A cidade não inventada na
literatura de Marcos Souza
Márcia Antonelli
Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de alguma trama, real ou fantasiosa, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço. No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento.
UM
GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda
ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de
um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as
brutalidades de um lugar decadente. A
obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu
limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como
seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor.
Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a
prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na
experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo,
contundente e necessário. Nesta sua mais
nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus
personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança
um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e
defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.
Marcos Souza é capaz de
mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz
pensar.
Trecho do primeiro capitulo
“Sol Infernal, dilúvio divino”.
(...) “Quando certa manhã,
Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto
incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o
ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era
tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério
não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a
crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também
sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação,
recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a
chamar de Manaus.”
Eis a precariedade da vida
protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas
por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à
margem de qualquer olhar ou sentimento humano.
UM
GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá
seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026, às 15h, na Rua
Rondônia, 19, Flores.
Recomendo.
