Marília de Dirceu
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1809?)
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Minha bela Marília, tudo passa;
a sorte deste mundo é mal segura;
se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos deuses
sujeitos ao poder do ímpio fado:
Apolo já fugiu do céu brilhante,
já foi pastor de gado.
A devorante mão da negra morte
acaba de roubar o bem que temos;
Até na triste campa não podemos
zombar do braço da inconstante sorte:
qual fica no sepulcro,
que seus avós ergueram, descansado;
qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
ferro do torto arado.
Ah! Enquanto os destinos impiedosos
não voltam contra nós a face irada,
façamos, sim, façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração
que, frouxo,
a grata
posse de seu bem difere,
a si,
Marília, a si próprio rouba,
e a si
próprio fere.
Ornemos
nossas testas com as flores,
e façamos de
feno um brando leito;
prendamo-nos,
Marília, em laço estreito,
gozemos do
prazer de sãos Amores.
Sobre as
nossas cabeças,
sem que o
possam deter, o tempo corre;
E para nós o
tempo que se passa
também,
Marília, morre.
Com os anos,
Marília, o gosto falta,
e se
entorpece o corpo já cansado;
triste, o
velho cordeiro está deitado,
E o leve
filho sempre alegre salta.
A mesma
formosura
É dote que
só goza a mocidade:
rugam-se as
faces, o cabelo alveja,
Mal chega a
longa idade.
Que havemos
de esperar, Marília bela?
Que vão
passando os florescentes dias?
As glórias,
que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim
mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não,
minha Marília,
Aproveite-se
o tempo, antes que faça
o estrago de
roubar ao corpo as forças,
E ao
semblante a graça!