quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

A cachorra

Pedro Dantas (1904-1977)

 

Veio uma angústia de cima,

Pelos ombros me agarrou,

No mais fundo do meu peito

Sua lâmina cravou.

Depois que no chão desfeito

O meu corpo estrebuchou,

Pelos cabelos a fera

Sobre pedras me arrastou.

Meu corpo, se espedaçou.

Mas ainda não satisfeita,

Nova vida me insuflou:

Para mostrar poderio,

Com a sua mão direita

Uma cidade arrasou,

Na esquerda tomou um rio,

Fogo nas águas soprou,

As águas todas do rio

Com seu hálito secou.

Levou-me aos cimos mais altos,

No ar me imobilizou,

Depois, em súbitos saltos,

A garra adunca fincando

No meu coração, lá do alto

Soltou um grito nefando

E sobre o mar me atirou.

Ah, nas águas do mar alto

Meu corpo logo afundou.

Veio buscar-me de novo:

Angina-péctoris, polvo,

Meu coração sufocou

E tais surras de chicote

Me deu, que a cada lambada

Minhalma mortificada,

Minhalma perto da morte

Só a morte desejou;

Meu rosto esfregou na lama,

As faces me babujou

E quando, à atroz azafama,

O meu olhar se turvou,

Vencido, entregue, arquejante

Perdido o sangue das veias

Na praia, sobre as areias,

Meu corpo exausto rodou.

Ah, pobre corpo do amante

Que até o fim se humilhou!

Então um riso infamante

As fauces lhe escancarou,

Zombou da minha tolice:

“Eu sou a Cachorra”, disse,

“Tu me chamaste: aqui estou.”

 

A essa voz dissiparam-se as sombras

E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória

Senti que da sua boca nasciam rosas

E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.