Márcia Antonelli
Luz,
Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé,
obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é
sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o
livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e
palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a
derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta
manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor,
que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma
mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e
desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as
amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado
pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a
zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com
maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é
comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da
antropologia e outras ciências do tipo.
Quando
um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição
vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas,
outras paragens. No caso de Mawé,
o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do
roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o
texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência
artística.
Durante muito tempo, parte da crítica
cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião
destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em
que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente
diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O
roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui
estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas
estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita
criativa.
Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.










