Às portas do inferno
Zemaria Pinto (1957 – ?)
Um dia eu achei que ia morrer aos 27
anos, como um poeta maldito.
Depois, achei que não passava dos 50,
idade em que morriam os heróis românticos.
Temendo morrer antes dos 70,
sobrevivi. Mas estou chegando lá.
Estou vendo a negra claridade me
queimando as retinas
e trovões de mil megatons me arrebentando
os tímpanos
as mãos tremendo sem meu controle
e a memória definhando como um peixe
na maré baixa.
Quando nasci nenhum anjo torto, mouco
ou louco veio ler a minha mão, o que não estranhei: anjos são patéticos, a
menos que tenham asas de avião.
Eu nasci em plena Revolução. Nas
guerras de guerrilhas dos pântanos de Cuba, do Cambodja e do Vietnão.
Mas comecei a morrer quando a
ditadura me chutou da rede esplêndida em que eu dormia.
E morri com Malcolm X.
Morri com o Che Guevara.
Morri com Luther King.
Morri com Marighela.
Morri com Lamarca.
Morri com Oswaldão.
Tirando o Che e o Capitão, todos
negros.
É negra a Revolução?
Aí lembrei de outras revoluções, que
me passaram como passa o fantasma da história:
o rock’n’roll, a bossa-nova, o cinema novo
a minissaia, a anticoncepção, o feminismo, o ativismo gay
o movimento negro, o movimento indígena
Gal, o tropicalismo, Gal, as dunas do barato, Gal, LE-GAL
Gal, índia ou hippie, era tudo Gal, tudo igual, tudo FA-TAL, Gal!!!
ofingidor foi minha pequena
revolução: mas ninguém entendeu porra nenhuma – um dia entenderão?
Até que, do fundo do ABC, surgiu a
luz.
Pálida luz de esperança, que teima em
bruxulear.
Em 1989, 1994, 1998 nossa pequena
revolução permanente perdeu para a Globo e falsos ideólogos da esquerda.
Quatro eleições depois, quatro
mandatos – de Lula a Dilma – e alternado a Globo com golpistas e fascistas,
mais dois mandatos de Lula! Ou não!?
Não cabe a dúvida: só precisamos
vencer a Globo!
O fascismo está encurralado!
E aqui estou eu, às portas do inferno
dos setenta
surdo cego senil mas ainda juvenil
e se em mim não acreditam, rimem,
rimem, rimem!
Amem!
Amém!