domingo, 30 de agosto de 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica
Ricardo Kaate Lima
A literatura realista de crítica social sempre teve grandes
exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de
Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma
potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói
o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo,
nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.
Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o
ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia
da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas
são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices
de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo
ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites
dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se
apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico
que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para
Miami.
Na novela Um grande
Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos
belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de
Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros
operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos,
trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia,
traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.
Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de
vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em
conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de
madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe
como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso
me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição
vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por
aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva)
lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.
Classifico Um Grande
Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico,
rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e
pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o
Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e
não gostamos do que vimos.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
Minha
boca também
Ana
Cristina César (1952-1983)
Minha
boca também
está
seca
deste
ar seco do planalto
bebemos
litros d’água
Brasília
está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso
a mão no teu peito
mapa
de navegação
desta
varanda
hoje
sou eu que
estou
te livrando
da
verdade
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Vamos falar de literatura?
A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – nova obra do escritor amazonense Victor Hugo Neves
Márcia Antonelli
A TUA
IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA é o segundo livro do escritor Victor Hugo Neves.
Trata-se de um livro de crônicas, e que a mim foi atribuída a tarefa de
prefaciar.
Neste
seu novo livro, Victor Hugo revela-se maduro. Conciso. Imponente. Consolida
definitivamente seu talento nato para a crônica. Um dos exercícios mais nobres
do gênero literário, segundo Graciliano Ramos. As crônicas de Victor Hugo são
de uma lucidez, fluidez e coloquialidade impressionantes. Nos faz pensar os
deleites imperceptíveis do dia a dia das pessoas: o viver, o sentir, o sonhar.
Seja da interioridade do ser, ou das questões da cidade mesmo. São crônicas do
olhar de si para si e também do outro para o outro. Numa sociedade que camufla
sua verdade frente a um espelho filtrado ela acaba tendo uma imagem narcisista
e distorcida de si e da realidade que o cerca porque tudo hoje é produzido de
forma falsa, ilusória. O que nos leva ao mito de Narciso, filho da Ninfa Liríope
e de Cefiso, deus dos lagos. Reza a lenda que Narciso caminhando a esmo por um
lindo bosque, parou frente a um lago e nele prostrou-se para admirar sua
própria beleza refletida. Ficou tão encantado por si mesmo que resolveu
mergulhar naquela fonte de água cristalina e desaparecer. O mito de Narciso
nada mais é que uma crítica ao egocentrismo e ao excesso de vaidade. O
personagem Narciso acabou se tornando um mero símbolo do individualismo e do
excesso de amor-próprio. Virtude ou defeito, sabe-se lá, mas que ainda se faz
presente nos tempos atuais e que o autor deste livro se arvora a refletir e nos
mostrar através de suas crônicas líricas, reflexivas. Por vezes, ácidas,
descontraídas, bem-humoradas, onde o autor brinca com as figuras de linguagem,
com as construções frasais, textuais e que também são formas de prender o
leitor. A transição de um texto para o outro se dá de maneira sutil, leve,
espontânea, musical, como a passagem de um Vivaldi para um Strauss.
O bom
cronista é de fato aquele que, com primazia e louvor pelo ofício, é capaz de
perceber no dia a dia de sua vida, impressões, ideias ou visões da realidade
que não são percebidas por todos. Victor Hugo tem este costume. E nada dele
escapa. O que o torna um cronista dos bons. Cada livro seu nos surpreende pela
temática corajosa, pela elegância da escrita e pela docilidade das palavras. A
TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA nos revela tudo isso. Além de ser um livro,
sobretudo, de valores nobres e humanos. Um livro que precisa ser lido, pensado,
valorizado.
Recomendo: A TUA IMAGEM NUM
CANTO DE SARJETA – VITOR HUGO NEVES.
Como adquirir o livro: Em
todas as plataformas digitais de e-book. Também através da editora e livraria
Fonte de Papel e através do WhatsApp do autor: 92 99467 2827.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Amor à prosa
Pedro Lucas Lindoso
Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento
do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões
da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto
de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.
Fui ao encontro determinado a ouvir poesia.
Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do
autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia
gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um
auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na
crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher.
Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo
assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com
conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que
o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.
Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem
dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da
nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a
tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as
coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano
também tem alma e que a alma, sim, escreve.
E eu me apaixono justamente por isso. A
crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não
fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o
riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando
escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma
amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço,
onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura
de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa
esteja sempre em construção.
Há dias em que a crônica é suave, quase
sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro,
obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me
convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o
olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu
coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.
E então, quando termino, eu percebo que não
escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples
por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido
tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo
do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com
atraso.
A crônica me ensina que a literatura pode ser
abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma
e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu
coração, quando a encontra, não sabe fingir.
Eu amo crônicas por isso, por cada conversa
que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por
cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.
E se um dia eu perder a coragem, crônica,
basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem
entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua.
Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica
como presença que fica.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Homenagem a Márcio Souza
domingo, 23 de agosto de 2026
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Coelho Neto e o Gótico Brasileiro
Ricardo Kaate Lima
Quando falamos de literatura gótica,
lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de
castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário
se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética
gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas
tropicais, miscigenação e samba.
Uma reflexão bem equivocada quando
observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada
pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934),
com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos
insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é
avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a
competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o
insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros,
povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos
por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças
vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico
e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.
É impossível falar de Coelho Neto sem
mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases
complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com
elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam
em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no
experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para
ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e
naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a
estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos
amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo
religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo
arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da
presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.
![]() |
| Coelho Neto (1864-1934). |
Coelho Neto deveria ser mais lido,
estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de
Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi
escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense,
agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e
indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do
autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças
de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da
degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de
forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que
ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que
deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já
fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima
Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e
Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que
Lovecraft faria décadas depois.
Felizmente, essa é uma injustiça que
está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores
debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber
o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma
luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.
A Vossa Alteza Literária, Henrique
Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.
Curiosidades:
. Coelho Neto
esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a
Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);
. Autor de mais de
uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um
verdadeiro pop star, ao lado de Olavo
Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não
precisava de títulos;
. Hoje, Coelho Neto
é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa,
antiga rua 25 de Dezembro.
(ZmP)
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
A grande fala
do índio guarani perdido na história e outras derrotas
Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)
9
(fragmentos)
Este poema
tem seus descantes didáticos
suas horas de recreio
e uma aparente desordem
que não irrita o professor
mas, sim, ao fiscal de ensino.
Não posso
por exemplo, o tempo todo
ser meu próprio ladrilheiro
e colar letra por letra
– como o tijolo, o pedreiro.
Poesia
não pode ser obra de carcereiro.
A menos que o guarda esteja
no limiar de suas portas
e nas argolas das horas
descubra
a inversa função da chave
que em vez de trancar, descerra
a imagem presa nas grades.
E este poema
como qualquer prisioneiro
deve ter direito ao sol
e à liberdade
– mesmo que condicional
deve poder se exilar num desgoverno
cometer seus desatinos pelas ruas e
versos
que ao sistema da escrita aberta
cabe o modo poético e dialético
de converter o que era estrume
em flor oferta.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Vamos falar de literatura?
A estética da brutalidade na obra de Vinicius Braga
Márcia Antonelli
Um tapa só. Um soco só. Um vômito só. Bom demais. Gosto do
que me atinge. Do que me atordoa. Do que me provoca o vômito de vomitar.
O desconserto. A estética do brutalismo.
Uma pegada bem Rubem Fonsequiana. Mas é claro que Vinicius Braga tem sua
própria pegada. Seu próprio estilo. Catártico. Áspero. Sem rodeios ou
indiretas. É pow, ping, vrum, schlep, schlep. Balaço no peito do leitor. Nihilo
nihil fit! Eis o Orações Malditas.
Livro de estreia desse talentoso autor que nos apresenta em seu livro, oito
contos intensos, concisos, tensionais. Todos muito bem costurados. Trabalhados.
Explorados. Contos que te prendem. Que te enjaulam. Que te causam imbróglios.
Há qualquer coisa de desconforto, de dor, de desesperança ao lê-los. A
desnatureza de cada protagonista e suas ações humanas é o que há de mais vil e
encantador em cada história presente nessas Orações Malditas. Falo sério que gostei. “Sangue do meu sangue”,
“Orações Malditas” (que dá título ao livro) e “Trinta e oito” são meus
prediletos. Sem desmerecer, é claro, os demais, que também são
arrebatadores e que te atravessam como uma bala. É que prefiro sangue do que
vinagrete, saca? E Vinicius nos oferece isso. Derrama o aperitivo dos deuses no
altar. Envenena o pólen das borboletinhas do jardim. Estoura miolos de bebês
que vomitam sangue nos seios de suas mãezinhas. Calma, calminha, calmante? Eis
os ingredientes deste livro. Vinicius Braga, faz enfim, sua estreia com
essa prosa. Arromba com os pés as portas do obsoletismo caduco da prosa
literária de Manaus, sob a égide do caos, da agonia e da barbárie humana,
sujeitos vítimas do capitalismo selvagem e das novas formas de opressão.
Sugiro, portanto, que leiam Vinicius Braga, e façam logo suas orações de
redenção antes e depois da leitura desta obra.
(Márcia Antonelli é transcritora, autora de contos, novelas,
crônicas e resenhas. Atua na vida atuando.)
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Cercas de jurubeba
Pedro Lucas Lindoso
Quando
meu saudoso pai José Lindoso foi governador do Amazonas continuei morando em
Brasília, terminando meu curso universitário. Tirei férias e vim passar o Natal
com meus pais. Um amigo da faculdade me disse que faria uma viagem de quatro
dias para conhecer Manaus. Naquela época não havia celular. Dei a ele um
telefone que seria da residência onde o governador, meu pai, e mamãe residiam.
O fato
é que o amigo tentou falar comigo diversas vezes e não conseguiu. De volta a
Brasília brincou comigo dizendo que eu estava incomunicável por estar protegido
por uma forte e eficiente cerca de jurubeba. Disse-lhe que sem saber, sem
merecer e sem necessidade fiquei protegido por suposta cerca de jurubeba que
lamentavelmente impediu de nos vermos em Manaus.
Recentemente,
esse mesmo amigo me telefonou convidando-me para sua posse num mandato tampão
de prefeito de uma importante cidade do Nordeste. Infelizmente não pude
comparecer. Liguei ao amigo no número registrado no celular. Não era mais dele.
Liguei em diversos números da prefeitura. Nada. Ainda não consegui falar com
ele.
Depois
de muitos anos quem ficou protegido por uma cerca de jurubeba foi ele.
Diferente de mim. Ele sabe que a cerca existe. Possivelmente merece estar lá. E
os seus assessores acreditam que há necessidade dessa jurubeba.
A
planta jurubeba cresce em cercas, beiras de estradas e terrenos baldios. Como
metáfora popular, trata-se de uma barreira difícil, cheia de “espinhos”. A
jurubeba é um arbusto nativo do Brasil que alcança até três metros de altura. É
um arbusto rústico, com espinhos curtos e curvos no tronco. Existe um dito
popular que entende a “cerca de jurubeba” como ideia de “blindagem às pessoas
importantes. Os VIPs. No caso de políticos, é função de assessores manter
governantes e autoridades afastados do “povo” e protegê-los de críticas,
curiosos ou gente “de interesse”.
O
assessor ou os assessores acham que estão ali para proteger o assessorado das
demandas espinhosas. Assim, tentam impedir as pessoas de ter contato com a
autoridade. Tudo para vetar a entrada de gente indesejada ou inconveniente. O
pior, nestes casos, é que há assessorados que adoram esse tipo de assessor.
Conhecendo meu amigo de longa data, ele provavelmente não é um desses.
Há
pessoas que ainda nem foram eleitas e já estão cercadas de jurubebas.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular
Zemaria Pinto
O dia amanheceu como tantos outros para aquele
formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no
marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o
celular debaixo do travesseiro.
(Marcos
Souza, em “Nimalino”, conto do
livro
Cidade decadente: personas)
Ao usar como epígrafe um fragmento de
texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras,
mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam
a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para
o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada
como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes
e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.
O caro leitor não passará incólume pelo
primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título,
intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura
edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso
Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando,
por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e
tão próximo Gregor Samsa:
Quando
certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um
ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)
A metamorfose de Letério transforma-o de
modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma
narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus,
utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele
quem alimenta essa cidade antagonista.
A obra aborda temas como exclusão,
violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria,
ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da
civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada
pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um
espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu,
para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a
suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente
simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”
Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico.
A oposição simbólica entre noite e dia é
um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e
padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade
relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente
autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as
relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do
outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas
estrutura toda a vida urbana.
A relação entre Letério e Iriane aprofunda
essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a
possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele
expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado
pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer
relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O
episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no
outro uma saída individual para problemas que são coletivos.
Outro aspecto relevante da novela é a
inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes
perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação
em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público
manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de
pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que
não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.
A metalinguagem, presente nos diálogos
entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica
da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar
normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de
uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que
procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma
literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? –
indignação.
Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.
domingo, 16 de agosto de 2026
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
Sugestões
para poemas
Hildeberto
Barbosa Filho
1
Para o
primeiro verso
nada como as
pupilas
da manhã.
Nada como os
pirilampos
da manhã.
Nada como os
pelicanos
da manhã.
Pode batear os
rubis da rima.
Use também as
coisas domésticas:
toalha de
mesa
esmalte de
unha
estojo de
barbear
urinol dedais
agulhas.
Cuidado com
as estrofes longas.
É preciso que
nelas caiba
todo o
deslimite do mundo.
Para os
outros versos
só as
palavras com cheiro de barro.
Palavras que
tenham cor.
Palavras que
tenham olhos
como os
castanhos de Eloisa.
Palavras que
brilhem
como a
neblina.
Para o último
verso
todo cuidado
é pouco.
Talvez melhor
é nem fazê-lo
ou fazê-lo
incompleto
como a morte.
Para o último
verso só serve
a imagem
destampada do infinito
ou, quem
sabe, uma pequena gueixa.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Vamos falar de literatura?
A cidade não inventada na
literatura de Marcos Souza
Márcia Antonelli
Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de alguma trama, real ou fantasiosa, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço. No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento.
UM
GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda
ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de
um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as
brutalidades de um lugar decadente. A
obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu
limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como
seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor.
Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a
prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na
experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo,
contundente e necessário. Nesta sua mais
nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus
personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança
um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e
defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.
Marcos Souza é capaz de
mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz
pensar.
Trecho do primeiro capitulo
“Sol Infernal, dilúvio divino”.
(...) “Quando certa manhã,
Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto
incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o
ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era
tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério
não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a
crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também
sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação,
recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a
chamar de Manaus.”
Eis a precariedade da vida
protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas
por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à
margem de qualquer olhar ou sentimento humano.
UM
GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá
seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026, às 15h, na Rua
Rondônia, 19, Flores.
Recomendo.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Pais que amam
Pedro Lucas Lindoso
Cucurella,
lateral da campeã Espanha, usa o cabelo grande para que o filho autista o
reconheça em campo. Nagatomo, ex-jogador da seleção do Japão, faz algo
parecido. Coloca faixa branca na testa para que seus filhos o encontrem no
gramado.
Há
homens que exercem a paternidade de maneira eficaz, com pequenos gestos. Há um
tipo de carinho que não aparece nos placares. Ele mora nos detalhes. Gestos
pequenos, quase invisíveis, que viram ponte entre pais e filhos. E quando a
bola começa a rolar no campo, há jogadores que são papais excepcionais. Eles
transformam o jogo em reconhecimento, segurança e presença.
Cucurella
entende que, para o seu filho autista, nem sempre o mundo chega do mesmo jeito.
Então ele faz do próprio visual um recado. “Sou eu”. Usa o cabelo grande e
desgrenhado. Um jeito que se torna assinatura no meio da multidão. Não é
personagem de comercial, nem vaidade. É cuidado. É paciência. É a escolha de
facilitar a vida de quem ama. Mesmo quando o céu está cheio de holofotes, as
arquibancadas vibrando e o gramado parece desafiar os jogadores.
Nagatomo,
do Japão, que já esteve em outras copas, mas ainda joga bola, também carrega a
paternidade com atitudes simples, porém profundas. Ele coloca uma faixa branca
na testa, como quem deixa um farol aceso. Nos jogos em dias intensos, a faixa
vira encontro: “procure por aqui”. Para seus filhos, não é apenas um símbolo: é
uma maneira de reconhecimento. É um pai traduzindo amor em forma, cor e
firmeza.
Entre
Cucurella e Nagatomo existe algo que não precisa de explicação. É a paternidade
que é feita de presença constante. Às vezes, ela não vem com grandes discursos.
Vem em improvisos com sentido, em adaptações com ternura, em coragem silenciosa
para tornar o cotidiano mais possível.
E
assim, neste Dia dos Pais, a gente celebra os que olham para o mundo e
perguntam como podem ajudar. Celebra os que escolhem pequenos gestos para dizer,
todos os dias: “Estou aqui”.
Celebra
os que fazem dos campos de futebol, das fábricas, escritórios, escolas e
fazendas, hospitais e tribunais, e da vida, um lugar onde o amor seja fácil de
encontrar. Porque há homens que exercem a paternidade com eficiência. Não pela força, mas pela delicadeza.
Neste
dia dos pais nossas homenagens aos jogadores Cucurella e Nagatomo. E, claro, a
todos os papais do mundo, inclusive o cronista, que é pai e avô. Todos com uma certeza: Pai, quando ama, deixa
marcas que não somem. Feliz dia dos pais.
domingo, 9 de agosto de 2026
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
de leve
Ledusha
feminista sábado domingo
segunda terça quarta
quinta e na sexta
lobiswoman.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Da merenda para a leitura
Pedro Lucas Lindoso
Dona
Graça trabalhava como merendeira em uma escola municipal. Além de cantina,
salas de aula, diretoria e banheiros, a escola possui uma biblioteca.
Infelizmente era pouco usada e até desconhecida por alguns alunos.
Quando
eu era menino em Brasília estudei na Escola Parque. O sistema Escola
Classe/Escola Parque foi idealizado pelo professor e pedagogo Anísio Teixeira.
Tínhamos aulas de Música. Artes, Natação, Artes industriais e Biblioteca. Sim,
aula de biblioteca. Não quis dizer aulas na biblioteca.
O que
se fazia na aula de biblioteca? Ora, apreendia-se a usar o dicionário,
diferenciar livro de ficção de não-ficção.
Conceitos como livros de referência, periódicos, jornais, revistas etc.
Para que servem e como usá-los. Mas o mais importante era o constante incentivo
para nos tornarmos leitores. Incentivados a um difícil hábito para muitos.
Gostar de ler!
Dona
Graça, a merendeira, mesmo sem ter tido aula de biblioteca, intuitivamente,
sabia que a leitura é um habito. Os
alunos devem ser não só incentivados, mas também ensinados a gostar de ler.
Não
havia bibliotecária na escola. Quem ficava na biblioteca era uma professora
asmática que fora readaptada. A readaptação deu-se porque a professora não
tinha mais condições físicas de dar aulas. Quando as escolas não sabem o que
fazer com readaptados, mandam tomar conta da biblioteca.
Dona
Graça depois de sua função na cantina ia para a biblioteca. Tornou-se uma
leitora voraz. E só tinha até a quarta série primária. Começou então a ajudar a
professora asmática a arrumar os livros, limpar o espaço e convencer os alunos
a ler.
Certo
dia a professora readaptada finalmente se aposentou. A diretora, para não
fechar a biblioteca, perguntou se Graça gostaria de ficar no lugar da
aposentada. Ela topou. Uma outra merendeira substituiu Graça na cantina.
A merendeira então pós em prática os planos
adiados da readaptada. Graça aliou-se às quatro professoras de Língua
Portuguesa. Promoveram concurso de poesia, de contos, de acróstico e até de
haicai. Às sextas comemorava-se aniversários de escritores. Preferencialmente,
autores portugueses e brasileiros. Mas qualquer celebridade da literatura
poderia ser comemorada. Os alunos faziam lanche comunitário. O projeto ficou
denominado de “merenda com leitura”. Um sucesso. Dona Graça e as professoras de
Português montaram cinco estratégias para levar as crianças a se tornarem leitores.
1.Tornar
a leitura divertida. Deixar a criança escolher livros. Seja de aventura,
mistério, futebol, games, ou histórias em quadrinhos.
2.Ler
junto com a meninada no começo. Alguns minutos diários em voz alta ou
alternando a leitura.
3.Conectar
com interesses deles. Sugerir livros parecidos com personagens e assuntos de
que a criança goste.
4.
Valorizar o esforço, com elogios curtos e elogiar a “curiosidade” e a
“continuação”. Não só o fato da criança
“ter lido” determinado livro. E ainda incentivar a troca entre amigos e colegas
5.
Facilitar o acesso à biblioteca. Tornar o local agradável, refrigerado,
decorado, limpo e atraente
Graça fez EJA e cursou Pedagogia. Ela resume sua saga: “da merenda para a leitura”.









