Amigos do Fingidor

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Um comentário orgásmico a respeito de A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli


Marcos Souza

 

A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas cruzadas, postura empertigada e mão no queixo exalando sobrecarga intelectual, talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao mesmo tempo nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico, do contrário não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou ter uma de nossas obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens, para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir aquilo que só é proferido a modo de sussurro. E, hoje, sussurro delicadamente para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli.

Antes de adentrarmos à casa das bonecas, serpenteando entre os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma “Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira. Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada ainda conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional. Pois é, camarada, caberás a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou a permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente fedendo a gorgonzola”.

Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.



Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores, persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes, assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para aquisição entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais, a saber: @marciaantonelli376 no Instagram e Márcia Antonelli Santana no Facebook.

Até.

 

 

Marcos Souza é professor, geógrafo e escritor, nascido em Manaus, Amazonas. Autor de Coisas do futebol manauara (2022), Cidade decadente: personas (2024) e Um grande circular (2026). Recebeu algumas menções honrosas e premiações, tal como pelo Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta (AMULMIG), pelo Concurso de Contos e Crônicas Gioconda Labecca (ALGRASP), pelo Concurso Farol Literário (Instituto Federal Goiano) e pelo VIII Concurso Literário Cidade de Ouro Branco (ACLAOB), além vencer a 13ª e a 14 ª edição dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, ambas na categoria Prêmio Álvaro Braga, destinado ao melhor livro de teatro. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

A cachorra

Pedro Dantas (1904-1977)

 

Veio uma angústia de cima,

Pelos ombros me agarrou,

No mais fundo do meu peito

Sua lâmina cravou.

Depois que no chão desfeito

O meu corpo estrebuchou,

Pelos cabelos a fera

Sobre pedras me arrastou.

Meu corpo, se espedaçou.

Mas ainda não satisfeita,

Nova vida me insuflou:

Para mostrar poderio,

Com a sua mão direita

Uma cidade arrasou,

Na esquerda tomou um rio,

Fogo nas águas soprou,

As águas todas do rio

Com seu hálito secou.

Levou-me aos cimos mais altos,

No ar me imobilizou,

Depois, em súbitos saltos,

A garra adunca fincando

No meu coração, lá do alto

Soltou um grito nefando

E sobre o mar me atirou.

Ah, nas águas do mar alto

Meu corpo logo afundou.

Veio buscar-me de novo:

Angina-péctoris, polvo,

Meu coração sufocou

E tais surras de chicote

Me deu, que a cada lambada

Minhalma mortificada,

Minhalma perto da morte

Só a morte desejou;

Meu rosto esfregou na lama,

As faces me babujou

E quando, à atroz azafama,

O meu olhar se turvou,

Vencido, entregue, arquejante

Perdido o sangue das veias

Na praia, sobre as areias,

Meu corpo exausto rodou.

Ah, pobre corpo do amante

Que até o fim se humilhou!

Então um riso infamante

As fauces lhe escancarou,

Zombou da minha tolice:

“Eu sou a Cachorra”, disse,

“Tu me chamaste: aqui estou.”

 

A essa voz dissiparam-se as sombras

E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória

Senti que da sua boca nasciam rosas

E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Carta para Luiz Bacellar

Tainá Vieira

 

Outro dia, procurando um documento numa pasta onde guardo papéis importantes, deparei-me com diversos recortes de jornais referentes à tua partida. Eram mais de cinco jornais diferentes, todos tentando, cada um à sua maneira, dar nome à tua ausência. Havia títulos que, com certeza, tu odiarias. Especialmente este: “O adeus do poeta”. Afinal, tu odiavas ser chamado de poeta. Hoje compreendo um pouco a tua aversão. Não concordo, mas compreendo.

Li cada recorte devagar. Emocionei-me com as palavras dos jornalistas, com as entrevistas transcritas, com as lembranças dos amigos falando sobre ti. Havia uma espécie de espanto em todas aquelas vozes, como se ninguém soubesse muito bem o que fazer diante da tua ausência. Por alguns minutos, deixei de ser misândrica e passei a te amar ainda mais. Talvez a morte tenha esse poder estranho de nos reconciliar, por alguns instantes, com aquilo que em vida nos incomodava.

Tu não sabes, ou talvez saibas, porque gosto de imaginar que os mortos continuam sabendo alguma coisa sobre nós, mas depois da tua partida escrevi durante um ano inteiro cartas para ti. Contava-te as notícias do mundo de cá, as coisas que aconteciam, as pequenas banalidades, as grandes tristezas. Escrevia como quem tenta manter acesa uma conversa que a morte interrompeu sem pedir licença. Pura tolice minha. Perdão! Eu simplesmente não conseguia aceitar que tinhas ido, sabe Deus para onde. Talvez aquelas cartas fossem menos para ti e mais para mim. Eu precisava acreditar que ainda existia algum lugar onde as minhas palavras pudessem te alcançar.

Hoje, dia 9 de setembro, já são 14 anos da tua partida, e eu ainda estou aqui, essa mísera mortal que às vezes ainda chora a tua partida como se tivesse acontecido ontem. É curioso como o tempo não cura certas ausências; apenas nos ensina a carregá-las com menos alarde. Algumas pessoas morrem e deixam apenas uma lembrança. Outras permanecem como uma espécie de cicatriz invisível, dessas que não doem todos os dias, mas que o corpo reconhece quando alguma coisa as toca. E queres saber de uma coisa? Tenho plena convicção de que tu não gostarias de mim hoje. Penso até que nem me reconhecerias e acredito que também não te gostaria mais hoje.

Hoje, no tempo de 2026, o mundo parece outro. É bom e ao mesmo tempo caótico e mau. Mas não quero entrar em detalhes agora, porque quero falar mais de mim. Estou completamente mudada. Ou talvez e esta possibilidade me seja ainda mais perturbadora, a mulher que sou hoje seja, finalmente, quem sempre fui, mas ainda não havia descoberto naquele tempo em que te admirava como se tu fosses maior do que os homens costumam ser e eu menor do que realmente era. Eu te idolatrava, porque para mim nunca houve um poeta maior do que tu.  Coloquei-te num pedestal e, durante muito tempo, permaneci olhando para cima. Hoje sei que todo pedestal é também uma distância. Talvez eu tenha precisado te colocar lá para compreender, muitos anos depois, que ninguém deveria precisar estar acima de ninguém para ser amado, admirado ou lembrado.

Ainda assim, não me arrependo. Não me arrependo daquela menina que te admirava, das cartas que escrevi, do amor quase ingênuo que depositei em toda a tua obra. Há coisas que só conseguimos compreender depois de perdê-las, e talvez tu tenhas sido uma dessas experiências que a vida me deu para que eu pudesse, um dia, descobrir não apenas quem tu eras, mas quem eu era diante de ti. Hoje já não sou aquela mulher. E talvez tu realmente não gostasses de mim. Talvez achasses excessivas as minhas perguntas, as minhas inquietações, a mulher que se recusa a caber nos lugares que lhe foram destinados. Talvez não compreendesses essa minha necessidade de dizer, de escrever, de desafiar, de não pedir licença, de ser agressiva e excessiva.

Mas há uma coisa que permaneceu. Tu ainda estás no pedestal. Talvez eu te deixe lá para sempre, considerando os poetas da tua geração que eu não os suporto. E, talvez eu te deixe lá não porque ainda precise te admirar de baixo para cima, nem porque precise da tua aprovação. Deixo-te lá porque algumas pessoas passam pela nossa vida e se tornam parte da arquitetura secreta de quem somos. Porque, mesmo depois de mortos, continuam existindo em algum lugar dentro de nós, não exatamente como foram, mas como foram transformadas pela nossa memória. E talvez seja isso que o tempo fez contigo: não te apagou. Apenas mudou o lugar onde existes.

Já não estás diante de mim. Estás em mim, como uma lembrança rara, na minha escrita, quem sabe, E, catorze anos depois, acho que finalmente aprendi apenas a te admirar sem precisar voltar a ser aquela pessoa que te amava. Talvez seja essa a única forma verdadeiramente adulta de amar os mortos: continuar preservando-os sem permitir que a memória deles nos impeça de nos tornarmos quem somos.

Portanto, acredito que esse será o nosso último contato; como disse, mudei. Despeço-me do homem, mas imortalizo o poeta, a obra, os versos para sempre na minha memória e o levarei para onde eu caminhar.  Despeço-me de ti, sem me comprometer se um dia voltarei a escrever-te. Quem sabe como o mundo estará em 9 de setembro do ano seguinte?



terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alfas e betas

Pedro Lucas Lindoso

 

Você me disse que não gosta de ser politicamente de esquerda porque, no Credo, Jesus está sentado à direita de Deus. Mas imagine que você chega ao Céu e se encontra com Eles. De fato, Jesus está sentado à direita de Deus. Porém, na sua perspectiva, Ele vai estar à sua esquerda.

Essa já ultrapassada divisão iniciou-se há mais de 200 anos,  durante a Revolução Francesa. Na convocação da primeira Assembleia Nacional Constituinte, uns ficaram à esquerda, outros à direita. Mas para quem estava presidindo, no caso, Jean Bailly, sucedido por, dentre outros, Mirabeau e Robespierre, pois o cargo de presidente era rotativo, a perspectiva também mudava. Assim, quem tinha ido para direita, agora era visto, pela presidência, ao lado esquerdo. E vice-versa.

Imagine se os constituintes tivessem definido que os que estavam à direita seriam alfas e os da esquerda seriam betas. Nada seria diferente. Os alfas de direita são os ricos e seus amigos, os nobres e seus amigos, os burgueses, os incluídos em privilégios mesmo sendo pobres e trabalhadores. E ainda os que não querem compartilhar as riquezas com os betas que são geralmente os trabalhadores, os pobres, as minorias, os excluídos e os que os apoiam.

Há os que ficaram no meio. Se consideram de centro. Ou centro alfa ou centro beta. Eu penso que Jesus era beta. Vivia curando cegos, paralíticos, leprosos. Vivia no meio do povão.

Nesses últimos tempos o Brasil e também muitos países estão polarizados entre alfas e betas. Muitas brigas entre familiares, amigos e colegas que não perdoam seus parentes que tem uma ideologia diferente da sua.

Há os alfas que fizeram coisas imperdoáveis para os betas. Como participar ativamente dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. É disso que trata o livro de Maria José Silveira, cujo título é “Imperdoável”.

Sem querer dar “spoiler”, o romance aborda a vida de três amigos de juventude. Ao se conhecerem eram todos betas. Porém, uma das duas garotas se torna alfa radical. A amizade, apesar de abalada, continua. Os outros dois, o rapaz e a outra moça, permanecem com os mesmos ideais betas. Mas aí algo imperdoável acontece. 

Maria José Silveira nasceu em Jaraguá, no interior de Goiás. Ainda criança se mudou para Goiânia. Morou em Brasília, Paris, Lima, Rio de Janeiro, atualmente, mora em São Paulo. Mestre em Ciências Políticas e formada em Comunicação e Antropologia, é escritora, tradutora, editora e autora de dezenas de livros. Escreveu romances, dos quais o primeiro, A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, recebeu o Prêmio Revelação da APCA, em 2002. Alguns de seus livros já foram publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e China. Casada com meu irmão Felipe Lindoso, é minha cunhada, pela qual tenho admiração e afeto.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

Manaus, amor e memória DCCXCI

 

Vista da avenida Eduardo Ribeiro, com a Praça do Congresso, dividida, em primeiro plano. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

Propriedade

Armando Freitas Filho (1940-2024)

 

A boneca preta na sacada

agraciada com o forro falso

simula que tem alguém em casa

onde foi sempre ninguém.

 

Sem pernas, ela é escrava

que não pode nem voltar

para a senzala, comprada

cortada ao meio para ser

mais manipulável e barata.

 

Trabalha dia e noite

presa na “eterna vigilância”

atrás das grades

nas janelas, nas cancelas

do partido dos senhores

sem pregar o olho

sem direito sequer

ao sonho da alforria.



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

 Luz, câmera, palavras

Márcia Antonelli

 

Luz, Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé, obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor, que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da antropologia e outras ciências do tipo.

Quando um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas, outras paragens. No caso de Mawé, o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência artística.


Durante muito tempo, parte da crítica cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita criativa.

Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Repto de honra

 Pedro Lucas Lindoso

 

A manchete do Jornal do Comércio de 18 de agosto de 1964 informa que o governador Arthur Reis lançou um repto de honra ao Sr. Desiré Guarany, fiscal de consumo, que teria acusado o governador de corrupto. Arthur Reis indica o general Jurandir Mamede como seu representante no repto. Também nomeado para a presidência da comissão do repto o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara.

Os reptos de honra, como os duelos, estão fora de moda. Aliás, duelar com armas ou agressão física é ilegal no Brasil e na maioria dos países. Hoje em dia as pessoas em tais situações buscam a tutela jurisdicional para exigir indenizações financeiras por danos à imagem ou à vida privada. Há basicamente dois crimes contra a honra. A calúnia, quando se é falsamente acusado de um crime, e a difamação, quando se tem a reputação manchada publicamente.

Os reptos de honra estão mesmo fora de moda. Exceto na nossa misteriosa, folclórica e mitológica floresta das chuvas. As nossas matas. A floresta amazônica. Justamente lá onde habitam o Mapinguari e o famosíssimo Curupira. Como se sabe, o Curupira foi escolhido mascote da COP 30, realizada em Belém. O Curupira é conhecido pelos seus cabelos de fogo e pés voltados para trás, usados para confundir invasores, caçadores e os madeireiros que destroem a floresta.

O Mapinguari é um monstro gigante e peludo que tem um olho só. Assim como o Curupira, o Mapinguari é um eficiente guardião da floresta. Ele ataca os madeireiros, caçadores e grileiros. Uns dizem que o Mapinguari tem pelos longos e vermelhos. Outros o descrevem como tendo uma pele dura como a do jacaré. E tem uma boca enorme na região do umbigo.

Enquanto o Mapinguari grita forte assustando os destruidores da floresta, o Curupira, com os pés voltados para trás, faz esse povo se perder na mata. Ambos foram finalistas para a escolha da mascote da COP 30.O Mapinguari perdeu o concurso simplesmente porque fede muito. Não toma banho, sendo muito, muito assustador. Já o Curupira foi eleito pela sua simpatia e astúcia.

Enciumado, Mapinguari espalhou pela floresta que o Curupira estava ganhando milhões de dólares de uma ONG ambientalista, sem socializar os recursos com os outros animais. O Curupira lançou um repto de honra ao Mapinguari. Os mamíferos aquáticos foram designados para compor a comissão. O Boto Vermelho vai representar o Curupira enquanto o Boto Tucuxi vai representar o Mapinguari. A presidência coube ao Peixe-boi. Espera-se que o imbróglio tenha um desfecho antes das eleições de outubro.

 

domingo, 30 de agosto de 2026

Manaus, amor e memória DCCXC

 

Grupo Escolar Saldanha Marinho.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica

Ricardo Kaate Lima

 

A literatura realista de crítica social sempre teve grandes exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo, nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.

Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para Miami.

Na novela Um grande Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos, trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia, traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.

Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva) lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.

Classifico Um Grande Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico, rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e não gostamos do que vimos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

Minha boca também

Ana Cristina César (1952-1983)

 

Minha boca também

está seca

deste ar seco do planalto

bebemos litros d’água

Brasília está tombada

iluminada como o mundo real

pouso a mão no teu peito

mapa de navegação

desta varanda

hoje sou eu que

estou te livrando

da verdade

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?

A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – nova obra do escritor amazonense Victor Hugo Neves


Márcia Antonelli

 

A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA é o segundo livro do escritor Victor Hugo Neves. Trata-se de um livro de crônicas, e que a mim foi atribuída a tarefa de prefaciar.

Neste seu novo livro, Victor Hugo revela-se maduro. Conciso. Imponente. Consolida definitivamente seu talento nato para a crônica. Um dos exercícios mais nobres do gênero literário, segundo Graciliano Ramos. As crônicas de Victor Hugo são de uma lucidez, fluidez e coloquialidade impressionantes. Nos faz pensar os deleites imperceptíveis do dia a dia das pessoas: o viver, o sentir, o sonhar. Seja da interioridade do ser, ou das questões da cidade mesmo. São crônicas do olhar de si para si e também do outro para o outro. Numa sociedade que camufla sua verdade frente a um espelho filtrado ela acaba tendo uma imagem narcisista e distorcida de si e da realidade que o cerca porque tudo hoje é produzido de forma falsa, ilusória. O que nos leva ao mito de Narciso, filho da Ninfa Liríope e de Cefiso, deus dos lagos. Reza a lenda que Narciso caminhando a esmo por um lindo bosque, parou frente a um lago e nele prostrou-se para admirar sua própria beleza refletida. Ficou tão encantado por si mesmo que resolveu mergulhar naquela fonte de água cristalina e desaparecer. O mito de Narciso nada mais é que uma crítica ao egocentrismo e ao excesso de vaidade. O personagem Narciso acabou se tornando um mero símbolo do individualismo e do excesso de amor-próprio. Virtude ou defeito, sabe-se lá, mas que ainda se faz presente nos tempos atuais e que o autor deste livro se arvora a refletir e nos mostrar através de suas crônicas líricas, reflexivas. Por vezes, ácidas, descontraídas, bem-humoradas, onde o autor brinca com as figuras de linguagem, com as construções frasais, textuais e que também são formas de prender o leitor. A transição de um texto para o outro se dá de maneira sutil, leve, espontânea, musical, como a passagem de um Vivaldi para um Strauss.

O bom cronista é de fato aquele que, com primazia e louvor pelo ofício, é capaz de perceber no dia a dia de sua vida, impressões, ideias ou visões da realidade que não são percebidas por todos. Victor Hugo tem este costume. E nada dele escapa. O que o torna um cronista dos bons. Cada livro seu nos surpreende pela temática corajosa, pela elegância da escrita e pela docilidade das palavras. A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA nos revela tudo isso. Além de ser um livro, sobretudo, de valores nobres e humanos. Um livro que precisa ser lido, pensado, valorizado.

 

Recomendo: A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – VITOR HUGO NEVES.

Como adquirir o livro: Em todas as plataformas digitais de e-book. Também através da editora e livraria Fonte de Papel e através do WhatsApp do autor: 92 99467 2827.

           

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Amor à prosa

 Pedro Lucas Lindoso

 

Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.

Fui ao encontro determinado a ouvir poesia. Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher. Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.

Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano também tem alma e que a alma, sim, escreve.

E eu me apaixono justamente por isso. A crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço, onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa esteja sempre em construção.

Há dias em que a crônica é suave, quase sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro, obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.

E então, quando termino, eu percebo que não escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com atraso.

A crônica me ensina que a literatura pode ser abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu coração, quando a encontra, não sabe fingir.

Eu amo crônicas por isso, por cada conversa que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.

E se um dia eu perder a coragem, crônica, basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua. Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica como presença que fica.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Homenagem a Márcio Souza


Clique sobre a figura, para obter o acesso.



 

domingo, 23 de agosto de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coelho Neto e o Gótico Brasileiro

Ricardo Kaate Lima

 

          Quando falamos de literatura gótica, lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas tropicais, miscigenação e samba.

          Uma reflexão bem equivocada quando observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934), com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros, povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.

          É impossível falar de Coelho Neto sem mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.


Coelho Neto (1864-1934).


          Coelho Neto deveria ser mais lido, estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense, agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que Lovecraft faria décadas depois. 

          Felizmente, essa é uma injustiça que está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.

          A Vossa Alteza Literária, Henrique Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.

  

Curiosidades:

. Coelho Neto esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);

. Autor de mais de uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um verdadeiro pop star, ao lado de Olavo Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não precisava de títulos;

. Hoje, Coelho Neto é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa, antiga rua 25 de Dezembro.

(ZmP)




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)

 

9 (fragmentos)


Este poema

tem seus descantes didáticos

suas horas de recreio

e uma aparente desordem

que não irrita o professor

mas, sim, ao fiscal de ensino.

Não posso

por exemplo, o tempo todo

ser meu próprio ladrilheiro

e colar letra por letra

– como o tijolo, o pedreiro.   

Poesia

não pode ser obra de carcereiro.

A menos que o guarda esteja

no limiar de suas portas

e nas argolas das horas

descubra

a inversa função da chave

que em vez de trancar, descerra

a imagem presa nas grades.

E este poema

como qualquer prisioneiro

deve ter direito ao sol

e à liberdade

– mesmo que condicional

 

deve poder se exilar num desgoverno

cometer seus desatinos pelas ruas e versos

que ao sistema da escrita aberta

cabe o modo poético e dialético

de converter o que era estrume

em flor oferta.