Pedro Lucas Lindoso
Estava
num restaurante em Brasília com amigos. Contava para eles que havia comparecido
a um casamento no interior do Amazonas. A noiva, chibata, cunhã-poranga de boi,
desceu do motor com seu pai, ao som de beiradão. Os amigos brasilienses pediram
a tradução. Na verdade, só haviam entendido que eu falava de uma certa noiva.
Ora,
chibata é um adjetivo pelo qual o caboclo amazonense define algo bonito, muito
bom, excelente e de alta qualidade. A noiva está chibata. Ou seja, linda e com um
vestido muito bacana. O motor, ou motor de linha, ou motor de popa. Ou somente
“motor” é embarcação na Amazônia que serve para transporte de passageiros,
carga e pesca. De uso profissional ou lazer.
E o beiradão?
Havia músicos entre os amigos. Conheciam o Teixeira de Manaus. Pois é, o
Teixeira de Manaus se destacou por sua linguagem autêntica no sax alto. Foi o
precursor do beiradão. Uma mistura de diversos ritmos, entre eles o carimbó,
merengue, lambada, cúmbia, forró, salsa, xote e outros ritmos latinos. O
maestro Cláudio Abrantes, num dia de Chorinho na calçada do IGHA-Instituto
Geográfico e Histórico do Amazonas, explicou que os anos de 1950 e 1960 foi um período
em que o rádio, principalmente a Rádio Nacional, era o principal veículo de
comunicação para os moradores do interior do Amazonas. A população e os músicos diletantes,
moradores das calhas dos rios, sofreram influência da música brasileira dessa
época, pelo rádio.
Ouviam
com dificuldade as transmissões da Rádio Nacional. Esforçando-se para
sintonizar nos chorinhos, sambas e modinhas brasileiras em geral.
A gente
do interior aprecia tocar instrumentos de sopro. Principalmente os metais.
Conhecidos pelo timbre brilhante, potente e majestoso.
O
Exército Brasileiro costumava descartar instrumentos velhos ou danificados,
doando aos ribeirinhos. Ganhavam trompetes, trompas, tubas e trombones. E,
claro, não podia faltar um saxofone. E assim formavam-se as primeiras bandas
que desenvolveriam um ritmo próprio, nosso – o beiradão.
Penso
que o Beiradão é um fenômeno cultural. Também não é uma cultura sazonal. São
muitos quilômetros de rios, com festas o ano inteiro, tocando essa música, que
é uma mescla cultural muito grande. Aliás, não são só as bandas, os saxes, é
também a culinária.
Eu
sempre digo aos amigos do sul, que eles falam muito da nossa floresta, dos
botos, da biodiversidade. Mas, na verdade, não nos conhecem. Meus amigos então
planejam vir conhecer o nosso interior. Querem curtir uma festa com muito
beiradão, peixe, farinha, tucumã e a alegria dos amazonenses ribeirinhos. É só chegar.