Amigos do Fingidor

quinta-feira, 20 de março de 2025

A poesia é necessária?


almoço de domingo

Cynthia Teixeira


 

é domingo, leve como o silêncio.

um cheiro forte de desassossego de pai-morto e mãe abatida.

recordo meu passado

de ser sorridente e concreto.

– eu era viva em outro lugar,

rodeada de gente ao meu lado.

 

mas, que venha este velho almoço,

que eu escolhi e que me escolheu.

o vidro de sal e o pote de farinha,

há neles certa pena?

irrita-me a força de gente mais do que eu,

a potência da colher batendo no prato.

irrita-me o vigor que me exige a faca no cortar.

 

sim, e ainda há um festivo burburinho entre mesa e cadeira,

entre prato e colher,

entre garfo e faca.

 

e todos eles zombam de mim,

essas coisas da mesa do almoço de domingo, mais do que eu,

que sou menos gente do que eles, que não são gente.


e todos zombam, porque só o que me resta é bufar.