Amigos do Fingidor

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vamos falar de literatura?

 Luz, câmera, palavras

Márcia Antonelli

 

Luz, Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé, obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor, que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da antropologia e outras ciências do tipo.

Quando um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas, outras paragens. No caso de Mawé, o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência artística.


Durante muito tempo, parte da crítica cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita criativa.

Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Repto de honra

 Pedro Lucas Lindoso

 

A manchete do Jornal do Comércio de 18 de agosto de 1964 informa que o governador Arthur Reis lançou um repto de honra ao Sr. Desiré Guarany, fiscal de consumo, que teria acusado o governador de corrupto. Arthur Reis indica o general Jurandir Mamede como seu representante no repto. Também nomeado para a presidência da comissão do repto o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara.

Os reptos de honra, como os duelos, estão fora de moda. Aliás, duelar com armas ou agressão física é ilegal no Brasil e na maioria dos países. Hoje em dia as pessoas em tais situações buscam a tutela jurisdicional para exigir indenizações financeiras por danos à imagem ou à vida privada. Há basicamente dois crimes contra a honra. A calúnia, quando se é falsamente acusado de um crime, e a difamação, quando se tem a reputação manchada publicamente.

Os reptos de honra estão mesmo fora de moda. Exceto na nossa misteriosa, folclórica e mitológica floresta das chuvas. As nossas matas. A floresta amazônica. Justamente lá onde habitam o Mapinguari e o famosíssimo Curupira. Como se sabe, o Curupira foi escolhido mascote da COP 30, realizada em Belém. O Curupira é conhecido pelos seus cabelos de fogo e pés voltados para trás, usados para confundir invasores, caçadores e os madeireiros que destroem a floresta.

O Mapinguari é um monstro gigante e peludo que tem um olho só. Assim como o Curupira, o Mapinguari é um eficiente guardião da floresta. Ele ataca os madeireiros, caçadores e grileiros. Uns dizem que o Mapinguari tem pelos longos e vermelhos. Outros o descrevem como tendo uma pele dura como a do jacaré. E tem uma boca enorme na região do umbigo.

Enquanto o Mapinguari grita forte assustando os destruidores da floresta, o Curupira, com os pés voltados para trás, faz esse povo se perder na mata. Ambos foram finalistas para a escolha da mascote da COP 30.O Mapinguari perdeu o concurso simplesmente porque fede muito. Não toma banho, sendo muito, muito assustador. Já o Curupira foi eleito pela sua simpatia e astúcia.

Enciumado, Mapinguari espalhou pela floresta que o Curupira estava ganhando milhões de dólares de uma ONG ambientalista, sem socializar os recursos com os outros animais. O Curupira lançou um repto de honra ao Mapinguari. Os mamíferos aquáticos foram designados para compor a comissão. O Boto Vermelho vai representar o Curupira enquanto o Boto Tucuxi vai representar o Mapinguari. A presidência coube ao Peixe-boi. Espera-se que o imbróglio tenha um desfecho antes das eleições de outubro.

 

domingo, 30 de agosto de 2026

Manaus, amor e memória DCCXC

 

Grupo Escolar Saldanha Marinho.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica

Ricardo Kaate Lima

 

A literatura realista de crítica social sempre teve grandes exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo, nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.

Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para Miami.

Na novela Um grande Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos, trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia, traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.

Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva) lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.

Classifico Um Grande Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico, rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e não gostamos do que vimos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

Minha boca também

Ana Cristina César (1952-1983)

 

Minha boca também

está seca

deste ar seco do planalto

bebemos litros d’água

Brasília está tombada

iluminada como o mundo real

pouso a mão no teu peito

mapa de navegação

desta varanda

hoje sou eu que

estou te livrando

da verdade

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?

A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – nova obra do escritor amazonense Victor Hugo Neves


Márcia Antonelli

 

A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA é o segundo livro do escritor Victor Hugo Neves. Trata-se de um livro de crônicas, e que a mim foi atribuída a tarefa de prefaciar.

Neste seu novo livro, Victor Hugo revela-se maduro. Conciso. Imponente. Consolida definitivamente seu talento nato para a crônica. Um dos exercícios mais nobres do gênero literário, segundo Graciliano Ramos. As crônicas de Victor Hugo são de uma lucidez, fluidez e coloquialidade impressionantes. Nos faz pensar os deleites imperceptíveis do dia a dia das pessoas: o viver, o sentir, o sonhar. Seja da interioridade do ser, ou das questões da cidade mesmo. São crônicas do olhar de si para si e também do outro para o outro. Numa sociedade que camufla sua verdade frente a um espelho filtrado ela acaba tendo uma imagem narcisista e distorcida de si e da realidade que o cerca porque tudo hoje é produzido de forma falsa, ilusória. O que nos leva ao mito de Narciso, filho da Ninfa Liríope e de Cefiso, deus dos lagos. Reza a lenda que Narciso caminhando a esmo por um lindo bosque, parou frente a um lago e nele prostrou-se para admirar sua própria beleza refletida. Ficou tão encantado por si mesmo que resolveu mergulhar naquela fonte de água cristalina e desaparecer. O mito de Narciso nada mais é que uma crítica ao egocentrismo e ao excesso de vaidade. O personagem Narciso acabou se tornando um mero símbolo do individualismo e do excesso de amor-próprio. Virtude ou defeito, sabe-se lá, mas que ainda se faz presente nos tempos atuais e que o autor deste livro se arvora a refletir e nos mostrar através de suas crônicas líricas, reflexivas. Por vezes, ácidas, descontraídas, bem-humoradas, onde o autor brinca com as figuras de linguagem, com as construções frasais, textuais e que também são formas de prender o leitor. A transição de um texto para o outro se dá de maneira sutil, leve, espontânea, musical, como a passagem de um Vivaldi para um Strauss.

O bom cronista é de fato aquele que, com primazia e louvor pelo ofício, é capaz de perceber no dia a dia de sua vida, impressões, ideias ou visões da realidade que não são percebidas por todos. Victor Hugo tem este costume. E nada dele escapa. O que o torna um cronista dos bons. Cada livro seu nos surpreende pela temática corajosa, pela elegância da escrita e pela docilidade das palavras. A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA nos revela tudo isso. Além de ser um livro, sobretudo, de valores nobres e humanos. Um livro que precisa ser lido, pensado, valorizado.

 

Recomendo: A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – VITOR HUGO NEVES.

Como adquirir o livro: Em todas as plataformas digitais de e-book. Também através da editora e livraria Fonte de Papel e através do WhatsApp do autor: 92 99467 2827.

           

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Amor à prosa

 Pedro Lucas Lindoso

 

Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.

Fui ao encontro determinado a ouvir poesia. Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher. Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.

Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano também tem alma e que a alma, sim, escreve.

E eu me apaixono justamente por isso. A crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço, onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa esteja sempre em construção.

Há dias em que a crônica é suave, quase sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro, obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.

E então, quando termino, eu percebo que não escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com atraso.

A crônica me ensina que a literatura pode ser abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu coração, quando a encontra, não sabe fingir.

Eu amo crônicas por isso, por cada conversa que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.

E se um dia eu perder a coragem, crônica, basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua. Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica como presença que fica.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Homenagem a Márcio Souza


Clique sobre a figura, para obter o acesso.



 

domingo, 23 de agosto de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coelho Neto e o Gótico Brasileiro

Ricardo Kaate Lima

 

          Quando falamos de literatura gótica, lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas tropicais, miscigenação e samba.

          Uma reflexão bem equivocada quando observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934), com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros, povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.

          É impossível falar de Coelho Neto sem mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.


Coelho Neto (1864-1934).


          Coelho Neto deveria ser mais lido, estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense, agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que Lovecraft faria décadas depois. 

          Felizmente, essa é uma injustiça que está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.

          A Vossa Alteza Literária, Henrique Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.

  

Curiosidades:

. Coelho Neto esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);

. Autor de mais de uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um verdadeiro pop star, ao lado de Olavo Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não precisava de títulos;

. Hoje, Coelho Neto é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa, antiga rua 25 de Dezembro.

(ZmP)




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas

Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)

 

9 (fragmentos)


Este poema

tem seus descantes didáticos

suas horas de recreio

e uma aparente desordem

que não irrita o professor

mas, sim, ao fiscal de ensino.

Não posso

por exemplo, o tempo todo

ser meu próprio ladrilheiro

e colar letra por letra

– como o tijolo, o pedreiro.   

Poesia

não pode ser obra de carcereiro.

A menos que o guarda esteja

no limiar de suas portas

e nas argolas das horas

descubra

a inversa função da chave

que em vez de trancar, descerra

a imagem presa nas grades.

E este poema

como qualquer prisioneiro

deve ter direito ao sol

e à liberdade

– mesmo que condicional

 

deve poder se exilar num desgoverno

cometer seus desatinos pelas ruas e versos

que ao sistema da escrita aberta

cabe o modo poético e dialético

de converter o que era estrume

em flor oferta.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?

A estética da brutalidade na obra de Vinicius Braga

 

Márcia Antonelli

 

Um tapa só. Um soco só. Um vômito só. Bom demais. Gosto do que me atinge. Do que me atordoa. Do que me provoca o vômito de vomitar.  O desconserto.  A estética do brutalismo. Uma pegada bem Rubem Fonsequiana. Mas é claro que Vinicius Braga tem sua própria pegada. Seu próprio estilo. Catártico. Áspero. Sem rodeios ou indiretas. É pow, ping, vrum, schlep, schlep. Balaço no peito do leitor. Nihilo nihil fit!  Eis o Orações Malditas. Livro de estreia desse talentoso autor que nos apresenta em seu livro, oito contos intensos, concisos, tensionais. Todos muito bem costurados. Trabalhados. Explorados. Contos que te prendem. Que te enjaulam. Que te causam imbróglios. Há qualquer coisa de desconforto, de dor, de desesperança ao lê-los.  A desnatureza de cada protagonista e suas ações humanas é o que há de mais vil e encantador em cada história presente nessas Orações Malditas. Falo sério que gostei. “Sangue do meu sangue”, “Orações Malditas” (que dá título ao livro) e “Trinta e oito” são meus prediletos. Sem desmerecer, é claro, os demais, que também são arrebatadores e que te atravessam como uma bala. É que prefiro sangue do que vinagrete, saca? E Vinicius nos oferece isso. Derrama o aperitivo dos deuses no altar. Envenena o pólen das borboletinhas do jardim. Estoura miolos de bebês que vomitam sangue nos seios de suas mãezinhas. Calma, calminha, calmante? Eis os ingredientes deste livro. Vinicius Braga, faz enfim, sua estreia com essa prosa. Arromba com os pés as portas do obsoletismo caduco da prosa literária de Manaus, sob a égide do caos, da agonia e da barbárie humana, sujeitos vítimas do capitalismo selvagem e das novas formas de opressão. Sugiro, portanto, que leiam Vinicius Braga, e façam logo suas orações de redenção antes e depois da leitura desta obra.

 


(Márcia Antonelli é transcritora, autora de contos, novelas, crônicas e resenhas. Atua na vida atuando.)

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cercas de jurubeba

Pedro Lucas Lindoso

 

Quando meu saudoso pai José Lindoso foi governador do Amazonas continuei morando em Brasília, terminando meu curso universitário. Tirei férias e vim passar o Natal com meus pais. Um amigo da faculdade me disse que faria uma viagem de quatro dias para conhecer Manaus. Naquela época não havia celular. Dei a ele um telefone que seria da residência onde o governador, meu pai, e mamãe residiam.

O fato é que o amigo tentou falar comigo diversas vezes e não conseguiu. De volta a Brasília brincou comigo dizendo que eu estava incomunicável por estar protegido por uma forte e eficiente cerca de jurubeba. Disse-lhe que sem saber, sem merecer e sem necessidade fiquei protegido por suposta cerca de jurubeba que lamentavelmente impediu de nos vermos em Manaus.

Recentemente, esse mesmo amigo me telefonou convidando-me para sua posse num mandato tampão de prefeito de uma importante cidade do Nordeste. Infelizmente não pude comparecer. Liguei ao amigo no número registrado no celular. Não era mais dele. Liguei em diversos números da prefeitura. Nada. Ainda não consegui falar com ele.

Depois de muitos anos quem ficou protegido por uma cerca de jurubeba foi ele. Diferente de mim. Ele sabe que a cerca existe. Possivelmente merece estar lá. E os seus assessores acreditam que há necessidade dessa jurubeba.

A planta jurubeba cresce em cercas, beiras de estradas e terrenos baldios. Como metáfora popular, trata-se de uma barreira difícil, cheia de “espinhos”. A jurubeba é um arbusto nativo do Brasil que alcança até três metros de altura. É um arbusto rústico, com espinhos curtos e curvos no tronco. Existe um dito popular que entende a “cerca de jurubeba” como ideia de “blindagem às pessoas importantes. Os VIPs. No caso de políticos, é função de assessores manter governantes e autoridades afastados do “povo” e protegê-los de críticas, curiosos ou gente “de interesse”.

O assessor ou os assessores acham que estão ali para proteger o assessorado das demandas espinhosas. Assim, tentam impedir as pessoas de ter contato com a autoridade. Tudo para vetar a entrada de gente indesejada ou inconveniente. O pior, nestes casos, é que há assessorados que adoram esse tipo de assessor. Conhecendo meu amigo de longa data, ele provavelmente não é um desses.

Há pessoas que ainda nem foram eleitas e já estão cercadas de jurubebas.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Uma poética da invisibilidade em Um Grande Circular

 Zemaria Pinto

 

O dia amanheceu como tantos outros para aquele formigueiro decadente: Nimalino fazia o café, dava um beijo de despedida no marido e se encaminhava apressado para a cama, procurando feito um doido o celular debaixo do travesseiro.

 

(Marcos Souza, em “Nimalino”, conto do livro

Cidade decadente: personas)

 

Ao usar como epígrafe um fragmento de texto do próprio autor, não quero estabelecer paralelos entre as duas obras, mas sim conexões que fluem naturalmente de um livro para o outro, sem que eles percam a independência que os justifica enquanto obras literárias que se projetam para o futuro. Da invisibilidade à marginalidade, a cidade – antagonista – é configurada como um organismo hostil, que molda a sua imagem e semelhança seus habitantes e, feito um Chronos enfurecido, devora-os com sofreguidão.  

O caro leitor não passará incólume pelo primeiro capítulo deste Um Grande Circular, que, no título, intertextualiza com Euclides da Cunha e toda a tradição da literatura edenista/infernista que tem a Amazônia como síntese mal realizada do Paraíso Perdido em oposição ao Inferno Verde. Marcos Souza sabe do que está falando, por isso desperta seu anti-herói quase com carinho, evocando um tão distante e tão próximo Gregor Samsa:

 

Quando certa manhã Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. (“Sol infernal, dilúvio divino”)

 

A metamorfose de Letério transforma-o de modo inverso à metamorfose de Samsa, pois é isso que ele busca alcançar: uma narrativa profundamente ligada às contradições da vida urbana em Manaus, utilizando como protagonista-guia um personagem socialmente invisível. É ele quem alimenta essa cidade antagonista.

A obra aborda temas como exclusão, violência, mercantilização das relações humanas e espetacularização da miséria, ao mesmo tempo em que propõe uma reflexão crítica sobre os limites da civilização moderna e seus mecanismos de controle. Usando uma escrita marcada pelo lirismo e pela oralidade regional, o autor transforma a cidade em um espaço simbólico de opressão e sobrevivência. Não resisto a citar Bourdieu, para quem a violência simbólica, “é a violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação [...] e do sentimento.”

Letério vive, por cerca de vinte anos, em uma tubulação de esgoto no bairro Tancredo Neves, afastado da vida social convencional. Essa condição extrema não é tratada apenas como miséria material, mas como um ponto de observação privilegiado. Do subterrâneo e das madrugadas, Letério elabora uma leitura crítica do mundo que o cerca, percebendo que a cidade funciona segundo uma lógica excludente, em que indivíduos valem pelo que produzem ou consomem. Ao circular pelas ruas à noite, ele se mantém fora do ritmo produtivo diurno, recusando-se a aceitar o modelo de vida imposto pela sociedade urbana. Esse é o âmago de uma poética da invisibilidade, que, alheio a Bourdieu ou a qualquer outro teórico, Letério elabora sem ter a mínima consciência disso, como um espasmo orgânico. 

A oposição simbólica entre noite e dia é um dos eixos centrais da obra. O dia representa vigília, trabalho sem prazer e padronização social, enquanto a noite se configura como espaço de liberdade relativa, anonimato e reflexão. É nesse intervalo temporal que Letério se sente autorizado a existir. No entanto, mesmo nesse espaço de suposta liberdade, as relações são marcadas pela violência, pelo medo e pela instrumentalização do outro, o que evidencia que a exclusão não se restringe a um período do dia, mas estrutura toda a vida urbana.

A relação entre Letério e Iriane aprofunda essa crítica social. Iriane, uma auxiliar de cozinha, enxerga no protagonista a possibilidade de estabilidade emocional e financeira, projetando nele expectativas de ascensão social. O encontro entre os dois, porém, é marcado pelo desencontro e pela frustração, revelando a dificuldade de estabelecer relações genuínas em um ambiente regido por carências materiais e simbólicas. O episódio evidencia ainda a solidão estrutural dos personagens, que buscam no outro uma saída individual para problemas que são coletivos.

Outro aspecto relevante da novela é a inserção do episódio do assalto à casa lotérica, narrado sob diferentes perspectivas. A cena explicita a banalização da violência e sua transformação em espetáculo midiático, denunciando a forma como a mídia e o poder público manipulam informações e constroem narrativas convenientes. A multiplicidade de pontos de vista rompe com a linearidade tradicional e reforça a ideia de que não há verdades absolutas, apenas versões modeladas por interesses específicos.

A metalinguagem, presente nos diálogos entre o autor-narrador e um editor fictício, contribui para a dimensão crítica da obra. Ao questionar a coerência da narrativa, o editor representa o olhar normativo da crítica tradicional, enquanto o narrador defende a legitimidade de uma escrita caótica, fragmentada e desconfortável, tal qual a realidade que procura retratar. Esse recurso reafirma o compromisso da novela com uma literatura que não busca apenas agradar, mas provocar reflexão e – quem sabe? – indignação.

Dessa forma, Um Grande Circular se consolida como uma obra de forte crítica social, que utiliza a invisibilidade como lente para examinar as estruturas urbanas, morais e econômicas da sociedade contemporânea. Ao acompanhar o percurso de Letério, o leitor é convidado a questionar os valores que sustentam a normalidade social e a reconhecer a humanidade daqueles que habitualmente permanecem invisíveis. A narrativa encerra-se reafirmando a ideia de circularidade: a cidade segue seu curso, enquanto os excluídos continuam girando à margem, presos a um sistema que os ignora, mas do qual não podem ser dissociados.


Projeto Gráfico e capa: Wilson Prata
Fotografias: Samuel Liberato 
Apresentação: Zemaria Pinto
Temiporã Edições

 

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Manaus, amor e memória DCCLXXXVIII

 

Reclame do Hotel Amazonas, de março/1952.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A poesia é necessária?

 

Sugestões para poemas

Hildeberto Barbosa Filho

 

1

Para o primeiro verso

nada como as pupilas

da manhã.

 

Nada como os pirilampos

da manhã.

Nada como os pelicanos

da manhã.

 

Pode batear os rubis da rima.

Use também as coisas domésticas:

 

toalha de mesa

esmalte de unha

estojo de barbear

urinol dedais agulhas.

 

Cuidado com as estrofes longas.

É preciso que nelas caiba

todo o deslimite do mundo.

 

 

Para os outros versos

só as palavras com cheiro de barro.

 

Palavras que tenham cor.

Palavras que tenham olhos

como os castanhos de Eloisa.

Palavras que brilhem

como a neblina.

 

Para o último verso

todo cuidado é pouco.

 

Talvez melhor é nem fazê-lo

ou fazê-lo incompleto

como a morte.

 

Para o último verso só serve

a imagem destampada do infinito

ou, quem sabe, uma pequena gueixa.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Vamos falar de literatura?


A cidade não inventada na literatura de Marcos Souza

Márcia Antonelli

 

Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de alguma trama, real ou fantasiosa, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço.  No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento. 

UM GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as brutalidades de um lugar decadente.  A obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor. Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo, contundente e necessário.  Nesta sua mais nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.

Marcos Souza é capaz de mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz pensar.

Trecho do primeiro capitulo “Sol Infernal, dilúvio divino”.

(...) “Quando certa manhã, Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação, recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a chamar de Manaus.”

Eis a precariedade da vida protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à margem de qualquer olhar ou sentimento humano.

UM GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026, às 15h, na Rua Rondônia, 19, Flores.

Recomendo.