domingo, 3 de setembro de 2017
sábado, 2 de setembro de 2017
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Canção do exílio agora
Zemaria Pinto
Olhando o marimenso à
minha frente
e a multidão que sob o
sol passeia,
minha lembrança voa muito
longe,
além da geografia, além
do tempo.
Vejo o teu rosto, então,
multiplicado
em cada rosto que me
passa rente,
e o espanto inicial,
grito abafado,
desliza de meus olhos
lentamente.
Guardado há tanto para o
reencontro,
de minha boca parte um
beijopássaro
em busca do teu
corpocontinente.
Na areia fina escrevo
estas palavras,
embora desejasse
eternizá-las
nos movimentos
dos ventos e das águas.
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A poesia é necessária?,
Zemaria Pinto
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
I Mostra de Poesia - da Praça para a Academia (fotos)
A Academia Amazonense de Letras regozija-se em apresentar esta I Mostra de Poesia – da Praça para a
Academia, trazendo para a Casa de Adriano Jorge os novos talentos da poesia
amazonense. É “mostra” porque não se trata de competição; e “primeira” porque
pretendemos que haja muitas outras. A praça é um lugar onde as pessoas se
encontram, mas é também um lugar de passagem. E foi numa praça que, em 1954, o
Clube da Madrugada – marcante movimento cultural liderado por jovens intelectuais
do Amazonas – foi fundado. Mais de 60 anos passados, a Academia abre suas
portas para receber os jovens de todas as praças.
Rosa Mendonça de Brito
Presidente da AAL
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| Presidente Rosa Brito abre os trabalhos. |
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| Ovacionado pelo público, o decano da Academia, poeta Thiago de Mello. |
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| A atriz Koia Refkalefsky, em participação especial, leu poemas de Anne Lucy e de Sálvia Haddad. |
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| Everaldo Nascimento. |
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| Grace Cordeiro. |
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| Gracinete Felinto. |
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| Inácio Oliveira. |
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| José t. Gonzaga. |
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| Miguel de Souza. |
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| Pollyanna Furtado. |
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| Rojefferson Moraes. |
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| João Feijão (Vibe Positiva). |
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| Anne Jezini. |
Fotos: Anny Lucy.
Participaram ainda: Anne Lucy, Sálvia Haddad, Saturnino Valladares e Celestino Neto.
Curadoria/Organização: Zemaria Pinto
Medicina pré-socrática e a Tekhne
João Bosco Botelho
No século 4 a.C., na Grécia, a Medicina se apresentava na
estrutura dos saberes que procuravam compreender a natureza visível e a invisível.
A profissão estava sedimentada em sistemas de aprendizado e reprodução que
influenciaram, profundamente, nos vinte séculos seguintes, os caminhos das
práticas médicas no Ocidente.
É possível ter sido depois das guerras médicas (490-479) que
a Medicina grega tenha atravessado esse notável desenvolvimento estrutural. A
partir dessa época, o médico aparece como intermediário na formação social e na
edificação do pensamento coletivo, iniciando a processo de ruptura entre a
forte influência dos imemoriais laços mágicos das ideias e crenças religiosas.
Concomitante, ocorreu maior aderência às propostas
pré-socráticas, especificamente, a dos filósofos jônicos, para a interpretação
da natureza por meio da Tekhne. O médico iniciou outra atuação: atuou na observação
dos sinais da natureza visível.
A Medicina se tornou essencialmente etiológica e aderiu ao
pensamento de Leucipo de Mileto: "Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas
todas (a partir) da razão e por necessidade". Este avanço de dimensões
gigantescas possibilitou estabelecer a ponte que ligaria, definitivamente, o
diagnóstico ao prognóstico.
Os elementos da natureza tornaram-se a medida de todas as
coisas!
Os conceitos normativos alcançaram os significantes da doença
como desvio do natural, do funcional e, em maior amplitude, mudança na physis
do homem em torno de cinco categorias:
– Universalidade-individualidade: todas as coisas têm a sua
physis própria, inclusive o homem com as suas partes, as doenças etc. O novo
conceito também está claro no livro "Sobre os Lugares e o Homem":
"A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina".
– Harmonia: na aparência e na dinâmica a physis é harmoniosa.
– Racionalidade: a natureza é racional em si mesma, o logos
no qual o homem se harmoniza está atado ao logos da natureza;
– Divindade: a physis é em si mesma divina.
A influência jônica foi tão grande que toda a literatura
médica dessa época que chegou até nós foi registrada em prosa jônica, apesar de
ter sido escrita em Cós, ilha de população e língua dóricas. Este fato só pode
ser explicado pela aceitação entre os letrados do avanço da cultura e da
ciência jônicas.
A preocupação em estabelecer um elo duradouro entre o binômio
saúde-doença com a natureza circundante está presente na introdução do livro Dos Ventos, Águas e Regiões, escrito no
século 4 a.C.: "Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder
assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus
efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto a sua
essência especificada e quanto as suas mudanças".
Sob esses argumentos, é possível entender que a Medicina
tenha iniciado o afastamento das crenças e ideias religiosas na Grécia do
século 4 a.C.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Desistiu de casar
Pedro Lucas Lindoso
Além do conhecido 11 de agosto, quando nós advogados
celebramos nosso dia, duas outras efemérides de agosto chamaram minha atenção.
Dia 13, dia do canhoto, e dia 15, quando foi celebrado o dia do solteiro.
Vamos começar pelos canhotos. Preconceito é algo odioso. Em
todos os sentidos e de todas as formas. Os ignorantes sempre perseguem todo
aquele que é considerado ‘diferente’ da maioria. Os canhotos, indivíduos que se
utilizam da mão esquerda para comer, escrever e segurar objetos, já foram ou
são motivo de discriminação.
Em Francês, “gauche” significa esquerdo, mas também pode
significar algo incorreto ou mesmo desajeitado. Na língua italiana, canhoto é
sinistro. Esquerda em Italiano é sinistra, o que também é pejorativo. A palavra portuguesa “canhestro”, que é
sinônimo de canhoto, também se apresenta como sinônimo de algo desajeitado ou
errado.
Em Espanhol, canhoto é “zurdo”. Muito cuidado para não
confundir “zurdo” (canhoto) com “surdo” em Português. Há o equivalente em
Espanhol “sordo”, porém o termo mais adequado é “deficiente auditivo”, assim
como em Português. É o que me explicou minha professora de Espanhol.
Quanto aos solteiros, melhor não opinar muito, pois pode ser
desastroso. Um jovem prestes a ficar
noivo leu em algum lugar que “As únicas pessoas realmente felizes são mulheres
casadas e homens solteiros”.
Eu lhe disse que evitaria opinar, pois poderia ofender minha
esposa. Mas lhe disse que casamento é sim uma prova de resistência física,
intelectual, moral e financeira. Mas que valia a pena.
Todavia, como advogado cabia lhe alertar que ao deixar de ser
solteiro, nunca mais poderá voltar ao “status quo ante”. Ou seja, jamais
poderia voltar a ser solteiro novamente.
E se eu me divorciar? Perguntou-me. Ficará divorciado,
respondi-lhe. E se ela falecer, serás viúvo, ora, ora. Solteiro, jamais.
O rapaz desistiu de casar! Pretende celebrar o 15 de agosto
até morrer.
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
domingo, 27 de agosto de 2017
Wilson das Neves (14/06/1936 – 26/08/2017)
O samba é meu dom
É no samba que eu vivo
Do samba é que eu ganho o meu pão
E é no samba que eu quero morrer
De baqueta na mão
Pois quem é de samba
Meu nome não esquece mais não
(Fragmento de “O samba é meu dom”, de
Wilson das Neves e
Paulo César Pinheiro)
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sábado, 26 de agosto de 2017
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Escolha do médico: elo de confiança
João Bosco Botelho
A doença não existe só em si
mesma; em certo instante, pode ser entendida como abstrata, por ser nominada e
classificada pelas pessoas, como história de longa duração.
A conjunção simultânea dos
sinais e sintomas que a doença determina no corpo humano, impõem a observação
pelo médico ou outro curador da doença como mal. Essa situação assume na
prática como o ponto de partida para retirar as doenças das construções
teóricas abstratas.
A consequência da
enfermidade, entendido como mal que deve ser extirpado, constitui o principal
pilar que alicerça a abordagem do doente, estruturando o elo de confiança entre
o enfermo e o médico, não somente como fenômeno biológico, mas também parte da
totalidade sociocultural de ambos, do curador e do doente. O controle das
endemias sempre esteve diretamente ligado a essa realidade. O historiador
Jaques Le Goff é enfático: "A doença não pertence somente à história
superficial dos progressos científicos e tecnológicos, mas à história profunda dos
saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, instituições,
representações e mentalidades."
Um dos exemplos mais
marcantes é a hanseníase. Essa doença começou a desaparecer da Europa, no
século 17, trezentos anos antes do início do tratamento efetivo. Aqui reside um
dos pontos cruciais do atual entendimento da medicina enquanto pratica social:
é preciso que as escolas de medicina repensem as metodologias para que os
alunos compreendam a dimensão social da doença.
A análise cultural das
doenças pode contribuir também para esclarecer como se processa a escolha que o
doente faz na procura do médico ou do curandeiro, consolidando o elo de
confiança. Em determinadas culturas
distantes milhares de quilômetros entre si, esse encaminhamento é concretizado
de modo semelhante, isto é, as pessoas se baseiam no sistema referencial dos
amigos e não somente em indicadores objetivos do êxito profissional.
A milenar crença de que a
doença é castigo divino ainda é marcante em muitas culturas. Após a escolha do curador-popular, não
necessariamente do médico, as práticas se distanciam rapidamente. Em certo
sentido, em especial na construção do elo de confiança, a medicina popular pode
ser mais competente que a medicina das universidades. O médico tende como
resultado da sua formação desvinculada do sociocultural, abordar exclusivamente
a doença em compartimentos corpóreos, enquanto que o curador popular se envolve
com o dominante cultural e o utiliza no objetivo de curar.
A compreensão das
enfermidades como forma de desvio social foi teorizada por Talcott Parsons
(1902-1976), em 1951, foi marcada pelo etnocentrismo americano da década de
cinquenta que acabou legitimando os Relatórios Flexner (Abraham Flexner,
1856-1959), publicado em 1910, que fechou mais da metade das faculdades de
medicina e reformulou completamente o ensino da medicina nos Estados Unidos, ao
defender: "O paciente tem a obrigação de buscar ajuda técnica competente
(fundamentalmente, um médico) e cooperar no processo de recuperação".
Essa conduta fortaleceu a medicina
e a morte hospitalar e fixou relação de absoluta dependência entre o doente e o
médico. É evidente que o estudo de Parson é inaceitável nos países onde a
maioria esmagadora da população não tem acesso à medicina hospitalar.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
terça-feira, 22 de agosto de 2017
Izaura, com z, a chef de cuisine
Pedro Lucas Lindoso
As pessoas que vão trabalhar
em nossa família costumam ficar para sempre. Eu tinha um mês de idade quando Dária
Nascimento, a Darinha, foi parar em nossa casa. Chegou a conhecer meus filhos e
morreu na nossa casa. Antonieta, a Teté, morou com a gente e depois foi
responsável por ajudar minha tia Ana Maria a criar minhas primas. É minha
comadre querida.
Outra figura importante da
família é Izaura. Sem jamais ter cursado o “Cordon Bleu” tornou-se a nossa
grande “chef de cuisine”. Filha de dona Adalgisa, já falecida, que um dia lhe
ensinou:
– Minha filha, não trabalhe
para gente sem educação. Os patrões acham que escolhem os empregados. Na
verdade nós é que escolhemos os patrões. Não vale a pena trabalhar para gente
sem eira nem beira.
Um dos orgulhos de Izaura é de
ter cozinhado para banqueiros e grandes empresários amigos de meus tios, em São
Paulo. Faz questão de lembrar já ter cozinhado para deputados, senadores e até
para o ex-governador José Lindoso.
O falecido marido de Izaura,
seu Oswaldo, trabalhava na Rede Globo-SP. Era eletricista. E, claro, conhecia
muitos artistas e celebridades. Muitos globais provaram os quitutes de Izaura. Os
elogios nem sempre repassados por seu Oswaldo, que “monopolizava” as amizades
com os “famosos”.
A Editora Marco Zero publicou
uma série de livros de receitas. “100 Comidinhas para comer com cerveja” foi um
magnífico sucesso editorial. Elaborado pela grande escritora e querida cunhada
Maria José Silveira. Há um consenso na família de que o significativo resultado
de vendas deve-se à participação de Izaura com sua famosa receita de
“batatinhas”.
O lado libanês da família já
aprovou com louvor os “charutos” da Izaura e na questão das sobremesas o pudim
de claras é imbatível.
Em minha opinião, a grande
especialidade da Izaura é o “cozidão”. Só ela sabe o ponto correto de cada
verdura, de modo a não ficar uma mais cozida que a outra. Administrar a correta
textura dos legumes é só para uma “chef" como Izaura.
Dona Adalgisa tinha razão.
Para ser uma “chef de cuisine” é melhor escolher a patroa certa do que cursar o
tal de “Cordon Bleu”. Acho até que Izaura pode ganhar o master chef. É só se inscrever!
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
domingo, 20 de agosto de 2017
sábado, 19 de agosto de 2017
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
exercício da crueldade
Zemaria Pinto
palavras são serpentes,
são navalhas
são balas que explodem
dentro do peito
de quem ouve e de quem
fala!
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Zemaria Pinto
A medicina de Hipócrates
João Bosco Botelho
Hipócrates, segundo Sorano de Éfeso, nasceu na ilha de Cós,
em 460 a.C., filho do médico Heráclides, aprendeu os segredos da prática médica
com o pai e nas viagens a Tessália, Trácia, Líbia e Egito.
Esse período admirável da Medicina grega, do qual Hipócrates
foi o mais importante representante, compreendeu cinco centros de cultura
médica que receberam os respectivos nomes da cidade onde funcionaram: Cós,
fundada por Hipócrates, em 440 a. C., Rhodes, Cnido, Crotona e Agrigento.
Devido à importância fundamental na história da Medicina, a
Escola de Cós acabou absorvendo a denominação de medicina hipocrática em menção
honrosa a Hipócrates.
O sucesso da Escola Médica de Cós, deve-se ao fato de ter
sido onde Hipócrates e seus seguidores estruturaram as bases da Medicina grega
na busca da materialidade das moléstias. Nesse núcleo fervilhando de novas
propostas para sair das práticas de curas fortemente atadas às crenças e ideias
religiosas oriundas do Egito e da Mesopotâmia, tornou-se responsável pela
primeira teoria laica para explicar a saúde e a doença – a teoria dos Quatro
Humores –, publicada pelo genial Políbio, o genro de Hipócrates. A proposta foi
tão consistente que se manteve em discussão até o final de século 18, entre os
luminares da Medicina ocidental.
A medicina hipocrática pode ser compreendida por meio das
obras publicadas pelos médicos da Escola de Cós responsáveis por dezenas de
textos com atualidade até hoje, quando as práticas médicas iniciaram o processo
de separação das crenças e ideias religiosas. A cura deixou de ser um atributo
exclusivo dos deuses protetores ou vingadores para ser explicada pela Medicina,
onde era possível e preferível que o homem agisse sobre o outro homem doente,
para alcançar a melhoria da saúde.
A estrutura teórica da Medicina hipocrática está contida no
pensamento filosófico grego pré-socrático, notadamente, na teoria dos Quatro
Elementos de Empédocles (água, terra, ar e fogo). Posteriormente, foi incluído
no mundo das ideias platônico-aristotélicas.
Dessa forma, é possível estabelecer o marco fundamental da medicina
hipocrática: só é possível entender a saúde e a doença se o homem for estudado
em conjunto com o ambiente onde vive.
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Mês do cachorro louco
Pedro Lucas Lindoso
Tia Idalina é uma pessoa supersticiosa. Aliás, muito
supersticiosa. Ela pede, encarecidamente, às pessoas que evitem relatar
qualquer superstição. Ela explica que acaba adotando a prática e isso é muito
cansativo, segundo nos explica.
O mês de agosto é um sofrimento para Idalina. Procura não
sair de casa. Recolhe-se a uma espécie de retiro espiritual. Diz que é para
evitar o azar que acredita impregnar especialmente o mês de agosto. Titia se
abastece de pé de coelho, trevo da sorte, amuletos, sal grosso e até um dente
de alho pode ser encontrado junto aos seus pertences.
Ontem telefonei e a secretária me disse que ela não atende
telefonemas no mês de agosto. Mas faria concessões, incluindo a minha pessoa.
Argumentei com Idalina que não via razão para tanto
sofrimento no mês de agosto, no que ela me replicou:
– Só para lembrar: em agosto houve o suicídio de Getúlio
Vargas, a morte da Princesa Diana, Elvis Presley e de Juscelino Kubitschek.
Todas me abalaram profundamente, por motivos diversos. Um horror! Em 1914, no dia 1º de agosto, teve início a
1ª Grande Guerra Mundial. Em 1945, mais de 200 mil pessoas morreram em
Hiroshima e Nagasaki, completou. E você acha pouco?
Disse-lhe que o meu problema com agosto é que não há feriados
para a gente descansar e passear. Além disso, em Brasília costuma ser muito
seco e em Manaus faz muito calor.
Segundo meu colega Chaguinhas, foi entre os romanos que o mês
de agosto começou a ser considerado azarento, embora não se saiba exatamente o
motivo. Já aqui no Brasil, com a influência dos portugueses, essa crença chegou
e se espalhou. Daí o dito popular “casar em agosto traz desgosto”.
Pergunto a uma amiga veterinária e muito culta por que agosto
é o mês do cachorro louco. Ela me explica:
– No mês de agosto, a concentração de cadelas no cio aumenta
bastante devido às condições climáticas. E quando as cadelas estão no período
fértil, os cachorros ficam loucos (mesmo!) e brigam para conquistar a fêmea.
Essa luta feroz entre os machos em busca da fêmea faz com que a raiva, doença
transmitida pela saliva do bicho, se espalhe mais.
Então pessoal, vamos vacinar a cachorrada, porque agosto é
mês de cachorro louco.
domingo, 13 de agosto de 2017
sábado, 12 de agosto de 2017
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
romança
Zemaria Pinto
2° movimento (noturno)
havia o vento que
desvendava
suavemente a pele morena
nave noturna
suavemente
havia a água que
transbordava
alucinante a dourada
fúria
colo de espuma
alucinante
havia a terra que
aconchegava
dilacerante a fértil
ravina
vale sagrado
dilacerante
e havia o fogo que
iluminava
serenamente o fugaz
momento
gozo profundo
serenamente
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Zemaria Pinto
Deuses, deusas e médicos na Grécia
João Bosco Botelho
As relações da Medicina com a compreensão mítica da realidade
se perderam no tempo. É impossível separar as ideias míticas do entendimento do
homem sobre a saúde e a doença.
Das primitivas relações do homem com outros animais,
posteriormente substituídas pelas relações com a terra, surgiu empiricamente o
uso das plantas na busca da saúde. A utilização do vegetal, indispensável à
sobrevivência do homem, se processou em complexa compreensão mítica, que foi
marcada pelas explicações que se sucederam nos milênios da origem primeira e do
destino final do ser humano. Elas evoluíram da epopeia de Gilgamesh, dos
babilônios, à teoria do Big Bang, dos modernos astrofísicos, passando pela gênese
judaico-cristã e pela Yebá Beló da lenda desana da criação do Sol.
Apesar da melhor compreensão que temos hoje das metamorfoses
do pensamento mítico, a dificuldade de interpretação aumenta na proporção que
recuamos no tempo. Entretanto, parece ser a partir do século 6 a.C., na Grécia,
que chegou o material historiográfico suficiente para traçar, com alguma
segurança, um perfil da Medicina da mitologia.
De acordo com a mitologia grega, a Medicina começou com
Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo foi considerado
como o deus protetor dos guerreiros, posteriormente, foi identificado como
Aplous ou aquele que fala verdade. Ele agia purificando a alma, por meio das
lavagens e aspersões, e o corpo, com remédios curativos. Era considerado o deus
que lavava e libertava o mal.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio, recebeu educação do
centauro Quirão para ser médico. A
escolha do centauro mítico para dirigir a educação de Asclépio se consolidou
porque ele dominava o completo conhecimento da música, magia, adivinhações,
astronomia e da Medicina. O centauro, além destas habilidades, tinha
incomparável destreza, manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.
O centauro Quirão além de ter educado Asclépio, na Medicina,
também orientou Jasão na arte de vencer os mais incríveis obstáculos, e
Dionísio, o deus da vegetação e do vinho, conhecedor dos mistérios da religião,
do êxtase e da embriaguez.
Hipócrates, talvez para evitar o mesmo destino de Sócrates,
não abrigou o confronto com os deuses e deusas do panteão grego, em especial,
com o deus Asclépio, o mais importante deus curador daquela época. Ao
contrário, a Escola Médica de Cós, na ilha de Cós, no século 4 a.C., onde foi
produzida a maior parte dos textos que possibilitaram o avanço na Medicina em
direção à melhor compreensão da saúde e da doença, se consolidou ao lado do
maior templo grego dedicado ao Deus Asclépio.
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quarta-feira, 9 de agosto de 2017
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Papai...
Pedro Lucas Lindoso
Mais uma vez chega agosto e se comemora o dia dos pais. Para
muitos brasileiros é um dia de tristeza e constrangimentos. Há milhares de
pessoas que não foram reconhecidas por seus pais. Na Amazônia, há os filhos de
boto.
Reza a lenda que o boto sai dos rios e se transforma em um
garboso rapaz. Veste-se de elegante traje branco e sempre usa um chapéu para
cobrir a narina do topo de sua cabeça. Seduz moças desacompanhadas, engravidando-as.
Daí o costume de dizer que, quando uma mulher tem um filho de pai desconhecido,
é “filho do boto”.
Conversando com meu amigo Chaguinhas sobre filhos e a função
de ser pai, ele vai logo sendo sarcástico e começa a filosofar:
– Meu amigo, acho que a gente nunca na verdade se torna um
filho adulto. Apenas se aprende como atuar em público, geralmente de maneira
hipócrita e/ou dissimulada.
Os filhos serão sempre filhos. Os filhos de boto aprendem a
se virar e desde cedo lutam pela sobrevivência. Ribeirinhos ou urbanos vão à
luta somente com a ajuda materna, que é a que mais importa.
Enquanto os filhos de boto não recebem nenhum carinho e
orientação dos pais, os filhos legítimos e reconhecidos podem ser vítimas de
muita proteção. O desvelo de muitos pais pode ser um mal para os filhos.
Contou-me que um colega seu, professor de uma faculdade de
Direito em Brasília, recebeu a visita de um pai de aluno, questionando a baixa
nota de seu filho, acadêmico de direito. O mais absurdo é que o pai do
“garotinho estudante de direito” era um advogado, com atuação em uma
cidadezinha do interior de Goiás.
O professor argumentou ao colega pai que o rapaz deveria vir
falar com ele pessoalmente e pedir a revisão da prova. Afinal, já era um
adulto. Era preciso aprender a atuar em público. Em breve, seria um advogado!
O rapaz se formou. Logo após a formatura o pai faleceu. Ele
teve que cuidar do inventário. Ao se dirigir ao juiz, ao invés de qualificar o
de cujus como FULANO DE TAL, etc., começou a petição assim:
Papai...
domingo, 6 de agosto de 2017
sábado, 5 de agosto de 2017
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
romança
Zemaria Pinto
1° movimento (modinha)
reza, vela, terra nua,
lembranças de
nem-me-lembro,
festa de febre, louvor
para os peixes de
setembro.
abre-se o rio numa flor,
o azul veludo vigia,
desce a negra com seu
manto:
água, vaga melodia,
espanto, sussurro, canto,
desejo, espasmo, agonia
– explode em carne meu
verso
pra
fazer nascer o dia!
sobre o cimo do universo,
despida de linho ou lã,
a lima de aço flutua
nos fumos da antemanhã.
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Zemaria Pinto
O mau-olhado
João Bosco Botelho
Não há dúvida da universalidade da crença do mau-olhado. O
inesquecível Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário
do Folclore Brasileiro, sustenta a antiguidade e a presença do mau-olhado
nos cinco continentes. É também reconhecido em algumas regiões brasileiras como
olho de seca pimenteira.
O grande mestre da mitologia grega, Junito Brandão, assinalou
a origem pré-olímpica do mau olhado, explicando as mudanças na transição
greco-romana para absorver a concepção helenística predominante nos países
cristãos. Na mitologia grega, a imortal Medusa, com a cabeça coberta de
serpentes, possuía olhos com excepcional brilho e com olhar maligno que
transformava em pedra quem ousasse fixá-los.
Carlo Ginzburg interpretou do modo magistral os cultos
agrários, no século 17, em uma sociedade camponesa italiana. A crença no
mau-olhado era comum naquela comunidade e o tratamento só obtinha sucesso se
realizado por alguém com poderes especiais: o benandanti ou andarilho do bem. Em um dos processos do Santo Oficio
para punir o benandanti, no
depoimento de um dos acusados, está claro o entendimento do mau-olhado: O que
significa, pergunta o inquisidor, ter mau-olhado? E a jovem explica: nós
dizemos que têm mau-olhado as mulheres que secam o leite das mulheres que
amamentam e são também bruxas que comem as crianças.
As compreensões do mau-olhado são semelhantes e recebem nomes
de significâncias próximas: olho de seca pimenteira, malocchio, evil eye, bose blick, mal de ojo, olho grande e olho gordo.
Os relatos mantêm semelhanças: a pessoa atingida pelo mau
olhado sente, imediatamente ou após algumas horas, apatia generalizada, dores
no corpo e na cabeça, alterações na digestão, inapetência, irritação e
desânimo. Quando o alvo é criança, as consequências são mais intensas, podendo
incluir: sonolência profunda, olhos encovados e moleiras afundadas.
O mau-olhado é reconhecido como uma das doenças que devem ser
tratadas pelos curadores populares. Em algumas regiões brasileiras, o ritual de
cura continua sendo realizado com a ajuda de um ramo de arruda ou erva-doce
tirado do galho, semelhante ao registro de Luiz Edmundo, no Rio de Janeiro, no
século 18: “Todo mal que nesse corpo entrou; ar de névoa, ar de cinza; ar de
galinha choca, ar de cisco; ar de vivo em pecado; ar de morto excomungado; ar
de todo o mau-olhado; seja desse corpo apartado; Deus te desacanhe de quem te
acanhou; Deus te desinveje de quem te invejou”.
Alguns médicos observam no cotidiano, que certos doentes
portadores de determinados cânceres, evoluindo favoravelmente ao tratamento, ao
tomarem conhecimento de estar com essa doença, as complicações aparecem rápido;
inexplicavelmente, ocorre a piora irreversível e acabam morrendo mais rápido.
O conhecimento historicamente acumulado insiste na veracidade
do mau-olhado, sugerindo que as emoções, ainda pouco compreendidas pela
medicina, interferem no rumo de certas doenças e na saúde das pessoas.
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João Bosco Botelho
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Ganhar ou perder?
Pedro Lucas Lindoso
A ex-presidente Dilma em desastroso improviso afirmou:
“Ninguém vai ganhar, ninguém vai perder. Todo mundo vai perder”. O
pronunciamento “viralizou” na Internet. Muita gente se divertiu com isso.
Principalmente, os “coxinhas”.
O fato é que ela tinha razão. Muitos estão sendo
responsabilizados e há prejuízo para toda a Nação. Independentemente do viés
político. Todo mundo perdeu.
É verdade que muitas vezes ninguém perde e ninguém ganha.
Empata. Principalmente no futebol. Nicodemos é técnico de um time e foi
excursionar no interior. O presidente,
na verdade o “dono” do time pediu notícias. Mande por “whats app”. Nicodemos
que maneja o celular bem melhor que a Língua Portuguesa, mandou bala: ”Cheguemos,
descansemos, treinemos, almocemos, joguemos. Nem ganhemos nem perdemos. Empatemos.
Abraços. Nicodemos”.
Na vida parece que se perde mais do que se ganha. Às vezes
perdemos uma oportunidade e ganhamos outra mais adiante. Um rapaz de Parintins
me encontra no fórum e lamenta: “Nosso boi Garantido perdeu”. Eu lhe disse que
não se pode ganhar sempre. No ele retrucou: “Eu fico triste só até o fim do
ano. Quando chega janeiro eu me alegro porque sei que naquele ano que se inicia
meu boi vai ganhar.”
Parece que há mesmo certo rodízio. Só há dois bois.
Caprichoso e Garantido. O espetáculo é tão bonito que, parafraseando Dilma,
ninguém perde, ninguém ganha. Todos ganham. Principalmente a economia da cidade
de Parintins.
Por falar em ganhar ou perder, outro dia ouvi um relato envolvendo o comendador português
José Cruz. Fundador e presidente do
grupo Guaraná Magistral. O saudoso José Cruz liderava um grande número de
portugueses empreendedores aqui no Amazonas. Um belo dia adentram em seu escritório vários patrícios indignados
e esbaforidos. Davam notícia que um deles, conhecido comerciante manauara,
havia adotado a cidadania brasileira e não era mais português. Naquela época
não havia dupla nacionalidade como hoje. Foi então que o comendador Cruz
acalmou os ânimos exaltados dos portugueses:
– Portugal nada perde. O Brasil nada ganha.
A tirada do comendador foi genial. Todos ficaram tranquilos e
conformados.
Conclusão: o raciocínio da ex-presidente Dilma não foi tão
desastroso assim. Quem sabe um dia vamos mesmo estocar vento!
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