domingo, 2 de agosto de 2026
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Resenha
ESPELHAMENTO
DO REAL E CONSTRUÇÃO DE UM EU BIOGRÁFICO – SOBRE O MEMORIALISMO EM É ESTE
O DESTINO DO CORPO, ABRIR-SE, DE MARIANA MARINO
Henrique
Duarte Neto
O ensaio poético de Mariana Marino, é este o destino do corpo, abrir-se (demonia
editora, 2024), terceiro livro na seara da poesia de Mariana, além de todas as
implicações emocionais que traz consigo, é um caso muito instigante para
pensarmos em duas questões centrais dos estudos literários: a da autoria e a da
mimese, da representação do real no texto poético. Mas, primeiramente, antes de
investigar estas questões à luz dos 16 textos que formam o opúsculo, analisarei
um pouco a natureza, o gênero do escrito.
Classificado por Mariana como “ensaio poético”,
penso que, mesmo tendo essa natureza de prosa poética, os 16 fragmentos tendem
mais ao confessionalismo do diário. Aliás, um excelente diário. Claro, um diário
não datado e não pensado enquanto tal pela autora, mas quiçá,
inconscientemente, e pela forma fragmentária que tomou, também própria da
poesia, um pungente “diário poético”. Escrito não sob a perspectiva de um
presente temporal, mas rememorado por uma mulher adulta – mas não terá a
criança de cinco, seis, sete anos uma presença flagrante e indômita na mulher
de 30 e tantos anos? Assim, esse passado que ressoa vivo no presente não
inviabiliza nosso viés. Portanto, como esta é uma questão em aberto, e assim
sendo, a palavra “diário” será referida doravante sempre entre aspas quando
estiver relacionada ao texto poético da autora de não sei quem colocará as mãos em mim.
Ademais,
pensando naquilo que Maurice Blanchot vê como o aspecto marcante do diário: o
de ser “Memorial”, trazendo à tona o que qualquer escritor faz no seu
cotidiano, quando não está escrevendo (BLANCHOT, 2011, p. 20-21), podemos
estender as reflexões para o caso do livro da autora. Mariana preserva uma memória,
traz seu mundo íntimo à visão de muitos, cria uma rede interpessoal e de
significações, que extrapola tempo e espaço, fazendo-se testemunho e
experiência histórica, pessoal e coletiva.
Há, porém, o problema de que o “diário” de
Mariana talvez traia o que pensa Blanchot do diário enquanto forma de
materialização do texto. Para o autor francês, tal forma representaria um
momento de fuga às agruras da escrita, sendo que a escrita do diário poderia
ser pensada como espécie de antídoto para a morte. Morte entendida aqui como
passagem do “eu” pessoal ao “ele” impessoal coletivo, que não possui rosto, mas
que, para o autor de O espaço literário,
é uma realidade. Contudo, não seria esse experimento linguístico de Mariana uma
resposta à morte, não aquela da perspectiva blanchotiana, mas uma morte menos
simbólica, a que diz respeito ao problema da finitude humana e que nos levaria
a pensarmos numa espécie de viés autobiográfico e, não obstante, mimético?
Parece-me que a resposta só pode ser afirmativa. O “diário” de Mariana, por
agregar um alto coeficiente de poesia, vai na via oposta da obra capital de
Blanchot, pois, ao mesmo tempo, enfatiza e tonifica o “eu” e o referente.
Dessa maneira, a perspectiva da morte e a solidariedade,
o companheirismo entre crianças diante da solidão essencial, representam um
ponto capital da prosa poética de Mariana Marino. Muito mais aqui do que nos
livros anteriores (em que a condição de antiga cardiopata e de padecente de
outras mazelas são expostas), em verso, a poeta expõe, de modo emocionante,
toda a sua condição de fragilidade à época: “Eu também era uma menina doente”
(MARINO, 2024, p. 17). A personagem de Daniela, inseparável no hospital, permanece
viva na memória e na imaginação da autora, assumindo protagonismo no “diário
poético”. Assim, Daniela representa a lembrança do pavor diante das cirurgias
e, também, da possibilidade sempre renovada da morte, nos hospitais frios e
aziagos, numa época em que as crianças deveriam somente pensar no lúdico da
existência.
Ademais, ao ter sua história misturada à de
outra personagem, durante a fase em que era tão pequena, pensamos que este
“diário poético” foi remontado por uma mulher adulta, de mais de 30 anos de
idade, que estabeleceu um natural matrimônio entre os “eus” empírico e poético,
distintamente do que classifica Michael Hamburger, como um “matrimônio difícil”
no caso desses “eus”, para o poeta Guillaume Apollinaire (HAMBURGER, 2007, p.
237). O eu-empírico, está presente nos três livros de Mariana, mas avassaladoramente
no último: “Daniela é esse vulto, com quem sonho há anos nas noites minguantes,
em que acordo ensopada, nunca de sangue” (MARIANA, 2024, p. 25). Nesse trecho,
como em outros, há uma expressão que tende a soar em fortíssimo, tanto no que
se refere ao significante quanto ao significado, pois palavras como “vulto”,
“sonho”, “noites minguantes”, “ensopada” e “sangue” geram, em termos semânticos,
choques de realidade.
Desse modo, para projetar a dimensão “empírica”
desse “eu”, a poeta tem que evocar Daniela, como uma sombra do passado que
segue vibrando indefinidamente (como na alegoria do anjo da história (BENJAMIN,
1987), em que o passado cada vez mais se agiganta), sendo uma segunda dimensão
desse “eu”, o “outro” que ressoa nele, ou como quer Octavio Paz, a outridade. Nesse sentido, a autora vai
se afirmando na linguagem e trazendo para dentro dela todo um universo
pretérito. Dessa forma, o poeta, como nos afirma Octavio Paz, em O arco e a lira, cria o poema e se faz
poema: “O poeta é ao mesmo tempo o objeto e o sujeito da criação poética: é o
ouvido que escuta e a mão que escreve o que é ditado por sua voz” (PAZ, 1984,
p. 202).
Além disso, ao “materializar-se” no “diário
poético”, Mariana vai construindo um mundo em convergência ao experienciado.
Assim, o poema é o espaço em que aparecem: Daniela; a caixa de acrílico dela,
toda repleta de batons e chaveiros em forma de pequenos bichos; outras meninas;
as mães e os pais das crianças; as enfermeiras; os médicos (que são sempre
homens); todos os sentimentos e emoções fomentados pelas cirurgias, exames e
esperas nos gélidos hospitais daquela época. Tudo isso sentimos nós, os
fruidores desse belíssimo experimento lírico, quase uma elegia em prosa poética.
O mundo vivido por Mariana é revivido e recontado por ela mesma, como se
houvesse um espelhamento de perspectivas, na medida em que o principal da época
de criança se converteu no seu memorial poético.
Assim, no caso de é este o destino do corpo, abrir-se há uma simbiose entre o dentro
e o fora, ou melhor – como propõe Antonio Candido em alguns momentos de Literatura e sociedade, tendo um outro
referencial literário –, o contexto já está no texto (Cf. CANDIDO, 2006, p. 13,
por exemplo). Portanto, a exterioridade é intrínseca. Não há de se buscar o
real, com seus eventos, fora do texto poético de Mariana, pois isso já figura
nas páginas de sua obra. A poesia que, por ser, além do mais, memorialística,
como na visada ambígua de Octavio Paz, não deixa de ter “fome de realidade”
(PAZ, 1984, p. 80). Nessa medida, a menina que sobreviveu às aberturas do corpo
e que, pela magia poética, mistura sua voz à da mulher adulta, humildemente
pede atenção: “Não sou forte, Daniela, nunca fui forte como você” (MARINO,
2024, p. 28).
Em
muitos momentos de seu memorial poético, a autora abre espaço para a escrita
enquanto testemunho, enquanto vivência, enquanto experiência de um corpo. Como
no décimo sexto e último texto de seu “diário”: “Penso em você, Daniela, quando
a hemorragia vem. Saem do meu cu grandes coágulos moles envoltos num sangue
fibroso. Estou só (...) conheço cada cratera e buraco negro, cada centímetro do
sistema solar do corpo e por isso você entenderia a minha febre...” (Idem, p.
31). A linguagem visceral e ao mesmo tempo humana, tragicamente humana (em uma
época de tanta desumanidade), revela a alta voltagem a que chegou o texto de
Mariana. Talvez comparável a um dos mais comoventes poemas sobre a fragilidade
do corpo que é a ode “À minha perna esquerda”, do poeta José Paulo Paes (PAES, 1992).
Em ambos, a ideia da finitude da vida pôde propiciar criações que se
caracterizam pela originalidade diante da óbvia impossibilidade do ineditismo.
Ademais, ouso postular que o ensaio em prosa
poética, ou, antes, “diário”, de Mariana Marino, busca colar seu enfoque à
realidade de uma época pretérita de sua vida, mas que se estende até os dias de
hoje. Por outro lado, enquanto crítico e poeta, mesmo levando em conta toda a
questão da representação da realidade, principalmente para a perspectiva mais
formal da literatura, tendo a pensar que não existe o instrumental teórico adequado para todos os casos, mas sim um instrumental adequado, para cada
caso, para cada livro. Além da questão da mimese, do espelhamento do real,
também a confluência entre o eu-poético e o eu-empírico, no caso do “diário” de
Mariana, é enfatizada aqui. Apesar de Blanchot (importante para a
caracterização que faço do “diário poético” de Mariana) e outros autores não
citados defenderem uma espécie de morte autoral, para o caso da autora de Peito aberto até a garganta, o paradigma
é distinto. Ela afirma-se no texto, por meio de um intimismo, ou
confessionalismo intenso. E, nesse sentido, a abertura dada por autores como
Michael Hamburger e Octavio Paz (este, com uma amplitude mais ambígua) é
fundamental.
Além do mais, posso dizer que Mariana Marino
figura, na poesia brasileira, como um dos nomes que mais trabalha uma questão
essencial do nosso tempo, ou seja, o
corpo. Fazendo a antítese dos autores situados em torno do 1900, que tinham
a “alma” por objeto principal de evocação, o corpo é trabalhado de diferentes
formas por um número gigantesco de poetas. Há mesmo entre estes, autores tão
radicais, como Carla Diacov, que chega ao extremo da experimentação, como em Voa baixo e dorme (DIACOV, 2022-B), em
que a imagem da capa, de Santa Cecília, é tingida de vermelho pelo sangue
menstrual da poeta. Já em Ao marfim dos
seus caninos, uma feroz plaquete, essa mesma autora não deixa faltar também
seu senso de humor personalíssimo, ela, ao lado do parceiro “yuri”, utiliza o
expediente da naturalização do sexo e, ao mesmo tempo, expõe o jogo amoroso via
exploração de fetiches, como no segundo poema que, como todos os outros, traz a
referência a thánathos: “yuri lavava as mãos antes/ de me comer uma
vez/ me fiz de morta e yuri lavou/ as mãos com esponja de aço/ e sapólio// eu
tinha o direito de me fazer/ yuri também” (DIACOV, 2022-A, p. 8). Mas ao lado
da exacerbação do corpo, que no fundo pode até levar a sua ruína, ao seu
dilaceramento, há também, em Ao marfim
dos seus caninos a tendência em certos momentos de uma sublimação, ao mesmo
tempo que uma teatralização, em que o corpo encontra a morte, a última amada:
“nos olhos abestados sentem ciúmes/ da morte que escolheu seu peito/ como o
carinho eterno” (Ibid., p. 12). De toda a forma, nos seus livros, Carla Diacov
tende a ritualizar o corpo (quando não o próprio cotidiano) e, por extensão, a
Vida.
Assim, o caminho de Mariana em todos os seus
três livros, é um tanto distinto do caso de Diacov, principalmente no que se
refere à obra é este o destino do corpo,
abrir-se. Se Diacov aborda o corpo de uma forma mais neossurrealista, pela
profusão de imagens surpreendentes, Mariana instaura uma perspectiva fortemente
expressiva, de natureza neorrealista. Ambas compõem uma poética do corpo, não
só no tocante à sua materialidade, ao seu caráter orgânico, mas também à sua
simbologia (no caso de Diacov), como também à sua psicologia, às suas vivências
(no caso de Mariana). Assim há um resgate pela autora radicada no estado do Paraná,
como enfatizei, da sua relação com o experienciado, com o existencial. Em
Mariana Marino, a Vida vem escrita com inicial maiúscula, e isso não é pouco.
Referências:
BENJAMIN,
W. “Sobre o conceito de história”. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Tradução de S. P. Rouanet. 3ª
edição. São Paulo/SP: Brasiliense, 1987.
BLANCHOT,
M. O espaço literário. Tradução de
A. Cabral. Rio de Janeiro/RJ: Rocco, 2011.
CANDIDO,
A. Literatura e sociedade. 9ª edição
revista pelo autor. Rio de Janeiro/RJ: Ouro sobre Azul, 2006.
DIACOV,
C. Ao marfim dos teus caninos. São
Paulo/SP: Primata, 2022-A.
DIACOV,
C. Voa baixo e dorme. Juiz de
Fora/MG: Macondo, 2022-B.
HAMBURGER,
M. A verdade da poesia: tensões na
poesia modernista desde Baudelaire. Tradução de A. C. de Franca Neto. São
Paulo/SP: Cosac e Naify, 2007.
MARINO,
M. Peito aberto até a garganta.
Bragança Paulista/SP: Urutau, 2020.
MARINO,
M. não sei quem colocará as mãos em mim.
Curitiba/PR: Kotter, 2022.
MARINO,
M. é este o destino do corpo, abrir-se.
Curitiba/PR: Ed. da Autora, 2024.
PAES,
J. P. Prosas seguidas de odes mínimas.
São Paulo/SP: Companhia das Letras, 1992.
PAZ,
O. O arco e a lira. Tradução de O.
Savary. 2ª edição. Rio de Janeiro/RJ: Nova Fronteira, 1984.
Nota biográfica: Henrique
Duarte Neto é funcionário público, crítico literário e poeta. Nascido em 1972,
no interior de Santa Catarina. É no seu trabalho com a exegese e a criação
poética que encontra sua realização.
E-mail:
henriqueduarteneto@yahoo.com.br
quinta-feira, 30 de julho de 2026
A poesia é necessária?
Poética
Marco Catalão
Estou de saco cheio da poesia metida a besta
com nota de rodapé
arcabouço teórico
prefácio
e posfácio
Estou de saco cheio da poesia marginal
publicada pela
[imprensa oficial
Da poesia que treme diante de um travessão e de
um
[ponto-e-vírgula
Estou de saco cheio da poesia que tem medo de
pôr o
[dedo na ferida
Todas as palavras inclusive morte amor ciúme
Todas as construções inclusive as sextinas os
acrósticos
[e os decassílabos
Abaixo a tirania do verso-livre
Abaixo as revoluções segundo a receita
Estou de saco cheio da poesia asséptica
exegética
disléxica
anoréxica
Da poesia politicamente correta e poeticamente
abjeta
De resto pode até ser poesia
(pra isso servem os carimbos e atestados da
academia)
Mas lirismo não rima com chatice
e pra ser lúdico não é preciso ser estúpido
– Não quero saber da poesia sem ritmo e sem
sangue
terça-feira, 28 de julho de 2026
Cuidado com o carão
Pedro Lucas Lindoso
O festival de cirandas de Manacapuru acontece no final do
próximo mês de agosto. Mas os ensaios já
começaram. E, claro, movimentam a economia da cidade.
Pelo que tenho visto, a ciranda de Manacapuru deve ser entendida
como uma tradição formada por “camadas” culturais. Por certo não tem uma única
origem. Até que ponto faz sentido perguntar sobre influências das cirandas do
Nordeste, músicas e danças indígenas e africanas? Assim como influências de danças de roda “ciganas”
e europeias!
Como o nosso boi, a ciranda deve ser vista como mistura e
circulação histórica. Não como causa única “de um lugar”. E como o boi de
Parintins, as cirandas de Manacapuru sofrem a pecha de “carnavalização” dos
críticos mais ácidos. Sendo originalmente uma dança de roda, similar às danças
circulares vindas da Europa, sobretudo de Portugal.
Quando fiz a disciplina Cultura Brasileira no curso de Letras
na UnB anotei que dança de roda, cantigas e brincadeiras em círculo têm
parentesco com matrizes trazidas por colonizadores ibéricos e por práticas
populares que se espalharam pelo Brasil, inclusive aqui na Amazônia.
A colaboração Indígena entra mais como ritmo, canto coletivo,
e relação com a mata, ou seja, o território.
Quer parecer que em Manacapuru aconteceu uma adaptação local.
Onde a corporalidade do canto, o ritmo, a musicalidade e a forma de organizar
as cirandas e o festival são consequências de um encontro comunitário bem-sucedido,
com influências de atores de diversas origens, de uma população naturalmente
miscigenada.
Mesmo porque o gênero “ciranda” existe em diferentes regiões
brasileiras. Além disso, fluxos históricos e migratórios explicam semelhanças.
Ainda assim, para Manacapuru especificamente, nem sempre dá para afirmar uma
influência direta da ciranda do Nordeste ou qualquer outra origem específica. O
que houve em Manacapuru foi convergências e ressignificações locais.
Em resumo, Europa e principalmente Portugal, trouxeram a estrutura
de cantigas de roda. Esta parece ser a base mais visível. Já as influências indígenas e africanas
ajudam a explicar o jeito local de fazer as cirandas.
O que não pode faltar na ciranda da Amazônia é o “pássaro
carão”. Trata-se de um ente do imaginário regional. Um pássaro preto, feio;
porém, simpático. Muitas vezes associado
a histórias, cantos e encenações.
Por ser ano eleitoral é provável que nesse agosto muitos
candidatos vão estar no festival. Devem ter cuidado. O carão é um pássaro preto
e misterioso que come aruá, um molusco dos rios. Mas pode fazer outras
peripécias. Cuidado com o carão.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
A poesia é necessária?
Jaguaribe, o Rio Poeta
Luciano Maia
Para Sânzio
Azevedo
Este rio inventou muitas palavras
recortadas nos remansos intumescidos
de enxurrada,
metáforas sonoras do tempo das lavras,
escritas na vastidão de pautas
imemoriais,
guardadas na lembrança antiga dos
meninos de várzea.
O Jaguaribe me ditou poemas
chegados da infância de suas águas,
enlaçados aos sonhos camponeses
e aos retiros misteriosos
dos córregos sonâmbulos
que lhe entregam a dádiva
da tímida invernada sertaneja.
Este rio, poeta matuto do meu vale,
me ensinou uma canção interminável,
vinda dos primordiais sinais da fonte
pequena
até as enluaradas vigílias da sua
mansa barra.
Para não me esquecer dos seus poemas,
releio os passos lentos de suas
águas,
revisitando os areais tão vastos
de sua ilha fecunda.
Ó Parapuã, pátria dos cataventos!
Versos do rio! Cânticos fluviais,
rapsódias das luas campesinas,
ó terra interior,
promessas nas ramagens,
silêncio visitado de suspiros,
versos de amor, distância e
inquietude!
Rio Jaguaribe, poeta matuto do meu Vale.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Passa, Ancelotti!
Pedro Lucas Lindoso
Minha querida tia Idalina não se conforma com a desclassificação do
Brasil pela Noruega. Ela, na verdade, não gosta muito de futebol. Toda
quarta-feira reclama que o futebol atrapalha sua rotina de novelas. Mas nas
copas titia se transforma. Dá até palpite na escalação. Convoca os sobrinhos e
amigos para assistir aos jogos em sua casa...
– Sou uma torcedora bissexta.
Só torço de quatro em quatro anos. E pelo Brasil, repete em todas as
copas. Meu país que amo e adoro. Sou brasileiríssima. Ufanista total.
Ela é daquelas que se arrepia ao som do hino nacional. Fica furiosa se
alguém conversa ou se mexe quando o hino toca. E observa se os jogadores sabem
cantá-lo. Há uma parte que as pessoas erram. Brasil de um sonho intenso, na primeira
parte. Brasil de amor eterno, na segunda. A dica é que primeiro se sonha e
depois se ama. Outra coisa desnecessária é chamar alguma cantora famosa para
cantar. Coisa da cultura americana. Nem sempre dá certo. Alcione que o diga.
Ah!
Tem mais. Quando Idalina era menina cantava-se o hino perfilados. Ou
seja, em posição de sentido. Essa mania de colocar a mão no coração é macaquice
importada. Idalina também é contra.
Está convencida de que desclassificaram o Brasil de propósito. Ou não.
Idalina, supersticiosa que só, acha que o Brasil só volta a ganhar uma copa
quando proibirem as apostas. Existem os deuses do futebol, diz ela. Estão
furiosos com a manipulação de jogos. E pior, a jogatina tem destruído famílias.
É um câncer na sociedade brasileira. Enquanto não acabarem com isso o Brasil
não ganha mais nada.
– E não adianta pôr a culpa só no técnico Ancelotti. Mas é bom
culpa-lo. Errou na escalação. Nós temos mais de 200 milhões de habitantes. A
grande maioria dos meninos brasileiros jogam bola. Agora, vejam só. A Noruega é
um país de menos de 6 milhões de habitantes. E faz muito frio. Não dá para
jogar bola o ano inteiro, argumenta Idalina.
Titia não se conforma. E se tem que culpar alguém ou algo, além das
bets, vamos culpar o Ancelotti. Na Copa de 1966 nós fomos desclassificados por
Portugal. Ainda não havia televisão em Manaus. Ouvia-se pelo rádio. Alguns
portugueses foram hostilizados. Seu Pinto tinha uma mercearia no canto da Rua
Barroso com a Henrique Martins. Fechou as portas preventivamente. O grande bode
expiatório foi o técnico, que se chamava Feola. Idalina colocou o nome de seu
cachorro vira-latas de Feola. Possivelmente foi o homem mais xingado e
destratado no Brasil no ano de 1966. Feola, o cachorro, viveu muitos anos e
levou muita bronca de Idalina.
Nesta semana, Idalina adotou um vira-latas. Muito sonso e não entende
o que Idalina, sua nova tutora, comanda. Pertencia a um senhor italiano
falecido. E, claro, só entende italiano. Se pelo menos esse cachorro falasse
francês... Seria melhor, diz ela.
Enquanto falávamos ao telefone, Idalina gritou algumas vezes:
– Passa, Ancelotti!
domingo, 19 de julho de 2026
Manaus, amor e memória DCCLXXXIV
quinta-feira, 16 de julho de 2026
A poesia é necessária?
Pluma azul
Yasmin Nigri
Sou quase feliz
Assistindo uma pluma azul
Em queda
Trocando carícias com o vento
Vencendo a resistência do ar
Num balé vertical
A queda é seu triunfo
Olho para a pluma azul
E sei imediatamente
Que o ritmo não é
Medida vazia de conteúdo
Entretanto não quero mais me sujeitar
A tanta sensibilidade estéril
O mundo carece mais de ódio
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Poesia no encanto da palavra
terça-feira, 14 de julho de 2026
É preciso ler para poder e querer ver
Pedro
Lucas Lindoso
Os
povos originários do litoral não viram as caravelas chegar. Uma cabocla
amazonense ao ver o mar de Fortaleza pela primeira vez achou que era um grande
rio, do qual não se via a outra margem. Uma brasileira em supermercado no Japão
estranhou que não havia placas indicando o local dos produtos. As placas eram
em japonês.
A
pergunta que o “filósofo baré” faz é:
– Só se
vê aquilo que se quer? Aquilo que está interiorizado no nosso cognitivo? Para
ver ou querer ver é preciso ler.
É certo
mesmo que os indígenas não viram as caravelas?
É certeza que a amazonense considera rio e mar a mesma coisa? Estaria
com razão a brasileira de que não havia orientação para se comprar com rapidez
em supermercados japoneses?
Vejamos
a cabocla amazonense. Ela vê o mar de Fortaleza não como mar, mas como memória
de rios do Amazonas. Nos parece um encontro entre o que a gente conhece e o que
a gente quer ver. No supermercado japonês, as placas falam menos. Aliás não
falam nada para a brasileira. Era como se não existissem. A mesma provável
sensação dos indígenas que receberam os portugueses.
O
espanto ante a ausência de informações compreensíveis deve ser a mesma sensação
que um analfabeto sente ao entrar num supermercado em seu país. As letras e nada são a mesma coisa. Cada
palavra para o analfabeto e cada ideograma para a tal brasileira carregam uma
suspensão indefinida. Um respirar que não permite que a memória dialogue com o
novo. As placas em japonês não seriam apenas indicação do local do produto. Elas
desafiam a pressa, lembrando que aprender uma língua estrangeira leva tempo. A
brasileira no Japão percebe que ver pode ser treino e estudo. Cada ideograma é
uma vela que acende uma curiosidade. Ver não é apenas abrir os olhos. Pode ser
permitir que o intelecto acompanhe o ritmo das coisas não ditas e não lidas.
Mas há os que se recusam a ler, a pensar, matutar, refletir. Uns conscientes.
Outros nem tanto. Para estes, escritores, filósofos e pensadores não têm
serventia.
É
preciso coragem, humildade e discernimento para perguntar, acatar e até aceitar
o novo, a nova leitura, o novo pensar como consequência. E poder ver o novo ou poder ver e querer ver
o diferente. Esse novo indecifrável acontece para os que não querem ler ou
quando a sinalização falha ou não existe. Ou quando valores arraigados e
preconceitos não os deixam ver.
No fim,
talvez seja tudo uma soma. O que se conhece e o que se quer ver se entrelaçam,
para nos lembrar que aprender é pedir passagem ao próximo ponto do mapa. O
dilema permanece aberto, não como uma pergunta que precisa de resposta única.
Ver ou ler algo novo é, portanto, um exercício contínuo de humildade. É
reconhecer que o mundo não cabe por inteiro na nossa cartografia.
domingo, 12 de julho de 2026
Manaus, amor e memória DCCLXXXIII
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Anatomia do Caos - a tragédia relembrada para não ser esquecida
Sinopse
Com
acesso inédito aos bastidores do Senado, a diretora Dandara Ferreira
acompanha de perto a trajetória completa da CPI da Covid-19 e transforma
imagens exclusivas em um retrato poderoso de um dos períodos mais turbulentos
da história recente do Brasil.
Entre
depoimentos tensos, embates políticos, denúncias e revelações que mobilizaram o
país, o documentário mergulha nos acontecimentos que marcaram a investigação
sobre a condução do combate à pandemia. Ao registrar reuniões, corredores e
momentos decisivos sob uma perspectiva privilegiada, Anatomia do Caos
constrói um panorama íntimo e impactante sobre poder, responsabilidade e
memória coletiva.
Mais do
que revisitar os fatos, o filme busca compreender as feridas abertas por uma
crise que mudou o país para sempre.
[Abandonada pelos governos regionais e tornada em personagem grotesca pelo governo federal, Manaus e o Amazonas têm uma participação fundamental na tragédia e no retrato que o filme faz dela.]
quinta-feira, 9 de julho de 2026
A poesia é necessária?
Toada da chuva
Guimarães Rosa (1908-1967)
Chove e faz frio.
Posso vir ao passado,
porque a chuva cai, em estribilho
de dedos brancos num teclado manso,
disciplinada, como uma velha trova,
e o meu passado é frio...
(Chuva fina,
chuva fria,
desfiando sem cessar...
Ontem foi dia de festa,
e a chuvinha veio, lesta,
todas as flores regar.
Hoje é manhã de Finados,
os túmulos já estão lavados,
e a chuva não quer parar...)
Vara o ar um feixe
de flechas oblíquas,
ferindo nas poças mil mariposas,
que ruflam, doidinhas, as asinhas de água.
Nas lagoas do asfalto, círculos convergentes,
entretangentes, a abrir e a fechar.
E da beira de um telhado,
cai, comprido e constante, um jorro claro,
que espirra na calçada,
onde uma aranha de vidro esperneia,
pendurada
de um fio de sol molhado.
(Chuva bela,
chuva leve,
que te debulhas no ar...
Se és tão triste nas goteiras,
por que tuas mãos, zombeteiras,
vêm nas vidraças tocar?!...
– “Mas, junto a cada goteira,
se há sempre um poeta a escutar?!...”)
As mãos de água,
frias mãos de fada,
correm dedos longos,
alisando as árvores, tateando as casas.
Cada folha verga, sob grandes gotas,
cada casa esfria, sob as telhas úmidas.
(Chuva santa,
chuva clara,
como a toalha de um altar...
Por que tanta cousa impura,
tanto pecado e amargura,
daqui não podes lavar?!...
– “Quanto mais desço, a enxurrada,
mais suja não vês rolar?!...”)
Nas portas, nas janelas,
sob os toldos,
gente parada, como insetos presos.
Quando passar a chuva,
toda a cidade destapada e clara,
Pensarão, talvez, que não mais os isolam
Muitas outras campânulas de cristal...
(Chuva boa,
chuva meiga,
que assim me vens consolar...
Se no céu estão chorando,
por que preciso chorar?!...)
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Fabrício Magalhães e a crítica literária no Amazonas
terça-feira, 7 de julho de 2026
Festa nos EUA: 4/7 e Copa
Pedro Lucas Lindoso
Citando
Olavo Bilac, “ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”. É preciso amar o
Brasil. Lutar pela nossa soberania e nossa democracia. Isto não nos impede de,
neste 4 de julho, desejar aos Estados Unidos paz e prosperidade. Pelos 250 anos
de independência e por sediar a Copa do Mundo.
Nesta
manhã de julho, com copa do mundo aqui e lá, as bandeiras de cada país tremulam
por razões diversas. Nós, brasileiros, como quem respira fundo antes de cantar
nosso hino. Não só do próprio peito, mas também uma vontade aguerrida de ganhar
a copa. Eles, os americanos, comemoram sua data cívica, junto dos que vêm de
longe para torcer e festejar o esporte que a todos une. Esporte que sempre será
caminho de amizade e paz.
Assim,
é preciso lembrar de Olavo Bilac. Poeta que tratava a pátria brasileira com o
cuidado de quem cuida de uma flor rara. Não é exagero dizer que amar a terra em
que se nasceu é um ato de fé. É questão de reconhecer o valor do solo que nos
acolhe. O sorriso dos vizinhos, as histórias que se cruzaram nas esquinas. E a
responsabilidade de cuidar do que é seu. Da sua cultura e valores. De seu
território. Para que cada nação
permaneça livre e democrática.
Enquanto
o mundo gira, entre copas, tratados internacionais e acordos multilaterais, o
Brasil sabe que a soberania não se mede apenas em números de produção ou em
bravatas diplomáticas. Os brasileiros têm a capacidade de observar o próprio
orgulho sem fechar as portas para o outro. Porque o verdadeiro respeito pela
democracia não se celebra apenas em proclamações, tratados, acordos. Olimpíadas
ou copas. Se pratica no gesto cotidiano de ouvir, de dialogar, de buscar
caminhos que favoreçam o bem comum. Mesmo quando há divergências.
Neste 4
de julho, espera-se que os cidadãos americanos possam olhar o mapa do mundo com
a curiosidade de quem sabe que a prosperidade não é dádiva reservada a poucos.
Mas fruto de cooperação entre nações. Não podemos esquecer que intercâmbios
comerciais, esportivos e culturais são como pontes erguidas com trabalho e
paciência de pessoas e governos. Cada fluxo de gente, cada ideia trocada, cada
arte ou esporte que atravessa fronteiras, é uma semente plantada no terreno da
convivência. Sem ingerências indevidas, claro, mas com a convicção de que a
diversidade é riqueza quando é tratada com elegância e responsabilidade.
E assim
também se constroem vínculos com a China, a Rússia, a Índia, a Europa e tantos
outros cantos do mundo. Não para apagar as singularidades, mas para aprender
com elas. Que o desejo de aprender uns
com os outros seja maior que qualquer mal-entendido. Que possamos manter o
intercâmbio como um diálogo aberto. Onde cada país se reconheça na sua própria
cadência e, ainda assim, encontre razões para caminhar lado a lado.
Que os
Estados Unidos continuem, como exemplo de democracia e civilidade. Buscando
unir firmeza de princípios com compaixão pelo próximo. E que, ao comemorarmos a
história que nos une, não nos esqueçamos de que o maior hino não é de vitória
isolada, mas de cooperação. Que se possa seguir juntos. Com fé na terra que nos
abriga e com orgulho de saber que a amizade entre nações é, muitas vezes, o
remédio mais eficaz para as dores do mundo. Que a convivência seja leve, o
respeito mútuo, a curiosidade permanente, e a esperança de que, ao olharmos
para o mapa, possamos enxergar não apenas linhas que definem territórios, mas
caminhos que aproximam corações.
E que,
nestes dias de celebração e copa, reste a certeza de que a paz é um projeto
comum. Que começa no quintal de cada um e se expande até o horizonte inteiro.
domingo, 5 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A poesia é necessária?
O mago
(26/4/1963 – 26/6/2026)
Eu amo os bosques e as ruínas e os conventos
E toda parte onde o mistério nos destrua,
Pois nada vale ir decifrar com gestos lentos
A mão sem causa que fez tudo e a tudo estua.
Era impossível que algo houvesse, e tais tormentos
Vêm de ainda assim este algo haver, enquanto a lua
Que por verdade não nascera assopra os ventos
Aos nossos olhos também falsos desta rua.
Oh! alamedas, catedrais, sombras pendentes,
Por ser sem fruto ainda buscar nos entregamos
De uma só vez a este mistério que encarnamos,
Numa volúpia de esquecer, da noite ausentes,
Como o mendigo que sem forças para a sorte
Se entrega inteiro à sua garrafa e à sua morte!
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Eu sou Frankelda
Tainá Vieira
No
final de semana passado, assistimos, em família, ao filme Soy Frankelda.
Uma animação mexicana de fantasia, dirigida por Arturo Ambriz e Roy Ambriz,
emocionante e muito significativa.
Emocionante porque esse mundo da fantasia consegue nos tirar do mundo
enfadonho que é a vida, na maior parte; e significativa porque narrativas
ousadas como essa, que abraçam o grotesco, o sombrio e o inquietante, nos
obrigam a olhar novamente para a própria vida. Elas nos lembram que os monstros
nunca existiram apenas nos livros ou nas telas; eles sempre encontraram
maneiras de caminhar entre nós. Nesse sentindo, a história da corajosa
Francisca Imelda é um convite para ampliar nossa perspectiva sobre como lemos e
interpretamos os sinais que todas as expressões artísticas nos apresentam
diariamente.
A arte
nunca fala apenas de si mesma. Ela fala de nós, de nossos medos, de nossas
violências, de nossas ausências e dos silêncios que insistimos em naturalizar.
Talvez por isso tantas histórias pareçam tão fantasiosas quando, na verdade,
apenas estampam aquilo que a realidade já faz com crueldade. E sim, vou
insistir na mesma linha de pensamento. Vou falar sobre o mesmo assunto tantas
vezes quantas forem necessárias, porque, em todos os séculos, a mesma história
continua sendo contada, apenas em idiomas diferentes. Os cenários mudam. Os
figurinos mudam. As personagens recebem novos nomes. As tecnologias avançam,
mas o enredo permanece assustadoramente semelhante.
A
história pode até se fragmentar ao longo do tempo; as personagens são
renovadas, contudo, o cerne, a essência enraizada nas mentes dos algozes que se
proclamam detentores do saber supremo, continua intacta onde quer que seja. É
sempre a mesma necessidade de controlar quem pode falar, quem pode escrever,
quem pode criar e quem merece ser lembrado. E nós estamos aqui justamente para
isso: insistir em expor e expurgar esse mal que atravessa todos os espaços e
que teima em continuar mesmo percebendo que a sua presença já não é mais
tolerada.
É por
isso que estamos sempre no front, olhos atentos a todo instante para capturarmos
quaisquer sinais positivos que nos ajudem nessa luta, foi assim que encontrei
Francisca Imelda, a protagonista da narrativa. Quando criança, ela sonhava em
ser escritora, mas sua maneira de imaginar e contar histórias era considerada
absurda demais. Como poderia uma criança e, pior ainda, uma menina, pensar
daquela forma? Sua imaginação era tratada como desvio. Sua criatividade, como
ameaça. Mais tarde, já jovem, ouviu de um editor que uma mulher não poderia
escrever daquele jeito. Essa cena me atravessou de uma maneira forte demais.
Por que será? Talvez porque, de uma forma ou de outra, essa ainda seja uma
história que conhecemos bem. Mudam-se as palavras, mas permanece o mesmo
julgamento.
Quantas
mulheres tiveram seus sonhos enterrados antes mesmo de florescerem? Quantas
desistiram porque aprenderam cedo que precisariam pedir licença para existir
intelectualmente? Quantas boas histórias foram publicadas sob pseudônimos,
atribuídas a homens ou simplesmente esquecidas por que suas autoras ousaram
pensar além do que lhes era permitido? E quantas obras extraordinárias ficaram
escondidas nas margens da história, esperando que alguém finalmente lhes
devolva a voz? Verenilde Pereira é um grande exemplo disso. Sua escrita
permaneceu durante décadas distante do reconhecimento que merecia, como
acontece com tantas outras mulheres cujas produções são tratadas como
periféricas apenas porque desafiam a lógica de quem sempre acreditou possuir o
monopólio da literatura e do pensamento. Mas hoje, o livro Um rio sem fim
atravessa tantos territórios sem pedir licença porque ele não precisa e nunca
precisou de disso para existir.
Voltando
ao filme, Frankelda abandona o seu mundo “real” e mergulha no submundo de suas
próprias criações. Um lugar onde as histórias possuem corpo, respiram, sentem
medo e desejam existir. Mas é justamente ali que suas narrativas são roubadas
por um contador de histórias ultrapassado, egoísta e profundamente machista. Um
personagem convencido de que jamais existirá alguém capaz de escrever melhor do
que ele. Alguém tão embriagado pela própria superioridade que acreditava
possuir o direito de tornar sua toda criação que lhe despertasse admiração. É
impossível não reconhecer esse personagem para além da fantasia. Ele representa
uma figura histórica, representa todos aqueles que confundem conhecimento com
propriedade. Que acreditam que inteligência é território privado. Que
transformam o saber em instrumento de poder e fazem do apagamento alheio a
condição para manterem intacta sua falsa grandeza.
É assim
que pensam muitos dos que se consideram “grandes intelectuais”. Convencidos de
sua própria imortalidade, recusam-se a aceitar que novas formas de contar
histórias possam surgir. Permanecem encapsulados em um mundo de soberba e de
uma pieguice arcaica, incapazes de perceber que a literatura é um organismo
vivo, que respira, muda de pele e renasce a cada geração. Estão tão ocupados
contemplando a própria imagem que deixam de perceber o sol novo que insiste em
nascer todas as manhãs. Mas, Eu sou Frankelda não é apenas um filme
sobre monstros, fantasmas ou mundos imaginários. É, sobretudo, uma narrativa
sobre o preço de existir com autenticidade. Sobre a coragem necessária para
continuar criando quando tudo ao redor diz que a sua voz não deveria existir.
É sobre
escrever mesmo quando tentam transformar a sua escrita em erro. É sobre
imaginar mesmo quando insistem que a imaginação precisa caber em moldes
pré-estabelecidos. Criar talvez seja o maior ato de desobediência que existe,
porque toda criação inaugura uma possibilidade de mundo que antes não
existia. No fim, Eu sou Frankelda
nos lembra que toda história que insiste em nascer merece ser contada. E talvez
essa seja a maior vitória de todas: continuar escrevendo, apesar do medo,
apesar das portas fechadas, apesar das tentativas constantes e grosseiras de
silenciamento. Porque, não importa quantos “pesadeleiros reais” existam no
mundo. Sempre nascerá uma Frankelda. Alguém disposta a rasgar o véu da cápsula
onde a arrogância tenta esconder a própria insignificância. Alguém que
compreenderá que as histórias nunca pertencem aos que as aprisionam, mas aos
que têm coragem de lhes dar voz, independente das normas pré-estabelecidas.
terça-feira, 30 de junho de 2026
A força silenciosa dos Paikicés e Kaçauerés
Pedro Lucas Lindoso
Muitas
moças e rapazes de Parintins desejam ser item de seu boi preferido. Sinhazinha,
Cunhã, Rainha do Folclore. Já os homens sonham em ser amo do boi, pajé ou mesmo
o tripa do boi.
Mas há
os que trabalham duro anonimamente. São os Paikicés do Boi Caprichoso e os Kaçauerés
do Boi Garantido. Cada equipe tem cerca de 200 homens. Trabalham duro. Carregam
os carros alegóricos e adereços com dias de antecedência. Tomam conta do
acervo. Montam tudo. É muito trabalho. Mas quem brilha no festival são os
itens.
Os Paikicés
do Boi Caprichoso e os Kaçauerés do Boi Garantido são homens e mãos que
trabalham sem alarde, dia após dia. O coração que move os bois é invisível aos
olhos que olham apenas para os itens, alegorias e toadas. No traslado dos
carros alegóricos, há uma geometria de esforço. O peso distribuído com cuidado
e a precisão que expressa o amor por cada Boi. Em cada ajuste de adereço, um
segredo de paciência. Cada trabalhador no silêncio e na dedicação ao seu boi, sabe
que o tempo é aliado, não inimigo.
A
organização de cada equipe é como uma toada cujo tema é a disciplina. Os Paikicés, conhecem cada peça como quem
conhece a própria história do Boi Caprichoso. Os Kaçauerés, com o mesmo afinco,
alinham o vermelho vibrante das alegorias e adereços. Para que possam vibrar
numa tonalidade que conte uma narrativa vermelhante, honesta e ofuscante.
O
cronograma não é apenas data. É respeito
pela tradição, é o ritual de preparar o bumbódromo para que a grandiosidade se
faça visível. E surpreendente como todo ano, todo festival.
Paikicés
do boi Caprichoso e os Kaçaierés do Garantido fazem um trabalho que não pede
aplauso. Carregar, montar, guardar. São
tarefas que se repetem, mas que, repetidas, se tornam disciplina sagrada.
A
alegoria de cada boi é memória em movimento. Cada peça uma página viva de uma
história que se reescreve a cada festival.
Os Paikicés
e os Kaçauerés têm humildade para ver o resultado sem se deixar consumir pela
vaidade do aplauso que os itens recebem. Eles têm coragem para admitir que o
segredo do brilho de cada dia de apresentação do festival está nos detalhes.
E, quando
a galera azul e vermelha se tombar em reverência, o verdadeiro brilho vem da
quietude de quem sabe que o trabalho está apenas começando outra vez. Mas que
existe uma promessa de continuidade de uma tradição viva. Os Paikicés e Kaçauerés são guardiões de uma
linha que não pode quebrar. A linha que
liga passado, presente e futuro do festival.
Cada
um, na sua função, entrega o essencial do todo. Sem o peso certo, o boi não
voa. Sem o encaixe preciso, o colorido dos adereços e das vestimentas não canta
no ritmo preciso de cada toada.
Paikicés
e Kaçauerés, que trabalham com as mãos e suando o corpo, para que a festa maior
continue a nascer todo ano, sob o mesmo céu, com a mesma coragem. A coragem de quem ergue, com paciência e
amor, os bois que encantam os amazonenses, o Brasil e o mundo.





