Tainá Vieira
No
final de semana passado, assistimos, em família, ao filme Soy Frankelda.
Uma animação mexicana de fantasia, dirigida por Arturo Ambriz e Roy Ambriz,
emocionante e muito significativa.
Emocionante porque esse mundo da fantasia consegue nos tirar do mundo
enfadonho que é a vida, na maior parte; e significativa porque narrativas
ousadas como essa, que abraçam o grotesco, o sombrio e o inquietante, nos
obrigam a olhar novamente para a própria vida. Elas nos lembram que os monstros
nunca existiram apenas nos livros ou nas telas; eles sempre encontraram
maneiras de caminhar entre nós. Nesse sentindo, a história da corajosa
Francisca Imelda é um convite para ampliar nossa perspectiva sobre como lemos e
interpretamos os sinais que todas as expressões artísticas nos apresentam
diariamente.
A arte
nunca fala apenas de si mesma. Ela fala de nós, de nossos medos, de nossas
violências, de nossas ausências e dos silêncios que insistimos em naturalizar.
Talvez por isso tantas histórias pareçam tão fantasiosas quando, na verdade,
apenas estampam aquilo que a realidade já faz com crueldade. E sim, vou
insistir na mesma linha de pensamento. Vou falar sobre o mesmo assunto tantas
vezes quantas forem necessárias, porque, em todos os séculos, a mesma história
continua sendo contada, apenas em idiomas diferentes. Os cenários mudam. Os
figurinos mudam. As personagens recebem novos nomes. As tecnologias avançam,
mas o enredo permanece assustadoramente semelhante.
A
história pode até se fragmentar ao longo do tempo; as personagens são
renovadas, contudo, o cerne, a essência enraizada nas mentes dos algozes que se
proclamam detentores do saber supremo, continua intacta onde quer que seja. É
sempre a mesma necessidade de controlar quem pode falar, quem pode escrever,
quem pode criar e quem merece ser lembrado. E nós estamos aqui justamente para
isso: insistir em expor e expurgar esse mal que atravessa todos os espaços e
que teima em continuar mesmo percebendo que a sua presença já não é mais
tolerada.
É por
isso que estamos sempre no front, olhos atentos a todo instante para capturarmos
quaisquer sinais positivos que nos ajudem nessa luta, foi assim que encontrei
Francisca Imelda, a protagonista da narrativa. Quando criança, ela sonhava em
ser escritora, mas sua maneira de imaginar e contar histórias era considerada
absurda demais. Como poderia uma criança e, pior ainda, uma menina, pensar
daquela forma? Sua imaginação era tratada como desvio. Sua criatividade, como
ameaça. Mais tarde, já jovem, ouviu de um editor que uma mulher não poderia
escrever daquele jeito. Essa cena me atravessou de uma maneira forte demais.
Por que será? Talvez porque, de uma forma ou de outra, essa ainda seja uma
história que conhecemos bem. Mudam-se as palavras, mas permanece o mesmo
julgamento.
Quantas
mulheres tiveram seus sonhos enterrados antes mesmo de florescerem? Quantas
desistiram porque aprenderam cedo que precisariam pedir licença para existir
intelectualmente? Quantas boas histórias foram publicadas sob pseudônimos,
atribuídas a homens ou simplesmente esquecidas por que suas autoras ousaram
pensar além do que lhes era permitido? E quantas obras extraordinárias ficaram
escondidas nas margens da história, esperando que alguém finalmente lhes
devolva a voz? Verenilde Pereira é um grande exemplo disso. Sua escrita
permaneceu durante décadas distante do reconhecimento que merecia, como
acontece com tantas outras mulheres cujas produções são tratadas como
periféricas apenas porque desafiam a lógica de quem sempre acreditou possuir o
monopólio da literatura e do pensamento. Mas hoje, o livro Um rio sem fim
atravessa tantos territórios sem pedir licença porque ele não precisa e nunca
precisou de disso para existir.
Voltando
ao filme, Frankelda abandona o seu mundo “real” e mergulha no submundo de suas
próprias criações. Um lugar onde as histórias possuem corpo, respiram, sentem
medo e desejam existir. Mas é justamente ali que suas narrativas são roubadas
por um contador de histórias ultrapassado, egoísta e profundamente machista. Um
personagem convencido de que jamais existirá alguém capaz de escrever melhor do
que ele. Alguém tão embriagado pela própria superioridade que acreditava
possuir o direito de tornar sua toda criação que lhe despertasse admiração. É
impossível não reconhecer esse personagem para além da fantasia. Ele representa
uma figura histórica, representa todos aqueles que confundem conhecimento com
propriedade. Que acreditam que inteligência é território privado. Que
transformam o saber em instrumento de poder e fazem do apagamento alheio a
condição para manterem intacta sua falsa grandeza.
É assim
que pensam muitos dos que se consideram “grandes intelectuais”. Convencidos de
sua própria imortalidade, recusam-se a aceitar que novas formas de contar
histórias possam surgir. Permanecem encapsulados em um mundo de soberba e de
uma pieguice arcaica, incapazes de perceber que a literatura é um organismo
vivo, que respira, muda de pele e renasce a cada geração. Estão tão ocupados
contemplando a própria imagem que deixam de perceber o sol novo que insiste em
nascer todas as manhãs. Mas, Eu sou Frankelda não é apenas um filme
sobre monstros, fantasmas ou mundos imaginários. É, sobretudo, uma narrativa
sobre o preço de existir com autenticidade. Sobre a coragem necessária para
continuar criando quando tudo ao redor diz que a sua voz não deveria existir.
É sobre
escrever mesmo quando tentam transformar a sua escrita em erro. É sobre
imaginar mesmo quando insistem que a imaginação precisa caber em moldes
pré-estabelecidos. Criar talvez seja o maior ato de desobediência que existe,
porque toda criação inaugura uma possibilidade de mundo que antes não
existia. No fim, Eu sou Frankelda
nos lembra que toda história que insiste em nascer merece ser contada. E talvez
essa seja a maior vitória de todas: continuar escrevendo, apesar do medo,
apesar das portas fechadas, apesar das tentativas constantes e grosseiras de
silenciamento. Porque, não importa quantos “pesadeleiros reais” existam no
mundo. Sempre nascerá uma Frankelda. Alguém disposta a rasgar o véu da cápsula
onde a arrogância tenta esconder a própria insignificância. Alguém que
compreenderá que as histórias nunca pertencem aos que as aprisionam, mas aos
que têm coragem de lhes dar voz, independente das normas pré-estabelecidas.






