Amigos do Fingidor

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Carta para Luiz Bacellar

Tainá Vieira

 

Outro dia, procurando um documento numa pasta onde guardo papéis importantes, deparei-me com diversos recortes de jornais referentes à tua partida. Eram mais de cinco jornais diferentes, todos tentando, cada um à sua maneira, dar nome à tua ausência. Havia títulos que, com certeza, tu odiarias. Especialmente este: “O adeus do poeta”. Afinal, tu odiavas ser chamado de poeta. Hoje compreendo um pouco a tua aversão. Não concordo, mas compreendo.

Li cada recorte devagar. Emocionei-me com as palavras dos jornalistas, com as entrevistas transcritas, com as lembranças dos amigos falando sobre ti. Havia uma espécie de espanto em todas aquelas vozes, como se ninguém soubesse muito bem o que fazer diante da tua ausência. Por alguns minutos, deixei de ser misândrica e passei a te amar ainda mais. Talvez a morte tenha esse poder estranho de nos reconciliar, por alguns instantes, com aquilo que em vida nos incomodava.

Tu não sabes, ou talvez saibas, porque gosto de imaginar que os mortos continuam sabendo alguma coisa sobre nós, mas depois da tua partida escrevi durante um ano inteiro cartas para ti. Contava-te as notícias do mundo de cá, as coisas que aconteciam, as pequenas banalidades, as grandes tristezas. Escrevia como quem tenta manter acesa uma conversa que a morte interrompeu sem pedir licença. Pura tolice minha. Perdão! Eu simplesmente não conseguia aceitar que tinhas ido, sabe Deus para onde. Talvez aquelas cartas fossem menos para ti e mais para mim. Eu precisava acreditar que ainda existia algum lugar onde as minhas palavras pudessem te alcançar.

Hoje, dia 9 de setembro, já são 15 anos da tua partida, e eu ainda estou aqui, essa mísera mortal que às vezes ainda chora a tua partida como se tivesse acontecido ontem. É curioso como o tempo não cura certas ausências; apenas nos ensina a carregá-las com menos alarde. Algumas pessoas morrem e deixam apenas uma lembrança. Outras permanecem como uma espécie de cicatriz invisível, dessas que não doem todos os dias, mas que o corpo reconhece quando alguma coisa as toca. E queres saber de uma coisa? Tenho plena convicção de que tu não gostarias de mim hoje. Penso até que nem me reconhecerias e acredito que também não te gostaria mais hoje.

Hoje, no tempo de 2026, o mundo parece outro. É bom e ao mesmo tempo caótico e mau. Mas não quero entrar em detalhes agora, porque quero falar mais de mim. Estou completamente mudada. Ou talvez e esta possibilidade me seja ainda mais perturbadora, a mulher que sou hoje seja, finalmente, quem sempre fui, mas ainda não havia descoberto naquele tempo em que te admirava como se tu fosses maior do que os homens costumam ser e eu menor do que realmente era. Eu te idolatrava, porque para mim nunca houve um poeta maior do que tu.  Coloquei-te num pedestal e, durante muito tempo, permaneci olhando para cima. Hoje sei que todo pedestal é também uma distância. Talvez eu tenha precisado te colocar lá para compreender, muitos anos depois, que ninguém deveria precisar estar acima de ninguém para ser amado, admirado ou lembrado.

Ainda assim, não me arrependo. Não me arrependo daquela menina que te admirava, das cartas que escrevi, do amor quase ingênuo que depositei em toda a tua obra. Há coisas que só conseguimos compreender depois de perdê-las, e talvez tu tenhas sido uma dessas experiências que a vida me deu para que eu pudesse, um dia, descobrir não apenas quem tu eras, mas quem eu era diante de ti. Hoje já não sou aquela mulher. E talvez tu realmente não gostasses de mim. Talvez achasses excessivas as minhas perguntas, as minhas inquietações, a mulher que se recusa a caber nos lugares que lhe foram destinados. Talvez não compreendesses essa minha necessidade de dizer, de escrever, de desafiar, de não pedir licença, de ser agressiva e excessiva.

Mas há uma coisa que permaneceu. Tu ainda estás no pedestal. Talvez eu te deixe lá para sempre, considerando os poetas da tua geração que eu não os suporto. E, talvez eu te deixe lá não porque ainda precise te admirar de baixo para cima, nem porque precise da tua aprovação. Deixo-te lá porque algumas pessoas passam pela nossa vida e se tornam parte da arquitetura secreta de quem somos. Porque, mesmo depois de mortos, continuam existindo em algum lugar dentro de nós, não exatamente como foram, mas como foram transformadas pela nossa memória. E talvez seja isso que o tempo fez contigo: não te apagou. Apenas mudou o lugar onde existes.

Já não estás diante de mim. Estás em mim, como uma lembrança rara, na minha escrita, quem sabe, E, quinze anos depois, acho que finalmente aprendi apenas a te admirar sem precisar voltar a ser aquela pessoa que te amava. Talvez seja essa a única forma verdadeiramente adulta de amar os mortos: continuar preservando-os sem permitir que a memória deles nos impeça de nos tornarmos quem somos.

Portanto, acredito que esse será o nosso último contato; como disse, mudei. Despeço-me do homem, mas imortalizo o poeta, a obra, os versos para sempre na minha memória e a levarei para eu caminhar.  Despeço-me de ti, sem me comprometer se um dia voltarei a escrever-te. Quem sabe como o mundo estará em 9 de setembro do ano seguinte?