Amigos do Fingidor

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Aniversário de Manaus


Pedro Lucas Lindoso
    
O saudoso Senador Jeferson Peres escreveu o clássico Evocação de Manaus – como eu a vi ou sonhei. Editado pela Valer e creio com edições esgotadas.
Evocar significa trazer à lembrança, à imaginação. Evoca-se o passado ou até espíritos! Já avocar é chamar a si, atribuir-se. Nossa língua e suas armadilhas.
Ninguém soube usá-la tão bem quanto Manuel Bandeira em suas belas poesias. Daí, inspirado em seu poema “Evocação do Recife”, fiz a paráfrase “Evocação de Manaus”, que ora se republica em homenagem ao aniversário de nossa cidade sorriso.


EVOCAÇÃO DE MANAUS
Pedro Lucas Lindoso

Manaus
Não a Hong Kong amazônica
Não a Paris dos Trópicos dos exportadores da hévea brasileira
Não a Manaus dos aproveitadores
Nem mesmo a Manaus que aprendi a amar depois
– Manaus das indignações libertárias
Mas a Manaus sem história nem literatura
Manaus sem mais nada
Manaus da minha infância
A Rua Henrique Martins onde eu brincava de manja
e partia as vidraças da casa de dona Iaiá
Seu Pio era muito velho e usava roupas antigas
sempre de linho branco
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Boca de Forno!
Forno!

A distância, as vozes macias das meninas politonavam:
Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão

(Dessas quedas muitas
teriam caído no esquecimento...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em loja de turco!
Outra contrariava: Casa de família!
Seu Pio achava sempre que era loja do centro
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua Recife...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua Paraíba
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua Municipal
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era a Rua 13 de maio
...onde se ia ao cinema ver filme proibido
Rio Negro
– Rio Negro
Lá longe o bairro do Japiim
Banheiros de palafitas
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! O Rio Negro alagando as ruas do centro
E nos beiradões dos igarapés e igapós
os caboclos destemidos em canoas altaneiras

Novenas
Boi-bumbá
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Rio Negro
– Rio Negro
Rua 13 de Maio onde todas as tardes passava a tacacazeira
Com cuias, tucupi para tacacá
E o vendedor de cascalho
O de sorvetes
que se chamava picolé e não era industrializado
Me lembro de todos os pregões:
Tambaqui, pirarucu, sardinha e pacu
Dez ovos por um cruzeiro
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pela internet nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do caboclo amazonense
Ao passo que os intelectuais
O que fazem
É macaquear
A sintaxe dos brasileiros do sudeste
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam.
Manaus.
Rua Recife...
A casa de minha avó...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Manaus...
Minha avó morta
Manaus morta, Manaus boa, Manaus amazônida
como a casa de minha avó.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 2/4


Tenório Telles

Platão – crítica e imitação

A crítica nasceu com a Filosofia. Uma das primeiras reflexões sobre a poesia e a função do poeta na sociedade foi empreendida por Platão na sua obra mais expressiva, A República, escrita no século IV a.C. O julgamento do filósofo foi desfavorável aos artífices da palavra: considerados como meros “imitadores de imagens da virtude e também de tudo o mais sobre o que versam seus poemas e que não atingem a verdade” (PLATÃO, 2014, p. 389).
O foco da apreciação de Platão foi o autor da Odisseia que, sendo um imitador “por meio de palavras e frases” seria incapaz de colaborar para educar os homens e, assim, torná-los melhores. Outro pecado a justificar seu ponto de vista sobre a poesia, expressa na figura de Homero, deve-se ao fato de despertar, nos interlocutores dos textos poéticos, emoções capazes de ofuscar-lhes a razão:
Do mesmo modo, diremos que o poeta imitador cria uma constituição má dentro da alma de cada um, porque favorece o que ela tem de irracional e não discerne nem o maior nem o menor, mas ora julga grandes, ora pequenas as mesmas coisas, criando imagens vazias, mantendo-se, porém, bem afastado da verdade (PLATÃO, 2014, p. 396).

A severidade de Platão, motivada pela sua perspectiva utilitária da arte, resultou num posicionamento radical em relação ao poeta: o qual não deveria ser acolhido na cidade que imaginava (“governada por boas leis”), “pois ele desperta e nutre essa parte da alma e, tornando-a forte, destrói a razão” (PLATÃO, 2014, p. 396). Evidentemente, os critérios suscitados pelo autor de A República não eram estéticos, mas de caráter moral e político.
Essas primeiras reflexões já trazem os fundamentos que embasarão os debates sobre a natureza da arte, o sentido da criação – compreendendo o criador e a obra – e o seu papel social. E perpassando esses elementos, os critérios de julgamento e recepção dos objetos artísticos.

Arte e labor criativo

O texto em epígrafe, do poeta e crítico T. S. Eliot, retoma o discurso sobre o processo artístico em outros termos: entende a arte em seu sentido histórico e como labor criativo, que demanda dedicação e trabalho para ser apreendido. Isso significa que o artista é um sujeito que se constrói pelo esforço individual e como parte de uma tradição. Conhecê-la e apropriar-se de seu vasto repertório técnico e estético é imprescindível no processo criador e na renovação das expressões artísticas. Eliot (1989, p. 39) considerava que
nenhum poeta, nenhum artista tem sua significação completa sozinho. Seu significado e a apreciação que dele fazemos constituem a apreciação de sua relação com os poetas e os artistas mortos. Não se pode estimá-lo em si...

A perspectiva de Eliot sobre a cultura é diacrônica – em que passado e presente se imbricam como num jogo de espelhos em que um se reflete no outro, engendrando, assim, as possibilidades do futuro. Funde-se no outro, gerando um calidoscópio de formas e cores difusas, ambíguas e inapreensíveis – metáfora viva da arte. Esse ponto de vista do autor de A terra desolada faz parte de sua visão do fenômeno histórico e do fundamento estético que enforma sua produção poética (uma vez que a entendia como “princípio de estética”). A leitura da primeira parte do poema Quatro quartetos, intitulada “Burnt Norton”, é evocativa desse olhar sobre o tempo – compreendido como grandes fluxos superpostos que se autodeterminam:
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpetua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
(ELIOT, 1981, p. 199)

A cultura, a arte e a história constituem uma “totalidade” em movimento, em continuidade permanente – em que os fluxos temporais se imbricam, se amalgamam e fluem, assumindo formas e sentidos novos. Essa relação com a tradição, portanto com o passado, tensionada com o presente, desperta no escritor a consciência de que não é um astro desgarrado e nem é uma subjetividade fechada em si mesma, mas compreende-se situado na constelação dos criadores e “ferrageiro” do verbo: assim, situa-se, “para contraste e comparação, entre os mortos” (ELIOT, 1989, p. 39). O novo se funda sobre os alicerces do ontem – em que o hoje logo será ultrapassado pelo devir da grande máquina do mundo que torna tudo inapreensível e crepuscular.
Essa consciência não é um atributo imperativo apenas para o poeta, mas para todos os que se dedicam à palavra – seja o crítico, o professor, o autor: todos são chamados a refletir sobre as implicações estéticas e históricas de seus ofícios – sobretudo a “responsabilidade” como criadores e formadores, pois é inegável, sem descurar o aspecto estético, o caráter pedagógico das artes. O interesse pelo objeto artístico, como experiência de fruição da beleza, decorre da necessidade e do prazer experimentado pelos homens. Para Aristóteles (2011, p. 42), “A razão disto é também que aprender não sé só agradável para os filósofos, mas é-o igualmente para os outros homens, embora estes participem dessa aprendizagem em menor escala”.
O crítico, em particular, para levar a termo seu ofício, não pode prescindir do histórico, compreendido como o espaço das vivências, do aprendizado e repositório dos avanços técnicos, estéticos e dos conhecimentos. Inquisidor de seu tempo, portanto um contemporâneo, o crítico estende suas pontes entre as margens do grande oceanotempo da cultura, propiciando, como destaca Agamben (2002, p. 71): “um encontro entre os tempos e as gerações”.
A atividade crítica pressupõe uma atitude profissional e uma formação adequada para o seu exercício. Em se tratando de crítica literária, exige-se, como nos lembra Leyla Perrone-Moisés (2016, p. 68), “bagagem cultural e argumentos, e estes necessitam de um mínimo de fundamentação teórica, que só se adquire na prática de muita leitura ‘de’ e ‘sobre’ literatura... (e) requer formação e profissionalismo”.
O pacto da criação literária se estabelece por meio da relação do escritor com o leitor. O ponto de convergência entre os dois é o objeto artístico. O crítico literário, com seu conhecimento da tradição e domínio dos critérios estéticos e de legitimação da obra criativa, pode ajudar de forma construtiva na aproximação dos leitores dos textos literários e, assim, contribuir com sua formação. Isso esclarece a afirmativa de Eliot quando ressalta que o conhecimento do antigo e do novo é uma consciência que se exige do crítico e, ao mesmo tempo, é uma grande responsabilidade.
Crítico dos mais qualificados, Umberto Eco (2016, p. 272) considera que na definição da obra de arte “os valores (o ‘antes’ que está na origem da obra e o ‘depois’ ao qual se dirige a obra) só se resolvem em estrutura”. Como um corpus tecido com palavras, ideias e imagens, o objeto artístico pode expressar princípios contrastantes com a opinião do crítico ou ser afirmativo de posicionamentos preconceituosos. Nesse aspecto, é imperativa a capacidade de julgar do analista, que deve agir com distanciamento, honestidade e instrumentalizado de critérios estéticos claros. Eco problematiza a possibilidade de discordância em relação aos valores que enformam uma obra de arte, podendo contestá-la e apontar-lhe as fraquezas. A validade do objeto analisado é outra possibilidade e, por isso, conclui que
A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Cada um de nós, lendo uma obra literária, ainda que professe os critérios técnico-estruturais aqui expostos, deve e pode encontrar uma relação emocional e intelectual, descobrir uma visão de mundo e do homem. É justo que existam pessoas com a sensibilidade mais apurada que nos comuniquem as experiências de leitura para que possam se tornar nossas também (ECO, 2016, p. 272).



domingo, 22 de outubro de 2017

sábado, 21 de outubro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Platônica


Zemaria Pinto


ai, que já me arde a febre do desejo
volúpia de te ver, tocar, amavelmente
no ritual cotidiano das tardes mais banais

como não sonhar com teu colo pálido
e a sarda que se espalha
pelo teu braço infinito?

as minas de rosáceas do teu peito
espalham nervos na sala entorpecida
pela pressa de chegar de onde se vem

sempre – cotidianamente
a carne dos teus lábios
roçagando minha barba por fazer

a língua desfaz-se em fogo
adivinhando tua língua de silêncios
meu coração delira preces pagãs

a palavra – um convite? um carinho?
desaba dentro de mim
borboleta abatida a escopeta

um helicóptero sobre minha cabeça
cavalga walkírias & fúrias
fim do expediente

(amor? amor um cacete
você não existe
o tesão não resiste

você não precisa saber
que a vida não vale nada
sem você!)

Concerto na Academia celebra a obra de Telemann



Possibilidade de uma ética pré-social



João Bosco Botelho
 
É razoável pensar a Medicina e o Direito como partes fundamentais da ontogenia, ambas voltados à valorização da vida em torno da ética e da moral, estruturando os bons resultados: os agentes da Medicina controlando a dor e empurrando os limites da vida e os agentes do Direto construindo mecanismos sociais e políticos para evitar a antijuricidade. 
A característica universal da ação moral, citada por Kant; isso é, a busca incessante para que o comportamento humano estivesse sempre ao lado da virtude, ultrapassa as relações sociais em si mesmas. Não é impertinência pensar que esse desejo humano, desde um passado impossível de precisar, de valorizar a virtude como antagonismo ao vicio, seja um processo sociogenético gerado ao longo da humanização, ligado à sobrevivência desde os ancestrais mais distantes.
Incontáveis culturas, nos quatro cantos do mundo, pelo menos desde os primeiros registros de natureza religiosa e laica, continuam lutando para instrumentalizar regras valorizando a ética junto da moral como características insubstituíveis e universais, como genialmente Kant descreveu, da condição humana.
É possível articular um pensamento teórico entendendo esse conjunto como pré-social, isto é, inserido na herança genética, ao longo da ontogenia, resultando na existência de uma ou mais memórias-sócio-genéticas (processo teórico para explicar alguns aspectos da organização social), ligadas à valorização da virtude, da moral, da ética, como instrumentos para adequar a sobrevivência coletiva e superar os contrários que dissolvem sem reconstruir. Simultaneamente, essas memórias sociogenéticas (MSGs) também interferem na manifestação pessoal e coletiva do desprezo ao vício, que corrompe e compromete a sobrevivência.
Esse conjunto organizador social presente nas MSGs, vinculado à sobrevivência e ao ajuste ético-moral, no processo da ontogenia, amparando a vida pessoal e coletiva, claramente desprezando o vício (aqui compreendido como oposição ao ético-moral, à virtude) se manifesta socialmente por meio de categorias metamórficas, também presentes nos cinco continentes, entre culturas que nunca mantiveram contato, amparando a sobrevivência pessoal e coletiva, com forte participação da Medicina e do Direito. 
É difícil atribuir a atávica busca da virtude somente às relações sociais!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Manaus, terra dos barés


Pedro Lucas Lindoso


Tia Idalina é a mais ilustre amazonense dos moradores de Copacabana. Pelo menos uma vez por mês convoca amigos, sobrinhos e conhecidos de Manaus para um tacacá. Compra tucupi goma e jambu de uma senhora paraense moradora de Quintino, subúrbio do Rio de Janeiro.
Estava por lá no último tacacá. O assunto era o aniversário de Manaus. Tia Idalina se lembrou de uma grande comemoração. E nos contou:
– Eu era menina quando se comemorou os 100 anos de Manaus. 24 de outubro de 1948. Fiquei abismada quando soube agora que a cidade vai fazer 348 anos! Então liguei para Etelvina Garcia. Fiquei aliviada. Ainda não estava caduca. Ela, grande conhecedora de nossa História, confirmou as comemorações. Explicou-me que em 24 de outubro de 1848 não só Manaus, mas também Santarém e Cametá foram elevadas à categoria de cidade, por lei advinda da Assembleia Legislativa da Província do Grão Pará!  A Província do Amazonas só seria criada em 5 de setembro de 1850.
– Eram vilas e tornaram-se cidades! E completou lembrando que a origem de Manaus foi o forte de São José do Rio Negro. Não se sabe o dia nem mesmo o mês da construção do forte. Mas o ano é 1669. Daí a celebração dos 348 anos! Uma mescla de datas e celebrações.
Um dos convidados, que obviamente não era amazonense, questionou se éramos manauenses ou manauaras. Teria ouvido dizer que manauaras eram “os que ficavam mais perto dos índios” e que manauenses “eram os mais urbanos”.
Tia Idalina quase desmaiou com a imbecilidade posta na conversa. Alguém subitamente foi se socorrer de um dicionário. Trouxe o dicionário Houaiss, hoje mais festejado que o Aurélio. As duas formas são aceitas. Substantivo comum de dois gêneros. Relativo ou pertencente à Manaus “o que é seu natural ou habitante”.
Fui instado a opinar. Pedi desculpas ao carioca desavisado e disse aos convivas que já ouvi outras baboseiras procurando diferenciar manauara de manauense. Eu prefiro manauara. O jornal Acrítica usa manauense. Historicamente somos todos amazonenses. Os dicionários estão, obviamente, corretos, ambas as formas são aceitas.
Mas na verdade, Manaus é “terra dos barés, dos igarapés, rios colossais”, como diz a velha canção que aprendi no jardim da Infância Visconde de Mauá.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 1/4


Tenório Telles


Resumo
Este artigo se estrutura como uma reflexão sobre a crítica e a criação literária, considerando a palavra como fundamento do labor criativo e instrumento do escritor no seu processo de concepção e representação do mundo. Busca-se na tradição, no sentido atribuído a ela por T. S. Eliot, a compreensão para o trabalho do crítico – sua responsabilidade e atributos teóricos como condição para o exercício da compreensão e julgamento do texto literário. Como uma interlocução reflexiva, referencia-se no diálogo com estudiosos e poetas que refletem sobre a experiência criadora e sua escritura.

A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de grande esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico... (e) implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença.
T. S. Eliot

Introdução
O poeta João Cabral de Melo Neto (2010, p. 335), no poema “O ferrageiro de Carmona”, discute o processo criativo e, ao mesmo tempo, expressa seu ponto de vista sobre seu labor poético. A partir da arte do “ferrageiro”, o autor pernambucano problematiza duas concepções sobre a arte de criar ou malhar o ferro. O texto se constrói como um diálogo entre o eu lírico e o ferreiro de Carmona, que informava de um balcão seu conhecimento sobre a técnica de dar forma a um artefato metálico:

Aquilo? É de ferro fundido,
foi a fôrma que fez, não a mão.
(...)
Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?
Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.

Apresentadas as duas abordagens sobre o fazer artístico, desdobram-se as explicações sobre o fundamento, o significado e a perspectiva do artista em relação à sua criação. O ferrageiro esclarece que “o ferro fundido é sem luta / é só derramá-lo na fôrma”. Em contraposição, afirma sua predileção pelo “ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro / então, corpo a corpo com ele, / domo-o, dobro-o, até onde quero”.
Subjaz no poema a tradicional discussão sobre a mímesis. As duas proposições remetem ao debate entre Platão e Aristóteles sobre a relação entre as ideias e os objetos criados. Se, para Platão, os objetos são mera imitação de formas supraterrenas, para Aristóteles, o ato criativo e a própria imitação são atributos humanos, associados à habilidade e ao domínio da técnica que enseja o labor artístico, como ressalta na Poética:

Estando, pois, de acordo com a nossa natureza a imitação, a harmonia e o ritmo (é evidente que os metros são partes dos ritmos), desde tempos remotos, aqueles que tinham já propensão para estas coisas, desenvolvendo pouco a pouco essa aptidão, criaram a poesia a partir de improvisos (ARISTÓTELES, 2011, P. 43).

O poema de João Cabral depreende as duas perspectivas: a platônica, expressa na ação do ferreiro que trabalha com o “ferro fundido”, vazado na “fôrma”, em que “as flores” são “moldadas pelas das campinas”, que, segundo Platão, já seriam uma imitação de formas transcendentes. A concepção aristotélica vincula-se à técnica do “ferro forjado”, que pressupõe, além do domínio da arte, a destreza do ferrageiro: “Só trabalho em ferro forjado / que é quando se trabalha o ferro”. O criador impõe à sua criação as marcas de sua subjetividade, compreensão e método laborativo.
As proposições de Platão e Aristóteles são incontornáveis nos estudos sobre o fenômeno criativo, os fundamentos da arte e sobre a interpretação dos objetos artísticos. Suas reflexões plasmam o pensamento dos variados críticos e, ao mesmo tempo, são afirmadoras da força e importância da tradição, entendida simbolicamente como monumento vivo e em contínuo processo de imbricação com o novo e atualização, como sublinha T. S. Eliot (1989, p. 39, grifo do autor):

Os monumentos existentes formam uma ordem ideal entre si, e esta só se modifica pelo aparecimento de uma nova (realmente nova) obra entre eles. A ordem existente é completa antes que a nova obra apareça; para que a ordem persista após a introdução da novidade, a totalidade da ordem existente deve ser, se jamais o foi sequer levemente, alterada: e desse modo as relações, proporções, valores de cada obra de arte rumo ao todo são reajustados; e aí reside a harmonia entre o antigo e o novo. Quem quer que haja aceito essa ideia de ordem... não julgará absurdo que o passado deva ser modificado pelo presente tanto quanto o presente esteja orientado pelo passado.

A construção deste estudo referencia-se nessas balizas teóricas que fundaram a compreensão do processo criativo e a consolidação do pensamento crítico sobre o texto literário e sua escritura, entendidas como parte de uma tradição que se reatualiza permanentemente:

Esse sentido histórico, que é o sentido tanto do atemporal quanto do temporal e do atemporal e do temporal reunidos, é que torna um escritor tradicional. E é isso que, ao mesmo tempo, faz com que um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de sua própria contemporaneidade (ELIOT, 1989, p. 39).

Originalmente, publicado na revista Kalíope. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. ISSN 1808-6977, v. 12 n. 24 – 2017.
Aqui, será publicado, sempre às segundas-feiras, em quatro partes.


domingo, 15 de outubro de 2017

sábado, 14 de outubro de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

poema com homem, mulher e flor


Zemaria Pinto


um homem atravessou correndo a rua
uma mulher deu-me adeus
uma flor brotou do chão

um idiota  atravessou cantando a noite
uma mulher despiu seus véus
um louco brotou do chão

uma mulher rasgou os seios
um homem mamou seu sangue
uma flor brotou do leite

um louco morreu cheio de ódio
uma mulher grávida suicidou-se
um grito brotou  do escuro

uma mulher matou um homem
uma flor suicidou-se
um louco morreu no escuro

um homem caiu na rua
uma flor brotou no chão
um seio brilhou no escuro

uma mulher brotou na rua
uma flor jorrou veneno
um homem morreu no escuro

uma mulher acenando-me
um seio jorrando sangue
um adeus


(1974)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

3 anos de Vibe Positiva no Rio Negro Clube



Boa prática médica


João Bosco Botelho


Após quase quatro mil anos de o Código de Hammurabi ter sido elaborado, existem diversos pontos naquelas leis que merecem reflexão:
– Presença do julgador entre a prática médica e o doente fora da influência das ideias e crenças religiosas;
– Médico recebendo pagamento de acordo com a complexidade do trabalho e o estamento social do doente;
– Penalidade mais severa se a má prática fosse a alguém socialmente destacado. Esse ajuste sócio-político do julgador também é importante sinal da historicidade do Direito atado ao poder dominador.
Também é necessário repetir como as leis também surgem a partir das necessidades sociais. É admissível supor que as leis babilônicas, no Código de Hammurabi, foram feitas para coibir o grande número de maus resultados que geravam conflito social. Dessa forma, o Direito e a Medicina, nesse ponto, inauguraram níveis de conflitos que continuam se reconstruindo até os dias atuais, isto é, o julgador se interpõe para coibir as práticas médicas consideradas desajustadas à ética e à moral. 
Um dos fortes indícios da presença da Medicina e do Direito em convívio de conflito e reconstruções, exigindo boa prática dos médicos, gerando respostas que beneficiaram os doentes,  reconhecidos pelas estruturas de poderes, é exatamente o Código de Hammurabi, do fim do século 16 a.C. Na realidade, constitui a primeira estrutura de leis contendo os direitos e deveres dos médicos, estabelecendo o pagamento pelos bons serviços e severas punições pela má prática, associando a boa Medicina ao bom resultado. Também é interessante assinalar que os preços e castigos variavam de acordo com o estamento social do doente. Os maiores preços pelos serviços prestados e castigos mais severos pelos maus resultados estavam ajustados aos doentes mais ricos e socialmente importantes.
Dos 282 artigos do Código de Hammurabi, 12 deles regulavam os trabalhos dos médicos, contidos num conjunto de outros que tratava dos direitos e deveres dos veterinários, barbeiros, pedreiros e barqueiros.
É importante ressaltar que o Código de Hammurabi legislando os direitos e deveres dos médicos e doentes, somente nos procedimentos cirúrgicos, sugere que os conflitos sociais determinados pelos maus resultados cirúrgicos alcançaram níveis de conflitos suficientes para gerar respostas administrativas por meio do julgador credenciado pelo poder dominante.
A presença do Direito no controle da prática médica, valorizando os bons resultados, está de acordo com aspiração para manter a vida. Dito de outra forma, pelo menos desde o Código de Hammurabi, estava presente o pressuposto de associar a boa prática médica ao bom resultado, que beneficia o doente.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Fantasy Art - Galeria


Mother and Child.
Margriet Seinen.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ao vencedor, as batatas!


Pedro Lucas Lindoso

Ler e reler Machado de Assis é essencial. Machado não é só Literatura Brasileira. É universal. Não sou especialista em Machado. Até gostaria de ser para poder afirmar com autoridade: Capitu traiu Bentinho. No célebre “Dom Casmurro” não está explícita a traição. Mas o filho deles era a cara de Escobar, amigo de Bentinho. Com aqueles “olhos de ressaca”, “de cigana, oblíquos, dissimulados”. Eu não tenho dúvidas. Capitu foi adúltera. Hoje isso nem mais é crime.
Sempre digo a pais e professores que se deve introduzir Machado aos adolescentes bem devagar. “Despacito”. “Doucement”, como se diz em Francês. A melhor maneira é começar pelos contos. Não se pode permitir que adolescentes considerem Machado de Assis “chato de ler”. Podem até achar isso de José de Alencar. Mas o Machado, não. Jamais. Começar pelos contos então é fundamental. Há vários. Um dos meus preferidos é “O Espelho”.
Nesse magnífico conto Machado nos ensina que cada pessoa possui duas almas: uma exterior e outra interior. “A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação.”
Conheço pessoas cuja alma exterior é o poder, outras a fama e outros o dinheiro. Ou o conjunto de tudo isso. Para essas pessoas, a alma exterior é muito mais importante do que a “alma interna”. Ou seja, a nossa real personalidade.
Além do famoso “Dom Casmurro”, dos contos e crônicas, Machado brindou a Humanidade com seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Nesse livro aprendi que “O menino é o pai do homem”.  Há pessoas que são matreiras, ardilosas, manipuladoras desde os dias de mais tenra infância. Outras exercem virtudes já de pequeninos.
Por fim, cabe lembrar uma das mais inteligentes e impagáveis tiradas do grande Machado de Assis.  Essa é de Quincas Borba, talvez o meu romance preferido. Em época de impeachments, mandatos ceifados judicialmente em consequência de eleições eivadas de fraude, manipulações e compra de votos, nada mais contemporâneo quando Quincas Borba finaliza: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

domingo, 8 de outubro de 2017

sábado, 7 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Choro por ti, Belterra! – o mais novo livro de Nicodemos Sena


Autor paraense autografa seu mais novo livro, na Banca do Largo.

Eliane Brum lança "O olho da rua"


O lançamento será na Banca do Largo.


Doença e vida social


João Bosco Botelho


Há muito tempo, sabe-se da estreita relação entre saúde e doença e o modo como as sociedades se organizaram. Hoje, basta comparar o tipo de doença, no mesmo período, nos países industrializados e nos subdesenvolvidos, para se ter certeza da importância da saúde como indicador social.
Depois da publicação dos trabalhos do pesquisador Susumi Tonegawa, o Nobel da Medicina de 1987 esclareceu algumas dúvidas de como ocorre a variação dos aminoácidos dos anticorpos produzidos pelos linfócitos B.
Tonegawa demonstrou que quando o linfócito B se desenvolve, segmentos do seu material genético são autosselecionados e misturados para formar novos genes, dando origem a milhões de sequências variadas de aminoácidos, capazes de efetuar com mais competência a defesa do corpo humano contra as doenças.
Como consequência imediata dessas pesquisas, é possível afirmar que pelo menos parte da estrutura genética do homem é móvel, capaz de desenvolver durante a vida infinidade de combinações gênicas adaptativas. Para que este mecanismo biológico ocorra na plenitude, é indispensável que o corpo disponha da mais importante fonte de energia: o alimento.                                                                                  
Deste modo, caíram por terra os pressupostos racistas alimentados pelos interesses dos diferentes matizes ideológicos. Isso significa que as crianças subnutridas dos países pobres não poderão competir, em igualdades de condições, com outras dos países industrializados, onde a oferta de alimentos, indispensável para a maturação do genoma, é feita em níveis calóricos adequados.
A demonstração pode ser também feita pela leitura do quadro de medalhas na última olimpíada, onde os atletas do Terceiro Mundo ficaram com 20% dos melhores índices. 
Os conceitos positivos da imobilidade da saúde e da doença foram substituídos pela convicção da existência do equilíbrio dinâmico entre ambas, onde ter a doença não significa, necessariamente, estar doente. Esta tendência está mais clara a partir do século XIX, quando o médico abandonou o conceito restritivo da saúde e adotou o da normalidade, provavelmente motivado pela melhor compreensão da fisiologia experimental, em plena efervescência, nos trabalhos de Claude Bernard. 
Mesmo antes dessa comprovação científica, os legisladores interferiram nos hábitos coletivos das populações. Assim, conseguiram determinar modificações na cadeia epidemiológica de muitas doenças. Um exemplo histórico de fácil verificação é o câncer do colo uterino, com baixa prevalência entre as judias. A atual explicação é dada pela cirurgia da fimose – circuncisão – nos homens judeus no sétimo dia após o nascimento. Com isto, o prepúcio fica livre, facilitando a higiene e impedindo que o vírus Epstein Baar, relacionado com a etiologia do câncer do colo uterino, se aloje no secreção presente na glande peniana.  

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Parabéns, idoso!


Pedro Lucas Lindoso


Fui estudante de intercâmbio nos Estados Unidos, ainda adolescente. Retornei como jovem adulto, já formado, usando paletó e gravata. Fiz parte de uma comitiva em visita ao Banco Mundial, em Washington. Ainda no aeroporto, faço uma pergunta e alguém me responde:
– Yes, sir.
Na minha primeira visita à terra do Tio Sam eu era um adolescente. E como tal era tratado. Aquele “yes, sir” me ensinava que definitivamente não era mais um garoto. Estava no mundo dos adultos. Aquilo era um fato irreversível.
 Naquela época estava recém-casado. Lembrei-me que no dia do casamento, após a cerimônia, eu procurava por minha noiva no salão, quando alguém me alertou. Não era mais minha noiva, era minha esposa!
Quando os filhos nascem e começam a nos chamar de pai é uma alegria imensa. Só suplantada quando a linda netinha nos chama carinhosamente de vovô.
No Brasil o tratamento mais usual entre adultos é senhor e senhora, além de você. Os gaúchos não usam muito você e sim o tu. Nem sempre com a correta concordância.
Em Inglês temos o democrático “you”, além do já citado “yes, sir” para homens e “yes, ma’am”, para as senhoras. Vem do francês, madame.
Entre autoridades, políticos e magistrados usa-se o “excelência”. Ouvi dizer que querem abolir esse tratamento no Brasil, por decreto. Todos seriam senhores e senhoras. Bobagem! Não se mudam usos e costumes por lei.
Aqui no Amazonas usa-se querido e querida, amado e amada, sem que as pessoas tenham a intimidade necessária para tal. Além dos carinhosos mana ou manazinha e mano ou mano velho.
Em todo o país, adolescentes e jovens adultos costumam usar tio e tia para os mais velhos. Às vezes usa-se tiozinho ou tiazinha com deboche. Como costumam usar “querida” ou “querido” com ironia ou desrespeito.
Antigamente, os idosos eram carinhosamente chamados de velhinhos ou velhinhas. Hoje vejo muito o uso de senhorinha e senhorzinho para os da terceira idade.  Dia 1º de outubro foi o Dia do Idoso. Alguém me disse:
– Parabéns, idoso.
Não me importei. Minha avó dizia que quem escapa da velhice a vida lhe custa.

domingo, 1 de outubro de 2017