quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A poesia é necessária?

 Às portas do inferno

Zemaria Pinto (1957 – ?)

 

Um dia eu achei que ia morrer aos 27 anos, como um poeta maldito.

Depois, achei que não passava dos 50, idade em que morriam os heróis românticos.

Temendo morrer antes dos 70, sobrevivi. Mas estou chegando lá.

Estou vendo a negra claridade me queimando as retinas

e trovões de mil megatons me arrebentando os tímpanos

as mãos tremendo sem meu controle

e a memória definhando como um peixe na maré baixa.

 

Quando nasci nenhum anjo torto, mouco ou louco veio ler a minha mão, o que não estranhei: anjos são patéticos, a menos que tenham asas de avião.

Eu nasci em plena Revolução. Nas guerras de guerrilhas dos pântanos de Cuba, do Cambodja e do Vietnão.

Mas comecei a morrer quando a ditadura me chutou da rede esplêndida em que eu dormia.

E morri com Malcolm X.

Morri com o Che Guevara.

Morri com Luther King.

Morri com Marighela.

Morri com Lamarca.

Morri com Oswaldão.

Tirando o Che e o Capitão, todos negros.

É negra a Revolução?

Aí lembrei de outras revoluções, que me passaram como passa o fantasma da história:

o rock’n’roll, a bossa-nova, o cinema novo

a minissaia, a anticoncepção, o feminismo, o ativismo gay 

o movimento negro, o movimento indígena

Gal, o tropicalismo, Gal, as dunas do barato, Gal, LE-GAL

Gal, índia ou hippie, era tudo Gal, tudo igual, tudo FA-TAL, Gal!!!

 

ofingidor foi minha pequena revolução: mas ninguém entendeu porra nenhuma – um dia entenderão?

 

Até que, do fundo do ABC, surgiu a luz.

Pálida luz de esperança, que teima em bruxulear.

Em 1989, 1994, 1998 nossa pequena revolução permanente perdeu para a Globo e falsos ideólogos da esquerda.

Quatro eleições depois, quatro mandatos – de Lula a Dilma – e alternado a Globo com golpistas e fascistas, mais dois mandatos de Lula! Ou não!?

Não cabe a dúvida: só precisamos vencer a Globo!

O fascismo está encurralado!

 

E aqui estou eu, às portas do inferno dos setenta

surdo cego senil mas ainda juvenil

e se em mim não acreditam, rimem, rimem, rimem!

Amem!

Amém!