Tainá
Vieira
Outro
dia, procurando um documento numa pasta onde guardo papéis importantes,
deparei-me com diversos recortes de jornais referentes à tua partida. Eram mais
de cinco jornais diferentes, todos tentando, cada um à sua maneira, dar nome à
tua ausência. Havia títulos que, com certeza, tu odiarias. Especialmente este:
“O adeus do poeta”. Afinal, tu odiavas ser chamado de poeta. Hoje compreendo um
pouco a tua aversão. Não concordo, mas compreendo.
Li cada
recorte devagar. Emocionei-me com as palavras dos jornalistas, com as
entrevistas transcritas, com as lembranças dos amigos falando sobre ti. Havia
uma espécie de espanto em todas aquelas vozes, como se ninguém soubesse muito
bem o que fazer diante da tua ausência. Por alguns minutos, deixei de ser
misândrica e passei a te amar ainda mais. Talvez a morte tenha esse poder
estranho de nos reconciliar, por alguns instantes, com aquilo que em vida nos
incomodava.
Tu não
sabes, ou talvez saibas, porque gosto de imaginar que os mortos continuam
sabendo alguma coisa sobre nós, mas depois da tua partida escrevi durante um
ano inteiro cartas para ti. Contava-te as notícias do mundo de cá, as coisas
que aconteciam, as pequenas banalidades, as grandes tristezas. Escrevia como
quem tenta manter acesa uma conversa que a morte interrompeu sem pedir licença.
Pura tolice minha. Perdão! Eu simplesmente não conseguia aceitar que tinhas
ido, sabe Deus para onde. Talvez aquelas cartas fossem menos para ti e mais para
mim. Eu precisava acreditar que ainda existia algum lugar onde as minhas
palavras pudessem te alcançar.
Hoje,
dia 9 de setembro, já são 15 anos da tua partida, e eu ainda estou aqui, essa
mísera mortal que às vezes ainda chora a tua partida como se tivesse acontecido
ontem. É curioso como o tempo não cura certas ausências; apenas nos ensina a
carregá-las com menos alarde. Algumas pessoas morrem e deixam apenas uma
lembrança. Outras permanecem como uma espécie de cicatriz invisível, dessas que
não doem todos os dias, mas que o corpo reconhece quando alguma coisa as toca.
E queres saber de uma coisa? Tenho plena convicção de que tu não gostarias de
mim hoje. Penso até que nem me reconhecerias e acredito que também não te
gostaria mais hoje.
Hoje,
no tempo de 2026, o mundo parece outro. É bom e ao mesmo tempo caótico e mau.
Mas não quero entrar em detalhes agora, porque quero falar mais de mim. Estou
completamente mudada. Ou talvez e esta possibilidade me seja ainda mais
perturbadora, a mulher que sou hoje seja, finalmente, quem sempre fui, mas
ainda não havia descoberto naquele tempo em que te admirava como se tu fosses
maior do que os homens costumam ser e eu menor do que realmente era. Eu te
idolatrava, porque para mim nunca houve um poeta maior do que tu. Coloquei-te num pedestal e, durante muito
tempo, permaneci olhando para cima. Hoje sei que todo pedestal é também uma
distância. Talvez eu tenha precisado te colocar lá para compreender, muitos
anos depois, que ninguém deveria precisar estar acima de ninguém para ser
amado, admirado ou lembrado.
Ainda
assim, não me arrependo. Não me arrependo daquela menina que te admirava, das
cartas que escrevi, do amor quase ingênuo que depositei em toda a tua obra. Há
coisas que só conseguimos compreender depois de perdê-las, e talvez tu tenhas
sido uma dessas experiências que a vida me deu para que eu pudesse, um dia,
descobrir não apenas quem tu eras, mas quem eu era diante de ti. Hoje já não
sou aquela mulher. E talvez tu realmente não gostasses de mim. Talvez achasses
excessivas as minhas perguntas, as minhas inquietações, a mulher que se recusa
a caber nos lugares que lhe foram destinados. Talvez não compreendesses essa
minha necessidade de dizer, de escrever, de desafiar, de não pedir licença, de
ser agressiva e excessiva.
Mas há
uma coisa que permaneceu. Tu ainda estás no pedestal. Talvez eu te deixe lá
para sempre, considerando os poetas da tua geração que eu não os suporto. E,
talvez eu te deixe lá não porque ainda precise te admirar de baixo para cima,
nem porque precise da tua aprovação. Deixo-te lá porque algumas pessoas passam
pela nossa vida e se tornam parte da arquitetura secreta de quem somos. Porque,
mesmo depois de mortos, continuam existindo em algum lugar dentro de nós, não
exatamente como foram, mas como foram transformadas pela nossa memória. E
talvez seja isso que o tempo fez contigo: não te apagou. Apenas mudou o lugar
onde existes.
Já não
estás diante de mim. Estás em mim, como uma lembrança rara, na minha escrita,
quem sabe, E, quinze anos depois, acho que finalmente aprendi apenas a te
admirar sem precisar voltar a ser aquela pessoa que te amava. Talvez seja essa
a única forma verdadeiramente adulta de amar os mortos: continuar
preservando-os sem permitir que a memória deles nos impeça de nos tornarmos
quem somos.
Portanto,
acredito que esse será o nosso último contato; como disse, mudei. Despeço-me do
homem, mas imortalizo o poeta, a obra, os versos para sempre na minha memória e
a levarei para eu caminhar. Despeço-me
de ti, sem me comprometer se um dia voltarei a escrever-te. Quem sabe como o mundo
estará em 9 de setembro do ano seguinte?