Reflexo condicionado
Cacaso (1944-1987)
pense rápido:
Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?
ensaios, contos & outras prosas
Reflexo condicionado
Cacaso (1944-1987)
pense rápido:
Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?
Tainá Vieira
Passei na seleção de
mestrado com um projeto em que eu propunha estudar a violência simbólica no
romance A vida invisível de
Eurídice Gusmão, de Marta Batalha. Por questões relacionadas à
orientação, tive de mudar o foco para o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O tema
da minha pesquisa é gênero, memória e agência feminina; nesse sentido, meu
recorte são as personagens femininas, obviamente.
Pois bem. Acontece
que as pessoas vivem me perguntando: o que é agência? O curioso é que, até
pouco tempo atrás, eu também não sabia responder. Mais curioso ainda é perceber
que todas nós, mulheres, sabemos o que é agência. Aliás, todo mundo sabe, mas
nem sempre conhece esse nome.
Mas o que é agência, afinal?
Sem recorrer aos fundamentos teóricos,
apenas a partir da forma como a compreendi, agência é a capacidade que um
sujeito desenvolve e mobiliza para sair de uma condição de opressão,
subalternização ou marginalização. É a possibilidade de agir sobre a própria
realidade, mesmo quando as circunstâncias parecem determinadas por forças
maiores.
Na minha pesquisa, por exemplo, analiso
as estratégias que as personagens utilizam para conquistar direitos básicos
para uma vida digna: o direito à terra, à moradia, à educação, entre tantos
outros. Mas não é somente isso. A obra suscita temas que nos tocam e nos
atravessam de tal maneira que nos deixam profundamente comovidos ou igualmente
revoltados. Entre as intersecções de gênero, racial e condição socioeconômica,
as personagens exercem, de forma implícita ou explícita, essa capacidade de
transformar a própria existência. Elas lutam para romper o ciclo de servidão em
que nasceram, para que seus filhos e, consequentemente, seus netos não sejam
condenados à mesma vida que marcou seus antepassados.
Dito isso, quero trazer esse
conhecimento adquirido pela pesquisa para minha vida como escritora. Como saber
se estou caminhando amparada pela agência ou simplesmente metendo os pés pelas
mãos?
Desde muito cedo, nós, mulheres filhas
de ribeirinhos, como é o meu caso, aprendemos a lei da sobrevivência. Nossas
mães não nos ensinam por meio de explicações detalhadas ou manuais de
instrução. Elas ensinam vivendo. Ensinam na lida diária, no trabalho árduo, nos
gestos repetidos que sustentam uma casa e uma família. Cabe a nós observar
atentamente cada movimento, cada escolha, cada silêncio. Mais tarde, quando
crescemos e assumimos nossas próprias casas, reproduzimos aquilo que
aprendemos. É um ciclo. É a roda girando. É o conhecimento da terra criando
raízes cada vez mais profundas.
E ainda me perguntarão: o que isso tem a
ver com ser escritora?
Tudo, direi.
Minha escrita nasce exatamente daí: da
lida cotidiana, das imagens que atravessam os dias enquanto a panela está no
fogo, enquanto respondo mensagens no grupo de mães da escola ou tento
destrinchar alguma teoria para um artigo. Ela nasce também nos momentos mais
difíceis, quando surge aquela vontade de desaparecer do mundo. Sim, eu já quis
morrer muitas vezes. Mas, quando sinto que estou quase indo, lembro que ainda
faltam coisas para resolver. Muitas coisas, aliás. Por isso, minha escrita me
custa muito.
Não porque me fira ou me machuque, mas
porque necessito dela e ela necessita de mim. Muitas vezes nossos tempos não
coincidem. Quando ela sopra sua chama sobre mim e eu não estou pronta para
recebê-la, ela espera. Compreende minhas ausências. Por isso não acredito em
inspiração. Acredito em encontro. E quando finalmente me vejo capaz de acolher
aquilo que ela me oferece, ela se entrega inteira. E me salva.
Nem todos os dias sou escritora. Nem
todos os dias quero ser. E isso não acontece por relapso ou irresponsabilidade.
Acontece porque, muitas vezes, estou tão cansada que não me obrigo a carregar
mais esse peso. Um peso bom, é verdade, mas ainda assim um peso. Talvez por
isso a escrita me seja tão cara.
Então, quando alguém me pergunta quem
sou eu, com meus poemas pingando sangue e cheirando a cachimbo de avó, querendo
dar pinta de escritora, não me sinto ofendida nem machucada. Ao contrário.
Sinto-me desafiada. É um chamado para o combate. E eu não me calo. Porque toda
vez que uma mulher silencia, apaga-se um pouco da memória das mulheres que
vieram antes. Apaga-se um pouco dos ensinamentos da mãe, da avó, das ancestrais
que sobreviveram para que ela pudesse existir. Quando isso acontece, ela deixa
de ocupar o lugar de sujeito agente de sua própria história.
E, ao silenciar por causa de alguém, ou
renunciar à própria voz, decreta não apenas uma falência intelectual, mas uma
rendição antecipada. Declara-se vencida antes mesmo de conhecer o calor da
luta, o fervor da resistência e a potência transformadora de permanecer de pé.
Não romantizo o combate, mas também não enxergo esse muro todo me separando do
inimigo, ao contrário, essa fronteira para mim é tão frágil que se eu assoprar
bem forte ela evapora.
Talvez seja justamente isso a agência.
Não um conceito acadêmico encerrado em livros e teorias, mas a decisão
cotidiana de continuar existindo, falando, escrevendo, lutando e desafiando.
Mesmo quando o mundo insiste em nos ensinar o contrário. E ainda bem que temos
os romances e suas protagonistas, porque elas nos lembram que nenhuma forma de
silêncio é definitiva. Em algum momento da vida, fui Eurídice Gusmão, hoje,
porém, reconheço-me em Belonísia: a mulher que teve a língua decepada, mas que,
ao lado da irmã, inventou uma nova linguagem para continuar existindo.
Porque foi isso que fizeram as mulheres
que vieram antes de nós e aquelas que insistimos em ser: quando lhes tiram a
voz, elas transformam o silêncio em outra forma de fala. E enquanto houver uma
mulher escrevendo, lembrando e recusando a rendição, a subordinação, nenhuma de
nós estará verdadeiramente calada.
Pedro Lucas Lindoso
O Bloomsday tornou-se uma tradição em
várias partes do mundo. Além da Irlanda, claro.
Existe em razão do clássico livro de James Joyce – Ulysses. O Bloomsday
interessa principalmente àqueles que gostam das Letras, Literatura em geral. O halloween, outra manifestação cultural
estrangeira, está sendo comemorado efusivamente no mês de outubro, no Brasil e
outros países.
As
tradições culturais que nos influenciam chegam de modos diversos. Algumas por
livros infantis. Outras por livros que se tornaram clássicos da Literatura
mundial. Como o Ulysses, obra-prima
de James Joyce.
O
Brasil, que nunca foi feito de uma só cor, de uma só língua, de uma só memória,
costuma receber tudo com curiosidade. Às vezes, com encanto. Às vezes com
exagero.
O Bloomsday, por exemplo, é uma dessas
tradições estrangeiras que chegam com certo charme discreto. Vem da Irlanda, de
James Joyce, de Leopold Bloom caminhando por Dublin em 16 de junho,
transformando um dia comum em literatura. Celebrar o Bloomsday é, de algum modo, celebrar a leitura, a cidade, o
passeio, a conversa de bar, o pensamento que se perde e se encontra. É uma
festa menos barulhenta, talvez por isso mais interessante. Não exige fantasia
comprada, não pede susto, não se impõe nas vitrines. Convida. Quem quiser
entra. E Manaus já entrou na onda. Sob a batuta do poeta, escritor e editor
Nelson Castro.
Já o halloween parece ter vindo mais
fantasiado de mercado do que de tradição. Abóboras iluminadas, bruxas de loja e
monstros em promoção. O problema é quando a importação vem com apagamento.
Somos um país multicultural, contudo, multiculturalidade não é empilhar
costumes estrangeiros. Não é apagar as
marcas dos povos originários que foram violentados e silenciados.
Se
temos espaço para Leopold Bloom caminhar por nossas ruas, pelo que eu,
pessoalmente, sou fascinado, também precisamos abrir passagem para os
encantados, os orixás, os caboclos, os mestres de tradição oral, os cantos
indígenas, os tambores negros, as festas de terreiro, os maracatus, os
congados, os bois, os carimbós, as ladainhas, os mitos, o Gambá, recentemente
reconhecido pelo Estado do Amazonas, por meio do COPHAM, Conselho do Patrimônio
Histórico e Artístico do Amazonas, como bem imaterial.
Tradições
que não vieram de fora porque já estavam aqui. O Gambá, espécie de tambor, é
presente em Maués e na calha do rio Madeira.
Talvez
o problema não esteja em celebrar o que vem de longe. O problema está em
esquecer o que mora perto. Uma cidade que lê Joyce pode muito bem celebrar
Jorge Amado, Machado de Assis, Carolina de Jesus e Cora Coralina, dentre vários
outros.
O
estrangeiro não precisa ser inimigo. O Bloomsday
pode nos lembrar que a literatura é capaz de transformar um dia qualquer em
celebração. Porque, no fundo, uma cultura viva é riqueza imaterial a ser
preservada. Pode passar um irlandês de chapéu, pode passar uma criança
fantasiada de fantasma, pode passar um tambor de Gambá chamando o povo, pode
passar um cortejo negro, pode passar uma liderança indígena lembrando que a
terra tem memória.
Que
venham, então, as tradições estrangeiras que nos ampliem, como o simpático Bloomsday. Mas que fiquem de pé, no centro da roda, as
tradições que nos fundaram.
Quanto
ao Bloomsday em Manaus, será
comemorado neste 16 de junho, sob a batuta de Nelson Castro. Mas é preciso ler pelo
menos alguns trechos de Ulysses, de
James Joyce. O que não é coisa fácil.
Manaus/Boa
Vista, 12 de junho de 2026 – O curta-metragem “Garrote”, dirigido por Bruno
Pantoja, foi premiado com o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes
Amazônicos 2026. A cerimônia de premiação aconteceu na noite desta sexta-feira
(12/06), no Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) da Universidade Federal de Roraima
(UFRR), em Boa Vista, marcando o encerramento da primeira edição do festival.
O
Festcine Saberes Amazônicos é o primeiro festival de cinema regional e temático
de Roraima e representa a consolidação de um projeto com foco na produção da
Região Amazônica e de Roraima.
A
Mostra Oficial Saberes Amazônicos reuniu produções de ficção de diferentes
estados da Amazônia Legal. “Garrote” competiu ao lado de “Boiúna” (PA) e “No
limite do lavrado” (RR) , consolidando a proposta do festival de promover o
intercâmbio cultural e a valorização do audiovisual autoral e independente da
região.
Sobre o curta “Garrote”
Com 25
minutos de duração, o filme se passa em Manaus, em 2021, durante o colapso da
crise do oxigênio na pandemia de Covid-19. A trama acompanha João, um músico
negacionista, e Maria, uma engenheira pragmática, que enfrentam o desgaste de
uma convivência forçada durante o lockdown. A história é inspirada livremente
no texto teatral “Cenas da vida banal”, de Zemaria Pinto, que também assina o
roteiro.
“É uma
história sobre reclusão e revelação. João e Maria representam muitas pessoas,
cada um com suas falhas e qualidades, vivenciando uma tragédia particular em
meio a uma tragédia coletiva”, explica Bruno Pantoja.
O
elenco é composto por Amanda Magaiver e Begê Muniz, e a produção executiva é
assinada por Maíra Dessana. O filme aborda temas como negacionismo,
masculinidade tóxica, saúde mental e relacionamentos abusivos, tendo sido
contemplado pela Lei Paulo Gustavo (2023) Governo Federal e Secretaria de
Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
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Serviço
· Evento: Festcine Saberes Amazônicos
2026
· Datas: 11 e 12 de junho de 2026
· Local: Centro Amazônico de
Fronteiras (CAF) – UFRR, Boa Vista (RR)
· Filme premiado: “Garrote”
(curta-metragem)
· Premiação: 3º lugar – Mostra
Oficial Saberes Amazônicos
· Direção: Bruno Pantoja
· Elenco principal: Amanda Magaiver,
Begê Muniz
Informações para a imprensa:
Bacaba Produções
e-mail: bacabaproducoes@gmail.com
Redes sociais: @ciadeartesbacaba
Do velho e do jovem
Conceição Evaristo
Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se ao novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
um ponto final na história
Infinitas são as personagens:
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendô, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
e mais e mais, outras e outros…
Nos olhos do jovem
também o brilho de muitas histórias.
e não há quem ponha
um ponto final no rap
é preciso eternizar as palavras
da liberdade ainda e agora…
Pedro Lucas Lindoso
O 10 de
junho representa muito mais do que uma simples data nacional, em Portugal. É
uma ocasião para reforçar a identidade cultural, relembrar a história e exaltar
a importância da língua portuguesa no mundo. Língua esta que faz Portugal,
Camões, Brasil e Amazonas caminharem juntos.
Mesmo porque no dia em que Portugal respira as letras de Camões, o
Brasil e o Amazonas parecem também respirar português. Não por imposição, mas
por afeto antigo. Afeto que atravessa o Atlântico e chega aos rios amazônicos
trazidos pelos ventos, sorrisos e livros.
Portanto,
queremos que o 10 de junho seja uma ponte entre Lisboa e Manaus, entre o
açafrão das ruas de Alfama e o cheiro de tempero dos peixes amazônicos. O
português é um idioma que não conhece fronteiras, apenas laços. Camões, ao
escrever os sonetos que dançam na memória dos portugueses, brasileiros e
amazonenses, deixou gravado que a beleza do português está na sua capacidade de
caber na boca de qualquer um que o pronuncie com cuidado. E é exatamente isso
que sentimos quando atravessamos o Atlântico e chegamos à Amazônia com o mesmo
poema nos lábios. A língua é barco, é
casa, é encontro, não só das águas, mas de gente, de cultura. De miscigenação,
de superação, de amizade e interação.
No
Amazonas, onde o chão é uma memória de floresta e o céu abriga mil histórias,
lendas e mistérios, o português não é apenas idioma da burocracia, dos jornais
ou de sala de aula. É a voz que descreve o vento que embala as palafitas. É o
canto que acompanha o trabalho dos ribeirinhos, descrevendo a sua lida. Assim
como as frutas e seres das matas, os bichos e lendas. É ainda o riso do caboclo
que surge quando a chuva decide dançar nos rios. E quando o vento faz banzeiro assustando os
canoeiros. A língua portuguesa, nesse cenário, não se limita a ser uma norma.
Ela se faz ponte entre comunidades ribeirinhas e as cidades amazônicas que
celebram a diversidade com a mesma fé com que celebram o nascer do sol sobre o
Rio Negro. Enquanto os portugueses apreciam navios que descem o Tejo em direção
ao Brasil e ao mundo.
Ao
celebrarmos Camões celebramos a coragem de quem escreve a história sem medo de
ser poético. Camões, que mergulha nas águas da vida para extrair a essência da
condição humana, seria, hoje, feliz em ver que a paixão pela língua continua a
ensinar o valor da clareza, da musicalidade, da dignidade de cada palavra. E o
Amazonas, com suas pequenas comunidades do interior e das cidades que sentem o
calor do dia e o frescor da noite, se reconhecem nesse maravilhoso, poético e
perfeito idioma. Reconhecendo, ainda, que somos filhos de uma língua que nos
convoca a sonhar grande, mesmo quando o mundo parece caber dentro de um tapiri,
de uma casinha ou mesmo de um pequeno apartamento de um conjunto habitacional
em Manaus ou Belém.
Vamos
fazer esse 10 de junho transformar-se em celebração dupla. A de Portugal e de
Camões, que nos lembram que a palavra pode ser herança. E a nossa aqui da
Amazónia onde a lusofonia não é apenas herança linguística. Mas uma experiência de valores próprios e
únicos.
Navegar
pelos nossos rios e florestas. Sempre lembrando que cada voz tem o direito de
ser ouvida, de cada rio ter uma história, que matas e lendas podem nos chamar
para ouvir. Que a data sirva, então, para reforçar a identidade cultural que
nos une. E para exaltar a beleza da língua portuguesa, que não é apenas norma
gramatical, mas casa de encontros. Além de encontro das águas, encontros de
maneira, de ouvido, de coração.
Que,
neste 10 de junho, a gente possa ver Camões como uma estrela, para muitos
amazônidas ainda desconhecida. Mas que aponta para o caminho de quem ousa falar
com o mundo, com o Brasil, com o Amazonas, com a memória de todos nós que
falamos o mesmo idioma e sonhamos juntos, com o português que não é apenas
língua. Mas é abraço que atravessa mares, rios, florestas e várzeas.
Janela tridimensional
Leila Míccolis
Quem é vivo sempre aparece;
mas dependendo do morto
ocorre o mesmo processo:
os poetas que eu mais amo
entram sempre em minha casa
pela porta dos seus versos.
Pedro Lucas Lindoso
Havia
um bar em Ceilândia, no Distrito Federal, cujos donos eram um simpático casal
de portugueses. Arminda e Manuel serviam o melhor bolinho de bacalhau de
Brasília. E eram cuidadosos para que a cerveja e os refrigerantes estivessem
sempre estupidamente gelados.
Manuel
faleceu aos cinquenta anos de infarto. Arminda, com as duas filhas jovens
universitárias, decidiu continuar o negócio.
O bar
com o impactante nome de Estoril, abria para refeições rápidas no almoço. Pela
noite, Manuel entrava em cena. A clientela vinha ávida pelo bolinho de
bacalhau. Fabricados por Arminda e filhas. Eram congelados e devidamente
acondicionados. Cabia ao Manuel e um assistente fritá-los e vendê-los, com
aquela cervejinha, noite adentro, ao som de fados e outros ritmos portugueses.
Com a
morte do marido e tendo que assumir o período noturno, Arminda impôs algumas
regras que acabaram por causar o afastamento de muitos fregueses e a
consequente falência do negócio.
Arminda
colocou um inusitado cartaz com os seguintes dizeres. “Proibido algazarras e
palavras de baixo calão” Instada a explicar o que eram palavras de baixo calão,
Arminda não deixava por menos. Dotada de conhecida verborragia, começa com
extensas explicações.
Palavras
de baixo calão são termos ou expressões consideradas indecentes, grosseiras,
insultuosas ou ofensivas. Essas palavras geralmente têm conteúdo sexual
explícito. E ainda podem conter ameaças, ofensas diretas ou linguagem vulgar. E
não quero, não aceito e não preciso de brigas e discussões aqui no meu
estabelecimento. Trata-se de uma casa portuguesa, com certeza. Exijo respeito.
Sou viúva e tenho duas filhas moças. Ora pois, pois.
Arminda
poderia simplesmente explicar que o termo “calão” significa linguagem
indecente, insultante ou vulgar. Quando eu era menino usava-se a expressão
“nome feio”. Hoje se diz simplesmente “palavrão”.
O fato
é que o cartaz, as cansativas explicações e as regras de Arminda constrangiam e
acabaram por afugentar a clientela. E o Estoril fechou as portas. A única coisa
que ficou foi a receita do bolinho de bacalhau. Após muita insistência, uma das
filhas do casal repassou-a aos colegas do Curso de Letras da UnB. Eis a
receita:
Ingredientes:
1 xícara (chá) de salsinha. 1 xícara (chá) de cebolinha. 800 g de bacalhau. 1
kg de batata cozida.1 colher (café) de pimenta-do-reino. 1 colher (café) de
sal. 5 ovos. Preparo: 1. Esprema as batatas. 2. Misture o sal nas batatas
quando ainda estiverem quentes. 3. Acrescente o bacalhau, a salsa, a cebolinha
e a pimenta. 4. Misture bem. 5. Adicione as gemas. 6. Misture novamente. 7. Bata
as claras em neve. 8. Misture bem. 9. Modele os bolinhos. 10. Deixe descansar
na geladeira por, pelo menos, 30 minutos. 11. Frite.
Amar em aparelhos
Alex Polari
Era uma coisa louca
trepar naquele quarto
com a cama suspensa
por quatro latas
com o fino lençol
todo ele impresso
pelo valor de teu corpo
e a tinta do mimeógrafo.
Era uma loucura
se despedir da coberta
ainda escuro
fazer o café
e a descoberta
de te amar
apesar dos pernilongos
e a consciência
de que a mentira
tem pernas curtas.
Não era fácil
fazer o amor
entre tantas metralhadoras
panfletos, bombas
apreensões fatais
e os cinzeiros abarrotados
eternamente com o teu Continental,
preferência nacional.
Era tão irracional
gemer de prazer
nas vésperas de nossos crimes
contra a segurança nacional
era duro rimar orgasmo
com guerrilha
e esperar um tiro
na próxima esquina.
Era difícil
jurar amor eterno
estando com a cabeça
a prêmio
pois a vida podia terminar
antes do amor.
Pedro Lucas Lindoso
A
professora Joyce Tino, que nos presenteia semanalmente com sua coluna “Português
em gotas”, no Jornal do Comércio, contribui de modo simpático e inteligente,
para aprendermos nosso idioma.
Todo
mundo tem dúvida, inclusive você, eu e até o mais conceituado professor de
Língua Portuguesa. Em sua prestigiada coluna, Joyce Tino nos ajuda a esclarecer
muitas facetas da nossa língua que, toda hora, aparecem na nossa vida e povoam
o imaginário coletivo.
Todos
devemos fazer o melhor possível para escrever certo, acentuar certo, pronunciar
certo. É importante também flexionar e pontuar corretamente.
Aprender português não é uma tarefa fácil. Mas
não precisa ser enfadonho. Deve ser um convite diário para usar as palavras com
leveza. Celebrar as nuances da nossa língua e rir de si mesmo quando erramos.
Porque errar faz parte do aprendizado. E pode até ser engraçado.
Joyce
Tino, com suas dicas e comentários, não apenas corrige ou ensina grafias
corretas. Ela sabe que a escolha de uma
palavra pode mudar o tom de uma frase e, quem sabe, de uma ideia inteira. E,
diante de tantas dúvidas, a ideia é simples.
Escrever certo, pensar bem. E descobrir o prazer de acertar as pontas de
nossa competência em Língua Portuguesa.
Na coluna
“Português em Gotas”, geralmente publicada às quintas no JC, o leitor é guiado
e apresentado a uma comunicação mais precisa, gentil e próxima.
Fortes
aplausos para Joyce e para todos os leitores que, diariamente, se preocupam em
usar a Língua Portuguesa, de maneira consciente. Como um ato de cuidado com o
pensamento, com a comunicação e com o humor.
Que
possamos seguir aprendendo com curiosidade, praticando com paciência e mantendo
o humor afiado. Se tropeçarmos, que seja para sorrir, corrigir e seguir
adiante, celebrando a língua portuguesa como um mundo vasto e belo. E cheio de
possibilidades.
Parabéns,
mais uma vez, para nossa simpática e inteligente colunista. E também aos leitores que escolhem
aprimorar-se, estudar, compreender e porque não dizer, amar a nossa língua.
Que
venham mais textos, dúvidas e descobertas. Aprender é sempre um passo em
frente. E “fica a dica”, como diria Joyce.
Ainda me viro
Alice Ruiz
ainda me viro
e me vejo
pronta a te chamar
a te contar
que aprendi hoje
coisas que você soube
ainda te vejo
em cada bicho
em cada pensamento
me surpreendo olhando
com teus olhos de pesquisa
e o que vejo
vira beleza
ainda te sinto
em tudo que permanece
como se tua pressa
de vida que se extingue
ficasse um pouco em tudo
ainda
Pedro
Lucas Lindoso
A "peça dentro da peça" em Hamlet é um recurso
metateatral pelo qual Hamlet instrui atores a encenar o assassinato de seu pai
para testar a culpa do Rei Cláudio. Este mecanismo, brilhantemente criado por
Shakespeare, visa forçar Cláudio a revelar sua consciência culpada. Hamlet busca confirmar a veracidade das informações do fantasma de
seu pai, usando o teatro como uma "armadilha" para desmascarar o tio,
Cláudio. E dá certo. Cláudio interrompe a peça e deixa o local furioso.
É um recurso metateatral. Uma peça
dentro da peça. Relendo Hamlet, obra prima de Shakespeare, resolvi aproveitar
esse recurso de metalinguagem e fazer uma crônica dentro da crônica. Ou seja,
uma metacrônica, se é que isso existe. Pedi a IA para fazer uma pequena crónica,
explicando o que é a inteligência artificial. Eis a minicrónica que a tal IA
nos fez. Tem título e tudo. Ipsis litteris:
Inteligência artificial: uma crônica
em miniatura
Nem tão “fosforescente” quanto
parece, nem tão misteriosa quanto os deuses do Olimpo. A IA é, simplificando,
um conjunto de códigos que aprendeu a pensar com a ajuda de muitos exemplos.
Imagine uma biblioteca que não só
guarda livros, mas também conversa com eles. A cada pergunta, ela escolhe o
capítulo que mais se parece com o que você precisa ouvir, como quem escolhe a
cereja certa do singelo sorvete.
Ela não sente, não ri de verdade,
não chora quando corta a unha do dedão do pé. E mesmo assim, sabe tanto de
fome, de música, de planetas distantes quanto qualquer andarilho curioso.
O truque está no treino: milhões de
frases, fotos, músicas misturadas, até receitas de bolo, tudo para que a
máquina reconheça padrões. Depois disso, ela tenta construir algo novo a partir
dessas referências, como quem remixa uma música antiga sem apagar a sua alma.
Quando você pergunta sobre o tempo,
a IA não lê o relógio; ela observa padrões: nuvens, ventos, estações. E
responde com probabilidades, não com certezas absolutas. Como quem diz:
“provavelmente choverá, leve um guarda-chuva, talvez”.
Às vezes faz piadas ruins ou falha
com uma resposta boba. Afinal, aprender é errar para acertar, repetidas vezes,
até que a linha entre história humana e máquina se estreite o suficiente para
parecer conversa entre velhos amigos.
No final das contas, a inteligência
artificial é uma ferramenta: poderosa para calcular tarefas repetitivas,
criativa quando aprende com dados, útil para quem precisa de uma mão extra na
hora de pensar. Mas continua dependendo de quem a usa, dos limites que
colocamos e da responsabilidade que exigimos.
E se ela algum dia parecer ter alma,
quem sabe? Talvez seja apenas a nossa curiosidade refletida de volta para nós
mesmos, perguntando: “o que mais podemos imaginar juntos”?
Há anos Shakespeare,
Machado de Assis, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Poe me encantam,
surpreendem e me ensinam. E agora veio esta tal de IA. Inteligência Artificial.
É isso.
exercício nº 21
Zemaria Pinto
soneto
meu, faustino de armação
tramado e arquitetado em vário
pé
desarma-se
em vis desvios vãos
limítrofes
à tinta e ao papel
(meu
canto fraturado
é um crânio
morto
oco osso
síntese
de nada
ou
cousa
alguma:
crianças & urubus
canteiros de noturnos
girassóis)
soneto meu de têmpera diversa
forjado em noites
sob lamparinas
silvos de partidas
salvas perdidas
a ti revelo-te
tua natureza
a ti entrego-te
meu braço destro
meu sexo
meus olhos
e meus delírios