sexta-feira, 31 de julho de 2026

Resenha

 

ESPELHAMENTO DO REAL E CONSTRUÇÃO DE UM EU BIOGRÁFICO – SOBRE O MEMORIALISMO EM É ESTE O DESTINO DO CORPO, ABRIR-SE, DE MARIANA MARINO

 

Henrique Duarte Neto

 

O ensaio poético de Mariana Marino, é este o destino do corpo, abrir-se (demonia editora, 2024), terceiro livro na seara da poesia de Mariana, além de todas as implicações emocionais que traz consigo, é um caso muito instigante para pensarmos em duas questões centrais dos estudos literários: a da autoria e a da mimese, da representação do real no texto poético. Mas, primeiramente, antes de investigar estas questões à luz dos 16 textos que formam o opúsculo, analisarei um pouco a natureza, o gênero do escrito.

Classificado por Mariana como “ensaio poético”, penso que, mesmo tendo essa natureza de prosa poética, os 16 fragmentos tendem mais ao confessionalismo do diário. Aliás, um excelente diário. Claro, um diário não datado e não pensado enquanto tal pela autora, mas quiçá, inconscientemente, e pela forma fragmentária que tomou, também própria da poesia, um pungente “diário poético”. Escrito não sob a perspectiva de um presente temporal, mas rememorado por uma mulher adulta – mas não terá a criança de cinco, seis, sete anos uma presença flagrante e indômita na mulher de 30 e tantos anos? Assim, esse passado que ressoa vivo no presente não inviabiliza nosso viés. Portanto, como esta é uma questão em aberto, e assim sendo, a palavra “diário” será referida doravante sempre entre aspas quando estiver relacionada ao texto poético da autora de não sei quem colocará as mãos em mim.

 Ademais, pensando naquilo que Maurice Blanchot vê como o aspecto marcante do diário: o de ser “Memorial”, trazendo à tona o que qualquer escritor faz no seu cotidiano, quando não está escrevendo (BLANCHOT, 2011, p. 20-21), podemos estender as reflexões para o caso do livro da autora. Mariana preserva uma memória, traz seu mundo íntimo à visão de muitos, cria uma rede interpessoal e de significações, que extrapola tempo e espaço, fazendo-se testemunho e experiência histórica, pessoal e coletiva.

Há, porém, o problema de que o “diário” de Mariana talvez traia o que pensa Blanchot do diário enquanto forma de materialização do texto. Para o autor francês, tal forma representaria um momento de fuga às agruras da escrita, sendo que a escrita do diário poderia ser pensada como espécie de antídoto para a morte. Morte entendida aqui como passagem do “eu” pessoal ao “ele” impessoal coletivo, que não possui rosto, mas que, para o autor de O espaço literário, é uma realidade. Contudo, não seria esse experimento linguístico de Mariana uma resposta à morte, não aquela da perspectiva blanchotiana, mas uma morte menos simbólica, a que diz respeito ao problema da finitude humana e que nos levaria a pensarmos numa espécie de viés autobiográfico e, não obstante, mimético? Parece-me que a resposta só pode ser afirmativa. O “diário” de Mariana, por agregar um alto coeficiente de poesia, vai na via oposta da obra capital de Blanchot, pois, ao mesmo tempo, enfatiza e tonifica o “eu” e o referente.

Dessa maneira, a perspectiva da morte e a solidariedade, o companheirismo entre crianças diante da solidão essencial, representam um ponto capital da prosa poética de Mariana Marino. Muito mais aqui do que nos livros anteriores (em que a condição de antiga cardiopata e de padecente de outras mazelas são expostas), em verso, a poeta expõe, de modo emocionante, toda a sua condição de fragilidade à época: “Eu também era uma menina doente” (MARINO, 2024, p. 17). A personagem de Daniela, inseparável no hospital, permanece viva na memória e na imaginação da autora, assumindo protagonismo no “diário poético”. Assim, Daniela representa a lembrança do pavor diante das cirurgias e, também, da possibilidade sempre renovada da morte, nos hospitais frios e aziagos, numa época em que as crianças deveriam somente pensar no lúdico da existência.

Ademais, ao ter sua história misturada à de outra personagem, durante a fase em que era tão pequena, pensamos que este “diário poético” foi remontado por uma mulher adulta, de mais de 30 anos de idade, que estabeleceu um natural matrimônio entre os “eus” empírico e poético, distintamente do que classifica Michael Hamburger, como um “matrimônio difícil” no caso desses “eus”, para o poeta Guillaume Apollinaire (HAMBURGER, 2007, p. 237). O eu-empírico, está presente nos três livros de Mariana, mas avassaladoramente no último: “Daniela é esse vulto, com quem sonho há anos nas noites minguantes, em que acordo ensopada, nunca de sangue” (MARIANA, 2024, p. 25). Nesse trecho, como em outros, há uma expressão que tende a soar em fortíssimo, tanto no que se refere ao significante quanto ao significado, pois palavras como “vulto”, “sonho”, “noites minguantes”, “ensopada” e “sangue” geram, em termos semânticos, choques de realidade.

Desse modo, para projetar a dimensão “empírica” desse “eu”, a poeta tem que evocar Daniela, como uma sombra do passado que segue vibrando indefinidamente (como na alegoria do anjo da história (BENJAMIN, 1987), em que o passado cada vez mais se agiganta), sendo uma segunda dimensão desse “eu”, o “outro” que ressoa nele, ou como quer Octavio Paz, a outridade. Nesse sentido, a autora vai se afirmando na linguagem e trazendo para dentro dela todo um universo pretérito. Dessa forma, o poeta, como nos afirma Octavio Paz, em O arco e a lira, cria o poema e se faz poema: “O poeta é ao mesmo tempo o objeto e o sujeito da criação poética: é o ouvido que escuta e a mão que escreve o que é ditado por sua voz” (PAZ, 1984, p. 202).

Além disso, ao “materializar-se” no “diário poético”, Mariana vai construindo um mundo em convergência ao experienciado. Assim, o poema é o espaço em que aparecem: Daniela; a caixa de acrílico dela, toda repleta de batons e chaveiros em forma de pequenos bichos; outras meninas; as mães e os pais das crianças; as enfermeiras; os médicos (que são sempre homens); todos os sentimentos e emoções fomentados pelas cirurgias, exames e esperas nos gélidos hospitais daquela época. Tudo isso sentimos nós, os fruidores desse belíssimo experimento lírico, quase uma elegia em prosa poética. O mundo vivido por Mariana é revivido e recontado por ela mesma, como se houvesse um espelhamento de perspectivas, na medida em que o principal da época de criança se converteu no seu memorial poético.

Assim, no caso de é este o destino do corpo, abrir-se há uma simbiose entre o dentro e o fora, ou melhor – como propõe Antonio Candido em alguns momentos de Literatura e sociedade, tendo um outro referencial literário –, o contexto já está no texto (Cf. CANDIDO, 2006, p. 13, por exemplo). Portanto, a exterioridade é intrínseca. Não há de se buscar o real, com seus eventos, fora do texto poético de Mariana, pois isso já figura nas páginas de sua obra. A poesia que, por ser, além do mais, memorialística, como na visada ambígua de Octavio Paz, não deixa de ter “fome de realidade” (PAZ, 1984, p. 80). Nessa medida, a menina que sobreviveu às aberturas do corpo e que, pela magia poética, mistura sua voz à da mulher adulta, humildemente pede atenção: “Não sou forte, Daniela, nunca fui forte como você” (MARINO, 2024, p. 28).

 Em muitos momentos de seu memorial poético, a autora abre espaço para a escrita enquanto testemunho, enquanto vivência, enquanto experiência de um corpo. Como no décimo sexto e último texto de seu “diário”: “Penso em você, Daniela, quando a hemorragia vem. Saem do meu cu grandes coágulos moles envoltos num sangue fibroso. Estou só (...) conheço cada cratera e buraco negro, cada centímetro do sistema solar do corpo e por isso você entenderia a minha febre...” (Idem, p. 31). A linguagem visceral e ao mesmo tempo humana, tragicamente humana (em uma época de tanta desumanidade), revela a alta voltagem a que chegou o texto de Mariana. Talvez comparável a um dos mais comoventes poemas sobre a fragilidade do corpo que é a ode “À minha perna esquerda”, do poeta José Paulo Paes (PAES, 1992). Em ambos, a ideia da finitude da vida pôde propiciar criações que se caracterizam pela originalidade diante da óbvia impossibilidade do ineditismo.

Ademais, ouso postular que o ensaio em prosa poética, ou, antes, “diário”, de Mariana Marino, busca colar seu enfoque à realidade de uma época pretérita de sua vida, mas que se estende até os dias de hoje. Por outro lado, enquanto crítico e poeta, mesmo levando em conta toda a questão da representação da realidade, principalmente para a perspectiva mais formal da literatura, tendo a pensar que não existe o instrumental teórico adequado para todos os casos, mas sim um instrumental adequado, para cada caso, para cada livro. Além da questão da mimese, do espelhamento do real, também a confluência entre o eu-poético e o eu-empírico, no caso do “diário” de Mariana, é enfatizada aqui. Apesar de Blanchot (importante para a caracterização que faço do “diário poético” de Mariana) e outros autores não citados defenderem uma espécie de morte autoral, para o caso da autora de Peito aberto até a garganta, o paradigma é distinto. Ela afirma-se no texto, por meio de um intimismo, ou confessionalismo intenso. E, nesse sentido, a abertura dada por autores como Michael Hamburger e Octavio Paz (este, com uma amplitude mais ambígua) é fundamental.

Além do mais, posso dizer que Mariana Marino figura, na poesia brasileira, como um dos nomes que mais trabalha uma questão essencial do nosso tempo, ou seja, o corpo. Fazendo a antítese dos autores situados em torno do 1900, que tinham a “alma” por objeto principal de evocação, o corpo é trabalhado de diferentes formas por um número gigantesco de poetas. Há mesmo entre estes, autores tão radicais, como Carla Diacov, que chega ao extremo da experimentação, como em Voa baixo e dorme (DIACOV, 2022-B), em que a imagem da capa, de Santa Cecília, é tingida de vermelho pelo sangue menstrual da poeta. Já em Ao marfim dos seus caninos, uma feroz plaquete, essa mesma autora não deixa faltar também seu senso de humor personalíssimo, ela, ao lado do parceiro “yuri”, utiliza o expediente da naturalização do sexo e, ao mesmo tempo, expõe o jogo amoroso via exploração de fetiches, como no segundo poema que, como todos os outros, traz a referência a thánathos:  “yuri lavava as mãos antes/ de me comer uma vez/ me fiz de morta e yuri lavou/ as mãos com esponja de aço/ e sapólio// eu tinha o direito de me fazer/ yuri também” (DIACOV, 2022-A, p. 8). Mas ao lado da exacerbação do corpo, que no fundo pode até levar a sua ruína, ao seu dilaceramento, há também, em Ao marfim dos seus caninos a tendência em certos momentos de uma sublimação, ao mesmo tempo que uma teatralização, em que o corpo encontra a morte, a última amada: “nos olhos abestados sentem ciúmes/ da morte que escolheu seu peito/ como o carinho eterno” (Ibid., p. 12). De toda a forma, nos seus livros, Carla Diacov tende a ritualizar o corpo (quando não o próprio cotidiano) e, por extensão, a Vida.

Assim, o caminho de Mariana em todos os seus três livros, é um tanto distinto do caso de Diacov, principalmente no que se refere à obra é este o destino do corpo, abrir-se. Se Diacov aborda o corpo de uma forma mais neossurrealista, pela profusão de imagens surpreendentes, Mariana instaura uma perspectiva fortemente expressiva, de natureza neorrealista. Ambas compõem uma poética do corpo, não só no tocante à sua materialidade, ao seu caráter orgânico, mas também à sua simbologia (no caso de Diacov), como também à sua psicologia, às suas vivências (no caso de Mariana). Assim há um resgate pela autora radicada no estado do Paraná, como enfatizei, da sua relação com o experienciado, com o existencial. Em Mariana Marino, a Vida vem escrita com inicial maiúscula, e isso não é pouco.

 

Referências:

BENJAMIN, W. “Sobre o conceito de história”. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Tradução de S. P. Rouanet. 3ª edição. São Paulo/SP: Brasiliense, 1987.

BLANCHOT, M. O espaço literário. Tradução de A. Cabral. Rio de Janeiro/RJ: Rocco, 2011.

CANDIDO, A. Literatura e sociedade. 9ª edição revista pelo autor. Rio de Janeiro/RJ: Ouro sobre Azul, 2006.

DIACOV, C. Ao marfim dos teus caninos. São Paulo/SP: Primata, 2022-A.

DIACOV, C. Voa baixo e dorme. Juiz de Fora/MG: Macondo, 2022-B.

HAMBURGER, M. A verdade da poesia: tensões na poesia modernista desde Baudelaire. Tradução de A. C. de Franca Neto. São Paulo/SP: Cosac e Naify, 2007.

MARINO, M. Peito aberto até a garganta. Bragança Paulista/SP: Urutau, 2020.

MARINO, M. não sei quem colocará as mãos em mim. Curitiba/PR: Kotter, 2022.

MARINO, M. é este o destino do corpo, abrir-se. Curitiba/PR: Ed. da Autora, 2024.

PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo/SP: Companhia das Letras, 1992.

PAZ, O. O arco e a lira. Tradução de O. Savary. 2ª edição. Rio de Janeiro/RJ: Nova Fronteira, 1984.

 

Nota biográfica: Henrique Duarte Neto é funcionário público, crítico literário e poeta. Nascido em 1972, no interior de Santa Catarina. É no seu trabalho com a exegese e a criação poética que encontra sua realização. 

E-mail: henriqueduarteneto@yahoo.com.br

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