Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 18 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 3/3


Zemaria Pinto

Moronguetá, síntese de uma obra em afluência

A obra de Nunes Pereira tem duas vertentes temáticas principais: a indígena, em primeiro plano, e a negra. Nosso pequeno trabalho concentrou-se nessas vertentes, onde Moronguetá e A Casa das Minas despontam como desaguadouros dos demais livros-rios, que afluem, sempre, para um ou para outro, caracterizando-se como uma obra em constante movimento, sempre em evolução: uma obra em afluência.
Gestado em mais de 40 anos de viagens pela Amazônia, Moronguetá – um Decameron indígena é o rio principal, o riomar, para onde afluem todos os outros livros-rios, inclusive os de temática negra, todos tributários dele. Em carta a Arthur Reis, em outubro de 1943, 24 anos antes do livro vir à luz, Nunes informava ao amigo a respeito de uma viagem que fizera ao Alto Madeira. Esboçava-se naquela viagem a ideia de Moronguetá, embora o livro já estivesse sendo gestado há muito mais tempo.

Não tivesse escrito mais nada, este livro seria suficiente para marcar o nome de Nunes Pereira entre os mais importantes autores brasileiros do século XX. Publicado em dois volumes, com mais de 840 páginas, o livro divide-se em cinco partes, além de rico material iconográfico, cada uma delas referente a uma Área Cultural: Roraima; Vale do Rio Negro; Rio Solimões; Rio Madeira; e Rios Andirá e Maués. Em cada uma dessas partes, o autor analisa relevo, clima, flora, fauna, antecedentes históricos e situação atual dos indígenas, concluindo cada uma delas com uma antologia de mitos, lendas, estórias e tradições das etnias da área – o “Decameron indígena”, além de um glossário e notas. No final, dando um toque enciclopédico ao conjunto, há um índice de verbetes e um índice remissivo, sendo este classificado por assunto – fazendo de Moronguetá um completo banco de dados de referência antropológica.
Sobre o significado do título, Nunes Pereira esclarece-o logo na introdução. Moronguetá tem o sentido geral de “narrativa de fatos autênticos e imaginários”, podendo, em função do contexto, significar mito, lenda, conto, estória etc. Quanto ao subtítulo, ele “aproveitou” a ideia de seu colega alemão Leopold Frobenius, que em 1910 publicara O Decameron Negro, relacionando narrativas coligidas junto a povos africanos com o clássico renascentista Il Decameron, de Boccaccio. Nunes Pereira, vendo no seu conjunto a mesma relação – o humor e o sexo como eixos das narrativas, não titubeou: Um Decameron Indígena. Não é demais lembrar a lição de Bergson: “não há comicidade fora do que é propriamente humano.” O riso, como o sexo, é um índice de humanidade.
No capítulo “Situação atual dos indígenas”, que se repete em cada uma das cinco partes em que se divide o livro, o tom dominante é sombrio: Nunes Pereira tem consciência de que o avanço da “sifilização” – como ele define com ironia o que nós representamos para o índio, é o ocaso daquela cultura, daquela literatura, daqueles saberes que têm a exata idade do tempo. Mais tarde, em entrevistas, já em idade avançada, ele não se continha e dizia o que em Moronguetá está nas entrelinhas: “O drama do índio é irreversível. O índio vai desaparecer.”
Um dos textos mais contundentes dos modernos Estudos Literários, no Brasil, Uma poética do genocídio, do inesquecível Antônio Paulo Graça, faz uma análise dos dez mais importantes romances que têm o índio como protagonista, e conclui assim:
O tema último do romance indianista é o genocídio, o extermínio total. (...) Todo romance indianista é uma metáfora do genocídio.

Nunes Pereira, leitor desses livros, e vivendo suas aventuras fora da ficção, tem a mesma percepção crítica, com um tempero ainda mais amargo, porque protagonista da tragédia que se encena no dia a dia.
Passados 50 anos desde a primeira edição de Moronguetá, a situação foi aplacada, muitos avanços foram conquistados, mas a ameaça do desaparecimento continua real e concreta. Ficou o livro-riomar como testemunha de um tempo e como um monumento esculpido em papel, tinta e pensamento – fundamental, para a compreensão não só do índio, mas da multiplicidade que consubstancia a nação brasileira.

Livro de Zemaria Pinto, lançado  no dia da posse.
Manoel Nunes Pereira não é apenas um simulacro de Baíra, o grande burlão. Falo no presente: ele é sobretudo um homem de ciência, procurando compreender o problema do índio, penetrando-lhe a mente, interrogando-lhe a alma. E por haver conseguido seu intento contou estórias repletas de poesia, recolhidas em estado bruto na natureza. As dezenas de livros, a participação ativa em congressos, as inúmeras conferências, somadas ao respeito adquirido entre os maiores de seu tempo, não deixam qualquer dúvida sobre sua importância como cientista. Enfim, a diversidade de seu trabalho – como antropólogo, etnólogo, etnógrafo, ictiólogo, economista e sociólogo – merece um aprofundamento para muito além destas parcas palavras.

TAMBARAMÃ!   

sexta-feira, 11 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 2/3



Zemaria Pinto

Em 1918, Nunes Pereira, aos 24 anos, torna-se o fundador da cadeira de número 23 da Sociedade Amazonense de Homens de Letras, precursora da Academia Amazonense de Letras. Por uma dessas coincidências do destino, a cadeira 23, do poeta Cruz e Sousa, que já fora ocupada pelo amigo Alencar e Silva, é hoje ocupada pelo amigo Júlio Antônio Lopes. 
No ano anterior, em março, dera-se a fundação do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Apesar de várias informações desencontradas, Nunes Pereira jamais foi associado ao IGHA, uma lacuna que se corrige hoje, vinculando definitivamente o nome do grande cientista e escritor à centenária Casa de Bernardo Ramos.
Voltando a 1918, ele casa-se com Maria Rodrigues Ribeiro, filha do coronel José Alexandre Ribeiro, de Parintins. Nesse meio tempo, o funcionário público Nunes Pereira, que por formação era técnico em Veterinária, foi incumbido pelo governador Pedro de Alcântara Bacelar de uma missão que poderia ser o estopim de seu interesse pela causa indígena:
Percorrer os campos naturais do Amazonas e do Território do Rio Branco para fazer um extenso relatório sobre o potencial pastoril dessas regiões, convivendo entre os Macuxi, os Arecuna, os Taulipangue e os Ingarikó.

Leitor ávido e voraz, Nunes Pereira formou cinco bibliotecas ao longo da vida. Poliglota, dominava o francês, o inglês, o italiano, o alemão e o espanhol, além do nheengatu. Vale ressaltar uma característica recorrente na sua obra: a absoluta transparência intelectual. Além da bibliografia convencional, ele, no próprio texto, explica detalhadamente como chegou a cada informação ou conclusão – desde as leituras que lhe serviram de base até as mais triviais conversas com seus guias e narradores. Também não poupa citações e referências, especialmente as de cunho literário. Sua fama de boêmio é incompatível com sua disciplina de leitor e de escritor.
Admirador de São Francisco de Assis, Nunes declara-se crente em um Deus “um pouco indígena, um pouco católico”, ressaltando sua condição de maçom. Do seu Arquivo nos anais da Biblioteca Nacional consta um Passaporte emitido pela Grande Loja do Estado do Pará, em outubro de 1954, atestando sua filiação ativa à Loja Maçônica Renascença, de Belém.
Em 1944, juntamente com Geraldo Pinheiro, André Araújo e Mário Ypiranga Monteiro, Nunes Pereira funda o Instituto de Etnologia e Sociologia do Amazonas – do qual foi o primeiro e parece que único presidente. Nos referidos anais, há vários documentos dando conta das atividades do Instituto, inclusive do lendário caso envolvendo os despojos de Koch-Grünberg. 
Em outubro de 1973, recebe o título de cidadão de Manaus, concedido pela Câmara Municipal, proposição do vereador Fábio Lucena.
Em entrevista, aos 83 anos, confessou duas frustrações: “não saber música, e não saber desenho”.

Num dia como hoje, 26 de fevereiro, mas de 1985, há exatos 31 anos, falecia, no Rio de Janeiro, Manoel Nunes Pereira – cientista, poeta e contador de estórias.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Discurso de posse no IGHA – 1/3



Zemaria Pinto[1]

Sr. Presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Dr. Antônio José Souto Loureiro – na pessoa de quem eu cumprimento os demais membros da mesa – senhoras e senhores associados do IGHA, família, amigos, crianças, minhas senhoras, meus senhores...

Na entrada, vocês receberam um livrinho intitulado Nunes Pereira, esboço em cinza e sombras. A finalidade desse livrinho era poupá-los desta fala, porém o ritual de posse manda que se faça uma alocução, especialmente porque a Cadeira de n° 59 será ocupada pela primeira vez. Então, considerando a hipótese de que a leitura integral do livrinho – onde falo da vida e da obra de Nunes Pereira – possa ser eventualmente substituída por atividades mais interessantes, vou lhes comunicar o que julgo essencial nesse trabalho – pelo menos o que for possível na passagem de 48 páginas para 6 laudas, dentro do limite de 12 minutos.
Os que conhecem Nunes Pereira já devem ter ouvido algumas das histórias que se contam sobre ele – e que ele mesmo ajudou a divulgar, alimentando um folclore em torno de sua figura emblemática. Histórias de rebeldia, de boemia, de bonomia e de sexo. Esse anedotário acaba supervalorizado em relação a uma obra que, ainda viçosa e original, é subestimada – pelo que levantei, apenas duas teses de doutorado têm como centro a obra de Nunes Pereira, ambas da PUC-SP: Labirintos do saber: Nunes Pereira e as culturas amazônicas, de Selda Vale da Costa (1997), e Mitopoética dos muiraquitãs, porandubas e moronguetás: ensaios de etnopoesia amazônica, de Harald Pinheiro (2013).
A proposta do livrinho é, ignorando o anedotário, dar uma visão panorâmica sobre a vasta obra de Nunes Pereira, procurando despertar, especialmente nos mais jovens, a curiosidade de conhecer o indispensável da obra do autor de Moronguetá – um Decameron indígena.

Uma vida a ser contada

O cinema nacional, que já sobreviveu à chanchada e à pornochanchada, vivendo agora uma fase de absurda mediocridade, com chanchadas de todas as escalas e matizes, precisaria descobrir esse personagem, que pautou sua vida pela aventura e pelo risco, mas também pelo humor e pela alegria, um herói a um só tempo épico e pícaro – eventualmente, priápico.
Manoel Nunes Pereira nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 26 de junho de 1893, filho de Manoel Nunes Pereira e Felicidade Nunes Pereira. Ele, de ascendência lusitana; ela, de ascendência africana. Durante algum tempo, perdurou um mal-entendido com relação ao ano exato de seu nascimento, desfeito em uma entrevista ao Pasquim, quando ele disse que teve necessidade de alterar o ano para 1891, “para entrar num curso”. Na mesma entrevista, conta que começou a se interessar pela temática indígena quando ouviu, em uma conversa de seu pai com amigos, a descrição de um massacre de franceses contra índios do Amapá. Tinha 3 ou 4 anos. “Os franceses pegavam as crianças pelas pernas e esborrachavam suas cabeças contra as árvores”. A imagem terrível acompanhou o menino por toda sua vida, dedicada, talvez, a entender, vigiar e punir, aquele ato primordial – covarde, selvagem e fora de qualquer padrão de humanidade.
Sobre a grafia correta de seu nome também pairam dúvidas. Manuel ou Manoel? Na maioria das vezes, escreve-se Manuel, que é a forma clássica, portuguesa. Porém, em três documentos reproduzidos do Arquivo Nunes Pereira, da Biblioteca Nacional, o nome grafado é Manoel – inclusive o seu Título de Eleitor amazonense, tirado aos 52 anos, na 2ª Zona Eleitoral de Manaus, constando como residência o Grande Hotel. Nesse mesmo documento, o ano de nascimento confirma-se em 1893.
Desde 1911, entretanto, aos 17, 18 anos, Nunes Pereira já andava por Manaus, como jornalista do Correio do Norte – aliás, onde seu nome aparece, várias vezes, grafado como Manoel. E produzindo sonetos, muitos sonetos, com uma pegada simbolista, mas sem descolar da forma parnasiana. É curioso notar que os jornais da época noticiam o aniversário de uma prima do poeta, Clara Nunes, neta de D. Auta Souza Nunes, bem como a chegada de D. Felicidade, para visitar o filho jornalista. Um ramo da família morava em Manaus?





[1] Discurso proferido na noite de 26 de fevereiro de 2016, por ocasião da posse na Cadeira n° 59 do IGHA, que tem por patrono Nunes Pereira.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 5/5



Zemaria Pinto


Uma característica marcante na poesia de Alcides Werk é a presença da noite, realçada na dicotomia claro/escuro[1]. A noite protetora, envolvente, cúmplice do caboclo amazônico. A noite, caminho da antemanhã. A noite, precursora da luz. Ele diz no poema “Da noite do rio”:
Nesta noite sem medidas
eu todo banhado em sombras
fugi de casa, fugi
para o branco desta praia,
como se a aurora que busco
neste rio se afogou.
(p. 36)
Perdido o refúgio, perdido o sonho, o homem renova-se, a partir do rio – o símbolo mesmo da mudança, pois que nunca se repete. Mas o “rio noturno” é   apenas  a  projeção  da  angústia  do   “homem  noturno”: adormecido, cansado de viagens, arauto de mortes.  O homem ensombrecido, impotente pela impotência do rio, encontra-se ilhado: não há como lutar contra a noite que se abate sobre seu mundo.
Esse homem noturno em busca da luz é o lado menos visível da poesia de Alcides Werk, da qual se divulga muito a poesia telúrica, a poesia das pequenas e das grandes coisas amazônicas. Porque se esta expressa o espaço amazônico, aquela poesia noturna é uma reflexão sobre o momento histórico, mas sem nada de panfletário, apenas refletindo a angústia de uma alma sensível, vivendo sob o tacão de uma ditadura que tinha o absoluto repúdio popular.
A noite irreversível e sem fim abate-se sobre o poeta e não apenas o cobre. Toma-o. Doma-o. Internaliza-o. A noite é ele. A poesia se espraia pelo tempo sem retorno e se alonga em ocasos que se repetem de forma tão igual que parecem um só: o ocaso da longa noite que o poeta viveu vagando pelo Médio Amazonas.

Eis-me aqui nesta ausência de mim mesmo
(p. 147)
Este verso, do “Soneto VII”, reúne em suas dez mágicas sílabas toda a força da poesia que explode em angústia e dor. De igual modo o “Soneto VI” refere-se à

                                     ronda inútil
por além dos limites do meu nada
(p. 146)
Como se o alheamento dos acontecimentos nacionais o isolasse ainda mais do mundo físico ao seu redor – assumindo definitivamente a “condição de ilha” a que se refere o poema “Aos meus irmãos solitários”. Da mesma forma, os “Sonetos V” e “VIII” perseguem essa imagem do ser ensombrecido – o homem noturno e vazio. Neste, há algo de loucura dominando a expressão poética:
Silêncio. Sinto apenas o silêncio
em mim. (....)
Busco-me, a medo, e vejo pelos cantos
vozes vazias, sons de antigamente,
projetos inconclusos, teias, nada
e tua linda presença estilhaçada.
(p. 148)
Mas é no “Soneto I” que ele resiste da melhor forma – vivendo o seu ofício, escrevendo:
Na meia-luz da tasca entra uma lua
Que inventa novas sombras nas paredes.
Dos meus olhos de espanto e de tristeza
Vai caindo um poema sobre a mesa.
(p. 141)
Os doze sonetos de Estudos, a parte que fecha Trilha dágua, trazem alguns do poemas mais belos, significativos e bem arquitetados da nossa literatura. São apenas doze poemas – que valem por toda uma obra. Antológicos.
O “Soneto IX” – o coroamento desses cânticos libertários – é a síntese definitiva da noite que se instaurara no país a 31 de março de 1964. Suas palavras são imagens retiradas a sangue frio de retinas ainda cálidas. Palavras que a boca não dirá jamais. Imagens, apenas.
Fez-se uma curta pausa. E a noite baça
estendeu seus lençóis sobre as cidades.
Ventos frios de morte andavam soltos,
e formas embuçadas destruíam
restos vagos de luz.
(p. 149)
O “Soneto XII” – o último poema de Trilha Dágua – representa a profissão de fé do autor no futuro, futuro que se constrói com o tempo e com o trabalho indispensável da poesia. Futuro que virá – o poeta o sabe – não com a manhã, pois a aurora é apenas a transição entre a noite de terror e a luz do novo dia. O dia que se constrói aos poucos, na indolência dos segundos. Para o poeta é

Impossível voltar, e continuo.
Elaboro miragens e as persigo
com a determinação dos suicidas.
(p. 152)
Meu caro Alcides, foi muito bom te encontrar, aqui na Academia, nesta bela noite de abril. Amanhã é sábado – e nos últimos tempos sempre nos encontrávamos nas tardes de sábado, lembras? Tu recitavas
Gosto de frequentar esta taberna
onde me sirvo de meu próprio vinho,
nem perguntam quem sou. Meu companheiro,
que antes cantava e me aplaudia, agora
embuçado em silêncio me observa
como se eu lhe devesse algum milagre.
(p. 141)
Aquele companheiro mudo era eu. Há mais de 10 anos não nos vemos, mas a tua lembrança está sempre comigo, como está sempre com teus amigos, com teus filhos e tua Santina. Foi muito bom relembrar teus poemas e tuas lições – “soneto é coisa séria, rapaz!” – e a tua alegria por reconhecer nos 14 versos que te dediquei, enfim, um soneto – num momento em que estavas triste, mas triste de não ter jeito. Aqui o repito e a ti o consagro, em definitivo:
  
Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.

As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.

Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.

Antúrios se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos.[2]

V

Meus caros Dom Mario Pasqualotto, Sérgio Cardoso e Prof. Gláucio Campos Gomes de Matos. Vencemos mais uma etapa de nossa jornada. Daqui a pouco estaremos todos de volta às singularidades de nossas vidas particulares, à azáfama de nossos afazeres cotidianos. Mas esse tempo em que aqui estivemos juntos se estenderá em nossos corações e mentes como uma teia de afeto recíproco – de nós, acadêmicos, para com vocês; de vocês para conosco; e de todos aqui presentes para com a memória de Péricles Moraes.
Muito obrigado!





[1] Zemaria Pinto. Adaptado do ensaio A miragem elaborada, publicado na 4ª edição de Trilha dágua, Manaus: Edições Imprensa Oficial do Amazonas, 1994.
[2] Zemaria Pinto, “Exercício nº 5”, publicado em Fragmentos de silêncio. Manaus: Edua, 1995. p. 51.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 4/5



Zemaria Pinto


IV

Conheci Alcides Werk no início dos anos 1980. Autodidata, Alcides ensinou-me muita coisa que os livros não ensinam. Teve a paciência – que eu não tenho com os jovens que me procuram – de corrigir meus textos imaturos, justificando cada crítica. E hoje eu digo, com paradoxal orgulho, que tive a humildade – que os jovens que me procuram quase nunca têm – de aceitar suas críticas.
Quando, ao final daquela década, fiz uma especialização em Literatura Brasileira, sob a orientação do mestre Marcos Frederico Krüger, o tema da minha dissertação não poderia ser outro senão o livro que eu aprendera a amar como sendo a própria identidade amazônica em poesia: Trilha dágua. Mais amadurecido, eu discutia com Alcides cada ponto do meu trabalho, antes de mostrá-lo ao meu orientador. Muitas vezes discordamos e algumas vezes eu mantive meu ponto de vista, mas ele não perdia o bom humor: “discute isso com o Marcos; se ele concordar contigo, tudo bem: 2 a 1 pra vocês.”
Alcides Werk Gomes de Matos nasceu em Aquidauana – hoje, no Mato Grosso do Sul – em 20 de dezembro de 1934. Filho de pai pernambucano e mãe gaúcha, neto de imigrantes alemães, Alcides dizia não se lembrar de passar um ano numa mesma localidade. Tendo perdido a mãe aos 10 anos, em Caracaraí, aos 14, separou-se do pai em Conceição do Araguaia, onde fez um curso de telegrafia, indo trabalhar em um posto de atração de índios Gaviões, no Tocantins, próximo de onde hoje está Tucuruí. Aos 17 anos, sentou praça em Belém. Aos 20, veio para Manaus, mas aqui não ficou muito tempo, embrenhando-se pelo interior, desde o Alto Solimões até o Baixo Amazonas. E como ele mesmo escreveu,
aventurando-me pelos altos rios, pelos paranás, pelos lagos distantes, abeberando-me do que ainda resta da cultura aborígine, do nosso ameríndio, do caboclo, aprendendo a viver com simplicidade.[1]
Em 1964, funcionário de carreira do Departamento de Correios e Telégrafos, foi para Recife, mas de lá retornou um ano depois, internando-se no Médio Amazonas – Maués, Nhamundá e áreas circunvizinhas –, onde viveu por 8 anos, longe dos desmandos da ditadura.
Aos 40 anos, o poeta nômade já estabelecido em Manaus como funcionário do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações, lançou seu primeiro livro: Da noite do rio, embrião daquele que viria a ser seu livro mais representativo, Trilha dágua, lançado em 1980. Quatro edições, sempre revistas e ampliadas, muitas antologias, e dois livros independentes depois – In natura, poemas para a juventude (1999) e Cantos ribeirinhos (2002), ambos com poemas de Trilha dágua e inéditos –, Alcides começou a organizar o seu livro definitivo, sua poesia completa, intitulado A Amazônia de Alcides Werk, que ele não chegou a revisar. O poeta faleceu pouco mais de um mês antes de completar 69 anos, em 13 de novembro de 2003.
Trilha dágua[2] e, por extensão, a poesia de Alcides Werk, é um livro onde a vida pulsa a cada poema, porque a “obra de arte é uma coisa viva”, já nos ensinou o poeta. Da sua vivência no interior do Amazonas, Alcides foi buscar a matéria prima para a sua poesia. Assim é que o livro, dividido em quatro partes mais um glossário, abre com o poema “Opção”, uma espécie de poética de Alcides, onde a relação “o homem e a terra”, título dessa primeira parte, é explorada num processo de sobreposição de imagens, que se vão toldando, até o arremate:
– Eu canto para o homem.
(p. 27-28)
Ao conceito de terra cansada, contrapõe-se a imagem do homem cansado, marginalizado. Ali estava feita a opção, que se desdobra em muitos outros poemas, como “Do homem”, onde o poeta define a abrangência, a intensidade e a profundidade de seu canto, revelando:
E toda lembrança
que trago comigo
é o Homem nascendo
é o Homem cantando
é o Homem caindo
é o Homem se erguendo
é o Homem domando
é o Homem tecendo
o imenso milagre
da aurora que vem.
(p. 30)
O ritmo amazônico vem embalado em versos curtos, de 5 sílabas, mesmo quando dissimulado em versos livres:
O barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
(p. 38)
São registros de vida que se sucedem, como se captados por uma câmera:
As águas do lago
no início da noite
são como um espelho
que o casco estilhaça
com a força do remo.
(p. 50)



[1] Alcides Werk, “Traços autobiográficos”, na antologia Marupiara. Manaus: Edições Governo do Estado, 1988. 
[2] WERK, Alcides. Trilha dágua. 5ª ed. Manaus: Valer/Governo do Amazonas, 2000.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 3/5



Zemaria Pinto


III

Para classificar de maneira clara e objetiva o trabalho de Sergio Cardoso, utilizei, parágrafos atrás, a expressão “arte multifacetada”, que, acredito, substitui com vantagens o surrado clichê do multi-instrumentista, mesmo porque Sergio Cardoso não se vale de múltiplos instrumentos, mas apenas de dois conjuntos deles: os seus olhos e as suas mãos. Os sentidos se amalgamam e se amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.
Pintura, fotografia, cinema, teatro – a arte de Sergio Cardoso traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como resultante sinérgico uma obra de arte de alta expressão.
Amazonense de Manaus, Sergio Cardoso, a par da formação artística, não descuidou de sólida formação profissional. Advogado, é procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural, tem várias especializações na área, em programas de formação nacionais e internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do Centro Cultural Cláudio Santoro, de saudosa memória, e do Centro Cultural Palácio Rio Negro. Atualmente, é diretor do Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
Como artista de múltiplas faces, sua maior característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que Péricles Moraes via em Violeta Branca: a inquietação da busca, da procura constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a pintura, Sérgio enveredou pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos manuais de arte acadêmica. Seus experimentos já foram mostrados em várias exposições e até há poucos dias estavam à vista em Harborligths. Espere a próxima quem perdeu. Harborlights trazia uma série de fotografias, com interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho da antiga Manaus Moderna, tomada por mendigos, bêbados e drogados de todos os matizes. Um delírio magrittiano:
cidade
podre paisagem truculenta transcendente pobreza instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido  no rochedo onde um dia um magritte flutuou balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a pobreza da paisagem podre da cidade[1]

A fotografia e o cinema fizeram o século XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, a penúltima exposição de Sérgio Cardoso, onde fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência da cidade:
Oh City – Stages foi uma exposição em movimento, cinética, ou como escreveria Glauber, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade, reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.
Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.
Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda, lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do eterno retorno: não precisamos de luz.[2]

Ao marasmo da arte decorativa, o artista inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva ou não será arte”[3]. Esta frase magistral do poeta Ferreira Gullar justifica porque não nos limitamos a fazer aqui um inventário das exposições de Sergio Cardoso. São tantas dezenas delas, seria cansativo. Prefiro instigá-los a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não se furtem a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sérgio Cardoso.
Movimento que se observa sobretudo no teatro, para o qual Sérgio tem sido, ao lado de Márcio Souza, o mais fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a outra, num grande painel suprarreal.
Lazone está para Sérgio Cardoso como o condado de Yoknapatawpha está para o norte-americano William Faulkner. Poucos de vocês sabem disso, porque o autor não se deu ao trabalho de divulgá-lo, mas, no ano passado, Sergio Cardoso reuniu dez de suas peças em um livro com mais de 350 páginas, intitulado O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, onde ele
trabalha sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam, em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo alemão.
As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas radioativas, mendigos, loucos, socialites, prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas – muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças, dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.
Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy, Mercedita e todas as outras são mais que meras criações da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram, com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]
                
               Imagem e movimento, opostos sintetizados na imagem em movimento do cinema ou do teatro, são conceitos realizados plenamente na arte plural de Sergio Cardoso, arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.


[1] Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril, no Espaço de Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.
[2] Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan 2014. Páginas 72-75.
[3] GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.
[4] Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus: Valer, 2013. Páginas 19-20.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Medalha do Mérito Cultural Péricles Moraes 2014 – 2/5



Zemaria Pinto
  
II

A história da Fazenda da Esperança[1] começou há 31 anos, de maneira casual e quase mesmo inverossímil: Nelson Giovaneli, incomodado com a presença de jovens que consumiam e vendiam drogas próximo a sua casa, na esquina das ruas Tupinambás e Guaicurus, em Guaratinguetá, São Paulo, aproximou-se deles, conquistou sua amizade e começou um trabalho que, a partir daquela esquina, ganharia o mundo.
Nelson tinha o apoio de frei Hans Stapel, franciscano alemão, pároco da igreja de Nossa Senhora da Glória, no bairro de Pedregulho, que pregava aos jovens como ele viver radicalmente a Palavra de Deus, de modo similar ao Movimento dos Folcolares, que frei Hans conhecera de perto. Aquele ato inicial tinha por inspiração a 1ª Epístola aos Coríntios, 9, 22: “Com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos; fiz-me tudo para todos, para por todos os meios salvar alguns.”[2] 
Antônio Eleutério foi o primeiro do grupo a ser contagiado pelas promessas de libertação de Nelson Giovaneli. Libertação da dependência química, libertação da humilhação cotidiana, libertação da relação de promiscuidade com a morte, libertação do inferno em vida.
A transformação do amigo infundiu confiança no resto do grupo. Sempre com o apoio de frei Hans Stapel, a proposta de viver radicalmente a Palavra tomou forma concreta: em junho de 1983, eles alugaram uma casa onde passaram a viver juntos, pagando as despesas com o resultado de seu próprio trabalho; e tudo o que ganhavam era colocado em um fundo, que tinha como único objetivo garantir-lhes a subsistência com dignidade, mantendo distância do vício avassalador. À noite, reuniam-se na igreja de N. Sra. da Glória, para discutir seus problemas comuns e levar uma palavra de conforto a outros jovens que, por iniciativa própria, começavam a buscá-la.
Estava fundada a primeira comunidade da Esperança. Estava plantada a semente do que logo passou a se chamar, pelas suas características próprias, Fazenda da Esperança. Aquela esquina primordial hoje abriga um pequeno museu, apropriadamente chamado de Esquina da Esperança.
Algumas datas marcantes: em 1987, em Coroatá, no Maranhão, foi fundada a primeira comunidade fora de São Paulo, liderada por um irmão de frei Hans, padre Paulo; em 1988, Iraci Leite e Lucilene Rosendo, tia de Nelson Giovaneli, fundaram a primeira comunidade feminina, em Guaratinguetá; em 1998, na terra natal de frei Hans, foi fundada a primeira comunidade fora do Brasil; em 2007, o papa Bento XVI visitou a Fazenda da Esperança de Pedrinhas, no interior de São Paulo, originada daquela primeira comunidade fundada por Nelson e Antônio Eleutério. Em seu discurso histórico, o papa exortou os presentes a serem todos “Embaixadores da Esperança”.
Hoje, a Obra Social Nossa Senhora da Glória – Fazenda da Esperança, o nome oficial da organização, está presente em quase todos os estados brasileiros, espalhando-se pela América, África, Europa e Ásia. E não para de crescer, pois, infelizmente, a dependência química é um câncer social.
Em Manaus[3], a Fazenda da Esperança foi fundada em 2001, com o nome de “Dom Gino Malvestio”, para atendimento do público masculino, com 15 vagas. Na verdade, aquele sonho começara quatro anos antes, quando Dom Gino Malvestio, bispo de Parintins, e Dom Mario Pasqualotto, pároco em Maués, receberam a visita de Frei Hans Stapel, visando a fundação de uma unidade em Parintins. Infelizmente, Dom Gino viria a falecer pouco tempo depois. Com a morte do mentor da ideia o projeto não avançou, mas ficou guardado no coração de D. Mario.
Em 2000, visando a Campanha da Fraternidade do ano seguinte – “Vida sim, drogas não!” –, já investido da condição de bispo auxiliar de Manaus, e contando com o apoio incondicional do arcebispo, o nosso querido confrade Dom Luiz Soares Vieira, Dom Mario Pasqualotto propôs a criação de uma Fazenda da Esperança em Manaus como uma ação concreta da arquidiocese à campanha “Vida sim, drogas não!”
E assim, no dia 29 de julho de 2001, com o indispensável apoio do governo do Estado, que doou o terreno de uma antiga Escola Fazenda e colaborou na recuperação dos velhos prédios, foi fundada a primeira unidade da Fazenda da Esperança no Amazonas, homenageando com o seu nome aquele que sonhara com ela anos antes: Dom Gino Malvestio.
Em 2005, foi inaugurada a unidade feminina “Irmã Cleuza Rody Coelho”, com 30 vagas. Ambas estão localizadas no Ramal Cláudio Mesquita, quilômetro 14 da BR-174. Hoje, a unidade masculina de Manaus está com a sua capacidade de atendimento ampliada para 100 jovens. Em São Gabriel da Cachoeira, foi inaugurada há dois anos a primeira unidade do interior do Amazonas, com 30 vagas destinadas ao público masculino.
Com uma metodologia alicerçada em três eixos – espiritualidade, trabalho e convivência, social e familiar – a Fazenda da Esperança tem logrado alcançar 80% de sucesso entre aqueles que, espontaneamente, se dispõem à recuperação. O tratamento dura 12 meses, mas continua com os grupos Esperança Viva, formados por aqueles que se submeteram com sucesso ao tratamento, e se tornam multiplicadores desse trabalho essencialmente voluntário.
Embora cada unidade seja também uma pequena indústria, com produções diversas, a Fazenda está longe de alcançar a autossustentabilidade, para o quê se torna indispensável o apoio da sociedade organizada e suas instituições, bem como o apoio do poder público, em todos os níveis. 
A muitos parecerá estranho que o reconhecimento pelo mecenato seja dado a uma instituição que não trabalha exatamente com a arte – o objeto do apoio de Mecenas, espécie de ministro sem pasta e fiel conselheiro do imperador Otávio Augusto, à época em que Jesus Cristo andou por este mundo. A intenção da Academia Amazonense de Letras, nos seus 96 anos de fundação, ao prestar esta singela homenagem à obra social Fazenda da Esperança, é reconhecer nessa instituição a incentivadora da maior de todas as artes: a arte de viver. O trabalho da Fazenda da Esperança floresce, aqui em Manaus, em São Gabriel da Cachoeira e nos mais longínquos rincões do mundo todo, como um canto à vida, que se renova cotidianamente, ou como uma sinfonia contra a barbárie, onde uma orquestra de milhares, conduzidas por um maestro invisível, eleva a sua ARTE contra a corrupção da juventude, contra o sequestro dos valores sociais e familiares, contra o vício das substâncias e das ideias, contra, enfim, a degradação do ser humano.

Nesta noite de extraordinária alegria, ouçamos o apelo do Sumo Pontífice: sejamos todos Embaixadores da Esperança!    




[1] Informações obtidas no endereço eletrônico www.fazenda.org,br, em abril de 2014.

[2] Bíblia Sagrada. 10. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1996. p. 1.362.
[3] Informações obtidas em entrevistas com D. Mario Pasqualotto e Sras. Izolda Barreto e Cláudia do Espírito Santo, por e-mail, em abril de 2014.