ESPELHAMENTO
DO REAL E CONSTRUÇÃO DE UM EU BIOGRÁFICO – SOBRE O MEMORIALISMO EM É ESTE
O DESTINO DO CORPO, ABRIR-SE, DE MARIANA MARINO
Henrique
Duarte Neto
O ensaio poético de Mariana Marino, é este o destino do corpo, abrir-se (demonia
editora, 2024), terceiro livro na seara da poesia de Mariana, além de todas as
implicações emocionais que traz consigo, é um caso muito instigante para
pensarmos em duas questões centrais dos estudos literários: a da autoria e a da
mimese, da representação do real no texto poético. Mas, primeiramente, antes de
investigar estas questões à luz dos 16 textos que formam o opúsculo, analisarei
um pouco a natureza, o gênero do escrito.
Classificado por Mariana como “ensaio poético”,
penso que, mesmo tendo essa natureza de prosa poética, os 16 fragmentos tendem
mais ao confessionalismo do diário. Aliás, um excelente diário. Claro, um diário
não datado e não pensado enquanto tal pela autora, mas quiçá,
inconscientemente, e pela forma fragmentária que tomou, também própria da
poesia, um pungente “diário poético”. Escrito não sob a perspectiva de um
presente temporal, mas rememorado por uma mulher adulta – mas não terá a
criança de cinco, seis, sete anos uma presença flagrante e indômita na mulher
de 30 e tantos anos? Assim, esse passado que ressoa vivo no presente não
inviabiliza nosso viés. Portanto, como esta é uma questão em aberto, e assim
sendo, a palavra “diário” será referida doravante sempre entre aspas quando
estiver relacionada ao texto poético da autora de não sei quem colocará as mãos em mim.
Ademais,
pensando naquilo que Maurice Blanchot vê como o aspecto marcante do diário: o
de ser “Memorial”, trazendo à tona o que qualquer escritor faz no seu
cotidiano, quando não está escrevendo (BLANCHOT, 2011, p. 20-21), podemos
estender as reflexões para o caso do livro da autora. Mariana preserva uma memória,
traz seu mundo íntimo à visão de muitos, cria uma rede interpessoal e de
significações, que extrapola tempo e espaço, fazendo-se testemunho e
experiência histórica, pessoal e coletiva.
Há, porém, o problema de que o “diário” de
Mariana talvez traia o que pensa Blanchot do diário enquanto forma de
materialização do texto. Para o autor francês, tal forma representaria um
momento de fuga às agruras da escrita, sendo que a escrita do diário poderia
ser pensada como espécie de antídoto para a morte. Morte entendida aqui como
passagem do “eu” pessoal ao “ele” impessoal coletivo, que não possui rosto, mas
que, para o autor de O espaço literário,
é uma realidade. Contudo, não seria esse experimento linguístico de Mariana uma
resposta à morte, não aquela da perspectiva blanchotiana, mas uma morte menos
simbólica, a que diz respeito ao problema da finitude humana e que nos levaria
a pensarmos numa espécie de viés autobiográfico e, não obstante, mimético?
Parece-me que a resposta só pode ser afirmativa. O “diário” de Mariana, por
agregar um alto coeficiente de poesia, vai na via oposta da obra capital de
Blanchot, pois, ao mesmo tempo, enfatiza e tonifica o “eu” e o referente.
Dessa maneira, a perspectiva da morte e a solidariedade,
o companheirismo entre crianças diante da solidão essencial, representam um
ponto capital da prosa poética de Mariana Marino. Muito mais aqui do que nos
livros anteriores (em que a condição de antiga cardiopata e de padecente de
outras mazelas são expostas), em verso, a poeta expõe, de modo emocionante,
toda a sua condição de fragilidade à época: “Eu também era uma menina doente”
(MARINO, 2024, p. 17). A personagem de Daniela, inseparável no hospital, permanece
viva na memória e na imaginação da autora, assumindo protagonismo no “diário
poético”. Assim, Daniela representa a lembrança do pavor diante das cirurgias
e, também, da possibilidade sempre renovada da morte, nos hospitais frios e
aziagos, numa época em que as crianças deveriam somente pensar no lúdico da
existência.
Ademais, ao ter sua história misturada à de
outra personagem, durante a fase em que era tão pequena, pensamos que este
“diário poético” foi remontado por uma mulher adulta, de mais de 30 anos de
idade, que estabeleceu um natural matrimônio entre os “eus” empírico e poético,
distintamente do que classifica Michael Hamburger, como um “matrimônio difícil”
no caso desses “eus”, para o poeta Guillaume Apollinaire (HAMBURGER, 2007, p.
237). O eu-empírico, está presente nos três livros de Mariana, mas avassaladoramente
no último: “Daniela é esse vulto, com quem sonho há anos nas noites minguantes,
em que acordo ensopada, nunca de sangue” (MARIANA, 2024, p. 25). Nesse trecho,
como em outros, há uma expressão que tende a soar em fortíssimo, tanto no que
se refere ao significante quanto ao significado, pois palavras como “vulto”,
“sonho”, “noites minguantes”, “ensopada” e “sangue” geram, em termos semânticos,
choques de realidade.
Desse modo, para projetar a dimensão “empírica”
desse “eu”, a poeta tem que evocar Daniela, como uma sombra do passado que
segue vibrando indefinidamente (como na alegoria do anjo da história (BENJAMIN,
1987), em que o passado cada vez mais se agiganta), sendo uma segunda dimensão
desse “eu”, o “outro” que ressoa nele, ou como quer Octavio Paz, a outridade. Nesse sentido, a autora vai
se afirmando na linguagem e trazendo para dentro dela todo um universo
pretérito. Dessa forma, o poeta, como nos afirma Octavio Paz, em O arco e a lira, cria o poema e se faz
poema: “O poeta é ao mesmo tempo o objeto e o sujeito da criação poética: é o
ouvido que escuta e a mão que escreve o que é ditado por sua voz” (PAZ, 1984,
p. 202).
Além disso, ao “materializar-se” no “diário
poético”, Mariana vai construindo um mundo em convergência ao experienciado.
Assim, o poema é o espaço em que aparecem: Daniela; a caixa de acrílico dela,
toda repleta de batons e chaveiros em forma de pequenos bichos; outras meninas;
as mães e os pais das crianças; as enfermeiras; os médicos (que são sempre
homens); todos os sentimentos e emoções fomentados pelas cirurgias, exames e
esperas nos gélidos hospitais daquela época. Tudo isso sentimos nós, os
fruidores desse belíssimo experimento lírico, quase uma elegia em prosa poética.
O mundo vivido por Mariana é revivido e recontado por ela mesma, como se
houvesse um espelhamento de perspectivas, na medida em que o principal da época
de criança se converteu no seu memorial poético.
Assim, no caso de é este o destino do corpo, abrir-se há uma simbiose entre o dentro
e o fora, ou melhor – como propõe Antonio Candido em alguns momentos de Literatura e sociedade, tendo um outro
referencial literário –, o contexto já está no texto (Cf. CANDIDO, 2006, p. 13,
por exemplo). Portanto, a exterioridade é intrínseca. Não há de se buscar o
real, com seus eventos, fora do texto poético de Mariana, pois isso já figura
nas páginas de sua obra. A poesia que, por ser, além do mais, memorialística,
como na visada ambígua de Octavio Paz, não deixa de ter “fome de realidade”
(PAZ, 1984, p. 80). Nessa medida, a menina que sobreviveu às aberturas do corpo
e que, pela magia poética, mistura sua voz à da mulher adulta, humildemente
pede atenção: “Não sou forte, Daniela, nunca fui forte como você” (MARINO,
2024, p. 28).
Em
muitos momentos de seu memorial poético, a autora abre espaço para a escrita
enquanto testemunho, enquanto vivência, enquanto experiência de um corpo. Como
no décimo sexto e último texto de seu “diário”: “Penso em você, Daniela, quando
a hemorragia vem. Saem do meu cu grandes coágulos moles envoltos num sangue
fibroso. Estou só (...) conheço cada cratera e buraco negro, cada centímetro do
sistema solar do corpo e por isso você entenderia a minha febre...” (Idem, p.
31). A linguagem visceral e ao mesmo tempo humana, tragicamente humana (em uma
época de tanta desumanidade), revela a alta voltagem a que chegou o texto de
Mariana. Talvez comparável a um dos mais comoventes poemas sobre a fragilidade
do corpo que é a ode “À minha perna esquerda”, do poeta José Paulo Paes (PAES, 1992).
Em ambos, a ideia da finitude da vida pôde propiciar criações que se
caracterizam pela originalidade diante da óbvia impossibilidade do ineditismo.
Ademais, ouso postular que o ensaio em prosa
poética, ou, antes, “diário”, de Mariana Marino, busca colar seu enfoque à
realidade de uma época pretérita de sua vida, mas que se estende até os dias de
hoje. Por outro lado, enquanto crítico e poeta, mesmo levando em conta toda a
questão da representação da realidade, principalmente para a perspectiva mais
formal da literatura, tendo a pensar que não existe o instrumental teórico adequado para todos os casos, mas sim um instrumental adequado, para cada
caso, para cada livro. Além da questão da mimese, do espelhamento do real,
também a confluência entre o eu-poético e o eu-empírico, no caso do “diário” de
Mariana, é enfatizada aqui. Apesar de Blanchot (importante para a
caracterização que faço do “diário poético” de Mariana) e outros autores não
citados defenderem uma espécie de morte autoral, para o caso da autora de Peito aberto até a garganta, o paradigma
é distinto. Ela afirma-se no texto, por meio de um intimismo, ou
confessionalismo intenso. E, nesse sentido, a abertura dada por autores como
Michael Hamburger e Octavio Paz (este, com uma amplitude mais ambígua) é
fundamental.
Além do mais, posso dizer que Mariana Marino
figura, na poesia brasileira, como um dos nomes que mais trabalha uma questão
essencial do nosso tempo, ou seja, o
corpo. Fazendo a antítese dos autores situados em torno do 1900, que tinham
a “alma” por objeto principal de evocação, o corpo é trabalhado de diferentes
formas por um número gigantesco de poetas. Há mesmo entre estes, autores tão
radicais, como Carla Diacov, que chega ao extremo da experimentação, como em Voa baixo e dorme (DIACOV, 2022-B), em
que a imagem da capa, de Santa Cecília, é tingida de vermelho pelo sangue
menstrual da poeta. Já em Ao marfim dos
seus caninos, uma feroz plaquete, essa mesma autora não deixa faltar também
seu senso de humor personalíssimo, ela, ao lado do parceiro “yuri”, utiliza o
expediente da naturalização do sexo e, ao mesmo tempo, expõe o jogo amoroso via
exploração de fetiches, como no segundo poema que, como todos os outros, traz a
referência a thánathos: “yuri lavava as mãos antes/ de me comer uma
vez/ me fiz de morta e yuri lavou/ as mãos com esponja de aço/ e sapólio// eu
tinha o direito de me fazer/ yuri também” (DIACOV, 2022-A, p. 8). Mas ao lado
da exacerbação do corpo, que no fundo pode até levar a sua ruína, ao seu
dilaceramento, há também, em Ao marfim
dos seus caninos a tendência em certos momentos de uma sublimação, ao mesmo
tempo que uma teatralização, em que o corpo encontra a morte, a última amada:
“nos olhos abestados sentem ciúmes/ da morte que escolheu seu peito/ como o
carinho eterno” (Ibid., p. 12). De toda a forma, nos seus livros, Carla Diacov
tende a ritualizar o corpo (quando não o próprio cotidiano) e, por extensão, a
Vida.
Assim, o caminho de Mariana em todos os seus
três livros, é um tanto distinto do caso de Diacov, principalmente no que se
refere à obra é este o destino do corpo,
abrir-se. Se Diacov aborda o corpo de uma forma mais neossurrealista, pela
profusão de imagens surpreendentes, Mariana instaura uma perspectiva fortemente
expressiva, de natureza neorrealista. Ambas compõem uma poética do corpo, não
só no tocante à sua materialidade, ao seu caráter orgânico, mas também à sua
simbologia (no caso de Diacov), como também à sua psicologia, às suas vivências
(no caso de Mariana). Assim há um resgate pela autora radicada no estado do Paraná,
como enfatizei, da sua relação com o experienciado, com o existencial. Em
Mariana Marino, a Vida vem escrita com inicial maiúscula, e isso não é pouco.
Referências:
BENJAMIN,
W. “Sobre o conceito de história”. In: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Tradução de S. P. Rouanet. 3ª
edição. São Paulo/SP: Brasiliense, 1987.
BLANCHOT,
M. O espaço literário. Tradução de
A. Cabral. Rio de Janeiro/RJ: Rocco, 2011.
CANDIDO,
A. Literatura e sociedade. 9ª edição
revista pelo autor. Rio de Janeiro/RJ: Ouro sobre Azul, 2006.
DIACOV,
C. Ao marfim dos teus caninos. São
Paulo/SP: Primata, 2022-A.
DIACOV,
C. Voa baixo e dorme. Juiz de
Fora/MG: Macondo, 2022-B.
HAMBURGER,
M. A verdade da poesia: tensões na
poesia modernista desde Baudelaire. Tradução de A. C. de Franca Neto. São
Paulo/SP: Cosac e Naify, 2007.
MARINO,
M. Peito aberto até a garganta.
Bragança Paulista/SP: Urutau, 2020.
MARINO,
M. não sei quem colocará as mãos em mim.
Curitiba/PR: Kotter, 2022.
MARINO,
M. é este o destino do corpo, abrir-se.
Curitiba/PR: Ed. da Autora, 2024.
PAES,
J. P. Prosas seguidas de odes mínimas.
São Paulo/SP: Companhia das Letras, 1992.
PAZ,
O. O arco e a lira. Tradução de O.
Savary. 2ª edição. Rio de Janeiro/RJ: Nova Fronteira, 1984.
Nota biográfica: Henrique
Duarte Neto é funcionário público, crítico literário e poeta. Nascido em 1972,
no interior de Santa Catarina. É no seu trabalho com a exegese e a criação
poética que encontra sua realização.
E-mail:
henriqueduarteneto@yahoo.com.br





