Marcos Souza
A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas
cruzadas, postura empertigada e mão no queixo exalando sobrecarga intelectual,
talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao
mesmo tempo nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico, do contrário
não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou ter uma de nossas
obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às
transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens,
para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir
aquilo que só é proferido a modo de sussurro. E, hoje, sussurro delicadamente
para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de
Márcia Antonelli.
Antes de adentrarmos à casa das bonecas, serpenteando entre
os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma
“Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e
cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira.
Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada ainda
conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas
calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional. Pois é, camarada,
caberás a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou a
permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra
e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma
vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente fedendo
a gorgonzola”.
Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.
Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores,
persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à
obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma
bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os
seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes,
assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para
aquisição entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais,
a saber: @marciaantonelli376
no Instagram e Márcia
Antonelli Santana no Facebook.
Até.









