Pedro
Lucas Lindoso
Os
povos originários do litoral não viram as caravelas chegar. Uma cabocla
amazonense ao ver o mar de Fortaleza pela primeira vez achou que era um grande
rio, do qual não se via a outra margem. Uma brasileira em supermercado no Japão
estranhou que não havia placas indicando o local dos produtos. As placas eram
em japonês.
A
pergunta que o “filósofo baré” faz é:
– Só se
vê aquilo que se quer? Aquilo que está interiorizado no nosso cognitivo? Para
ver ou querer ver é preciso ler.
É certo
mesmo que os indígenas não viram as caravelas?
É certeza que a amazonense considera rio e mar a mesma coisa? Estaria
com razão a brasileira de que não havia orientação para se comprar com rapidez
em supermercados japoneses?
Vejamos
a cabocla amazonense. Ela vê o mar de Fortaleza não como mar, mas como memória
de rios do Amazonas. Nos parece um encontro entre o que a gente conhece e o que
a gente quer ver. No supermercado japonês, as placas falam menos. Aliás não
falam nada para a brasileira. Era como se não existissem. A mesma provável
sensação dos indígenas que receberam os portugueses.
O
espanto ante a ausência de informações compreensíveis deve ser a mesma sensação
que um analfabeto sente ao entrar num supermercado em seu país. As letras e nada são a mesma coisa. Cada
palavra para o analfabeto e cada ideograma para a tal brasileira carregam uma
suspensão indefinida. Um respirar que não permite que a memória dialogue com o
novo. As placas em japonês não seriam apenas indicação do local do produto. Elas
desafiam a pressa, lembrando que aprender uma língua estrangeira leva tempo. A
brasileira no Japão percebe que ver pode ser treino e estudo. Cada ideograma é
uma vela que acende uma curiosidade. Ver não é apenas abrir os olhos. Pode ser
permitir que o intelecto acompanhe o ritmo das coisas não ditas e não lidas.
Mas há os que se recusam a ler, a pensar, matutar, refletir. Uns conscientes.
Outros nem tanto. Para estes, escritores, filósofos e pensadores não têm
serventia.
É
preciso coragem, humildade e discernimento para perguntar, acatar e até aceitar
o novo, a nova leitura, o novo pensar como consequência. E poder ver o novo ou poder ver e querer ver
o diferente. Esse novo indecifrável acontece para os que não querem ler ou
quando a sinalização falha ou não existe. Ou quando valores arraigados e
preconceitos não os deixam ver.
No fim,
talvez seja tudo uma soma. O que se conhece e o que se quer ver se entrelaçam,
para nos lembrar que aprender é pedir passagem ao próximo ponto do mapa. O
dilema permanece aberto, não como uma pergunta que precisa de resposta única.
Ver ou ler algo novo é, portanto, um exercício contínuo de humildade. É
reconhecer que o mundo não cabe por inteiro na nossa cartografia.