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| Cine Popular, depois Cine Pop, ficava na esquina da Silva Ramos com Barcelos. |
ensaios, contos & outras prosas
Tudo vai piorar
Ademir Demarchi
um golpe
de estado
não abole o azar
Pedro Lucas Lindoso
Neste
24 de janeiro comemorou-se o dia do aposentado. Se conselho fosse bom não
se dava. Vendia-se. O conselho que dou é ter consciência de que não existe
aposentadoria da vida.
A vida
é uma jornada cheia de surpresas. Uma das maiores ironias é que, ao contrário
do que muitos pensam, não existe uma aposentadoria definitiva. Essa ideia de
que podemos nos retirar para um merecido descanso, longe das obrigações e
responsabilidades, é um mito.
Finalmente,
chega-se ao tão sonhado momento da aposentadoria. Depois de anos de trabalho
duro, você se vê livre das amarras do escritório, das reuniões intermináveis e
dos prazos apertados. A primeira semana é um paraíso. Acorda-se tarde, toma-se
café da manhã sem pressa e se decide que hoje é dia de fazer nada. Mas,
rapidamente, a realidade se impõe. O que fazer com todo esse tempo livre?
A
verdade é que as obrigações não desaparecem. Elas apenas mudam de forma. Agora,
torna-se o responsável por decidir o que fazer com o seu dia. Nem sempre. Como
todo bom aposentado, logo se vê envolvido em cuidar de netos, resolver coisas
para filhos, fazer compras, e, claro, as necessárias ou impostas visitas ao
médico.
A
aposentadoria pode parecer um sonho, mas ela vem com suas próprias armadilhas.
Você pode acabar se tornando um especialista em “run errands”. É uma expressão
em inglês que não tem tradução literal. Significa resolver coisas na rua ou
fazer tarefas do dia a dia. Pode incluir ir ao banco, passar no mercado, buscar
algo na farmácia.
Ai a
pessoa se torna um faz tudo. Já que está aposentado, que tal você providenciar
tinta para impressora? Limpeza do ar? Arrumar o escritório? A aposentadoria
traz à tona novos tipos de trabalho. Já que...? O aposentado torna-se ponto de
referência para tudo.
A liberdade que você tanto desejou se
transforma em uma nova forma de trabalho, onde a única recompensa é a
satisfação de ver filhos e netas felizes. A vida, em sua essência, não permite
aposentadorias. Mesmo quando se retira do mercado de trabalho, as
responsabilidades e os desafios continuam a surgir. Você pode até tentar se
aposentar da vida social, mas logo perceberá que a solidão não é uma opção
viável. As amizades precisam ser cultivadas. E encontros com amigos que gostam
de literatura e arte, como eu, necessários.
A vida
não para, e, na verdade, a vida continua, cheia de altos e baixos. A
aposentadoria é apenas uma nova forma de encarar essa jornada. Rir das
situações que surgem ao longo do caminho é essencial. No final das contas, a
vida pode ser divertida, repleta de acontecimentos que nos ensinam a valorizar
cada momento. Mesmo aqueles que parecem ser apenas mais um dia comum.
Vento
Lilian Aquino
Num fim de tarde
os cacarecos
rolavam
pelo telhado da casa.
O assobio do vento
dava um sentimento
de chamado
– querer revirar, despedaçar –
quando o certo é desenterrar
os ossos
e fincar os pés na terra
ainda seca.
Acima daquele sobradinho
espremido entre edifícios
pássaros voavam numa
espécie de dança circular
seguindo o vento.
As asas batendo somavam
desejos de ar.
Anunciada por ele
a chuva que chegou
não foi suficiente
pra tanto pó.
Pedro Lucas Lindoso
Conversando
com Scott, amigo americano dos tempos de intercâmbio, fui perguntado se acredito
em “generation gap”. Geralmente se traduz isso por “conflito de gerações”. Só
que eu sempre achei essa tradução meio canhestra.
Explico:
“gap” não significa conflito. Tem vários significados. Lacuna, fenda. E também
descompasso, disparidade. Se a tradução não é literal, pelo menos elas se
complementam. Prefiro a ideia repassada pelo Inglês. Não acho que haja um
conflito entre a minha geração e as que me antecederam e as que me sucedem.
O que
sempre achei é que existe mesmo um hiato. Uma certa disparidade. Principalmente
no falar e na facilidade em usar e adaptar-se às novidades tecnológicas. E em
palavras inerentes às tais novidades. Minha mãe teve dificuldades em usar
videocassete. A mesma dificuldade que sinto em usar plenamente todos os apps
e funções desses celulares ultramodernos.
As
novas gerações não sabem o que é eletrola, secretária eletrônica ou mesmo
videocassete. Assim como muitos jovens
não sabem o que é um cromo, há idosos que demoram para saber o que é um
aplicativo ou o significado de spoiller ou crush.
Vi numa
clínica de fisioterapia uma prancha de equilíbrio de propriocepção. E não sabia
o que era isso. Mas achei a prancha bem interessante e foi importante treinar
com aquilo. Em tempo: propriocepção é a capacidade do corpo de sentir sua
posição, movimento e equilíbrio no espaço. Ou seja, saber equilibrar-se.
Pois
bem, matriculei-me numa academia de ginástica. E fui perguntar ao professor se
ele tinha prancha de...? Esqueci a palavra propriocepção. E descrevi a tal
prancha como um grande mata-borrão. Foi inútil. O professor
não tinha a mínima ideia do que era um mata-borrão.
Para
quem não sabe, mata-borrão serve para absorver o excesso de tinta. Muito usado
com as antigas canetas-tinteiro, para secar a tinta e evitar borrões. Se o
professor não sabia o que era mata-borrão eu lá sabia o que era prancha de
propriocepção!
Isso é
conflito de geração ou um descompasso, uma lacuna geracional?
Zemaria Pinto
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
(T. S. Eliot)[1]
O âmago
da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a
cidade.
Baudelaire
teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe
povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2]
O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente
só.
Para
Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas
em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais
distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para
parecerem profundos.”[3]
Mário
de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu
sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei
comigo...”[4]
Para
expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas,
Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e
aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e
sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5]
dando o poeta lugar ao prosaico narrador.
São dez
contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate
necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns,
como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis,
como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito
assim parece simples, mas não.
Para
mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la
em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas,
cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar,
nos contos de Cidade decadente: personas.[6]
Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.
De
bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a
cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e
Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do
dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do
impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.
Um
personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si
todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a
gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o
pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da
“virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com
Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se
envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência)
eterna.
Nesta
breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar
sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana,
alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a
exceção.
Na
cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto
estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A
literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente
colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é
perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p.
109)
Mas a
sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes
amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de
que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.
Leitora,
leitor, leitore (?): liga aí o GPS...
[1]
ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2.
ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.
[2]
BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
In: Poesia e prosa. Organização: Ivo
Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.
[3]
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para
ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes,
2008. p. 175.
[4]
ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo:
Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.
[5]
apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos
literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.
[6]
SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor,
2024.
Antes do cânone
Mariana Marino
na pedra a primeira escrita
documentou a produção agrícola
das cidades esquecidas
e figuras desimportantes
porque trabalhavam com as mãos
e a sujeira fincava nos dedos
e a fuligem tomava os pescoços
grossos como os pés
nada ainda era sobre domínio
ou articulação discursiva
não existia política e ideologia
a formação do mundo sem cartilha
ou lápis pré-fabricados
e gênios envaidecidos
e homens vitoriosos
era a terra e a fome
e a chuva e a sorte
sem sul e norte
foram escritas na pedra
estórias mortas
por gente morta
sem glória e futuro
e mesmo assim escreviam
seguiam escrevendo
axiomas do vento
Pedro Lucas Lindoso
A moça
do tempo do Jornal Nacional fala de rios voadores. Epa! Pelo que sei nossos
rios na Amazônia não voam.
A
repórter do tempo explica que os rios voadores têm origem no Oceano Atlântico.
Voam pela Amazônia e descem para o Sudeste. Pelo que eu entendi, os tais rios
voadores vão desaguar lá pelo Sudeste. Quer parecer que alagações frequentes no
Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espirito Santo acontecem nesta época do ano
devido aos rios voadores. Pouco entendo de Meteorologia, mas se eu estiver
errado, por favor me corrijam.
Graças
a Deus, nossos rios aqui na Amazônia não voam. E os tais rios voadores passam
aqui voando bem alto.
Se a
moça do tempo afirma que os rios voadores existem. Deve ser verdade mesmo.
Nossos rios, com certeza, não voam. E eu concordo. São muito caudalosos. Já
pensou o Amazonas, o Negro, o Madeira, o Juruá e o Purus voando? Seria o fim do
mundo. Ainda bem. Eles apenas namoram com o céu, com o sol e com a lua. Mas
nunca voaram.
O amor
do Rio Negro com o pôr do sol já deu casamento. Como o luar no Madeira e o céu
do Juruá.
Eu olho
para o rio Negro, que banha Manaus. Será que ele está comprando passagem para
uma viagem ao Sudeste? Mas ele não voa. Na verdade, está apenas tomando tacacá
com a Praia da Ponta Negra.
A moça
do tempo jura que os rios voadores nasceram lá no Oceano Atlântico e que, de
vez em quando, se enfiam pela Amazônia como turistas mal-educados. Mas aqui na
Amazônia, os rios são mais reservados. Eles não voam; eles flertam. Voam só nos
livros de Geografia. Nesses livros o Rio Amazonas é um dragão alado que guarda
segredos de peixe-boi, boto, cobra grande, piranhas e pirarucus.
E
quando a chuva cai, como sinfonia de tambores, os rios parecem pedir “calma,
pessoal”. “A pororoca é só lá embaixo no Pará.”
A cheia
vai ser a de sempre. Com fartura. E nas vazantes temos belas praias. As cidades
têm até maré de rios e de alegria.
Enquanto
isso, a moça da TV insiste nos rumores sobre rios voadores.
Os
curumins ribeirinhos brincam de explorar. Não, não é exploração de floresta. É
pura imaginação. Brincam com as areias das praias e preenchem garrafas com água
de rio. E fingem que estão apanhando o próprio céu em potes. “É o rio que
voa?”, perguntam curiosos. Um curumim observa o céu e diz que um rio está
passando acima das copas das árvores.
Um
grupo de pescadores aponta para pontos onde o céu parece espelhar o rio que não
voa. E pensa que se ele não voa, pelo menos nos traz alegria com a chuva que
cai sem pressa.
E a
moça do tempo voltou a falar nos rios voadores!
Peixe em arabesco
Jussara Salazar
a cambraia fina teceu fio a fio
o vestido de elizabeth bishop
a cambraia negra desmanchou fio a fio
o vestido de elizabeth bishop
elizabeth bishop como um peixe
um feixe
uma cadela
colada na cambraia
fio a fio
nadando na baía de guanabara
flutua seu vestido-anáfora-âncora
um sintagma repetido
mil vezes tecido
fio a fio
e era fina essa cambraia
and then there is no choice
elizabeth bishop
Pedro Lucas
Lindoso
Eu me
encantei com Portugal. Se pelo lado materno sou fortemente libanês, da família
Daou, os Lindoso têm suas origens no norte de Portugal. Na região do Minho.
O Minho
é uma região rica em tradições. E importante para a História de Portugal. Lá fica Guimarães que é o berço da Nação
portuguesa. No Minho temos cidades encantadoras, além de Guimaraes. Como Braga,
Ponte de Lima e Viana do Castelo.
A
freguesia de Lindoso fica no Município Ponte da Barca que é distrito de Viana
do Castelo. Caro leitor. Não sou megalomaníaco. Mesmo porque todos os castelos
em Portugal estão na mão do estado. Mas há um castelo na freguesia de Lindoso.
A
Região do Minho produz excelente vinho. Principalmente o vinho verde. Desde
jovem eu gosto muito desse tipo de vinho. Hoje sei o porquê. Casal Garcia é um
dos mais famosos. O vinho favorito de meu inesquecível pai. Nas raras vezes em
que bebia.
A
região do Minho é o coração verde de Portugal. A paisagem é de tirar o folego.
Os turistas em geral, principalmente as mulheres, ficam encantados com os
bordados e filigranas. A gastronomia então nem de fala. Com o delicioso vinho
verde da região é um espetáculo à parte.
Como
todo cronista, adoro mexer, observar, usar e trabalhar com palavras. Ji fiz uma
crônica em que relatava que cruzeta (cabide de roupa) é usado em Manaus e em
Portugal. O sulista e o sudestino só conhecem a palavra cabide.
Ora,
todos sabem que trem em Portugal é comboio.
Meninos são miúdos e café da manhã é pequeno almoço. Freio é travão.
Pode-se comprar cuecas masculinas e femininas. As gostosas diferenças já podem
ser notadas no voo da TAP. Eles chamam avião de avião. Não de aeronave. Após o
avião aterrar, ao chegar ao aeroporto de Lisboa ou de O Porto, você irá
recolher suas malas e maletas num tapete.
E não em esteiras, como os brasileiros são acostumados.
Mas
poucos sabem que em Portugal não se diz colocar os pingos nos is. Os
portugueses dizem colocar a pinta no i. E no jota.
Vamos
colocar as pintas nos is. Há diferenças, pá!
Preciso de um poema
Juliana Abdon
Preciso de um poema
Que me esvazie do dia
Mas que também me amanheça
Um poema que me ignore
E que vez em quando
Me reconheça
Preciso de um poema
Abençoado com a rigidez das nuvens
E a maciez do ferro
Um poema selvagem que assente o carinho
E tão dócil que ante o carinho repetido mostre os dentes
Preciso de um poema que me lembre
Mas que também me esqueça
Um dos
mais significativos Evangelhos do Advento trata da bela passagem em que Maria,
já prometida a José, aparece grávida. Num primeiro momento, ele a repudiou em
segredo. E evitou que fosse difamada. Depois, o anjo Gabriel aparece em sonho.
Disse-lhe que não deveria temer. Maria estava grávida por obra do Espírito
Santo. Então José a protegeu e a preservou até o nascimento de Jesus.
Muitos
homens sem fé questionam a atitude de José. Para alguns seria difícil se casar
com uma jovem grávida sabendo que o filho não era seu. José, homem justo e de
fé, assumiu Jesus como filho.
O anjo
Gabriel mandou que José lhe desse o nome de Jesus. Pela tradição judaica, ao
dar nome ao filho, o pai o reconhece como tal.
A
concepção de Jesus por Maria é uma promessa de Deus. José era um homem simples
e reto, daqueles que carregam o peso do mundo sem fazer ruído. Vivendo nas ruas
de Nazaré, ele não era famoso nem poderoso, apenas firme naquilo que acreditava
ser correto.
Quando
o anjo Gabriel apareceu em sonho, anunciando que Maria haveria de conceber pelo
poder do Espírito Santo, José não hesitou. Ele sabia que a obediência que nasce
do dever é uma virtude.
Gabriel
o chamou para ser guarda da promessa. José, homem de carpintaria, viu na
notícia não apenas um chamado, mas uma responsabilidade. Haveria de proteger
Maria, cuidar do que viria, sem entender completamente o alcance do que
ocorreria.
José
não questionou os motivos, não exigiu provas. Ele confiou na verdade que se
revelava através da coragem de Maria e da bondade do desconhecido que, de forma
divina, já caminhava entre eles.
E
naquela noite de estrelas apenas começava a grande travessia que encerraria em
uma manjedoura, nos campos de Belém, sob o brilho tímido de uma esperança que
iluminaria o mundo.
O anjo
havia pedido uma confiança que se traduzia em ações, não em palavras
grandiosas. E José respondeu com o que melhor sabia fazer: oferecer abrigo,
proteção e um lar simples, onde o milagre pudesse acontecer sem pressa, sem
pressões.
Que
possamos aprender com José que o verdadeiro heroísmo pode nascer no toque firme
de uma mão que segura outra e no cuidado diário. E que, mesmo quando as
estradas são áridas, a justiça de José ilumine nossos caminhos. Não por poder,
não por reconhecimento, mas pela dignidade de um coração que acolhe, mesmo sem
entender tudo, quem chega com uma promessa de vida. Como chega todo ano o
Menino Deus. É o Natal.
Eternidade líquida
Marília Kubota
no futuro
serei uma autora esquecida
como hoje sou esquecida
para apagar a luz do banheiro
ou pagar a conta de luz
para anotar endereços
no smartphone
ou me candidatar
como aspone do poeta de vanguarda
no futuro
serei uma autora esquecida
como hoje sou esquecida
abram a página 48
e leiam o poema como um jogo
não como algo a ser lembrado
séculos e séculos
tatuado no rabo da lagartixa
que nem tal se você é cânone
ser esquecida é igual a esquecer
embora poeta não seja igual a poetisa
tente vir-a-ser neste mundo líquido
seu poema será pintado em shopping
você receberá diploma de bom poeta
será aplaudida em aniversários
nestes eventos fantásticos
agradecerá gesticulando sem parar
pedindo pelo amor quero ser esquecida
Pedro Lucas Lindoso
Idalina
sempre viaja para Europa, quando acaba o verão por lá. Os meses de setembro e
outubro são ótimos para curtir o velho continente. Desta vez, decidiu ficar
quinze dias em Barcelona, cidade em que uma amiga de infância a esperava como
uma antiga jazz music em meio às
pedras da Ladeira de Sant Felip Neri. Depois seguiria para Paris e Lisboa,
antes de retornar ao Brasil. Idalina quis aproveitar o outono, em catalão,
chamado “a tardor”.
A
palavra tardor carrega consigo uma doçura que parece respirada de uma vitrola
antiga. Não é apenas a estação. É a pausa que o corpo faz para ouvir o
tique-taque das folhas que se rendem ao chão. Em Barcelona, a tardor não vem de
supetão. Chega devagar, com brisa deliciosa e com o perfume de castanhas
assadas que invadem o ar das praças. Os dias de tardor chegam com uma paleta
que parece ter sido escolhida por um pintor que gosta de segurar a respiração.
O dourado das folhas, o rubor suave das sombras sobre as fachadas. Idalina
caminha pela cidade como quem lê um poema antigo. Cada esquina revela um
recorte de tempo. A luz baixa que se derrama sobre o mar, os telhados de
terracota, que lembram vinhos envelhecidos, as sombras de Gaudí, que parecem
ouvir a conversa das árvores.
Idalina
e sua amiga passeiam nas habituais rotas entre o Bairro Gótico e El Born, onde
cada mural conta uma história de amor, cada esquina abriga uma lembrança de
quem já vivenciou a cidade com o coração aberto.
A amiga
de infância a recebeu com um abraço que sabe da juventude que um dia foi, e que
retorna, porém mais sábia, para partilhar a tarde na beira da praia de
Barceloneta. Elas conversam sobre o tempo, sobre as escolhas que as levaram a
caminhos diferentes, e sobre a alegria de encontrar-se novamente em uma cidade
que parece sempre nova, mesmo quando já se fez parte do seu mapa pessoal.
A
Sagrada Família, que, sob a luz suave da tardor, revela detalhes ocultos em
roxo e ocre, como se o tempo estivesse trabalhando em um vitral de paciência.
As ruas de Eixample, onde as fachadas de granito guardam histórias de outras
eras, enquanto a tarde se coloca de modo poético entre os telhados. Ao
entardecer, Idalina ouve a melodia de artistas de rua que tocam violões e
saxofones.
O
jantar é simples: pão com tomate, azeite, uma taça de vinho e uma risada que se
transforma em promessa para o dia seguinte.
Quando
a tardor chegar ao fim, com a última folha a ser levada pela brisa, Idalina
guarda na mala não apenas lembranças, mas também uma nova maneira de perceber o
tempo. Barcelona, em quinze dias, ensinou-lhe que o outono não é apenas uma
estação, é uma forma de olhar o mundo.
Com pausas, com amizades antigas e importantes, com a certeza de que as
belezas da vida resistem ao passar dos dias.
Ao
retornar ao Brasil, levará consigo o perfume das tardes de tardor, o calor de
uma amizade que acolheu a infância, e a alegria de ter vivido, por um breve
instante, sob o encanto de uma cidade que sabe transformar o cotidiano em
poesia. E, quem sabe, ao descrever essas férias de tardor em Barcelona, possa
ainda inspirar seu dileto sobrinho cronista a fazer mais uma de suas crônicas
semanais.