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terça-feira, 17 de março de 2026

A surucucumira

Pedro Lucas Lindoso

 

Gonçalves Dias, ao poetar “Minha terra tem palmeiras”, sabia das coisas. Mesmo porque esteve nos visitando, em nome de Pedro II, de maio a junho de 1861. Estudou línguas indígenas. Conheceu nossa flora e fauna. Subiu o Rio Negro até São Gabriel da Cachoeira. Veio para nos conhecer e incentivar a educação formal do povo do norte do Brasil.

Segundo Kadu Lazarini, pesquisador da EMBRAPA, a Amazônia abriga cerca de 200 espécies de palmeiras. De fato, nossa terra tem muitas, como deve ter observado Gonçalves Dias, ainda no século 19. São fundamentais para a bioeconomia e subsistência dos nossos caboclos valorosos.

Algumas são ícones representativos de nossa cultura, como o açaí, buriti, pupunha, tucumã e patauá. Além dos frutos, nos dão palmito, fibras e óleos. O açaí é nativo das várzeas. Fruto famoso no mundo inteiro. Tem palmito e dele se faz um vinho bem gostoso.

O buriti cresce nas veredas. Nos fornece óleo, artesanato e fibra. Rico em vitamina A. A gostosa pupunha é muito usada para palmito. E, claro, para comer com um café, pela manhã, ou merenda da tarde. O tucumã é matéria-prima do nosso xis-caboquinho. Também delicioso com café. O babaçu tem muito potencial. Produz excelente óleo e é usado em artesanato.

Temos ainda a jarina, conhecida como “palmeira marfim”, muito usada para biojóias e artesanato. Quase esquecia a bacaba. Usa-se muito para fazer vinho. Essas palmeiras são pilares na economia das comunidades ribeirinhas. E nelas não só cantam os sabiás, mas também o uirapuru, o coró-coró, o japiim, araras e tucanos, e tantos outros.

E a surucucumira? Até Gonçalves Dias sabia que as palmeiras não são árvores. Elas não crescem em espessura com anéis, como as árvores. Palmeiras crescem em altura, sendo, na verdade, “ervas gigantes”, com um caule fibroso e sem crescimento secundário de diâmetro.

A surucucumira é árvore. Também não é cobra. Algumas morrem depois da primeira frutificação. Coisa da natureza.