Amigos do Fingidor

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Amor à prosa

 Pedro Lucas Lindoso

 

Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.

Fui ao encontro determinado a ouvir poesia. Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher. Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.

Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano também tem alma e que a alma, sim, escreve.

E eu me apaixono justamente por isso. A crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço, onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa esteja sempre em construção.

Há dias em que a crônica é suave, quase sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro, obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.

E então, quando termino, eu percebo que não escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com atraso.

A crônica me ensina que a literatura pode ser abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu coração, quando a encontra, não sabe fingir.

Eu amo crônicas por isso, por cada conversa que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.

E se um dia eu perder a coragem, crônica, basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua. Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica como presença que fica.