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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Um comentário orgásmico a respeito de A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli


Marcos Souza

 

A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas cruzadas, postura empertigada e mão no queixo exalando sobrecarga intelectual, talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao mesmo tempo nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico, do contrário não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou ter uma de nossas obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens, para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir aquilo que só é proferido a modo de sussurro. E, hoje, sussurro delicadamente para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli.

Antes de adentrarmos à casa das bonecas, serpenteando entre os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma “Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira. Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada ainda conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional. Pois é, camarada, caberás a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou a permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente fedendo a gorgonzola”.

Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.



Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores, persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes, assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para aquisição entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais, a saber: @marciaantonelli376 no Instagram e Márcia Antonelli Santana no Facebook.

Até.

 

 

Marcos Souza é professor, geógrafo e escritor, nascido em Manaus, Amazonas. Autor de Coisas do futebol manauara (2022), Cidade decadente: personas (2024) e Um grande circular (2026). Recebeu algumas menções honrosas e premiações, tal como pelo Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta (AMULMIG), pelo Concurso de Contos e Crônicas Gioconda Labecca (ALGRASP), pelo Concurso Farol Literário (Instituto Federal Goiano) e pelo VIII Concurso Literário Cidade de Ouro Branco (ACLAOB), além vencer a 13ª e a 14 ª edição dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, ambas na categoria Prêmio Álvaro Braga, destinado ao melhor livro de teatro. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica

Ricardo Kaate Lima

 

A literatura realista de crítica social sempre teve grandes exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo, nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.

Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para Miami.

Na novela Um grande Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos, trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia, traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.

Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva) lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.

Classifico Um Grande Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico, rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e não gostamos do que vimos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular

 Zemaria Pinto

 

O dia amanheceu como tantos outros para aquele formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o celular debaixo do travesseiro.

 

(Marcos Souza, em “Nimalino”, conto do livro

Cidade decadente: personas)

 

Ao usar como epígrafe um fragmento de texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras, mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.  

O caro leitor não passará incólume pelo primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título, intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando, por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e tão próximo Gregor Samsa:

 

Quando certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)

 

A metamorfose de Letério transforma-o de modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus, utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele quem alimenta essa cidade antagonista.

A obra aborda temas como exclusão, violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu, para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”

Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico. 

A oposição simbólica entre noite e dia é um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas estrutura toda a vida urbana.

A relação entre Letério e Iriane aprofunda essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no outro uma saída individual para problemas que são coletivos.

Outro aspecto relevante da novela é a inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.

A metalinguagem, presente nos diálogos entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? – indignação.

Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.


Projeto Gráfico e capa: Wilson Prata
Fotografias: Samuel Liberato 
Apresentação: Zemaria Pinto
Temiporã Edições

 

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?


A cidade não inventada na literatura de Marcos Souza

Márcia Antonelli

 

Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de alguma trama, real ou fantasiosa, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço.  No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento. 

UM GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as brutalidades de um lugar decadente.  A obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor. Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo, contundente e necessário.  Nesta sua mais nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.

Marcos Souza é capaz de mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz pensar.

Trecho do primeiro capitulo “Sol Infernal, dilúvio divino”.

(...) “Quando certa manhã, Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação, recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a chamar de Manaus.”

Eis a precariedade da vida protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à margem de qualquer olhar ou sentimento humano.

UM GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026, às 15h, na Rua Rondônia, 19, Flores.

Recomendo.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cenas da Vida Amazônica


Clique sobre a imagem para obter o YouTube.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cidade nua: máscaras da decadência

 

Zemaria Pinto

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

(T. S. Eliot)[1]

 

O âmago da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a cidade.

Baudelaire teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2] O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente só.

Para Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para parecerem profundos.”[3]

Mário de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo...”[4]

Para expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas, Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5] dando o poeta lugar ao prosaico narrador.

São dez contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns, como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis, como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito assim parece simples, mas não.

Para mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas, cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar, nos contos de Cidade decadente: personas.[6]


Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.  

De bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.

Um personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da “virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência) eterna.

Nesta breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana, alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a exceção.


Na cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p. 109)

 

Mas a sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.

Leitora, leitor, leitore (?): liga aí o GPS...

 



[1] ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.

[2] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

[4] ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo: Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.

[5] apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.

[6] SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor, 2024.