Amigos do Fingidor

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coelho Neto e o Gótico Brasileiro

Ricardo Kaate Lima

 

          Quando falamos de literatura gótica, lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas tropicais, miscigenação e samba.

          Uma reflexão bem equivocada quando observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934), com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros, povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.

          É impossível falar de Coelho Neto sem mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.


Coelho Neto (1864-1934).


          Coelho Neto deveria ser mais lido, estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense, agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que Lovecraft faria décadas depois. 

          Felizmente, essa é uma injustiça que está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.

          A Vossa Alteza Literária, Henrique Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.

  

Curiosidades:

. Coelho Neto esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);

. Autor de mais de uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um verdadeiro pop star, ao lado de Olavo Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não precisava de títulos;

. Hoje, Coelho Neto é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa, antiga rua 25 de Dezembro.

(ZmP)




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)

 

9 (fragmentos)


Este poema

tem seus descantes didáticos

suas horas de recreio

e uma aparente desordem

que não irrita o professor

mas, sim, ao fiscal de ensino.

Não posso

por exemplo, o tempo todo

ser meu próprio ladrilheiro

e colar letra por letra

– como o tijolo, o pedreiro.   

Poesia

não pode ser obra de carcereiro.

A menos que o guarda esteja

no limiar de suas portas

e nas argolas das horas

descubra

a inversa função da chave

que em vez de trancar, descerra

a imagem presa nas grades.

E este poema

como qualquer prisioneiro

deve ter direito ao sol

e à liberdade

– mesmo que condicional

 

deve poder se exilar num desgoverno

cometer seus desatinos pelas ruas e versos

que ao sistema da escrita aberta

cabe o modo poético e dialético

de converter o que era estrume

em flor oferta.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?

A estética da brutalidade na obra de Vinicius Braga

 

Márcia Antonelli

 

Um tapa só. Um soco só. Um vômito só. Bom demais. Gosto do que me atinge. Do que me atordoa. Do que me provoca o vômito de vomitar.  O desconserto.  A estética do brutalismo. Uma pegada bem Rubem Fonsequiana. Mas é claro que Vinicius Braga tem sua própria pegada. Seu próprio estilo. Catártico. Áspero. Sem rodeios ou indiretas. É pow, ping, vrum, schlep, schlep. Balaço no peito do leitor. Nihilo nihil fit!  Eis o Orações Malditas. Livro de estreia desse talentoso autor que nos apresenta em seu livro, oito contos intensos, concisos, tensionais. Todos muito bem costurados. Trabalhados. Explorados. Contos que te prendem. Que te enjaulam. Que te causam imbróglios. Há qualquer coisa de desconforto, de dor, de desesperança ao lê-los.  A desnatureza de cada protagonista e suas ações humanas é o que há de mais vil e encantador em cada história presente nessas Orações Malditas. Falo sério que gostei. “Sangue do meu sangue”, “Orações Malditas” (que dá título ao livro) e “Trinta e oito” são meus prediletos. Sem desmerecer, é claro, os demais, que também são arrebatadores e que te atravessam como uma bala. É que prefiro sangue do que vinagrete, saca? E Vinicius nos oferece isso. Derrama o aperitivo dos deuses no altar. Envenena o pólen das borboletinhas do jardim. Estoura miolos de bebês que vomitam sangue nos seios de suas mãezinhas. Calma, calminha, calmante? Eis os ingredientes deste livro. Vinicius Braga, faz enfim, sua estreia com essa prosa. Arromba com os pés as portas do obsoletismo caduco da prosa literária de Manaus, sob a égide do caos, da agonia e da barbárie humana, sujeitos vítimas do capitalismo selvagem e das novas formas de opressão. Sugiro, portanto, que leiam Vinicius Braga, e façam logo suas orações de redenção antes e depois da leitura desta obra.

 


(Márcia Antonelli é transcritora, autora de contos, novelas, crônicas e resenhas. Atua na vida atuando.)

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cercas de jurubeba

Pedro Lucas Lindoso

 

Quando meu saudoso pai José Lindoso foi governador do Amazonas continuei morando em Brasília, terminando meu curso universitário. Tirei férias e vim passar o Natal com meus pais. Um amigo da faculdade me disse que faria uma viagem de quatro dias para conhecer Manaus. Naquela época não havia celular. Dei a ele um telefone que seria da residência onde o governador, meu pai, e mamãe residiam.

O fato é que o amigo tentou falar comigo diversas vezes e não conseguiu. De volta a Brasília brincou comigo dizendo que eu estava incomunicável por estar protegido por uma forte e eficiente cerca de jurubeba. Disse-lhe que sem saber, sem merecer e sem necessidade fiquei protegido por suposta cerca de jurubeba que lamentavelmente impediu de nos vermos em Manaus.

Recentemente, esse mesmo amigo me telefonou convidando-me para sua posse num mandato tampão de prefeito de uma importante cidade do Nordeste. Infelizmente não pude comparecer. Liguei ao amigo no número registrado no celular. Não era mais dele. Liguei em diversos números da prefeitura. Nada. Ainda não consegui falar com ele.

Depois de muitos anos quem ficou protegido por uma cerca de jurubeba foi ele. Diferente de mim. Ele sabe que a cerca existe. Possivelmente merece estar lá. E os seus assessores acreditam que há necessidade dessa jurubeba.

A planta jurubeba cresce em cercas, beiras de estradas e terrenos baldios. Como metáfora popular, trata-se de uma barreira difícil, cheia de “espinhos”. A jurubeba é um arbusto nativo do Brasil que alcança até três metros de altura. É um arbusto rústico, com espinhos curtos e curvos no tronco. Existe um dito popular que entende a “cerca de jurubeba” como ideia de “blindagem às pessoas importantes. Os VIPs. No caso de políticos, é função de assessores manter governantes e autoridades afastados do “povo” e protegê-los de críticas, curiosos ou gente “de interesse”.

O assessor ou os assessores acham que estão ali para proteger o assessorado das demandas espinhosas. Assim, tentam impedir as pessoas de ter contato com a autoridade. Tudo para vetar a entrada de gente indesejada ou inconveniente. O pior, nestes casos, é que há assessorados que adoram esse tipo de assessor. Conhecendo meu amigo de longa data, ele provavelmente não é um desses.

Há pessoas que ainda nem foram eleitas e já estão cercadas de jurubebas.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular

 Zemaria Pinto

 

O dia amanheceu como tantos outros para aquele formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o celular debaixo do travesseiro.

 

(Marcos Souza, em “Nimalino”, conto do livro

Cidade decadente: personas)

 

Ao usar como epígrafe um fragmento de texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras, mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.  

O caro leitor não passará incólume pelo primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título, intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando, por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e tão próximo Gregor Samsa:

 

Quando certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)

 

A metamorfose de Letério transforma-o de modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus, utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele quem alimenta essa cidade antagonista.

A obra aborda temas como exclusão, violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu, para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”

Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico. 

A oposição simbólica entre noite e dia é um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas estrutura toda a vida urbana.

A relação entre Letério e Iriane aprofunda essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no outro uma saída individual para problemas que são coletivos.

Outro aspecto relevante da novela é a inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.

A metalinguagem, presente nos diálogos entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? – indignação.

Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.


Projeto Gráfico e capa: Wilson Prata
Fotografias: Samuel Liberato 
Apresentação: Zemaria Pinto
Temiporã Edições

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXXVIII

 

Reclame do Hotel Amazonas, de março/1952.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

Sugestões para poemas

Hildeberto Barbosa Filho

 

1

Para o primeiro verso

nada como as pupilas

da manhã.

 

Nada como os pirilampos

da manhã.

Nada como os pelicanos

da manhã.

 

Pode batear os rubis da rima.

Use também as coisas domésticas:

 

toalha de mesa

esmalte de unha

estojo de barbear

urinol dedais agulhas.

 

Cuidado com as estrofes longas.

É preciso que nelas caiba

todo o deslimite do mundo.

 

 

Para os outros versos

só as palavras com cheiro de barro.

 

Palavras que tenham cor.

Palavras que tenham olhos

como os castanhos de Eloisa.

Palavras que brilhem

como a neblina.

 

Para o último verso

todo cuidado é pouco.

 

Talvez melhor é nem fazê-lo

ou fazê-lo incompleto

como a morte.

 

Para o último verso só serve

a imagem destampada do infinito

ou, quem sabe, uma pequena gueixa.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?


A cidade não inventada na literatura de Marcos Souza

Márcia Antonelli

 

Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de alguma trama, real ou fantasiosa, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço.  No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento. 

UM GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as brutalidades de um lugar decadente.  A obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor. Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo, contundente e necessário.  Nesta sua mais nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.

Marcos Souza é capaz de mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz pensar.

Trecho do primeiro capitulo “Sol Infernal, dilúvio divino”.

(...) “Quando certa manhã, Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação, recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a chamar de Manaus.”

Eis a precariedade da vida protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à margem de qualquer olhar ou sentimento humano.

UM GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026, às 15h, na Rua Rondônia, 19, Flores.

Recomendo.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Pais que amam

 Pedro Lucas Lindoso

 

Cucurella, lateral da campeã Espanha, usa o cabelo grande para que o filho autista o reconheça em campo. Nagatomo, ex-jogador da seleção do Japão, faz algo parecido. Coloca faixa branca na testa para que seus filhos o encontrem no gramado.

Há homens que exercem a paternidade de maneira eficaz, com pequenos gestos. Há um tipo de carinho que não aparece nos placares. Ele mora nos detalhes. Gestos pequenos, quase invisíveis, que viram ponte entre pais e filhos. E quando a bola começa a rolar no campo, há jogadores que são papais excepcionais. Eles transformam o jogo em reconhecimento, segurança e presença.

Cucurella entende que, para o seu filho autista, nem sempre o mundo chega do mesmo jeito. Então ele faz do próprio visual um recado. “Sou eu”. Usa o cabelo grande e desgrenhado. Um jeito que se torna assinatura no meio da multidão. Não é personagem de comercial, nem vaidade. É cuidado. É paciência. É a escolha de facilitar a vida de quem ama. Mesmo quando o céu está cheio de holofotes, as arquibancadas vibrando e o gramado parece desafiar os jogadores.

Nagatomo, do Japão, que já esteve em outras copas, mas ainda joga bola, também carrega a paternidade com atitudes simples, porém profundas. Ele coloca uma faixa branca na testa, como quem deixa um farol aceso. Nos jogos em dias intensos, a faixa vira encontro: “procure por aqui”. Para seus filhos, não é apenas um símbolo: é uma maneira de reconhecimento. É um pai traduzindo amor em forma, cor e firmeza.

Entre Cucurella e Nagatomo existe algo que não precisa de explicação. É a paternidade que é feita de presença constante. Às vezes, ela não vem com grandes discursos. Vem em improvisos com sentido, em adaptações com ternura, em coragem silenciosa para tornar o cotidiano mais possível.

E assim, neste Dia dos Pais, a gente celebra os que olham para o mundo e perguntam como podem ajudar. Celebra os que escolhem pequenos gestos para dizer, todos os dias: “Estou aqui”.

Celebra os que fazem dos campos de futebol, das fábricas, escritórios, escolas e fazendas, hospitais e tribunais, e da vida, um lugar onde o amor seja fácil de encontrar. Porque há homens que exercem a paternidade com eficiência.  Não pela força, mas pela delicadeza.

Neste dia dos pais nossas homenagens aos jogadores Cucurella e Nagatomo. E, claro, a todos os papais do mundo, inclusive o cronista, que é pai e avô.  Todos com uma certeza: Pai, quando ama, deixa marcas que não somem. Feliz dia dos pais.


 

domingo, 9 de agosto de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXXVII


O famigerado e mal-afamado Casarão da Marechal Deodoro. 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

de leve

Ledusha

 

feminista sábado domingo

segunda terça quarta

quinta e na sexta

lobiswoman.

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Da merenda para a leitura

Pedro Lucas Lindoso

 

Dona Graça trabalhava como merendeira em uma escola municipal. Além de cantina, salas de aula, diretoria e banheiros, a escola possui uma biblioteca. Infelizmente era pouco usada e até desconhecida por alguns alunos.

Quando eu era menino em Brasília estudei na Escola Parque. O sistema Escola Classe/Escola Parque foi idealizado pelo professor e pedagogo Anísio Teixeira. Tínhamos aulas de Música. Artes, Natação, Artes industriais e Biblioteca. Sim, aula de biblioteca. Não quis dizer aulas na biblioteca.

O que se fazia na aula de biblioteca? Ora, apreendia-se a usar o dicionário, diferenciar livro de ficção de não-ficção.  Conceitos como livros de referência, periódicos, jornais, revistas etc. Para que servem e como usá-los. Mas o mais importante era o constante incentivo para nos tornarmos leitores. Incentivados a um difícil hábito para muitos. Gostar de ler!

Dona Graça, a merendeira, mesmo sem ter tido aula de biblioteca, intuitivamente, sabia que a leitura é um habito.  Os alunos devem ser não só incentivados, mas também ensinados a gostar de ler.

Não havia bibliotecária na escola. Quem ficava na biblioteca era uma professora asmática que fora readaptada. A readaptação deu-se porque a professora não tinha mais condições físicas de dar aulas. Quando as escolas não sabem o que fazer com readaptados, mandam tomar conta da biblioteca.

Dona Graça depois de sua função na cantina ia para a biblioteca. Tornou-se uma leitora voraz. E só tinha até a quarta série primária. Começou então a ajudar a professora asmática a arrumar os livros, limpar o espaço e convencer os alunos a ler.

Certo dia a professora readaptada finalmente se aposentou. A diretora, para não fechar a biblioteca, perguntou se Graça gostaria de ficar no lugar da aposentada. Ela topou. Uma outra merendeira substituiu Graça na cantina.

 A merendeira então pós em prática os planos adiados da readaptada. Graça aliou-se às quatro professoras de Língua Portuguesa. Promoveram concurso de poesia, de contos, de acróstico e até de haicai. Às sextas comemorava-se aniversários de escritores. Preferencialmente, autores portugueses e brasileiros. Mas qualquer celebridade da literatura poderia ser comemorada. Os alunos faziam lanche comunitário. O projeto ficou denominado de “merenda com leitura”. Um sucesso. Dona Graça e as professoras de Português montaram cinco estratégias para levar as crianças a se tornarem leitores.

1.Tornar a leitura divertida. Deixar a criança escolher livros. Seja de aventura, mistério, futebol, games, ou histórias em quadrinhos.

2.Ler junto com a meninada no começo. Alguns minutos diários em voz alta ou alternando a leitura.

3.Conectar com interesses deles. Sugerir livros parecidos com personagens e assuntos de que a criança goste.

4. Valorizar o esforço, com elogios curtos e elogiar a “curiosidade” e a “continuação”.  Não só o fato da criança “ter lido” determinado livro. E ainda incentivar a troca entre amigos e colegas

5. Facilitar o acesso à biblioteca. Tornar o local agradável, refrigerado, decorado, limpo e atraente

Graça fez EJA e cursou Pedagogia. Ela resume sua saga: “da merenda para a leitura”.


 

domingo, 2 de agosto de 2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Resenha

 

ESPELHAMENTO DO REAL E CONSTRUÇÃO DE UM EU BIOGRÁFICO – SOBRE O MEMORIALISMO EM É ESTE O DESTINO DO CORPO, ABRIR-SE, DE MARIANA MARINO

 

Henrique Duarte Neto

 

O ensaio poético de Mariana Marino, é este o destino do corpo, abrir-se (demonia editora, 2024), terceiro livro na seara da poesia de Mariana, além de todas as implicações emocionais que traz consigo, é um caso muito instigante para pensarmos em duas questões centrais dos estudos literários: a da autoria e a da mimese, da representação do real no texto poético. Mas, primeiramente, antes de investigar estas questões à luz dos 16 textos que formam o opúsculo, analisarei um pouco a natureza, o gênero do escrito.

Classificado por Mariana como “ensaio poético”, penso que, mesmo tendo essa natureza de prosa poética, os 16 fragmentos tendem mais ao confessionalismo do diário. Aliás, um excelente diário. Claro, um diário não datado e não pensado enquanto tal pela autora, mas quiçá, inconscientemente, e pela forma fragmentária que tomou, também própria da poesia, um pungente “diário poético”. Escrito não sob a perspectiva de um presente temporal, mas rememorado por uma mulher adulta – mas não terá a criança de cinco, seis, sete anos uma presença flagrante e indômita na mulher de 30 e tantos anos? Assim, esse passado que ressoa vivo no presente não inviabiliza nosso viés. Portanto, como esta é uma questão em aberto, e assim sendo, a palavra “diário” será referida doravante sempre entre aspas quando estiver relacionada ao texto poético da autora de não sei quem colocará as mãos em mim.

 Ademais, pensando naquilo que Maurice Blanchot vê como o aspecto marcante do diário: o de ser “Memorial”, trazendo à tona o que qualquer escritor faz no seu cotidiano, quando não está escrevendo (BLANCHOT, 2011, p. 20-21), podemos estender as reflexões para o caso do livro da autora. Mariana preserva uma memória, traz seu mundo íntimo à visão de muitos, cria uma rede interpessoal e de significações, que extrapola tempo e espaço, fazendo-se testemunho e experiência histórica, pessoal e coletiva.

Há, porém, o problema de que o “diário” de Mariana talvez traia o que pensa Blanchot do diário enquanto forma de materialização do texto. Para o autor francês, tal forma representaria um momento de fuga às agruras da escrita, sendo que a escrita do diário poderia ser pensada como espécie de antídoto para a morte. Morte entendida aqui como passagem do “eu” pessoal ao “ele” impessoal coletivo, que não possui rosto, mas que, para o autor de O espaço literário, é uma realidade. Contudo, não seria esse experimento linguístico de Mariana uma resposta à morte, não aquela da perspectiva blanchotiana, mas uma morte menos simbólica, a que diz respeito ao problema da finitude humana e que nos levaria a pensarmos numa espécie de viés autobiográfico e, não obstante, mimético? Parece-me que a resposta só pode ser afirmativa. O “diário” de Mariana, por agregar um alto coeficiente de poesia, vai na via oposta da obra capital de Blanchot, pois, ao mesmo tempo, enfatiza e tonifica o “eu” e o referente.

Dessa maneira, a perspectiva da morte e a solidariedade, o companheirismo entre crianças diante da solidão essencial, representam um ponto capital da prosa poética de Mariana Marino. Muito mais aqui do que nos livros anteriores (em que a condição de antiga cardiopata e de padecente de outras mazelas são expostas), em verso, a poeta expõe, de modo emocionante, toda a sua condição de fragilidade à época: “Eu também era uma menina doente” (MARINO, 2024, p. 17). A personagem de Daniela, inseparável no hospital, permanece viva na memória e na imaginação da autora, assumindo protagonismo no “diário poético”. Assim, Daniela representa a lembrança do pavor diante das cirurgias e, também, da possibilidade sempre renovada da morte, nos hospitais frios e aziagos, numa época em que as crianças deveriam somente pensar no lúdico da existência.

Ademais, ao ter sua história misturada à de outra personagem, durante a fase em que era tão pequena, pensamos que este “diário poético” foi remontado por uma mulher adulta, de mais de 30 anos de idade, que estabeleceu um natural matrimônio entre os “eus” empírico e poético, distintamente do que classifica Michael Hamburger, como um “matrimônio difícil” no caso desses “eus”, para o poeta Guillaume Apollinaire (HAMBURGER, 2007, p. 237). O eu-empírico, está presente nos três livros de Mariana, mas avassaladoramente no último: “Daniela é esse vulto, com quem sonho há anos nas noites minguantes, em que acordo ensopada, nunca de sangue” (MARIANA, 2024, p. 25). Nesse trecho, como em outros, há uma expressão que tende a soar em fortíssimo, tanto no que se refere ao significante quanto ao significado, pois palavras como “vulto”, “sonho”, “noites minguantes”, “ensopada” e “sangue” geram, em termos semânticos, choques de realidade.

Desse modo, para projetar a dimensão “empírica” desse “eu”, a poeta tem que evocar Daniela, como uma sombra do passado que segue vibrando indefinidamente (como na alegoria do anjo da história (BENJAMIN, 1987), em que o passado cada vez mais se agiganta), sendo uma segunda dimensão desse “eu”, o “outro” que ressoa nele, ou como quer Octavio Paz, a outridade. Nesse sentido, a autora vai se afirmando na linguagem e trazendo para dentro dela todo um universo pretérito. Dessa forma, o poeta, como nos afirma Octavio Paz, em O arco e a lira, cria o poema e se faz poema: “O poeta é ao mesmo tempo o objeto e o sujeito da criação poética: é o ouvido que escuta e a mão que escreve o que é ditado por sua voz” (PAZ, 1984, p. 202).

Além disso, ao “materializar-se” no “diário poético”, Mariana vai construindo um mundo em convergência ao experienciado. Assim, o poema é o espaço em que aparecem: Daniela; a caixa de acrílico dela, toda repleta de batons e chaveiros em forma de pequenos bichos; outras meninas; as mães e os pais das crianças; as enfermeiras; os médicos (que são sempre homens); todos os sentimentos e emoções fomentados pelas cirurgias, exames e esperas nos gélidos hospitais daquela época. Tudo isso sentimos nós, os fruidores desse belíssimo experimento lírico, quase uma elegia em prosa poética. O mundo vivido por Mariana é revivido e recontado por ela mesma, como se houvesse um espelhamento de perspectivas, na medida em que o principal da época de criança se converteu no seu memorial poético.

Assim, no caso de é este o destino do corpo, abrir-se há uma simbiose entre o dentro e o fora, ou melhor – como propõe Antonio Candido em alguns momentos de Literatura e sociedade, tendo um outro referencial literário –, o contexto já está no texto (Cf. CANDIDO, 2006, p. 13, por exemplo). Portanto, a exterioridade é intrínseca. Não há de se buscar o real, com seus eventos, fora do texto poético de Mariana, pois isso já figura nas páginas de sua obra. A poesia que, por ser, além do mais, memorialística, como na visada ambígua de Octavio Paz, não deixa de ter “fome de realidade” (PAZ, 1984, p. 80). Nessa medida, a menina que sobreviveu às aberturas do corpo e que, pela magia poética, mistura sua voz à da mulher adulta, humildemente pede atenção: “Não sou forte, Daniela, nunca fui forte como você” (MARINO, 2024, p. 28).

 Em muitos momentos de seu memorial poético, a autora abre espaço para a escrita enquanto testemunho, enquanto vivência, enquanto experiência de um corpo. Como no décimo sexto e último texto de seu “diário”: “Penso em você, Daniela, quando a hemorragia vem. Saem do meu cu grandes coágulos moles envoltos num sangue fibroso. Estou só (...) conheço cada cratera e buraco negro, cada centímetro do sistema solar do corpo e por isso você entenderia a minha febre...” (Idem, p. 31). A linguagem visceral e ao mesmo tempo humana, tragicamente humana (em uma época de tanta desumanidade), revela a alta voltagem a que chegou o texto de Mariana. Talvez comparável a um dos mais comoventes poemas sobre a fragilidade do corpo que é a ode “À minha perna esquerda”, do poeta José Paulo Paes (PAES, 1992). Em ambos, a ideia da finitude da vida pôde propiciar criações que se caracterizam pela originalidade diante da óbvia impossibilidade do ineditismo.

Ademais, ouso postular que o ensaio em prosa poética, ou, antes, “diário”, de Mariana Marino, busca colar seu enfoque à realidade de uma época pretérita de sua vida, mas que se estende até os dias de hoje. Por outro lado, enquanto crítico e poeta, mesmo levando em conta toda a questão da representação da realidade, principalmente para a perspectiva mais formal da literatura, tendo a pensar que não existe o instrumental teórico adequado para todos os casos, mas sim um instrumental adequado, para cada caso, para cada livro. Além da questão da mimese, do espelhamento do real, também a confluência entre o eu-poético e o eu-empírico, no caso do “diário” de Mariana, é enfatizada aqui. Apesar de Blanchot (importante para a caracterização que faço do “diário poético” de Mariana) e outros autores não citados defenderem uma espécie de morte autoral, para o caso da autora de Peito aberto até a garganta, o paradigma é distinto. Ela afirma-se no texto, por meio de um intimismo, ou confessionalismo intenso. E, nesse sentido, a abertura dada por autores como Michael Hamburger e Octavio Paz (este, com uma amplitude mais ambígua) é fundamental.

Além do mais, posso dizer que Mariana Marino figura, na poesia brasileira, como um dos nomes que mais trabalha uma questão essencial do nosso tempo, ou seja, o corpo. Fazendo a antítese dos autores situados em torno do 1900, que tinham a “alma” por objeto principal de evocação, o corpo é trabalhado de diferentes formas por um número gigantesco de poetas. Há mesmo entre estes, autores tão radicais, como Carla Diacov, que chega ao extremo da experimentação, como em Voa baixo e dorme (DIACOV, 2022-B), em que a imagem da capa, de Santa Cecília, é tingida de vermelho pelo sangue menstrual da poeta. Já em Ao marfim dos seus caninos, uma feroz plaquete, essa mesma autora não deixa faltar também seu senso de humor personalíssimo, ela, ao lado do parceiro “yuri”, utiliza o expediente da naturalização do sexo e, ao mesmo tempo, expõe o jogo amoroso via exploração de fetiches, como no segundo poema que, como todos os outros, traz a referência a thánathos:  “yuri lavava as mãos antes/ de me comer uma vez/ me fiz de morta e yuri lavou/ as mãos com esponja de aço/ e sapólio// eu tinha o direito de me fazer/ yuri também” (DIACOV, 2022-A, p. 8). Mas ao lado da exacerbação do corpo, que no fundo pode até levar a sua ruína, ao seu dilaceramento, há também, em Ao marfim dos seus caninos a tendência em certos momentos de uma sublimação, ao mesmo tempo que uma teatralização, em que o corpo encontra a morte, a última amada: “nos olhos abestados sentem ciúmes/ da morte que escolheu seu peito/ como o carinho eterno” (Ibid., p. 12). De toda a forma, nos seus livros, Carla Diacov tende a ritualizar o corpo (quando não o próprio cotidiano) e, por extensão, a Vida.

Assim, o caminho de Mariana em todos os seus três livros, é um tanto distinto do caso de Diacov, principalmente no que se refere à obra é este o destino do corpo, abrir-se. Se Diacov aborda o corpo de uma forma mais neossurrealista, pela profusão de imagens surpreendentes, Mariana instaura uma perspectiva fortemente expressiva, de natureza neorrealista. Ambas compõem uma poética do corpo, não só no tocante à sua materialidade, ao seu caráter orgânico, mas também à sua simbologia (no caso de Diacov), como também à sua psicologia, às suas vivências (no caso de Mariana). Assim há um resgate pela autora radicada no estado do Paraná, como enfatizei, da sua relação com o experienciado, com o existencial. Em Mariana Marino, a Vida vem escrita com inicial maiúscula, e isso não é pouco.

 

Referências:

BENJAMIN, W. “Sobre o conceito de história”. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Tradução de S. P. Rouanet. 3ª edição. São Paulo/SP: Brasiliense, 1987.

BLANCHOT, M. O espaço literário. Tradução de A. Cabral. Rio de Janeiro/RJ: Rocco, 2011.

CANDIDO, A. Literatura e sociedade. 9ª edição revista pelo autor. Rio de Janeiro/RJ: Ouro sobre Azul, 2006.

DIACOV, C. Ao marfim dos teus caninos. São Paulo/SP: Primata, 2022-A.

DIACOV, C. Voa baixo e dorme. Juiz de Fora/MG: Macondo, 2022-B.

HAMBURGER, M. A verdade da poesia: tensões na poesia modernista desde Baudelaire. Tradução de A. C. de Franca Neto. São Paulo/SP: Cosac e Naify, 2007.

MARINO, M. Peito aberto até a garganta. Bragança Paulista/SP: Urutau, 2020.

MARINO, M. não sei quem colocará as mãos em mim. Curitiba/PR: Kotter, 2022.

MARINO, M. é este o destino do corpo, abrir-se. Curitiba/PR: Ed. da Autora, 2024.

PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo/SP: Companhia das Letras, 1992.

PAZ, O. O arco e a lira. Tradução de O. Savary. 2ª edição. Rio de Janeiro/RJ: Nova Fronteira, 1984.

 

Nota biográfica: Henrique Duarte Neto é funcionário público, crítico literário e poeta. Nascido em 1972, no interior de Santa Catarina. É no seu trabalho com a exegese e a criação poética que encontra sua realização. 

E-mail: henriqueduarteneto@yahoo.com.br

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