Amigos do Fingidor

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A poesia é necessária?

 

Marília de Dirceu

Tomás Antônio Gonzaga (1744-1809?)

 

34

 

Minha bela Marília, tudo passa;

a sorte deste mundo é mal segura;

se vem depois dos males a ventura,

Vem depois dos prazeres a desgraça.

Estão os mesmos deuses

sujeitos ao poder do ímpio fado:

Apolo já fugiu do céu brilhante,

já foi pastor de gado.

 

A devorante mão da negra morte

acaba de roubar o bem que temos;

Até na triste campa não podemos

zombar do braço da inconstante sorte:

qual fica no sepulcro,

que seus avós ergueram, descansado;

qual no campo, e lhe arranca os frios ossos

ferro do torto arado.

 

Ah! Enquanto os destinos impiedosos

não voltam contra nós a face irada,

façamos, sim, façamos, doce amada,

Os nossos breves dias mais ditosos.

Um coração que, frouxo,

a grata posse de seu bem difere,

a si, Marília, a si próprio rouba,

e a si próprio fere.

 

Ornemos nossas testas com as flores,

e façamos de feno um brando leito;

prendamo-nos, Marília, em laço estreito,

gozemos do prazer de sãos Amores.

Sobre as nossas cabeças,

sem que o possam deter, o tempo corre;

E para nós o tempo que se passa

também, Marília, morre.

 

Com os anos, Marília, o gosto falta,

e se entorpece o corpo já cansado;

triste, o velho cordeiro está deitado,

E o leve filho sempre alegre salta.

A mesma formosura

É dote que só goza a mocidade:

rugam-se as faces, o cabelo alveja,

Mal chega a longa idade.

 

Que havemos de esperar, Marília bela?

Que vão passando os florescentes dias?

As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;

E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

Ah! Não, minha Marília,

Aproveite-se o tempo, antes que faça

o estrago de roubar ao corpo as forças,

E ao semblante a graça!