Pedro Lucas Lindoso
Os
falantes de português, tanto no Brasil como em Portugal e nos países lusófonos
da África, usam muito pouco a palavra sim. Exemplos: Gostas de futebol? Gosto.
Falas inglês? Falo. O professor explicou a lição? Explicou. As respostas foram
dadas sem o uso do sim. É uma característica da nossa língua portuguesa. No inglês,
temos yes/no questions. Perguntas sim/não. Do you speak English? Yes, I do. No,
I don’t. Necessariamente, temos que usar o sim. Yes!
Mas,
caro leitor, parece-me que o português, pelo menos aqui no Brasil, está
perdendo essa característica tão nossa. Um jovem estudante falante do inglês
provavelmente responderia com um murcho sim a todas as perguntas acima.
Pergunto às minhas netinhas se foram à escola. Nenhuma me responde “fui, vovô”.
Sempre dizem simplesmente: sim! O inglês tem influenciado muito o português
contemporâneo. E como podemos ver, não só no léxico, mas até na estrutura da
língua.
Minha
mãe tinha no quarto um relógio que dava as horas em inglês. A “maid” achava que
era assombração. O meu celular despertador, toda manhã insiste: “Good
morning!”, e eu penso: se ele falasse português, talvez ele entendesse que eu
ainda estou com sono e muita preguiça.
Placas
bilíngues pululam por todo canto nas terras tupiniquins. Nas lanchonetes e
padarias sucos de fruta escritos, de modo bem apelativo: “banana, apple,
orange” e eu só quero um brasileiríssimo café coado e pão com queijo coalho.
Nas
escolas, hoje muitas já bilingues, o recreio ganha o vocabulário de filme
legendado de escola americana: “homework”, “quiz”, “team”. As crianças praticam
a pronúncia como quem faz passinho de dança de internet.
Em
casa, a TV sussurra em inglês entre novelas, e a família troca figurinhas
linguísticas: “Let's go”, “awesome”, “cool”.
No
trabalho, emails terminam com “Best regards”. O português se curva. Mas para muitos puristas não se rende.
Jamais.
No
silêncio da tarde, alguém lê um relatório onde “deadline” é agressivamente
comum e muito repetida. Salpicada no texto vernacular como se fosse
tempero. No fim das contas, percebe-se
que a influência é inevitável. O jeito é aceitar.
Ouvi de uma professora de português que a
língua às vezes é um parque de diversões. Um carrossel de expressões e curiosidades.
Sim, há coisas curiosas. Pergunto à jovenzinha se concorda. Ela me responde com
um sim, totalmente sem graça. Gostaria de ter ouvido um poderoso concordo! E
você leitor, concorda?