Amigos do Fingidor

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Apresentando Sublingual: cac+os flutuantes

Zemaria Pinto

 

As palavras nos conduzem a armadilhas incontornáveis.

Quando fui convidado pela Gracinete Felinto, coordenadora deste evento, para apresentar de público a segunda edição de Sublingual: cac+os flutuantes, me surpreendi fazendo estranhos exercícios de memória.

Eu me vi em Boa Vista rodeado de amigos poetas em meados da última década do século passado.

Eliakin Rufino era nosso guia na cidade que era dele. Thiago de Mello exercia um outro tipo de domínio: sua figura de branco vestida pairava no ar, com um permanente sorriso entre ironia e traça, navalha e veludo.

Anibal Beça chamava a atenção por seu porte gigantesco. Era fascinante imaginar como diante de todo aquele volume brotasse tanta delicadeza.

Terêza Tenório não perdia a oportunidade de mostrar seus poemas mais recentes e contar histórias de seu Pernambuco. Até de uma fantástica “perna cabeluda”. O riso fácil e escancarado, Terêza me lembrava um impossível porquinho-da-índia.

E aquela menina, de traços tão amazônidas, quem seria? Não me lembro de como foi a resposta, mas daquele momento em diante ela não parou mais de falar.

Calaram-se os gigantes Thiago e Aníbal. Calou-se a bela Terêza e o circunflexo incrustado em seu nome como uma joia – apenas para torná-lo mais belo.

Mas a menina chamada Grace Cordeiro segue falante, há mais de 30 anos. Uma senhora de seu ofício, aprendido nas melhores fontes: os melhores autores.

Pois Grace tem uma qualidade que eu preciso destacar: é uma leitora como poucas. Porque um poeta sem leitura não é poeta. No máximo, domina a técnica de sobrepor linhas umas às outras. Às vezes, nem isso. Quando a gente cita um poeta que ela não conhece, ela trata de municiar-se de informações e corre atrás de aprender mais um pouco.

Registre-se ainda que Grace soube esperar a sua poética amadurecer – outra virtude rara entre pessoas que dão prioridade à luz quando deveriam almejar apenas ser invisíveis.

Foi dessa inquietação que nasceu seu livro mais recente: Sem secretos dentes, uma homenagem ao poeta piauiense-tropicalista Torquato Neto. Antes, A pedra, o rio e as borboletas já ilustravam essa tese – e não apenas com poetas dos livros, mas das imagens, como em “Daguerreótipos do Século da Solidão”. Por fim, em Sublingual, a linguagem explode em exercícios de intertextos e metalinguagem, muitas vezes só perceptíveis por sentidos adestrados para sentir.

Celebrar esta nova edição de Sublingual: cac+os flutuantes é reencontrar aquela Boa Vista dos anos 1990 e ver que a chama acesa por nomes como Thiago de Mello, Aníbal Beça e Terêza Tenório continua vibrando na escrita de Grace Cordeiro. Que estes cactos/cacos continuem a nos ferir e a nos curar com sua poesia feita de silêncios amadurecidos e leituras profundas. A menina não parou de falar — e a voz da mulher está mais cristalina e potente do que nunca, antecipando o passado em construção.

Ou não?



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A poesia é necessária?

 

Falando em liberdade

Eliakin Rufino

 

Eu falo de liberdade

como quem fala de pão

de algo que se reparte.

 

Eu falo de liberdade

como quem fala de arte

de algo que se inventa.

 

Eu falo de liberdade

como a dos anos sessenta

“faça amor, não faça a guerra”.

 

Eu falo de liberdade

como quem fala da terra

a que todos têm direito.

 

Eu falo de liberdade

porque carrego no peito

uma flecha atravessada.

 

Eu falo de liberdade

como quem fala de amor

para a pessoa amada.



 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A poesia é necessária?



O fazedor de versos
Eliakin Rufino


Hoje chegou na cidade
um poeta fingidor
um fazedor de versos
um cantor.

Escreve versos de amor
para os amantes
escreve versos de adeus
para os distantes.

Versos de esperança
e de carinho
pra quem necessita de luz
em seu caminho.

Verso de todo tamanho
para qualquer situação
verso água-com-açúcar
verso bala de canhão.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

A poesia é necessária?


Cavalo selvagem
Eliakin Rufino


eu sou cavalo selvagem
não sei o peso da sela
não tenho freio nos beiços
nem cabresto
nem marca de ferro quente
não tenho crina cortada
não sou bicho de curral
eu sou cavalo selvagem
meu pasto é o campo sem fim
para mim não existe cerca
sigo somente o capim
eu sou cavalo selvagem
selvagem é minha alegria
de ser livre noite e dia
selvagem é só apelido
meu nome é mesmo cavalo
cavalo solto no pasto
veloz carreira que faço
lavrado todo atravesso
caminhos no campo eu traço
eu corro livre galope
transformo galope em verso
eu sou cavalo selvagem
sou garanhão neste campo
eu sou rebelde alazão
sou personagem de lendas
sou conversa nas fazendas
sou filho livre do chão
eu sou cavalo selvagem
meu mundo é a imensidão

terça-feira, 20 de setembro de 2011