Amigos do Fingidor

domingo, 2 de dezembro de 2018

Manaus, amor e memória CCCXCVII


Rua Barão de São Domingos, no Centro, em 1973.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Fantasy Art - Galeria


Imagen cautiva.
Alex Alemany

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A poesia é necessária?



                                      Carolina Maria de Jesus


Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

No “parpite”



Pedro Lucas Lindoso


Houve uma época em que não havia o IBAMA e desconhecia-se o Direito Ambiental. Vendiam-se tartarugas, papagaios e periquitos livremente no Mercado Adolpho Lisboa, aqui em Manaus, o nosso Mercadão. Tinha até uma ala só para a venda das tartarugas.
Menino de calças curtas, ganhei de presente de aniversário da Darinha um periquito verde, que fora licitamente comprado nos arredores do Mercadão. Daria Nascimento, a nossa querida Darinha, foi lá para nossa casa antes de eu nascer. Era analfabeta funcional, mas seu Português oral era impecável. Flexionava os verbos e usava os pronomes de forma escorreita. Tinha certa autoridade sobre nós, delegada por nossa mãe. Era carinhosa e cuidadosa com minhas irmãs.
Menino curioso, perguntei a ela se aquele periquito verde era macho ou fêmea. Darinha me explicou que ele era muito novinho para saber. Se ficasse com o narizinho de cor azul, seria macho; se ficasse com narinas de cor marrom rosado, seria fêmea.
De fato, depois de algum tempo, o nariz do periquito ficou amarronzado e Darinha veio me dizer que o periquito era na verdade uma periquitinha. Recebeu o nome de Manduquinha.
No sábado seguinte, acompanhei minha mãe em compras no Mercadão. Tinha o objetivo de comprar um companheiro periquito para morar com a Manduquinha, que estava muito solitária.
Para minha surpresa, logo na entrada do mercadão, tinha um caboclo forte, com um enorme cesto de vime, o que chamamos de paneiro, cheio de periquito verde.
E as pessoas pediam ora periquito macho, ora periquita fêmea. E o caboco vendendo na forma dos pedidos.
Menino esperto, verifiquei que os periquitos eram muito novinhos.  Não dava para ver se o narizinho era azul de macho ou marrom róseo de fêmea. Com toda a minha coragem, perguntei do vendedor como ele sabia se os periquitos eram macho ou fêmea.
Na maior cara de pau, o caboclo me responde:
– No “parpite”.
– Então, me vende um periquito macho.
Foi um palpite feliz. “Parpite” certo.  Dei o nome do bichinho de Parpite.



domingo, 25 de novembro de 2018

Manaus, amor e memória CCCXCVI


Prédio do DERAM, na Cachoeirinha.
Hoje, Faculdade de Medicina da UEA.

sábado, 24 de novembro de 2018

Fantasy Art - Galeria


Portrait of an african woman.
Viktoria Lapteva.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Academia Amazonense de Letras lança 4 títulos inéditos


A AAL foi fundada em janeiro de 1918.
Estes lançamentos fazem parte das comemorações pelo centenário.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A poesia é necessária?


Poema obsceno

Ferreira Gullar


Façam a festa
cantem dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo
como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)

Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
– e espreitam.


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Fantasy Art - Galeria


Femme Himba-Hass.
Stephanie Ledoux.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Além da ecografia



Pedro Lucas Lindoso


Depois do outubro rosa temos o novembro azul. A campanha é pertinente. No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens. Atrás somente do câncer de pele não melanoma. É um câncer da terceira-idade, pois atinge principalmente os maiores de 55 anos. 
Sabe-se que os fatores de risco são principalmente o genético, alimentação errada, álcool em excesso, fumo e obesidade.
A prevenção é aquela que temos que fazer para se ter saúde em geral: não fumar e beber moderadamente; dieta saudável e fazer exercícios físicos com regularidade.
O diagnóstico é feito por exame de sangue, o já conhecido PSA.  Deve ser menor que 2,5 mg/m2. Temos também a ecografia e o temido e constrangedor toque retal. No país da piada pronta, não falta anedota e gozação com relação a este último. Há inclusive piadas de papagaio. Ave símbolo da nossa cultura e de nossa indefectível brasilidade. Eis a última.
Uma garotinha perdeu um valioso anel no quintal da casa. Havia muitas galinhas e possivelmente alguma poderia ter ingerido o anelzinho. Iniciou-se uma ousada caçada ao anel da garotinha com sucessivos toques nas frangas. Uma confusão total no galinheiro.
De repente avistaram o papagaio. O bicho foi logo advertindo o pessoal:
– Comigo só na ecografia!
As empresas submetem os seus empregados a exames periódicos. Mesmo porque o Ministério do Trabalho regulamenta e estabelece a obrigatoriedade de elaboração e implementação, por parte de todos os empregadores do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO, com o objetivo de promoção e preservação da saúde do conjunto dos seus trabalhadores.
Mas além do periódico devemos fazer um “check-up” anual. O check-up médico corresponde à realização de vários exames clínicos, de imagem e laboratoriais, com o objetivo de avaliar o estado geral de saúde e diagnosticar precocemente alguma doença que ainda não tenha manifestado sintomas.
Assim, o periódico que se faz na empresa não é “check-up’”. Sendo esse último bem mais abrangente. É preciso enfrentar. São necessários os exames de sangue e, claro, fazer o toque retal. Não sejamos como o papagaio. É importante ir além da ecografia!



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

IGHA: palestra de Foot Hardman é cancelada





A presidente do IGHA, Professora Dra. Marilene Corrêa, informa o cancelamento, por motivo de força maior, da palestra do professor Foot Hardman, da Unicamp, marcada para a tarde do dia 20 de novembro.   

domingo, 18 de novembro de 2018

Manaus, amor e memória CCCXCV


Esquina da 7 de Setembro com Eduardo Ribeiro, em agosto de 1973.
Acervo: Frank Lima.

sábado, 17 de novembro de 2018

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A poesia é necessária?



Mulher proletária
Jorge de Lima


Mulher proletária  única fábrica
que o operário tem, (fábrica de filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar teu proprietário.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

terça-feira, 13 de novembro de 2018

As lágrimas de Matilda



                                                                        Guilherme Carvalho


Passei todo o domingo numa grande ressaca, corpo cansado, sono e uma vontade danada de ficar esparramado no sofá da sala, assistindo aos filmes da Matilda. Não, não era uma ressaca etílica, mas uma tristeza que rondava nossos corações.
Depois de um belo almoço com as mulheres mais lindas da minha vida, tomei um bom banho e fui dormir. Dormi boa parte da tarde. Queria que aquele dia passasse logo, ou o que estava por ser anunciado fosse parte apenas de um grande e duro pesadelo. Diante do conforto dessa possibilidade, joguei-me nos braços de Morfeu e afundei na cama, abraçando um travesseiro, como se quisesse testemunha para aquele momento de fuga.
Ao acordar, todos haviam saído. Dei um jeito na pia que estava repleta de pratos e panelas sujas do almoço. Geralmente faço essa tarefa ouvindo música, mas preferi, naquele momento, o silêncio que era quebrado apenas pelo enxaguar dos talheres, pratos, panelas e copos. Tudo lavado, fui direto para o sofá, onde comecei a assistir a um programa sobre a arte da pintura do artista brasileiro Almeida Junior.
Com a chegada das meninas que trouxeram pães, tive que levantar para passar um belo café. Mesa posta, cheiro de café tomando a casa, voltei para o sofá para chamar Matilda, quando ouvi um fungar permeado com soluços vindo do quarto. Maria já estava com ela, acalmando-a, consolando-a. Eu a tomei nos braços, abracei-a bem forte e disse a ela que esse era o momento para ficarmos bem juntos, unidos e fortes para resistirmos a tudo que possa vir desse ex-capitão do Exército brasileiro que pautou toda sua campanha pela truculência e pelo franco desrespeito aos direitos humanos básicos de uma sociedade que se quer democrática. Lembrei a ela do “Resist!”, proferido por Roger Waters durante suas apresentações aqui no Brasil.
Foram uns dias terríveis esses que antecederam ao pleito. Desrespeito a mulheres, ameaças a índios, negros, nordestinos, gays, divulgações de matérias falsas pelos meios sociais contra seu oponente, violência sendo vista e fomentada nos quatro cantos do Brasil e tudo isso mexeu muito com todos os brasileiros, alcançando até uma adolescente, nossa filha Matilda, um poço de sensibilidade. Esse poço transbordou e percebeu tudo o que a sociedade pode perder – aquela parte mais vulnerável da sociedade, principalmente – com a eleição daquele candidato. Percebi naquele choro um misto de tudo o que ela ouvia em casa sobre liberdade, leveza, alegria, tolerância, arte, Deus, amor com aquilo que se sabia e se sentia que poderá vir a ser a rotina de um povo já amplamente desrespeitado pelo estado brasileiro: mais injustiça e dor com a destruição do estado de bem-estar social.
O Jornal Metrópoles anuncia as precauções que a administração da UnB está tomando para conter um provável ataque à Universidade, prometida por partidários do candidato eleito, quando das comemorações por sua eleição.
Essas lágrimas de Matilda serão semeadas aos ventos que as levarão ao encontro das tantas lágrimas de todos os que defendem um Brasil livre de preconceitos, livre de quaisquer amarras contra quaisquer gritos de injustiça, contra quem quer que seja, onde quer que seja. As lágrimas da Matilda vão para o povo que vive da terra lá no longínquo sertão nordestino; vão para as várias Marielles que são diariamente desrespeitadas e oprimidas; vão para os milhares de trabalhadores que colocam suas vidas em risco, quando tomam um transporte de péssima qualidade para defender um trabalho, muitas das vezes, sem direito algum, pois escravos que são; vão para seu professor de biologia, meu irmão e meu sobrinho, representando a comunidade gay; vão para todos os negros e pardos do Brasil que são maioria nos presídios nacionais; vão para os índios que tiveram sua cultura aviltada, suas terras invadidas por banqueiros e latifundiários, ávidos por lucros cada vez maiores. Enfim, essas lágrimas que brotaram do fundo deste coração adolescente, carregam um desejo visceral por um mundo repleto de sonhos e flores, cachoeiras e praias, aventuras e alegrias, borboletas e arco-íris, animais e crianças, brigadeiros e feijão tropeiro... Nesse mundo sonhado pela Matilda, as crianças brincam mais, os adolescentes aventuram-se muito mais e os adultos tem mais tempo para deleitar-se lendo mais livros, ouvindo mais músicas, abraçando-se mais e ficando mais tempo descalços ao lado dos filhos e amigos para ouvir e contar mais histórias.
O mundo semeado com as lágrimas de Matilda ouvirá mais a dor do outro para, assim, ter mais tempo para estender a mão ao próximo, praticando a solidariedade, a caridade. Neste mundo de Matilda não há espaço para opressores e oprimidos. Há uma brisa soprando no rosto, embaraçando cabelos e um sorriso leve, profundo, vigoroso, celebrando a nova aurora que não tardará a surgir.
 Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível.



segunda-feira, 12 de novembro de 2018