Amigos do Fingidor

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Sobre os mortos e a morte

Pedro Lucas Lindoso

 

A morte é assunto corriqueiro. Uns puxam conversa com respeito, outros com susto, outros com aquela conhecida risada nervosa. Hoje em dia, fala-se muito em cremação. Ecologistas costumam defendê-la, em geral, pensando em reduzir a pressão sobre áreas de sepultamento. Há outras razões. Inclusive com relação a contaminações no solo e nas águas.

É fato que as cidades precisam diminuir alguns impactos associados aos cemitérios tradicionais. Só que não dá pra vender cremação como “solução mágica”. É uma escolha com consequências. E como toda escolha, merece conversa, planejamento. E ainda há os aspectos culturais e religiosos que não podem ser descartados.

Muitas vezes nos perguntamos: por que enterramos os mortos? Porque enterrar não é só pôr alguém no túmulo. Enterrar costuma organizar o luto. Dá ritual. Dá tempo. Dá um lugar onde a saudade consegue visitar. E, para muita gente, o cemitério é como uma biblioteca silenciosa. Meu amigo professor Fábio Augusto estuda a História por meio dos cemitérios. O nosso São João Batista parece ser uma fonte inesgotável de “realia histórica”. Alguns amazonenses, principalmente neste dia de Finados e nos dias dos pais e mães, visitam cemitérios para lembrar nome, história e até aquela lembrança boba que faz o coração amolecer. Um túmulo vira ponto fixo num mundo que nunca fica parado.

Lembrei-me de uma antiga novela da Globo, dos anos 1970, chamada O Bem-Amado. O personagem principal era Odorico Paraguassu, Prefeito de um município no interior do Brasil. Odorico era daqueles que transformam até o impossível em obra municipal. Odorico pretendia inaugurar um cemitério.  Mas ninguém morria. Se a novela fosse nos dias atuais, provavelmente Odorico iria inaugurar um crematório na cidade. Odorico olharia para o povo com aquela autoridade de quem tem certeza e decretaria algo assim: “Vamos inovar! A gente faz um cemitério… e, se tiver que usar fogo para queimar os defuntos, vamos usar! Mas tem que ser bonito, organizado e com placa!”

Só que, a vida não assina contrato com prefeitos corruptos de cidadezinhas Brasil afora, E Odorico, que não perdia a chance de ajustar o mundo à própria régua, discursaria, de improviso na inauguração: “Sem considerandos e indo direto aos finalmentes, respeito é importante! Mas também tem que ter logística. Porque emoção sem planejamento vira confusão!”

A questão é que, no fim, é necessário falar sobre o morto. E sobre como lidar com o corpo do ente querido falecido. A forma pode mudar. Enterro ou cremação? Mas o cuidado fica. Na cremação, por exemplo, para muitas famílias, o importante tem sido o modo como as cinzas são tratadas e na despedida feita com presença e carinho. Não é só o destino final; é como o vínculo é preservado.

E, enquanto a gente debate formato e sentido, no México, país de cultura milenar de influência Maia, a morte aparece com uma coragem emocional que costuma impressionar. Muitos mexicanos encaram a morte com tradições ligadas ao Dia dos Mortos, nas quais saudade e celebração caminham juntas. Não é festa para negar dor. É festa para afirmar ligação. Em vez de tratar a morte só como mistério a cultura mexicana frequentemente a transforma em festa. Flores, altares, histórias contadas, comida compartilhada. Tudo vira linguagem de amor para manter os laços vivos. A morte deixa de ser apenas o fim do relacionamento e passa a ser uma mudança de endereço na rota do sentimento.

Por isso, seja com cremação, enterro ou qualquer rito que adapte a tradição ao tempo de hoje, a humanidade repete a mesma necessidade. Dar sentido ao que não dá para controlar. A morte chega. A gente não escolhe a chegada. Mas pode escolher o jeito de atravessar. Com dignidade, cuidado e o tipo de ritual que ajude quem fica a viver sem a parte que se foi.

E Odorico Paraguassu, apesar do humor leve e da mania de organizar tudo, acabaria entendendo, do jeito dele, que até obra pública respeita a alma. Porque tem coisas que não obedecem a cronogramas. Elas pedem respeito. E, no final, seja no jazigo ou no cuidado com as cinzas, o que vale é o carinho. O amor é a saudade.