sábado, 10 de outubro de 2026
Podcast: Literatura em Quadrinhos
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
A poesia é necessária?
Marília de Dirceu
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1809?)
34
Minha bela Marília, tudo passa;
a sorte deste mundo é mal segura;
se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos deuses
sujeitos ao poder do ímpio fado:
Apolo já fugiu do céu brilhante,
já foi pastor de gado.
A devorante mão da negra morte
acaba de roubar o bem que temos;
Até na triste campa não podemos
zombar do braço da inconstante sorte:
qual fica no sepulcro,
que seus avós ergueram, descansado;
qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
ferro do torto arado.
Ah! Enquanto os destinos impiedosos
não voltam contra nós a face irada,
façamos, sim, façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração
que, frouxo,
a grata
posse de seu bem difere,
a si,
Marília, a si próprio rouba,
e a si
próprio fere.
Ornemos
nossas testas com as flores,
e façamos de
feno um brando leito;
prendamo-nos,
Marília, em laço estreito,
gozemos do
prazer de sãos Amores.
Sobre as
nossas cabeças,
sem que o
possam deter, o tempo corre;
E para nós o
tempo que se passa
também,
Marília, morre.
Com os anos,
Marília, o gosto falta,
e se
entorpece o corpo já cansado;
triste, o
velho cordeiro está deitado,
E o leve
filho sempre alegre salta.
A mesma
formosura
É dote que
só goza a mocidade:
rugam-se as
faces, o cabelo alveja,
Mal chega a
longa idade.
Que havemos
de esperar, Marília bela?
Que vão
passando os florescentes dias?
As glórias,
que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim
mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não,
minha Marília,
Aproveite-se
o tempo, antes que faça
o estrago de
roubar ao corpo as forças,
E ao
semblante a graça!
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Castas
Pedro Lucas Lindoso
Na
escola aprendemos que no Brasil não temos castas, como na Índia. O sistema de
castas divide a sociedade em grupos e subgrupos. Define ocupações, regras
sociais e acesso a direitos assim como obedecem a restrições.
Embora
seja ilegal na Índia de hoje, em muitos lugares por lá ainda há discriminação.
E observância de regras e valores. Em
algumas regiões da Índia há predominância de subgrupos, para os quais não
existe um número único e oficial. Há quatro grandes grupos tradicionais. Os Brâmanes,
que são os sacerdotes, os mestres e filósofos. Os Xátrias, governantes,
militares, funcionários. Os Vaixás, que são os comerciantes e agricultores. Por
fim, os Sudras que constituem os trabalhadores
em geral.
Mas há
os subgrupos. No Brasil não temos castas. Será mesmo? Não as quatros principais,
como na Índia. Mas vejo que temos aqui alguns grupos, ou melhor, subgrupos, que
poderiam se enquadrar nesse sistema. Ou não.
No
Exército temos oficiais e suboficiais. É quase impossível um suboficial
ascender à condição de oficial. Nas universidades temos doutores, mestres e
professores de um lado e servidores e alunos de outro. Aqui a ascensão é
frequente e pode ser estimulada. Exceto o pessoal de serviços gerais.
Nos
tribunais há juízes, servidores e desembargadores. Nos hospitais há os serviços
gerais, técnicos em enfermagem, os enfermeiros e os médicos. Há técnicos que se
formam em enfermeiros. Poucos conseguem ser médicos, mas é possível.
Na
Igreja há cardeais, bispos, padres e diáconos.
No
Itamaraty há os oficiais de chancelaria, os diplomatas secretários, os
conselheiros e os ministros embaixadores. É difícil um servidor ser admitido no
Instituto Rio Branco.
Em
alguns desses grupos, como se viu, a mobilidade e a ascensão é quase
inexistente. Outros nem tanto. Quando ocorre a ascensão, o sujeito começa a
andar diferente, vestir-se diferente. Falar e comportar-se de acordo com sua
nova casta.
O jovem
Rodrigo veio do interior. Tornou-se Técnico em Enfermagem. Recentemente
graduou-se como enfermeiro. Reconheceu que está diferente. E, na sua contumaz
irreverência, diz que “até a inhaca do sujeito muda”.
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
domingo, 4 de outubro de 2026
sábado, 3 de outubro de 2026
Recepção a Sergio Cardoso, cadeira n° 2
Noite de 13 de agosto de 2017
A Academia Amazonense de Letras reúne-se nesta
noite para reafirmar sua perenidade, representada pela posse de um novo
acadêmico e o paradoxo que isto produz: um signo de mudança como paradigma de
imutabilidade.
Tristeza e alegria são componentes antagônicos de
um mesmo processo, cujo propósito é a permanência da instituição acadêmica.
Tristeza, porque lamentamos a falta do confrade antecessor. Alegria, porque
celebramos a chegada de um novo companheiro. Assim, a Academia se renova e, às
vésperas de completar um século de fundação, rejuvenesce. Pois é desta matéria
que é feita a Academia Amazonense de Letras: da vida e da obra de seus pares.
Muito me honra a tarefa de que fui
incumbido nesta noite: recepcionar o novo membro desta Casa – o cineasta,
fotógrafo, dramaturgo e artista plástico Sergio Cardoso. O meu amigo Sergio
Cardoso, a quem me dirijo agora.
A cadeira N° 2
Sergio, na cadeira para a qual foste
eleito tens por patrono Euclides da Cunha, que tanto bem fez à literatura
brasileira, especialmente com o seminal Os
Sertões – um ensaio histórico-político-antropológico e antropofágico, com
sabor de romance e cheiro de poesia. Mas Euclides também, involuntariamente,
causou muito mal à literatura brasileira, pois seus êmulos perderam-se na
tentativa de reproduzir seu estilo, realizando apenas pálidas caricaturas do
modelo. Euclides escrevia como um rio amazônico – cheio de nascentes, braços,
furos, paranás, meandros, vaus, peraus, lagos, igapós, estuários e afluentes.
Quem te antecede na cadeira n° 2, é Moacir
Andrade, o Maninho, artista de reconhecimento internacional, que pintou a
Amazônia com uma originalidade ímpar e com um estilo paralelo ao de Euclides na
escrita, onde a poesia das cores narra lendas e mitos e fixa paisagens e
costumes amazônicos. De algum modo, que eu não sei traduzir em palavras,
Euclides da Cunha e Moacir Andrade são almas gêmeas – talvez, na inquietação;
na invenção, talvez. Com certeza, na independência criativa de ambos. O teu
desafio é manter acesa essa chama, o que para ti, decerto, não será obstáculo,
pois tens, nas várias modalidades artísticas que abraçaste, essa centelha que
ilumina mundos.
A nossa geração
Atingida a linha demarcatória dos 60 anos,
começo a olhar para trás e para os lados, buscando enxergar o que construímos
nesse tempo que se constitui, há muito, na segunda metade de nossas vidas.
Embora o conceito de geração seja controverso, variando de acordo com a matéria
e ao sabor de interesses esquemáticos, quero falar aqui, Sergio, brevemente, da
nossa geração – minha e tua. Mas antes digo o que entendo por geração: não é
apenas um lapso de tempo, medido em anos; antes, é um tempo interior, medido por
um calendário afetivo, em que pessoas de idade aproximada, ainda que pensando
diferente, têm afinidades eletivas.
Os da nossa geração nascemos pouco antes
da instalação da ditadura militar. Crescemos com ela e nos anos 70 fomos para
as ruas. Em 1984, um congresso acanalhado e acovardado atropelou a História e
adiou as “diretas já” por 5 anos. Crescemos sob a repressão, sim, mas fomos
sempre libertários.
Quero homenagear aqui a nossa geração,
pedindo desculpas antecipadas por eventuais omissões.
Na literatura: Antônio Paulo Graça,
Cláudio Fonseca, Dori Carvalho, Marco Adolfs, Milton Hatoum, Pedro Lucas
Lindoso, Rita Alencar e Silva, Simão Pessoa e Tenório Telles.
Nas artes plásticas: Arnaldo Garcez,
Bernadete Andrade, Fernando Jr., Homero Amazonas, Jorge Palheta, Otoni Mesquita
e Rui Machado.
Na música: Afonso Toscano, Antônio
Pereira, Armando de Paula, a dupla Candinho & Inês, Celdo Braga, Lucinha
Cabral, Mauri Mrq, Roberto Dibo e Zeca Torres.
No teatro: Chico Cardoso, Francisco
Carlos, Luiz Vitalli, Nonato Tavares, Socorro Langbeck e Théo Correa.
E não posso deixar de referir os confrades
Aristóteles Alencar, que você, carinhosamente, diz que é seu “médico do
coração”, Geraldo dos Anjos, pesquisador e historiador, e Mazé Mourão,
jornalista e cronista.
Assim como tu, Sergio, todos esses nomes,
de alguma forma, fazem parte do meu calendário amoroso de uma geração que deu
muitos frutos. E ainda por muito tempo – os que aqui estamos – faremos da arte
a nossa missão.
Verdes anos
Nascido Sergio Vieira Cardoso, em 10 de
março de 1954, nesta cidade de Manaus, que mais tarde viria a ser o ponto
referencial de tua obra – cinematográfica, fotográfica, plástica, dramática;
ou, para usar o adjetivo que os gregos antigos lançavam mão para classificar
tudo o que não era utilitário – tua obra poética. Porque tu pensas poeticamente
– e é poesia o que resulta de teu trabalho, no cinema, na fotografia, na
pintura, no teatro.
E num exercício de imaginação, vejo-te
inicialmente caminhando, de mãos dadas com dona Ruth e seu Fernando, pelas
calçadas da Ramos Ferreira, onde nasceste, há não mais que 100 metros da
Academia Amazonense de Letras. Funcionários públicos, teus pais, assim como tua
avó materna Dinah – pianista, fluente em francês e influência decisiva na tua
formação –, lutavam contra as adversidades enfrentadas pelas famílias pobres de
Manaus, as mesmas dificuldades que meus pais, certamente, encaravam naqueles
anos pós-guerra e pré-Zona Franca. O menino Sergio lutava, desde muito cedo, a
luta da gente grande. Mas não descuidava de ser menino, apenas, inventando e
construindo brinquedos de madeira – aviões, barcos, trens e até um projetor de
cinema, feito com espelhos e lentes de óculos – e encenando as principais cenas
dos filmes assistidos, com cenografia própria, luzes e, sobretudo,
imaginação.
A amizade com o sociólogo e ex-presidente
desta Casa André Araújo foi fundamental na tua formação. O velho e generoso
amigo te emprestava coleções inteiras, com autores russos e franceses,
especialmente, além do bom Monteiro Lobato – e poesia também, do jovem Thiago
de Mello ao maduro Drummond, que já passara da fase de querer ser moderno para
se pretender eterno. Em paralelo, como qualquer garoto da nossa geração, gibis,
gibis e mais gibis. O Teatro Juvenil dos Capuchinhos foi outra semente que te
plantaste. E não podemos esquecer das novelas de rádio, fonte da tua
dramaturgia, junto com o cinema, a que assistias nos cineclubes da cidade, mas
também no Guarany, Polytheama, Odeon e Avenida.
Mas nem tudo era entretenimento. A arte
exige introspecção, recolhimento – e tu tinhas momentos que eram só teus. E a
religiosidade, que é uma de tuas marcas, brota do silêncio, junto com tua arte,
embora nunca tenha interferido nela. Mas, sem dúvida, é o teu suporte
espiritual para seguir lutando – e criando.
A par da formação artística, estudando na
Divina Providência, no Princesa Isabel e no IEA, não negligenciaste de sólida
formação profissional. Advogado, frequentaste a Velha Jaqueira, e te tornaste
procurador efetivo da Procuradoria Geral do Estado. Administrador cultural,
tens várias especializações na área, em programas de formação nacionais e
internacionais, consolidadas pela experiência prática em vários cargos
públicos, entre os quais o de Superintendente da Televisão Educativa do
Amazonas, o de titular da Superintendência Cultural do Estado, diretor do
Centro Cultural Cláudio Santoro, do Centro Cultural Palácio Rio Negro e do
Departamento de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.
Madureza
A tua arte, Sergio Cardoso, é
multifacetada. Uso essa expressão para fugir do surrado clichê do
multi-instrumentista, mesmo porque não te vales de vários instrumentos, senão
de dois conjuntos deles: teus olhos e tuas mãos. Os sentidos se amalgamam e se
amoldam, deixando que os olhos toquem e as mãos vejam e a criação seja algo
para além dos sentidos convencionados pela obviedade cotidiana.
Pintura, fotografia, cinema, teatro – a
tua arte traduz-se no embate dialético entre imagem e movimento, que tem como
síntese sinérgica uma obra de arte de alta expressão.
Tivemos oportunidade, no ano passado, de
assistir ao belo documentário que fizeste no centenário de Djalma Batista: com
simplicidade, a partir de depoimentos e de imagens de época, compões o retrato
do cientista e redimensionas o ser humano, dando-lhe a sua estatura real: um
gigante humanista. Djalma Batista é mais que mero nome de rua – é um mito e uma
referência a ser imortalizada pela permanente relembrança; e o teu filme
consolida isso, de uma vez por todas.
A tua obra cinematográfica –
especialmente, os documentários – precisa circular, Sergio. E já se contam às
dezenas, sempre envolvendo figuras de proa da vida amazonense, como Hahnemann
Bacelar, Arnaldo Santos, Jerusa Mustafa, Flaviano Limongi, José Gaspar, o homem
que ensinava a amar o cinema, o nosso coração de campeão Ricardo Pepeta –
carrasco dos rionegrinos como eu –, entre tantos outros.
Como artista de múltiplas faces, tua maior
característica é a inquietude, exatamente aquela inquietude que fundamenta as
obras de teu patrono e de teu antecessor: a inquietação da busca, da procura
constante e, sobretudo, do questionamento permanente. Não satisfeito com a
pintura, enveredaste pela fotoplastia, um conceito ainda não encontrável nos
manuais de arte acadêmica. Teus experimentos já foram mostrados em várias
exposições, mas a mim tocou-me, especialmente, Harborligths, que trazia uma série de fotografias, com
interferências plásticas e textuais, do lado podre do porto de Manaus, o trecho
da Manaus Moderna tomado por mendigos, bêbados e drogados de todos os naipes e
matizes. Um delírio magrittiano, que eu vi assim:
cidade
podre paisagem truculenta transcendente pobreza
instalada onde um dia a miséria da cidade flutuante foi transposta aos limites
suburbanos da cidade mutante onde um dia a mata foi violada e seu vestido verde
incinerado e os meninos curupiras transgrediram a dimensão do sonho e
cavalgando alados cavalos da memória foram habitar o palácio esculpido no rochedo onde um dia um magritte flutuou
balões de gente as luas no museu de tudo figurado em melancia a cona escancarada
em riso de deboche ó noite ó grafites a fenda no muro o rio aberto em mar os
barcos ancorados no horizonte as coxas da cidade ávidas expostas ao membro
dissoluto fotografias da cidade desfeita em urina e fezes não não haverá dia
não haverá o delírio das cores aquecidas pelo degelo dos andes pelo desejo das
ondas onde dantes havia apenas a água transparente do rio negro onde um dia
profetas alienados esculpiram versículos definitivos e definidores destinados a
eternizar a guerra sob a falsa paz que transcende a cidade anabolizada a
pobreza da paisagem podre da cidade[1]
A fotografia e o cinema fizeram o século
XX acreditar, durante muito tempo, que a pintura e a escultura e todos os seus
derivados haviam se esgotado – a arte morreu! Mas a arte não morre, ela se
retempera, se renova e se reinventa. Como em Oh City – Stages, uma de tuas mais recentes exposições, onde
fotografia, cinema e pintura conviveram pacificamente, desnudando a violência
da cidade:
Oh City – Stages foi uma exposição em movimento,
cinética, ou como escreveria Glauber Rocha, kynetyka, fazendo longas ilações sobre a rede nazistalinista que se
infiltra na palavra e na vida de todos nós, sem identidade e sem vontade,
reduzidos a meros pontos no universo abstrato sergiocardosiano.
Uma exposição do deslocamento: nos videocines, o
movimento de autos, o movimento de gente. Nas fotos, o desfoco era o foco. Em
Therminalcódigos e Ethereoplanoviario, as máquinas de triturar almas, os corpos
sem almas, os rostos amorfos, meros pontos nos quadros.
Duas câmeras fixas registraram a sandice do trânsito
de automóveis na Barbarapólis. Em outro plano, uma câmera fixa registrava o vai
e vem na orla do mercadogrande. Num, o tempo do quando, instantâneo
esquizofrênico instante. Noutro, o tempo do sempre, da repetição lerda,
lesmática, neurótica. Um: aves rapaces rapinam, sangrando os fígados das
máquinas. Outro: vermes bípedes, em movimentos centrípetos, indo do nada para o
nada e ao nada retornando, mas sempre adiante, reafirmando a autofagia do
eterno retorno: não precisamos de luz.[2]
Ao marasmo da arte decorativa, o artista
inquieto se doa por inteiro e transfunde seu sangue para injetar vida em sua
arte porque “uma obra de arte é uma coisa viva; qualquer obra de arte será viva
ou não será arte.”[3]
Esta frase do poeta Ferreira Gullar justifica porque não me limitei a fazer
aqui um inventário de tuas exposições. São tantas dezenas delas, seria
cansativo. Além dos prêmios, que merecidamente recebeste. Prefiro instigar a
plateia a olhar com olhos de pensar, e dizer que, na próxima oportunidade, não
se furte a descobrir a vida que pulsa na arte em movimento de Sergio Cardoso.
Movimento que se observa sobretudo no
teatro, para o qual tens tem sido, ao lado do confrade Márcio Souza, o mais
fértil autor amazonense, chegando mesmo a criar um universo próprio – uma
cidade, Lazone, à margem do rio das Sombras, com um teatro imponente, galerias
subterrâneas, uma cidade flutuante e personagens que transitam de uma peça a
outra, num grande painel suprarreal. São mais de 20 peças, algumas ainda
inéditas e pelo menos dois prêmios de melhor dramaturgia no Festival de Teatro
da Amazônia, por “A herança maldita de Mercedita de La Cruz” e por “Carmem de
Lazone”.
Devo ressaltar a tua condição de escritor,
essencial para seres aceito na Academia Amazonense de Letras: escritor de
ficção, desfeita qualquer dúvida quanto à homologia entre o texto dramático e a
literatura de ficção.
É desnecessário destacar que Lazone é
Manaus – virada pelo avesso. Virtuosa e dissimulada. Casta e depravada. Mítica
e desmistificada. Uma cidade em contínua desconstrução, em permanente
metamorfose, em perene movimento.
Lazone está para tua obra como o condado
de Yoknapatawpha está para a obra do romancista norte-americano William
Faulkner. Isto está gravado em fogo nas dez peças e mais de trezentas páginas
d’O livro do teatro urbano das mulheres
de Lazone, onde tu trabalhas
sobre um fio de navalha: humor e tragédia se misturam,
em cenas antinaturalistas, com uma agilidade cinematográfica. Não à toa, o
cinema é uma referência constante, seja no nome das personagens seja nas
inúmeras citações de títulos clássicos. Tudo potencializado, as situações
criadas, de um humor amargo, aproximam-se do dramalhão hollywoodiano das
primeiras décadas do cinema falado, com pitadas de noir; mas algumas figuras monstruosas remetem ao expressionismo
alemão.
As mulheres de Lazone reinventam a história da cidade
de Manaus, desde a crise da borracha até a primeira década deste início de
século, contemplando exatos cem anos de imaginação a serviço da fantasia, onde
convivem em deliciosa desarmonia cobras-grandes, vampiros, tartarugas
radioativas, mendigos, loucos, socialites,
prostitutas, malandros, políticos corruptos, fantasmas diversos e toda uma
fauna de criaturas aprisionadas no dia a dia da cidade. E a despeito da grande
quantidade de personagens a transitar no palco, a solidão das protagonistas –
muito mais que a geografia e a história comuns – é o fio que costura as peças,
dando-lhes unidade, estabelecendo vasos comunicantes entre elas, como num corpo
vivo, montando esse extraordinário painel da arte cênica amazonense.
Amanda Catalatas, Mundica, Gilda, Carmem, Dorothy,
Ambrozhia, Salomeh, Sabine, Crhisályda e Mercedita são mais que meras criações
da mente inquieta de Sergio Cardoso: são arquétipos de mulheres que pintaram,
com tintas épicas, a história cotidiana, banal, medíocre, desta cidade
abrasadora, à margem esquerda do rio Negro.[4]
Imagem e movimento – opostos harmonizados
na imagem em movimento do cinema ou do teatro – ou no movimento cristalizado em
imagem do quadro ou da fotografia – são conceitos realizados plenamente na tua
arte, plural e polimórfica, singular e convergente, inflexível e resistente –
arte que valoriza, eleva e dignifica o fazer artístico no Amazonas.
Concluindo
Meu caro Sergio, eu meu nome e em nome de todos os
acadêmicos – dos presentes aqui nesta noite memorável, e dos que, por algum
motivo, não puderam aqui estar –, dou-te as boas-vindas e te conclamo ao
trabalho. Porque a glória maior de ser membro da Academia Amazonense de Letras
não é ter uma foto na galeria e o nome gravado na parede da Sala da Memória.
Ser membro da Academia Amazonense de Letras é deixar que ela faça parte de ti,
pelo teu trabalho. Conhecendo o teu talento e tua capacidade, confiamos todos
que será fácil e prazeroso desincumbir-te de tal tarefa.
Reitero, Sergio, em nome de nossos pares, os votos
de boas-vindas: a cadeira de número 2 é tua; esta Casa passa a ser também a tua
casa.
E são teus os aplausos de todos os que
aqui se encontram.
***
[1]
Zemaria Pinto. Texto incluído no folder da exposição Harborlights, que ficou de 27 de março a 23 de abril de 2014, no
Espaço Thiago de Mello, da Livraria Saraiva, em Manaus.
[2]
Zemaria Pinto. Adaptado de O caos em
construção – um olhar crítico-poético sobre Oh City – Stages. In: Revista Valer Cultural. Ano 1, nº 8, dez/jan
2014. Páginas 72-75.
[3]
GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a
morte da arte. 8ª ed., 1ª reimpressão. Rio de Janeiro: Revan, 2005. p. 132.
[4]
Zemaria Pinto. Adaptado da apresentação de O
livro do teatro urbano das mulheres de Lazone, de Sergio Cardoso. Manaus:
Valer, 2013. Páginas 19-20.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
A poesia é necessária?
Ismália
Alphonsus de Guimaraens (1870–1921)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Fora d’água, pessoal!
Pedro Lucas Lindoso
Faz
calor. Nada melhor do que um dia relaxando. Perto de um igarapé. Almoçando
aquele tambaqui assado. De preferência de rio e não um ruelo de viveiro.
Antigamente
dizíamos que íamos para um “banho”. Havia os banhos em que se tinha que ser
sócio. Como o Bosque Clube e o Guanabara. Havia os banhos de amigos. Quando fui
para Brasília, lá há os clubes. Menino de calças curtas, vindo de Manaus, disse
na escola que no domingo iria ao banho. Aquilo foi motivo de risada. Bullying,
como se diz hoje em dia.
O certo
é que no domingo passado fomos ao banho. Os banhos agora são chamados de
balneários ou até de resorts. Mas para mim podem dar o nome que
quiserem. Clube, resort, day use, balneário. Banho é banho. Ora essa!
O banho
estava maravilhoso. Praia do Rio Negro. Tambaqui assado no almoço. Pescado pelo
caboclo que nos servia. Pescador, garçom e filho da cozinheira.
O dia
passou rápido. Eram quase seis horas da tarde. Dois curumins, já adolescentes
conversam, enquanto limpavam as mesas. Não dá para entrar mais na água. Vai dar
seis horas.
Aí eu
entrei na conversa. Perguntei o porquê. E o caboclo respondeu que às seis horas
da tarde é um “momento perigoso”.
Achei
estranho. A Igreja Católica costuma chamar esse momento de “Hora do Ângelus”,
associado a memória da anunciação. Reza-se geralmente a Ave Maria.
Aprendi
com os rapazes que caboclos ribeirinhos não entram nos rios às seis da tarde.
Os rios não são só lugares naturais são também espaços entre terra e água,
entre cotidiano e mundo espiritual.
Penso
que evitar entrar no rio nessa hora sugere uma regra de prudência e
proteção. O fim de tarde seria quando
“as coisas” ficam mais ambíguas. Acredito que seja por perigo real, como
correnteza, encalhe, visibilidade, seja pelo medo do sobrenatural.
As
tradições, a cultura, os mitos e lendas amazônicas são de diversidade e riqueza
impressionantes. Segundo aqueles rapazes, nesse horário podem ser percebidas
presenças, assombrações ou encontros com “encantados”.
Eles me
relataram histórias. Em algumas, os seres aparecem no rio. Em outras, a “hora”
é mais importante do que o tipo de criatura.
Já em
casa fiquei pensando se a hora do Ângelus pode ter virado um marcador que a
comunidade usa para reforçar um comportamento seguro “ficar fora da água”.
Como a
religiosidade católica se mistura com o imaginário dos povos ribeirinhos é
comum haver sincretismo cultural. A prática católica do Ângelus, invocação de
Nossa Senhora, convive com narrativas do nosso rico e surpreendente folclore
amazônico.
Pelo
sim, pelo não fui logo avisando à turma:
– Saiam
fora d’água. Hora de ir para casa.
domingo, 27 de setembro de 2026
Breve notícia de Destruição
Zemaria Pinto
Destruição
é um espetáculo
de teatro. Bastava essa informação para descrevê-lo de forma positiva. Mas ele,
o espetáculo, tem outras camadas: memória de Manaus; valorização da
ancestralidade, duas atrizes que se superam; paisagem sonora com personalidade;
valoração do espaço cênico. Isso e mais...
Uma
viúva, que perdera todos do seu entorno, se vê sozinha, com uma planta. Uma
entidade planta. Por fim, ela perde a casa, transformada em estacionamento.
Nada mais cruel. As duas personagens se fundem numa só e o
estacionamento-espaço cênico é tomado pelo povo-plateia.
Francisco
Rider, diretor e dramaturgo, não se escondeu nas coxias, olhando nos olhos do
público.
Vivian
di Oliveira, na paisagem sonora, entrega potência com elegância.
O
trabalho de corpo, criado por Rider e Bruna, torna a dramaturgia em balé, pois
é assim que Koia Refkalefsky, 78 anos, e Bruna Pollari, 24 anos, sustentam o
espetáculo pela maior parte do tempo: um balé de corpos onde as duas atrizes
vivem suas sofridas personagens com incontida alegria.
Espetáculo
independente, Destruição merece uma temporada mais longa. De qualquer
forma, nos dias 03 e 10 de outubro, a trupe estará a postos para novos fins de
tarde de beleza.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
A poesia é necessária?
O defunto
Pedro Nava (05/06/1903 – 13/05/1984)
A Afonso Arinos de Melo Franco,
fragmentos(*)
Quando morto estiver meu corpo,
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
ou os ramalhetes distintos,
os superfinos candelabros
e as discretas decorações.
Eu quero a morte com mau gosto!
Deem-me coroas de pano.
Deem-me as flores de roxo pano,
angustiosas flores de pano,
enormes coroas maciças,
como enormes salva-vidas,
com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara:
que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
e ela lance nos seus espíritos
a incerteza, o pavor, o pasmo...
E a cada um leve bem nítida
a ideia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos:
Não se esqueçam destas mãos!
— Meus amigos! Olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
em que sexos se demoraram
seus sabidos quirodáctilos?
Foram nelas esboçados
todos os gestos malditos:
até furtos fracassados
e interrompidos assassinatos...
— Meus amigos! Olhem as mãos
que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam: elas fugiram
da suprema purificação
dos possíveis suicídios...
— Meus amigos! Olhem as mãos,
as minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo
e até mesmo do meu corpo
as partes excomungadas,
as partes sujas sem perdão,
— Meus amigos! Olhem as partes...
Fujam das partes...
Das punitivas, malditas partes...
— Meus amigos! Arranquem as suas...
Esmaguem as suas...
Amputem as suas...
Eu quero a morte nua e crua,
terrífica e habitual,
com o seu velório habitual.
Ah, o seu velório habitual...
Não me envolvam num lençol:
a franciscana humildade,
bem sabeis que não se casa
com meu amor pela Carne
com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira:
calça listrada, plastron...
com os mais altos colarinhos,
com jaquetão com debrum...
Deem-me um terno de ministro
ou roupa nova de noivo...
E assim, solene e sinistro,
quero ser um tal defunto,
um morto tão acabado,
tão aflitivo e pungente,
que a sua lembrança envenene
o que restar aos meus amigos
de vida sem minha vida.
— Meus amigos! Lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
deste pobre terrível morto,
que vai se deitar para sempre,
calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
os penetras escorraçados,
as prostitutas recusadas,
os amantes despedidos,
como os que saem enxotados
e tornariam sem brio
a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos! Tenham pena,
senão do morto, ao menos
dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também...
(*) Malditos editores! Baseado em duas fontes organizadas por Manuel
Bandeira, mas não editadas por ele: Apresentação da Poesia Brasileira
(1964) e Antologia dos Poetas Brasileiros, tomo Bissextos
Contemporâneos (1996).




