Amigos do Fingidor

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Encruzilhada

Tainá Vieira

 

Passei na seleção de mestrado com um projeto em que eu propunha estudar a violência simbólica no romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Marta Batalha. Por questões relacionadas à orientação, tive de mudar o foco para o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O tema da minha pesquisa é gênero, memória e agência feminina; nesse sentido, meu recorte são as personagens femininas, obviamente.

Pois bem. Acontece que as pessoas vivem me perguntando: o que é agência? O curioso é que, até pouco tempo atrás, eu também não sabia responder. Mais curioso ainda é perceber que todas nós, mulheres, sabemos o que é agência. Aliás, todo mundo sabe, mas nem sempre conhece esse nome.

Mas o que é agência, afinal?

Sem recorrer aos fundamentos teóricos, apenas a partir da forma como a compreendi, agência é a capacidade que um sujeito desenvolve e mobiliza para sair de uma condição de opressão, subalternização ou marginalização. É a possibilidade de agir sobre a própria realidade, mesmo quando as circunstâncias parecem determinadas por forças maiores.

Na minha pesquisa, por exemplo, analiso as estratégias que as personagens utilizam para conquistar direitos básicos para uma vida digna: o direito à terra, à moradia, à educação, entre tantos outros. Mas não é somente isso. A obra suscita temas que nos tocam e nos atravessam de tal maneira que nos deixam profundamente comovidos ou igualmente revoltados. Entre as intersecções de gênero, racial e condição socioeconômica, as personagens exercem, de forma implícita ou explícita, essa capacidade de transformar a própria existência. Elas lutam para romper o ciclo de servidão em que nasceram, para que seus filhos e, consequentemente, seus netos não sejam condenados à mesma vida que marcou seus antepassados.

Dito isso, quero trazer esse conhecimento adquirido pela pesquisa para minha vida como escritora. Como saber se estou caminhando amparada pela agência ou simplesmente metendo os pés pelas mãos?

Desde muito cedo, nós, mulheres filhas de ribeirinhos, como é o meu caso, aprendemos a lei da sobrevivência. Nossas mães não nos ensinam por meio de explicações detalhadas ou manuais de instrução. Elas ensinam vivendo. Ensinam na lida diária, no trabalho árduo, nos gestos repetidos que sustentam uma casa e uma família. Cabe a nós observar atentamente cada movimento, cada escolha, cada silêncio. Mais tarde, quando crescemos e assumimos nossas próprias casas, reproduzimos aquilo que aprendemos. É um ciclo. É a roda girando. É o conhecimento da terra criando raízes cada vez mais profundas.

E ainda me perguntarão: o que isso tem a ver com ser escritora?

Tudo, direi.

Minha escrita nasce exatamente daí: da lida cotidiana, das imagens que atravessam os dias enquanto a panela está no fogo, enquanto respondo mensagens no grupo de mães da escola ou tento destrinchar alguma teoria para um artigo. Ela nasce também nos momentos mais difíceis, quando surge aquela vontade de desaparecer do mundo. Sim, eu já quis morrer muitas vezes. Mas, quando sinto que estou quase indo, lembro que ainda faltam coisas para resolver. Muitas coisas, aliás. Por isso, minha escrita me custa muito.

Não porque me fira ou me machuque, mas porque necessito dela e ela necessita de mim. Muitas vezes nossos tempos não coincidem. Quando ela sopra sua chama sobre mim e eu não estou pronta para recebê-la, ela espera. Compreende minhas ausências. Por isso não acredito em inspiração. Acredito em encontro. E quando finalmente me vejo capaz de acolher aquilo que ela me oferece, ela se entrega inteira. E me salva.

Nem todos os dias sou escritora. Nem todos os dias quero ser. E isso não acontece por relapso ou irresponsabilidade. Acontece porque, muitas vezes, estou tão cansada que não me obrigo a carregar mais esse peso. Um peso bom, é verdade, mas ainda assim um peso. Talvez por isso a escrita me seja tão cara.

Então, quando alguém me pergunta quem sou eu, com meus poemas pingando sangue e cheirando a cachimbo de avó, querendo dar pinta de escritora, não me sinto ofendida nem machucada. Ao contrário. Sinto-me desafiada. É um chamado para o combate. E eu não me calo. Porque toda vez que uma mulher silencia, apaga-se um pouco da memória das mulheres que vieram antes. Apaga-se um pouco dos ensinamentos da mãe, da avó, das ancestrais que sobreviveram para que ela pudesse existir. Quando isso acontece, ela deixa de ocupar o lugar de sujeito agente de sua própria história.

E, ao silenciar por causa de alguém, ou renunciar à própria voz, decreta não apenas uma falência intelectual, mas uma rendição antecipada. Declara-se vencida antes mesmo de conhecer o calor da luta, o fervor da resistência e a potência transformadora de permanecer de pé. Não romantizo o combate, mas também não enxergo esse muro todo me separando do inimigo, ao contrário, essa fronteira para mim é tão frágil que se eu assoprar bem forte ela evapora.

Talvez seja justamente isso a agência. Não um conceito acadêmico encerrado em livros e teorias, mas a decisão cotidiana de continuar existindo, falando, escrevendo, lutando e desafiando. Mesmo quando o mundo insiste em nos ensinar o contrário. E ainda bem que temos os romances e suas protagonistas, porque elas nos lembram que nenhuma forma de silêncio é definitiva. Em algum momento da vida, fui Eurídice Gusmão, hoje, porém, reconheço-me em Belonísia: a mulher que teve a língua decepada, mas que, ao lado da irmã, inventou uma nova linguagem para continuar existindo.

Porque foi isso que fizeram as mulheres que vieram antes de nós e aquelas que insistimos em ser: quando lhes tiram a voz, elas transformam o silêncio em outra forma de fala. E enquanto houver uma mulher escrevendo, lembrando e recusando a rendição, a subordinação, nenhuma de nós estará verdadeiramente calada.