Amigos do Fingidor

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O incrível homem sem sombra

 Pedro Lucas Lindoso

 

Um homem subia o rio remando sua canoa. De repente, um bordejar. A sombra do caboclo, refletida nas águas do rio, desaparece.

Inacreditavelmente, uma enorme sucuri comeu a sombra do homem. Desse dia em diante o caboclo ficou conhecido como o homem sem sombra. Essa história está contada no livro de meu amigo Hélito de SouzaGuajará. Causos em prosa e verso.

Verdade ou não, fiquei matutando como teria sido o acontecido. A canoa balançando como quem dança uma toada de boi. E a sucuri atrás. E a sombra, que antes era companhia inseparável do ribeirinho, projetada no rio, vira história de pescador. Mas como seria para um homem da floresta viver sem sua sombra? Como acender o fogo sem o auxílio da sombra?   O fósforo deve tremer. A fumaça possivelmente escreveria ruidosas figuras mitológicas que apavoram os povos da floresta. E o vento, curioso, passaria a sussurrar no ouvido do homem coisas surrealistas.

Estar sem sombra modificaria totalmente o cotidiano do caboclo. Sem sombra, o tempo parece tropeçar na rotina da floresta.  O sol sobe, desce, sobe de novo, como se estivesse perdido. Entre o Passado, o Presente e o Perder-se-sombra. Ainda assim, o caboclo encontra maneiras de contornar a falta da sombra.  Aprende a andar de cabeça erguida.  Usa o peso da carga nas costas para lembrar que o corpo ainda tem presença, mesmo sem a sombra.

Pede aos espíritos da floresta, à mãe d’água, aos botos. Ao curupira, às onças e até aos macacos que lhe emprestem seus contornos de luz. Chega a noite e a falta da sombra, que foi comida pela sucuri, é motivo para o caboclo meditar. Cochichando para a lua, pergunta: Se eu não tiver sombra, serei sombra do que fui? Ora, minha sombra pode ter ido, mas o meu jeito de caminhar ficou. Eu já aprendi a ouvir os passos do chão e   sentir o chão sem a sombra.

E os macacos riem da situação. O vento também sorri e aplaude com folhas. A sucuri, quem sabe, mastiga a sombra discretamente no fundo do rio. O Curupira, guardião da floresta, convoca os animais para uma reunião de emergência.  O macaco prego avisa que vai fazer um show de stand-up. E grita: Bem-vindo ao show O Homem Sem Sombra. Mas não dá certo. A bicharada toda querendo tirar fotos. Montaram um grupo de whatsapp.  Amigos Antes, Depois e Sem Sombra”.

Todos da floresta dão risada da situação. Os macacos batucam em troncos como se fosse o Festival de Parintins. Enquanto isso, a sucuri lá no fundo do rio, continua mastigando a sombra do caboclo. Em doses homeopáticas. Num antropofágico e total silêncio.

O caboclo, sem sombra, parece estar conformado com sua sina. E termina por se ver um homem, mesmo sem sombra, mas um homem das águas, um homem de fogo, um homem inteiro, um homem da floresta. Só que sem sua sombra.

E a floresta, os bichos, o curupira e os botos, cúmplices da sucuri, lembram ao caboclo que a vida continua. Mesmo sem sombra, com mais risadas, menos reflexos e muita coragem de se adaptar às surpresas e revezes que só acontecem na nossa fantástica, densa, pitoresca e perigosa floresta das chuvas.