sexta-feira, 27 de março de 2026
Tainá, crônica e poesia
quinta-feira, 26 de março de 2026
A poesia é necessária?
Eis o ofício
Marcelo Sandmann
do poeta)
fazer sua língua
língua estrangeira
eis o ofício) e
nessa língua
buscar seu exílio
(do poeta
mesmo o asilo
negado (eis
o ofício) o
visto indeferido
a língua
materna (do poeta
fazê-la madrasta
fazê-la pedestre
(eis o ofício
caminhar no
deserto sem
mapa ou (do
poeta) destino
viver em perigo
(eis o ofício
quarta-feira, 25 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
Gonçalves Dias no Amazonas e o tempo de Dom João Charuto
Pedro Lucas Lindoso
Na
semana passada, escrevi sobre a enorme variedade de palmeiras que temos por
aqui. E ao falar de palmeiras mencionei Gonçalves Dias. Isso encantou uma jovem
leitora que me passou o seguinte e-mail:
“Caro
cronista. Li sua crônica ‘Surucucumira’, que trata sobre a diversidade de
palmeiras na Amazônia. Confesso que fiquei surpresa em saber que o poeta
romântico Gonçalves Dias havia visitado o Norte do Brasil. Pensei que fosse
ficção. Mas é verdade. Fui pesquisar e descobri nos Anais da Biblioteca
Nacional, vol. 84, 1964, p. 2, notícia de que Antônio Gonçalves Dias, em 12 de
outubro de 1857, fora designado, para a expedição, pelo IHGB, Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, na presidência do Marquês de Sapucaí.
Naturalmente,
o Governo Imperial de Pedro II aprovou. Assim, Gonçalves Dias foi convocado
para a Comissão Científica e Cultural exploradora no interior de algumas das
Províncias menos conhecidas do Brasil. Incluindo, a região do Rio Negro, já
então elevada à categoria de Província do Amazonas.
Há
informação de que o poeta se encontrava na Alemanha e ficara feliz com a
designação.”
Interessante
é que o e-mail, de certa forma anônimo, pertence a “curiouslibrarian” e o
provedor é americano.
De fato
a “curiosa bibliotecária” tem razão. O saudoso Márcio Souza, último ocupante da
cadeira 25 da Academia Amazonense de Letras, a ser ocupada, com muita honra e
alegria, por esse cronista, no próximo mês da abril, já nos dizia em 1977, no
livro A Expressão Amazonense, que a
expedição financiada por Pedro II retrata a visão imperial de nossa região,
naquela época. A Amazônia era um local a ser civilizado. Márcio Souza destaca o
choque cultural de Gonçalves Dias diante da realidade amazônica. Evidenciando o
abismo entre o Brasil do litoral e o Brasil do interior. E, claro, da nossa
vasta região amazônica.
Há notícias
de que a visita do poeta a Manaus, entre maio e junho de 1861, foi um período
crucial e complicado do festejado poeta do Romantismo brasileiro, em termos de
produção literária.
Márcio
Souza ressalta a importância dos diários de Gonçalves Dias. Na minha opinião
devem merecer mais atenção e mais pesquisas por parte de historiadores e
cientistas sociais em geral.
Fui
conversar com tia Idalina sobre isso. Ela me disse que tudo são coisas do tempo
de Dom João Charuto.
Discordo,
titia. A visita do poeta é bem posterior. Os charutos Dom João vinham em caixas
com a foto de Dom Joao VI. O que trouxe a família real para o Brasil, em 1808.
Era avô de Pedro II. Nascido em 1825, Pedro II teria feito 200 anos em dezembro
do ano passado. Tia Idalina tem razão. Tratamos de coisas e pessoas do tempo de
Dom João Charuto. Que muito fez pelo Brasil quando reinou aqui. Mas ao retornar
para Portugal queria nos fazer colônia novamente. Esse Dom João VI bem que
merece ser chamado de Dom João Charuto. Governou o Brasil antes de nossa
Independência!
domingo, 22 de março de 2026
sexta-feira, 20 de março de 2026
quinta-feira, 19 de março de 2026
A poesia é necessária?
Palmares
Henrique Marques Samyn
Os olhos brancos, quando contemplam,
não conseguem ocultar o pasmo:
parece, sim, uma pequena África –
embora ali não haja apenas pretos:
compartilhamos nossa liberdade.
Os olhos brancos, trêmulos, estáticos,
fraquejam, mas não podem desviar-se:
é bela, sim, esta pequena África,
nascida sob o nome de Palmares,
que se oferece como um espetáculo.
Não viram, os olhos brancos, a grandeza
desta nação que erguemos, soberana,
na qual pudemos ser livres, um dia;
somente viram sua própria inveja:
pelo ódio cegos, deram-se à vingança –
mais fortes o rancor e a covardia.
quarta-feira, 18 de março de 2026
Caminhando com os mortos
Márcia Antonelli
Terminei
por estes dias a leitura do livro Os que andam com os mortos, do poeta,
escritor, ensaísta e também dramaturgo Zemaria Pinto. Fiz desta obra meu
companheiro de caminhadas. É que todo mês elejo um livro para caminhar comigo.
“Os que andam com os mortos” foi o eleito deste mês e caminhar com ele foi de
um agradável deleite.
“Os que andam com os mortos” é o primeiro livro de contos publicado pelo autor de Folia no Seringal: ensaios sobre a literatura do Amazonas, embora o mesmo já tenha experienciado o gênero prosa antes, com os títulos Lábios que beijei, Drops de pimenta e Bolero’s Bar, todos reunidos em forma de minicontos, microcontos e nanocontos, editados em seu blog chamado “Palavra do Fingidor” e que vale a pena conferir.
Os
que andam com os mortos é hilário. Sarcástico. Provocador. Zé nos conduz pelos meandros de uma
narrativa que vai do conto convencional ao absurdo; do fantástico às fábulas,
recortes de teatro a roteiros de cinema; escritos viventes e memoriais, somado
a uma dosezinha de erotismo, que também não podia faltar. Os contos reunidos
aqui neste seu livro são seduzentes e nos prendem da primeira à última página
de cada conto. São narrativas bem construídas e alinhadas, difícil até de
escolher as melhores histórias, pois todas são muito bem tecidas e bem
contadas. Algumas delas nos arrancando sonoras gargalhadas de tão lúdicas e
desconcertantes que são. Zé é um estrategista tático. Nato. Escreve muito à
vontade e nos deixa muito à vontade. Os que andam com mortos é um livro
gostoso de ler. Ele é intrigante. Engraçado. Debochado, pois que o autor
descreve em alguns momentos situações bem peculiares do dia a dia, sem cair no
trivialismo da linguagem ou no banalismo imagético. Zé aborda com maestria
situações usuais e incomuns do dia a dia, de maneira excêntrica e bem-humorada,
garantindo ao leitor uma prazerosa e singular leitura em graus diversos de
loucura, causticidade, suicídios, desamor, através de seus alinhavados e
alindados contos. Um caminhar interessante com os mortos.
Recomendo.
Nota: Márcia Antonelli é uma transcritora ficcionista,
com dezenas de livros publicados, que ela vende de mão em mão.
Obras adaptadas para o cinema:
O desentupidor de fossas; Zico, o Jabuti; e Das ruas à sobrevivência.
terça-feira, 17 de março de 2026
A surucucumira
Pedro Lucas Lindoso
Gonçalves
Dias, ao poetar “Minha terra tem palmeiras”, sabia das coisas. Mesmo porque
esteve nos visitando, em nome de Pedro II, de maio a junho de 1861. Estudou
línguas indígenas. Conheceu nossa flora e fauna. Subiu o Rio Negro até São
Gabriel da Cachoeira. Veio para nos conhecer e incentivar a educação formal do
povo do norte do Brasil.
Segundo
Kadu Lazarini, pesquisador da EMBRAPA, a Amazônia abriga cerca de 200 espécies
de palmeiras. De fato, nossa terra tem muitas, como deve ter observado
Gonçalves Dias, ainda no século 19. São fundamentais para a bioeconomia e
subsistência dos nossos caboclos valorosos.
Algumas
são ícones representativos de nossa cultura, como o açaí, buriti, pupunha,
tucumã e patauá. Além dos frutos, nos dão palmito, fibras e óleos. O açaí é
nativo das várzeas. Fruto famoso no mundo inteiro. Tem palmito e dele se faz um
vinho bem gostoso.
O
buriti cresce nas veredas. Nos fornece óleo, artesanato e fibra. Rico em
vitamina A. A gostosa pupunha é muito usada para palmito. E, claro, para comer
com um café, pela manhã, ou merenda da tarde. O tucumã é matéria-prima do nosso
xis-caboquinho. Também delicioso com café. O babaçu tem muito potencial. Produz
excelente óleo e é usado em artesanato.
Temos
ainda a jarina, conhecida como “palmeira marfim”, muito usada para biojóias e
artesanato. Quase esquecia a bacaba. Usa-se muito para fazer vinho. Essas
palmeiras são pilares na economia das comunidades ribeirinhas. E nelas não só
cantam os sabiás, mas também o uirapuru, o coró-coró, o japiim, araras e
tucanos, e tantos outros.
E a
surucucumira? Até Gonçalves Dias sabia que as palmeiras não são árvores. Elas
não crescem em espessura com anéis, como as árvores. Palmeiras crescem em
altura, sendo, na verdade, “ervas gigantes”, com um caule fibroso e sem
crescimento secundário de diâmetro.
A
surucucumira é árvore. Também não é cobra. Algumas morrem depois da primeira
frutificação. Coisa da natureza.
domingo, 15 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
A poesia é necessária?
Floresta
Fernando Paixão
Do minério mais vasto
ao quebrar
de uma asa de inseto:
música sem faca.
A terra inquieta
abate a tiro
o silêncio em volta.
Não sobra o mínimo
vapor de quietude
ao ouvido.
As coisas (sempre as coisas)
entregam-se
sem pausa
à ponta dos barulhos.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Centenário de Thiago de Mello
terça-feira, 10 de março de 2026
Filho de paxiúba
Pedro Lucas Lindoso
Minha
querida tia Idalina abomina palavrões. Acha “de última”, como ela mesma diz.
Quando se sente muito ofendida, o máximo que se atreve a dizer é que fulano é
“filho de chocadeira”. Ora, essa expressão se refere, originalmente, às aves
nascidas em incubadoras artificiais. Geralmente, usa-se a expressão para
descrever pessoas consideradas frias, distantes ou sem afetividade. Mas,
conhecendo bem Idalina, quando chama alguém de filho de chocadeira podemos
subentender que ela quis mesmo chamar a pessoa de “filho da boa senhora”, como
diria minha mãe.
Falando
nisso, eu ia num taxi quando alguém “fechou” o taxista. O rapaz xingou a pessoa
de filho de paxiúba. Disse-me que era do interior. Explicou-me que a paxiúba é
conhecida como “palmeira-andante”. A tal palmeira move-se muito lentamente ao
longo dos anos. Suas raízes aéreas crescem em direção à luz, enquanto raízes
antigas apodrecem, criando um deslocamento gradual de até 2 metros por ano. A
palmeira, portanto, move-se para encontrar melhores nutrientes e luz solar.
O
taxista me disse ainda que seus frutos alimentam animais como macacos e
tucanos, e suas raízes servem de abrigo para pequenos roedores. A tal paxiúba,
ou a popular “palmeira-andante”, pareceu-me árvore simpática e cativante. Achei
tremendamente injusto chamar alguém de filho de paxiúba como xingamento.
Existem
muitas expressões que capturam o tom insultante próximo de “filho de paxiúba”,
variando conforme região, contexto e intensidade. Novas expressões aparecem e outras caem em
desuso com o tempo.
Há
palavrões bem diretos e agressivos. Como, por exemplo, filho da mãe, com
variações regionais. Seu filho da p…, com variações de grafia para evitar
palavrão explícito. Existem similares em todas as línguas ocidentais. Pobres
mães. Se o filho merece elogios, ah! Saiu ao pai! Existem, ainda bem, os que
poupam as devotadas mamães. São palavrões bem fortes como maldito(a), canalha,
desgraçado(a), lixo, estorvo. A lista é grande. Entretanto achei a árvore
paxiúba bem interessante e deu vontade de conhecer a famosa palmeira
caminhante. Pensando bem, acho que ficarei muito ofendido se me chamarem de
filho de paxiúba. Soa mal, né?
domingo, 8 de março de 2026
sexta-feira, 6 de março de 2026
quinta-feira, 5 de março de 2026
A poesia é necessária?
Náusea
Edimilson de Almeida Pereira
A luz atravessa o vidro, esbate na estante.
Ninguém estancou o próprio sangue
por isso, mas é certo
que algo se anuncia: rude e sem piedade,
rói a lombada dos livros.
Não lê os afazeres e a flora,
que entre pausas se insinua. Não esperemos
passeios na ilha
ou vistos de entrada.
O que se anunciou polidamente nos devora.
terça-feira, 3 de março de 2026
Sim ou não
Pedro Lucas Lindoso
Os
falantes de português, tanto no Brasil como em Portugal e nos países lusófonos
da África, usam muito pouco a palavra sim. Exemplos: Gostas de futebol? Gosto.
Falas inglês? Falo. O professor explicou a lição? Explicou. As respostas foram
dadas sem o uso do sim. É uma característica da nossa língua portuguesa. No inglês,
temos yes/no questions. Perguntas sim/não. Do you speak English? Yes, I do. No,
I don’t. Necessariamente, temos que usar o sim. Yes!
Mas,
caro leitor, parece-me que o português, pelo menos aqui no Brasil, está
perdendo essa característica tão nossa. Um jovem estudante falante do inglês
provavelmente responderia com um murcho sim a todas as perguntas acima.
Pergunto às minhas netinhas se foram à escola. Nenhuma me responde “fui, vovô”.
Sempre dizem simplesmente: sim! O inglês tem influenciado muito o português
contemporâneo. E como podemos ver, não só no léxico, mas até na estrutura da
língua.
Minha
mãe tinha no quarto um relógio que dava as horas em inglês. A “maid” achava que
era assombração. O meu celular despertador, toda manhã insiste: “Good
morning!”, e eu penso: se ele falasse português, talvez ele entendesse que eu
ainda estou com sono e muita preguiça.
Placas
bilíngues pululam por todo canto nas terras tupiniquins. Nas lanchonetes e
padarias sucos de fruta escritos, de modo bem apelativo: “banana, apple,
orange” e eu só quero um brasileiríssimo café coado e pão com queijo coalho.
Nas
escolas, hoje muitas já bilingues, o recreio ganha o vocabulário de filme
legendado de escola americana: “homework”, “quiz”, “team”. As crianças praticam
a pronúncia como quem faz passinho de dança de internet.
Em
casa, a TV sussurra em inglês entre novelas, e a família troca figurinhas
linguísticas: “Let's go”, “awesome”, “cool”.
No
trabalho, emails terminam com “Best regards”. O português se curva. Mas para muitos puristas não se rende.
Jamais.
No
silêncio da tarde, alguém lê um relatório onde “deadline” é agressivamente
comum e muito repetida. Salpicada no texto vernacular como se fosse
tempero. No fim das contas, percebe-se
que a influência é inevitável. O jeito é aceitar.
Ouvi de uma professora de português que a
língua às vezes é um parque de diversões. Um carrossel de expressões e curiosidades.
Sim, há coisas curiosas. Pergunto à jovenzinha se concorda. Ela me responde com
um sim, totalmente sem graça. Gostaria de ter ouvido um poderoso concordo! E
você leitor, concorda?
domingo, 1 de março de 2026
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Poesia e leitura nos dias de hoje
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
A poesia é necessária?
Gaza
Claudio Daniel
Para Ualid Rabah
I
escuras são as palavras
do canto:
demolidas
como as casas
na faixa de gaza.
shemá israel!
adonai eloheinu
adonai ehad.
espectros
torvos
arrastam fardos
fiapos
farrapos
de si mesmos.
pedras
queimadas
ruínas
de vidas
mutiladas
torvo horror
medonho
furiais
furiais
furiais
ínferos
antros
infernais
fomes corcundas
farpas arames
fumaça
turvas
antiflores
sob a lua de gaza
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Picância da murupi
Pedro
Lucas Lindoso
Neste
carnaval recebemos a visita de um casal amigo de São Paulo. Ela, ex-colega de
trabalho. Ele, biólogo, ora pesquisando pimentas. A vinda a Manaus não
consistia somente em ver o teatro ou o encontro das águas. O principal objetivo
de nosso amigo biólogo era conhecer, provar e levar para seu laboratório em São
Paulo a nossa famosa pimenta murupi.
Como eu
gosto de pimenta, especialmente a murupi, fui logo dando meus conselhos. Disse
que deveria procurar a murupi da bundinha. Era essa mesma que o rapaz queria. E
eu, chovendo no molhado. Ele explicou que o nome se deve ao formato da ponta
arredondada. É a capsicum chinense. Tem ardência forte, com sabor
cítrico frutado bem marcante.
Então
você já provou nossa verdadeira murupi? Ele disse que não. Só conhecia de
livros e artigos de outros pesquisadores. Encontrou algumas em São Paulo. Mas
acha que são variáveis enxertadas. Não tem a ponta arredondada. Foi a dois
supermercados e só encontrou a variável, sem a ponta arredondada.
Claro,
a verdadeira murupi é a da bundinha, lhe disse. Inclusive é menor que essas
“fakes”. Vamos procurar nas feiras. Fomos ao Mercadão. Infelizmente, só tinha
murupi sem bundinha.
De
fato, as menores são mais ardidas. São retorcidas e mudam de cor do verde claro
para amarelo ou laranja quando maduras.
Fomos
encontrá-las na Feira do Produtor, na Zona Leste. Foi uma alegria. Aprendi que
a ardência é causada pela Capsalsina. Um composto químico que estimula os
perceptores de calor na boca e na pele. A murupi da bundinha é ardida. E
perguntei logo o que se deve fazer para diminuir o ardor?
Deve-se
comer alimentos gordurosos como leite, iogurte, azeite, por exemplo. Ou então
ácidos como limão e vinagre. A água pode espalhar a picância. Não se deve
tomar. Muita gente parece não saber isso.
Foi
então que perguntei se podia se medir a picância. Claro. Existe a escala de
Scoville. Mede o teor de Capsalsina. Existem faixas da escala. “Scoville Hot
Unity” (SHU). A leve vai de 100 SHU a 2.500 SHU. Média, de 2.500 SHU a 30.000
SHU. Quente, de 30.000 SHU a 100.000 SHU. E extra picante, de 100.000 SHU a
300.000 SHU. Acima de 300.000 SHU é extremamente picante. A murupi da bundinha
tem ardência acima de até 100.000 SHU. Nossa! Muita ardência. Quanta picância!
domingo, 22 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026
O Mulateiro do Clube da Madrugada pede socorro no Centro Histórico de Manaus
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A poesia é necessária?
O eu coxo ou o homem-linguado
Antônio Cunha
Tenho a face torta
Por desdenhar da vida
Tenho as pernas tortas
Por desandar na vida
Tenho a visão torta
Por desvendar a vida
Tenho a alma torta
Para que caiba em mim
Deus escreveu-me torto
Por linhas incertas
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Que dor é essa!?
Pedro Lucas Lindoso
Domingo
de sol. Mas teve um pouco de chuva. Passou. A meninada não para de correr.
Chama a atenção os que jogam futebol. Está rolando aquela bola. Os menores
brincam de pique manja. A curuminzada não para quieta. Mas o bom é que a bola
corre solta. Bendito campinho de futebol.
Os mais
velhos aproveitam a delícia de um tambaqui assado na brasa. Estão todos num
sítio, lá para as bandas do Tarumã.
De
repente, um dos curumins da bola chega ofegante. Diz estar sentindo uma dor.
“Bem aqui do lado”. Tia Idalina, em férias de Carnaval em Manaus, foi logo
diagnosticando:
– Isso
é dor de burro, menino. Pega aí uma plantinha e põe na cintura do calção que
passa.
O tio
do menino, que é médico, tranquilizou a todos explicando tratar-se de dor aguda
e pontual na lateral do abdômen, comum em corredores e atletas, tecnicamente
chamada de dor abdominal transitória, relacionada ao exercício.
Esses
meninos fizeram muito esforço. Não fazem intervalo. Pior! Não sabem respirar
adequadamente. Ou então deve ser porque acabaram de comer e o diafragma se
“esforçou” muito. Foram logo jogar bola. Deve desaparecer. É só pararem um
pouco de correr que passa.
Lá vem
mais dois. Que dor é essa? Tia Idalina repetiu o diagnóstico e a receita. Mudou
só o nome da dor. É dor de facão. Põe uma plantinha na cintura. Vai passar.
Mas a
garotada continuava na bola. Um bando de fominhas. São jovens, bons corredores.
Não temem dor de burro. Nem dor de facão, como diz o outro. Encaram a dor e a
risada com a coragem de meninos do século 21. Jogam futebol olhando memes de
jogos do brasileirão. Comem barrinhas de suplementos que caem na hora certa… ou
na hora errada. É quando a dor de burro vem conhecer cada costela desses
projetos de craque de peladão.
Um dos
rapazes, sentindo a dor que vem de lado, pensa alto: “Calma, dor, a gente só
quer terminar a pelada sem tropeçar na própria dignidade.”
O outro curumim responde: – Ela é esperta:
chega sorrateira, igual mucura que aparece sem avisar.
O
tiozão médico interrompe: – Vamos respirar: inspira, inspira… solta. Respira
alto, menino.
Os rapazes terminam o jogo com sorrisos
tortos, respiração rápida e a promessa de que a próxima bola será mais
divertida. Com mais memes, mais água e mais energético. E se despedem daquela
dor chata. Achando graça dos nomes que os coroas deram para aquela dorzinha incômoda.
E dizem todos: “Até a próxima, dor!”
E a
pergunta final que necessita de uma resposta honesta e precisa. Afinal, tio.
Essa dorzinha chata que a gente sente. Que dor é essa? Dor de burro ou de facão?
A resposta veio na lata.
Quando
eu era menino, isso era chamado de dor de veado!
domingo, 15 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Literatura: tradição e modernidade
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
A poesia é necessária?
Soneto profético
Antonio Carlos Secchin
A bola de cristal é opaca e preta,
nela pouco se vê ou se pressente.
O vidro estilhaçado de uma greta
libera a luz noturna do presente.
Antevejo a raiz de uma semente
incapaz de dar paz a este planeta,
pois você, o jasmim e a violeta
florescem contra mim feito serpente.
Enxergo nada além desse horizonte,
onde ao escuro sucede o mais escuro.
O certo é não prever nenhum poente
que possa me levar para o futuro.
Na bola opaca eu leio, transtornado:
seremos bem felizes no passado.







