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| Sérgio Cardoso (10/03/1954 - 03/10/2026). A homenagem da cidade que aprendeu a amar você. |
domingo, 4 de outubro de 2026
sábado, 3 de outubro de 2026
Recepção a Sergio Cardoso, cadeira n° 2
Noite de 13 de agosto de 2017
A Academia Amazonense de Letras reúne-se nesta
noite para reafirmar sua perenidade, representada pela posse de um novo
acadêmico e o paradoxo que isto produz: um signo de mudança como paradigma de
imutabilidade.
Tristeza e alegria são componentes antagônicos de
um mesmo processo, cujo propósito é a permanência da instituição acadêmica.
Tristeza, porque lamentamos a falta do confrade antecessor. Alegria, porque
celebramos a chegada de um novo companheiro. Assim, a Academia se renova e, às
vésperas de completar um século de fundação, rejuvenesce. Pois é desta matéria
que é feita a Academia Amazonense de Letras: da vida e da obra de seus pares.
Muito me honra a tarefa de que fui
incumbido nesta noite: recepcionar o novo membro desta Casa – o cineasta,
fotógrafo, dramaturgo e artista plástico Sergio Cardoso. O meu amigo Sergio
Cardoso, a quem me dirijo agora.
A cadeira N° 2
Sergio, na cadeira para a qual foste
eleito tens por patrono Euclides da Cunha, que tanto bem fez à literatura
brasileira, especialmente com o seminal Os
Sertões – um ensaio histórico-político-antropológico e antropofágico, com
sabor de romance e cheiro de poesia. Mas Euclides também, involuntariamente,
causou muito mal à literatura brasileira, pois seus êmulos perderam-se na
tentativa de reproduzir seu estilo, realizando apenas pálidas caricaturas do
modelo. Euclides escrevia como um rio amazônico – cheio de nascentes, braços,
furos, paranás, meandros, vaus, peraus, lagos, igapós, estuários e afluentes.
Quem te antecede na cadeira n° 2, é Moacir
Andrade, o Maninho, artista de reconhecimento internacional, que pintou a
Amazônia com uma originalidade ímpar e com um estilo paralelo ao de Euclides na
escrita, onde a poesia das cores narra lendas e mitos e fixa paisagens e
costumes amazônicos. De algum modo, que eu não sei traduzir em palavras,
Euclides da Cunha e Moacir Andrade são almas gêmeas – talvez, na inquietação;
na invenção, talvez. Com certeza, na independência criativa de ambos. O teu
desafio é manter acesa essa chama, o que para ti, decerto, não será obstáculo,
pois tens, nas várias modalidades artísticas que abraçaste, essa centelha que
ilumina mundos.
A nossa geração
Atingida a linha demarcatória dos 60 anos,
começo a olhar para trás e para os lados, buscando enxergar o que construímos
nesse tempo que se constitui, há muito, na segunda metade de nossas vidas.
Embora o conceito de geração seja controverso, variando de acordo com a matéria
e ao sabor de interesses esquemáticos, quero falar aqui, Sergio, brevemente, da
nossa geração – minha e tua. Mas antes digo o que entendo por geração: não é
apenas um lapso de tempo, medido em anos; antes, é um tempo interior, medido por
um calendário afetivo, em que pessoas de idade aproximada, ainda que pensando
diferente, têm afinidades eletivas.
Os da nossa geração nascemos pouco antes
da instalação da ditadura militar. Crescemos com ela e nos anos 70 fomos para
as ruas. Em 1984, um congresso acanalhado e acovardado atropelou a História e
adiou as “diretas já” por 5 anos. Crescemos sob a repressão, sim, mas fomos
sempre libertários.
Quero homenagear aqui a nossa geração,
pedindo desculpas antecipadas por eventuais omissões.
Na literatura: Antônio Paulo Graça,
Cláudio Fonseca, Dori Carvalho, Marco Adolfs, Milton Hatoum, Pedro Lucas
Lindoso, Rita Alencar e Silva, Simão Pessoa e Tenório Telles.
Nas artes plásticas: Arnaldo Garcez,
Bernadete Andrade, Fernando Jr., Homero Amazonas, Jorge Palheta, Otoni Mesquita
e Rui Machado.
Na música: Afonso Toscano, Antônio
Pereira, Armando de Paula, a dupla Candinho & Inês, Celdo Braga, Lucinha
Cabral, Mauri Mrq, Roberto Dibo e Zeca Torres.
No teatro: Chico Cardoso, Francisco
Carlos, Luiz Vitalli, Nonato Tavares, Socorro Langbeck e Théo Correa.
E não posso deixar de referir os confrades
Aristóteles Alencar, que você, carinhosamente, diz que é seu “médico do
coração”, Geraldo dos Anjos, pesquisador e historiador, e Mazé Mourão,
jornalista e cronista.
Assim como tu, Sergio, todos esses nomes,
de alguma forma, fazem parte do meu calendário amoroso de uma geração que deu
muitos frutos. E ainda por muito tempo – os que aqui estamos – faremos da arte
a nossa missão.
Verdes anos
Nascido Sergio Vieira Cardoso, em 10 de
março de 1954, nesta cidade de Manaus, que mais tarde viria a ser o ponto
referencial de tua obra – cinematográfica, fotográfica, plástica, dramática;
ou, para usar o adjetivo que os gregos antigos lançavam mão para classificar
tudo o que não era utilitário – tua obra poética. Porque tu pensas poeticamente
– e é poesia o que resulta de teu trabalho, no cinema, na fotografia, na
pintura, no teatro.
E num exercício de imaginação, vejo-te
inicialmente caminhando, de mãos dadas com dona Ruth e seu Fernando, pelas
calçadas da Ramos Ferreira, onde nasceste, há não mais que 100 metros da
Academia Amazonense de Letras. Funcionários públicos, teus pais, assim como tua
avó materna Dinah – pianista, fluente em francês e influência decisiva na tua
formação –, lutavam contra as adversidades enfrentadas pelas famílias pobres de
Manaus, as mesmas dificuldades que meus pais, certamente, encaravam naqueles
anos pós-guerra e pré-Zona Franca. O menino Sergio lutava, desde muito cedo, a
luta da gente grande. Mas não descuidava de ser menino, apenas, inventando e
construindo brinquedos de madeira – aviões, barcos, trens e até um projetor de
cinema, feito com espelhos e lentes de óculos – e encenando as principais cenas
dos filmes assistidos, com cenografia própria, luzes e, sobretudo,
imaginação.
A amizade com o sociólogo e ex-presidente
desta Casa André Araújo foi fundamental na tua formação. O velho e generoso
amigo te emprestava coleções inteiras, com autores russos e franceses,
especialmente, além do bom Monteiro Lobato – e poesia também, do jovem Thiago
de Mello ao maduro Drummond, que já passara da fase de querer ser moderno para
se pretender eterno. Em paralelo, como qualquer garoto da nossa geração, gibis,
gibis e mais gibis. O Teatro Juvenil dos Capuchinhos foi outra semente que te
plantaste. E não podemos esquecer das novelas de rádio, fonte da tua
dramaturgia, junto com o cinema, a que assistias nos cineclubes da cidade, mas
também no Guarany, Polytheama, Odeon e Avenida.
Mas nem tudo era entretenimento. A arte
exige introspecção, recolhimento – e tu tinhas momentos que eram só teus. E a
religiosidade, que é uma de tuas marcas, brota do silêncio, junto com tua arte,
embora nunca tenha interferido nela. Mas, sem dúvida, é o teu suporte
espiritual para seguir lutando – e criando.
A par da formação artística, estudando na
Divina Providência, no Princesa Isabel e no IEA, não negligenciaste de sólida
formação profissional. Advogado, frequentaste a Velha Jaqueira, e te tornaste
procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural,
tens várias especializações na área, em programas de formação nacionais e
internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos
públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do
Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do
Centro Cultural Cláudio Santoro, do Centro Cultural Palácio Rio Negro e do
Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
Madureza
A tua arte, Sergio Cardoso, é
multifacetada. Uso essa expressão para fugir do surrado clichê do
multi-instrumentista, mesmo porque não te vales de vários instrumentos, senão
de dois conjuntos deles: teus olhos e tuas mãos. Os sentidos se amalgamam e se
amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo
para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.
Pintura, fotografia, cinema, teatro – a
tua arte traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como
síntese sinérgica uma obra de arte de alta expressão.
Tivemos oportunidade, no ano passado, de
assistir ao belo documentário que fizeste no centenário de Djalma Batista: com
simplicidade, a partir de depoimentos e de imagens de época, compões o retrato
do cientista e redimensionas o ser humano, dando-lhe a sua estatura real: um
gigante humanista. Djalma Batista é mais que mero nome de rua – é um mito e uma
referência a ser imortalizada pela permanente relembrança; e o teu filme
consolida isso, de uma vez por todas.
A tua obra cinematográfica –
especialmente, os documentários – precisa circular, Sergio. E já se contam às
dezenas, sempre envolvendo figuras de proa da vida amazonense, como Hahnemann
Bacelar, Arnaldo Santos, Jerusa Mustafa, Flaviano Limongi, José Gaspar, o homem
que ensinava a amar o cinema, o nosso coração de campeão Ricardo Pepeta –
carrasco dos rionegrinos como eu –, entre tantos outros.
Como artista de múltiplas faces, tua maior
característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que fundamenta as
obras de teu patrono e de teu antecessor: a inquietação da busca, da procura
constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a
pintura, enveredaste pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos
manuais de arte acadêmica. Teus experimentos já foram mostrados em várias
exposições, mas a mim tocou-me, especialmente, Harborligths, que trazia uma série de fotografias, com
interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho
da Manaus Moderna tomado por mendigos, bêbados e drogados de todos os naipes e
matizes. Um delírio magrittiano, que eu vi assim:
cidade
podre paisagem truculenta transcendente pobreza
instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites
suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde
incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e
cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido no rochedo onde um dia um magritte flutuou
balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada
em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os
barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro
dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia
não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das
ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia
profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a
eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a
pobreza da paisagem podre da cidade[1]
A fotografia e o cinema fizeram o século
XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus
derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se
retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, uma de tuas mais recentes exposições, onde
fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência
da cidade:
Oh City – Stages foi uma exposição em movimento,
cinética, ou como escreveria Glauber Rocha, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se
infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade,
reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.
Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o
movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em
Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos
sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.
Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito
de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai
e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo
esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda,
lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das
máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o
nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do
eterno retorno: não precisamos de luz.[2]
Ao marasmo da arte decorativa, o artista
inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua
arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva
ou não será arte.”[3]
Esta frase do poeta Ferreira Gullar justifica porque não me limitei a fazer
aqui um inventário de tuas exposições. São tantas dezenas delas, seria
cansativo. Além dos prêmios, que merecidamente recebeste. Prefiro instigar a
plateia a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não
se furte a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sergio Cardoso.
Movimento que se observa sobretudo no
teatro, para o qual tens tem sido, ao lado do confrade Márcio Souza, o mais
fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma
cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias
subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a
outra, num grande painel suprarreal. São mais de 20 peças, algumas ainda
inéditas e pelo menos dois prêmios de melhor dramaturgia no Festival de Teatro
da Amazônia, por “A herança maldita de Mercedita de La Cruz” e por “Carmem de
Lazone”.
Devo ressaltar a tua condição de escritor,
essencial para seres aceito na Academia Amazonense de Letras: escritor de
ficção, desfeita qualquer dúvida quanto à homologia entre o texto dramático e a
literatura de ficção.
É desnecessário destacar que Lazone é
Manaus – virada pelo avesso. Virtuosa e dissimulada. Casta e depravada. Mítica
e desmistificada. Uma cidade em contínua desconstrução, em permanente
metamorfose, em perene movimento.
Lazone está para tua obra como o condado
de Yoknapatawpha está para a obra do romancista norte-americano William
Faulkner. Isto está gravado em fogo nas dez peças e mais de trezentas páginas
d’O livro do teatro urbano das mulheres
de Lazone, onde tu trabalhas
sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam,
em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o
cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas
inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações
criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das
primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo
alemão.
As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade
de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de
século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde
convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas
radioativas, mendigos, loucos, socialites,
prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma
fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande
quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas –
muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças,
dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo
vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.
Amanda Catalatas, Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy,
Ambrozhia, Salomeh, Sabine, Crhisályda e Mercedita são mais que meras criações
da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram,
com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade
abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]
Imagem e movimento – opostos harmonizados
na imagem em movimento do cinema ou do teatro – ou no movimento cristalizado em
imagem do quadro ou da fotografia – são conceitos realizados plenamente na tua
arte, plural e polimórfica, singular e convergente, inflexível e resistente –
arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.
Concluindo
Meu caro Sergio, eu meu nome e em nome de todos os
acadêmicos – dos presentes aqui nesta noite memorável, e dos que, por algum
motivo, não puderam aqui estar –, dou-te as boas-vindas e te conclamo ao
trabalho. Porque a glória maior de ser membro da Academia Amazonense de Letras
não é ter uma foto na galeria e o nome gravado na parede da Sala da Memória.
Ser membro da Academia Amazonense de Letras é deixar que ela faça parte de ti,
pelo teu trabalho. Conhecendo o teu talento e tua capacidade, confiamos todos
que será fácil e prazeroso desincumbir-te de tal tarefa.
Reitero, Sergio, em nome de nossos pares, os votos
de boas-vindas: a cadeira de número 2 é tua; esta Casa passa a ser também a tua
casa.
E são teus os aplausos de todos os que
aqui se encontram.
***
[1]
Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril de 2014, no
Espaço Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.
[2]
Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em
construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan
2014. Páginas 72-75.
[3]
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a
morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.
[4]
Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O
livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus:
Valer, 2013. Páginas 19-20.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
A poesia é necessária?
Ismália
Alphonsus de Guimaraens (1870–1921)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Fora d’água, pessoal!
Pedro Lucas Lindoso
Faz
calor. Nada melhor do que um dia relaxando. Perto de um igarapé. Almoçando
aquele tambaqui assado. De preferência de rio e não um ruelo de viveiro.
Antigamente
dizíamos que íamos para um “banho”. Havia os banhos em que se tinha que ser
sócio. Como o Bosque Clube e o Guanabara. Havia os banhos de amigos. Quando fui
para Brasília, lá há os clubes. Menino de calças curtas, vindo de Manaus, disse
na escola que no domingo iria ao banho. Aquilo foi motivo de risada. Bullying,
como se diz hoje em dia.
O certo
é que no domingo passado fomos ao banho. Os banhos agora são chamados de
balneários ou até de resorts. Mas para mim podem dar o nome que
quiserem. Clube, resort, day use, balneário. Banho é banho. Ora essa!
O banho
estava maravilhoso. Praia do Rio Negro. Tambaqui assado no almoço. Pescado pelo
caboclo que nos servia. Pescador, garçom e filho da cozinheira.
O dia
passou rápido. Eram quase seis horas da tarde. Dois curumins, já adolescentes
conversam, enquanto limpavam as mesas. Não dá para entrar mais na água. Vai dar
seis horas.
Aí eu
entrei na conversa. Perguntei o porquê. E o caboclo respondeu que às seis horas
da tarde é um “momento perigoso”.
Achei
estranho. A Igreja Católica costuma chamar esse momento de “Hora do Ângelus”,
associado a memória da anunciação. Reza-se geralmente a Ave Maria.
Aprendi
com os rapazes que caboclos ribeirinhos não entram nos rios às seis da tarde.
Os rios não são só lugares naturais são também espaços entre terra e água,
entre cotidiano e mundo espiritual.
Penso
que evitar entrar no rio nessa hora sugere uma regra de prudência e
proteção. O fim de tarde seria quando
“as coisas” ficam mais ambíguas. Acredito que seja por perigo real, como
correnteza, encalhe, visibilidade, seja pelo medo do sobrenatural.
As
tradições, a cultura, os mitos e lendas amazônicas são de diversidade e riqueza
impressionantes. Segundo aqueles rapazes, nesse horário podem ser percebidas
presenças, assombrações ou encontros com “encantados”.
Eles me
relataram histórias. Em algumas, os seres aparecem no rio. Em outras, a “hora”
é mais importante do que o tipo de criatura.
Já em
casa fiquei pensando se a hora do Ângelus pode ter virado um marcador que a
comunidade usa para reforçar um comportamento seguro “ficar fora da água”.
Como a
religiosidade católica se mistura com o imaginário dos povos ribeirinhos é
comum haver sincretismo cultural. A prática católica do Ângelus, invocação de
Nossa Senhora, convive com narrativas do nosso rico e surpreendente folclore
amazônico.
Pelo
sim, pelo não fui logo avisando à turma:
– Saiam
fora d’água. Hora de ir para casa.
domingo, 27 de setembro de 2026
Breve notícia de Destruição
Zemaria Pinto
Destruição
é um espetáculo
de teatro. Bastava essa informação para descrevê-lo de forma positiva. Mas ele,
o espetáculo, tem outras camadas: memória de Manaus; valorização da
ancestralidade, duas atrizes que se superam; paisagem sonora com personalidade;
valoração do espaço cênico. Isso e mais...
Uma
viúva, que perdera todos do seu entorno, se vê sozinha, com uma planta. Uma
entidade planta. Por fim, ela perde a casa, transformada em estacionamento.
Nada mais cruel. As duas personagens se fundem numa só e o
estacionamento-espaço cênico é tomado pelo povo-plateia.
Francisco
Rider, diretor e dramaturgo, não se escondeu nas coxias, olhando nos olhos do
público.
Vivian
di Oliveira, na paisagem sonora, entrega potência com elegância.
O
trabalho de corpo, criado por Rider e Bruna, torna a dramaturgia em balé, pois
é assim que Koia Refkalefsky, 78 anos, e Bruna Pollari, 24 anos, sustentam o
espetáculo pela maior parte do tempo: um balé de corpos onde as duas atrizes
vivem suas sofridas personagens com incontida alegria.
Espetáculo
independente, Destruição merece uma temporada mais longa. De qualquer
forma, nos dias 03 e 10 de outubro, a trupe estará a postos para novos fins de
tarde de beleza.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
A poesia é necessária?
O defunto
Pedro Nava (05/06/1903 – 13/05/1984)
A Afonso Arinos de Melo Franco,
fragmentos(*)
Quando morto estiver meu corpo,
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Deem-me coroas de pano.
Deem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
e ela lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a ideia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus sabidos quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam: elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua e crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual.
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Deem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança envenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
(*) Malditos editores! Baseado em duas fontes organizadas por Manuel
Bandeira, mas não editadas por ele: Apresentação da Poesia Brasileira
(1964) e Antologia dos Poetas Brasileiros, tomo Bissextos
Contemporâneos (1996).
terça-feira, 22 de setembro de 2026
BR-319, um sonho realizável?
Pedro Lucas Lindoso
Meu
amigo Rômulo Sena me pede para escrever algo especial ou alguma experiência
sobre a BR-319.
Como
cronista inveterado. Há tempos não uso essa palavra – inveterado. Mas é que já
escrevo crônicas faz muito tempo mesmo. Pois bem, como qualquer cronista, fico
matutando temas para minhas crônicas. Eureka! O pedido do Rômulo pode dar uma
boa crônica. Vamos lá.
Eu era
um jovem adulto, amazonense, morador em Brasília, quando foi inaugurada, toda
asfaltadinha, a BR-319. Essa mesma que tanto falam que vai ligar Manaus ao
resto do Brasil. Era o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1976. Os
jornais anunciavam a abertura da rodovia de 885 km conectando Manaus a Porto
Velho. Com todos os trechos asfaltados e
tempo de viagem estimado em doze horas.
Recebíamos
jornais de Manaus em nossa casa em Brasília. Além das festividades de
inauguração, os jornais noticiavam a travessia de bicicleta de dois ciclistas
amazonenses que percorreram o trajeto ida e volta, até Porto Velho, para
celebrar a inauguração da tão esperada rodovia.
Pronto,
pensei. Vou para Manaus no meu fusquinha. A maioria das pessoas da minha
geração tiveram um fusca como primeiro e inesquecível carro.
Dias
depois, estava comendo uma pizza na Dom Bosco. Um boteco tradicional que vende
uma pizza caseira e diferenciada em Brasília. Uma das poucas pizzarias do mundo
que se come pizza em pedaços, na mão e em pé. E até na calçada. Existe até
hoje. Todo brasiliense raiz conhece. Fica na famosa 107/108 Sul, conhecida como
Rua da Igrejinha.
Eu
estava comendo uma pizza quando estaciona, na minha frente, um carro com placa
de Manaus! Aquilo foi uma alegria.
Fui,
claro, conversar com o ilustre conterrâneo. Chamava-se Carlos, morava no
Japiim. Era contador. Trabalhava com o pai. Veio com um amigo para Brasília
atrás de um emprego público Federal. O amigo não gostou da cidade e tinha
voltado para Manaus
Carlos
ficou. Estava empregado num escritório de contabilidade e estudando para
concurso. Já tinha até namorada. Uma bela e simpática goiana. Nunca mais os vi.
Fiquei
com a estranha mania de ficar vendo placas de carro. Depois disso vi no
trânsito umas duas ou três de Manaus.
Acabei
não fazendo a viagem. Quando decidi fazê-la já era impossível. Estava intransitável. Há cinquenta anos tenho
o sonho de chegar aqui por estrada. Ou ir daqui a Brasília. Será um sonho
realizável?
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
A poesia é necessária?
Criar
Agostinho Neto (1922-1979)
Criar criar
criar no espírito
criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem na ponta da bota roceiro
força no esfrangalho das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em formas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Vamos falar de literatura?
Um artesão de imagens e sua doce canção no chão do tempo
Márcia Antonelli
Chegou-me em mãos “Canções no chão do
tempo” do professor, escritor e poeta Arcângelo Ferreira, também autor das
obras “Na claridade do luar: História e Literatura do Clube da Madrugada”,
Diálogos entre História & Literatura em Órfãos do Eldorado, de Milton
Hatoum. “A Sombra e seus duplos” (contos) e “A Merda do Mundo” (contos), em
coautoria com o escritor Thiago Roney (contos).
Atesto que este seu livro de poemas
“Canções no chão do tempo” é um desfrute. Um deleite. Um encanto. Um doce passeio pelas várias
construções e linguagens poéticas. Tudo é uníssono e nos embala ao som de uma
cítara invernada. É como se as palavras voltassem ao útero materno para enfim
descansar da luta. E talvez de fato fosse este o propósito quando o poeta
dedica sua obra à própria mãe.
Fui e vim no embalo das palavras
tocando o chão do tempo. Imagem, som, cheiro, sabor, o espectro do tempo, os
escombros da vida. Fui lendo. Fui gostando. Me envolvendo. Velejando à procura
de mim, talvez. Li em três dias esta obra. Deixei-me mesmo embalar. Levar-me
por ela. A poesia é toda aquela que se planta sem ambição no peito e se planta.
E apaixona-se. “Só se vive eternamente/se se encontrar o esconderijo de
Artémis.”
Impressionante o domínio e a leveza
de Arcângelo no trato com as palavras. Como se desejam e se pertencem
mutuamente. Tão poucas vezes senti paz e alegria e também ternura ao ler um
livro de poemas como este, sem grandes ambições, apenas expressando verdades
simples. Um trabalho original e valoroso, cheio de ritmos e imagens. Palavra e
tempo. Um apelo minucioso com a técnica concretista e haicaísta. Saúdo e celebro esta obra. Tanto quanto a
recomendo.
Amostras poéticas:
Saudade
vou pelo mundo
na imaginação, grito
saudade de tudo...
o que pude viver.
o que ainda não posso?
o que iria/irei erguer...
vou pelo mundo
preso, neste confinamento,
vem saudade de tudo...
Acácias
manto de chuva
no silêncio das acácias –
instante de viver
Vaga Luz
Vaga o crepúsculo,
Lume, a noite que chega –
“ave minúscula”






