Pedro Lucas Lindoso
Domingo pela manhã. Calor intenso. Lançamento
do livro de Silvio Romano no encontro de poesia da Valer. No livro, Confissões
da poesia, Silvio Romano declara seu amor incondicional à poesia. Eu gosto
de poesia. Mas meu grande amor é a prosa. Em especial, a crônica.
Fui ao encontro determinado a ouvir poesia.
Mas a manhã calorenta tinha respiração em depoimentos, leituras de poesia do
autor, soltas, em intervalos que pareciam respingos de tinta no papel. Havia
gente, havia café, havia o brilho e a simpatia do público, havia o rumor de um
auditório que, quando se cala, ainda assim escreve. E foi aí que eu pensei na
crônica. Não como um gênero. Isso seria simplificar demais. Eu vi uma mulher.
Uma mulher de passos pequenos e certeiros, que entra sem bater à porta e, mesmo
assim, ocupa o lugar inteiro. A crônica não chega com armadura. Chega com
conversa. Chega com o calor manauara do dia a dia, com o olhar de quem sabe que
o mundo é grande. Mas é nos detalhes que ela se entrega.
Eu gosto quando ela me chama pelo nome sem
dizer “eu”. Ela gosta de insinuar. Gosta de fazer a vida passar por baixo da
nossa janela. Um telefonema de fora, uma conversa na fila, a maneira como a
tacacazeira sorri quando reconhece o freguês. Coisas mínimas. Mas nela, as
coisas mínimas viram música. Viram destino. Viram prova de que o cotidiano
também tem alma e que a alma, sim, escreve.
E eu me apaixono justamente por isso. A
crônica não exige perfeição. Ela pede verdade. Pede presença. Pede que eu não
fuja quando a frase escorrega um pouco, quando a ideia vem toda torta, quando o
riso do leitor encontra o meu riso antes mesmo das palavras acabarem. Quando
escrevo crônica, sinto que estou diante dela como se estivesse diante de uma
amada que conhece meus silêncios. Ela sabe onde eu travo, onde eu me disfarço,
onde eu finjo que não dói. E, ainda assim, aproxima-se. Encosta-me com a ternura
de quem entende que cada texto é um jeito de voltar para casa. Mesmo que a casa
esteja sempre em construção.
Há dias em que a crônica é suave, quase
sussurro. Há dias em que vem ruidosa, como um banzeiro no Rio Negro,
obrigando-me a reconsiderar o que eu achava que era “tema”. Porque ela me
convence que o tema não mora no grande acontecimento. Mora na maneira como eu o
olho. Mora na coragem de narrar o comum sem desprezo. Mora no amor que eu
coloco na frase quando ninguém está aplaudindo.
E então, quando termino, eu percebo que não
escrevi apenas para contar. Eu escrevi para pedir desculpa às coisas simples
por terem sido, tantas vezes, ignoradas. Pedi desculpas ao mundo por ter sido
tratado como simples cotidiano. E pedi, ao mesmo tempo, permissão para amá-lo
do jeito que ele é. Com contradições, com imperfeições, com pressa e com
atraso.
A crônica me ensina que a literatura pode ser
abraço e faca, pode ser café quente e ferida aberta, pode ser riso que desarma
e frase que acorda. Ela me ensina que a prosa também tem coração. E que o meu
coração, quando a encontra, não sabe fingir.
Eu amo crônicas por isso, por cada conversa
que se transforma em texto, por cada banalidade que eleva a acontecimento, por
cada esquina onde a vida passa e eu, de repente, consigo vê-la inteira.
E se um dia eu perder a coragem, crônica,
basta que tu me chames. Com teu jeito de mulher amada, com teu olhar de quem
entende e não julga. E eu volto a escrever. Volto a ti. Volto para a tua rua.
Porque o meu grande amor continua sendo a prosa como mulher amada, a crônica
como presença que fica.