sábado, 30 de maio de 2015

Fantasy Art - Galeria


Darklord.
Pascal Blanché.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

exercício nº 10


Zemaria Pinto


Às portas do Encantado me detenho
olhando o chão lavado por silêncios
buscando abismos, marcas de outras lendas
no lânguido rumor do riocorrente

E tu, Náiade minha, guardiã
do negronegro espelho espedaçado
em nenúfares lunares debruçada
feito Ofélia, em orquídeas mergulhada

desarma-te por fim de clava e clave
e assoma-te guerreira à montaria
à pele, à carne e ao fogo dos sentidos

À cabeceira de teu leito jazo
adormecido por noturnas vagas
de gozo e gozo e gozo e gozo e gozo  


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Arte em Tese: a Universidade na Academia



A nova série de palestras da Academia Amazonense de Letras  Arte em Tese  pretende levar ao Salão do Pensamento Amazônico, ao longo do mês de junho, discussões muitas vezes restritas às audiências de apresentação de teses e dissertações. 
Esta série deverá se tornar permanente, sendo reeditada todos os anos.

Desconstruindo ritos de curas



João Bosco Botelho

O corte nos saberes, separando o antes e o depois da Medicina como paidéia, ligando os diagnósticos e as doenças às ideias laicas, afastando dos deuses e deusas, se destaca no livro Das Doenças Sagradas, de autor desconhecido, do século 4 a.C.: “Quanto à doença que nós chamamos de sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras”.
Pela primeira vez, uma doença foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, fora do domínio dos deuses e deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu o ápice da medicina grega. O genial Hipócrates, o principal representante da Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p. 484).
Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior legado da Medicina como paidéia: a teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico da Medicina. A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, genro de Hipócrates, assenta as doenças e os tratamentos no mundo laico das ideias: “O corpo humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que estes elementos constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e pela saúde que se goza”.
         A Medicina como paidéia saltou do domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a terapêutica para identificar o excesso ou da falta do humor desequilibrado. Como consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios, sudoreses, diureses, diarréias e sangrias. O prognóstico se materializava na boa ou na ausência de resposta à terapêutica.
         O médico era chamado para recompor a saúde utilizando saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “...os argumentos deles apontam para a Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que elementos é constituído”.
A concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal. Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c) entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Ética a Nicômaco. X 1180b) associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.
Platão (República 407b-c-d-e) retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais entre pobres e ricos. O filósofo criticou o modo como os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e).
Muito atual e atrelado às queixas dos doentes acerca de alguns médicos que não ouvem os doentes, praticando consultas de poucos minutos, Platão (Banquete, 186-187) reconhece como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os aspectos da enfermidade, para que o tratamento seja eficaz.
Em certas circunstâncias, a crítica de Platão à má prática médica, exclusivamente ligada aos doentes pobres, continua válida na atualidade.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fantasy Art - Galeria


The imposter.
Steven Kenny.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Os bonecos são eternos



Pedro Lucas Lindoso


Quem foi menino em Manaus na década de sessenta, com certeza tem nas lembranças afetivas a figura de dois bonecos emblemáticos e icônicos da cultura popular da cidade de Manaus: Peteleco e Kamélia.
O Peteleco é um boneco criado pelo ventríloquo Oscarino Varjão que foi muito amigo de meu saudoso pai, José Lindoso. Peteleco é um neguinho muito querido, respondão, malcriado e dizia tudo que a gente gostaria de dizer e não podia.  
Naquele tempo, menino era tratado como menino. Tolice era inibida com palmatória e cachuleta. Para quem não sabe o que é cachuleta, trata-se de levar uma forte pancada com o dedo médio na orelha, para ficar esperto e não fazer mais tolice.  Aliás, cachuleta também se chama peteleco, principalmente no sudeste do Brasil.
Posso dizer que o Peteleco foi um dos meus melhores amigos de infância. Toda vez que ele se apresentava no auditório do SESC na rua Henrique Martins, onde morávamos, eu não perdia. Considero o Peteleco como um dos meus diletos companheiros da rua Henrique Martins.
Soube que o Peteleco também faz shows para adultos atualmente. Fico feliz em saber que o Peteleco é um garoto cinquentão como eu.
Há poucos meses, era domingo e eu fui assistir ao Peteleco, na Casa de Música Ivete Ibiapina, na Rua 10 de Julho. Após o show, conversei com Oscarino e ele lembrou-se de meu pai com carinho e deferência.
Disse a ele que conhecia o Peteleco desde menino e ele ficou feliz. Ah! E ainda tive o privilégio de “conversar” com o próprio Peteleco. Foi uma alegria para mim.
O outro boneco, digo boneca, é a Kamélia. Ela sempre chega para a abertura do carnaval de Manaus.
 Durante certo tempo eu tinha medo da Kamélia. Um verdadeiro pavor.  Explico: a boneca foi inspirada na marchinha Jardineira, na qual a Kamélia “caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”. Na minha cabeça de menino medroso, a Kamélia seria uma “visagem”, uma assombração.
Como todo curumim, eu adorava ver avião. Ir ao Aeroporto Ponta Pelada era um passeio irrecusável. Mas quando soube que naquele dia iríamos ao aeroporto para a chegada da Kamélia, o medo tomou conta de mim.
 O fato é que a Kamélia chegava de avião, vindo provavelmente da Bahia, e a população ia “buscá-la” no antigo Aeroporto de Ponta Pelada. Era um acontecimento. Mas e o medo de alma penada?
Foi então que me enchi de coragem e perguntei a Darinha, que morava lá em casa desde sempre: – Darinha, os bonecos morrem? E então ela me disse:
– Não meu filho, bonecos não morrem. Os bichos, as pessoas, as plantas morrem, mas os bonecos não morrem nunca.
Sempre acreditei na Darinha. E lá fui eu, feliz da vida, ao aeroporto de Ponta Pelada receber a Kamélia, vindo diretamente de Salvador para Manaus, vestida de baiana, para alegrar os manauaras.
E todo ano ela chega. Agora, procedente do Rio de Janeiro. E o Peteleco continua por aí.
E não é que é verdade? Darinha tinha razão. Os bonecos não morrem nunca. São eternos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Biografia de um homem comum



Inácio Oliveira

Os Cinco Maiores Sucessos

1_ O dia em que meu avô me deu um triciclo de presente. (Tinha oito anos. Vejo meu avô descendo pela ruazinha da nossa casa com o triciclo nas mãos, então saio correndo para abraçá-lo, louco de felicidade).
2_ A primeira vez que fiz amor com uma mulher. (Tinha quinze anos. Ela desfez o laço que prendia o vestido às costas, então a terra se confundiu com os céus e o espírito de Deus voltou a mover-se sobre a face das águas).
3_ O dia em que saí do interior para a capital. (Tinha dezoito anos. Andei pela praça em frente à igreja, vi a ponte sobre o rio, as estradas de terra e as palmeiras vergadas sob o vento. Havia um enorme sentimento de despedida e libertação em cada coisa).
4_ O dia em que conheci Carmem. (Tinha vinte e cinco anos. Ela estava lendo um livro sobre o balcão, aproximei-me e disse – eu vou me casar com você).
5_ O dia em que meu filho nasceu. (Tinha trinta anos. Eu só precisava de alguém que precisasse de mim, então a enfermeira pôs aquele ser tão frágil em meus braços. Qualquer coisa poderia matá-lo, até mesmo a leve brisa que entrava pela janela).

Os cinco melhores amigos

1_ Zico, bico de pato. (Brincávamos de caçar no quintal de casa).
2_ Bebel. (Um dia eu me apaixonei por ela).
3_ Mário Rodrigues. (Não me deixou passar fome quando os dias eram longos).
4_ Paulão. (Amizade etílica).
5_ Lúcio. (Empurra minha cadeira de rodas e desce as escadas comigo no colo).

Cinco coisas que me arrependo de ter feito

1_ Ter deixado de falar com o meu pai. (Há muito tempo que ele está morto e eu nem lembro qual foi a última coisa que eu lhe disse).
2_ Ter deixado Carmem porque estava apaixonado por outra mulher. (Mas se não tivesse feito isso também estaria arrependido).
3_ Ter matado um homem. (Um animal pode combater longamente com outro da mesma espécie. Seja para assegurar sua liderança, conquistar um território ou uma fêmea, ou simplesmente para demonstrar sua força; mas esse animal dificilmente matará um semelhante seu. Um homem mata o outro num piscar de olhos).

As coisas mais bonitas que vi na vida

1_ A lua nascendo de madrugada de dentro de um rio. (Eu e o meu pai estávamos pescando numa canoa, ele disse que logo a lua nasceria. Eu fiquei sentado na proa da canoa e vi a lua surgir como se brotasse de dentro d’água).
2_ Uma mulher de vestido. (Quando ela tira o vestido).
3_ Uma árvore. (Há uma paisagem. É um descampado com uma árvore solitária no meio. Nas noites de tempestade ela é fustigada pelo vento e isso faz com que suas raízes tornem-se cada vez mais profundas. Era ali que nos amávamos, Carmem e eu.)
4_ Um cavalo no pasto. (Quando estive em Analto fui ao Museu do Musgo, lá eu vi um quadro pintado pelo famoso artista Juan Castel. O cavalo no pasto. Fiquei horas olhando para o quadro. Impressionou-me que o cavalo pintado fosse o mesmo que meu pai montava naquelas tardes na fazenda do meu avô, o riacho ao fundo do quadro e as castanheiras que cresciam ao longe eram as mesmas da nossa terra, até a casa na colina era igual, era como se fosse um espelho).

As piores coisas que já me aconteceram

1_ Quando minha mãe morreu. (Eu tinha doze anos).
2_ Ver meu filho ser criado por outro homem.  
3_ Ter sido preso.
4_ Ter envelhecido.
5_ Ter ficado impotente.
6_ Ter perdido o movimento das pernas.

Quatro objetos

1_ Um triciclo que meu avô me deu quando eu tinha oito anos.
2_ Um isqueiro da marca Cobra Fumando.
3_ Uma caneta Parker.
4_ Um relógio da marca Lucius (Este relógio me acompanha nos último anos, jamais atrasou um segundo. Quando eu morrer seus indiferentes ponteiros continuarão a se mover no meu pulso).

Cinco Livros

1_ Meu pé de laranja lima, de Mauro Vasconcelos. (O primeiro livro que li na vida, descobri que um homem que lê jamais estará sozinho).
2_ O livro de Jó.
3_ Como beber sem ficar porre, de Martin Heine. (Muito útil nas noites sem fim).
4_ Quando o Diabo chorou, de Lucas Sarmento. (Impressionante história sobre um menino que ficou sozinho).
5_ Ulisses, de James Joyce. (Nunca li, mas sempre quis colocá-lo em uma lista).

Três coisas que eu odiava em Carmem

1_ Fazia amor em silêncio. (Nada pior que uma mulher que faz amor em silêncio).
2_ Mantinha os cabelos sempre presos.
3_ Sabia quando eu estava mentindo.

Um cheiro

1_ Café sendo torrado domingo à tarde. (Nós colhíamos o café e minha vó deixava ele secar por uma semana no sol, quando chegava domingo ela acendia o fogão à lenha e torrava o café em uma folha-de-flandres. O cheiro de café torrado tomava conta da tarde).  

Uma comida

1_ Canja de galinha. (Feita pela minha mãe com arroz pilado no pilão).

Três desejos

1_ Uma dentadura nova.
2_ Viver até maio quando os jambeiros começam florir e o pátio fica colorido das flores vermelhas que caem.
3_ Que meu filho viesse me ver aqui neste asilo.

Uma esperança

1_ Morrer sem dor.


domingo, 24 de maio de 2015

sábado, 23 de maio de 2015

Separando a medicina dos ritos de cura



João Bosco Botelho

Em contraponto à cura mágica da doença entendida como forma de castigo aos pecadores, as práticas médicas laicas constroem e reconstroem a busca da materialidade da doença. Desde o século 4 a.C., na Escola Medica de Cós, sob a liderança de Hipócrates, a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, iniciou o processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença. Por essa razão, usando a linguagem de Bachelard, eu a entendo como primeiro corte epistemológico na busca da materialidade da doença.
         A associação entre as idéias da Escola Médica de Cós e a filosofia jônica possibilitou avanço gigantesco ­— a Medicina como Paideia — estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca laica da causa das doenças.
A Medicina como Paideia abriu o caminho ao avanço da medicina oriunda das universidades. É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis, da estrutura teórica jônica, embutidos na Medicina como Paideia:
­— Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: ”...a physis comum de todas as coisas, da physis própria de cada coisa”;
­— Como princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da Medicina”).
­— Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A natureza é harmoniosa e produz harmonia;
­— Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe uma fisiologia; a ciência na qual o logos do homem se harmoniza diretamente com os logos da natureza;
­— Como divindade: a physis é em si mesma divina.
Esse é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.: mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, ao deus Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões, de autor desconhecido, escrito no século 4 a.C. (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855. p. 1050):
Quem quiser aprender bem a arte de médico deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto à sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Quando um médico chegar a uma cidade desconhecida, deve determinar, antes de mais nada o que se refere às águas e à qualidade do solo, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada com a mudança do clima”.

Não é demais repetir que Platão (Político, 296a-b-c) sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova postura do médico e a do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes, deveriam, sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhoras.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fantasy Art - Galeria


Contemplation.
Tony Kew.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Perde e sai


Pedro Lucas Lindoso


Hillary Kathyanne anda deveras atarefada desde o início do Peladão.
O campeonato existe há mais de 40 anos. Hillary é diretora de um dos 737 times inscritos neste ano.
Além de mostrar qual o melhor time de futebol amador de Manaus, o Peladão vai eleger a musa mais bonita das equipes. Portanto, não basta ser só bom de bola. O time precisa de uma garota bonita e disciplinada para se tornar a Rainha do Peladão e virar celebridade.
Hillary já foi musa de seu time. Só uma vez, por insistência da galera. Ela diz que não é sua praia. Gosta mesmo é dos bastidores.
Como diretora financeira, já organizou inúmeras feijoadas para angariar verba para o time. Todas animadíssimas. A única feijoada de triste memória foi no ano de 2010. Hillary namorava um tão de Chicão que, com ciúmes do centro avante Robert Masterson, quase acaba com a festança.
Mas durante o campeonato não conte com Hillary para nada a partir de sexta-feira. Os jogos acontecem sábado à tarde e domingo pela manhã. Mas já na sexta começam as estratégias de apoio ao time.
Um jornal local patrocinador do evento publica, toda sexta-feira, um encarte com o horário dos jogos, classificação, fotos das meninas e notícias gerais do campeonato.
Sábado pela manhã tudo tem que estar organizado. É preciso providenciar água, gelo, laranja e banana para os jogadores.
Hillary tem a função de fazer os cartões de falta, de cores amarelo e vermelho. Não existe juiz fixo no Peladão. Os árbitros e assistentes são indicados pela comissão organizadora, geralmente dentre outros times que disputam o peladão.
Esse ano Hillary conseguiu, além do patrocínio de uma loja de material de construção, o apoio de um lanche famoso do bairro. Pode finalmente mandar fazer camisas para toda a torcida.
O time já passou pela primeira fase e também conseguiu sair-se bem na segunda. Está entre os 100 melhores. O que já é uma vitória.
Mas a coisa não é fácil. Às vezes falta jogador e o pessoal tem que correr atrás do caboclo faltoso. Ou o cara está bêbado ou simplesmente sumiu. È uma agonia.
Domingo passado foi triste. Passada a primeira e segunda fases, começa o “perde e sai”. E o time de Hillary saiu.
Mesmo assim não faltou cerveja e o pagode de sempre, na casa do presidente. As esperanças para o próximo campeonato se renovam, na confiança do time ser campeão e convencer Hillary a desfilar de biquíni, como musa do peladão.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Um anjo terrível



Inácio Oliveira


Pense em tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. Pense em quantos mínimos acasos fizeram sua vida tomar um rumo que você jamais escolheria. Pense naquele preciso instante em que você quis partir, mas na última hora decidiu ficar para depois perceber que ter ido era tudo que devia ter feito. Pense nas longas filas nos supermercados, nos bancos e nos cinemas. Pense nas horas desperdiçadas no trânsito das cinco da tarde. Pense nas pessoas que não usam desodorantes dentro dos ônibus lotados às sete da manhã. Pense naqueles que perderam um grande amor por um gesto, uma palavra ou um silêncio. Pense num rapaz que anotou os números que seriam sorteados na mega-sena, mas na hora de comprar o bilhete decidiu comprar ração para o cachorro. Pense num homem que perdeu as melhores horas da sua vida montando celular numa fábrica do Polo Industrial de Manaus. Pense numa torneira pingando a noite toda num quarto esquecido no fim do subúrbio onde alguém morre lentamente por falta de cuidados, amor e antibióticos. Pense na chuva caindo sobre um telhado onde todos estão mortos. Pense naqueles que partiram sabendo que jamais iriam voltar. Pense num louco sentado na praça conversando com a mãe que já morreu. Pense num homem que saiu de casa magoado com sua mulher e seus filhos e que morreu em seguida atropelado na rua. Pense numa pessoa que será enterrada numa vala comum sem direito a nenhuma lágrima. Pense num homem com a mãos sujas do sangue de outro homem. Pense num índio que teve seu corpo queimado numa praça de Brasília. Pense nas mulheres mutiladas, imprestáveis para o amor. Pense na pedofilia. Pense naqueles que sofrem nos hospitais e nos enterros. Pense num homem que deu um tiro dentro da própria boca e não morreu. Pense no câncer em metástase, na peste negra ou na aids.  Pense num homem deitado em posição fetal no chão frio de um cárcere, cujo último desejo é voltar para o útero, qualquer útero. Pense em alguém que foi comido pelas piranhas no fundo escuro de um rio. Pense num jovem que teve os testículos eletrocutados dentro de uma sala do exército em 1964. Pense num longo e terrível dia de fome. Pense na repetição, sempre possível, de Auschwitz. Pense numa tarde remota em Hiroshima onde a paisagem nunca mais foi a mesma. Pense no Estado islâmico. Pense na agonia impensável de uma criança no momento exato em que ela nasce. Agora imagine que um anjo terrível varresse a terra com sua espada de fogo e os homens sacrificados pedissem perdão: Não Peça! Não Peça!


Lábios que beijei, a work in progress



Meu narrador, um homem de cerca de 85 anos, anda meio adoentado e sem tesão – literalmente – para contar suas (des)venturas, por isso, vamos diminuir o ritmo, passando a uma narrativa por mês, sempre nas primeiras segundas-feiras do mês. Preciso dar-lhe tempo para que sua memória possa trabalhar de forma prazerosa... Até junho!...

(Zemaria Pinto)

domingo, 17 de maio de 2015

Manaus, amor e memória CCXII


Teatro Amazonas.
A rua, que hoje se chama 10 de Julho, estava em obras. E o TA servia de depósito... 

sábado, 16 de maio de 2015

quinta-feira, 14 de maio de 2015

aurora


Zemaria Pinto


aurora luz/escuridão
quebra      ruptura
rompimento

aurora alumbramento
dor     choro     prazer
gozo     solidão

aurora paz
guerra     terremoto     enchente
ternura     encantamento

aurora acanhamento
recolhimento
explosão

aurora luz
aurora escuridão
 
– ou não?

– ou não?


Pecado e doença no monoteísmo cristão



João Bosco Botelho

A extraordinária reconstrução grega da doença desvinculada do pecado atingiu os ritos romanos. Para conter o avanço do laico os teóricos da coisa sagrada impuseram regras mais rígidas para evitar o erro cerimonial nos ritos, reforçando o rito puro e construindo novas estruturas polares: piedade (pietas) e impiedade (impietas). O rito malconduzido, gerando pecado, doença, malefício, infelicidade, seria consertado por meio de outra cerimônia (expiatio) para anular a impureza (pecado). Nessa esteira, seguiram-se os muitos cultos gnósticos defendendo desprezo pelo corpo, pela coisa exclusivamente laica. Como seguimento, os ritos corretivos dos pecados tornaram-se violentos, impondo jejuns prolongados e flagelações sangrentas, abrindo caminho às futuras teorizações do pecado sob a égide judaico-cristã.
Desde aqueles tempos, não existia consenso em torno do pecado original. Um dos exemplos mais significativo da negativa do pecado original está fincado na fundação de Roma, quando Rômulo mata por banalidade o irmão Remo: enquanto Cícero admite o pecado, no De officius, III, 41 (peccatum), Horácio defende o pressuposto de crime, no Epodon líber, VII, 1 e 17-20 (scelus) e Virgílio, afasta a idéia de pecado. 
No Antigo Testamento, nas linhas mais interessantes ligando a doença ao pecado se destaca a interseção da serpente. A idéia de pecado original no AT se mostra essencialmente voltada à ordem espiritual (Gênesis 2, 8; 3; Job 14, 1-4; Salmos 50 e Ezequiel 18, 1-32), sem a marca da transmissão à descendência.
A concepção fundamental do pecado no AT é representada pela associação com doenças, desgraças, infelicidades e provocando ações para corrigir e evitar novos pecados não mortais (Samuel, 20,1; I Reis, 2,19; II Reis, 1, 1) e pecados mortais (Deutoronômio, 14,16; 21, 22; 22,26; Ezequiel, 3, 20; Amos, 9,10). Nas duas circunstâncias, o perdão divino concedido ao pecador, gerando a cura da doença, a dissolução da infelicidade ou do nó, seria alcançado por meio da confissão individual (Gênesis, 39, 9; Josué, 7, 13-23).
Nos últimos séculos do judaísmo antigo surgiram reconstruções em torno do pecado original, como fontes de doenças, infortúnios e morte prematura, voltadas à responsabilidade de Eva, em Eclesiastes, 25-24: “Foi pela mulher que o pecado começou e, por sua causa, todos nós morremos”.
Várias passagens dos Evangelhos descrevem a concepção judia do pecado, diferenciando os pagãos como pecadores por não cumprirem as Leis, pondo a misericórdia de Deus como possibilidade do perdão puro — Nova Aliança. Jesus Cristo ao vencer o diabo, removeu o pecado, a doença, o aleijão, a infelicidade.
Ao contrário às raízes pré-socráticas, outra vez, a doença adere fortemente ao pecado. No medievo, os teólogos acrescentaram rigores no entendimento da doença — como obstáculo entre o homem e Deus — como sinal de pecado, em especial, às moléstias deformantes do corpo, como a lepra.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

terça-feira, 12 de maio de 2015

Bonitinho agora é “Seu” Charles



Pedro Lucas Lindoso


Charlezinho da Compensa é um caboclo valoroso. Passou em concurso público nacional para uma agência reguladora federal, com sede em Brasília. Filho de dona Jurandilza, que tem esse nome porque é filha de Jurandir e Ilza, Charlezinho pratica jiu-jítsu, estuda muito, joga futebol e namora bastante, além de tocar violão. As garotas da Compensa dizem que ele é bonitinho. E o apelido pegou. Bonitinho foi então, convocado para fazer treinamento no Distrito Federal. O voo marcado para as 2:40 não foi empecilho para que todo mundo fosse levar o Bonitinho ao Aeroporto Eduardo Gomes. Além de seus pais, e avós, os três irmãos, a vizinha solteirona e duas amigas, quatro outros vizinhos, o professor de jiu-jítsu e três colegas, Dona Francisquinha, orgulhosa professora particular do Charlezinho e o marido, cinco primos, duas ex-namoradas e a atual, que se chama Kathyenny, com k e y, que levou os pais e dois irmãos. Enfim, uma comitiva de 23 pessoas se deslocou da Compensa ao aeroporto para despedir-se de Bonitinho rumo ao Distrito Federal. Uma viagem para treinamento e ao final, tomar posse no almejado emprego público. Uma Kombi, dirigida por Seu Jurandir, e mais quatro carros levaram todos ao aeroporto. Dona Jurandilza estava muito nervosa. Enquanto terminava de arrumar a maleta do filho houve um apagão na cidade. A Kathyenny não parava de perturbar. Bonitinho estava muito ansioso porque seria a sua primeira viagem de avião. E não podia mostrar-se medroso perante seus colegas de jiu-jítsu, que já haviam viajado de avião para campeonatos no sudeste. A namorada Kathyenny não parava de chorar. Dona Jurandilza já estava sem paciência. Ele volta em um mês. Mas quando Bonitinho entrou para a sala de embarque, Kathyenny deu um grito e desmaiou. Um vexame. Ainda bem que ele já estava lá dentro e nem viu a leseira da namorada. Em Brasília, Bonitinho ficou hospedado no Guará, na casa do tio Ilzajur, irmão de dona Jurandilza. Os primos brasilienses receberam Bonitinho com alegria. Levou isopor com tambaqui, pirarucu, farinha do uarini, pimenta murupi e dois litros de guaraná baré. Foi uma festa. Charlezinho ia de metrô para o treinamento na agência. Pensou que se houvesse um metrô ligando a Compensa até o Distrito, via Centro, e outra linha ligando o Centro à Cidade Nova e Zona Leste, Manaus seria outra cidade. Visitou a Catedral, o Congresso, a Praça dos Três Poderes e o Memorial JK. Tudo postado com fotos pelo Instagram e Facebook. Os primos o levaram ainda até o Palácio da Alvorada. Bonitinho jogou uma moeda no poço que fica em frente. E perguntou com quem ficavam aquelas moedas. Ninguém soube responder. Para a presidenta é que não é. Noite de sexta, Bonitinho foi a um forró em Ceilândia. Fez sucesso com uns passos de forró que só os amazonenses sabem fazer. Terminado o treinamento, Bonitinho retornou para Manaus. Já empossado como servidor público federal da agência reguladora, mas lotado em Manaus. Charlezinho gostou muito de Brasília. Certamente não troca a capital por Manaus. Em julho faz muito frio. O clima é muito seco. Lá não se encontra farinha ovinha e nem pimenta murupi. A única tacacazeira é na feira da torre de TV. E nem amazonense ela é. E voltou de Brasília para a Compensa, feliz da vida. Na segunda seguinte deu expediente na superintendência aqui em Manaus. Semana passada casou-se com sua amada Kathyenne, grávida de dois meses. Charlezinho da Compensa, o Bonitinho, é coisa do passado. Casados e felizes “Seu” Charles e Dona Kathyenne foram morar em condomínio no Tarumã.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Otelo solo no Teatro Éden/O Alienígena


Otelo solo, texto de Zemaria Pinto, encenação de Nereide Santiago e interpretação de Arnoldo Chaves, fica em curtíssima temporada no Teatro Éden (altos d’O Alienígena), dias 8 e 15 de maio, às 20h.

Endereço: Lima Bacury, 64 – Centro

Sinopse: após os episódios conhecidos – a intriga de Iago, o assassinato de Desdêmona e o próprio suicídio – Otelo desperta e reflete sobre os acontecimentos trágicos que protagonizou.

Monólogo, com cerca de 50 minutos de duração, Otelo solo é um exercício de arte dramática.

A peça ganhou o Prêmio PROARTE 2011, da SEC.



domingo, 10 de maio de 2015

Manaus, amor e memória CCXI


Praça da Matriz, com o rio Negro ao fundo.

sábado, 9 de maio de 2015

Sem o chinelo na mão e o avental sujo de ovo



David Almeida

Com a chegada do dia das mães – 10 de maio – as mensagens na rede mundial de computadores têm “bombado.” Os e-mails vão chegando com os mais diversos tipos de cartões virtuais, cheios de arranjos, flores, decorações das mais inusitadas, acompanhadas de musicas tristes, melancólicas, bucólicas, te arremetendo a um clima de funeral. Dá vontade de chorar. E se você lê dois cartões virtuais desses com certeza vai entrar em “deprê.” E pra reverter esse quadro, vai ter que gastar um dinheirinho no consultório do Dr. Rogélio Casado.
Qual o porquê das músicas, poemas e textos que falam de Mãe – não são todas, claro, mas a maioria – trazerem esse tom cinza, quase preto de emoldurar tristeza? Mãe é o amor que rega a essência da vida. Mãe é o sol que clareia os primeiros passos das manhãs. Mãe é a lua abraçando a escuridão da noite clareando as estrelas.
Mãe nunca foi símbolo de fraqueza, nem tão pouco sexo frágil. Mãe nos abre a porta do mundo. Mãe também não é tudo, mas de tudo pode fazer por nós.
A mulher evoluiu, passou por cima do machismo histórico que lhe colocava num plano inferior ao do homem; o casulo da opressão e submissão em que se encontrava abriu-se, e ela saiu voando bem alto; não é mais a rainha do lar. É a rainha do mundo. O chinelo na mão estava em lugar errado, o avental todo sujo de ovo deve estar fossilizado, perdido, em alguma cozinha do passado, pendurado no pescoço de uma mãe, que não se encaixa mais nos padrões da vida atual.
Apesar de gostar da música “Ai, que saudade da Amélia”, do ator e compositor Mário Lago e Ataulfo Alves, a Amélia que era a mulher de verdade daquele tempo, que achava bonito não ter o que comer, na verdade, morreu de fome, não conseguiu chegar até aqui. O que se encaixa mais aos tempos de hoje é a Maria subindo o morro com a lata d’água na cabeça, portanto, tá mais próxima da fibra de muitas Marias, que, no peito e na raça, sobrevivem firmes, sobre o terreno íngreme, escorregadio de uma sociedade injusta.
A mãe do século XXI não morre de fome, muito pelo contrário, acumula serviços, pois cuida dos filhos, da casa e está profissionalmente preparada na disputa por um lugar ao sol no mercado de trabalho com o homem.
A mãe, que acreditava em Chapeuzinho Vermelho, se perdeu no tempo, pelos caminhos, em busca da casa da vovozinha, e o Lobo Mau, esquecido, não passa de um vira-lata “pirento” e desempregado, vagando pelas sarjetas e calçadas gélidas de um machismo que ainda agoniza, tentando ser um lobo do bem.    
Essa mãe que chega descrita nos cartões virtuais, na rapidez dessa convergência de mídias, analisada friamente, é um produto sem conteúdo, embalado simplesmente, com o intuito de causar muita emoção, amolecer os corações e gerar lucro para um sistema extremamente egoísta, que nos faz ter um sentimento de pena pelas nossas mamães.
Estamos vivendo o tempo em que Mães são chefes de estado de vários países do mundo. Maria que apanhava, virou Maria da Penha, e tantas outras que lutaram e lutam pela moral, pela ética e respeito feminino.  

Mãe é motivo de alegria todos os dias. Mas, o que fazer? O segundo domingo de maio é a festa maior delas. É o dia dedicado às mamães. São homenagens, o reconhecimento de quem dá a vida pela vida, de quem tem a força, energia, inteligência, amor e paz para transformar o mundo. Que bom te ver assim Mãe: sem o chinelo na mão e o avental todo sujo de ovo.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Artemis Veiga



Tenório Telles

O médico grego Hipócrates cunhou uma das frases mais expressivas sobre o sentido da existência e o caráter efêmero de todas as coisas sob o sol: “A vida é curta, mas a arte é longa, e para dominar a arte e acrescentar-lhe ao patrimônio humano alguma coisa, é necessário, antes de tudo, que a brevidade da vida se multiplique no trabalho, se enriqueça no amor, se ilumine no ideal e se tempere na luta”.
A frase de Hipócrates, considerado o pai da medicina, surgiu-me em meio a uma experiência dolorosa, vivida esta semana: a morte da professora Artemis Veiga. Recebi a notícia quando partia para um compromisso em Careiro Castanho. A manhã estava bela e clara. Pedi ao condutor que me levasse à funerária para o último encontro com aquela que tanto enriqueceu de sabedoria e beleza a minha vida. Difícil vê-la tão frágil e indefesa – ela que tanto amara os livros, a poesia e a arte. Junto ao seu corpo, um filme me passou pela mente: uma sequência de fotogramas de vários momentos – lembranças das aulas na Universidade, das conversas sobre seus autores prediletos, literatura policial, pintura impressionista – seu fascínio por Monet, Renoir... Os cafés na companhia de sua mãe, dona Cecília. Aprendi com ela a ler poesia, a sentir a vibração das palavras, a beleza das formas. As tardes em sua casa eram mágicas: os poemas ditos em sua voz grave. A audição de músicas que a encantavam e que encantaram minha vida.
Professora da Universidade Federal do Amazonas, Artemis foi uma profissional rigorosa e apaixonada pelo seu trabalho. Suas aulas de literatura eram momentos de encantamento. Com o brilho de sua inteligência, seu humor, transformava esses encontros em descobertas sobre a magia das palavras, o caráter plurissignificativo da linguagem. Enfim, a literatura... esse mundo multifacetado como um calidoscópio e, ao mesmo tempo, revelação – da vida, da condição humana e da força criativa dos artistas. Artemis Veiga ensinou aos seus alunos um jeito diferente de olhar o mundo e de ler os textos. Lembro-me da maneira como ia desvelando as palavras dos poemas – como se fosse tirando os véus e desnudando a alma encarnada nos vocábulos, nas frases. Aprendi, com suas lições, que ler é um exercício de mergulho – e quanto mais profundamente mergulharmos, mais seremos capazes de apreciar a riqueza e a verdade essencial de uma obra, de uma música, de uma pintura. Por tudo isso – pelo seu magistério, pela sua sabedoria, pelas sementes que plantou no nosso ser, pelo desassossego que despertou em todos nós – ela sobrevive em nossas lembranças e no que somos. Sem a presença dela em minha vida e formação – muito de mim não teria sido.
Outro aspecto da existência de Artemis Veiga que me despertou  respeito foi a capacidade de renúncia e o cuidado que tinha com sua mãe. Dona Cecília era uma leitora compulsiva e uma mulher ousada e de um humor inquebrantável. Mesmo quando já estava debilitada pela idade e pela doença não perdeu a verve. Artemis a acompanhou estoicamente na sua longa travessia. Mas não foi só isso. Poucos sabem que foi uma poetisa delicada e ciosa de seu trabalho criativo. Talvez por sua timidez e autoexigência não publicou seus poemas. Espero que sua família, especialmente seu irmão, o escritor Frederico Veiga, considere a possibilidade de reuni-los em livro. Estas palavras escritas com o coração são para eternizar minha gratidão por essa professora especial e celebrar a sua memória. Este “textículo” [seus alunos sabem do que se trata!], portanto, é um testemunho de sua passagem por este mundo tão precário e também um registro de seu legado. Artemis Veiga multiplicou a vida, que é breve, no seu trabalho e a temperou na luta.   

                                    Nota: Artemis Veiga nasceu no dia 30 de julho de 1946 e faleceu no último dia 28 de abril.

Quase toada
(para um menino-muito-meu-amigo)

Artemis Veiga

Creio em ti, menino-vadio
e no teu silêncio puro
só quebrado
pelo pranto sem lágrimas
contido num único soluço
que tua voz não realiza...

Creio em ti, menino-grande
e nos teus sonhos encantados
que acalantam
segredos de coisas
eternas
nas curvas turvas
da madrugada...

Creio em ti, menino-noturno
e no teu silêncio grave
machucado
por presenças impossíveis
que mastigam
solidões gêmeas
entre gritos estrangulados...

Creio em ti, menino-trazverso
e nas tuas tramas
claras e cheias
de palavras perfeitas
urdidas
no riso matreiro
e no hálito de noite
que te inaugura
em azul-grávido
de certezas.

(Publicado na antologia Marupiara  novos poetas do Amazonas, em 1988).