domingo, 13 de setembro de 2026
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Um comentário orgásmico a respeito de A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli
Marcos Souza
A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas
cruzadas, postura empertigada e mão no queixo exalando sobrecarga intelectual,
talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao
mesmo tempo nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico, do contrário
não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou ter uma de nossas
obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às
transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens,
para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir
aquilo que só é proferido a modo de sussurro. E, hoje, sussurro delicadamente
para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de
Márcia Antonelli.
Antes de adentrarmos à casa das bonecas, serpenteando entre
os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma
“Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e
cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira.
Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada ainda
conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas
calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional. Pois é, camarada,
caberás a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou a
permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra
e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma
vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente fedendo
a gorgonzola”.
Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis no mundo há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.
Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores,
persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à
obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma
bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os
seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes,
assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para
aquisição entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais,
a saber: @marciaantonelli376
no Instagram e Márcia
Antonelli Santana no Facebook.
Até.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
A poesia é necessária?
A cachorra
Pedro Dantas (1904-1977)
Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
Levou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ah, nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
Perdido o sangue das veias
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ah, pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
“Eu sou a Cachorra”, disse,
“Tu me chamaste: aqui estou.”
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da
memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa
aparição.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Carta para Luiz Bacellar
Tainá
Vieira
Outro
dia, procurando um documento numa pasta onde guardo papéis importantes,
deparei-me com diversos recortes de jornais referentes à tua partida. Eram mais
de cinco jornais diferentes, todos tentando, cada um à sua maneira, dar nome à
tua ausência. Havia títulos que, com certeza, tu odiarias. Especialmente este:
“O adeus do poeta”. Afinal, tu odiavas ser chamado de poeta. Hoje compreendo um
pouco a tua aversão. Não concordo, mas compreendo.
Li cada
recorte devagar. Emocionei-me com as palavras dos jornalistas, com as
entrevistas transcritas, com as lembranças dos amigos falando sobre ti. Havia
uma espécie de espanto em todas aquelas vozes, como se ninguém soubesse muito
bem o que fazer diante da tua ausência. Por alguns minutos, deixei de ser
misândrica e passei a te amar ainda mais. Talvez a morte tenha esse poder
estranho de nos reconciliar, por alguns instantes, com aquilo que em vida nos
incomodava.
Tu não
sabes, ou talvez saibas, porque gosto de imaginar que os mortos continuam
sabendo alguma coisa sobre nós, mas depois da tua partida escrevi durante um
ano inteiro cartas para ti. Contava-te as notícias do mundo de cá, as coisas
que aconteciam, as pequenas banalidades, as grandes tristezas. Escrevia como
quem tenta manter acesa uma conversa que a morte interrompeu sem pedir licença.
Pura tolice minha. Perdão! Eu simplesmente não conseguia aceitar que tinhas
ido, sabe Deus para onde. Talvez aquelas cartas fossem menos para ti e mais para
mim. Eu precisava acreditar que ainda existia algum lugar onde as minhas
palavras pudessem te alcançar.
Hoje,
dia 9 de setembro, já são 14 anos da tua partida, e eu ainda estou aqui, essa
mísera mortal que às vezes ainda chora a tua partida como se tivesse acontecido
ontem. É curioso como o tempo não cura certas ausências; apenas nos ensina a
carregá-las com menos alarde. Algumas pessoas morrem e deixam apenas uma
lembrança. Outras permanecem como uma espécie de cicatriz invisível, dessas que
não doem todos os dias, mas que o corpo reconhece quando alguma coisa as toca.
E queres saber de uma coisa? Tenho plena convicção de que tu não gostarias de
mim hoje. Penso até que nem me reconhecerias e acredito que também não te
gostaria mais hoje.
Hoje,
no tempo de 2026, o mundo parece outro. É bom e ao mesmo tempo caótico e mau.
Mas não quero entrar em detalhes agora, porque quero falar mais de mim. Estou
completamente mudada. Ou talvez e esta possibilidade me seja ainda mais
perturbadora, a mulher que sou hoje seja, finalmente, quem sempre fui, mas
ainda não havia descoberto naquele tempo em que te admirava como se tu fosses
maior do que os homens costumam ser e eu menor do que realmente era. Eu te
idolatrava, porque para mim nunca houve um poeta maior do que tu. Coloquei-te num pedestal e, durante muito
tempo, permaneci olhando para cima. Hoje sei que todo pedestal é também uma
distância. Talvez eu tenha precisado te colocar lá para compreender, muitos
anos depois, que ninguém deveria precisar estar acima de ninguém para ser
amado, admirado ou lembrado.
Ainda
assim, não me arrependo. Não me arrependo daquela menina que te admirava, das
cartas que escrevi, do amor quase ingênuo que depositei em toda a tua obra. Há
coisas que só conseguimos compreender depois de perdê-las, e talvez tu tenhas
sido uma dessas experiências que a vida me deu para que eu pudesse, um dia,
descobrir não apenas quem tu eras, mas quem eu era diante de ti. Hoje já não
sou aquela mulher. E talvez tu realmente não gostasses de mim. Talvez achasses
excessivas as minhas perguntas, as minhas inquietações, a mulher que se recusa
a caber nos lugares que lhe foram destinados. Talvez não compreendesses essa
minha necessidade de dizer, de escrever, de desafiar, de não pedir licença, de
ser agressiva e excessiva.
Mas há
uma coisa que permaneceu. Tu ainda estás no pedestal. Talvez eu te deixe lá
para sempre, considerando os poetas da tua geração que eu não os suporto. E,
talvez eu te deixe lá não porque ainda precise te admirar de baixo para cima,
nem porque precise da tua aprovação. Deixo-te lá porque algumas pessoas passam
pela nossa vida e se tornam parte da arquitetura secreta de quem somos. Porque,
mesmo depois de mortos, continuam existindo em algum lugar dentro de nós, não
exatamente como foram, mas como foram transformadas pela nossa memória. E
talvez seja isso que o tempo fez contigo: não te apagou. Apenas mudou o lugar
onde existes.
Já não
estás diante de mim. Estás em mim, como uma lembrança rara, na minha escrita,
quem sabe, E, catorze anos depois, acho que finalmente aprendi apenas a te
admirar sem precisar voltar a ser aquela pessoa que te amava. Talvez seja essa
a única forma verdadeiramente adulta de amar os mortos: continuar
preservando-os sem permitir que a memória deles nos impeça de nos tornarmos
quem somos.
Portanto,
acredito que esse será o nosso último contato; como disse, mudei. Despeço-me do
homem, mas imortalizo o poeta, a obra, os versos para sempre na minha memória e o levarei para onde eu caminhar. Despeço-me
de ti, sem me comprometer se um dia voltarei a escrever-te. Quem sabe como o mundo
estará em 9 de setembro do ano seguinte?
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Alfas e betas
Pedro Lucas
Lindoso
Você me
disse que não gosta de ser politicamente de esquerda porque, no Credo, Jesus
está sentado à direita de Deus. Mas imagine que você chega ao Céu e se encontra
com Eles. De fato, Jesus está sentado à direita de Deus. Porém, na sua
perspectiva, Ele vai estar à sua esquerda.
Essa já
ultrapassada divisão iniciou-se há mais de 200 anos, durante a Revolução Francesa. Na convocação
da primeira Assembleia Nacional Constituinte, uns ficaram à esquerda, outros à
direita. Mas para quem estava presidindo, no caso, Jean Bailly, sucedido por,
dentre outros, Mirabeau e Robespierre, pois o cargo de presidente era rotativo,
a perspectiva também mudava. Assim, quem tinha ido para direita, agora era
visto, pela presidência, ao lado esquerdo. E vice-versa.
Imagine
se os constituintes tivessem definido que os que estavam à direita seriam alfas
e os da esquerda seriam betas. Nada seria diferente. Os alfas de direita são os
ricos e seus amigos, os nobres e seus amigos, os burgueses, os incluídos em
privilégios mesmo sendo pobres e trabalhadores. E ainda os que não querem
compartilhar as riquezas com os betas que são geralmente os trabalhadores, os
pobres, as minorias, os excluídos e os que os apoiam.
Há os
que ficaram no meio. Se consideram de centro. Ou centro alfa ou centro beta. Eu
penso que Jesus era beta. Vivia curando cegos, paralíticos, leprosos. Vivia no
meio do povão.
Nesses
últimos tempos o Brasil e também muitos países estão polarizados entre alfas e
betas. Muitas brigas entre familiares, amigos e colegas que não perdoam seus
parentes que tem uma ideologia diferente da sua.
Há os
alfas que fizeram coisas imperdoáveis para os betas. Como participar ativamente
dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. É disso que trata o livro de Maria
José Silveira, cujo título é “Imperdoável”.
Sem
querer dar “spoiler”, o romance aborda a vida de três amigos de juventude. Ao
se conhecerem eram todos betas. Porém, uma das duas garotas se torna alfa
radical. A amizade, apesar de abalada, continua. Os outros dois, o rapaz e a
outra moça, permanecem com os mesmos ideais betas. Mas aí algo imperdoável
acontece.
Maria
José Silveira nasceu em Jaraguá, no interior de Goiás. Ainda criança se mudou
para Goiânia. Morou em Brasília, Paris, Lima, Rio de Janeiro, atualmente, mora
em São Paulo. Mestre em Ciências Políticas e formada em Comunicação e
Antropologia, é escritora, tradutora, editora e autora de dezenas de livros.
Escreveu romances, dos quais o primeiro, A mãe da mãe de sua mãe e suas
filhas, recebeu o Prêmio Revelação da APCA, em 2002. Alguns de seus livros
já foram publicados nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Chile e China.
Casada com meu irmão Felipe Lindoso, é minha cunhada, pela qual tenho admiração
e afeto.
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Uma conversa sobre literatura, com os professores Lourdes Louro e Marcos Frederico
domingo, 6 de setembro de 2026
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A poesia é necessária?
Propriedade
Armando
Freitas Filho (1940-2024)
A boneca preta na sacada
agraciada com o forro falso
simula que tem alguém em casa
onde foi sempre ninguém.
Sem pernas, ela é escrava
que não pode nem voltar
para a senzala, comprada
cortada ao meio para ser
mais manipulável e barata.
Trabalha dia e noite
presa na “eterna vigilância”
atrás das grades
nas janelas, nas cancelas
do partido dos senhores
sem pregar o olho
sem direito sequer
ao sonho da alforria.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Vamos falar de literatura?
Márcia Antonelli
Luz,
Câmera, Palavras! Das telas para o livro, assim se processa a novela Mawé,
obra do fotógrafo e diretor de cinema Jimmy Christian. Mawé, o livro, é
sua obra de estreia. O filme é, por excelência, sensacional. Do mesmo modo, o
livro nos impacta com sua narrativa hábil, sonora e imagética. Câmera e
palavras se fundem no mesmo movimento e ritmo uníssono. Mawé não é apenas a
derrocada de um indígena, mas a de uma tribo toda que, a duras penas, tenta
manter a tradição cultural de seu povo face às mazelas do colonizador-invasor,
que a degrada e a corrompe. E que também sexualiza o indígena, tornando-o uma
mercadoria. Um fetiche. O personagem Mawé é vítima da precarização e
desumanização do invasor-colonizador, e isto é um fato. Ao romper com as
amarras da sua cultura, que o prende, o indígena foge de sua aldeia e é tragado
pela cidade, que o brutaliza e o bestializa. Eis a espinha dorsal da novela: a
zarabatana cheia do veneno mortal que nos atravessa. Jimmy orquestrou com
maestria o filme tanto quanto orquestrou esta sua novela. Mawé é
comovente. Hipnótico. Contagiante. Ao mesmo tempo que nos lança aos estudos da
antropologia e outras ciências do tipo.
Quando
um filme se torna um livro, ou vice-versa, é porque a ideia de sua constituição
vai além de sua dimensão própria de linguagem no afã de alcançar outras metas,
outras paragens. No caso de Mawé,
o percurso também revela uma questão importante sobre o próprio estatuto do
roteiro cinematográfico. Concebido inicialmente como roteiro para o cinema, o
texto encontrou na forma da novela uma nova possibilidade de existência
artística.
Durante muito tempo, parte da crítica
cinematográfica tratou o roteiro apenas como um instrumento técnico, um guião
destinado à realização do filme, como se sua função terminasse no momento em
que as câmeras começassem a filmar. Essa visão, entretanto, parece insuficiente
diante da complexidade narrativa e literária que muitos roteiros apresentam. O
roteiro não é apenas uma etapa intermediária ou um mapa de filmagem, ele possui
estrutura dramática, construção de personagens, ritmo, diálogos e escolhas
estéticas próprias, podendo ser compreendido também como uma forma de escrita
criativa.
Ao transformar seu roteiro em prosa, Jimmy Christian não apenas adaptou uma obra para outro formato, mas reafirmou a potência literária de uma narrativa que já carregava, em sua origem, uma dimensão estética e autoral. Foi assim com Brincando nos Campos do Senhor, do Hector Babenco, com Xingu, do Cao Hamburger e Anna Muylaert, Kuarup, do Ruy Guerra, Um século de desonra – O genocídio das tribos indígenas americanas na California, de Helen Hunt Jackson, etc. Todas são adaptações de livros para o cinema. Com Mawé não podia ser diferente, embora tenha feito o caminho contrário, acontecendo primeiro nas telas para depois ir para o livro. Não importa. Tanto um trabalho como o outro são muito bons. São verberativos e prendem o leitor do começo ao fim. A história de Mawé nos leva a uma reflexão profunda sobre o dilema que até hoje ainda perdura sobre a existência dos nossos indígenas que perdem sua identidade e tornam-se insanos, passando por processos de transformações dilacerantes e que os leva muitas vezes à vilania e à psicopatia, como ocorre com o protagonista desta história, ao deparar-se com a histeria da cidade e o desequilíbrio de uma sociedade cada vez mais doente e profana. Eis o mote. O motivo. A ideia central desta novela. Tanto o filme quanto o livro nos revelam isso, mergulhando o leitor numa atmosfera sombria e reflexiva. Para quem gosta de obras que unem antropologia e dilemas humanos pesarosos de nossa contemporaneidade, este livro é um prato cheio. O veneno de uma zarabatana ou a picada certeira de uma tucandeira. Vale a pena ler. Conferir. Refletir.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Repto de honra
Pedro Lucas Lindoso
A
manchete do Jornal do Comércio de 18 de agosto de 1964 informa que o
governador Arthur Reis lançou um repto de honra ao Sr. Desiré Guarany, fiscal
de consumo, que teria acusado o governador de corrupto. Arthur Reis indica o
general Jurandir Mamede como seu representante no repto. Também nomeado para a
presidência da comissão do repto o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara.
Os
reptos de honra, como os duelos, estão fora de moda. Aliás, duelar com armas ou
agressão física é ilegal no Brasil e na maioria dos países. Hoje em dia as
pessoas em tais situações buscam a tutela jurisdicional para exigir
indenizações financeiras por danos à imagem ou à vida privada. Há basicamente
dois crimes contra a honra. A calúnia, quando se é falsamente acusado de um
crime, e a difamação, quando se tem a reputação manchada publicamente.
Os
reptos de honra estão mesmo fora de moda. Exceto na nossa misteriosa,
folclórica e mitológica floresta das chuvas. As nossas matas. A floresta amazônica.
Justamente lá onde habitam o Mapinguari e o famosíssimo Curupira. Como se sabe,
o Curupira foi escolhido mascote da COP 30, realizada em Belém. O Curupira é
conhecido pelos seus cabelos de fogo e pés voltados para trás, usados para
confundir invasores, caçadores e os madeireiros que destroem a floresta.
O
Mapinguari é um monstro gigante e peludo que tem um olho só. Assim como o
Curupira, o Mapinguari é um eficiente guardião da floresta. Ele ataca os
madeireiros, caçadores e grileiros. Uns dizem que o Mapinguari tem pelos longos
e vermelhos. Outros o descrevem como tendo uma pele dura como a do jacaré. E
tem uma boca enorme na região do umbigo.
Enquanto
o Mapinguari grita forte assustando os destruidores da floresta, o Curupira,
com os pés voltados para trás, faz esse povo se perder na mata. Ambos foram
finalistas para a escolha da mascote da COP 30.O Mapinguari perdeu o concurso
simplesmente porque fede muito. Não toma banho, sendo muito, muito assustador.
Já o Curupira foi eleito pela sua simpatia e astúcia.
Enciumado,
Mapinguari espalhou pela floresta que o Curupira estava ganhando milhões de
dólares de uma ONG ambientalista, sem socializar os recursos com os outros
animais. O Curupira lançou um repto de honra ao Mapinguari. Os mamíferos
aquáticos foram designados para compor a comissão. O Boto Vermelho vai
representar o Curupira enquanto o Boto Tucuxi vai representar o Mapinguari. A
presidência coube ao Peixe-boi. Espera-se que o imbróglio tenha um desfecho
antes das eleições de outubro.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
domingo, 30 de agosto de 2026
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Um Grande Circular: Cenas da Vida Periférica
Ricardo Kaate Lima
A literatura realista de crítica social sempre teve grandes
exemplos aqui no Brasil. Graciliano Ramos, Márcia Antonelli, Carolina Maria de
Jesus, Lima Barreto, Ferréz e Arthur Engrácio. O realismo sempre será uma
potência estética por aqui porque nosso país é um exemplo de nação que destrói
o fraco e endeusa o forte, uma sociedade perpassada pela violência no campo,
nas cidades, contra cidadãos pobres, mulheres, animais e o meio ambiente.
Manaus é uma cidade paradoxal e um terreno fértil para o
ficcionista apreendê-la sob o realismo social. Província situada na periferia
da periferia do capitalismo global, lugar mal-ajambrado onde milhares de almas
são vilipendiadas sob o calor e a umidade. Um oceano de pobreza onde os índices
de desenvolvimento humano são equiparáveis aos países mais miseráveis do mundo
ao lado de poucas regiões de luxo e alta tecnologia, onde nossas elites
dirigentes vivem despreocupadas, desfrutando de contratos com o Estado ou se
apropriando de terras públicas. Manaus é a distopia concreta, o cyberpunk amazônico
que cresce desprezando o igarapé e bovinamente voltado para o sudeste e para
Miami.
Na novela Um grande
Circular (Temiporã, 2026), de Marcus Souza (já escrevi sobre ele aqui), temos
belo exemplo de um observador atento que captou o Zeitgeist da cidade. Mas não se valeu do velho Centro para falar de
Manaus. Souza foi mais fundo. Sua matéria-prima literária são os bairros
operários da zona Leste, com o trânsito caótico, igarapés poluídos,
trabalhadores e trabalhadoras que labutam mais de doze horas por dia,
traficantes, prostitutas e toda sorte de desajustados.
Letério, um homem que vive nos esgotos da Manaus por mais de
vinte anos, desperta um dia e toma consciência de si. Jogado no mundo em
conflito com as coisas e com os outros, passa a perambular pelas ruas de
madrugada trombando com todo tipo de situação e tipos humanos. Ele se percebe
como alguém, como “um outro” em meio à violência e sujeira. O estilo meticuloso
me fez lembrar de Machado de Assis. Pensei também em Balzac com sua descrição
vívida dos tipos que habitam os bairros operários da cidade. A preferência por
aspectos desagradáveis da existência (imundície, sujeito e falta de perspectiva)
lembrou-me de Zola e sua prosa brutal.
Classifico Um Grande
Circular como novela-fábula do realismo\naturalismo contemporâneo. Irônico,
rico em detalhes, violento e sem fazer concessões a uma literatura oficial e
pseudo-regionalista do Amazonas que sempre aborda os mesmos temas (o Centro, o
Teatro, o Largo, a economia gomífera de 1884 a 1914). Nos olhamos no espelho e
não gostamos do que vimos.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
Minha
boca também
Ana
Cristina César (1952-1983)
Minha
boca também
está
seca
deste
ar seco do planalto
bebemos
litros d’água
Brasília
está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso
a mão no teu peito
mapa
de navegação
desta
varanda
hoje
sou eu que
estou
te livrando
da
verdade
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Vamos falar de literatura?
A TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA – nova obra do escritor amazonense Victor Hugo Neves
Márcia Antonelli
A TUA
IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA é o segundo livro do escritor Victor Hugo Neves.
Trata-se de um livro de crônicas, e que a mim foi atribuída a tarefa de
prefaciar.
Neste
seu novo livro, Victor Hugo revela-se maduro. Conciso. Imponente. Consolida
definitivamente seu talento nato para a crônica. Um dos exercícios mais nobres
do gênero literário, segundo Graciliano Ramos. As crônicas de Victor Hugo são
de uma lucidez, fluidez e coloquialidade impressionantes. Nos faz pensar os
deleites imperceptíveis do dia a dia das pessoas: o viver, o sentir, o sonhar.
Seja da interioridade do ser, ou das questões da cidade mesmo. São crônicas do
olhar de si para si e também do outro para o outro. Numa sociedade que camufla
sua verdade frente a um espelho filtrado ela acaba tendo uma imagem narcisista
e distorcida de si e da realidade que o cerca porque tudo hoje é produzido de
forma falsa, ilusória. O que nos leva ao mito de Narciso, filho da Ninfa Liríope
e de Cefiso, deus dos lagos. Reza a lenda que Narciso caminhando a esmo por um
lindo bosque, parou frente a um lago e nele prostrou-se para admirar sua
própria beleza refletida. Ficou tão encantado por si mesmo que resolveu
mergulhar naquela fonte de água cristalina e desaparecer. O mito de Narciso
nada mais é que uma crítica ao egocentrismo e ao excesso de vaidade. O
personagem Narciso acabou se tornando um mero símbolo do individualismo e do
excesso de amor-próprio. Virtude ou defeito, sabe-se lá, mas que ainda se faz
presente nos tempos atuais e que o autor deste livro se arvora a refletir e nos
mostrar através de suas crônicas líricas, reflexivas. Por vezes, ácidas,
descontraídas, bem-humoradas, onde o autor brinca com as figuras de linguagem,
com as construções frasais, textuais e que também são formas de prender o
leitor. A transição de um texto para o outro se dá de maneira sutil, leve,
espontânea, musical, como a passagem de um Vivaldi para um Strauss.
O bom
cronista é de fato aquele que, com primazia e louvor pelo ofício, é capaz de
perceber no dia a dia de sua vida, impressões, ideias ou visões da realidade
que não são percebidas por todos. Victor Hugo tem este costume. E nada dele
escapa. O que o torna um cronista dos bons. Cada livro seu nos surpreende pela
temática corajosa, pela elegância da escrita e pela docilidade das palavras. A
TUA IMAGEM NUM CANTO DE SARJETA nos revela tudo isso. Além de ser um livro,
sobretudo, de valores nobres e humanos. Um livro que precisa ser lido, pensado,
valorizado.
Recomendo: A TUA IMAGEM NUM
CANTO DE SARJETA – VITOR HUGO NEVES.
Como adquirir o livro: Em
todas as plataformas digitais de e-book. Também através da editora e livraria
Fonte de Papel e através do WhatsApp do autor: 92 99467 2827.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Amor à prosa
Pedro Lucas Lindoso
Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento
do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões
da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto
de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.
Fui ao encontro determinado a ouvir poesia.
Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do
autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia
gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um
auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na
crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher.
Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo
assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com
conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que
o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.
Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem
dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da
nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a
tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as
coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano
também tem alma e que a alma, sim, escreve.
E eu me apaixono justamente por isso. A
crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não
fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o
riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando
escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma
amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço,
onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura
de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa
esteja sempre em construção.
Há dias em que a crônica é suave, quase
sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro,
obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me
convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o
olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu
coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.
E então, quando termino, eu percebo que não
escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples
por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido
tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo
do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com
atraso.
A crônica me ensina que a literatura pode ser
abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma
e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu
coração, quando a encontra, não sabe fingir.
Eu amo crônicas por isso, por cada conversa
que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por
cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.
E se um dia eu perder a coragem, crônica,
basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem
entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua.
Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica
como presença que fica.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Homenagem a Márcio Souza
domingo, 23 de agosto de 2026
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Coelho Neto e o Gótico Brasileiro
Ricardo Kaate Lima
Quando falamos de literatura gótica,
lembramos de autores como Edgar Allan Poe, Bram Stoker e Lord Byron, além de
castelos, névoas e espíritos escondidos em ruínas medievais. Nosso imaginário
se dirige para a Europa e para culturas distantes. Pensamos que a estética
gótica é um estilo que em nada tem a ver com o Brasil, país de florestas
tropicais, miscigenação e samba.
Uma reflexão bem equivocada quando
observamos toda a sangrenta história nacional e como ela pode ser aproveitada
pela estética sombria. O grande Henrique Maximiano Coelho Neto (1864 – 1934),
com sua maestria em escrever sobre tragédias, espíritos vagantes e fenômenos
insólitos em pleno Brasil profundo do século XIX, confirma que nosso país não é
avesso ao gótico. Tomemos como exemplo a coletânea de cinco novelas Treva (1906) para comprovar a
competência do autor em trabalhar com a mescla entre cultura local e o
insólito. Aqui vemos homens vivendo em extrema miséria nos grotões brasileiros,
povoados por vítimas da ignorância e da superstição, escravos e escravas oprimidos
por senhores cruéis, mulheres dominadas pelos seus maridos ciumentos e crianças
vitimadas por forças incompreensíveis da natureza. Coelho Neto mistura o gótico
e crítica social para descortinar nossas mazelas sociais e morais.
É impossível falar de Coelho Neto sem
mencionar seu estilo barroco e palavroso. O vocabulário é rico, frases
complexas e bem elaboradas, descrições abundantes e narração construída com
elegância. O autor foge da pobreza literária que alguns autores atuais teimam
em seguir. Escrever é efetuar o artesanato das palavras e expandir-se no
experimentalismo da língua. O português, idioma tão rico, está disponível para
ser usado e testado. Por isso temos no autor uma mescla da escola realista e
naturalista, com suas descrições ricas do cenário e da cultural local, e a
estética gótica, em que vemos espíritos brotando em florestas, engenhos
amaldiçoados, a loucura que acomete homens que vivem na solidão e o fanatismo
religioso que exerce uma força sobre toda uma comunidade. Ler Treva é se ver jogado num mundo
arcaico, onde o mal e a perversidade espreitam como um predador à procura da
presa, e os mais fracos não têm para onde fugir.
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| Coelho Neto (1864-1934). |
Coelho Neto deveria ser mais lido,
estudado e discutido como um dos gigantes da literatura nacional, ao lado de
Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Foi
escritor de mais de cem livros, entusiasta do futebol e torcedor do Fluminense,
agraciado com o título de Príncipe dos Prosadores Brasileiros em 1928, e
indicado ao Nobel de literatura em 1933. Debruçar-se sobre a vasta obra do
autor é lidar com um verdadeiro continente de contos, romances, novelas e peças
de teatro. Uma pena que nosso Príncipe foi vítima de um covarde ataque da
degenerada Geração de 1922, acusando-o de passadista. Mas o que é escrever de
forma moderna? Os Meninos de 1922 reproduziam as vanguardas artísticas que
ocorriam na Europa. Coelho Neto, por seu lado, desenvolveu um estilo único que
deixaria Stephen King e George R.R. Martin com inveja. Machado de Assis já
fazia literatura com fluxo de consciência muito antes de Marcel Proust, Lima
Barreto ainda hoje não foi superado em sua literatura de crítica social e
Augusto dos Anjos, em muitos dos seus poemas, encosta no horror cósmico que
Lovecraft faria décadas depois.
Felizmente, essa é uma injustiça que
está sendo reparada. Novas edições do mestre são lançadas, pesquisadores
debruçam-se sobre o legado de Coelho Neto e ele retorna, aos poucos, a receber
o reconhecimento devido. Em minhas mãos, por exemplo, tenho o exemplar de Treva, preparado pelo EDUSP, uma
luxuosa edição de capa dura e vários estudos críticos. Em breve lerei Sertão, da editora O Grifo.
A Vossa Alteza Literária, Henrique
Maximiano Coelho Neto, todo reconhecimento merecido.
Curiosidades:
. Coelho Neto
esteve em Manaus em agosto de 1899. Hospedou-se no Hotel Cassina; visitou a
Beneficente Portuguesa; e fez concorrida conferência no Teatro Amazonas (https://roberiobraga.com.br/glossary/coelho-neto-em-manaus/);
. Autor de mais de
uma centena de livros e fundador da Academia Brasileira de Letras, era um
verdadeiro pop star, ao lado de Olavo
Bilac, também Príncipe, mas dos poetas, e de Machado de Assis, que não
precisava de títulos;
. Hoje, Coelho Neto
é uma rua de Manaus, no bairro da Compensa,
antiga rua 25 de Dezembro.
(ZmP)
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A poesia é necessária?
A grande fala
do índio guarani perdido na história e outras derrotas
Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025)
9
(fragmentos)
Este poema
tem seus descantes didáticos
suas horas de recreio
e uma aparente desordem
que não irrita o professor
mas, sim, ao fiscal de ensino.
Não posso
por exemplo, o tempo todo
ser meu próprio ladrilheiro
e colar letra por letra
– como o tijolo, o pedreiro.
Poesia
não pode ser obra de carcereiro.
A menos que o guarda esteja
no limiar de suas portas
e nas argolas das horas
descubra
a inversa função da chave
que em vez de trancar, descerra
a imagem presa nas grades.
E este poema
como qualquer prisioneiro
deve ter direito ao sol
e à liberdade
– mesmo que condicional
deve poder se exilar num desgoverno
cometer seus desatinos pelas ruas e
versos
que ao sistema da escrita aberta
cabe o modo poético e dialético
de converter o que era estrume
em flor oferta.










