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Gullar, por Diogo D'Auriol. |
Primeiros
Anos
Ferreira
Gullar
Para
uma vida de merda
nasci
em 1930
na
Rua dos prazeres
Nas
tábuas velhas do assoalho
por
onde me arrastei
conheci
baratas formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada
me ensinaram
exceto
o terror
Em
frente ao muro negro no quintal
as
galinhas ciscavam, o girassol
gritava
asfixiado
longe
longe do mar
(longe do
amor)
E
no entanto o mar jazia perto
detrás
de mirantes e palmeiras
embrulhado
em seu barulho azul
E
as tardes sonoras
rolavam
claras sobre nossos telhados
sobre
nossas vidas.
E do meu
quarto
eu
ouvia o século xx
farfalhando
nas árvores da quinta.
Depois
me suspenderam pela gola
me
esfregaram na lama
me
chutaram os culhões
e
me soltaram zonzo
em
plena capital do país
sem
ter sequer uma arma na mão.
(Buenos
Aires, 1975)
In: Na vertigem do dia. Civilização
Brasileira: 1980.
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