Amigos do Fingidor

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domingo, 1 de dezembro de 2024

Manaus, amor e memória DCXCIX

José Maciel, Moacir Andrade, L. Ruas e (na extrema direita) Elson Farias
ladeiam jovens componentes do Clube da Madrugada.



 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A poesia é necessária?

 

Hoje, a tarde está muito azul


                 L. Ruas (1931-2000)

 

 

Hoje, a tarde está muito azul.

 

Não há ódio no olhar dos homens

E os olhos das mulheres são bondade.

Levemente o sol derrama uma camada

De ouro muito velho sobre as águas.

 

Os motoristas dirigem com cuidado

E os pedestres caminham descuidados.

Não houve nenhum desastre borrando

De vermelho o azul da tarde.

 

Não houve nenhuma tragédia:

Nenhum marido abandonou a mulher;

Nenhum operário caiu do andaime;

Não houve nenhum incêndio na cidade;

Nenhum anjo se revoltou contra Deus.

Os sexos estão repousados:

Virgem alguma foi, hoje, deflorada;

Não houve incestos nem adultérios;

Não houve casos de inversão sexual;

Não houve nenhum crime passional

Registrado na crônica policial.

 

Hoje, a tarde está muito azul...

 

Não houve prisões nem fuzilamentos políticos

Em qualquer parte do mundo.

Não houve jovens partindo para a guerra

Em qualquer parte do mundo.

 

Não houve sequestros nem lutas raciais

Em qualquer parte do mundo.

Não foram feitas experiências com bombas nucleares

Em qualquer parte do mundo.

 

As crianças soltam balões na praça

Sem medo de morrer bombardeadas

E os namorados esperam a noite, em paz.

 

E, enquanto as crianças brincam na praça,

Em paz,

Passa o enterro alegre de um menino

Levado, por meninos, num caixão azul.

 

Hoje, a tarde está muito azul...



 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Lira da Madrugada – L. Ruas 10/15


Zemaria Pinto

 

 Ficha biobibliográfica

 

Autor: L. Ruas

Nome completo: Luiz Augusto de Lima Ruas

Naturalidade: Manaus – AM

Nascimento: 28 de novembro de 1931

Falecimento: 1.° de abril de 2000

 

Obra poética:

·       Aparição do clown (1958)

·       Poemeu (1985)

·       Poesia reunida (2013 – póstumo)

 


DIDÁTICA

 

Palavra por palavra

compõe-se a arquitetura.

O canto é limpo timbre.

É rosa a rosa. Rosa.

 

Desnuda geometria

espaço libertado:

no campo indevassado

na página tranquila

 

desenho desprovido

de inúteis arabescos

os pontos se projetam

em linhas e figuras

 

os semitons banidos

só restam sombra e luz.

Palavra é só palavra:

Indício fruto ou véu.

 

Por fim se ordenam símbolos

em lúdica harmonia

Fundindo o lucicanto

ou coisadedizer.

 

 

ORÁCULO

 

Tenho pena, disse-me o meu Deus,

Daquele que é amado por mim.

Tenho muita pena.

 

Tenho pena, disse-me o meu Deus,

Porque aquele que eu amar

Jamais

Terá um só momento de paz.

 

Aquele que eu mais amar

Jamais terá dias tranquilos

Nem mesmo aos domingos

Ele poderá se divertir.

Por exemplo, não terá

Aquela paz necessária que é preciso ter

Para passar um dia inteiro, de calção,

Num balneário. E se sentir feliz.

E, à noite, não frequentará boates

Nem “dancings”, nem “night clubs”,

Porque já não terá mais em si

A tranquilidade inócua dos felizes.

 

Não digo que ele não vá. Isso não.

Ele vai, mas, não como os outros vão.

Porque o que ele busca nessas coisas

Não é mais felicidade. Nem prazer.

O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.

Porque eu o amo de tal modo

Que ele quer me encontrar em toda parte.

Aquele que eu amo, disse-me o meu Deus,

Fica besta que nem poeta enamorado:

Me julga ver em toda parte e em todo mundo.

E não se cansa nunca de me procurar.

Por ele, nunca mais me largaria

Nunca mais estaria longe de mim.

E este desejo de estar perto de mim,

Sempre,

É que o fere e o maltrata.

Um dos que eu mais amei, foi Paulo,

Aquele judeu nascido em Tarso.

Outro que também muito amei foi Francisco.

Aquele nascido em Assis, na Úmbria – Itália.

E vocês bem sabem as tolices que fizeram.

Se a causa de tudo aquilo não fosse meu amor

Eu vos digo que não aprovaria o que fizeram:

Não aprovaria ter Francisco brigado com seu pai

Nem Paulo ter apelado, tolamente, para César.

Isso não são coisas que um homem de bem deva fazer...

Mas, enfim, o culpado fui eu que muito amei.

 

É por isso, disse-me o meu Deus,

Que eu não amo todos os homens igualmente.

Porque eu não sei amar de outro modo

Só sei amar assim, desmedidamente.

Não sei amar como amam os homens “comportados”:

Com elegância, com medida, com “finesse”.

Porque eles são feitos com medida e com limites.

Mas eu sou o “sem limites” e o “sem medidas”.

Por isso não amo todos igualmente:

Escolho entre muitos os que podem

Suportar as minhas exigências. Os mais fortes.

Porque depois de algum tempo ficam fracos

E consumidos pelo meu amor que os devora.

Eu sei, disse-me o meu Deus, que muitos gostariam

Que eu os amasse como amei Francisco e Paulo.

Mas eles não sabem muito bem o que desejam.

Eu sei que eles não resistiriam ao muito amor

Porque são limitados e muito fracos.

Por isso não amarei todos igualmente

Porque mesmo os mais fortes quase não resistem.

Ainda hoje acho graça dos doutores, disse Deus,

Que querem explicar as cantigas de João da Cruz

E as visões da minha Tereza D’Ávila

Como um simples caso de psicopatologia.

 

E, depois, disse Deus, eu mesmo quis que houvesse

Entre os homens e, mesmo, em minha Igreja,

Um certo clima de paz e de sossego

Para que as coisas fossem feitas devagar

Como convém que se faça entre os humanos.

Porque só eu sei fazer, com rapidez,

Coisas bem feitas, bem perfeitas.

Mas os homens não sabem e é preciso,

Por isso, dar-lhes tempo e alguma paz.

Mas, aqueles que eu amo perdem a paz

E querem fazer tudo logo de uma vez.

E não deixam mais ninguém ficar em paz.

Atrapalham mesmo os meus Pontífices

No governo da Igreja se eu não chego

A tempo de impedir que assim o façam.

Porque os meus Pontífices são os meus Pontífices.

E eu os quero assim. Mas, nem sempre

Meus Pontífices são meus amados também.

 

Tenho muita pena, disse Deus,

Daquele que é amado por mim.

Porque é muito triste ver um homem

Pequeno, limitado, circunscrito,

Querendo satisfazer o meu amor

Ilimitado.

 

Tenho muita pena, disse Deus,

E, muitas vezes, também choro

Quando, a sós, ele chora,

Me suplica e implora

Para que me afaste dele.

Tenho muita pena, mas, não posso

Fazer nada por ele senão mesmo

Mais amá-lo, mesmo que não queira.

 

A obra poética do padre Luiz Ruas reduz-se a dois títulos: Aparição do clown e Poemeu. O primeiro é dos mais belos exemplos de poesia religiosa em língua portuguesa. Eu disse religiosa? É pouco, pois quando falamos em “poesia religiosa” estamos nos referindo a um tipo de poesia atrelada a uma determinada religião. A poesia de L. Ruas é bem mais complexa. Voltada para o espírito e o questionamento das relações entre o humano e o sagrado, é mais apropriado classificá-la como poesia metafísica. Poemeu, a despeito de conservar, em alguns textos, essa transcendência, é um livro profano, voltado para as coisas do mundo, as inquietações cotidianas – seja do poeta, enquanto agente da criação estética, seja do homem, dividido entre os prazeres mundanos e as obrigações com o divino.

Os poemas escolhidos para análise pertencem ao segundo livro. “Didática” é um exemplo de metalinguagem, a partir do próprio título: o poeta discorre sobre o seu fazer poético, procedimento que tem uma tradição milenar inesgotável como representação individualizada da linguagem do poeta que se dispõe a revelar-se. Comecemos por examinar a própria sintaxe do poema. As regras de pontuação são desrespeitadas já a partir da segunda estrofe. O uso de maiúscula após o ponto é uma convenção também desconsiderada. O poeta busca transmitir a ideia de seu poder sobre a página em branco, manipulando palavras e símbolos, a tal ponto que o fecho do poema é um inusitado substantivo, um neologismo de grafia estranha: “coisadedizer”. Vamos por partes, ou melhor, por estrofes.

A primeira estrofe joga luz sobre a palavra e sua importância para a composição: a armação do poema se dá “palavra por palavra”. Mas a palavra “timbre” esconde uma cilada, muito própria da boa poesia: a possibilidade de múltiplas leituras. Podemos entender o poema com uma tonalidade límpida, o que seria uma redundância, mas podemos também inferir o poema como uma inscrição, ou um selo, que, sendo único, identifica seu autor. Para enfatizar essa ideia, Ruas relembra o conhecido verso de Gertrude Stein: Rose is a rose is a rose is a rose. Nada mais rosa que uma rosa.

Nas estrofes dois e três, o poema é comparado a um desenho seco, sem ornatos, compondo linhas e figuras a partir de pontos, a unidade mínima de um desenho. Trata-se de uma lei natural da poesia: a condensação. Ruas repete-a e usa a quarta estrofe para enfatizá-la, tirando do seu desenho o que estava em demasia, restando unicamente “sombra e luz”, como nas lições sublimes de Vermeer e Rembrandt. No poema, “palavra é só palavra”, mas não só, do contrário não seria poesia. A palavra é indício (pista, vestígio, rastro); é fruto (ela, em si mesma); é véu (antipista, antivestígio, antirrastro). No bom poema, como no bom poeta, a palavra pode ter várias funções, sendo ela mesma ou não. E não sendo, assumindo o papel de sugestão ou de negação. Cabe ao leitor descobrir.  

A quinta estrofe fecha a ideia que Ruas faz do poema: “por fim se ordenam os símbolos / em lúdica harmonia”. Três palavras carregadas de significados: símbolos, lúdica, harmonia. O poema é nada mais que isso: símbolos que se ordenam numa harmonia lúdica. Isso é anti-hermético, porque o lúdico indica que há leituras possíveis. A conclusão propõe que o jogo funda a reflexão (“coisadedizer”) com a técnica poética, o canto de luz (“lucicanto”). Cabe ao leitor saber jogar. É o que veremos na análise do poema “Oráculo”.

Nos seus mais de cem versos, é um poema que concentra uma ideia bastante simples: a relação de amor e de entrega daqueles que recebem o dom da iluminação divina. Ruas, não o sacerdote, mas o homem, procura mostrar que essa é uma relação sobretudo de sofrimento. É interessante que o eu lírico – que, de forma simplificada, identificamos com o poeta – fale em nome de Deus, como se o tivesse ouvido: “disse-me o meu Deus”. Na verdade, o poeta-oráculo fala para si mesmo, como a justificar o seu sacrifício, o sacrifício dos votos sacerdotais: para ser amado por Deus é preciso merecer o seu amor.

Sem negar-lhe quaisquer direitos, é facultado, mesmo ao escolhido de Deus, frequentar os prazeres do mundo:

Não digo que ele não vá. Isso não.

Ele vai, mas, não como os outros vão.

Porque o que ele busca nessas coisas

Não é mais felicidade. Nem prazer.

O que ele quer mesmo é me encontrar em tudo isso.

 

O sacerdote, assim como o artista, está sempre antenado: um à procura de Deus, o outro em busca de motivo para sua arte.

É interessante observar a crítica que o poeta-sacerdote faz a sua Igreja, desfazendo a mística da infalibilidade papal:

Porque os meus Pontífices são os meus Pontífices.

E eu os quero assim. Mas, nem sempre

Meus Pontífices são meus amados também.


Deus é humanizado a tal ponto que chega ao cúmulo do egoísmo.

Tenho muita pena, disse Deus,

Daquele que é amado por mim.

Porque é muito triste ver um homem

Pequeno, limitado, circunscrito,

Querendo satisfazer o meu amor

Ilimitado.

 

Essa humanização faz parte de uma “lúdica harmonia”: o homem é “imagem e semelhança” de seu criador, logo, este é imagem e semelhança do homem. Um jogo de espelhos. Paulo de Tarso e Francisco de Assis, assim como o poeta João da Cruz e a visionária Tereza D’Ávila, todos eles santos da Igreja Católica, são citados por Ruas como paradigmas dos que mereceram o amor de Deus porque souberam amá-Lo. É curiosa a raiz etimológica desse amor desmedido, representado na palavra “fanatismo”, hoje pejorativa, carregada de sentido negativo, ligado à intolerância e à violência de fundo religioso: inspirado pelos deuses, entusiasmado. Aliás, a palavra entusiasmo também foi corrompida, vulgarizada; o seu significado hoje está muito distante de sua acepção original, que, válida a poetas e a profetas, procura explicar a própria condição de oráculo que ambos carregam.

A poesia de L. Ruas encerra um duplo sentido, cumprindo dupla função: transitando entre o sagrado e o profano, nos faz pensar sobre o transcendente ao mesmo tempo em que pensamos também sobre essa atividade tão terrena e tão pouco valorizada que é o fazer poético.

Didática - Oráculo
(Mauri Mrq-L. Ruas)


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A poesia é necessária?

Soneto autobiográfico III

L. Ruas (1931-2000)

 

A égua caminhava a passos largos

Por entre a lama espessa, mal cheirosa,

A égua que nasceu de barro e sopro,

Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.

 

A égua percorreu todo o passado:

É lenda, é mito, é sombra luminosa;

Galopa semeando vida e morte,

É frágil como a flor e belicosa.

 

Tem alma muito embora no seu ventre

Aninhe fauna imunda e tenebrosa

De serpes e batráquios peçonhentos.

 

A égua chega sempre. Chora, às vezes.

Às vezes, come fezes. Eu a vi

Comendo, em céu de estrelas, uma rosa. 


sexta-feira, 18 de junho de 2021

A bomba

L. Ruas

 

A peste grassara na cidade. Era uma pequena cidade de mais de oito mil habitantes, no máximo.

Em primeiro lugar foram tomadas todas as medidas profiláticas. A cidade foi isolada e ninguém podia sair nem entrar a não ser os organismos oficiais encarregados do abastecimento e da assistência médico-hospitalar.

Sem qualquer outro informe mais preciso, cumpre dizer que a peste se caracterizava por uma inflamação cerebral, que provocava nos doentes uma série de alucinações, tendo como consequência final e orgânica um debilitamento que levava fatalmente à morte. O mais interessante é que nas primeiras semanas os vitimados não apresentavam qualquer anormalidade, daí o primeiro caso ter sido aceito por muitos como coisa verdadeira. Tratava-se de um cidadão que se dizia uma espécie de salvador da pátria, esta espécie, que, aliás, é muito difundida.

Devemos acrescentar, também, que todos os habitantes daquela cidade estavam irremediavelmente condenados e, mais cedo ou mais tarde, todos contrairiam o vírus, embora, segundo os médicos, não se pudesse calcular quando isso poderia suceder. O contágio em muitos casos se dava lentamente.

Diante desse estado de coisas as autoridades oficiais decidiram exterminar aquela cidade. Segundo os moralistas oficiais isto seria permitido em razão do bem comum, pois o vírus poderia ser transmitido a outras cidades vizinhas. E o mal terminaria invadindo toda a nação. Discussão pra lá, discussão pra cá, o Departamento de Defesa apresentou uma sugestão que foi por todos aceita. O Departamento se encontrava em fase de experiências com um novo tipo de bomba e segundo os técnicos faltaria um último teste, a saber, a respeito do raio de ação. O Departamento de Saúde por sua vez chegou à conclusão de que as irradiações provocadas pela explosão poderiam, talvez, purificar a atmosfera e assim debelar a peste para sempre.

E assim as circunvizinhanças da cidade foram escolhidas para servir de área de experiência do Departamento de Saúde.

O plano de experiência estava dividido em duas etapas. O primeiro consistia numa preparação psicológica do povo, para impedir qualquer movimento de pânico. E a segunda consistiria na execução técnica ou propriamente na explosão.

 

Imediatamente começou a realização da primeira etapa. Os dois jornais da cidade e a estação difusora iniciaram uma campanha de esclarecimento público. O povo não deveria dar atenção àqueles que desejavam espalhar o pânico. A situação era normal. Tudo estava em ordem e não se apresentava qualquer ameaça à segurança do povo. Tratava-se, apenas, de uma experiência científica que traria benefícios enormes à nação. O povo deveria, pelo bem da pátria suportar, com paciência patriótica alguns sacrifícios que seriam exigidos para o bom êxito da experiência. Não é necessário dizer que muitos não acreditaram na campanha psicológica, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos habitantes a aceitaram com tranquilidade. Não mudaram seus hábitos. Todos continuaram a ir ao barbeiro, tomar sua cervejinha, bater um papo na esquina ou sentados em suas cadeiras de embalo, à noite, nas calçadas. Havia, também, os conformados. “Que adianta, diziam, que adianta perder cabeça se ninguém sabe o dia da explosão?”

E ninguém sabia mesmo. O dia da explosão foi guardado dentro do máximo segredo.

Mas a bomba explodiu, um dia. E da cidadezinha resta, apenas, esta notícia insignificante que trago, hoje, aos meus possíveis e reduzidos leitores.

 

(A Gazeta, 2 setembro 1963)

Pesquisa: Roberto Mendonça

  

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A poesia é necessária?

         Apocalipse

L. Ruas (1931-2000)

 

Os meteoros ameaçam nossos jardins.

 

É hora de decolarmos

Para a infinitude do silêncio dilatado

Com nossas asas de sonho

Antes que a terra exploda

E se escancare como a fauce

De uma desmedida flor carnívora

Faminta de nossos corpos.

 

Não mais teremos tempo

De colher o fruto do nosso canto

 

Os meteoros ameaçam nossos campos.

 

Os mares cobrirão nossas faces;

Os vulcões ressecarão nossos ossos;

As mãos, os ventres, os sexos

Murcharão sob o fogo das estrelas

Que cairão sobre vales e colinas.

 

Os meteoros ameaçam nossos rios.

 

É tempo de partirmos para o espanto desmedido.

Do que fomos, fizemos ou cantamos,

Ficará, apenas, o invisível traço

Do voo da ave indivisível

Que se consumiu no espaço.

 

sábado, 4 de julho de 2020

Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas


Leituras compartilhadas: a poesia de L. Ruas

Data: 04/07/2020, às 16h00 (Brasília)
Sala: 780 9305 7166
Senha: 0bs7YJ

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

de boemia, etc.


Texto de L. Ruas, garimpado pelo "catador de papeis" Roberto Mendonça.

L. Ruas


Pra começo de conversa, faço questão de acentuar que sou do número daqueles que não aceitam boêmia com acento circunflexo em cima do “e”. Sei que, segundo os dicionários, não há boemia sem acento circunflexo, mas neste caso me insurjo contra os dicionários, contra a ortofonia, contra a ortografia. Para mim o negócio é boemia mesmo. Mia. Esta é que é a verdadeira boemia.
Outro dia me lembrei que, há tempos atrás, em um de nossos muitos e prolongados bate-papos ocorridos nessas andanças, naquelas nossas andanças de antes da Fundação Cultural, de antes da Secretaria de Educação, quando o tempo não lhe era ainda tão escasso ou ele ainda não precisaria se tornar tão avarento de tempo, no meio das nossas muitas conversas sobre tão muitos assuntos, dessas muitas conversas que acontecem toda vez que dois ou mais amigos se encontram para gastar a noite (já que o dia nos gasta e desgasta...), o poeta Elson Farias e eu, depois de divagarmos sobre o assunto, resolvemos que um dia haveríamos de escrever, não sei bem se um livro ou coisa parecida, sobre a boemia. Mas, pelo que eu vejo, livro mesmo é coisa difícil e, muito mais, sobre boemia. Por isso, resolvi, ao lembrar aquela conversa, transmiti-la, mais ou menos aos que me quiserem ler.
Não será necessário esclarecer que o esquecimento, isto é, a memória, já fez o seu costumeiro trabalho e, com sinceridade, não sei mais exatamente o que foi que eu disse, naquela ocasião, e o que foi que o Elson disse. Diante desta incerteza, deixo aqui um aviso aos meus leitores: as asnices que ocorrerem ficam por minha conta. E as outras asnices, por conta do Elson.
Mas, vamos à boemia.
De início me parece que boemia e poesia são muito parecidas, e não só por causa da rima. Pra mim, poeta e boêmio são irmãos gêmeos. Talvez sejam diferentes apenas em um aspecto: o boêmio é uma espécie de poeta existencial, vivencial. Ele traz para a vida aquele estado de espírito que é peculiar ao poeta. Isto explica porque nem todo boêmio é poeta no sentido estrito (que faz poesia) e nem todo poeta é boêmio, embora este último caso seja muito comum.
Diz um velho (é claro que velho) adágio latino que “poetae nascuntur”, o que em português quer dizer que os poetas já nascem poetas. Não adianta fazer força para ser poeta se se não tiver o dom da poesia. No fim dá em nada, para não dizer que dá em outra coisa mais concreta e viscosa. Naturalmente, há muitos que tiveram sua “fase poética”. Mas, ter “fase poética” não é ser poeta. O poeta é poeta sempre, mesmo quando não cria mais poesia escrita, revelada. Lembremos o caso de Rimbaud. Rimbaud sempre foi um poeta mesmo quando abandonou o ofício da poesia. Aliás, diga-se de passagem, aqui temos um caso excelente de poeta-boêmio: Rimbaud. Pois bem. O boêmio também é assim. Quase todo mundo teve sua “fase boêmia”. Fase que corresponde, mais ou menos, a já referida fase poética. Mas quem não é poeta assim como quem não é boêmio, passada aquela fase, mixa. E fica até com vergonha de ter tentado ser uma coisa ou outra.
A boemia como a poesia é um dom. Quem nasceu para ser boêmio pode virar do avesso que não deixa. Ou deixa. Mas aí é um frustrado.
Além de dom a boemia é também vocação. Há os boêmios frustrados do mesmo modo que há os outros frustrados. Aqueles que vivem uma vida que não cola com as suas aptidões. E que, portanto, não vivem vida nenhuma. Ninguém escolhe a boemia. Ela é que nos escolhe. Nisto está a verdadeira vocação. O vocacionado é aquele que não sabe explicar porque é que é isso ou aquilo. Pergunte, leitor, a um poeta verdadeiro porque ele é poeta. Duvido que você obtenha uma resposta exata, lógica. A vocação nos obriga e nos constrange. Não adianta fugir. Nessa história de vocação é como aquela história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Não tem escapatória. E o verdadeiro poeta e o verdadeiro boêmio têm consciência disso, mesmo quando acontece como no caso do Poeta de Baudelaire:

Quando, por um decreto das potências supremas,
O Poeta aparece neste mundo de náuseas,
Sua mãe horrorizada e cheia de blasfêmias
Crispa seus punhos para Deus, que se compadece dela:
... “Maldita seja a noite dos prazeres efêmeros
Na qual concebi a minha expiação!...” etc. etc.

Pois é assim. O verdadeiro boêmio, por cima de paus e pedras, não nega a sua raça... Isto é, sua vocação.
Mas em que consiste o verdadeiro boêmio?
Bem. Devo dizer que não me arriscarei a cair na asnice de definir o poeta ou o boêmio. Diz o Jorge Tufic que o poeta é transparente. A gente não sabe o que é ser poeta. Mas se ninguém sabe o que é o poeta, diz ainda o Tufic, todos sentem o poeta.  Aliás, isso não ocorre só com o poeta. Lembro-me, agora, de um artigo de Roberto Alvim Corrêa sobre o Pe. Clérrissac. Roberto Alvim Corrêa, que, por sinal, publicou um belíssimo trabalho sobre François Mauriac no Jornal do Brasil, dizia que quem se aproximasse do Pe. Clérrissac sentia que estava perto de um santo. Pela simples presença, pela simples aproximação. Isso ocorre com quem possui alguma coisa a mais (que não é aquele mais que a Shell lhe dá). Este é o caso do poeta. É o caso do boêmio. Ninguém pode definir um boêmio, mas todos sentem o boêmio. Como definir o indefinível?
Contudo, se não me arrisco a escorregar nesta asnice (conscientemente eu não escorrego, não) de dar uma definição didática tal como a gente encontra em compêndios sobre arte, do poeta e do boêmio, pra que depois qualquer imbecil saia dizendo por aí que sabe o que é um poeta ou um boêmio, atrevo-me a destacar uma característica que me parece indispensável e essencial a todo boêmio.
Parodiando Euclides da Cunha: o boêmio é, antes de tudo, um rebelde.
Calma. Não se apresse. Não se trata de rebeldia subversiva. Nada disso. O boêmio é rebelde no sentido, talvez, da rebeldia do “homem rebelde” de Albert Camus. Se a palavra, porém, pode parecer digna  de qualquer suspeição, digamos, em vez de rebelde, insatisfeito ou, melhor, chateado. É isso mesmo. O boêmio é um sujeito chateado. Naturalmente a maioria dos indivíduos não é chateada. É chata, mas não chateada. A maioria é conformada. Nivelada. São sujeitos comuns. Sujeitos substantivos comuns. Mas, comuns mesmo. Tão comuns que não passam de sujeitos sem qualquer predicado que lhes dê qualquer relevo. E não só são comuns por uma questão de organização ou vocação fisiológica, mas fazem questão de ser comuns. Diga-se de passagem, que nisto são um exemplo para os boêmios.  Os boêmios deviam fazer como os sujeitos-substantivos-comuns: fazer força para ser boêmios de verdade. Não conciliar. Pois, como eu estava dizendo, os sujeitos-substantivos-comuns são conformados. Não querem mais nada. Aceitam tudo como está. Tudo como acontece. Mas, também, como vão querer se não sabem, nem podem (é uma questão de determinismo fisiológico, me parece) querer ser outra coisa se são comuns? Isto é, indivíduos que vivem unicamente para comer, beber, dormir, ejacular e produzir novos membros do imenso rebanho de sujeitos-substantivos-comuns. Não falo em trabalho. Ninguém gosta de trabalhar. Nem mesmo os sujeitos-substantivos-comuns, que se o fazem, é simplesmente para poderem fazer aquelas outras coisas acima enumeradas.  O boêmio é o antípoda (também por um determinismo fisiológico) do sujeito-substantivo-comum. É alguém que não aceita a chatice do estabelecido e do pronto. Do que está feito. Do que está bitolado. Do dia-a-dia, da rotina, do lugar comum. O boêmio ama o novo, o diferente, o que se renova, a descoberta, o desconhecido, a aventura.
O boêmio é um aventureiro no melhor e no mais largo, no mais dilatado sentido da palavra. É um faminto e um sedento do diferente, do desconhecido, do exótico. Eis o motivo porque ele sempre foi olhado com espanto e com um certo escândalo. Criticam seu modo de vida pelo simples fato de ser um modo de vida diferente do dos demais. Por ele procurar fazer coisas que os outros não fazem ou não sabem ou não podem fazer. Por isso, acham que ele é um errado, um louco.  Um visionário. Na verdade, ele não é acomodado. E todos os que não se acomodam, incomodam os acomodados. Mas isto é uma questão de modo de ver as coisas. É uma questão de perspectiva. A visão dos indivíduos comuns vê o mundo com alguma coisa bem arrumada, com cada coisa em seu lugar. Que me perdoe o Manuel Bandeira. Nisso o boêmio é parecido também com o artista. O artista é alguém que, fundamentalmente, não acredita na arrumação deste mundo. Para o artista o mundo, o universo, é alguma coisa que está exigindo uma arrumação profunda. E o artista está certo. Na verdade, como dizia um amigo meu, por sinal, uma verdadeira vocação de boêmio, Deus foi um grande esbanjador. Esbanjou beleza. O meu amigo falava assim a respeito das mulheres. Mas, acredito que sua ideia pode ser estendida ao resto do [ilegível]. E, nisto, não concordo com Platão. O filosofo grego dizia que Deus foi um grande geômetra: geometrizou o céu e a terra. Qual o quê! Na criação não há nada arrumado nem muito menos geometrizado. Tudo está por ser feito. A criação está apenas começando. O que Deus fez foi pegar uma infinitude de coisas e aí chamou o homem e disse:
– Eu lhe dei inteligência, força e coragem para que você agora continue o trabalho que comecei.
Nisto andam certos e concordes, o boêmio, o artista e o escritor sagrado. É preciso se convencer de que ainda é preciso arrumar o mundo e não pensar como os de visão bitolada, que tudo está bem arrumadinho.
É claro que a ciência e a técnica também querem arrumar o mundo. Mas, a arrumação da ciência e da técnica é diferente da arrumação do artista e do boêmio. Aquela é uma arrumação cartesiana, lógica, fria, racional. Há alguma coisa mais lógica no mundo do que a máquina? Talvez a mente de um louco. A arrumação do artista e do boêmio escapa à lógica, ao racional, ao calculado. Se quisermos, é uma arrumação onírica, intuitiva, humana, cheia de calor humano e afetivo. A arte sempre foi irmã do sonho. E o sonho é o que há de mais em nós mesmos. A razão nos enlouquece. O sonho pode nos surpreender e angustiar. Mas é o que está mais perto da nossa realidade profunda. Por isso acredito que a técnica só não desumanizará o homem se andar de mãos dadas com a arte.
Geralmente, quando se fala em boemia, se pensa em alguém em serenata noite a dentro, em música, em mulher, em amor. E, de fato, isso também é boemia. E da boa. Este, porém, é só um tipo ou um dos modos de manifestação da boemia. Se há o boêmio das noites, da lua, das mesas de bar, da música, do amor que lhe dá sempre um ar de cavaleiro andante, é justamente porque ele não concorda com o mundo arrumado dos sujeitos-substantivos-comuns, dos silogismos, das coisas bem arrumadas. Boemia é, antes de tudo, um estado de espírito. De inconformação, de aventura, de libertação de tudo que possa limitar, aprisionar, encurralar o homem. Para mim a boemia talvez comece, na sua fase mais simples, digamos assim, nas serestas, na bebida, na noctivagação. Mas não se esgota aí e, sim, alcança em suas formas mais sublimes as grandes aventuras do espírito humano que se exprimem através das lendas, dos mitos e se realizam na vida e na obra daqueles que foram capazes de romper as barreiras para levar o homem aos seus mais altos momentos de grandeza humana: Prometeu foi um boêmio divino; Francisco de Assis, o foi. Colombo foi um boêmio; Rimbaud foi um boêmio; Van Gogh, o foi; os astronautas são boêmios (a terra é azul...); Cristo não terá sido um boêmio?...


quinta-feira, 14 de junho de 2018

60 anos de "Aparição do Clown"


Será no sábado, 16/02, a partir de 10h, na praça
Heliodoro Balbi , ou da Polícia,
dentro do Projeto Jaraqui.

domingo, 30 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXVII


Lançamento de livro de Elson Farias (foto 2/2), anos 1960.
Da esquerda para a direita: Luiz Maximino (de paletó), Luiz Ruas (de óculos escuros), Francisco Vasconcelos (de paletó claro), Alencar e Silva (de óculos, paletó escuro), Marcos Frederico Krüger (ao fundo, de camisa clara), Aurélio Michiles (o penúltimo, de cabelo na testa) e Elson Farias (em primeiro plano, discursando).

domingo, 23 de julho de 2017

Manaus, amor e memória CCCXXVI


Lançamento de livro de Elson Farias (foto 1/2), anos 1960.
Da esquerda para a direita: Narciso Lobo, Márcio Souza, Luiz Maximino (de paletó), Luiz Ruas (de óculos escuros), Elson Farias (ao fundo, de paletó) e Luiz Bacellar (em primeiro plano, de paletó claro). 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Os 80 anos de Luiz Ruas na UFAM

HOMENAGEM A LUIZ RUAS

DIA: 28 DE NOVEMBRO DE 2011

HORÁRIO: DE 15:00 ÀS 21 HORAS

LOCAL: PAVILHÃO LUIZ AUGUSTO DE LIMA RUAS (HALL DO ICHL-UFAM)

PROGRAMAÇÃO

SOLENIDADE DE ABERTURA:

DIRIGENTE DA SESSÃO DE ABERTURA: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA (DIRETOR DO ICHL-UFAM)

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

EXECUÇÃO DA MELODIA DE POEMAS POR PARTE DE ALUNOS DO CURSO DE LETRAS.

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO APARIÇÃO DO CLOWN, DE LUIZ RUAS, POR PARTE DOS DISCENTES DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA, ORIENTADOS PELA PROFESSORA DO DLLP, MARIA SEBASTIANA DE MORAIS GUEDES

HORÁRIO: 15 HORAS



 CONFERÊNCIA DE ABERTURA:

PROFESSORA DRA. MARIA MATILDE CORRÊA HOSANNAH DA SILVA

                     (FILOSOFIA-ICHL-UFAM) - MEDIADORA

PROFESSOR OSVALDO GOMES COELHO (FILOSOFIA-ICHL-UFAM)

CORONEL ROBERTO MENDONÇA

HORÁRIO: DE 16:00 ÀS 18:00 HORAS



CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO:

PROFESSOR DR. MARCOS FREDERICO KRÜGER ALEIXO (UEA E PPGL-ICHL-UFAM) - MEDIADOR

ESCRITOR TENÓRIO TELLES (ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS E VALER) - Ruas: poesia e espiritualidade

ESCRITOR E MESTRANDO ZEMARIA PINTO (PPGL-ICHL-UFAM) – Poemeu, a metafísica do profano

MESTRANDO ALEXANDRE SERRÃO (PPGL-ICHL-PPGL) – Pesquisa sobre Aparição do clown

HORÁRIO: DE 18:00 ÀS 20:00 HORAS



 SESSÃO DE ENCERRAMENTO: PROFESSOR DR. NELSON DE MATOS NORONHA

RECITAL DE POEMAS DO LIVRO POEMEU, DE LUIZ RUAS, PELOS DISCENTES MEMBROS DO CECLA – CENTRO ACADÊMICO DE LETRAS

RECITAL DE POEMAS MUSICADOS:

VOZ E VIOLÃO DO DISCENTE RAMON, DO CURSO DE LETRAS – LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA – ICHL-UFAM