sexta-feira, 24 de abril de 2026
Filosofia, música e poesia
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A poesia é necessária?
Canção à boca da noite
Ruy Espinheira Filho
A cidade é cinza,
da cor da esperança.
(o verde ficou
na antiga criança).
É pálida a tarde
como o amor agora.
(ambos já tiveram
as cores da aurora).
Mas não há dois tempos,
passado e presente:
tudo é o mesmo conto
que jamais se mente
e põe no vazio
da cinza a esperança
dos campos da aurora
de amor e criança,
pois nada é presente
e nada é passado.
Tudo é o que é: apenas
real, porque sonhado.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Cenas da Vida Amazônica
terça-feira, 21 de abril de 2026
Abril azul
Pedro Lucas Lindoso
Os
meses do ano agora têm cores. Elas fazem alusão a alguma campanha, síndrome ou
projetos. O azul de abril é para conscientizar a população sobre o TEA –
Transtorno do Espectro Autista.
A
palavra espectro refere-se a uma gama contínua de variações, intensidade ou
características de um fenômeno, em vez de uma condição única ou fixa. Assim é o
autismo, assim é a misteriosa cor azul.
Ernesto
Penafort ficou conhecido como o poeta do azul. Usava azul em seus poemas e
títulos de livros. Escreveu a tetralogia do azul – Azul geral (1973), A medida do azul (1982), Os limites do azul (1985) e Do verbo azul
(1988).
Lenir
Feitosa, a quem Penafort chamou de Companheira Azul, explica que o azul que
Ernesto usava não era a cor propriamente, O azul era algo ilimitado como o azul
do céu. O azul do céu era o parâmetro
para descrever o sentimento dele diante do amor. O autismo, por ser um
espectro, também não tem limites definidos.
Sempre
que penso na cor azul, me vem à mente a catedral de Chartres, na França. Os
vitrais da famosa igreja têm um tom lendário de azul cobalto profundo. Segundo
Erick Matias, amigo e professor de História da Arte, o azul intenso da catedral
é característico dos vitrais do século XII e XIII, na França. O azul de
Chartres ficou famoso pela sua luminosidade mística. É considerado um segredo
medieval da arte gótica, criando a impressão de que a luz divina está presente
no espaço. As causas do autismo também ainda são um segredo a ser desvendado
pela Medicina.
Existe
ainda o “Azul de Portinari”. Trata-se de um tom específico e intenso de azul
frequentemente utilizado pelo pintor brasileiro Candido Portinari Esse azul
criado por Portinari, diferente do azul de Ernesto Penafort, é uma cor que se
tornou marca registrada da obra de Cândido Portinari. Especialmente em
temáticas sacras. Quem visita a Catedral de Brasília pode verificar essa
tonalidade na via sacra da igreja. Erick me disse que o azul de Portinari,
exprime espiritualidade e a busca artística de nosso pintor maior. Essa cor
marca o estilo único de Portinari no cenário artístico nacional.
Erick
além de professor de História da Arte, também é pintor. Mostrou-me, em seu
atelier, exemplos variados de tons dessa intrigante cor. O azul claro e pastel
está no azul-bebê; azul-celeste; azul Hortênsia; azul etéreo/porcelana e azul-turquesa.
Mostrou-me também tons de azul escuro e profundo, como azul-marinho; azul
petróleo; azul-da-Prússia e azul noite. Há ainda tons de azul vibrantes e
intensos como o azul-cobalto; azul-royal e azul-ultramar. Este último, um azul
bastante profundo e intenso, tradicional na pintura. Por fim, Erick falou-me de
tons de azul acinzentados, aqueles que misturam o azul com cinza, ideais para
destaque. Como o azul Strauss, que é uma variação de azul clássico.
Assim
como meu amigo Erick Matias é capaz de diferenciar e conhecer essas diversas
tonalidades de azul, minha esposa Vera Lindoso, psicóloga clínica, reconhece as
diferentes “tonalidades” do comportamento de crianças autistas. De fato, há
“diversos tons de azul”, no autismo. Existe uma ampla diversidade de sinais,
sintomas e níveis de suporte, do leve ao mais intenso. Eles se manifestam de
forma única em cada indivíduo. Assim como são únicos o azul de Chartres, o Azul
de Portinari e o “Azul da cor do mar”, aquela música linda do Tim Maia.
domingo, 19 de abril de 2026
quinta-feira, 16 de abril de 2026
A poesia é necessária?
o não dito e o não visto
Rodrigo Tadeu Gonçalves
o não dito e o não visto
exploram os recantos
vastos
do intervalo
em que se entende o que não
se fala
pois falar é mais
do que se pede
então cala
ouve o silêncio
ele te leva pro infinito
terça-feira, 14 de abril de 2026
Como queres que te chame?
Pedro Lucas Lindoso
O Reino
Unido é uma monarquia constitucional. Há nobres por lá. Com diversos e variados
títulos. Quando se tornam amigos, é comum que perguntem: Devo chamá-la
informalmente de Princess Catherine ou somente Katy? Preciso chamá-lo de Lord
Robert ou Bob?
Aqui
não temos monarquia nem tampouco títulos nobiliárquicos. Mas, diferente dos
ingleses, que costumam perguntar, no dia a dia, qual o tratamento que a pessoa
deseja, não temos esse saudável hábito. O que pode gerar constrangimentos.
Há
pessoas que não gostam que adolescentes e jovens adultos fora de seu círculo
familiar lhes chamem de tio ou tia.
Há
amigos de infância de meus filhos, os quais conheci criança. Hoje são adultos e
têm filhos. E continuam me chamando de tio. Acho natural e respeitoso. Mas um
adulto, o qual já conheci barbudo, quase de minha idade, chamar-me de tio, me
parece deboche.
Um
Jovem adulto veio me perguntar como deveria chamar sua sogra. Tia ou pelo nome?
Eu lhe disse que vejo muitos jovens chamarem seus sogros de tio e tia. Eu
chamava meus sogros, quando vivos, de professor Araújo e dona Ruth. O jovem me
disse que a futura sogra era médica. Disse-lhe que podia chamá-la de doutora ou
dona fulana. Nunca somente pelo primeiro nome. Acho desrespeitoso. Mas, se
sentisse à vontade, poderia chama-la de tia. Médicas geralmente são vaidosas.
Magistradas também. Aconselho a chamar sua sogra por senhora.
Em
inglês, pai é “father-in-law”, ao pé da letra, pai por lei, e “mother-in-law”,
mãe por lei. Para nós soa estranho.
Muitos americanos chamam seus sogros de “mom” e “dad”. Mãe e pai. Ou
então Sr. e Sra. Smith. Usa-se o sobrenome.
Há
filhos que chamam seus pais de senhor e senhora. Outros de você ou tu. E até
pelo nome. Há muita gente que fica em dúvida
de como se dirigir a determinadas pessoas. Na Inglaterra, o problema é
prontamente resolvido. Pergunta-se logo como
que a pessoa deseja ser chamada.
No
francês há dois tratamentos básicos – vous e tu. Com regras culturais bem
definidas.
No
Brasil, especificamente no Rio Grande do Sul, usa-se muito o tu, nem sempre na
concordância correta. Os gaúchos usam senhor e senhora para quem merece
respeito. Perguntei a um gaúcho se usavam o você. Ele me disse que sim. Para
qualquer um. Então você pode ser desrespeitoso? Ele me disse que é possível.
Fui
professor muitos anos. Por ser advogado me chamam de doutor. Porém o tratamento
que mais me deixa feliz é exclusivo de quatro amadas garotinhas. Minhas netas
Maria Luísa, Maria Helena, Catarina e Isadora. Vovô Pedro soa como música suave
que toca no fundo do coração!
domingo, 12 de abril de 2026
quinta-feira, 9 de abril de 2026
A poesia é necessária?
Da metafísica
Paulo Henriques Britto
Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda –
o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles da vida.
terça-feira, 7 de abril de 2026
“Sitooterie”: no fundinho dos rios
Pedro Lucas Lindoso
O
professor Marco Neves é um estudioso da língua portuguesa, filologia,
curiosidades linguísticas e as particularidades do português. Sou seu seguidor na internet. Suas
intervenções ou aulas são de muito interesse para mim. Ele e eu gostamos das
palavras. As tratamos com amor, curiosidade e deleite. Marco e eu gostamos
tanto de palavras que as classificamos como bonitas e feias, engraçadas ou
monótonas, dentre outras características ou classificações que não se encontram
nas gramaticas tradicionais.
Marco
Neves pincelou algumas palavras em outros idiomas, sem uma equivalência precisa
em português. A Escócia e um dos países que fazem parte do Reino Unido. A
língua scots para muitos é um dialeto, pois se parece muito com o
Inglês. Foi no scots que o professor Marco Neves encontrou a palavra
SITOOTERIE. Significa um lugar feito ou escolhido por um casal para sentar, namorar,
conversar, estar juntos para aquela saborosa intimidade dos apaixonados.
Pode
ser uma praça, determinada parte de uma praia, um cantinho escondido numa
festa, uma sala com sofá e uma bela paisagem ou até no escurinho do cinema.
Realmente
não temos uma palavra que possa traduzir “sitooterie” ao pé da letra. Mas temos
uma expressão bem próxima: “ninho de amor”.
O nosso
caboclo ribeirinho constrói sua “sitooterie” numa rede, estendida no seu
tapiri, sob o frescor do luar da Amazônia.
Ou na beira de uma praia de rio. No chap-chap da canoa, numa clareira da
floresta.
Um
casal de colaboradores de certa base petrolífera localizada no seio da
floresta, resolveu construir sua “sitooterie” às escondidas. Distante uns 200
metros da base, já em plena selva. A clareira estava bem organizada e
acolhedora. Tinha até uma churrasqueira. A administração do polo descobriu a
audaciosa e perigosa “sitooterie”. O
casal foi punido. É muito perigoso. Há
onças e outros bichos selvagens na mata
Não só
na mata os animais buscam um lugar gostoso e adequado para namorar. Os
aquáticos também precisam de local apropriado para se reproduzir. Além dos
botos, outro mamífero aquático muito simpático é o peixe-boi. Eles normalmente
precisam que o rio esteja cheio. Um “sitooterie” adequado deve ser em local
mais fundo. É que eles precisam e gostam de se abraçar. Se for muito raso, não
conseguem. Como estão em extinção, os cientistas queriam reproduzi-los em
cativeiro. Mas não acontecia em piscinas rasas. Foram verificar in loco.
Notaram que eles conseguiam se abraçar no fundinho do lago ou do rio.
Tem
bicho que gosta do escurinho do cinema. Outros, como os manatis, preferem o
fundinho dos rios.
domingo, 5 de abril de 2026
quinta-feira, 2 de abril de 2026
A poesia é necessária?
Chiaroscuro
Marco Aurélio de Souza
Para André Cassias
Procurei dentro dos livros
Um poema para ti
Um que dissesse do chiaroscuro
De todo homem que nunca se cansa
De desfazer o nó de si mesmo
:não o encontrei:
Tuas sombras e luzes habitavam tão somente
O ventre viscoso de minha memória
Que gesta agora a carne indelével
Destes versos esquivos com os quais
Lutaremos longamente
Como dois esgrimistas que duelam
Num vazio notívago qualquer
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Thiago: o centenário do poeta
terça-feira, 31 de março de 2026
Beiradão: é só chegar
Pedro Lucas Lindoso
Estava
num restaurante em Brasília com amigos. Contava para eles que havia comparecido
a um casamento no interior do Amazonas. A noiva, chibata, cunhã-poranga de boi,
desceu do motor com seu pai, ao som de beiradão. Os amigos brasilienses pediram
a tradução. Na verdade, só haviam entendido que eu falava de uma certa noiva.
Ora,
chibata é um adjetivo pelo qual o caboclo amazonense define algo bonito, muito
bom, excelente e de alta qualidade. A noiva está chibata. Ou seja, linda e com um
vestido muito bacana. O motor, ou motor de linha, ou motor de popa. Ou somente
“motor” é embarcação na Amazônia que serve para transporte de passageiros,
carga e pesca. De uso profissional ou lazer.
E o beiradão?
Havia músicos entre os amigos. Conheciam o Teixeira de Manaus. Pois é, o
Teixeira de Manaus se destacou por sua linguagem autêntica no sax alto. Foi o
precursor do beiradão. Uma mistura de diversos ritmos, entre eles o carimbó,
merengue, lambada, cúmbia, forró, salsa, xote e outros ritmos latinos. O
maestro Cláudio Abrantes, num dia de Chorinho na calçada do IGHA-Instituto
Geográfico e Histórico do Amazonas, explicou que os anos de 1950 e 1960 foi um período
em que o rádio, principalmente a Rádio Nacional, era o principal veículo de
comunicação para os moradores do interior do Amazonas. A população e os músicos diletantes,
moradores das calhas dos rios, sofreram influência da música brasileira dessa
época, pelo rádio.
Ouviam
com dificuldade as transmissões da Rádio Nacional. Esforçando-se para
sintonizar nos chorinhos, sambas e modinhas brasileiras em geral.
A gente
do interior aprecia tocar instrumentos de sopro. Principalmente os metais.
Conhecidos pelo timbre brilhante, potente e majestoso.
O
Exército Brasileiro costumava descartar instrumentos velhos ou danificados,
doando aos ribeirinhos. Ganhavam trompetes, trompas, tubas e trombones. E,
claro, não podia faltar um saxofone. E assim formavam-se as primeiras bandas
que desenvolveriam um ritmo próprio, nosso – o beiradão.
Penso
que o Beiradão é um fenômeno cultural. Também não é uma cultura sazonal. São
muitos quilômetros de rios, com festas o ano inteiro, tocando essa música, que
é uma mescla cultural muito grande. Aliás, não são só as bandas, os saxes, é
também a culinária.
Eu
sempre digo aos amigos do sul, que eles falam muito da nossa floresta, dos
botos, da biodiversidade. Mas, na verdade, não nos conhecem. Meus amigos então
planejam vir conhecer o nosso interior. Querem curtir uma festa com muito
beiradão, peixe, farinha, tucumã e a alegria dos amazonenses ribeirinhos. É só chegar.
segunda-feira, 30 de março de 2026
Thiago de Mello: 100 anos em 1 minuto
domingo, 29 de março de 2026
sexta-feira, 27 de março de 2026
Tainá, crônica e poesia
quinta-feira, 26 de março de 2026
A poesia é necessária?
Eis o ofício
Marcelo Sandmann
do poeta)
fazer sua língua
língua estrangeira
eis o ofício) e
nessa língua
buscar seu exílio
(do poeta
mesmo o asilo
negado (eis
o ofício) o
visto indeferido
a língua
materna (do poeta
fazê-la madrasta
fazê-la pedestre
(eis o ofício
caminhar no
deserto sem
mapa ou (do
poeta) destino
viver em perigo
(eis o ofício
quarta-feira, 25 de março de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
Gonçalves Dias no Amazonas e o tempo de Dom João Charuto
Pedro Lucas Lindoso
Na
semana passada, escrevi sobre a enorme variedade de palmeiras que temos por
aqui. E ao falar de palmeiras mencionei Gonçalves Dias. Isso encantou uma jovem
leitora que me passou o seguinte e-mail:
“Caro
cronista. Li sua crônica ‘Surucucumira’, que trata sobre a diversidade de
palmeiras na Amazônia. Confesso que fiquei surpresa em saber que o poeta
romântico Gonçalves Dias havia visitado o Norte do Brasil. Pensei que fosse
ficção. Mas é verdade. Fui pesquisar e descobri nos Anais da Biblioteca
Nacional, vol. 84, 1964, p. 2, notícia de que Antônio Gonçalves Dias, em 12 de
outubro de 1857, fora designado, para a expedição, pelo IHGB, Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, na presidência do Marquês de Sapucaí.
Naturalmente,
o Governo Imperial de Pedro II aprovou. Assim, Gonçalves Dias foi convocado
para a Comissão Científica e Cultural exploradora no interior de algumas das
Províncias menos conhecidas do Brasil. Incluindo, a região do Rio Negro, já
então elevada à categoria de Província do Amazonas.
Há
informação de que o poeta se encontrava na Alemanha e ficara feliz com a
designação.”
Interessante
é que o e-mail, de certa forma anônimo, pertence a “curiouslibrarian” e o
provedor é americano.
De fato
a “curiosa bibliotecária” tem razão. O saudoso Márcio Souza, último ocupante da
cadeira 25 da Academia Amazonense de Letras, a ser ocupada, com muita honra e
alegria, por esse cronista, no próximo mês da abril, já nos dizia em 1977, no
livro A Expressão Amazonense, que a
expedição financiada por Pedro II retrata a visão imperial de nossa região,
naquela época. A Amazônia era um local a ser civilizado. Márcio Souza destaca o
choque cultural de Gonçalves Dias diante da realidade amazônica. Evidenciando o
abismo entre o Brasil do litoral e o Brasil do interior. E, claro, da nossa
vasta região amazônica.
Há notícias
de que a visita do poeta a Manaus, entre maio e junho de 1861, foi um período
crucial e complicado do festejado poeta do Romantismo brasileiro, em termos de
produção literária.
Márcio
Souza ressalta a importância dos diários de Gonçalves Dias. Na minha opinião
devem merecer mais atenção e mais pesquisas por parte de historiadores e
cientistas sociais em geral.
Fui
conversar com tia Idalina sobre isso. Ela me disse que tudo são coisas do tempo
de Dom João Charuto.
Discordo,
titia. A visita do poeta é bem posterior. Os charutos Dom João vinham em caixas
com a foto de Dom Joao VI. O que trouxe a família real para o Brasil, em 1808.
Era avô de Pedro II. Nascido em 1825, Pedro II teria feito 200 anos em dezembro
do ano passado. Tia Idalina tem razão. Tratamos de coisas e pessoas do tempo de
Dom João Charuto. Que muito fez pelo Brasil quando reinou aqui. Mas ao retornar
para Portugal queria nos fazer colônia novamente. Esse Dom João VI bem que
merece ser chamado de Dom João Charuto. Governou o Brasil antes de nossa
Independência!
domingo, 22 de março de 2026
sexta-feira, 20 de março de 2026
quinta-feira, 19 de março de 2026
A poesia é necessária?
Palmares
Henrique Marques Samyn
Os olhos brancos, quando contemplam,
não conseguem ocultar o pasmo:
parece, sim, uma pequena África –
embora ali não haja apenas pretos:
compartilhamos nossa liberdade.
Os olhos brancos, trêmulos, estáticos,
fraquejam, mas não podem desviar-se:
é bela, sim, esta pequena África,
nascida sob o nome de Palmares,
que se oferece como um espetáculo.
Não viram, os olhos brancos, a grandeza
desta nação que erguemos, soberana,
na qual pudemos ser livres, um dia;
somente viram sua própria inveja:
pelo ódio cegos, deram-se à vingança –
mais fortes o rancor e a covardia.
quarta-feira, 18 de março de 2026
Caminhando com os mortos
Márcia Antonelli
Terminei
por estes dias a leitura do livro Os que andam com os mortos, do poeta,
escritor, ensaísta e também dramaturgo Zemaria Pinto. Fiz desta obra meu
companheiro de caminhadas. É que todo mês elejo um livro para caminhar comigo.
“Os que andam com os mortos” foi o eleito deste mês e caminhar com ele foi de
um agradável deleite.
“Os que andam com os mortos” é o primeiro livro de contos publicado pelo autor de Folia no Seringal: ensaios sobre a literatura do Amazonas, embora o mesmo já tenha experienciado o gênero prosa antes, com os títulos Lábios que beijei, Drops de pimenta e Bolero’s Bar, todos reunidos em forma de minicontos, microcontos e nanocontos, editados em seu blog chamado “Palavra do Fingidor” e que vale a pena conferir.
Os
que andam com os mortos é hilário. Sarcástico. Provocador. Zé nos conduz pelos meandros de uma
narrativa que vai do conto convencional ao absurdo; do fantástico às fábulas,
recortes de teatro a roteiros de cinema; escritos viventes e memoriais, somado
a uma dosezinha de erotismo, que também não podia faltar. Os contos reunidos
aqui neste seu livro são seduzentes e nos prendem da primeira à última página
de cada conto. São narrativas bem construídas e alinhadas, difícil até de
escolher as melhores histórias, pois todas são muito bem tecidas e bem
contadas. Algumas delas nos arrancando sonoras gargalhadas de tão lúdicas e
desconcertantes que são. Zé é um estrategista tático. Nato. Escreve muito à
vontade e nos deixa muito à vontade. Os que andam com mortos é um livro
gostoso de ler. Ele é intrigante. Engraçado. Debochado, pois que o autor
descreve em alguns momentos situações bem peculiares do dia a dia, sem cair no
trivialismo da linguagem ou no banalismo imagético. Zé aborda com maestria
situações usuais e incomuns do dia a dia, de maneira excêntrica e bem-humorada,
garantindo ao leitor uma prazerosa e singular leitura em graus diversos de
loucura, causticidade, suicídios, desamor, através de seus alinhavados e
alindados contos. Um caminhar interessante com os mortos.
Recomendo.
Nota: Márcia Antonelli é uma transcritora ficcionista,
com dezenas de livros publicados, que ela vende de mão em mão.
Obras adaptadas para o cinema:
O desentupidor de fossas; Zico, o Jabuti; e Das ruas à sobrevivência.
terça-feira, 17 de março de 2026
A surucucumira
Pedro Lucas Lindoso
Gonçalves
Dias, ao poetar “Minha terra tem palmeiras”, sabia das coisas. Mesmo porque
esteve nos visitando, em nome de Pedro II, de maio a junho de 1861. Estudou
línguas indígenas. Conheceu nossa flora e fauna. Subiu o Rio Negro até São
Gabriel da Cachoeira. Veio para nos conhecer e incentivar a educação formal do
povo do norte do Brasil.
Segundo
Kadu Lazarini, pesquisador da EMBRAPA, a Amazônia abriga cerca de 200 espécies
de palmeiras. De fato, nossa terra tem muitas, como deve ter observado
Gonçalves Dias, ainda no século 19. São fundamentais para a bioeconomia e
subsistência dos nossos caboclos valorosos.
Algumas
são ícones representativos de nossa cultura, como o açaí, buriti, pupunha,
tucumã e patauá. Além dos frutos, nos dão palmito, fibras e óleos. O açaí é
nativo das várzeas. Fruto famoso no mundo inteiro. Tem palmito e dele se faz um
vinho bem gostoso.
O
buriti cresce nas veredas. Nos fornece óleo, artesanato e fibra. Rico em
vitamina A. A gostosa pupunha é muito usada para palmito. E, claro, para comer
com um café, pela manhã, ou merenda da tarde. O tucumã é matéria-prima do nosso
xis-caboquinho. Também delicioso com café. O babaçu tem muito potencial. Produz
excelente óleo e é usado em artesanato.
Temos
ainda a jarina, conhecida como “palmeira marfim”, muito usada para biojóias e
artesanato. Quase esquecia a bacaba. Usa-se muito para fazer vinho. Essas
palmeiras são pilares na economia das comunidades ribeirinhas. E nelas não só
cantam os sabiás, mas também o uirapuru, o coró-coró, o japiim, araras e
tucanos, e tantos outros.
E a
surucucumira? Até Gonçalves Dias sabia que as palmeiras não são árvores. Elas
não crescem em espessura com anéis, como as árvores. Palmeiras crescem em
altura, sendo, na verdade, “ervas gigantes”, com um caule fibroso e sem
crescimento secundário de diâmetro.
A
surucucumira é árvore. Também não é cobra. Algumas morrem depois da primeira
frutificação. Coisa da natureza.
domingo, 15 de março de 2026
sexta-feira, 13 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
A poesia é necessária?
Floresta
Fernando Paixão
Do minério mais vasto
ao quebrar
de uma asa de inseto:
música sem faca.
A terra inquieta
abate a tiro
o silêncio em volta.
Não sobra o mínimo
vapor de quietude
ao ouvido.
As coisas (sempre as coisas)
entregam-se
sem pausa
à ponta dos barulhos.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Centenário de Thiago de Mello
terça-feira, 10 de março de 2026
Filho de paxiúba
Pedro Lucas Lindoso
Minha
querida tia Idalina abomina palavrões. Acha “de última”, como ela mesma diz.
Quando se sente muito ofendida, o máximo que se atreve a dizer é que fulano é
“filho de chocadeira”. Ora, essa expressão se refere, originalmente, às aves
nascidas em incubadoras artificiais. Geralmente, usa-se a expressão para
descrever pessoas consideradas frias, distantes ou sem afetividade. Mas,
conhecendo bem Idalina, quando chama alguém de filho de chocadeira podemos
subentender que ela quis mesmo chamar a pessoa de “filho da boa senhora”, como
diria minha mãe.
Falando
nisso, eu ia num taxi quando alguém “fechou” o taxista. O rapaz xingou a pessoa
de filho de paxiúba. Disse-me que era do interior. Explicou-me que a paxiúba é
conhecida como “palmeira-andante”. A tal palmeira move-se muito lentamente ao
longo dos anos. Suas raízes aéreas crescem em direção à luz, enquanto raízes
antigas apodrecem, criando um deslocamento gradual de até 2 metros por ano. A
palmeira, portanto, move-se para encontrar melhores nutrientes e luz solar.
O
taxista me disse ainda que seus frutos alimentam animais como macacos e
tucanos, e suas raízes servem de abrigo para pequenos roedores. A tal paxiúba,
ou a popular “palmeira-andante”, pareceu-me árvore simpática e cativante. Achei
tremendamente injusto chamar alguém de filho de paxiúba como xingamento.
Existem
muitas expressões que capturam o tom insultante próximo de “filho de paxiúba”,
variando conforme região, contexto e intensidade. Novas expressões aparecem e outras caem em
desuso com o tempo.
Há
palavrões bem diretos e agressivos. Como, por exemplo, filho da mãe, com
variações regionais. Seu filho da p…, com variações de grafia para evitar
palavrão explícito. Existem similares em todas as línguas ocidentais. Pobres
mães. Se o filho merece elogios, ah! Saiu ao pai! Existem, ainda bem, os que
poupam as devotadas mamães. São palavrões bem fortes como maldito(a), canalha,
desgraçado(a), lixo, estorvo. A lista é grande. Entretanto achei a árvore
paxiúba bem interessante e deu vontade de conhecer a famosa palmeira
caminhante. Pensando bem, acho que ficarei muito ofendido se me chamarem de
filho de paxiúba. Soa mal, né?







