico Krüger
(letras), à Orquestra Barroca do Amazonas (artes) e ao SESC (mecenato). In memoriam, serão homenageados também o
cronista Aluísio Sampaio, um dos mais destacados membros do Clube da Madrugada,
e o empresário Ildefonso Pinheiro, que se notabilizou pela ajuda a instituições
culturais e de ensino, inclusive à própria AAL.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Natal: mágica renovação da fé
João Bosco Botelho
A cultura material é, sem
dúvida, muito mais transformável do que a mentalidade. A primeira, ligada ao
conforto (aqui entendido como a fome e a sede saciadas e o abrigo contra as
intempéries), tem relação com a natureza, o homem e os produtos. A segunda, muito
mais complexa, é fruto do intrincado mecanismo neurobiológico, ainda
desconhecido, da relação entre o ser e o objeto: o pensamento.
Parece lógico supor que a
força do pensamento, reproduzindo ideias muito antigas, mesmo que sob
metamorfoses frente à cultura material, reside exatamente na característica de
reprodução: transmitida nas gerações seguintes, sofrendo a influência decisiva
do sistema sociocultural, de forma semelhante às qualidades físicas. Assim
poderíamos explicar as agruras do poder político para obter mudança revolucionária
nas crenças e ideias religiosas. As tentativas conhecidas foram acompanhadas de
instransponível oposição coletiva frente à autoridade.
O desmoronamento
incrivelmente rápido do comunismo, no Leste europeu, também mostrou de modo
insofismável essa assertiva. O arcebispo albanês Simon Jubani, encarcerado
durante vinte e dois anos pelo enfrentamento ao ateísmo de Estado decretado
pelo ditador comunista Enver Hoxha, celebrou a primeira missa, após o massacre
do ditador, na capela do cemitério da cidade de Shkoder, assistido por
incontáveis fiéis. Milhares de albaneses, libertos das correntes implacáveis do
comunismo-socialismo, retornaram aos templos, antes transformados em viveiros
de patos e rãs, com a fé renovada e tornada pública pela segurança física.
É possível imaginar o que
representou para as pessoas que viveram em regiões com inverno rigoroso, há
milhares de anos atrás, o aparecimento do Sol resplandecente para aquecer os
corpos e a terra.
Os acontecimentos seguidos
ao sedentarismo dos caçadores coletores, no final do Neolítico, estão contidos
no mesmo contexto. O laço anterior com os outros animais foi substituído, pouco
a pouco, pela nova intimidade com a terra cultivada. A ocra, pintada nos ossos
descarnados, como marca do sangue, símbolo da vida, achada em numerosos
esqueletos pré-históricos, foi deslocada pela semente e pelo esperma. A mãe
terra, sulcada pelo arado e fertilizada pelos raios solares, continua
festejada.
As celebrações religiosas,
como a missa cristã, continuam guardando lugar de destaque para as refeições,
onde o pão e o vinho, ambos filhos da mãe terra, estão presentes. Os incas do
altiplano boliviano, sobreviventes de uma das mais brutais conquistas que o
mundo conheceu, continuam rendendo graça à Pachamama, a imemorial mãe terra da
cultura andina.
Na cidade de Newgrange, na
Irlanda, existe um túmulo que serve de orientação climática para os
agricultores da região. Na década de 1960, os astrofísicos da Universidade de
Dublin, comprovaram que o local, construído há mais de cinco mil anos, é o mais
antigo alinhamento astronômico conhecido. Essa sepultura pré-histórica,
construída por um povo agrário desconhecido, contém uma abertura de vinte
centímetros no teto, por onde, no solstício do inverno, a luz natural penetra e
chega exatamente onde deveria estar repousando o morto celebrado.
É particularmente expressiva
a festa do nascimento do Sol Invicto (Dies
Solis Invicti Natalis), comemorada em Roma, junto à saturnal. Quando o
astro parecia se dirigir ao Norte, os trabalhos eram interrompidos, as casas
decoradas com árvores, os parentes trocavam presentes, intensificando o culto
ao deus asiático Mitra (Natalis Solis).
Existem evidências de que o
cristianismo primitivo foi confundido com o culto solar. Os maniqueístas
afirmavam que Jesus Cristo era o próprio Sol. Dois dos mais importantes
ideólogos cristãos, Cirilo de Jerusalém e Teodoro, fizeram a mesma associação.
Os doutores da Igreja
Católica, durante vários séculos, ficaram preocupados com a data do nascimento
de Jesus Cristo. Em 194, Clemente de Alexandria propôs o 19 de novembro do ano
3 a.C., enquanto Epifânio lutou pelo dia 30 de maio. Na realidade, não existe
qualquer comprovação de que Cristo tenha nascido neste ou naquele dia.
Dionísio, em 525, encerrou a
questão, fixando o advento no dia 25 de dezembro de 754 depois da fundação de
Roma (ab urbe condita). A rendição da
alta hierarquia romana frente ao simbolismo do solstício do inverno gerou
protestos entre os católicos armênios e puritanos ingleses. Ambos, afirmaram
ser heresia imperdoável associar o culto de Jesus à adoração pagã.
Importam pouco as
construções teóricas para entender a mágica renovação da fé do Natal: Jesus
Cristo, o Filho de Deus, está presente no advento do Natal, irradiando bondade
entre bilhões de pessoas no planeta.
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quarta-feira, 19 de abril de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
Em Brasília tem mais
Pedro Lucas Lindoso
Dia 19 de abril. Dia do
Índio. É um chavão e letra de música. Mas é sempre bom repetir: “Todo dia era
dia de índio”. A verdade é que falta respeito aos que aqui já estavam quando as
caravelas chegaram.
Não vou falar sobre
reservas, aldeias e tribos nômades aqui da Amazônia. Nem sobre os privilegiados
índios isolados. Preocupam-me os índios urbanos esquecidos na periferia de
nossa Manaus.
A FUNAI foi recentemente
reestruturada. Em governo neoliberal deve ter sido enxugada e quiçá esteja em extinção.
E os indígenas eternamente desassistidos. Principalmente, os que estão nas
cidades. Em Manaus, onde se encontra uma das maiores populações de índios urbanos
no Brasil, a presença indígena é, quase sempre, ocultada.
Há ainda os que, sendo netos ou descendentes
diretos de etnias importantes da região, não se reconhecem como índios. Reconhecem-se
como amazonenses ou “caboclo aqui da terra”.
Há muitos, todavia, que se reconhecem indígenas. Eles
entendem que vieram morar aqui e que ajudaram a construir Manaus. Têm
consciência, e com razão, que sua história está também inscrita neste
território. Estão por aqui os Baré, Tukano, Desana, Baniwa, dentre outros
originários da região do alto e médio rio Negro. E vinculam-se socialmente e
economicamente pelos casamentos e outros aspectos.
O certo é que continuam fazendo parte deste espaço
urbano e selvagem. Mas selvagem em outra conotação. Selva de pedra, asfalto
esburacado, sem saneamento, mobilidade precária. Inseridos nesse caos urbano de
dois milhões de habitantes. Na maioria das vezes, na condição de
marginalizados. Moram na periferia, principalmente nas Zonas Leste e Norte de
Manaus.
Quando morei em Brasília, a FUNAI se localizava no
início das quadras 700. Há casas nessa área e muitas se transformaram em pensão
ou pequenos hotéis. Houve época em que o órgão abrigava índios do sudeste e
centro-oeste que vinham à FUNAI tratar dos interesses das suas aldeias. Há uma
praça por lá. Certa feita ouvi conversa de dois adolescentes. Um dizia que o
pai havia servido no Exército, em Manaus. O jovem gostara muito daqui. O outro
perguntou se havia muitos índios na nossa cidade. Vendo um grupo de pataxós da
Bahia, conversando na praça respondeu: “Aqui
em Brasília tem mais”.
Galdino
Jesus dos Santos, um líder da etnia pataxó, foi queimado vivo
enquanto dormia em um abrigo de ônibus nessa área. O crime foi praticado por
cinco jovens brasilienses. Ironia: era 19 de abril de 1997. Dia do Índio.
segunda-feira, 17 de abril de 2017
domingo, 16 de abril de 2017
sábado, 15 de abril de 2017
sexta-feira, 14 de abril de 2017
Sobre a verdade
CONHECEREIS
A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ. João, 8:32 – A verdade não existe. É uma
abstração criada por algum filho da puta mentiroso.
Só a
dúvida liberta!!!
(João Sebastião)
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Linguagens, vogais e consoantes
João Bosco Botelho
As evidências mostram que os elementos
formadores das linguagens, nas quais estão incluídas as que tratam da
fantástica capacidade de escrever em muitas língua, tanto descrevendo o objeto
visível quando na ficção, estão numa dimensão pouco compreendida.
A coisa (ou as coisas) que estruturou as
linguagens é física.
Se as áreas cerebrais responsáveis estão
danificadas não é possível a expressão das linguagens. Isso significa, sem
nenhuma dúvida, que o conjunto formador que gera as linguagens não se dá sobre
o nada. As estruturas nervosas responsáveis pela intercomunicação entre a
memória, a linguagem, os sentidos e o social se ligam, no cérebro, por meio de
bilhões de sinapses (ligações entre as células cerebrais ou neurônios). É a
prisão mental de cada um! É a jarra de Pandora que construiu na oralidade e
continua brotando, na linguagem escrita, os infortúnios e esperanças da
humanidade.
Quando danificados nos traumas cranianos ou pela
cirurgia, em animai de experimentação, alguns centros neurológicos específicos relacionados
às linguagens alteram o comportamento emocional e emites sons em desacordo com
a necessidade daquele momento: expressões de sono, agressividade e medo ou
fazer o animal assumir posição de cópula ou de choro. Sob essa comprovação, há
de existir algum tipo de coerência funcional em nível celular, ligando o ser ao
mundo, transcrito no ato de escrever. Logo, a capacidade individual de sentir e
expressar as emoções nas linguagens, inclusive mentiras, nasceram em consequência
das relações do ser no mundo.
Vez por outra, o lento desvendar das
complexas estruturas das linguagens avança apoiado no estudo dos achados
acidentais. Nesse sentido, foram descritos dois casos clínicos, na literatura
especializada, relacionados com os núcleos cerebrais da linguagem, atendidos
por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do
Hospital Maggiore, Bolonha, na Itália.
No primeiro, um homem com 62 anos, depois de
sofrer um derrame cerebral (ruptura de artérias ou veias no cérebro lesando
maior ou menor quantidade de tecido), não conseguiu mais escrever as vogais; as
palavras eram escritas em perfeita simetria com o pensamento expresso oralmente,
porém só com as consoantes. O paciente não conseguia simbolizar as cinco
letras. Essa publicação impõe a certeza de que a escolha dos caracteres, para
compor a linguagem escrita, está contida em segmento específico do cérebro.
O segundo relato diz respeito ao paciente do
sexo masculino, 32 anos, norte‑americano, também após isquemia cerebral (ao
contrário do derrame, as artérias se contraem, também determinando danos ao
tecido encefálico), perdeu a familiaridade com a língua materna, o inglês, e
passou a acrescentar vogais às palavras, resultando num sotaque escandinavo. A
cura do distúrbio ocorreu na medida da recuperação da área cerebral danificada.
É precisamente nessa convergência, entre o
físico presente na estrutura cerebral, oriundo de uma memória sociogenética, que
ocorre a maravilhosa materialidade do real e do abstrato, capaz de nominar, desvendar,
criar e transformar o objeto.
Por essa razão não existe discurso sem a
linguagem impregnada do saber acumulado historicamente. Nesse contexto, as
gramáticas são, na essência, ideológicas, porque expressam tipos diversos de
posses do real, onde o uso de vogais e consoantes são partes da relação do ser
no mundo.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 12 de abril de 2017
terça-feira, 11 de abril de 2017
Gravador metido a besta
Pedro Lucas Lindoso
Sou um homem do século passado
e contemplo esses jovens nascidos ou que se tornaram adolescentes no novo
milênio com admiração e respeito.
Admiração, porque vejo que
eles já nascem conectados e familiarizados com a mais sofisticada high tech. E fazem uso dessas novas
tecnologias com a mesma acuidade com que minha geração abria um estojo de lápis
e canetas esferográficas para fazer provas em papel almaço.
Respeito, porque não posso
prescindir de seus conhecimentos dessas tecnologias para sobreviver. Inclusive,
profissionalmente. Os advogados hoje só podem fazer seus protocolos judiciais
eletronicamente. Ou virtualmente, como se diz. E mesmo após treinamentos e
cursos de peticionamento eletrônico, o sistema precisa de manutenção. Há ajustes
a serem feitos eventualmente nos computadores dos usuários.
Quando menino, a coisa mais
moderna que tinha em nossa sala de visitas era uma eletrola, que comportava
vários LPs a serem tocados sucessivamente. Para quem não sabe, LP ou long play
são esses discos de vinil de cor preta que ainda circulam por aí, entre
saudosistas e colecionadores.
Vi, admirado, a chegada e a
grande utilização do FAX, hoje objeto considerado do tempo dos Flintstones.
Uma celebridade dizia outro
dia na TV que no início de carreira dava muitos autógrafos. Hoje só querem
“selfies”. E haja fotos! E por falar em TVs, as de antigamente ficavam
desajustadas ou sem sintonia na horizontal e na vertical. Usava-se até Bombril
para sintonizar melhor! Sintoniza aí a TV, menino! Ouvi muito isso. Para os que
não sabem o que é sintonizar, trata-se de ajustar a frequência de ressonância
da TV ou do rádio ao comprimento da onda transmitida pela estação emissora.
Tive que aprender isso em Física para poder passar no Vestibular, outra coisa
que parece não existir mais.
Quando me casei, há mais de
trinta anos, um dos presentes mais bem recebidos foi uma secretária
eletrônica, comprada na Zona Franca de Manaus.
Um sobrinho adolescente e
nascido já no século 21 estava curioso em saber o que era uma secretária
eletrônica. E eu lhe disse:
– Era um gravador metido a
besta, que atendia as ligações de telefone fixo. Não havia celular! Coisas do
século passado!
domingo, 9 de abril de 2017
Manaus, amor e memória CCCXI
sábado, 8 de abril de 2017
sexta-feira, 7 de abril de 2017
Bailarina
(para Carol Figueiredo)
um dia eu sonhei que
voava
e fiz uma canção
que dediquei a você
e nessa canção eu cantava
a leveza do corpo
bailando nas nuvens
da imaginação
veja você como o tempo
destrói
as lembranças
mas os sonhos resistem
e eu vou lhe fazer
uma nova canção
bailarina
ah, bailarina bailarina
hoje quem voa é você
o palco é pequeno pro
salto
e o abraço no ar é o
poema
que eu nunca escrevi
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A poesia é necessária?,
Carol Figueiredo,
Zemaria Pinto
quinta-feira, 6 de abril de 2017
As linguagens e a consciência em si
João Bosco Botelho
Um dos produtos finais da interligação do
cérebro à vida afetiva é reproduzido na consciência do ser em si mesmo, impondo
a incrível condição de depositário e herdeiro das gerações anteriores, transmitida
inicialmente pela oralidade e, depois, pela linguagem escrita.
A maior parte dos pesquisadores concorda que as
linguagens se manifestam por meio de estreitas correlações do cérebro, em
especial do neocórtex, com o objetivo de manter ativa a percepção do visível,
sentido, enfim das emoções vividas na interpretação do ato apreendido.
Na dimensão macroscópica (órgão), os pontos
cerebrais em torno dos quais se organizam as linguagens são: área de Broca, a
área motora responsável pelo controle fonético da expressão, e a zona de
Heschl, de natureza receptiva, onde a mensagem recebida é decodificada.
Os dois hemisférios cerebrais não participam
igualmente desse complicado mecanismo. A dominância do esquerdo, como nas
atividades manuais, é programada geneticamente. Por outro lado, sabe‑se que o
hemisfério cerebral direito não é desprovido de função linguística. Apesar de
não ter acesso à palavra, é capaz de manter a informação em torno de frases
curtas e pode decifrar a linguagem escrita.
Sem que possamos estabelecer as causas, o
hemisfério direito, mesmo anatômico e funcionalmente menos adaptado para
exercer o domínio da linguagem, poderá substituir o esquerdo, no caso de uma
lesão irreversível, antes da idade de cinco anos.
Talvez essa similitude que pode se expressar a
partir da necessidade da linguagem suprimida por causas não congênitas (por
exemplo, após um trauma no crânio), esteja relacionada com certos aspectos
moduladores do discurso que interagem com os dois hemisférios cerebrais,
traduzidos na linguagem escrita, com os advérbios. Do mesmo modo, é razoável pressupor,
que a evolução genética determinou modificações, nos níveis celulares e
moleculares, capazes de ajustar as funções cerebrais às necessidades sociais.
Essa afirmativa é incontestável em outras partes
do corpo. Por exemplo, a diminuição gradativa da arcada dentária em função do
menor uso do esforço mastigatório. A partir do uso do fogo, mais ou menos em
torno de trezentos mil anos, ocorreu um conjunto de fatores, incluindo o
cozimento dos alimentos, tornando‑os mais macios, ocasionando a redução da
potência da musculatura mastigatória e, em consequência, do tamanho e número de
dentes. Essa seria uma explicação dos terceiros molares ou sisos permanecerem inclusos.
Infelizmente, a maior parte do cérebro
permanece desconhecida no nível molecular e dificulta o estudo nos moldes do
método experimental.
Não é mais adequado pensar nas linguagens
ligadas somente às trocas metabólicas físico‑químicas, no nível biológico‑molecular,
ou na exclusiva origem social. É tempo de interagir a natureza, o social e a
História à genética. A força mental que impulsiona a repetição e molda a ficção
é muito forte para ser exclusivamente sociocultural.
Parece que o conjunto das reações neurológicas ligando
o ser ao objeto, construindo a consciência do ser em si, é consolidado nas
mentalidades ─ memorizado e reproduzido ─ no ritmo das necessidades pessoais requeridas
no processo societário.
O ser é biológico e social: não existem seres sem
as relações de trocas, essas não seriam possíveis sem eles. Logo, as ações
apreendidas e interferindo na consciência em si, em especial as linguagens, devem
estar contidas no mesmo processo.
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História da Medicina,
João Bosco Botelho
quarta-feira, 5 de abril de 2017
terça-feira, 4 de abril de 2017
1º de abril
Pedro Lucas Lindoso
Comecei o dia da mentira
ligando para um colega advogado em Brasília. Disse-lhe que estava chegando para
conversarmos sobre uns processos no STJ – Superior Tribunal de Justiça. Ele me
disse que se não fosse 1º de abril ele me buscaria no aeroporto. Os meus amigos
e familiares já sabem que eu gosto de pegadinhas nesse dia.
Há várias versões sobre a
origem dessas brincadeiras. Uma delas diz que o 1º de abril surgiu na França.
Lá os trotes são conhecidos como “plaisanteries”.
Os mineiros propagam que o primeiro de abril no Brasil começou a
ser difundido em Minas Gerais. Houve uma revista chamada A Mentira, lançada
em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de dom Pedro, desmentida
no dia seguinte.
Lucinda Dias, professora
aposentada de Brasília, é socialista desde o jardim da Infância. Daquelas que
tem o retrato do Che Guevara na parede da sala. Lucinda sempre foi apaixonada
pelo Fidel Castro. Durante vários anos, no dia 1º de abril, telefonei para Lucinda
dizendo que Fidel havia morrido. Ela sempre caia na pegadinha.
Com Fidel morto, pensei em
matar o Putin. Não ia ter impacto. Ela não gosta dele. Liguei para Lucinda e
disse que tinham prendido o Lula. Ela começou a passar mal. É petista de
carteirinha. Logo tive que dizer que era mentira de 1º de abril. Nunca ouvi
tanto palavrão. Nem quando eu matava o Fidel.
Achei o trote interessante. E
liguei para o Almeidinha. É o oposto de Lucinda. Ainda bem que não se conhecem.
Militar reformado e ultraconservador, Almeidinha diz para todo mundo que é de
direita e detesta comunista. Odeia o PT, antes mesmo de o partido ser fundado.
Eis o diálogo:
– Você viu na televisão?
Prenderam o Lula.
– Usaram algemas? Pergunta o
Almeidinha.
Eu lhe disse que não. Não
houve necessidade. Foi tudo muito discreto. Almeidinha respondeu:
– Não acredito. Deve ser
mentira de 1º de abril.
Se nem o Almeidinha acredita
que o Lula pode ser preso é porque ele provavelmente não será.
Eu me divirto muito nesse dia.
Não deixo de curtir as “plaisanteries”, como dizem os franceses.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Lábios que beijei 69 (final)
Zemaria Pinto
Janaína de todos os nomes
Envelhecer limita-se com
apodrecer. Os lapsos de memória, as dores nunca sentidas, as referências
perdidas: a vida reduz-se a lembranças improváveis, sem nenhuma ordem, e nos
deixamos levar, sem mensurar as perdas, submetidos e submissos. Os nomes se embaralham,
as situações também. Celebro o vazio, quando deveria recordar as mulheres que
preencheram minha vida, esse oco sem conexão com os fatos, rostos que são
apenas uma mancha disforme, mãos que se tornam garras quando delas me acerco,
nomes sem sentido. Não há música possível, apenas o choro monocórdio dos corpos lacerados – não há sensualidade no sangue coagulado. Dão-me algo para beber.
Lentamente, as ideias se arrumam e as imagens formam algum nexo. O corpo nu à
minha frente é o da índia Janaína, exatamente como a vi adormecida milhares de
vezes, deitada sobre o braço direito, o esquerdo projetado para a frente, o
seio à mostra e a bunda à minha espera. Valda e Vilma, as irmãs ninfomaníacas,
me puxam para si e me machucam os testículos. Regina, Vera, Cleide e Márcia me
mordem o corpo que já não reage. Fabiana, a cleptomaníaca, Solange, Helen,
Catarina – suas mãos em mim não me tocam, passando como névoa pelo meu corpo
enrijecido. Os lábios proibidos de Rose roçam meus lábios e seu hálito é
gelado. Cida me amassa os músculos das costas, Ane sussurra uma oração sem
sentido e Renata me olha com olhos baços. Shirley bate no meu rosto e fala
palavrões que não escuto. Janaína flutua ao meu encontro, deita-se com
suavidade sobre mim, o seu corpo inteiro me cobre, me protege. Falando numa
língua que eu não compreendo, ela me lambe com bondade e afeto – o rosto, o
torso, os mamilos – e eu me esqueço de mim.
*Fim de Lábios que beijei*
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Zemaria Pinto
domingo, 2 de abril de 2017
Manaus, amor e memória CCCX
sábado, 1 de abril de 2017
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