Amigos do Fingidor

terça-feira, 3 de março de 2026

Sim ou não

Pedro Lucas Lindoso

 

Os falantes de português, tanto no Brasil como em Portugal e nos países lusófonos da África, usam muito pouco a palavra sim. Exemplos: Gostas de futebol? Gosto. Falas inglês? Falo. O professor explicou a lição? Explicou. As respostas foram dadas sem o uso do sim. É uma característica da nossa língua portuguesa. No inglês, temos yes/no questions. Perguntas sim/não. Do you speak English? Yes, I do. No, I don’t. Necessariamente, temos que usar o sim. Yes!

Mas, caro leitor, parece-me que o português, pelo menos aqui no Brasil, está perdendo essa característica tão nossa. Um jovem estudante falante do inglês provavelmente responderia com um murcho sim a todas as perguntas acima. Pergunto às minhas netinhas se foram à escola. Nenhuma me responde “fui, vovô”. Sempre dizem simplesmente: sim! O inglês tem influenciado muito o português contemporâneo. E como podemos ver, não só no léxico, mas até na estrutura da língua.

Minha mãe tinha no quarto um relógio que dava as horas em inglês. A “maid” achava que era assombração. O meu celular despertador, toda manhã insiste: “Good morning!”, e eu penso: se ele falasse português, talvez ele entendesse que eu ainda estou com  sono e muita preguiça.

Placas bilíngues pululam por todo canto nas terras tupiniquins. Nas lanchonetes e padarias sucos de fruta escritos, de modo bem apelativo: “banana, apple, orange” e eu só quero um brasileiríssimo café coado e pão com queijo coalho.

Nas escolas, hoje muitas já bilingues, o recreio ganha o vocabulário de filme legendado de escola americana: “homework”, “quiz”, “team”. As crianças praticam a pronúncia como quem faz passinho de dança de internet.

Em casa, a TV sussurra em inglês entre novelas, e a família troca figurinhas linguísticas: “Let's go”, “awesome”, “cool”.

No trabalho, emails terminam com “Best regards”. O português se curva.  Mas para muitos puristas não se rende. Jamais.

No silêncio da tarde, alguém lê um relatório onde “deadline” é agressivamente comum e muito repetida. Salpicada no texto vernacular como se fosse tempero.  No fim das contas, percebe-se que a influência é inevitável. O jeito é aceitar.

 Ouvi de uma professora de português que a língua às vezes é um parque de diversões. Um carrossel de expressões e curiosidades. Sim, há coisas curiosas. Pergunto à jovenzinha se concorda. Ela me responde com um sim, totalmente sem graça. Gostaria de ter ouvido um poderoso concordo! E você leitor, concorda?