quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

 Luz, câmera, palavras

Márcia Antonelli

 

Luz, Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé, obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor, que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da antropologia e outras ciências do tipo.

Quando um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas, outras paragens. No caso de Mawé, o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência artística.


Durante muito tempo, parte da crítica cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita criativa.

Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Repto de honra

 Pedro Lucas Lindoso

 

A manchete do Jornal do Comércio de 18 de agosto de 1964 informa que o governador Arthur Reis lançou um repto de honra ao Sr. Desiré Guarany, fiscal de consumo, que teria acusado o governador de corrupto. Arthur Reis indica o general Jurandir Mamede como seu representante no repto. Também nomeado para a presidência da comissão do repto o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara.

Os reptos de honra, como os duelos, estão fora de moda. Aliás, duelar com armas ou agressão física é ilegal no Brasil e na maioria dos países. Hoje em dia as pessoas em tais situações buscam a tutela jurisdicional para exigir indenizações financeiras por danos à imagem ou à vida privada. Há basicamente dois crimes contra a honra. A calúnia, quando se é falsamente acusado de um crime, e a difamação, quando se tem a reputação manchada publicamente.

Os reptos de honra estão mesmo fora de moda. Exceto na nossa misteriosa, folclórica e mitológica floresta das chuvas. As nossas matas. A floresta amazônica. Justamente lá onde habitam o Mapinguari e o famosíssimo Curupira. Como se sabe, o Curupira foi escolhido mascote da COP 30, realizada em Belém. O Curupira é conhecido pelos seus cabelos de fogo e pés voltados para trás, usados para confundir invasores, caçadores e os madeireiros que destroem a floresta.

O Mapinguari é um monstro gigante e peludo que tem um olho só. Assim como o Curupira, o Mapinguari é um eficiente guardião da floresta. Ele ataca os madeireiros, caçadores e grileiros. Uns dizem que o Mapinguari tem pelos longos e vermelhos. Outros o descrevem como tendo uma pele dura como a do jacaré. E tem uma boca enorme na região do umbigo.

Enquanto o Mapinguari grita forte assustando os destruidores da floresta, o Curupira, com os pés voltados para trás, faz esse povo se perder na mata. Ambos foram finalistas para a escolha da mascote da COP 30.O Mapinguari perdeu o concurso simplesmente porque fede muito. Não toma banho, sendo muito, muito assustador. Já o Curupira foi eleito pela sua simpatia e astúcia.

Enciumado, Mapinguari espalhou pela floresta que o Curupira estava ganhando milhões de dólares de uma ONG ambientalista, sem socializar os recursos com os outros animais. O Curupira lançou um repto de honra ao Mapinguari. Os mamíferos aquáticos foram designados para compor a comissão. O Boto Vermelho vai representar o Curupira enquanto o Boto Tucuxi vai representar o Mapinguari. A presidência coube ao Peixe-boi. Espera-se que o imbróglio tenha um desfecho antes das eleições de outubro.