Pedro
Lucas Lindoso
A morte
é assunto corriqueiro. Uns puxam conversa com respeito, outros com susto,
outros com aquela conhecida risada nervosa. Hoje em dia, fala-se muito em
cremação. Ecologistas costumam defendê-la, em geral, pensando em reduzir a pressão
sobre áreas de sepultamento. Há outras razões. Inclusive com relação a
contaminações no solo e nas águas.
É fato
que as cidades precisam diminuir alguns impactos associados aos cemitérios
tradicionais. Só que não dá pra vender cremação como “solução mágica”. É uma
escolha com consequências. E como toda escolha, merece conversa, planejamento.
E ainda há os aspectos culturais e religiosos que não podem ser descartados.
Muitas
vezes nos perguntamos: por que enterramos os mortos? Porque enterrar não é só
pôr alguém no túmulo. Enterrar costuma organizar o luto. Dá ritual. Dá tempo.
Dá um lugar onde a saudade consegue visitar. E, para muita gente, o cemitério é
como uma biblioteca silenciosa. Meu amigo professor Fábio Augusto estuda a
História por meio dos cemitérios. O nosso São João Batista parece ser uma fonte
inesgotável de “realia histórica”. Alguns amazonenses, principalmente neste dia
de Finados e nos dias dos pais e mães, visitam cemitérios para lembrar nome,
história e até aquela lembrança boba que faz o coração amolecer. Um túmulo vira
ponto fixo num mundo que nunca fica parado.
Lembrei-me
de uma antiga novela da Globo, dos anos 1970, chamada O Bem-Amado. O personagem
principal era Odorico Paraguassu, Prefeito de um município no interior do
Brasil. Odorico era daqueles que transformam até o impossível em obra
municipal. Odorico pretendia inaugurar um cemitério. Mas ninguém morria. Se a novela fosse nos
dias atuais, provavelmente Odorico iria inaugurar um crematório na cidade.
Odorico olharia para o povo com aquela autoridade de quem tem certeza e
decretaria algo assim: “Vamos inovar! A gente faz um cemitério… e, se tiver que
usar fogo para queimar os defuntos, vamos usar! Mas tem que ser bonito,
organizado e com placa!”
Só que,
a vida não assina contrato com prefeitos corruptos de cidadezinhas Brasil
afora, E Odorico, que não perdia a chance de ajustar o mundo à própria régua,
discursaria, de improviso na inauguração: “Sem considerandos e indo direto aos
finalmentes, respeito é importante! Mas também tem que ter logística. Porque
emoção sem planejamento vira confusão!”
A
questão é que, no fim, é necessário falar sobre o morto. E sobre como lidar com
o corpo do ente querido falecido. A forma pode mudar. Enterro ou cremação? Mas
o cuidado fica. Na cremação, por exemplo, para muitas famílias, o importante
tem sido o modo como as cinzas são tratadas e na despedida feita com presença e
carinho. Não é só o destino final; é como o vínculo é preservado.
E,
enquanto a gente debate formato e sentido, no México, país de cultura milenar
de influência Maia, a morte aparece com uma coragem emocional que costuma
impressionar. Muitos mexicanos encaram a morte com tradições ligadas ao Dia dos
Mortos, nas quais saudade e celebração caminham juntas. Não é festa para negar dor.
É festa para afirmar ligação. Em vez de tratar a morte só como mistério a
cultura mexicana frequentemente a transforma em festa. Flores, altares,
histórias contadas, comida compartilhada. Tudo vira linguagem de amor para
manter os laços vivos. A morte deixa de ser apenas o fim do relacionamento e
passa a ser uma mudança de endereço na rota do sentimento.
Por
isso, seja com cremação, enterro ou qualquer rito que adapte a tradição ao
tempo de hoje, a humanidade repete a mesma necessidade. Dar sentido ao que não
dá para controlar. A morte chega. A gente não escolhe a chegada. Mas pode
escolher o jeito de atravessar. Com dignidade, cuidado e o tipo de ritual que
ajude quem fica a viver sem a parte que se foi.
E
Odorico Paraguassu, apesar do humor leve e da mania de organizar tudo, acabaria
entendendo, do jeito dele, que até obra pública respeita a alma. Porque tem
coisas que não obedecem a cronogramas. Elas pedem respeito. E, no final, seja
no jazigo ou no cuidado com as cinzas, o que vale é o carinho. O amor é a
saudade.