Amigos do Fingidor

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

O defunto

Pedro Nava (05/06/1903 – 13/05/1984)

A Afonso Arinos de Melo Franco,

fragmentos(*)

 

Quando morto estiver meu corpo,

evitem os inúteis disfarces,

os disfarces com que os vivos,

só por piedade consigo,

procuram apagar no Morto

o grande castigo da Morte.

 

Não quero caixão de verniz

ou os ramalhetes distintos,

os superfinos candelabros

e as discretas decorações.

 

Eu quero a morte com mau gosto!

 

Deem-me coroas de pano.

Deem-me as flores de roxo pano,

angustiosas flores de pano,

enormes coroas maciças,

como enormes salva-vidas,

com fitas negras pendentes.

 

E descubram bem minha cara:

que a vejam bem os amigos.

Que a não esqueçam os amigos

e ela lance nos seus espíritos

a incerteza, o pavor, o pasmo...

E a cada um leve bem nítida

a ideia da própria morte.

 

Descubram bem esta cara!

 

Descubram bem estas mãos:

Não se esqueçam destas mãos!

— Meus amigos! Olhem as mãos!

Onde andaram, que fizeram,

em que sexos se demoraram

seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados

todos os gestos malditos:

até furtos fracassados

e interrompidos assassinatos...

 

— Meus amigos! Olhem as mãos

que mentiram às vossas mãos...

Não se esqueçam: elas fugiram

da suprema purificação

dos possíveis suicídios...

 

— Meus amigos! Olhem as mãos,

as minhas e as vossas mãos!

 

Descubram bem minhas mãos!

 

Descubram todo o meu corpo.

Exibam todo o meu corpo

e até mesmo do meu corpo

as partes excomungadas,

as partes sujas sem perdão,

 

— Meus amigos! Olhem as partes...

Fujam das partes...

Das punitivas, malditas partes...

— Meus amigos! Arranquem as suas...

Esmaguem as suas...

Amputem as suas...

 

Eu quero a morte nua e crua,

terrífica e habitual,

com o seu velório habitual.

 

Ah, o seu velório habitual...

 

Não me envolvam num lençol:

a franciscana humildade,

bem sabeis que não se casa

com meu amor pela Carne

com meu apego ao Mundo.

 

Eu quero ir de casimira:

calça listrada, plastron...

com os mais altos colarinhos,

com jaquetão com debrum...

 

Deem-me um terno de ministro

ou roupa nova de noivo...

E assim, solene e sinistro,

quero ser um tal defunto,

um morto tão acabado,

tão aflitivo e pungente,

que a sua lembrança envenene

o que restar aos meus amigos

de vida sem minha vida.

 

— Meus amigos! Lembrem de mim.

Se não de mim, deste morto,

deste pobre terrível morto,

que vai se deitar para sempre,

calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão

os penetras escorraçados,

as prostitutas recusadas,

os amantes despedidos,

como os que saem enxotados

e tornariam sem brio

a qualquer gesto de chamada.

 

Meus amigos! Tenham pena,

senão do morto, ao menos

dos dois sapatos do morto!

Dos seus incríveis, patéticos

sapatos pretos de verniz.

Olhem bem estes sapatos,

e olhai os vossos também...

 

 

  (*) Malditos editores! Baseado em duas fontes organizadas por Manuel Bandeira, mas não editadas por ele: Apresentação da Poesia Brasileira (1964) e Antologia dos Poetas Brasileiros, tomo Bissextos Contemporâneos (1996).

terça-feira, 22 de setembro de 2026

BR-319, um sonho realizável?

 Pedro Lucas Lindoso

 

Meu amigo Rômulo Sena me pede para escrever algo especial ou alguma experiência sobre a BR-319.

Como cronista inveterado. Há tempos não uso essa palavra – inveterado. Mas é que já escrevo crônicas faz muito tempo mesmo. Pois bem, como qualquer cronista, fico matutando temas para minhas crônicas. Eureka! O pedido do Rômulo pode dar uma boa crônica.  Vamos lá.

Eu era um jovem adulto, amazonense, morador em Brasília, quando foi inaugurada, toda asfaltadinha, a BR-319. Essa mesma que tanto falam que vai ligar Manaus ao resto do Brasil. Era o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1976. Os jornais anunciavam a abertura da rodovia de 885 km conectando Manaus a Porto Velho.  Com todos os trechos asfaltados e tempo de viagem estimado em doze horas.

Recebíamos jornais de Manaus em nossa casa em Brasília. Além das festividades de inauguração, os jornais noticiavam a travessia de bicicleta de dois ciclistas amazonenses que percorreram o trajeto ida e volta, até Porto Velho, para celebrar a inauguração da tão esperada rodovia.

Pronto, pensei. Vou para Manaus no meu fusquinha. A maioria das pessoas da minha geração tiveram um fusca como primeiro e inesquecível carro.

Dias depois, estava comendo uma pizza na Dom Bosco. Um boteco tradicional que vende uma pizza caseira e diferenciada em Brasília. Uma das poucas pizzarias do mundo que se come pizza em pedaços, na mão e em pé. E até na calçada. Existe até hoje. Todo brasiliense raiz conhece. Fica na famosa 107/108 Sul, conhecida como Rua da Igrejinha.

Eu estava comendo uma pizza quando estaciona, na minha frente, um carro com placa de Manaus! Aquilo foi uma alegria.

Fui, claro, conversar com o ilustre conterrâneo. Chamava-se Carlos, morava no Japiim. Era contador. Trabalhava com o pai. Veio com um amigo para Brasília atrás de um emprego público Federal. O amigo não gostou da cidade e tinha voltado para Manaus

Carlos ficou. Estava empregado num escritório de contabilidade e estudando para concurso. Já tinha até namorada. Uma bela e simpática goiana. Nunca mais os vi.

Fiquei com a estranha mania de ficar vendo placas de carro. Depois disso vi no trânsito umas duas ou três de Manaus.

Acabei não fazendo a viagem. Quando decidi fazê-la já era impossível.  Estava intransitável. Há cinquenta anos tenho o sonho de chegar aqui por estrada. Ou ir daqui a Brasília. Será um sonho realizável?


domingo, 20 de setembro de 2026

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

Criar

Agostinho Neto (1922-1979)

 

Criar criar

criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

 

Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos

 

Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem na ponta da bota roceiro
força no esfrangalho das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

 

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos

 

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em formas simuladas

criar
criar amor com os olhos secos.

 


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

Um artesão de imagens e sua doce canção no chão do tempo 

 Márcia Antonelli

 

Chegou-me em mãos “Canções no chão do tempo” do professor, escritor e poeta Arcângelo Ferreira, também autor das obras “Na claridade do luar: História e Literatura do Clube da Madrugada”, Diálogos entre História & Literatura em Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum. “A Sombra e seus duplos” (contos) e “A Merda do Mundo” (contos), em coautoria com o escritor Thiago Roney (contos).

Atesto que este seu livro de poemas “Canções no chão do tempo” é um desfrute. Um deleite.  Um encanto. Um doce passeio pelas várias construções e linguagens poéticas. Tudo é uníssono e nos embala ao som de uma cítara invernada. É como se as palavras voltassem ao útero materno para enfim descansar da luta. E talvez de fato fosse este o propósito quando o poeta dedica sua obra à própria mãe.

Fui e vim no embalo das palavras tocando o chão do tempo. Imagem, som, cheiro, sabor, o espectro do tempo, os escombros da vida. Fui lendo. Fui gostando. Me envolvendo. Velejando à procura de mim, talvez. Li em três dias esta obra. Deixei-me mesmo embalar. Levar-me por ela. A poesia é toda aquela que se planta sem ambição no peito e se planta. E apaixona-se. “Só se vive eternamente/se se encontrar o esconderijo de Artémis.”



Impressionante o domínio e a leveza de Arcângelo no trato com as palavras. Como se desejam e se pertencem mutuamente. Tão poucas vezes senti paz e alegria e também ternura ao ler um livro de poemas como este, sem grandes ambições, apenas expressando verdades simples. Um trabalho original e valoroso, cheio de ritmos e imagens. Palavra e tempo. Um apelo minucioso com a técnica concretista e haicaísta.  Saúdo e celebro esta obra. Tanto quanto a recomendo.

Amostras poéticas:

 

Saudade

vou pelo mundo

na imaginação, grito

saudade de tudo...


o que pude viver.

o que ainda não posso?

o que iria/irei erguer...

 

vou pelo mundo

preso, neste confinamento,

vem saudade de tudo...

 

 

Acácias

 

manto de chuva

no silêncio das acácias –

instante de viver

 

Vaga Luz

 

Vaga o crepúsculo,

Lume, a noite que chega –

“ave minúscula”


 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Aguardando os debates

Pedro Lucas Lindoso

 

Uma amiga cearense de tia Idalina foi visitá-la. Passava na TV o horário eleitoral quando dona Cirene, escandalizada com uma das propostas de certo candidato, exclamou:

– Esse sujeito merece um sabacu.

 Tia Idalina perguntou da amiga do Ceará o que significava sabacu. Sabacu é uma ave. Mas é uma gíria cearense. Uma espécie de cascudo. Juntam-se as duas mãos com os dedos entrelaçados. Depois a gente assopra para aprisionar o ar entre as palmas das mãos antes de deferir o golpe. Faz um barulho estalado.

Esse pessoal do Ceará é mesmo fenomenal. Tem uma espécie de vaia que só eles sabem fazer. Agora descobri o cascudo cearense. O sabacu.

As duas amigas riram muito e a conversa descambou para esses atos físicos comuns entre adolescentes ou pais, quando precisam castigar os filhos. Minha mãe beliscava a gente. Principalmente se o malfeito era diante de alguma visita, conta Idalina. A minha puxava a orelha da gente. Literalmente. E nos ameaçava com um terrível grito: “eu te trituro sua moleca”, recorda Cirene.

Meus irmãos tinham mania de malinar uns aos outros aplicando caçoleta. “O que é isso?” Pergunta Cirene. Consiste em estalar o dedo contra a orelha alheia, provocando um pequeno estalo ou ardência passageira.

Voltando à propaganda política, Idalina comenta:

– Acho de última o sujeito se apresentar como coronel, capitão ou cabo. Vai ser polícia ou deputado? É como professor fulano, doutor fulano de tal. Vai dar aula, clinicar ou atuar como parlamentar? Merece uma sulipa, um peteleco. Aquele golpe rápido dado na região do pescoço, nuca ou orelha.

Idalina acha que muitos ali merecem mesmo um bom sopapo, para criar vergonha na cara. Essa propaganda eleitoral funciona como um jogo de “caça ao exagero mentiroso”.  O candidato fala uma coisa, promete outra e no fim, se eleito, entrega outra.

Minha amiga, como a gente não pode dar um tapa nesse aí, vamos perguntar o óbvio – e solta: “Tá bom… e o plano? E a proposta?” É o ‘vai melhorar’, repete sempre isso. Só rindo mesmo.

Veja só, a maioria deles se expressam cinicamente, com aquele sorriso de comercial: “Pode confiar.” E você: “Confio… só em alguns.” E olhe lá!

No final, o “sopapo que merecem” é o voto consciente. E claro, minha amiga, nosso deboche como argumento. E o voto certo e consciente. É aquela nossa vingança democrática. Em vez de bater, que a gente não pode. Quer saber? Propaganda é barulho… E quem sabe, responde. Vamos aguardar os debates.

 

domingo, 13 de setembro de 2026

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Um comentário orgásmico a respeito de A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli


Marcos Souza

 

A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas cruzadas, postura empertigada e mão no queixo exalando sobrecarga intelectual, talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao mesmo tempo nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico, do contrário não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou ter uma de nossas obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens, para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir aquilo que só é proferido a modo de sussurro. E, hoje, sussurro delicadamente para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli.

Antes de adentrarmos à casa das bonecas, serpenteando entre os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma “Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira. Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada ainda conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional. Pois é, camarada, caberás a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou a permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente fedendo a gorgonzola”.

Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.



Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores, persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes, assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para aquisição entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais, a saber: @marciaantonelli376 no Instagram e Márcia Antonelli Santana no Facebook.

Até.

 

 

Marcos Souza é professor, geógrafo e escritor, nascido em Manaus, Amazonas. Autor de Coisas do futebol manauara (2022), Cidade decadente: personas (2024) e Um grande circular (2026). Recebeu algumas menções honrosas e premiações, tal como pelo Prêmio Literário Luiz Carlos Abritta (AMULMIG), pelo Concurso de Contos e Crônicas Gioconda Labecca (ALGRASP), pelo Concurso Farol Literário (Instituto Federal Goiano) e pelo VIII Concurso Literário Cidade de Ouro Branco (ACLAOB), além vencer a 13ª e a 14 ª edição dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, ambas na categoria Prêmio Álvaro Braga, destinado ao melhor livro de teatro. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

A cachorra

Pedro Dantas (1904-1977)

 

Veio uma angústia de cima,

Pelos ombros me agarrou,

No mais fundo do meu peito

Sua lâmina cravou.

Depois que no chão desfeito

O meu corpo estrebuchou,

Pelos cabelos a fera

Sobre pedras me arrastou.

Meu corpo, se espedaçou.

Mas ainda não satisfeita,

Nova vida me insuflou:

Para mostrar poderio,

Com a sua mão direita

Uma cidade arrasou,

Na esquerda tomou um rio,

Fogo nas águas soprou,

As águas todas do rio

Com seu hálito secou.

Levou-me aos cimos mais altos,

No ar me imobilizou,

Depois, em súbitos saltos,

A garra adunca fincando

No meu coração, lá do alto

Soltou um grito nefando

E sobre o mar me atirou.

Ah, nas águas do mar alto

Meu corpo logo afundou.

Veio buscar-me de novo:

Angina-péctoris, polvo,

Meu coração sufocou

E tais surras de chicote

Me deu, que a cada lambada

Minhalma mortificada,

Minhalma perto da morte

Só a morte desejou;

Meu rosto esfregou na lama,

As faces me babujou

E quando, à atroz azafama,

O meu olhar se turvou,

Vencido, entregue, arquejante

Perdido o sangue das veias

Na praia, sobre as areias,

Meu corpo exausto rodou.

Ah, pobre corpo do amante

Que até o fim se humilhou!

Então um riso infamante

As fauces lhe escancarou,

Zombou da minha tolice:

“Eu sou a Cachorra”, disse,

“Tu me chamaste: aqui estou.”

 

A essa voz dissiparam-se as sombras

E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória

Senti que da sua boca nasciam rosas

E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Carta para Luiz Bacellar

Tainá Vieira

 

Outro dia, procurando um documento numa pasta onde guardo papéis importantes, deparei-me com diversos recortes de jornais referentes à tua partida. Eram mais de cinco jornais diferentes, todos tentando, cada um à sua maneira, dar nome à tua ausência. Havia títulos que, com certeza, tu odiarias. Especialmente este: “O adeus do poeta”. Afinal, tu odiavas ser chamado de poeta. Hoje compreendo um pouco a tua aversão. Não concordo, mas compreendo.

Li cada recorte devagar. Emocionei-me com as palavras dos jornalistas, com as entrevistas transcritas, com as lembranças dos amigos falando sobre ti. Havia uma espécie de espanto em todas aquelas vozes, como se ninguém soubesse muito bem o que fazer diante da tua ausência. Por alguns minutos, deixei de ser misândrica e passei a te amar ainda mais. Talvez a morte tenha esse poder estranho de nos reconciliar, por alguns instantes, com aquilo que em vida nos incomodava.

Tu não sabes, ou talvez saibas, porque gosto de imaginar que os mortos continuam sabendo alguma coisa sobre nós, mas depois da tua partida escrevi durante um ano inteiro cartas para ti. Contava-te as notícias do mundo de cá, as coisas que aconteciam, as pequenas banalidades, as grandes tristezas. Escrevia como quem tenta manter acesa uma conversa que a morte interrompeu sem pedir licença. Pura tolice minha. Perdão! Eu simplesmente não conseguia aceitar que tinhas ido, sabe Deus para onde. Talvez aquelas cartas fossem menos para ti e mais para mim. Eu precisava acreditar que ainda existia algum lugar onde as minhas palavras pudessem te alcançar.

Hoje, dia 9 de setembro, já são 14 anos da tua partida, e eu ainda estou aqui, essa mísera mortal que às vezes ainda chora a tua partida como se tivesse acontecido ontem. É curioso como o tempo não cura certas ausências; apenas nos ensina a carregá-las com menos alarde. Algumas pessoas morrem e deixam apenas uma lembrança. Outras permanecem como uma espécie de cicatriz invisível, dessas que não doem todos os dias, mas que o corpo reconhece quando alguma coisa as toca. E queres saber de uma coisa? Tenho plena convicção de que tu não gostarias de mim hoje. Penso até que nem me reconhecerias e acredito que também não te gostaria mais hoje.

Hoje, no tempo de 2026, o mundo parece outro. É bom e ao mesmo tempo caótico e mau. Mas não quero entrar em detalhes agora, porque quero falar mais de mim. Estou completamente mudada. Ou talvez e esta possibilidade me seja ainda mais perturbadora, a mulher que sou hoje seja, finalmente, quem sempre fui, mas ainda não havia descoberto naquele tempo em que te admirava como se tu fosses maior do que os homens costumam ser e eu menor do que realmente era. Eu te idolatrava, porque para mim nunca houve um poeta maior do que tu.  Coloquei-te num pedestal e, durante muito tempo, permaneci olhando para cima. Hoje sei que todo pedestal é também uma distância. Talvez eu tenha precisado te colocar lá para compreender, muitos anos depois, que ninguém deveria precisar estar acima de ninguém para ser amado, admirado ou lembrado.

Ainda assim, não me arrependo. Não me arrependo daquela menina que te admirava, das cartas que escrevi, do amor quase ingênuo que depositei em toda a tua obra. Há coisas que só conseguimos compreender depois de perdê-las, e talvez tu tenhas sido uma dessas experiências que a vida me deu para que eu pudesse, um dia, descobrir não apenas quem tu eras, mas quem eu era diante de ti. Hoje já não sou aquela mulher. E talvez tu realmente não gostasses de mim. Talvez achasses excessivas as minhas perguntas, as minhas inquietações, a mulher que se recusa a caber nos lugares que lhe foram destinados. Talvez não compreendesses essa minha necessidade de dizer, de escrever, de desafiar, de não pedir licença, de ser agressiva e excessiva.

Mas há uma coisa que permaneceu. Tu ainda estás no pedestal. Talvez eu te deixe lá para sempre, considerando os poetas da tua geração que eu não os suporto. E, talvez eu te deixe lá não porque ainda precise te admirar de baixo para cima, nem porque precise da tua aprovação. Deixo-te lá porque algumas pessoas passam pela nossa vida e se tornam parte da arquitetura secreta de quem somos. Porque, mesmo depois de mortos, continuam existindo em algum lugar dentro de nós, não exatamente como foram, mas como foram transformadas pela nossa memória. E talvez seja isso que o tempo fez contigo: não te apagou. Apenas mudou o lugar onde existes.

Já não estás diante de mim. Estás em mim, como uma lembrança rara, na minha escrita, quem sabe, E, catorze anos depois, acho que finalmente aprendi apenas a te admirar sem precisar voltar a ser aquela pessoa que te amava. Talvez seja essa a única forma verdadeiramente adulta de amar os mortos: continuar preservando-os sem permitir que a memória deles nos impeça de nos tornarmos quem somos.

Portanto, acredito que esse será o nosso último contato; como disse, mudei. Despeço-me do homem, mas imortalizo o poeta, a obra, os versos para sempre na minha memória e o levarei para onde eu caminhar.  Despeço-me de ti, sem me comprometer se um dia voltarei a escrever-te. Quem sabe como o mundo estará em 9 de setembro do ano seguinte?



terça-feira, 8 de setembro de 2026

Alfas e betas

Pedro Lucas Lindoso

 

Você me disse que não gosta de ser politicamente de esquerda porque, no Credo, Jesus está sentado à direita de Deus. Mas imagine que você chega ao Céu e se encontra com Eles. De fato, Jesus está sentado à direita de Deus. Porém, na sua perspectiva, Ele vai estar à sua esquerda.

Essa já ultrapassada divisão iniciou-se há mais de 200 anos,  durante a Revolução Francesa. Na convocação da primeira Assembleia Nacional Constituinte, uns ficaram à esquerda, outros à direita. Mas para quem estava presidindo, no caso, Jean Bailly, sucedido por, dentre outros, Mirabeau e Robespierre, pois o cargo de presidente era rotativo, a perspectiva também mudava. Assim, quem tinha ido para direita, agora era visto, pela presidência, ao lado esquerdo. E vice-versa.

Imagine se os constituintes tivessem definido que os que estavam à direita seriam alfas e os da esquerda seriam betas. Nada seria diferente. Os alfas de direita são os ricos e seus amigos, os nobres e seus amigos, os burgueses, os incluídos em privilégios mesmo sendo pobres e trabalhadores. E ainda os que não querem compartilhar as riquezas com os betas que são geralmente os trabalhadores, os pobres, as minorias, os excluídos e os que os apoiam.

Há os que ficaram no meio. Se consideram de centro. Ou centro alfa ou centro beta. Eu penso que Jesus era beta. Vivia curando cegos, paralíticos, leprosos. Vivia no meio do povão.

Nesses últimos tempos o Brasil e também muitos países estão polarizados entre alfas e betas. Muitas brigas entre familiares, amigos e colegas que não perdoam seus parentes que tem uma ideologia diferente da sua.

Há os alfas que fizeram coisas imperdoáveis para os betas. Como participar ativamente dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. É disso que trata o livro de Maria José Silveira, cujo título é “Imperdoável”.

Sem querer dar “spoiler”, o romance aborda a vida de três amigos de juventude. Ao se conhecerem eram todos betas. Porém, uma das duas garotas se torna alfa radical. A amizade, apesar de abalada, continua. Os outros dois, o rapaz e a outra moça, permanecem com os mesmos ideais betas. Mas aí algo imperdoável acontece. 

Maria José Silveira nasceu em Jaraguá, no interior de Goiás. Ainda criança se mudou para Goiânia. Morou em Brasília, Paris, Lima, Rio de Janeiro, atualmente, mora em São Paulo. Mestre em Ciências Políticas e formada em Comunicação e Antropologia, é escritora, tradutora, editora e autora de dezenas de livros. Escreveu romances, dos quais o primeiro, A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, recebeu o Prêmio Revelação da APCA, em 2002. Alguns de seus livros já foram publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e China. Casada com meu irmão Felipe Lindoso, é minha cunhada, pela qual tenho admiração e afeto.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

Manaus, amor e memória DCCXCI

 

Vista da avenida Eduardo Ribeiro, com a Praça do Congresso, dividida, em primeiro plano. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A poesia é necessária?

 

Propriedade

Armando Freitas Filho (1940-2024)

 

A boneca preta na sacada

agraciada com o forro falso

simula que tem alguém em casa

onde foi sempre ninguém.

 

Sem pernas, ela é escrava

que não pode nem voltar

para a senzala, comprada

cortada ao meio para ser

mais manipulável e barata.

 

Trabalha dia e noite

presa na “eterna vigilância”

atrás das grades

nas janelas, nas cancelas

do partido dos senhores

sem pregar o olho

sem direito sequer

ao sonho da alforria.



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

 Luz, câmera, palavras

Márcia Antonelli

 

Luz, Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé, obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor, que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da antropologia e outras ciências do tipo.

Quando um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas, outras paragens. No caso de Mawé, o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência artística.


Durante muito tempo, parte da crítica cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita criativa.

Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Repto de honra

 Pedro Lucas Lindoso

 

A manchete do Jornal do Comércio de 18 de agosto de 1964 informa que o governador Arthur Reis lançou um repto de honra ao Sr. Desiré Guarany, fiscal de consumo, que teria acusado o governador de corrupto. Arthur Reis indica o general Jurandir Mamede como seu representante no repto. Também nomeado para a presidência da comissão do repto o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara.

Os reptos de honra, como os duelos, estão fora de moda. Aliás, duelar com armas ou agressão física é ilegal no Brasil e na maioria dos países. Hoje em dia as pessoas em tais situações buscam a tutela jurisdicional para exigir indenizações financeiras por danos à imagem ou à vida privada. Há basicamente dois crimes contra a honra. A calúnia, quando se é falsamente acusado de um crime, e a difamação, quando se tem a reputação manchada publicamente.

Os reptos de honra estão mesmo fora de moda. Exceto na nossa misteriosa, folclórica e mitológica floresta das chuvas. As nossas matas. A floresta amazônica. Justamente lá onde habitam o Mapinguari e o famosíssimo Curupira. Como se sabe, o Curupira foi escolhido mascote da COP 30, realizada em Belém. O Curupira é conhecido pelos seus cabelos de fogo e pés voltados para trás, usados para confundir invasores, caçadores e os madeireiros que destroem a floresta.

O Mapinguari é um monstro gigante e peludo que tem um olho só. Assim como o Curupira, o Mapinguari é um eficiente guardião da floresta. Ele ataca os madeireiros, caçadores e grileiros. Uns dizem que o Mapinguari tem pelos longos e vermelhos. Outros o descrevem como tendo uma pele dura como a do jacaré. E tem uma boca enorme na região do umbigo.

Enquanto o Mapinguari grita forte assustando os destruidores da floresta, o Curupira, com os pés voltados para trás, faz esse povo se perder na mata. Ambos foram finalistas para a escolha da mascote da COP 30.O Mapinguari perdeu o concurso simplesmente porque fede muito. Não toma banho, sendo muito, muito assustador. Já o Curupira foi eleito pela sua simpatia e astúcia.

Enciumado, Mapinguari espalhou pela floresta que o Curupira estava ganhando milhões de dólares de uma ONG ambientalista, sem socializar os recursos com os outros animais. O Curupira lançou um repto de honra ao Mapinguari. Os mamíferos aquáticos foram designados para compor a comissão. O Boto Vermelho vai representar o Curupira enquanto o Boto Tucuxi vai representar o Mapinguari. A presidência coube ao Peixe-boi. Espera-se que o imbróglio tenha um desfecho antes das eleições de outubro.