Amigos do Fingidor

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A poesia é necessária?

 

Amar em aparelhos

Alex Polari

 

Era uma coisa louca

trepar naquele quarto

com a cama suspensa

por quatro latas

com o fino lençol

todo ele impresso

pelo valor de teu corpo

e a tinta do mimeógrafo.

 

Era uma loucura

se despedir da coberta

ainda escuro

fazer o café

e a descoberta

de te amar

apesar dos pernilongos

e a consciência

de que a mentira

tem pernas curtas.

 

Não era fácil

fazer o amor

entre tantas metralhadoras

panfletos, bombas

apreensões fatais

e os cinzeiros abarrotados

eternamente com o teu Continental,

preferência nacional.

 

Era tão irracional

gemer de prazer

nas vésperas de nossos crimes

contra a segurança nacional

era duro rimar orgasmo

com guerrilha

e esperar um tiro

na próxima esquina.

 

Era difícil

jurar amor eterno

estando com a cabeça

a prêmio

pois a vida podia terminar

antes do amor.