Propriedade
Armando
Freitas Filho (1940-2024)
A boneca preta na sacada
agraciada com o forro falso
simula que tem alguém em casa
onde foi sempre ninguém.
Sem pernas, ela é escrava
que não pode nem voltar
para a senzala, comprada
cortada ao meio para ser
mais manipulável e barata.
Trabalha dia e noite
presa na “eterna vigilância”
atrás das grades
nas janelas, nas cancelas
do partido dos senhores
sem pregar o olho
sem direito sequer
ao sonho da alforria.