Pedro Lucas Lindoso
Domingo
de sol. Mas teve um pouco de chuva. Passou. A meninada não para de correr.
Chama a atenção os que jogam futebol. Está rolando aquela bola. Os menores
brincam de pique manja. A curuminzada não para quieta. Mas o bom é que a bola
corre solta. Bendito campinho de futebol.
Os mais
velhos aproveitam a delícia de um tambaqui assado na brasa. Estão todos num
sítio, lá para as bandas do Tarumã.
De
repente, um dos curumins da bola chega ofegante. Diz estar sentindo uma dor.
“Bem aqui do lado”. Tia Idalina, em férias de Carnaval em Manaus, foi logo
diagnosticando:
– Isso
é dor de burro, menino. Pega aí uma plantinha e põe na cintura do calção que
passa.
O tio
do menino, que é médico, tranquilizou a todos explicando tratar-se de dor aguda
e pontual na lateral do abdômen, comum em corredores e atletas, tecnicamente
chamada de dor abdominal transitória, relacionada ao exercício.
Esses
meninos fizeram muito esforço. Não fazem intervalo. Pior! Não sabem respirar
adequadamente. Ou então deve ser porque acabaram de comer e o diafragma se
“esforçou” muito. Foram logo jogar bola. Deve desaparecer. É só pararem um
pouco de correr que passa.
Lá vem
mais dois. Que dor é essa? Tia Idalina repetiu o diagnóstico e a receita. Mudou
só o nome da dor. É dor de facão. Põe uma plantinha na cintura. Vai passar.
Mas a
garotada continuava na bola. Um bando de fominhas. São jovens, bons corredores.
Não temem dor de burro. Nem dor de facão, como diz o outro. Encaram a dor e a
risada com a coragem de meninos do século 21. Jogam futebol olhando memes de
jogos do brasileirão. Comem barrinhas de suplementos que caem na hora certa… ou
na hora errada. É quando a dor de burro vem conhecer cada costela desses
projetos de craque de peladão.
Um dos
rapazes, sentindo a dor que vem de lado, pensa alto: “Calma, dor, a gente só
quer terminar a pelada sem tropeçar na própria dignidade.”
O outro curumim responde: – Ela é esperta:
chega sorrateira, igual mucura que aparece sem avisar.
O
tiozão médico interrompe: – Vamos respirar: inspira, inspira… solta. Respira
alto, menino.
Os rapazes terminam o jogo com sorrisos
tortos, respiração rápida e a promessa de que a próxima bola será mais
divertida. Com mais memes, mais água e mais energético. E se despedem daquela
dor chata. Achando graça dos nomes que os coroas deram para aquela dorzinha incômoda.
E dizem todos: “Até a próxima, dor!”
E a
pergunta final que necessita de uma resposta honesta e precisa. Afinal, tio.
Essa dorzinha chata que a gente sente. Que dor é essa? Dor de burro ou de facão?
A resposta veio na lata.
Quando
eu era menino, isso era chamado de dor de veado!