Amigos do Fingidor

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cidade nua: máscaras da decadência

 

Zemaria Pinto

 

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

(T. S. Eliot)[1]

 

O âmago da literatura moderna – e de toda arte que vem depois do Romantismo – é a cidade.

Baudelaire teorizou sobre o paradoxo multitude x solitude: “Quem não sabe povoar a sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada”.[2] O poeta solitário se perde na multidão; e, sendo parte da multidão, encontra-se irremediavelmente só.

Para Nietzsche, essa solidão é um poço sem fundo: “Eu sou de hoje e de outrora; mas em mim há qualquer coisa que é de amanhã e de depois de amanhã, e de mais distante. (...) Estou cansado dos poetas (...) todos turvam suas águas para parecerem profundos.”[3]

Mário de Andrade pinta o mesmo quadro com as cores de uma tragédia inevitável: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / Mas um dia afinal eu toparei comigo...”[4]

Para expressar sua cidade moderna e decadente, como em um Scorsese depois de horas, Marcos Souza opta por desenvolver um painel da cidade que esmaga o poeta – e aqui uso a palavra na sua acepção primordial, negando o fazedor burocrata, e sublinhando com Heidegger o papel de “pastor do Ser”,[5] dando o poeta lugar ao prosaico narrador.

São dez contos, cada um seguido de uma coda, ou uma “pílula citadina”, dando o arremate necessário à narrativa principal, que leva o nome do anti-herói. Nomes comuns, como Dhione, Clodoaldo, Flaviana, Helenice e Alísio; até nomes improváveis, como Felinaldo, Dendróff, Dédipaulo, Lollitd e Nimalino. Cinco a cinco. Dito assim parece simples, mas não.

Para mostrar a decadência da cidade, que não é designada, cabendo ao leitor situá-la em sua própria geografia imagética, Marcos Souza reúne as dez personas acima mencionadas, cujas idiossincrasias dão forma e substância à decadência que ele quer desnudar, nos contos de Cidade decadente: personas.[6]


Os contos se desenvolvem numa viagem entre a mediocridade dos personagens que dão nomes aos contos e algumas características físicas próprias que tangenciam o surreal, caso de Flaviana, bem como suas relações com a cidade inominada, além de eventuais pecados e até mesmo poderes especiais, como os de Alísio. Marcos Souza acha espaço até para a felicidade da família Dendróff, diluída na infelicidade das demais personas, inclusive da artista galesa fluida Lollitd, de gênero fluido, que não sabia como expressar sua genialidade, da qual ela e seus fãs decadentes não tinham nenhuma dúvida. Mas, também, nenhuma certeza.  

De bônus, Marcos Souza enriquece seu texto salpicando leituras que vão de Pitty, a cantora, e Chico Anysio, um especialista em máscaras, até Machado de Assis e Shakespeare, sem deixar de mirar a mediocridade cotidiana e os pecados banais do dia a dia, como a soberba de Clodoaldo e do Professor Felinaldo; o incesto do impronunciável Dédipaulo; e a prostração mórbida, preguiçosa, de Dhione e Helenice.

Um personagem destaca-se nesse vendaval de mediocridades: Nimalino, que traz em si todo o repertório dos pecados capitais, aqueles dos quais se origina toda a gama de pecados do cristianismo. De modo reverso, quando não identificamos o pecado capital, caso da ira e da gula, achamos facilmente a ausência da “virtude capital” correspondente; no caso, paciência e temperança. Casado com Dani (Daniel?), o sustentáculo moral e financeiro do casal, Nimalino deixa-se envolver por uma cartomante, o que os condenará à danação (ou à decadência) eterna.

Nesta breve resenha do segundo livro de Marcos Souza, não posso deixar de enfatizar sua visão sobre a literatura contemporânea, a partir do sabor que dela emana, alternando entre o amargo e o ácido, e onde a mediocridade é a regra não a exceção.


Na cidade decadente, (...) os escritores fazem mais questão de ter o rosto estampado numa matéria de jornal do que ter seus livros lidos. (...) A literatura está morta. (...) Não há leitores na cidade decadente, somente colecionadores de livros. Estes pararam de ler quando descobriram que é perfeitamente possível uma pessoa ser leitora e integralmente estúpida. (p. 109)

 

Mas a sua própria literatura, máscula e maiúscula – sem que isso seja um insulto às florescentes amazonas e cavaleiros da literatura classificada por gênero –, é uma amostra de que há vida inteligente, sim, no entorno do Teatro Amazonas.

Leitora, leitor, leitore (?): liga aí o GPS...

 



[1] ELIOT, T. S. Os homens ocos. Tradução: Ivan Junqueira. In: Poesia. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 115-120.

[2] BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: Poesia e prosa. Organização: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 289.

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Tradução: Mário Ferreira dos Santos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 175.

[4] ANDRADE, Mário de. Remate de males. In: Poesias completas. São Paulo: Círculo do Livro/Martins Fontes, sem data. p. 187-255.

[5] apud PAZ, Olegário e MONIZ, António. Dicionário breve de termos literários. Verbete: poesia. Lisboa: Editorial Presença, 1997. p.169.

[6] SOUZA, Marcos. Cidade decadente: personas. Manaus: edição do autor, 2024.