Zemaria Pinto
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
(T. S. Eliot)[1]
O âmago
da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a
cidade.
Baudelaire
teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe
povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2]
O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente
só.
Para
Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas
em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais
distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para
parecerem profundos.”[3]
Mário
de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu
sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei
comigo...”[4]
Para
expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas,
Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e
aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e
sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5]
dando o poeta lugar ao prosaico narrador.
São dez
contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate
necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns,
como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis,
como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito
assim parece simples, mas não.
Para
mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la
em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas,
cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar,
nos contos de Cidade decadente: personas.[6]
Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.
De
bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a
cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e
Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do
dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do
impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.
Um
personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si
todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a
gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o
pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da
“virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com
Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se
envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência)
eterna.
Nesta
breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar
sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana,
alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a
exceção.
Na
cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto
estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A
literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente
colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é
perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p.
109)
Mas a
sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes
amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de
que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.
Leitora,
leitor, leitore (?): liga aí o GPS...
[1]
ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2.
ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.
[2]
BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
In: Poesia e prosa. Organização: Ivo
Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.
[3]
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para
ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes,
2008. p. 175.
[4]
ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo:
Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.
[5]
apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos
literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.
[6]
SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor,
2024.
