Pedro Lucas Lindoso
Muitas
moças e rapazes de Parintins desejam ser item de seu boi preferido. Sinhazinha,
Cunhã, Rainha do Folclore. Já os homens sonham em ser amo do boi, pajé ou mesmo
o tripa do boi.
Mas há
os que trabalham duro anonimamente. São os Paikicés do Boi Caprichoso e os Kaçauerés
do Boi Garantido. Cada equipe tem cerca de 200 homens. Trabalham duro. Carregam
os carros alegóricos e adereços com dias de antecedência. Tomam conta do
acervo. Montam tudo. É muito trabalho. Mas quem brilha no festival são os
itens.
Os Paikicés
do Boi Caprichoso e os Kaçauerés do Boi Garantido são homens e mãos que
trabalham sem alarde, dia após dia. O coração que move os bois é invisível aos
olhos que olham apenas para os itens, alegorias e toadas. No traslado dos
carros alegóricos, há uma geometria de esforço. O peso distribuído com cuidado
e a precisão que expressa o amor por cada Boi. Em cada ajuste de adereço, um
segredo de paciência. Cada trabalhador no silêncio e na dedicação ao seu boi, sabe
que o tempo é aliado, não inimigo.
A
organização de cada equipe é como uma toada cujo tema é a disciplina. Os Paikicés, conhecem cada peça como quem
conhece a própria história do Boi Caprichoso. Os Kaçauerés, com o mesmo afinco,
alinham o vermelho vibrante das alegorias e adereços. Para que possam vibrar
numa tonalidade que conte uma narrativa vermelhante, honesta e ofuscante.
O
cronograma não é apenas data. É respeito
pela tradição, é o ritual de preparar o bumbódromo para que a grandiosidade se
faça visível. E surpreendente como todo ano, todo festival.
Paikicés
do boi Caprichoso e os Kaçaierés do Garantido fazem um trabalho que não pede
aplauso. Carregar, montar, guardar. São
tarefas que se repetem, mas que, repetidas, se tornam disciplina sagrada.
A
alegoria de cada boi é memória em movimento. Cada peça uma página viva de uma
história que se reescreve a cada festival.
Os Paikicés
e os Kaçauerés têm humildade para ver o resultado sem se deixar consumir pela
vaidade do aplauso que os itens recebem. Eles têm coragem para admitir que o
segredo do brilho de cada dia de apresentação do festival está nos detalhes.
E, quando
a galera azul e vermelha se tombar em reverência, o verdadeiro brilho vem da
quietude de quem sabe que o trabalho está apenas começando outra vez. Mas que
existe uma promessa de continuidade de uma tradição viva. Os Paikicés e Kaçauerés são guardiões de uma
linha que não pode quebrar. A linha que
liga passado, presente e futuro do festival.
Cada
um, na sua função, entrega o essencial do todo. Sem o peso certo, o boi não
voa. Sem o encaixe preciso, o colorido dos adereços e das vestimentas não canta
no ritmo preciso de cada toada.
Paikicés
e Kaçauerés, que trabalham com as mãos e suando o corpo, para que a festa maior
continue a nascer todo ano, sob o mesmo céu, com a mesma coragem. A coragem de quem ergue, com paciência e
amor, os bois que encantam os amazonenses, o Brasil e o mundo.






