Amigos do Fingidor

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLX

 

Cine Popular, depois Cine Pop, ficava na esquina da Silva Ramos com Barcelos.

sábado, 31 de janeiro de 2026

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Tudo vai piorar

Ademir Demarchi

 

um golpe

de estado

não abole o azar



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PPGL - Conversas com Egressos: Zemaria Pinto

 

Clique sobre a figura, para fazer a conexão.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Caros aposentados

Pedro Lucas Lindoso

 

Neste 24 de janeiro comemorou-se o dia do aposentado. Se conselho fosse bom não se dava. Vendia-se. O conselho que dou é ter consciência de que não existe aposentadoria da vida.

A vida é uma jornada cheia de surpresas. Uma das maiores ironias é que, ao contrário do que muitos pensam, não existe uma aposentadoria definitiva. Essa ideia de que podemos nos retirar para um merecido descanso, longe das obrigações e responsabilidades, é um mito.

Finalmente, chega-se ao tão sonhado momento da aposentadoria. Depois de anos de trabalho duro, você se vê livre das amarras do escritório, das reuniões intermináveis e dos prazos apertados. A primeira semana é um paraíso. Acorda-se tarde, toma-se café da manhã sem pressa e se decide que hoje é dia de fazer nada. Mas, rapidamente, a realidade se impõe. O que fazer com todo esse tempo livre?

A verdade é que as obrigações não desaparecem. Elas apenas mudam de forma. Agora, torna-se o responsável por decidir o que fazer com o seu dia. Nem sempre. Como todo bom aposentado, logo se vê envolvido em cuidar de netos, resolver coisas para filhos, fazer compras, e, claro, as necessárias ou impostas visitas ao médico.

A aposentadoria pode parecer um sonho, mas ela vem com suas próprias armadilhas. Você pode acabar se tornando um especialista em “run errands”. É uma expressão em inglês que não tem tradução literal. Significa resolver coisas na rua ou fazer tarefas do dia a dia. Pode incluir ir ao banco, passar no mercado, buscar algo na farmácia.

Ai a pessoa se torna um faz tudo. Já que está aposentado, que tal você providenciar tinta para impressora? Limpeza do ar? Arrumar o escritório? A aposentadoria traz à tona novos tipos de trabalho. Já que...? O aposentado torna-se ponto de referência para tudo.

 A liberdade que você tanto desejou se transforma em uma nova forma de trabalho, onde a única recompensa é a satisfação de ver filhos e netas felizes. A vida, em sua essência, não permite aposentadorias. Mesmo quando se retira do mercado de trabalho, as responsabilidades e os desafios continuam a surgir. Você pode até tentar se aposentar da vida social, mas logo perceberá que a solidão não é uma opção viável. As amizades precisam ser cultivadas. E encontros com amigos que gostam de literatura e arte, como eu, necessários.

A vida não para, e, na verdade, a vida continua, cheia de altos e baixos. A aposentadoria é apenas uma nova forma de encarar essa jornada. Rir das situações que surgem ao longo do caminho é essencial. No final das contas, a vida pode ser divertida, repleta de acontecimentos que nos ensinam a valorizar cada momento. Mesmo aqueles que parecem ser apenas mais um dia comum.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLIX


Tomada parcial da Cidade Flutuante, em frente a Manaus, 
destruída por forças militares, em 1967.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Vento

Lilian Aquino

 

Num fim de tarde

os cacarecos

rolavam

pelo telhado da casa.

O assobio do vento

dava um sentimento

de chamado

– querer revirar, despedaçar –

quando o certo é desenterrar

os ossos

e fincar os pés na terra

ainda seca.

 

Acima daquele sobradinho

espremido entre edifícios

pássaros voavam numa

espécie de dança circular

seguindo o vento.

As asas batendo somavam

desejos de ar.

 

Anunciada por ele

a chuva que chegou

não foi suficiente

pra tanto pó.



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Há conflitos ou lacunas entre gerações?

 Pedro Lucas Lindoso

 

Conversando com Scott, amigo americano dos tempos de intercâmbio, fui perguntado se acredito em “generation gap”. Geralmente se traduz isso por “conflito de gerações”. Só que eu sempre achei essa tradução meio canhestra.

Explico: “gap” não significa conflito. Tem vários significados. Lacuna, fenda. E também descompasso, disparidade. Se a tradução não é literal, pelo menos elas se complementam. Prefiro a ideia repassada pelo Inglês. Não acho que haja um conflito entre a minha geração e as que me antecederam e as que me sucedem.

O que sempre achei é que existe mesmo um hiato. Uma certa disparidade. Principalmente no falar e na facilidade em usar e adaptar-se às novidades tecnológicas. E em palavras inerentes às tais novidades. Minha mãe teve dificuldades em usar videocassete. A mesma dificuldade que sinto em usar plenamente todos os apps e funções desses celulares ultramodernos.

As novas gerações não sabem o que é eletrola, secretária eletrônica ou mesmo videocassete.  Assim como muitos jovens não sabem o que é um cromo, há idosos que demoram para saber o que é um aplicativo ou o significado de spoiller ou crush.

Vi numa clínica de fisioterapia uma prancha de equilíbrio de propriocepção. E não sabia o que era isso. Mas achei a prancha bem interessante e foi importante treinar com aquilo. Em tempo: propriocepção é a capacidade do corpo de sentir sua posição, movimento e equilíbrio no espaço. Ou seja, saber equilibrar-se.

Pois bem, matriculei-me numa academia de ginástica. E fui perguntar ao professor se ele tinha prancha de...? Esqueci a palavra propriocepção. E descrevi a tal prancha  como um grande mata-borrão. Foi inútil. O professor não tinha a mínima ideia do que era um mata-borrão.

Para quem não sabe, mata-borrão serve para absorver o excesso de tinta. Muito usado com as antigas canetas-tinteiro, para secar a tinta e evitar borrões. Se o professor não sabia o que era mata-borrão eu lá sabia o que era prancha de propriocepção!

Isso é conflito de geração ou um descompasso, uma lacuna geracional?


domingo, 18 de janeiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLVIII

No sentido horário, as fachadas do London Bank, Ultramarino e Banco do Brasil.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cidade nua: máscaras da decadência

 

Zemaria Pinto

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

(T. S. Eliot)[1]

 

O âmago da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a cidade.

Baudelaire teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2] O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente só.

Para Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para parecerem profundos.”[3]

Mário de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo...”[4]

Para expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas, Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5] dando o poeta lugar ao prosaico narrador.

São dez contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns, como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis, como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito assim parece simples, mas não.

Para mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas, cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar, nos contos de Cidade decadente: personas.[6]


Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.  

De bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.

Um personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da “virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência) eterna.

Nesta breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana, alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a exceção.


Na cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p. 109)

 

Mas a sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.

Leitora, leitor, leitore (?): liga aí o GPS...

 



[1] ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.

[2] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

[4] ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo: Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.

[5] apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.

[6] SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor, 2024.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Antes do cânone

Mariana Marino

 

na pedra a primeira escrita

documentou a produção agrícola

das cidades esquecidas

e figuras desimportantes

porque trabalhavam com as mãos

e a sujeira fincava nos dedos

e a fuligem tomava os pescoços

grossos como os pés

nada ainda era sobre domínio

ou articulação discursiva

não existia política e ideologia

a formação do mundo sem cartilha

ou lápis pré-fabricados

e gênios envaidecidos

e homens vitoriosos

era a terra e a fome

e a chuva e a sorte

sem sul e norte

foram escritas na pedra

estórias mortas

por gente morta

sem glória e futuro

e mesmo assim escreviam

seguiam escrevendo

axiomas do vento



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Rios voadores

 Pedro Lucas Lindoso

 

A moça do tempo do Jornal Nacional fala de rios voadores. Epa! Pelo que sei nossos rios na Amazônia não voam.

A repórter do tempo explica que os rios voadores têm origem no Oceano Atlântico. Voam pela Amazônia e descem para o Sudeste. Pelo que eu entendi, os tais rios voadores vão desaguar lá pelo Sudeste. Quer parecer que alagações frequentes no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espirito Santo acontecem nesta época do ano devido aos rios voadores. Pouco entendo de Meteorologia, mas se eu estiver errado, por favor me corrijam.

Graças a Deus, nossos rios aqui na Amazônia não voam. E os tais rios voadores passam aqui voando bem alto.

Se a moça do tempo afirma que os rios voadores existem. Deve ser verdade mesmo. Nossos rios, com certeza, não voam. E eu concordo. São muito caudalosos. Já pensou o Amazonas, o Negro, o Madeira, o Juruá e o Purus voando? Seria o fim do mundo. Ainda bem. Eles apenas namoram com o céu, com o sol e com a lua. Mas nunca voaram.

O amor do Rio Negro com o pôr do sol já deu casamento. Como o luar no Madeira e o céu do Juruá.

Eu olho para o rio Negro, que banha Manaus. Será que ele está comprando passagem para uma viagem ao Sudeste? Mas ele não voa. Na verdade, está apenas tomando tacacá com a Praia da Ponta Negra.

A moça do tempo jura que os rios voadores nasceram lá no Oceano Atlântico e que, de vez em quando, se enfiam pela Amazônia como turistas mal-educados. Mas aqui na Amazônia, os rios são mais reservados. Eles não voam; eles flertam. Voam só nos livros de Geografia. Nesses livros o Rio Amazonas é um dragão alado que guarda segredos de peixe-boi, boto, cobra grande, piranhas e pirarucus.

E quando a chuva cai, como sinfonia de tambores, os rios parecem pedir “calma, pessoal”. “A pororoca é só lá embaixo no Pará.”

A cheia vai ser a de sempre. Com fartura. E nas vazantes temos belas praias. As cidades têm até maré de rios e de alegria.

Enquanto isso, a moça da TV insiste nos rumores sobre rios voadores.

Os curumins ribeirinhos brincam de explorar. Não, não é exploração de floresta. É pura imaginação. Brincam com as areias das praias e preenchem garrafas com água de rio. E fingem que estão apanhando o próprio céu em potes. “É o rio que voa?”, perguntam curiosos. Um curumim observa o céu e diz que um rio está passando acima das copas das árvores.

Um grupo de pescadores aponta para pontos onde o céu parece espelhar o rio que não voa. E pensa que se ele não voa, pelo menos nos traz alegria com a chuva que cai sem pressa.

E a moça do tempo voltou a falar nos rios voadores!

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLVII


Ponte Benjamin Constant, 
tendo ao fundo, cortando o Centro da cidade,
a avenida 7 de Setembro.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Peixe em arabesco

Jussara Salazar

 

a cambraia fina teceu fio a fio

o vestido de elizabeth bishop

a cambraia negra desmanchou fio a fio

o vestido de elizabeth bishop

elizabeth bishop como um peixe

um feixe

uma cadela

colada na cambraia

fio a fio

nadando na baía de guanabara

flutua seu vestido-anáfora-âncora

um sintagma repetido

mil vezes tecido

fio a fio

e era fina essa cambraia

and then there is no choice

elizabeth bishop

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Literatura e Arte Poética no Amazonas


Clique na figura, para ter acesso ao programa.

 

Há diferenças, pá!

Pedro Lucas Lindoso

 

Eu me encantei com Portugal. Se pelo lado materno sou fortemente libanês, da família Daou, os Lindoso têm suas origens no norte de Portugal. Na região do Minho.

O Minho é uma região rica em tradições. E importante para a História de Portugal.  Lá fica Guimarães que é o berço da Nação portuguesa. No Minho temos cidades encantadoras, além de Guimaraes. Como Braga, Ponte de Lima e Viana do Castelo.

A freguesia de Lindoso fica no Município Ponte da Barca que é distrito de Viana do Castelo. Caro leitor. Não sou megalomaníaco. Mesmo porque todos os castelos em Portugal estão na mão do estado. Mas há um castelo na freguesia de Lindoso.

A Região do Minho produz excelente vinho. Principalmente o vinho verde. Desde jovem eu gosto muito desse tipo de vinho. Hoje sei o porquê. Casal Garcia é um dos mais famosos. O vinho favorito de meu inesquecível pai. Nas raras vezes em que bebia.

A região do Minho é o coração verde de Portugal. A paisagem é de tirar o folego. Os turistas em geral, principalmente as mulheres, ficam encantados com os bordados e filigranas. A gastronomia então nem de fala. Com o delicioso vinho verde da região é um espetáculo à parte.

Como todo cronista, adoro mexer, observar, usar e trabalhar com palavras. Ji fiz uma crônica em que relatava que cruzeta (cabide de roupa) é usado em Manaus e em Portugal. O sulista e o sudestino só conhecem a palavra cabide.

Ora, todos sabem que trem em Portugal é comboio.  Meninos são miúdos e café da manhã é pequeno almoço. Freio é travão. Pode-se comprar cuecas masculinas e femininas. As gostosas diferenças já podem ser notadas no voo da TAP. Eles chamam avião de avião. Não de aeronave. Após o avião aterrar, ao chegar ao aeroporto de Lisboa ou de O Porto, você irá recolher suas malas e maletas num tapete.  E não em esteiras, como os brasileiros são acostumados.

Mas poucos sabem que em Portugal não se diz colocar os pingos nos is. Os portugueses dizem colocar a pinta no i. E no jota.

Vamos colocar as pintas nos is. Há diferenças, pá!


domingo, 4 de janeiro de 2026

Manaus, amor e memória DCCLVI


Ao centro, o prédio dos Correios e Telégrafos, na Av. Eduardo Ribeiro.

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A poesia é necessária?

 

Preciso de um poema

Juliana Abdon

 

Preciso de um poema

Que me esvazie do dia

Mas que também me amanheça

 

Um poema que me ignore

E que vez em quando

Me reconheça

 

Preciso de um poema

Abençoado com a rigidez das nuvens

E a maciez do ferro

 

Um poema selvagem que assente o carinho

E tão dócil que ante o carinho repetido mostre os dentes

 

Preciso de um poema que me lembre

Mas que também me esqueça


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

José, o justo

Pedro Lucas Lindoso

 

Um dos mais significativos Evangelhos do Advento trata da bela passagem em que Maria, já prometida a José, aparece grávida. Num primeiro momento, ele a repudiou em segredo. E evitou que fosse difamada. Depois, o anjo Gabriel aparece em sonho. Disse-lhe que não deveria temer. Maria estava grávida por obra do Espírito Santo. Então José a protegeu e a preservou até o nascimento de Jesus.

Muitos homens sem fé questionam a atitude de José. Para alguns seria difícil se casar com uma jovem grávida sabendo que o filho não era seu. José, homem justo e de fé, assumiu Jesus como filho.

O anjo Gabriel mandou que José lhe desse o nome de Jesus. Pela tradição judaica, ao dar nome ao filho, o pai o reconhece como tal.

A concepção de Jesus por Maria é uma promessa de Deus. José era um homem simples e reto, daqueles que carregam o peso do mundo sem fazer ruído. Vivendo nas ruas de Nazaré, ele não era famoso nem poderoso, apenas firme naquilo que acreditava ser correto.

Quando o anjo Gabriel apareceu em sonho, anunciando que Maria haveria de conceber pelo poder do Espírito Santo, José não hesitou. Ele sabia que a obediência que nasce do dever é uma virtude.

Gabriel o chamou para ser guarda da promessa. José, homem de carpintaria, viu na notícia não apenas um chamado, mas uma responsabilidade. Haveria de proteger Maria, cuidar do que viria, sem entender completamente o alcance do que ocorreria.

José não questionou os motivos, não exigiu provas. Ele confiou na verdade que se revelava através da coragem de Maria e da bondade do desconhecido que, de forma divina, já caminhava entre eles.

E naquela noite de estrelas apenas começava a grande travessia que encerraria em uma manjedoura, nos campos de Belém, sob o brilho tímido de uma esperança que iluminaria o mundo.

O anjo havia pedido uma confiança que se traduzia em ações, não em palavras grandiosas. E José respondeu com o que melhor sabia fazer: oferecer abrigo, proteção e um lar simples, onde o milagre pudesse acontecer sem pressa, sem pressões.

Que possamos aprender com José que o verdadeiro heroísmo pode nascer no toque firme de uma mão que segura outra e no cuidado diário. E que, mesmo quando as estradas são áridas, a justiça de José ilumine nossos caminhos. Não por poder, não por reconhecimento, mas pela dignidade de um coração que acolhe, mesmo sem entender tudo, quem chega com uma promessa de vida. Como chega todo ano o Menino Deus. É o Natal.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Manaus, amor e memória DCCLV

 

A orla dos Remédios, na perspectiva da Ilha de Monte Cristo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

A poesia é necessária?

 

Eternidade líquida

Marília Kubota

 

no futuro

serei uma autora esquecida

como hoje sou esquecida

para apagar a luz do banheiro

ou pagar a conta de luz

para anotar endereços

no smartphone

ou me candidatar

como aspone do poeta de vanguarda

 

no futuro

serei uma autora esquecida

como hoje sou esquecida

abram a página 48

e leiam o poema como um jogo

não como algo a ser lembrado

séculos e séculos

tatuado no rabo da lagartixa

que nem tal se você é cânone

 

ser esquecida é igual a esquecer

embora poeta não seja igual a poetisa

tente vir-a-ser neste mundo líquido

seu poema será pintado em shopping

você receberá diploma de bom poeta

será aplaudida em aniversários

nestes eventos fantásticos

agradecerá gesticulando sem parar

pedindo pelo amor quero ser esquecida

 


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A tardor, o outono em Barcelona

Pedro Lucas Lindoso

 

Idalina sempre viaja para Europa, quando acaba o verão por lá. Os meses de setembro e outubro são ótimos para curtir o velho continente. Desta vez, decidiu ficar quinze dias em Barcelona, cidade em que uma amiga de infância a esperava como uma antiga jazz music em meio às pedras da Ladeira de Sant Felip Neri. Depois seguiria para Paris e Lisboa, antes de retornar ao Brasil. Idalina quis aproveitar o outono, em catalão, chamado “a tardor”.

A palavra tardor carrega consigo uma doçura que parece respirada de uma vitrola antiga. Não é apenas a estação. É a pausa que o corpo faz para ouvir o tique-taque das folhas que se rendem ao chão. Em Barcelona, a tardor não vem de supetão. Chega devagar, com brisa deliciosa e com o perfume de castanhas assadas que invadem o ar das praças. Os dias de tardor chegam com uma paleta que parece ter sido escolhida por um pintor que gosta de segurar a respiração. O dourado das folhas, o rubor suave das sombras sobre as fachadas. Idalina caminha pela cidade como quem lê um poema antigo. Cada esquina revela um recorte de tempo. A luz baixa que se derrama sobre o mar, os telhados de terracota, que lembram vinhos envelhecidos, as sombras de Gaudí, que parecem ouvir a conversa das árvores.

Idalina e sua amiga passeiam nas habituais rotas entre o Bairro Gótico e El Born, onde cada mural conta uma história de amor, cada esquina abriga uma lembrança de quem já vivenciou a cidade com o coração aberto.

A amiga de infância a recebeu com um abraço que sabe da juventude que um dia foi, e que retorna, porém mais sábia, para partilhar a tarde na beira da praia de Barceloneta. Elas conversam sobre o tempo, sobre as escolhas que as levaram a caminhos diferentes, e sobre a alegria de encontrar-se novamente em uma cidade que parece sempre nova, mesmo quando já se fez parte do seu mapa pessoal.

A Sagrada Família, que, sob a luz suave da tardor, revela detalhes ocultos em roxo e ocre, como se o tempo estivesse trabalhando em um vitral de paciência. As ruas de Eixample, onde as fachadas de granito guardam histórias de outras eras, enquanto a tarde se coloca de modo poético entre os telhados. Ao entardecer, Idalina ouve a melodia de artistas de rua que tocam violões e saxofones.

O jantar é simples: pão com tomate, azeite, uma taça de vinho e uma risada que se transforma em promessa para o dia seguinte.

Quando a tardor chegar ao fim, com a última folha a ser levada pela brisa, Idalina guarda na mala não apenas lembranças, mas também uma nova maneira de perceber o tempo. Barcelona, em quinze dias, ensinou-lhe que o outono não é apenas uma estação, é uma forma de olhar o mundo.  Com pausas, com amizades antigas e importantes, com a certeza de que as belezas da vida resistem ao passar dos dias.

Ao retornar ao Brasil, levará consigo o perfume das tardes de tardor, o calor de uma amizade que acolheu a infância, e a alegria de ter vivido, por um breve instante, sob o encanto de uma cidade que sabe transformar o cotidiano em poesia. E, quem sabe, ao descrever essas férias de tardor em Barcelona, possa ainda inspirar seu dileto sobrinho cronista a fazer mais uma de suas crônicas semanais.