domingo, 31 de maio de 2015
sábado, 30 de maio de 2015
sexta-feira, 29 de maio de 2015
exercício nº 10
Zemaria Pinto
Às
portas do Encantado me detenho
olhando
o chão lavado por silêncios
buscando
abismos, marcas de outras lendas
no
lânguido rumor do riocorrente
E
tu, Náiade minha, guardiã
do
negronegro espelho espedaçado
em
nenúfares lunares debruçada
feito
Ofélia, em orquídeas mergulhada
desarma-te
por fim de clava e clave
e
assoma-te guerreira à montaria
à
pele, à carne e ao fogo dos sentidos
À
cabeceira de teu leito jazo
adormecido
por noturnas vagas
de
gozo e gozo e gozo e gozo e gozo
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Arte em Tese: a Universidade na Academia
A nova série de palestras da Academia Amazonense de Letras – Arte em Tese – pretende levar ao Salão do Pensamento Amazônico, ao longo do mês de junho, discussões muitas vezes restritas às audiências de apresentação de teses e dissertações.
Esta série deverá se tornar permanente, sendo reeditada todos os anos.
Desconstruindo ritos de curas
João
Bosco Botelho
O
corte nos saberes, separando o antes e o depois da Medicina como paidéia, ligando
os diagnósticos e as doenças às ideias laicas, afastando dos deuses e deusas, se
destaca no livro Das Doenças Sagradas,
de autor desconhecido, do século 4 a.C.: “Quanto à doença que nós chamamos de
sagrada (epilepsia), eis o que ela significa: ela não me parece nem mais
divina, nem mais sagrada que as outras; ela tem a mesma natureza que as demais
doenças e se origina das mesmas causas que cada uma delas. Os homens atribuíram-lhe
uma natureza e uma origem divinas por causa da ignorância e do assombro que ela
lhes inspira, pois em nada se assemelha às outras”.
Pela
primeira vez, uma doença foi explicitamente assentada no domínio da tékhne, fora do domínio dos deuses e
deusas curadoras. Não é demais repetir que também nessa época, na ilha de Cós, ocorreu
o ápice da medicina grega. O genial Hipócrates, o principal representante da
Escola de Medicina de Cós, foi reconhecido como o marco nos saberes médicos por
Platão (Protágoras 313b-c e Fedro 270c) e, posteriormente, por Aristóteles (La Politique. Paris. J. Vrin. 1989. p.
484).
Os integrantes da Escola de Cós construíram o maior
legado da Medicina como paidéia: a
teoria dos Quatro Humores, aqui considerada como primeiro corte epistemológico
da Medicina. A teoria dos Quatro Humores, atribuída a Políbio, genro de
Hipócrates, assenta as doenças e os tratamentos no mundo laico das ideias: “O corpo
humano contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, que estes elementos
constituem a natureza do corpo e são responsáveis pelas dores que se sente e
pela saúde que se goza”.
A Medicina como paidéia saltou do
domínio casual e ametódico para o método construído em torno da busca da etiologia
nos desequilíbrios dos humores. O diagnóstico acompanhava o prognóstico e a
terapêutica para identificar o excesso ou da falta do humor desequilibrado. Como
consequência, os tratamentos se voltaram para excretar as sobras por meio de vomitórios,
sudoreses, diureses, diarréias e sangrias. O prognóstico se materializava na
boa ou na ausência de resposta à terapêutica.
O médico era chamado para recompor a saúde
utilizando saberes como instrumento de leitura da natureza, como a justa medida
da saúde. Hipócrates e os médicos da Escola de Cós, na obra Da Medicina Antiga, seguiram esse
pressuposto ao afirmarem que o médico não pode saber de Medicina nem tratar os
seus doentes sem conhecer a natureza do homem (Daremberg. Oeuvres Choisies
d’Hippocrate. Paris. Labe Éditeur. 1855: “...os argumentos deles apontam para a
Filosofia tal como a de Empédocles e de outros que escreveram sobre a natureza
e descreveram o que o homem é desde a origem, como primeiro surgiu e de que
elementos é constituído”.
A
concepção teórica de saúde dos gregos também envolveu a harmonia. Sendo de natureza
harmônica em si mesma, isto é, preenchendo na medida e simetria exatas as vicissitudes
individuais, a saúde deveria ser procurada neste contexto da compreensão do normal.
Sob essa mesma perspectiva, Platão (Fédon, 93e; Leis 773a; Górgias 504c)
entendeu a saúde como a ordem do corpo e Aristóteles (Ética a Nicômaco. X 1180b)
associou o multiplicidade do comportamento moral às múltiplas dietas prescritas
pelos médicos para as febres, mas não para todas as febres.
Platão
(República 407b-c-d-e) retoma a Medicina como téhkne ao distinguir as diferenças entre as práticas Medicinais
entre pobres e ricos. O filósofo criticou o modo como os médicos dos escravos
correm de um paciente para outro e dão instruções rápidas sem falar com os
doentes e os compara com os médicos dos homens livres (Leis 720a-b-c-d-e).
Muito
atual e atrelado às queixas dos doentes acerca de alguns médicos que não ouvem
os doentes, praticando consultas de poucos minutos, Platão (Banquete, 186-187) reconhece
como insofismável a obrigação do médico em esclarecer o doente de todos os
aspectos da enfermidade, para que o tratamento seja eficaz.
Em
certas circunstâncias, a crítica de Platão à má prática médica, exclusivamente
ligada aos doentes pobres, continua válida na atualidade.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
terça-feira, 26 de maio de 2015
Os bonecos são eternos
Pedro
Lucas Lindoso
Quem
foi menino em Manaus na década de sessenta, com certeza tem nas lembranças
afetivas a figura de dois bonecos emblemáticos e icônicos da cultura popular da
cidade de Manaus: Peteleco e Kamélia.
O
Peteleco é um boneco criado pelo ventríloquo Oscarino Varjão que foi muito
amigo de meu saudoso pai, José Lindoso. Peteleco é um neguinho muito querido,
respondão, malcriado e dizia tudo que a gente gostaria de dizer e não podia.
Naquele
tempo, menino era tratado como menino. Tolice era inibida com palmatória e
cachuleta. Para quem não sabe o que é cachuleta, trata-se de levar uma forte pancada com o dedo médio na orelha, para ficar esperto e não fazer mais
tolice. Aliás, cachuleta também se chama
peteleco, principalmente no sudeste do Brasil.
Posso
dizer que o Peteleco foi um dos meus melhores amigos de infância. Toda vez que
ele se apresentava no auditório do SESC na rua Henrique Martins, onde morávamos,
eu não perdia. Considero o Peteleco como um dos meus diletos companheiros da rua
Henrique Martins.
Soube
que o Peteleco também faz shows para adultos atualmente. Fico feliz em saber
que o Peteleco é um garoto cinquentão como eu.
Há
poucos meses, era domingo e eu fui assistir ao Peteleco, na Casa de Música Ivete Ibiapina, na Rua 10 de Julho. Após o show,
conversei com Oscarino e ele lembrou-se de meu pai com carinho e deferência.
Disse a ele que conhecia o
Peteleco desde menino e ele ficou feliz. Ah! E ainda tive o privilégio de
“conversar” com o próprio Peteleco. Foi uma alegria para mim.
O outro boneco, digo boneca, é a
Kamélia. Ela sempre chega para a abertura do carnaval de Manaus.
Durante certo tempo eu tinha medo da Kamélia. Um
verdadeiro pavor. Explico: a boneca foi
inspirada na marchinha Jardineira, na qual a Kamélia “caiu do
galho, deu dois suspiros e depois morreu”. Na minha cabeça de menino medroso, a
Kamélia seria uma “visagem”, uma assombração.
Como todo curumim, eu adorava ver
avião. Ir ao Aeroporto Ponta Pelada era um passeio irrecusável. Mas quando
soube que naquele dia iríamos ao aeroporto para a chegada da Kamélia, o medo
tomou conta de mim.
O fato é que a Kamélia chegava de avião, vindo
provavelmente da Bahia, e a população ia “buscá-la” no antigo Aeroporto de
Ponta Pelada. Era um acontecimento. Mas e o medo de alma penada?
Foi então que me enchi de coragem
e perguntei a Darinha, que morava lá em casa desde sempre: – Darinha, os
bonecos morrem? E então ela me disse:
– Não meu filho, bonecos não morrem.
Os bichos, as pessoas, as plantas morrem, mas os bonecos não morrem nunca.
Sempre acreditei na Darinha. E lá
fui eu, feliz da vida, ao aeroporto de Ponta Pelada receber a Kamélia, vindo
diretamente de Salvador para Manaus, vestida de baiana, para alegrar os
manauaras.
E todo ano ela chega. Agora,
procedente do Rio de Janeiro. E o Peteleco continua por aí.
E não é que é verdade? Darinha
tinha razão. Os bonecos não morrem nunca. São eternos.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Biografia de um homem comum
Inácio
Oliveira
Os
Cinco Maiores Sucessos
1_ O dia em que meu avô
me deu um triciclo de presente. (Tinha oito anos. Vejo meu avô descendo pela
ruazinha da nossa casa com o triciclo nas mãos, então saio correndo para abraçá-lo,
louco de felicidade).
2_ A primeira vez que fiz
amor com uma mulher. (Tinha quinze anos. Ela desfez o laço que prendia o
vestido às costas, então a terra se confundiu com os céus e o espírito de Deus
voltou a mover-se sobre a face das águas).
3_ O dia em que saí do
interior para a capital. (Tinha dezoito anos. Andei pela praça em frente à
igreja, vi a ponte sobre o rio, as estradas de terra e as palmeiras vergadas
sob o vento. Havia um enorme sentimento de despedida e libertação em cada
coisa).
4_ O dia em que conheci
Carmem. (Tinha vinte e cinco anos. Ela estava lendo um livro sobre o balcão,
aproximei-me e disse – eu vou me casar com você).
5_ O dia em que meu filho
nasceu. (Tinha trinta anos. Eu só precisava de alguém que precisasse de mim,
então a enfermeira pôs aquele ser tão frágil em meus braços. Qualquer coisa
poderia matá-lo, até mesmo a leve brisa que entrava pela janela).
Os
cinco melhores amigos
1_ Zico, bico de pato.
(Brincávamos de caçar no quintal de casa).
2_ Bebel. (Um dia eu me
apaixonei por ela).
3_ Mário Rodrigues. (Não
me deixou passar fome quando os dias eram longos).
4_ Paulão. (Amizade
etílica).
5_ Lúcio. (Empurra minha
cadeira de rodas e desce as escadas comigo no colo).
Cinco
coisas que me arrependo de ter feito
1_ Ter deixado de falar com
o meu pai. (Há muito tempo que ele está morto e eu nem lembro qual foi a última
coisa que eu lhe disse).
2_ Ter deixado Carmem
porque estava apaixonado por outra mulher. (Mas se não tivesse feito isso
também estaria arrependido).
3_ Ter matado um homem.
(Um animal pode combater longamente com outro da mesma espécie. Seja para
assegurar sua liderança, conquistar um território ou uma fêmea, ou simplesmente
para demonstrar sua força; mas esse animal dificilmente matará um semelhante
seu. Um homem mata o outro num piscar de olhos).
As
coisas mais bonitas que vi na vida
1_ A lua nascendo de
madrugada de dentro de um rio. (Eu e o meu pai estávamos pescando numa canoa,
ele disse que logo a lua nasceria. Eu fiquei sentado na proa da canoa e vi a
lua surgir como se brotasse de dentro d’água).
2_ Uma mulher de vestido.
(Quando ela tira o vestido).
3_ Uma árvore. (Há uma
paisagem. É um descampado com uma árvore solitária no meio. Nas noites de
tempestade ela é fustigada pelo vento e isso faz com que suas raízes tornem-se
cada vez mais profundas. Era ali que nos amávamos, Carmem e eu.)
4_ Um cavalo no pasto. (Quando
estive em Analto fui ao Museu do Musgo, lá eu vi um quadro pintado pelo famoso
artista Juan Castel. O cavalo no pasto. Fiquei horas olhando para o quadro.
Impressionou-me que o cavalo pintado fosse o mesmo que meu pai montava naquelas
tardes na fazenda do meu avô, o riacho ao fundo do quadro e as castanheiras que
cresciam ao longe eram as mesmas da nossa terra, até a casa na colina era
igual, era como se fosse um espelho).
As
piores coisas que já me aconteceram
1_ Quando minha mãe
morreu. (Eu tinha doze anos).
2_ Ver meu filho ser
criado por outro homem.
3_ Ter sido preso.
4_ Ter envelhecido.
5_ Ter ficado impotente.
6_ Ter perdido o
movimento das pernas.
Quatro
objetos
1_ Um triciclo que meu
avô me deu quando eu tinha oito anos.
2_ Um isqueiro da marca
Cobra Fumando.
3_ Uma caneta Parker.
4_ Um relógio da marca
Lucius (Este relógio me acompanha nos último anos, jamais atrasou um segundo.
Quando eu morrer seus indiferentes ponteiros continuarão a se mover no meu
pulso).
Cinco
Livros
1_ Meu pé de laranja lima, de Mauro Vasconcelos. (O primeiro livro que
li na vida, descobri que um homem que lê jamais estará sozinho).
2_ O livro de Jó.
3_ Como beber sem ficar porre, de Martin Heine. (Muito útil nas noites
sem fim).
4_ Quando o Diabo chorou, de Lucas Sarmento. (Impressionante história
sobre um menino que ficou sozinho).
5_ Ulisses, de James Joyce. (Nunca li, mas sempre quis colocá-lo em
uma lista).
Três
coisas que eu odiava em Carmem
1_ Fazia amor em
silêncio. (Nada pior que uma mulher que faz amor em silêncio).
2_ Mantinha os cabelos
sempre presos.
3_ Sabia quando eu estava
mentindo.
Um
cheiro
1_ Café sendo torrado
domingo à tarde. (Nós colhíamos o café e minha vó deixava ele secar por uma
semana no sol, quando chegava domingo ela acendia o fogão à lenha e torrava o
café em uma folha-de-flandres. O cheiro de café torrado tomava conta da tarde).
Uma
comida
1_ Canja de galinha.
(Feita pela minha mãe com arroz pilado no pilão).
Três
desejos
1_ Uma dentadura nova.
2_ Viver até maio quando
os jambeiros começam florir e o pátio fica colorido das flores vermelhas que
caem.
3_ Que meu filho viesse
me ver aqui neste asilo.
Uma
esperança
1_ Morrer sem dor.
domingo, 24 de maio de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Separando a medicina dos ritos de cura
João
Bosco Botelho
Em
contraponto à cura mágica da doença entendida como forma de castigo aos
pecadores, as práticas médicas laicas constroem e reconstroem a busca da
materialidade da doença. Desde o século 4 a.C., na Escola Medica de Cós, sob a liderança
de Hipócrates, a teoria dos Quatros Humores, idealizada por Políbio, iniciou o
processo para retirar dos deuses e deusas a primazia da saúde e da doença. Por
essa razão, usando a linguagem de Bachelard, eu a entendo como primeiro corte epistemológico na busca da
materialidade da doença.
A associação entre as idéias da Escola
Médica de Cós e a filosofia jônica possibilitou avanço gigantesco — a Medicina
como Paideia — estabelecendo a ponte que ligaria, para sempre, a busca laica da
causa das doenças.
A
Medicina como Paideia abriu o caminho ao avanço da medicina oriunda das
universidades. É possível compor cinco alicerces fundamentais da physis, da estrutura teórica jônica, embutidos
na Medicina como Paideia:
—
Como universalidade e individualidade: todas as coisas têm a sua physis própria, os astros, os ventos, as
águas, os medicamentos, o homem com as suas partes e as doenças (Das Epidemias, distingue: ”...a physis comum de todas as coisas, da
physis própria de cada coisa”;
— Como
princípio: a physis é o princípio (arkhé) de tudo que existe (Sobre os Lugares e o Homem, lê-se: “A physis do corpo é o princípio da razão da
Medicina”).
—
Como harmonia: na sua aparência e na sua dinâmica a physis é harmoniosa; é a ordem que se realiza com beleza. A
natureza é harmoniosa e produz harmonia;
—
Como racionalidade: a natureza é racional em si mesma. Por esta razão existe
uma fisiologia; a ciência na qual o logos
do homem se harmoniza diretamente com os logos
da natureza;
—
Como divindade: a physis é em si
mesma divina.
Esse
é um dos aspectos mais interessantes na Medicina, na Grécia, do século 4 a.C.:
mesmo sem ataques aos deuses protetores da saúde, em especial, ao deus
Asclépio, os médicos de Cós e os filósofos estabeleceram elos duradouros entre
o binômio saúde-doença com a natureza circundante, como está presente na introdução
do manuscrito Dos Ventos, Águas e Regiões,
de autor desconhecido, escrito no século 4 a.C. (Daremberg. Oeuvres Choisies d’Hippocrate. Paris.
Labe Éditeur. 1855. p. 1050):
“Quem quiser aprender bem a arte de médico
deve proceder assim: em primeiro lugar deve ter presentes as estações do ano e
os seus efeitos, pois nem todas são iguais mas diferem radicalmente quanto à
sua essência especificada e quanto às suas mudanças. Quando um médico chegar a
uma cidade desconhecida, deve determinar, antes de mais nada o que se refere às
águas e à qualidade do solo, pois a mudança nas doenças do homem, está relacionada
com a mudança do clima”.
Não
é demais repetir que Platão (Político,
296a-b-c) sistematizou o pensamento corrente da época ao descrever a nova
postura do médico e a do político. Ambos, baseados nos respectivos saberes,
deveriam, sempre que necessário, intervir na sociedade para promover melhoras.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
Perde e sai
Pedro
Lucas Lindoso
Hillary
Kathyanne anda deveras atarefada desde o início do Peladão.
O
campeonato existe há mais de 40 anos. Hillary é diretora de um dos 737 times
inscritos neste ano.
Além
de mostrar qual o melhor time de futebol amador de Manaus, o Peladão vai eleger
a musa mais bonita das equipes. Portanto, não basta ser só bom de bola. O time
precisa de uma garota bonita e disciplinada para se tornar a Rainha do Peladão
e virar celebridade.
Hillary
já foi musa de seu time. Só uma vez, por insistência da galera. Ela diz que não
é sua praia. Gosta mesmo é dos bastidores.
Como
diretora financeira, já organizou inúmeras feijoadas para angariar verba para o
time. Todas animadíssimas. A única feijoada de triste memória foi no ano de
2010. Hillary namorava um tão de Chicão que, com ciúmes do centro avante Robert
Masterson, quase acaba com a festança.
Mas
durante o campeonato não conte com Hillary para nada a partir de sexta-feira. Os
jogos acontecem sábado à tarde e domingo pela manhã. Mas já na sexta começam as
estratégias de apoio ao time.
Um
jornal local patrocinador do evento publica, toda sexta-feira, um encarte com o
horário dos jogos, classificação, fotos das meninas e notícias gerais do
campeonato.
Sábado
pela manhã tudo tem que estar organizado. É preciso providenciar água, gelo,
laranja e banana para os jogadores.
Hillary
tem a função de fazer os cartões de falta, de cores amarelo e vermelho. Não
existe juiz fixo no Peladão. Os árbitros e assistentes são indicados pela
comissão organizadora, geralmente dentre outros times que disputam o peladão.
Esse
ano Hillary conseguiu, além do patrocínio de uma loja de material de
construção, o apoio de um lanche famoso do bairro. Pode finalmente mandar fazer
camisas para toda a torcida.
O
time já passou pela primeira fase e também conseguiu sair-se bem na segunda.
Está entre os 100 melhores. O que já é uma vitória.
Mas
a coisa não é fácil. Às vezes falta jogador e o pessoal tem que correr atrás do
caboclo faltoso. Ou o cara está bêbado ou simplesmente sumiu. È uma agonia.
Domingo
passado foi triste. Passada a primeira e segunda fases, começa o “perde e sai”.
E o time de Hillary saiu.
Mesmo
assim não faltou cerveja e o pagode de sempre, na casa do presidente. As
esperanças para o próximo campeonato se renovam, na confiança do time ser
campeão e convencer Hillary a desfilar de biquíni, como musa do peladão.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Um anjo terrível
Inácio
Oliveira
Pense
em tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi. Pense em quantos mínimos
acasos fizeram sua vida tomar um rumo que você jamais escolheria. Pense naquele
preciso instante em que você quis partir, mas na última hora decidiu ficar para
depois perceber que ter ido era tudo que devia ter feito. Pense nas longas
filas nos supermercados, nos bancos e nos cinemas. Pense nas horas
desperdiçadas no trânsito das cinco da tarde. Pense nas pessoas que não usam
desodorantes dentro dos ônibus lotados às sete da manhã. Pense naqueles que
perderam um grande amor por um gesto, uma palavra ou um silêncio. Pense num
rapaz que anotou os números que seriam sorteados na mega-sena, mas na hora de
comprar o bilhete decidiu comprar ração para o cachorro. Pense num homem que
perdeu as melhores horas da sua vida montando celular numa fábrica do Polo
Industrial de Manaus. Pense numa torneira pingando a noite toda num quarto
esquecido no fim do subúrbio onde alguém morre lentamente por falta de
cuidados, amor e antibióticos. Pense na chuva caindo sobre um telhado onde
todos estão mortos. Pense naqueles que partiram sabendo que jamais iriam
voltar. Pense num louco sentado na praça conversando com a mãe que já morreu.
Pense num homem que saiu de casa magoado com sua mulher e seus filhos e que
morreu em seguida atropelado na rua. Pense numa pessoa que será enterrada numa
vala comum sem direito a nenhuma lágrima. Pense num homem com a mãos sujas do
sangue de outro homem. Pense num índio que teve seu corpo queimado numa praça
de Brasília. Pense nas mulheres mutiladas, imprestáveis para o amor. Pense na
pedofilia. Pense naqueles que sofrem nos hospitais e nos enterros. Pense num
homem que deu um tiro dentro da própria boca e não morreu. Pense no câncer em
metástase, na peste negra ou na aids. Pense num homem deitado em posição fetal no
chão frio de um cárcere, cujo último desejo é voltar para o útero, qualquer
útero. Pense em alguém que foi comido pelas piranhas no fundo escuro de um rio.
Pense num jovem que teve os testículos eletrocutados dentro de uma sala do
exército em 1964. Pense num longo e terrível dia de fome. Pense na repetição,
sempre possível, de Auschwitz. Pense numa tarde remota em Hiroshima onde a
paisagem nunca mais foi a mesma. Pense no Estado islâmico. Pense na agonia impensável
de uma criança no momento exato em que ela nasce. Agora imagine que um anjo
terrível varresse a terra com sua espada de fogo e os homens sacrificados
pedissem perdão: Não Peça! Não Peça!
Lábios que beijei, a work in progress
Meu narrador, um homem
de cerca de 85 anos, anda meio adoentado e sem tesão – literalmente – para contar
suas (des)venturas, por isso, vamos diminuir o ritmo, passando a uma narrativa
por mês, sempre nas primeiras segundas-feiras do mês. Preciso dar-lhe tempo
para que sua memória possa trabalhar de forma prazerosa... Até junho!...
(Zemaria Pinto)
domingo, 17 de maio de 2015
Manaus, amor e memória CCXII
sábado, 16 de maio de 2015
quinta-feira, 14 de maio de 2015
aurora
Zemaria Pinto
aurora luz/escuridão
quebra ruptura
rompimento
aurora alumbramento
dor choro
prazer
gozo solidão
aurora paz
guerra terremoto enchente
ternura encantamento
aurora
acanhamento
recolhimento
explosão
aurora
luz
aurora escuridão
–
ou não?
–
ou não?
Pecado e doença no monoteísmo cristão
João
Bosco Botelho
A
extraordinária reconstrução grega da doença desvinculada do pecado atingiu os
ritos romanos. Para conter o avanço do laico os teóricos da coisa sagrada impuseram
regras mais rígidas para evitar o erro cerimonial nos ritos, reforçando o rito
puro e construindo novas estruturas polares: piedade (pietas) e impiedade (impietas).
O rito malconduzido, gerando pecado, doença, malefício, infelicidade, seria
consertado por meio de outra cerimônia (expiatio)
para anular a impureza (pecado). Nessa esteira, seguiram-se os muitos cultos
gnósticos defendendo desprezo pelo corpo, pela coisa exclusivamente laica. Como
seguimento, os ritos corretivos dos pecados tornaram-se violentos, impondo
jejuns prolongados e flagelações sangrentas, abrindo caminho às futuras
teorizações do pecado sob a égide judaico-cristã.
Desde
aqueles tempos, não existia consenso em torno do pecado original. Um dos
exemplos mais significativo da negativa do pecado original está fincado na
fundação de Roma, quando Rômulo mata por banalidade o irmão Remo: enquanto
Cícero admite o pecado, no De officius,
III, 41 (peccatum), Horácio defende o
pressuposto de crime, no Epodon líber, VII, 1 e 17-20 (scelus) e Virgílio, afasta a idéia de pecado.
No
Antigo Testamento, nas linhas mais interessantes ligando a doença ao pecado se
destaca a interseção da serpente. A idéia de pecado original no AT se mostra
essencialmente voltada à ordem espiritual (Gênesis 2, 8; 3; Job 14, 1-4; Salmos
50 e Ezequiel 18, 1-32), sem a marca da transmissão à descendência.
A
concepção fundamental do pecado no AT é representada pela associação com doenças,
desgraças, infelicidades e provocando ações para corrigir e evitar novos
pecados não mortais (Samuel, 20,1; I Reis, 2,19; II Reis, 1, 1) e pecados
mortais (Deutoronômio, 14,16; 21, 22; 22,26; Ezequiel, 3, 20; Amos, 9,10). Nas
duas circunstâncias, o perdão divino concedido ao pecador, gerando a cura da
doença, a dissolução da infelicidade ou do nó, seria alcançado por meio da confissão
individual (Gênesis, 39, 9; Josué, 7, 13-23).
Nos
últimos séculos do judaísmo antigo surgiram reconstruções em torno do pecado
original, como fontes de doenças, infortúnios e morte prematura, voltadas à
responsabilidade de Eva, em Eclesiastes, 25-24: “Foi pela mulher que o pecado
começou e, por sua causa, todos nós morremos”.
Várias
passagens dos Evangelhos descrevem a concepção judia do pecado, diferenciando
os pagãos como pecadores por não cumprirem as Leis, pondo a misericórdia de
Deus como possibilidade do perdão puro — Nova Aliança. Jesus Cristo ao vencer o
diabo, removeu o pecado, a doença, o aleijão, a infelicidade.
Ao
contrário às raízes pré-socráticas, outra vez, a doença adere fortemente ao
pecado. No medievo, os teólogos acrescentaram rigores no entendimento da doença
— como obstáculo entre o homem e Deus — como sinal de pecado, em especial, às
moléstias deformantes do corpo, como a lepra.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
Bonitinho agora é “Seu” Charles
Pedro
Lucas Lindoso
Charlezinho
da Compensa é um caboclo valoroso. Passou em concurso público nacional para uma
agência reguladora federal, com sede em Brasília. Filho de
dona Jurandilza, que tem esse nome porque é filha de Jurandir e Ilza, Charlezinho
pratica jiu-jítsu, estuda muito, joga futebol e namora bastante, além de tocar
violão. As garotas da Compensa dizem que ele é bonitinho. E o apelido pegou.
Bonitinho foi então, convocado para fazer treinamento no Distrito Federal. O voo
marcado para as 2:40 não foi empecilho para que todo mundo fosse levar o
Bonitinho ao Aeroporto Eduardo Gomes. Além de seus pais, e avós, os três
irmãos, a vizinha solteirona e duas amigas, quatro outros vizinhos, o professor
de jiu-jítsu e três colegas, Dona Francisquinha, orgulhosa professora
particular do Charlezinho e o marido, cinco primos, duas ex-namoradas e a
atual, que se chama Kathyenny, com k e y, que levou os pais e dois irmãos.
Enfim, uma comitiva de 23 pessoas se deslocou da Compensa ao aeroporto para
despedir-se de Bonitinho rumo ao Distrito Federal. Uma viagem para treinamento
e ao final, tomar posse no almejado emprego público. Uma Kombi, dirigida por
Seu Jurandir, e mais quatro carros levaram todos ao aeroporto. Dona Jurandilza
estava muito nervosa. Enquanto terminava de arrumar a maleta do filho houve um
apagão na cidade. A Kathyenny não parava de perturbar. Bonitinho estava muito
ansioso porque seria a sua primeira viagem de avião. E não podia mostrar-se
medroso perante seus colegas de jiu-jítsu, que já haviam viajado de avião para
campeonatos no sudeste. A namorada Kathyenny não parava de chorar. Dona
Jurandilza já estava sem paciência. Ele volta em um mês. Mas quando Bonitinho
entrou para a sala de embarque, Kathyenny deu um grito e desmaiou. Um vexame.
Ainda bem que ele já estava lá dentro e nem viu a leseira da namorada. Em
Brasília, Bonitinho ficou hospedado no Guará, na casa do tio Ilzajur, irmão de
dona Jurandilza. Os primos brasilienses receberam Bonitinho com alegria. Levou
isopor com tambaqui, pirarucu, farinha do uarini, pimenta murupi e dois litros
de guaraná baré. Foi uma festa. Charlezinho ia de metrô para o treinamento na
agência. Pensou que se houvesse um metrô ligando a Compensa até o Distrito, via
Centro, e outra linha ligando o Centro à Cidade Nova e Zona Leste, Manaus seria
outra cidade. Visitou a Catedral, o Congresso, a Praça dos Três Poderes e o
Memorial JK. Tudo postado com fotos pelo Instagram e Facebook. Os primos o
levaram ainda até o Palácio da Alvorada. Bonitinho jogou uma moeda no poço que
fica em frente. E
perguntou com quem ficavam aquelas moedas. Ninguém soube responder. Para a
presidenta é que não é. Noite de sexta, Bonitinho foi a um forró em Ceilândia. Fez
sucesso com uns passos de forró que só os amazonenses sabem fazer. Terminado o
treinamento, Bonitinho retornou para Manaus. Já empossado como servidor público
federal da agência reguladora, mas lotado em Manaus. Charlezinho
gostou muito de Brasília. Certamente não troca a capital por Manaus. Em julho
faz muito frio. O clima é muito seco. Lá não se encontra farinha ovinha e nem
pimenta murupi. A única tacacazeira é na feira da torre de TV. E nem amazonense
ela é. E voltou de Brasília para a Compensa, feliz da vida. Na segunda seguinte
deu expediente na superintendência aqui em Manaus. Semana
passada casou-se com sua amada Kathyenne, grávida de dois meses. Charlezinho da
Compensa, o Bonitinho, é coisa do passado. Casados e felizes “Seu” Charles e
Dona Kathyenne foram morar em condomínio no Tarumã.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Otelo solo no Teatro Éden/O Alienígena
Otelo solo, texto
de Zemaria Pinto, encenação de Nereide Santiago e interpretação de Arnoldo
Chaves, fica em curtíssima temporada no Teatro Éden (altos d’O Alienígena),
dias 8 e 15 de maio, às 20h.
Endereço: Lima Bacury, 64 –
Centro
Sinopse: após os episódios
conhecidos – a intriga de Iago, o assassinato de Desdêmona e o próprio suicídio
– Otelo desperta e reflete sobre os acontecimentos trágicos que protagonizou.
Monólogo, com cerca de 50
minutos de duração, Otelo solo é um
exercício de arte dramática.
A peça ganhou o Prêmio PROARTE 2011, da SEC.
domingo, 10 de maio de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
Sem o chinelo na mão e o avental sujo de ovo
David Almeida
Com a chegada do dia
das mães – 10 de maio – as mensagens na rede mundial de computadores têm
“bombado.” Os e-mails vão chegando com os mais diversos tipos de cartões
virtuais, cheios de arranjos, flores, decorações das mais inusitadas,
acompanhadas de musicas tristes, melancólicas, bucólicas, te arremetendo a um
clima de funeral. Dá vontade de chorar. E se você lê dois cartões virtuais
desses com certeza vai entrar em “deprê.” E pra reverter esse quadro, vai ter
que gastar um dinheirinho no consultório do Dr. Rogélio Casado.
Qual o porquê das
músicas, poemas e textos que falam de Mãe – não são todas, claro, mas a maioria
– trazerem esse tom cinza, quase preto de emoldurar tristeza? Mãe é o amor que
rega a essência da vida. Mãe é o sol que clareia os primeiros passos das
manhãs. Mãe é a lua abraçando a escuridão da noite clareando as estrelas.
Mãe nunca foi símbolo
de fraqueza, nem tão pouco sexo frágil. Mãe nos abre a porta do mundo. Mãe
também não é tudo, mas de tudo pode fazer por nós.
A mulher evoluiu,
passou por cima do machismo histórico que lhe colocava num plano inferior ao do
homem; o casulo da opressão e submissão em que se encontrava abriu-se, e ela
saiu voando bem alto; não é mais a rainha do lar. É a rainha do mundo. O
chinelo na mão estava em lugar errado, o avental todo sujo de ovo deve estar
fossilizado, perdido, em alguma cozinha do passado, pendurado no pescoço de uma
mãe, que não se encaixa mais nos padrões da vida atual.
Apesar de gostar da música
“Ai, que saudade da Amélia”, do ator e compositor Mário Lago e Ataulfo Alves, a
Amélia que era a mulher de verdade daquele tempo, que achava bonito não ter o
que comer, na verdade, morreu de fome, não conseguiu chegar até aqui. O que se
encaixa mais aos tempos de hoje é a Maria subindo o morro com a lata d’água na
cabeça, portanto, tá mais próxima da fibra de muitas Marias, que, no peito e na
raça, sobrevivem firmes, sobre o terreno íngreme, escorregadio de uma sociedade
injusta.
A mãe do século XXI não
morre de fome, muito pelo contrário, acumula serviços, pois cuida dos filhos,
da casa e está profissionalmente preparada na disputa por um lugar ao sol no
mercado de trabalho com o homem.
A mãe, que acreditava em
Chapeuzinho Vermelho, se perdeu no tempo, pelos caminhos, em busca da casa da vovozinha,
e o Lobo Mau, esquecido, não passa de um vira-lata “pirento” e desempregado,
vagando pelas sarjetas e calçadas gélidas de um machismo que ainda agoniza, tentando ser um lobo do bem.
Essa mãe que chega descrita
nos cartões virtuais, na rapidez dessa convergência de mídias, analisada
friamente, é um produto sem conteúdo, embalado simplesmente, com o intuito de
causar muita emoção, amolecer os corações e gerar lucro para um sistema
extremamente egoísta, que nos faz ter um sentimento de pena pelas nossas mamães.
Estamos vivendo o tempo
em que Mães são chefes de estado de vários países do mundo. Maria que apanhava,
virou Maria da Penha, e tantas outras que lutaram e lutam pela moral, pela ética
e respeito feminino.
Mãe é motivo de alegria
todos os dias. Mas, o que fazer? O segundo domingo de maio é a festa maior
delas. É o dia dedicado às mamães. São homenagens, o reconhecimento de quem dá
a vida pela vida, de quem tem a força, energia, inteligência, amor e paz para
transformar o mundo. Que bom te ver assim Mãe: sem o chinelo na mão e o avental
todo sujo de ovo.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Artemis Veiga
Tenório Telles
O médico grego
Hipócrates cunhou uma das frases mais expressivas sobre o sentido da existência
e o caráter efêmero de todas as coisas sob o sol: “A vida é curta, mas a arte é
longa, e para dominar a arte e acrescentar-lhe ao patrimônio humano alguma
coisa, é necessário, antes de tudo, que a brevidade da vida se multiplique no
trabalho, se enriqueça no amor, se ilumine no ideal e se tempere na luta”.
A frase de Hipócrates,
considerado o pai da medicina, surgiu-me em meio a uma experiência dolorosa,
vivida esta semana: a morte da professora Artemis Veiga. Recebi a notícia
quando partia para um compromisso em Careiro Castanho. A manhã estava bela e
clara. Pedi ao condutor que me levasse à funerária para o último encontro com
aquela que tanto enriqueceu de sabedoria e beleza a minha vida. Difícil vê-la
tão frágil e indefesa – ela que tanto amara os livros, a poesia e a arte. Junto
ao seu corpo, um filme me passou pela mente: uma sequência de fotogramas de
vários momentos – lembranças das aulas na Universidade, das conversas sobre
seus autores prediletos, literatura policial, pintura impressionista – seu
fascínio por Monet, Renoir... Os cafés na companhia de sua mãe, dona Cecília.
Aprendi com ela a ler poesia, a sentir a vibração das palavras, a beleza das
formas. As tardes em sua casa eram mágicas: os poemas ditos em sua voz grave. A
audição de músicas que a encantavam e que encantaram minha vida.
Professora da
Universidade Federal do Amazonas, Artemis foi uma profissional rigorosa e
apaixonada pelo seu trabalho. Suas aulas de literatura eram momentos de
encantamento. Com o brilho de sua inteligência, seu humor, transformava esses
encontros em descobertas sobre a magia das palavras, o caráter
plurissignificativo da linguagem. Enfim, a literatura... esse mundo
multifacetado como um calidoscópio e, ao mesmo tempo, revelação – da vida, da
condição humana e da força criativa dos artistas. Artemis Veiga ensinou aos
seus alunos um jeito diferente de olhar o mundo e de ler os textos. Lembro-me
da maneira como ia desvelando as palavras dos poemas – como se fosse tirando os
véus e desnudando a alma encarnada nos vocábulos, nas frases. Aprendi, com suas
lições, que ler é um exercício de mergulho – e quanto mais profundamente
mergulharmos, mais seremos capazes de apreciar a riqueza e a verdade essencial
de uma obra, de uma música, de uma pintura. Por tudo isso – pelo seu
magistério, pela sua sabedoria, pelas sementes que plantou no nosso ser, pelo
desassossego que despertou em todos nós – ela sobrevive em nossas lembranças e
no que somos. Sem a presença dela em minha vida e formação – muito de mim não
teria sido.
Outro aspecto da
existência de Artemis Veiga que me despertou
respeito foi a capacidade de renúncia e o cuidado que tinha com sua mãe.
Dona Cecília era uma leitora compulsiva e uma mulher ousada e de um humor
inquebrantável. Mesmo quando já estava debilitada pela idade e pela doença não
perdeu a verve. Artemis a acompanhou estoicamente na sua longa travessia. Mas
não foi só isso. Poucos sabem que foi uma poetisa delicada e ciosa de seu
trabalho criativo. Talvez por sua timidez e autoexigência não publicou seus
poemas. Espero que sua família, especialmente seu irmão, o escritor Frederico
Veiga, considere a possibilidade de reuni-los em livro. Estas palavras escritas
com o coração são para eternizar minha gratidão por essa professora especial e
celebrar a sua memória. Este “textículo” [seus alunos sabem do que se trata!],
portanto, é um testemunho de sua passagem por este mundo tão precário e também
um registro de seu legado. Artemis Veiga multiplicou a vida, que é breve, no
seu trabalho e a temperou na luta.
Nota: Artemis Veiga
nasceu no dia 30 de julho de 1946 e faleceu no último dia 28 de abril.
Quase
toada
(para
um menino-muito-meu-amigo)
Artemis Veiga
Creio
em ti, menino-vadio
e
no teu silêncio puro
só
quebrado
pelo
pranto sem lágrimas
contido
num único soluço
que
tua voz não realiza...
Creio
em ti, menino-grande
e
nos teus sonhos encantados
que
acalantam
segredos
de coisas
eternas
nas
curvas turvas
da
madrugada...
Creio
em ti, menino-noturno
e
no teu silêncio grave
machucado
por
presenças impossíveis
que
mastigam
solidões
gêmeas
entre
gritos estrangulados...
Creio
em ti, menino-trazverso
e
nas tuas tramas
claras
e cheias
de
palavras perfeitas
urdidas
no
riso matreiro
e
no hálito de noite
que
te inaugura
em
azul-grávido
de
certezas.
(Publicado na antologia Marupiara – novos poetas do Amazonas, em 1988).
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