Pedro Lucas Lindoso
Os
meses do ano agora têm cores. Elas fazem alusão a alguma campanha, síndrome ou
projetos. O azul de abril é para conscientizar a população sobre o TEA –
Transtorno do Espectro Autista.
A
palavra espectro refere-se a uma gama contínua de variações, intensidade ou
características de um fenômeno, em vez de uma condição única ou fixa. Assim é o
autismo, assim é a misteriosa cor azul.
Ernesto
Penafort ficou conhecido como o poeta do azul. Usava azul em seus poemas e
títulos de livros. Escreveu a tetralogia do azul – Azul geral (1973), A medida do azul (1982), Os limites do azul (1985) e Do verbo azul
(1988).
Lenir
Feitosa, a quem Penafort chamou de Companheira Azul, explica que o azul que
Ernesto usava não era a cor propriamente, O azul era algo ilimitado como o azul
do céu. O azul do céu era o parâmetro
para descrever o sentimento dele diante do amor. O autismo, por ser um
espectro, também não tem limites definidos.
Sempre
que penso na cor azul, me vem à mente a catedral de Chartres, na França. Os
vitrais da famosa igreja têm um tom lendário de azul cobalto profundo. Segundo
Erick Matias, amigo e professor de História da Arte, o azul intenso da catedral
é característico dos vitrais do século XII e XIII, na França. O azul de
Chartres ficou famoso pela sua luminosidade mística. É considerado um segredo
medieval da arte gótica, criando a impressão de que a luz divina está presente
no espaço. As causas do autismo também ainda são um segredo a ser desvendado
pela Medicina.
Existe
ainda o “Azul de Portinari”. Trata-se de um tom específico e intenso de azul
frequentemente utilizado pelo pintor brasileiro Candido Portinari Esse azul
criado por Portinari, diferente do azul de Ernesto Penafort, é uma cor que se
tornou marca registrada da obra de Cândido Portinari. Especialmente em
temáticas sacras. Quem visita a Catedral de Brasília pode verificar essa
tonalidade na via sacra da igreja. Erick me disse que o azul de Portinari,
exprime espiritualidade e a busca artística de nosso pintor maior. Essa cor
marca o estilo único de Portinari no cenário artístico nacional.
Erick
além de professor de História da Arte, também é pintor. Mostrou-me, em seu
atelier, exemplos variados de tons dessa intrigante cor. O azul claro e pastel
está no azul-bebê; azul-celeste; azul Hortênsia; azul etéreo/porcelana e azul-turquesa.
Mostrou-me também tons de azul escuro e profundo, como azul-marinho; azul
petróleo; azul-da-Prússia e azul noite. Há ainda tons de azul vibrantes e
intensos como o azul-cobalto; azul-royal e azul-ultramar. Este último, um azul
bastante profundo e intenso, tradicional na pintura. Por fim, Erick falou-me de
tons de azul acinzentados, aqueles que misturam o azul com cinza, ideais para
destaque. Como o azul Strauss, que é uma variação de azul clássico.
Assim
como meu amigo Erick Matias é capaz de diferenciar e conhecer essas diversas
tonalidades de azul, minha esposa Vera Lindoso, psicóloga clínica, reconhece as
diferentes “tonalidades” do comportamento de crianças autistas. De fato, há
“diversos tons de azul”, no autismo. Existe uma ampla diversidade de sinais,
sintomas e níveis de suporte, do leve ao mais intenso. Eles se manifestam de
forma única em cada indivíduo. Assim como são únicos o azul de Chartres, o Azul
de Portinari e o “Azul da cor do mar”, aquela música linda do Tim Maia.








