domingo, 5 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A poesia é necessária?
O mago
(26/4/1963 – 26/6/2026)
Eu amo os bosques e as ruínas e os conventos
E toda parte onde o mistério nos destrua,
Pois nada vale ir decifrar com gestos lentos
A mão sem causa que fez tudo e a tudo estua.
Era impossível que algo houvesse, e tais tormentos
Vêm de ainda assim este algo haver, enquanto a lua
Que por verdade não nascera assopra os ventos
Aos nossos olhos também falsos desta rua.
Oh! alamedas, catedrais, sombras pendentes,
Por ser sem fruto ainda buscar nos entregamos
De uma só vez a este mistério que encarnamos,
Numa volúpia de esquecer, da noite ausentes,
Como o mendigo que sem forças para a sorte
Se entrega inteiro à sua garrafa e à sua morte!
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Eu sou Frankelda
Tainá Vieira
No
final de semana passado, assistimos, em família, ao filme Soy Frankelda.
Uma animação mexicana de fantasia, dirigida por Arturo Ambriz e Roy Ambriz,
emocionante e muito significativa.
Emocionante porque esse mundo da fantasia consegue nos tirar do mundo
enfadonho que é a vida, na maior parte; e significativa porque narrativas
ousadas como essa, que abraçam o grotesco, o sombrio e o inquietante, nos
obrigam a olhar novamente para a própria vida. Elas nos lembram que os monstros
nunca existiram apenas nos livros ou nas telas; eles sempre encontraram
maneiras de caminhar entre nós. Nesse sentindo, a história da corajosa
Francisca Imelda é um convite para ampliar nossa perspectiva sobre como lemos e
interpretamos os sinais que todas as expressões artísticas nos apresentam
diariamente.
A arte
nunca fala apenas de si mesma. Ela fala de nós, de nossos medos, de nossas
violências, de nossas ausências e dos silêncios que insistimos em naturalizar.
Talvez por isso tantas histórias pareçam tão fantasiosas quando, na verdade,
apenas estampam aquilo que a realidade já faz com crueldade. E sim, vou
insistir na mesma linha de pensamento. Vou falar sobre o mesmo assunto tantas
vezes quantas forem necessárias, porque, em todos os séculos, a mesma história
continua sendo contada, apenas em idiomas diferentes. Os cenários mudam. Os
figurinos mudam. As personagens recebem novos nomes. As tecnologias avançam,
mas o enredo permanece assustadoramente semelhante.
A
história pode até se fragmentar ao longo do tempo; as personagens são
renovadas, contudo, o cerne, a essência enraizada nas mentes dos algozes que se
proclamam detentores do saber supremo, continua intacta onde quer que seja. É
sempre a mesma necessidade de controlar quem pode falar, quem pode escrever,
quem pode criar e quem merece ser lembrado. E nós estamos aqui justamente para
isso: insistir em expor e expurgar esse mal que atravessa todos os espaços e
que teima em continuar mesmo percebendo que a sua presença já não é mais
tolerada.
É por
isso que estamos sempre no front, olhos atentos a todo instante para capturarmos
quaisquer sinais positivos que nos ajudem nessa luta, foi assim que encontrei
Francisca Imelda, a protagonista da narrativa. Quando criança, ela sonhava em
ser escritora, mas sua maneira de imaginar e contar histórias era considerada
absurda demais. Como poderia uma criança e, pior ainda, uma menina, pensar
daquela forma? Sua imaginação era tratada como desvio. Sua criatividade, como
ameaça. Mais tarde, já jovem, ouviu de um editor que uma mulher não poderia
escrever daquele jeito. Essa cena me atravessou de uma maneira forte demais.
Por que será? Talvez porque, de uma forma ou de outra, essa ainda seja uma
história que conhecemos bem. Mudam-se as palavras, mas permanece o mesmo
julgamento.
Quantas
mulheres tiveram seus sonhos enterrados antes mesmo de florescerem? Quantas
desistiram porque aprenderam cedo que precisariam pedir licença para existir
intelectualmente? Quantas boas histórias foram publicadas sob pseudônimos,
atribuídas a homens ou simplesmente esquecidas por que suas autoras ousaram
pensar além do que lhes era permitido? E quantas obras extraordinárias ficaram
escondidas nas margens da história, esperando que alguém finalmente lhes
devolva a voz? Verenilde Pereira é um grande exemplo disso. Sua escrita
permaneceu durante décadas distante do reconhecimento que merecia, como
acontece com tantas outras mulheres cujas produções são tratadas como
periféricas apenas porque desafiam a lógica de quem sempre acreditou possuir o
monopólio da literatura e do pensamento. Mas hoje, o livro Um rio sem fim
atravessa tantos territórios sem pedir licença porque ele não precisa e nunca
precisou de disso para existir.
Voltando
ao filme, Frankelda abandona o seu mundo “real” e mergulha no submundo de suas
próprias criações. Um lugar onde as histórias possuem corpo, respiram, sentem
medo e desejam existir. Mas é justamente ali que suas narrativas são roubadas
por um contador de histórias ultrapassado, egoísta e profundamente machista. Um
personagem convencido de que jamais existirá alguém capaz de escrever melhor do
que ele. Alguém tão embriagado pela própria superioridade que acreditava
possuir o direito de tornar sua toda criação que lhe despertasse admiração. É
impossível não reconhecer esse personagem para além da fantasia. Ele representa
uma figura histórica, representa todos aqueles que confundem conhecimento com
propriedade. Que acreditam que inteligência é território privado. Que
transformam o saber em instrumento de poder e fazem do apagamento alheio a
condição para manterem intacta sua falsa grandeza.
É assim
que pensam muitos dos que se consideram “grandes intelectuais”. Convencidos de
sua própria imortalidade, recusam-se a aceitar que novas formas de contar
histórias possam surgir. Permanecem encapsulados em um mundo de soberba e de
uma pieguice arcaica, incapazes de perceber que a literatura é um organismo
vivo, que respira, muda de pele e renasce a cada geração. Estão tão ocupados
contemplando a própria imagem que deixam de perceber o sol novo que insiste em
nascer todas as manhãs. Mas, Eu sou Frankelda não é apenas um filme
sobre monstros, fantasmas ou mundos imaginários. É, sobretudo, uma narrativa
sobre o preço de existir com autenticidade. Sobre a coragem necessária para
continuar criando quando tudo ao redor diz que a sua voz não deveria existir.
É sobre
escrever mesmo quando tentam transformar a sua escrita em erro. É sobre
imaginar mesmo quando insistem que a imaginação precisa caber em moldes
pré-estabelecidos. Criar talvez seja o maior ato de desobediência que existe,
porque toda criação inaugura uma possibilidade de mundo que antes não
existia. No fim, Eu sou Frankelda
nos lembra que toda história que insiste em nascer merece ser contada. E talvez
essa seja a maior vitória de todas: continuar escrevendo, apesar do medo,
apesar das portas fechadas, apesar das tentativas constantes e grosseiras de
silenciamento. Porque, não importa quantos “pesadeleiros reais” existam no
mundo. Sempre nascerá uma Frankelda. Alguém disposta a rasgar o véu da cápsula
onde a arrogância tenta esconder a própria insignificância. Alguém que
compreenderá que as histórias nunca pertencem aos que as aprisionam, mas aos
que têm coragem de lhes dar voz, independente das normas pré-estabelecidas.
terça-feira, 30 de junho de 2026
A força silenciosa dos Paikicés e Kaçauerés
Pedro Lucas Lindoso
Muitas
moças e rapazes de Parintins desejam ser item de seu boi preferido. Sinhazinha,
Cunhã, Rainha do Folclore. Já os homens sonham em ser amo do boi, pajé ou mesmo
o tripa do boi.
Mas há
os que trabalham duro anonimamente. São os Paikicés do Boi Caprichoso e os Kaçauerés
do Boi Garantido. Cada equipe tem cerca de 200 homens. Trabalham duro. Carregam
os carros alegóricos e adereços com dias de antecedência. Tomam conta do
acervo. Montam tudo. É muito trabalho. Mas quem brilha no festival são os
itens.
Os Paikicés
do Boi Caprichoso e os Kaçauerés do Boi Garantido são homens e mãos que
trabalham sem alarde, dia após dia. O coração que move os bois é invisível aos
olhos que olham apenas para os itens, alegorias e toadas. No traslado dos
carros alegóricos, há uma geometria de esforço. O peso distribuído com cuidado
e a precisão que expressa o amor por cada Boi. Em cada ajuste de adereço, um
segredo de paciência. Cada trabalhador no silêncio e na dedicação ao seu boi, sabe
que o tempo é aliado, não inimigo.
A
organização de cada equipe é como uma toada cujo tema é a disciplina. Os Paikicés, conhecem cada peça como quem
conhece a própria história do Boi Caprichoso. Os Kaçauerés, com o mesmo afinco,
alinham o vermelho vibrante das alegorias e adereços. Para que possam vibrar
numa tonalidade que conte uma narrativa vermelhante, honesta e ofuscante.
O
cronograma não é apenas data. É respeito
pela tradição, é o ritual de preparar o bumbódromo para que a grandiosidade se
faça visível. E surpreendente como todo ano, todo festival.
Paikicés
do boi Caprichoso e os Kaçaierés do Garantido fazem um trabalho que não pede
aplauso. Carregar, montar, guardar. São
tarefas que se repetem, mas que, repetidas, se tornam disciplina sagrada.
A
alegoria de cada boi é memória em movimento. Cada peça uma página viva de uma
história que se reescreve a cada festival.
Os Paikicés
e os Kaçauerés têm humildade para ver o resultado sem se deixar consumir pela
vaidade do aplauso que os itens recebem. Eles têm coragem para admitir que o
segredo do brilho de cada dia de apresentação do festival está nos detalhes.
E, quando
a galera azul e vermelha se tombar em reverência, o verdadeiro brilho vem da
quietude de quem sabe que o trabalho está apenas começando outra vez. Mas que
existe uma promessa de continuidade de uma tradição viva. Os Paikicés e Kaçauerés são guardiões de uma
linha que não pode quebrar. A linha que
liga passado, presente e futuro do festival.
Cada
um, na sua função, entrega o essencial do todo. Sem o peso certo, o boi não
voa. Sem o encaixe preciso, o colorido dos adereços e das vestimentas não canta
no ritmo preciso de cada toada.
Paikicés
e Kaçauerés, que trabalham com as mãos e suando o corpo, para que a festa maior
continue a nascer todo ano, sob o mesmo céu, com a mesma coragem. A coragem de quem ergue, com paciência e
amor, os bois que encantam os amazonenses, o Brasil e o mundo.
domingo, 28 de junho de 2026
quinta-feira, 25 de junho de 2026
A poesia é necessária?
Morrer
Ivan
Junqueira (1934-2014)
Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;
é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;
é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;
é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;
é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;
é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.
terça-feira, 23 de junho de 2026
Bariceia desvairada
Pauliceia Desvairada é o mais famoso livro de Mario de
Andrade. Publicado em 1922, foi um marco na Semana de Arte Moderna. Pauliceia
foi um nome de certa forma carinhoso e até poético dado pelo grande modernista
brasileiro, à cidade de São Paulo.
Houve por aqui quem fosse nessa onda. Pesquisando edições
antigas do Jornal do Comércio verifica-se que a primeira rádio de nossa Manaus se
chamou Voz da Bariceia.
Posteriormente tornou-se a Rádio Baré, encapada pelo grupo de Diários e
Emissoras Associadas. Grupo comandado pelo histórico e emblemático Assis
Chateaubriand. Ressalta-se que o Jornal do Comércio fez parte dos associados.
Pergunta-se o porquê que Pauliceia pegou e Bariceia não? Sabe-se
que havia dois povos na região do Rio Negro. Os Manaus e os Barés.
A nação dos Manaus destacou-se por sua extrema resistência à
colonização e à escravidão imposta pelos portugueses no século XVIII. Ficou na
nossa história a liderança do guerreiro Ajuricaba.
Já os barés não nos legaram nenhum herói. Possivelmente seja
essa a razão da cidade chamar-se Manaus e não barelandia ou mesmo terra dos
barés. São conjecturas minhas que deixo para os historiadores desvendarem.
Mas o fato é que os Barés sempre foram cantados em prosa e
verso tanto quanto os Manaus. No Grupo Escolar Saldanha Marinho, sob a batuta
da diretora Leonor Uchoa de Amorim, aluno da professora Francisca Silveira,
aprendi a cantar o Hino a Manaus que começa assim: “Manaus, terra das
florestas, terra das castanhas e dos seringais. Manaus, terra dos barés, dos
igarapés, rios colossais. O Rio Negro majestoso ...”
Quando Mario de Andrade escreveu Pauliceia Desvairada, há cem
anos atrás, ele estava fascinado pelo desenvolvimento rápido da sua cidade. São
Paulo deixava de ser rural e torna-se a grande metrópole que é hoje.
Manaus também passa por esse processo. A cidade deixou de ser
a provinciana Manaus da minha infância para se tornar tão desvairada quanto São
Paulo. Guardadas as devidas proporções e características.
Poderíamos perfeitamente ser chamados de Bariceia Desvairada.
Mas o povo Manaus, provavelmente em razão do herói Ajuricaba, deu o nome
definitivo a cidade. Os barés denominaram rádios, guaranás e biscoitos.
Sem querer discutir se
somos manauaras ou manauenses, alguns se consideram simplesmente barés. Morei
muitos anos em Brasília. Estudei e casei-me por lá. Tenho filhos candangos.
Considero-me um candango-baré.
Quanto à tribo dos Manaus não foi denominada de Manausceia
desvairada. Sofreu outra agressão fonética e ortográfica. Manaus se escrevia
Manáos. Houve uma reforma ortográfica. Páo, virou pau. Nunca foi paó. Algum
cara de paó, resolveu deslocar o acento para Manaós. Essa tribo nunca existiu.
Já nossa cidade de Manaus, tanto quanto São Paulo, tornou-se
desvairada, sem juízo ou equilíbrio, mas intensamente amada.
domingo, 21 de junho de 2026
quinta-feira, 18 de junho de 2026
A poesia é necessária?
Reflexo condicionado
Cacaso (1944-1987)
pense rápido:
Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Encruzilhada
Tainá Vieira
Passei na seleção de
mestrado com um projeto em que eu propunha estudar a violência simbólica no
romance A vida invisível de
Eurídice Gusmão, de Marta Batalha. Por questões relacionadas à
orientação, tive de mudar o foco para o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O tema
da minha pesquisa é gênero, memória e agência feminina; nesse sentido, meu
recorte são as personagens femininas, obviamente.
Pois bem. Acontece
que as pessoas vivem me perguntando: o que é agência? O curioso é que, até
pouco tempo atrás, eu também não sabia responder. Mais curioso ainda é perceber
que todas nós, mulheres, sabemos o que é agência. Aliás, todo mundo sabe, mas
nem sempre conhece esse nome.
Mas o que é agência, afinal?
Sem recorrer aos fundamentos teóricos,
apenas a partir da forma como a compreendi, agência é a capacidade que um
sujeito desenvolve e mobiliza para sair de uma condição de opressão,
subalternização ou marginalização. É a possibilidade de agir sobre a própria
realidade, mesmo quando as circunstâncias parecem determinadas por forças
maiores.
Na minha pesquisa, por exemplo, analiso
as estratégias que as personagens utilizam para conquistar direitos básicos
para uma vida digna: o direito à terra, à moradia, à educação, entre tantos
outros. Mas não é somente isso. A obra suscita temas que nos tocam e nos
atravessam de tal maneira que nos deixam profundamente comovidos ou igualmente
revoltados. Entre as intersecções de gênero, racial e condição socioeconômica,
as personagens exercem, de forma implícita ou explícita, essa capacidade de
transformar a própria existência. Elas lutam para romper o ciclo de servidão em
que nasceram, para que seus filhos e, consequentemente, seus netos não sejam
condenados à mesma vida que marcou seus antepassados.
Dito isso, quero trazer esse
conhecimento adquirido pela pesquisa para minha vida como escritora. Como saber
se estou caminhando amparada pela agência ou simplesmente metendo os pés pelas
mãos?
Desde muito cedo, nós, mulheres filhas
de ribeirinhos, como é o meu caso, aprendemos a lei da sobrevivência. Nossas
mães não nos ensinam por meio de explicações detalhadas ou manuais de
instrução. Elas ensinam vivendo. Ensinam na lida diária, no trabalho árduo, nos
gestos repetidos que sustentam uma casa e uma família. Cabe a nós observar
atentamente cada movimento, cada escolha, cada silêncio. Mais tarde, quando
crescemos e assumimos nossas próprias casas, reproduzimos aquilo que
aprendemos. É um ciclo. É a roda girando. É o conhecimento da terra criando
raízes cada vez mais profundas.
E ainda me perguntarão: o que isso tem a
ver com ser escritora?
Tudo, direi.
Minha escrita nasce exatamente daí: da
lida cotidiana, das imagens que atravessam os dias enquanto a panela está no
fogo, enquanto respondo mensagens no grupo de mães da escola ou tento
destrinchar alguma teoria para um artigo. Ela nasce também nos momentos mais
difíceis, quando surge aquela vontade de desaparecer do mundo. Sim, eu já quis
morrer muitas vezes. Mas, quando sinto que estou quase indo, lembro que ainda
faltam coisas para resolver. Muitas coisas, aliás. Por isso, minha escrita me
custa muito.
Não porque me fira ou me machuque, mas
porque necessito dela e ela necessita de mim. Muitas vezes nossos tempos não
coincidem. Quando ela sopra sua chama sobre mim e eu não estou pronta para
recebê-la, ela espera. Compreende minhas ausências. Por isso não acredito em
inspiração. Acredito em encontro. E quando finalmente me vejo capaz de acolher
aquilo que ela me oferece, ela se entrega inteira. E me salva.
Nem todos os dias sou escritora. Nem
todos os dias quero ser. E isso não acontece por relapso ou irresponsabilidade.
Acontece porque, muitas vezes, estou tão cansada que não me obrigo a carregar
mais esse peso. Um peso bom, é verdade, mas ainda assim um peso. Talvez por
isso a escrita me seja tão cara.
Então, quando alguém me pergunta quem
sou eu, com meus poemas pingando sangue e cheirando a cachimbo de avó, querendo
dar pinta de escritora, não me sinto ofendida nem machucada. Ao contrário.
Sinto-me desafiada. É um chamado para o combate. E eu não me calo. Porque toda
vez que uma mulher silencia, apaga-se um pouco da memória das mulheres que
vieram antes. Apaga-se um pouco dos ensinamentos da mãe, da avó, das ancestrais
que sobreviveram para que ela pudesse existir. Quando isso acontece, ela deixa
de ocupar o lugar de sujeito agente de sua própria história.
E, ao silenciar por causa de alguém, ou
renunciar à própria voz, decreta não apenas uma falência intelectual, mas uma
rendição antecipada. Declara-se vencida antes mesmo de conhecer o calor da
luta, o fervor da resistência e a potência transformadora de permanecer de pé.
Não romantizo o combate, mas também não enxergo esse muro todo me separando do
inimigo, ao contrário, essa fronteira para mim é tão frágil que se eu assoprar
bem forte ela evapora.
Talvez seja justamente isso a agência.
Não um conceito acadêmico encerrado em livros e teorias, mas a decisão
cotidiana de continuar existindo, falando, escrevendo, lutando e desafiando.
Mesmo quando o mundo insiste em nos ensinar o contrário. E ainda bem que temos
os romances e suas protagonistas, porque elas nos lembram que nenhuma forma de
silêncio é definitiva. Em algum momento da vida, fui Eurídice Gusmão, hoje,
porém, reconheço-me em Belonísia: a mulher que teve a língua decepada, mas que,
ao lado da irmã, inventou uma nova linguagem para continuar existindo.
Porque foi isso que fizeram as mulheres
que vieram antes de nós e aquelas que insistimos em ser: quando lhes tiram a
voz, elas transformam o silêncio em outra forma de fala. E enquanto houver uma
mulher escrevendo, lembrando e recusando a rendição, a subordinação, nenhuma de
nós estará verdadeiramente calada.
terça-feira, 16 de junho de 2026
Bloomsday
Pedro Lucas Lindoso
O Bloomsday tornou-se uma tradição em
várias partes do mundo. Além da Irlanda, claro.
Existe em razão do clássico livro de James Joyce – Ulysses. O Bloomsday
interessa principalmente àqueles que gostam das Letras, Literatura em geral. O halloween, outra manifestação cultural
estrangeira, está sendo comemorado efusivamente no mês de outubro, no Brasil e
outros países.
As
tradições culturais que nos influenciam chegam de modos diversos. Algumas por
livros infantis. Outras por livros que se tornaram clássicos da Literatura
mundial. Como o Ulysses, obra-prima
de James Joyce.
O
Brasil, que nunca foi feito de uma só cor, de uma só língua, de uma só memória,
costuma receber tudo com curiosidade. Às vezes, com encanto. Às vezes com
exagero.
O Bloomsday, por exemplo, é uma dessas
tradições estrangeiras que chegam com certo charme discreto. Vem da Irlanda, de
James Joyce, de Leopold Bloom caminhando por Dublin em 16 de junho,
transformando um dia comum em literatura. Celebrar o Bloomsday é, de algum modo, celebrar a leitura, a cidade, o
passeio, a conversa de bar, o pensamento que se perde e se encontra. É uma
festa menos barulhenta, talvez por isso mais interessante. Não exige fantasia
comprada, não pede susto, não se impõe nas vitrines. Convida. Quem quiser
entra. E Manaus já entrou na onda. Sob a batuta do poeta, escritor e editor
Nelson Castro.
Já o halloween parece ter vindo mais
fantasiado de mercado do que de tradição. Abóboras iluminadas, bruxas de loja e
monstros em promoção. O problema é quando a importação vem com apagamento.
Somos um país multicultural, contudo, multiculturalidade não é empilhar
costumes estrangeiros. Não é apagar as
marcas dos povos originários que foram violentados e silenciados.
Se
temos espaço para Leopold Bloom caminhar por nossas ruas, pelo que eu,
pessoalmente, sou fascinado, também precisamos abrir passagem para os
encantados, os orixás, os caboclos, os mestres de tradição oral, os cantos
indígenas, os tambores negros, as festas de terreiro, os maracatus, os
congados, os bois, os carimbós, as ladainhas, os mitos, o Gambá, recentemente
reconhecido pelo Estado do Amazonas, por meio do COPHAM, Conselho do Patrimônio
Histórico e Artístico do Amazonas, como bem imaterial.
Tradições
que não vieram de fora porque já estavam aqui. O Gambá, espécie de tambor, é
presente em Maués e na calha do rio Madeira.
Talvez
o problema não esteja em celebrar o que vem de longe. O problema está em
esquecer o que mora perto. Uma cidade que lê Joyce pode muito bem celebrar
Jorge Amado, Machado de Assis, Carolina de Jesus e Cora Coralina, dentre vários
outros.
O
estrangeiro não precisa ser inimigo. O Bloomsday
pode nos lembrar que a literatura é capaz de transformar um dia qualquer em
celebração. Porque, no fundo, uma cultura viva é riqueza imaterial a ser
preservada. Pode passar um irlandês de chapéu, pode passar uma criança
fantasiada de fantasma, pode passar um tambor de Gambá chamando o povo, pode
passar um cortejo negro, pode passar uma liderança indígena lembrando que a
terra tem memória.
Que
venham, então, as tradições estrangeiras que nos ampliem, como o simpático Bloomsday. Mas que fiquem de pé, no centro da roda, as
tradições que nos fundaram.
Quanto
ao Bloomsday em Manaus, será
comemorado neste 16 de junho, sob a batuta de Nelson Castro. Mas é preciso ler pelo
menos alguns trechos de Ulysses, de
James Joyce. O que não é coisa fácil.
domingo, 14 de junho de 2026
“Garrote” conquista o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes Amazônicos, de Roraima
Manaus/Boa
Vista, 12 de junho de 2026 – O curta-metragem “Garrote”, dirigido por Bruno
Pantoja, foi premiado com o 3º lugar na Mostra Oficial do Festcine Saberes
Amazônicos 2026. A cerimônia de premiação aconteceu na noite desta sexta-feira
(12/06), no Centro Amazônico de Fronteiras (CAF) da Universidade Federal de Roraima
(UFRR), em Boa Vista, marcando o encerramento da primeira edição do festival.
O
Festcine Saberes Amazônicos é o primeiro festival de cinema regional e temático
de Roraima e representa a consolidação de um projeto com foco na produção da
Região Amazônica e de Roraima.
A
Mostra Oficial Saberes Amazônicos reuniu produções de ficção de diferentes
estados da Amazônia Legal. “Garrote” competiu ao lado de “Boiúna” (PA) e “No
limite do lavrado” (RR) , consolidando a proposta do festival de promover o
intercâmbio cultural e a valorização do audiovisual autoral e independente da
região.
Sobre o curta “Garrote”
Com 25
minutos de duração, o filme se passa em Manaus, em 2021, durante o colapso da
crise do oxigênio na pandemia de Covid-19. A trama acompanha João, um músico
negacionista, e Maria, uma engenheira pragmática, que enfrentam o desgaste de
uma convivência forçada durante o lockdown. A história é inspirada livremente
no texto teatral “Cenas da vida banal”, de Zemaria Pinto, que também assina o
roteiro.
“É uma
história sobre reclusão e revelação. João e Maria representam muitas pessoas,
cada um com suas falhas e qualidades, vivenciando uma tragédia particular em
meio a uma tragédia coletiva”, explica Bruno Pantoja.
O
elenco é composto por Amanda Magaiver e Begê Muniz, e a produção executiva é
assinada por Maíra Dessana. O filme aborda temas como negacionismo,
masculinidade tóxica, saúde mental e relacionamentos abusivos, tendo sido
contemplado pela Lei Paulo Gustavo (2023) Governo Federal e Secretaria de
Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
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Serviço
· Evento: Festcine Saberes Amazônicos
2026
· Datas: 11 e 12 de junho de 2026
· Local: Centro Amazônico de
Fronteiras (CAF) – UFRR, Boa Vista (RR)
· Filme premiado: “Garrote”
(curta-metragem)
· Premiação: 3º lugar – Mostra
Oficial Saberes Amazônicos
· Direção: Bruno Pantoja
· Elenco principal: Amanda Magaiver,
Begê Muniz
Informações para a imprensa:
Bacaba Produções
e-mail: bacabaproducoes@gmail.com
Redes sociais: @ciadeartesbacaba
quinta-feira, 11 de junho de 2026
A poesia é necessária?
Do velho e do jovem
Conceição Evaristo
Na face do velho
as rugas são letras,
palavras escritas na carne,
abecedário do viver.
Na face do jovem
o frescor da pele
e o brilho dos olhos
são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas
de ambos,
o velho tempo
funde-se ao novo,
e as falas silenciadas
explodem.
O que os livros escondem,
as palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
um ponto final na história
Infinitas são as personagens:
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendô, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
e mais e mais, outras e outros…
Nos olhos do jovem
também o brilho de muitas histórias.
e não há quem ponha
um ponto final no rap
é preciso eternizar as palavras
da liberdade ainda e agora…
terça-feira, 9 de junho de 2026
10 de junho: Camões, Portugal e o Amazonas
Pedro Lucas Lindoso
O 10 de
junho representa muito mais do que uma simples data nacional, em Portugal. É
uma ocasião para reforçar a identidade cultural, relembrar a história e exaltar
a importância da língua portuguesa no mundo. Língua esta que faz Portugal,
Camões, Brasil e Amazonas caminharem juntos.
Mesmo porque no dia em que Portugal respira as letras de Camões, o
Brasil e o Amazonas parecem também respirar português. Não por imposição, mas
por afeto antigo. Afeto que atravessa o Atlântico e chega aos rios amazônicos
trazidos pelos ventos, sorrisos e livros.
Portanto,
queremos que o 10 de junho seja uma ponte entre Lisboa e Manaus, entre o
açafrão das ruas de Alfama e o cheiro de tempero dos peixes amazônicos. O
português é um idioma que não conhece fronteiras, apenas laços. Camões, ao
escrever os sonetos que dançam na memória dos portugueses, brasileiros e
amazonenses, deixou gravado que a beleza do português está na sua capacidade de
caber na boca de qualquer um que o pronuncie com cuidado. E é exatamente isso
que sentimos quando atravessamos o Atlântico e chegamos à Amazônia com o mesmo
poema nos lábios. A língua é barco, é
casa, é encontro, não só das águas, mas de gente, de cultura. De miscigenação,
de superação, de amizade e interação.
No
Amazonas, onde o chão é uma memória de floresta e o céu abriga mil histórias,
lendas e mistérios, o português não é apenas idioma da burocracia, dos jornais
ou de sala de aula. É a voz que descreve o vento que embala as palafitas. É o
canto que acompanha o trabalho dos ribeirinhos, descrevendo a sua lida. Assim
como as frutas e seres das matas, os bichos e lendas. É ainda o riso do caboclo
que surge quando a chuva decide dançar nos rios. E quando o vento faz banzeiro assustando os
canoeiros. A língua portuguesa, nesse cenário, não se limita a ser uma norma.
Ela se faz ponte entre comunidades ribeirinhas e as cidades amazônicas que
celebram a diversidade com a mesma fé com que celebram o nascer do sol sobre o
Rio Negro. Enquanto os portugueses apreciam navios que descem o Tejo em direção
ao Brasil e ao mundo.
Ao
celebrarmos Camões celebramos a coragem de quem escreve a história sem medo de
ser poético. Camões, que mergulha nas águas da vida para extrair a essência da
condição humana, seria, hoje, feliz em ver que a paixão pela língua continua a
ensinar o valor da clareza, da musicalidade, da dignidade de cada palavra. E o
Amazonas, com suas pequenas comunidades do interior e das cidades que sentem o
calor do dia e o frescor da noite, se reconhecem nesse maravilhoso, poético e
perfeito idioma. Reconhecendo, ainda, que somos filhos de uma língua que nos
convoca a sonhar grande, mesmo quando o mundo parece caber dentro de um tapiri,
de uma casinha ou mesmo de um pequeno apartamento de um conjunto habitacional
em Manaus ou Belém.
Vamos
fazer esse 10 de junho transformar-se em celebração dupla. A de Portugal e de
Camões, que nos lembram que a palavra pode ser herança. E a nossa aqui da
Amazónia onde a lusofonia não é apenas herança linguística. Mas uma experiência de valores próprios e
únicos.
Navegar
pelos nossos rios e florestas. Sempre lembrando que cada voz tem o direito de
ser ouvida, de cada rio ter uma história, que matas e lendas podem nos chamar
para ouvir. Que a data sirva, então, para reforçar a identidade cultural que
nos une. E para exaltar a beleza da língua portuguesa, que não é apenas norma
gramatical, mas casa de encontros. Além de encontro das águas, encontros de
maneira, de ouvido, de coração.
Que,
neste 10 de junho, a gente possa ver Camões como uma estrela, para muitos
amazônidas ainda desconhecida. Mas que aponta para o caminho de quem ousa falar
com o mundo, com o Brasil, com o Amazonas, com a memória de todos nós que
falamos o mesmo idioma e sonhamos juntos, com o português que não é apenas
língua. Mas é abraço que atravessa mares, rios, florestas e várzeas.
domingo, 7 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
A poesia é necessária?
Janela tridimensional
Leila Míccolis
Quem é vivo sempre aparece;
mas dependendo do morto
ocorre o mesmo processo:
os poetas que eu mais amo
entram sempre em minha casa
pela porta dos seus versos.






