terça-feira, 28 de julho de 2026

Cuidado com o carão

 Pedro Lucas Lindoso

 

O festival de cirandas de Manacapuru acontece no final do próximo mês de agosto.  Mas os ensaios já começaram. E, claro, movimentam a economia da cidade.

Pelo que tenho visto, a ciranda de Manacapuru deve ser entendida como uma tradição formada por “camadas” culturais. Por certo não tem uma única origem. Até que ponto faz sentido perguntar sobre influências das cirandas do Nordeste, músicas e danças indígenas e africanas?  Assim como influências de danças de roda “ciganas” e europeias!

Como o nosso boi, a ciranda deve ser vista como mistura e circulação histórica. Não como causa única “de um lugar”. E como o boi de Parintins, as cirandas de Manacapuru sofrem a pecha de “carnavalização” dos críticos mais ácidos. Sendo originalmente uma dança de roda, similar às danças circulares vindas da Europa, sobretudo de Portugal.

Quando fiz a disciplina Cultura Brasileira no curso de Letras na UnB anotei que dança de roda, cantigas e brincadeiras em círculo têm parentesco com matrizes trazidas por colonizadores ibéricos e por práticas populares que se espalharam pelo Brasil, inclusive aqui na Amazônia.

A colaboração Indígena entra mais como ritmo, canto coletivo, e relação com a mata, ou seja, o território.

Quer parecer que em Manacapuru aconteceu uma adaptação local. Onde a corporalidade do canto, o ritmo, a musicalidade e a forma de organizar as cirandas e o festival são consequências de um encontro comunitário bem-sucedido, com influências de atores de diversas origens, de uma população naturalmente miscigenada.

Mesmo porque o gênero “ciranda” existe em diferentes regiões brasileiras. Além disso, fluxos históricos e migratórios explicam semelhanças. Ainda assim, para Manacapuru especificamente, nem sempre dá para afirmar uma influência direta da ciranda do Nordeste ou qualquer outra origem específica. O que houve em Manacapuru foi convergências e ressignificações locais.

Em resumo, Europa e principalmente Portugal, trouxeram a estrutura de cantigas de roda. Esta parece ser a base mais visível.  Já as influências indígenas e africanas ajudam a explicar o jeito local de fazer as cirandas.

O que não pode faltar na ciranda da Amazônia é o “pássaro carão”. Trata-se de um ente do imaginário regional. Um pássaro preto, feio; porém, simpático.  Muitas vezes associado a histórias, cantos e encenações.

Por ser ano eleitoral é provável que nesse agosto muitos candidatos vão estar no festival. Devem ter cuidado. O carão é um pássaro preto e misterioso que come aruá, um molusco dos rios. Mas pode fazer outras peripécias.  Cuidado com o carão.