Amigos do Fingidor

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
 
TRIOLÉ – Também chamado TRIOLETO é o pequeno poema de FORMA FIXA, correspondente ao primitivo RONDEL francês, formado por oito VERSOS, dos quais o primeiro se repete como quarto e sétimo, e o segundo se repete como final, com RIMA segundo o esquema abaaabab. Também se pode usar o TRIOLÉ como ESTROFE, em composições maiores, como “Flor da mocidade” em Falenas de Machado de Assis, que começa (ib):

Eu conheço a mais bela flor:
és tu, rosa da mocidade,
nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor:
tem do céu a serena cor
e o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor:
és tu, rosa da mocidade.


                   SONETO – Composição poética de FORMA FIXA, contando quatorze VERSOS dispostos em dois QUARTETOS e dois TERCETOS, com RIMAS segundo o esquema abba|abba|cdc|dcd|, seguido por um de seus maiores e mais antigos cultores que foi Petrarca. Sá de Miranda parece ter sido o primeiro autor de SONETO em língua portuguesa, acompanhando o modelo petrarquiano trazido por ele da Itália. Além de servir também como ESTROFE, em composições maiores (como a COROA DE SONETOS, por exemplo), o SONETO admite vários esquemas rimáticos, inclusive o chamado SONETO INGLÊS, formado de três QUARTETOS independentes e um DÍSTICO, às vezes rimando em abab|bcbc|cdcd|ee, (link sonnet).Também há SONETOS de PÉ QUEBRADO, entremeando VERSOS e HEMISTÍQUIOS, e modernamente não se faz nenhuma exigência quanto às RIMAS (ib). O de Alencar e Silva, que se lê aqui, intitula-se “Para Epitácio”: 

Sete anos, sim, sete órbitas solares
já viveste entre nós pra nosso encanto,
mudando em riso o que nos fora pranto
e em alegria todos os pesares. 

Contigo nossa vida, ao nos chegares,
tornou-se-nos de amor mais plena – e tanto
que em vindo precedeste em luz e canto
a vinda de outros anjos tutelares 

que hoje seguem contigo renovando
as promessas de amor que o amor promete
aos que as virtudes lhe vão conjugando. 

E, assim, aos teus sete anos me compete
rogar a Deus mais sete vá somando
e outros sete e mais sete vezes sete.

domingo, 23 de setembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXV

Praça de São Sebastião.
Olhem bem para essas árvores, antes que a fúria assassina de algum secretário acabe com elas.

sábado, 22 de setembro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Luis Royo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Avacavoa: o elogio da loucura


Zemaria Pinto

 

O Romantismo brasileiro produziu dois grandes mártires: o dramaturgo Qorpo-Santo (1829-1883) e o poeta Sousândrade (1833-1902). Não estranhe a grafia dos nomes: os editores de texto do século 21 (o futuro!) ainda não a reconhecem. À frente de seu tempo, incompreendidos, iconoclastas − ou apenas doidos varridos −, estes autores, ignorados ao seu tempo, têm exigido dos historiadores da literatura brasileira uma revisão consistente daquele período, conhecido do grande público através de seus heróis consagrados: Gonçalves Dias, José de Alencar, Castro Alves − estes acima de todos.

O gaúcho José Joaquim de Souza Leão, autoproclamado Qorpo-Santo, um funcionário público típico da pequena Porto Alegre da segunda metade do século 19 − professor, vereador, subdelegado de polícia −, começa a manifestar debilidade mental com pouco mais de 30 anos. Escreve freneticamente e produz dezenas de pequenas peças, numa linguagem caótica e com uma estrutura dramática anárquica, que somente 100 anos mais tarde encontraria reconhecimento. De vez em quando, o louco escarnecido das ruelas da provinciana Porto Alegre sai de sua condição de protomártir do antirromantismo para os píncaros da glorificação que, para um autor que trazia o teatro tatuado na alma, só pode se traduzir na representação de seu trabalho junto ao público.

E é isso o que o grupo Avacavoa nos traz, nas noites de sábado e domingo, até o final de setembro: o texto Mateus e Mateusa, de Qorpo-Santo, “rebatizado” como O que era e o que não devia ser. Mas o autor não vem sozinho: num espetáculo de celebração da loucura − dedicado a alguns loucos famosos da cidade de Manaus, como Eduardo Ribeiro, Carmen Doida e Bombalá −, homenageia também o artista plástico Bispo do Rosário, um arquiteto de minudências, um oráculo do detalhe, onipresente na cenografia do espetáculo. Ah, há também a música insana de Tom Zé.  

Falar que Qorpo-Santo é precursor do teatro do absurdo parece-me uma impropriedade, uma vez que é pouquíssimo provável que Jarry, ou mesmo Beckett ou Ionesco o tenham conhecido. Acautelemo-nos, pois e, sensatamente, como o momento pede, declaremos em alto e bom som: Qorpo-Santo é o inventor do teatro do absurdo! Que seria inventado também por Alfred Jarry, em 1896, quando o nosso herói (ou mártir) já em pó se tornara...

Mateus e Mateusa ou O que era e o que não devia ser é uma das mais representadas e representativas comédias de Qorpo-Santo: mostra um casal de cerca de 80 anos discutindo sobre sexo (no casamento) e as relações familiares com suas três (jovens) filhas. Não se espante o espectador com as cenas de puro pastelão; são para divertir a platéia, pois a isso serve o teatro. Mas observe a simbologia por trás dos gestos dos personagens e dos objetos em cena. E reflita. O humor de Qorpo-Santo é corrosivo e cruel. Dentro de uma perspectiva histórica meramente pedagógica, podemos afirmar que Mateus e Mateusa é a carnavalização do teatro bem comportado de José de Alencar e Martins Pena, modelos consagrados do período − neste sentido é antiteatro, anticonvencional, o avesso do avesso do avesso.      

Nonato Tavares acertou (mais uma vez) em cheio: no entrecruzamento de texto, cenografia e música, no tom burlesco da representação, rompendo com todos os limites do realismo, e na escolha dos atores – especialmente de Eric Fonseca, vivendo Catarina, uma das filhas, uma escolha repleta de significados e referências a outros trabalhos de Qorpo-Santo, cuja temática jamais se deixou escravizar pelo pudor ou pelo preconceito.

 
Publicado no Amazonas em tempo, em setembro de 2001.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Boris Vallejo.

Poesia solta na rua


 

 

O projeto Poesia Solta na Rua” estará realizando nesta quinta-feira, 20 de setembro, a sua penúltima quinta-feira desta terceira edição, com os poetas Simão Pessoa, Celestino Neto e Miguel de Souza. Amanda Figueiredo fará uma homenagem a Alcides Werk. A parte musical está sob a responsabilidade de Junior Rodrigues e Jairo Souza. A entrada é franca e o recital tem inicio às 20:30h.

O Projeto vêm recebendo muitos elogios e criticas positivas, já que a meta de interagir poetas e artistas da música, com a comunidade do Morro da Liberdade, vem acontecendo com muito sucesso. E não só a comunidade do Morro está se fazendo presente, pessoas dos mais variados bairros de Manaus, também escolheram as quintas-feiras do projeto para prestigiar os convidados, na quadra da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, onde acontece o evento.

 

PENA QUE JÁ ESTÁ ENCERRANDO

 

O Projeto encerra no dia 27 de setembro com os poetas Dori Carvalho, Elson Farias, Tainá Vieira e Tenório Telles. Na música teremos os seguintes convidados: Grupo Folha de Mamão, Nicolas Junior, Edu do Banjo, Dudu Brasil e a dupla Rosangela Costa e Aguinaldo do Samba, além de outros convidados que encerrarão, de forma apoteótica, esta terceira edição com a promessa de voltar ano que vem, com a 4ª.

 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fênix


Tainá Vieira



                                                    Para Luiz Bacellar



Pelas ruas sonolentas da cidade
viaja o poeta.
Uma suave e amena brisa
beija sua face de menino.
Neste instante crucial
ele sente que o mundo é todo seu.

Seu poemas divagam
entre as pessoas incrédulas:
elas se embriagam com o licor de suas palavras.

E o poeta caminha... 

O “sol de feira” é abrasador.
Pelo éter ele adentra e naufraga no céu de estrelas.
Ecoam no espaço os sons mágicos de uma “frauta de barro”.
Nesse levitar os querubins festejam sua chegada.
E a vida irradia os sons poéticos dos sonhos. 

Poemas adornam o infinito! 

E o poeta vive... 

Qual fênix ressurge
em outras plagas,
enquanto os míseros mortais
vivemos sua saudade.
 
(Manaus, 10 de setembro de 2012)
 
Bacellar e Tainá Vieira, em março de 2011.
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Luiz Bacellar partiu todo vestido de brumas


                                                                           Leyla Leong

 

Domingo à tarde o poeta Luiz Bacellar subiu a escada do céu mansamente, com uma estrela tremeluzindo na mão. Vestia seu paletó de brumas, a camisa de neblina e um arco-íris em gravata atado em nó singelo. Essas imagens não são minhas, mas do próprio poeta. São trechos dos poemas “A escada”, em que usa esse elemento como símbolo de uma partida definitiva e “O poeta veste-se”, ambos publicados em “Frauta de Barro”, seu livro de estreia.


Luiz Bacellar é, sem dúvida, o maior poeta que o Amazonas nos deu. O mais erudito, o mais sofisticado. Publicou pouco, escreveu pouco, não importa: tudo o que disse é definitivo, belo, eterno. Conheci Luiz Bacellar no começo dos anos 60, na casa do meu avô, onde aos domingos ele e outros jovens poetas se reuniam para ouvir música erudita. Anos depois pude conhecê-lo mais de perto, nas reuniões na casa do poeta Elson Farias, casado com minha querida amiga Roseli Franco de Sá, prima de Bacellar.


Nos anos oitenta a nossa amizade estreitou-se sendo frequente a presença do poeta em nossa sala de jantar na Cidade Jardim, mais tarde no conjunto Tiradentes e depois na casa da Praça 14. Trabalhei um tempo no Teatro Amazonas, no finalzinho dessa década. Bacellar visitava a minha sala todos os dias no final da tarde. Conversávamos sobre qualquer assunto entre um e outro cigarro. Podia ser sobre um autor, um espetáculo, uma música, uma comida, pessoas ou bichos. Ele sabia muitas coisas. Às vezes baixava um silêncio. Às vezes abria o livro que sempre trazia na mão e lia um trecho.


Certo dia ele me pediu um favor. Pretendia abrir uma conta bancária e precisava de uma certa quantia (pouca coisa) para poder realizar essa operação. Uma exigência bancária. Prometi levar o dinheiro no dia seguinte. Ele insistiu que me daria um documento declarando ser meu devedor. No outro dia apareceu com um envelope branco na mão. Dentro dele, um texto manuscrito no qual se comprometia a devolver a quantia que lhe emprestara na data combinada. Logo abaixo, a data, a assinatura e o sinete impresso no lacre vermelho.


O poeta tinha estilo e refinamento. Vestia-se com aparente simplicidade, calça e camisa de linho, chapéu panamá, bengala e um indefectível colete, incorporado ao visual com o advento dos shopping-centers refrigerados, onde costumava refugiar-se do calor manauense. No dedo mindinho, o anel com o sinete.


O endereço do poeta era um mistério para muitos. Não costumava receber visitas. Estava sempre em público, caminhando nas ruas, almoçando em restaurantes, na casa dos amigos, ou “filando” a comida cheirosa e consistente servida aos funcionários da Livraria Valer.


Nos últimos tempos, antes da desgraça abater-se sobre ele, um dos seus lugares prediletos era a livraria Saraiva. Escolhia uma poltrona discreta e ali passava as tardes num paraíso de livros, histórias e autores. Será que tem livros no céu?
 
Bacellar, entre Mauri Marques e Tenório Telles, num sábado de novembro, 2006, no El Perikiton.
Foto: Zemaria Pinto.
 

 

domingo, 16 de setembro de 2012

Recordações de LUIZ BACELLAR

Jorge Tufic

 

 

O encantamento lírico, o cenário
daqueles tempos, década cinquenta;
o Clube a germinar, e a noite lenta
desenham nosso corpo imaginário. 

Conheci Bacellar neste berçário
das madrugadas, quando tudo esquenta
nos encontros da turma, ora sedenta
por mudanças no campo literário. 

Egresso de um colégio paulistano,
visconde consagrado, assim tivera
descobertos seus dons, ano após ano, 

Do barro tosco a frauta se ilumina.
Ascende o poeta aos graus da primavera.
Deixa-nos sós e à dor que tanto ensina.

Bacellar, em outubro de 2009, diante de uma das iguarias do Pina.
Foto: Zemaria Pinto.
 

sábado, 15 de setembro de 2012

Ao poeta Bacellar

João Pinto



Amor, eu já sabia que ao subir aqueles degraus na Joaquim Nabuco, teria na minha presença um defunto cheio de novidades. Um top criativo das metáforas.

E há essa coisa de todo mundo atrás de morto: a gente diminui os passos e olha os viventes ao lado no velório. É outro contexto sentimental. Ninguém acredita na morte daquele defunto que, antes, a gente copulava na conversa. Num papo de alegria. Ou que um dia se tenha almoçado juntos no Samaúma.

Com o vivo que, agora, se passava para regime de estático. E que antes o contexto dos nossos olhos era ver a vida como o grande espetáculo: o som das coisas, a neblina do sol e todo dia o amanhã amanhecer. E ouvir nas manchetes dos jornais o desvario que os homens maus deixam como legado.

Pois bem, o salão estava completo de pessoas e muitas coroas ao lado dele. De repente ao chegar perto do caixão, eu deveria fazer um gesto de carinho nele. Coisa que nunca havia feito senão bater no ombro dele e apertar as suas mãos.

E fiquei com medo de fazer tal carinho. Se fosse beijá-lo na testa, o gesto talvez chamasse atenção. Sofria pra burro.

E, num instante, eu tinha que aproveitar o momento, pois estava sozinho diante do caixão. E levei a mão direita por cima das duas mãos geladas dele. E disse a ele: Estou aqui para te ver. E acarinhava com as mãos as duas mãozinhas pequenas dele.

O rosto dele estava encolhido e sua urna parecia uma concha de brinquedo. E parecia mais um brinquedo lúdico no meio da poeira dos homens. E por que se morre? Para a gente despejar a nossa poeira de peles numa cova.

Seus olhos estavam apagados. Alguém havia fechado os queixos, os homens da funerária sabiam dar um molde de beleza à morte para disfarçar o óbvio.

Depois sentei num banco e espiei tudo no salão. O ar refrigerado tocava o caixão dele. Mas sua face cor de cadáver mesmo se mantinha inalterada. E ele queria sua paz junto àquelas flores. Junto aos amigos.

Depois desci as escadas. E pensei que aquele poeta descendente de maranhense tinha vivido além do seu hipotálamo. Gostava de livros e música. Fumava para ver na fumaça que saía do cigarro para sentir as rimas mais criativas dos produtos das feiras da sua cidade. E, quando chegasse ao paraíso dos outros poetas sumidos dos copos de bebida, do colete do paletó tocaria na sua flauta de barro.
 
Luiz Bacellar, em dezembro de 2008, num de seus pontos favoritos: o Pina Lanchonete.
Foto: Áureo Lúcio Souza.

 

 
Publicado na capa do jornal Amazonas em tempo, de 10/09/2012.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Luiz Bacellar além da poesia 2/2


Zemaria Pinto

Frustrada a intenção inicial de passar ao largo da literatura, tento redirecionar a conversa para assunto mais ameno, mas sem desviar o rumo. Sei que Bacellar é um leitor compulsivo. “Leio para manter a mente ocupada. É mais que mero lazer; tem efeito terapêutico.” Literatura policial é a preferência, embora aprecie a literatura culta e ensaios sobre assuntos diversos. Nero Wolfe, criação de Rex Stout, é seu detetive favorito – cultor de orquídeas e gourmet requintado, “Wolfe é um crítico da sociedade burguesa capitalista de Nova Iorque.” Maigret, de George Simenon, e Rippley, de Patricia Highsmith, “autores extraordinários como estilistas e de uma erudição extraordinária”, compartilham a preferência do poeta de Sol de feira. No Brasil, aprecia o detetive Espinosa, criação de Luiz Alfredo Garcia-Roza, um refinado e inverossímil intelectual a serviço da polícia civil do Rio de Janeiro. 

Bacellar, em 2007, no seu aniversário de 79 anos.
Foto: Zemaria Pinto.
Da alta literatura, cita como seu preferido o francês Flaubert, “toda a obra, com destaque para Salambô e Bouvard e Pécuchet”. Na sequência, os também franceses Marcel Proust, de Em busca do tempo perdido, e Victor Hugo, de Os trabalhadores do mar, além de “alguma coisa” de Zola. Entre os russos, destaca Tchekhov e Gorki – “romances, contos, dramaturgia”. Em língua inglesa, Henry James e Norman Mailer, além de uma “descobertarecente: Truman Capote, especialmente por Música para camaleões e Bonequinha de luxo. No Brasil, “Guimarães Rosa e Clarice Lispector são os maiores”. 

Formado em Antropologia pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e Sociais – CBPES, fundado por Anísio Teixeira, onde foi aluno de Darcy Ribeiro, Bacellar tem uma outra faceta pouco conhecida do público: sua carteira na Ordem dos Músicos do Amazonas tem o número 03. Copista e especialista em transposição (“passagem de um tom ao outro ou de um instrumento a outro”, como ele mesmo explica), foi professor de História da Música, no Conservatório da Universidade Federal do Amazonas. Particularmente, o poeta do Quatuor aprecia a música negra norte-americana, mas sua paixão é mesmo a música erudita, de Bach a Schönberg. 

Celibatário, Bacellar tem um explícito carinho por crianças. Cinéfilo, hoje prefere os filmes destinados àquele público, além de comédias e aventuras: “nada de sofrer!”, ele diz. Lembra-se do primeiro filme a que assistiu, na companhia de seu pai, “em 36 ou 37”, no Cine Manaus, dos padres salesianos do Dom Bosco: Ben-Hur, de 1926, com Ramon Novarro, no papel que, mais de 30 anos depois, consagraria Charlton Heston. Foi o cinema que lhe provocou o seu primeiro alumbramento: Hedy Lamarr, atriz austríaca, correndo nua pelo campo, aos 19 anos, no filme Êxtase, de 1932. Bacellar lembra que Lamarr, de extraordinária beleza, era também inventora, tendo patenteado uma tecnologia chamada Spread Spectrum, usada durante a Segunda Guerra para despistar os radares nazistas. O fundamento dessa invenção foi aperfeiçoado e hoje é a base para a telefonia celular.  

Momento de descontração, em 2007, no legendário El Perikiton.
Foto: Zemaria Pinto.
Para encerrar, depois de falar de tantas preferências, pergunto-lhe do que não gosta. Ele abre um meio-sorriso maroto que termina numa sonora gargalhada: “eu não gosto de dar entrevistas, porque, invariavelmente, deturpam tudo o que eu disse!”    

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A morte e a morte de Luiz Bacellar


(notas ligeiras sobre os primeiros 174 dias de morte do poeta)
 
Zemaria Pinto

 
No dia 19 de março de 2012, pouco mais de 13h00, uma idiota, estacionando, atropelou Luiz Bacellar, que esperava, no meio-fio, o momento de atravessar a Ferreira Pena. Sua perna direita partiu-se em quatro pedaços. Ali começava a morte de Luiz Bacellar.

Levado ao SAMEL, um serviço particular, o escritor foi atendido com presteza, sendo preparado para a operação de colocação de pinos e placas, que ligariam de volta os ossos de sua perna, o que só aconteceria cerca de um mês depois.

Após a recuperação, no dia 02 de maio, Bacellar foi para a Fundação Dr. Thomas, um órgão mantido pelo município de Manaus, onde ficou na enfermaria.

A opção pela Fundação era simples: Bacellar morava em um apartamento, onde teria que subir vários lances de escada. E, além disso, precisaria de cuidados 24 horas por dia. Como ele optara – há muito tempo – por viver sozinho, foi levado, sob protestos, ao Dr. Thomas.

Em julho, quando, apesar de muito debilitado, já estava até caminhando, com o auxílio de um andador, uma série de exames médicos colocou-o sob a suspeita de tuberculose. Foi, então, levado ao Hospital de Doenças Tropicais, onde o diagnóstico mudou radicalmente: câncer no pulmão, com metástase para outros órgãos.

Mais alguns dias de volta à Fundação e Bacellar foi levado ao CECON – especializado em oncologia, onde ficou por mais de um mês, tendo retornado ao Dr. Thomas na segunda metade de agosto.

No dia 06 de setembro, sentindo muitas dores e apresentando um quadro de convulsão, Bacellar foi levado de volta ao CECON, de onde saiu no dia 09 de setembro, para ser velado em uma funerária particular. Deixara de respirar pouco depois das13h00, exatamente 174 dias depois do início da agonia. No dia 10, com a presença de uma pequena multidão de amigos, foi sepultado no mesmo jazigo onde fora sepultada sua mãe, no cemitério São João Batista.

Este é o histórico da agonia, que se prolonga, agora, mesmo com o poeta vivo apenas em nossa lembrança e eternizado em seus poemas. Agonia motivada pela irresponsabilidade e inconsequência de uns poucos.

Alguns jornais impressos e alguns blogs, no dia 10 de setembro, atribuíram a um secretário de estado uma declaração que o faz – ao secretário – parecer mentiroso e lambanceiro. Para preservar a honra e a dignidade do tal secretário, vou relatar a verdade, tal como ela de fato aconteceu – e que pode ser checada com gente da estatura moral de Ronaldo Bonfim, Tenório Telles, Jane Cony e Elson Farias, entre tantos outros.

O secretário teria dito que “o governo do Amazonas tomou todas as medidas necessárias para tentar reverter o quadro de saúde de Bacellar.” Disse também que “o governo informou à família que custeará todas as despesas do sepultamento, assim como acompanhou todo o tratamento médico dele.”

Os fatos.

Desde o dia 19 de março até o dia 10 de setembro – do acidente até o enterro – nenhuma secretaria ou qualquer órgão público gastou um centavo de real com a saúde de Luiz Bacellar.

1 – O serviço médico e a estada no SAMEL foram cortesia da direção daquela instituição;

2 – Os pinos e placas usados na perna avariada foram pagos com recursos do próprio Luiz Bacellar (não vou dizer o valor para não envergonhar os pretensos benfeitores);

3 – O Dr. Thomas, o Tropical e o CECON são instituições públicas, que jamais cobraram por qualquer serviço prestado a Bacellar;

4 – Para ter cuidadores 24 horas por dia, Bacellar pagava do seu próprio bolso os serviços desses profissionais, além de contar com um time de voluntárias – o que valeu para as temporadas no Tropical e no CECON;

5 – O serviço da funerária foi pago com recursos de uma das irmãs do Bacellar, que fez questão de respeitar sua vontade, declarada em um documento datado de 25 de agosto, que se resume ao seguinte (copio o documento, por isso a primeira pessoa): 

A – Não quero ser velado em nenhum espaço público; por conseguinte, desejo ser velado em um local particular, sem pompa nem circunstância; 

B – A propósito, desejo que minha urna seja a mais simples possível; 

C – Dispenso antecipadamente quaisquer manifestações públicas de apreço, que desejo reservadas apenas a meus amigos sinceros.  

Portanto, nenhuma instituição e nenhuma pessoa física, além da irmã citada, desembolsou qualquer quantia, mínima que fosse, para o tratamento de Luiz Bacellar, custeado com as escassas economias do escritor.  

Mente e prevarica quem disser o contrário.  

Agora, abutres, deixem que o poeta descanse em paz.   

PS: sobre as últimas palavras de Bacellar terem sido que “queria se encontrar com Jesus”, trata-se de uma falácia evangélica: o velho Dom Luiz jamais diria tal sandice. Nem pra fazer piada.  
 
Bacellar no seu aniversário de 83 anos, no ano passado, entre jovens fãs.
Foto: Zemaria Pinto.
 
 

domingo, 9 de setembro de 2012

Luiz Bacellar (04/09/1928 – 09/09/2012)


Manaus, amor e memória LXXIV

Catedral em construção, vista da Sete de Setembro.
Nenhum camelô...

sábado, 8 de setembro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Luis Royo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Luiz Bacellar além da poesia 1/2


Zemaria Pinto

(o poeta de Frauta de barro fala de suas criações gastronômicas e suas preferências políticas, musicais, cinematográficas e até literárias)

 

Um sábado típico de janeiro em Manaus: se não choveu com certeza choverá. De qualquer forma, o mormaço permanente convida a uma cerveja a quatro graus, servida com colarinho alto. A pilsen da serra de Petrópolis, mesmo industrializada, mantém charme e sabor, embora o meu parceiro prefira a lager da garrafinha verde. A ova de jaraqui, com muito alho e cheiro verde, misturada ao arroz branco, vai aos poucos preparando o paladar para o repasto principal: jaraqui frito ao ponto, como só o “seu” Pedro, do El perikiton, no alto de São Jorge, sabe fazer. A pimenta, preparada com esmero de artesão, exala para além dos limites da nossa mesa, despertando a curiosidade de um casal próximo, na verdade, a única mesa ocupada além da nossa.   

Luiz Bacellar completou 84 anos no último 04 de setembro.
Foto: Zemaria Pinto (2006).
A conversa gira em torno do que poderia ser uma entrevista original com um poeta que não gosta de ser chamado de poeta. “Vamos falar da vida”, convida meu interlocutor, o escritor Luiz Franco de Sá Bacellar, que completará oitenta anos no mês de setembro. Nada mais óbvio. Aquela rotina fraterna do almoço aos sábados, regado a cerveja ou a vinho, com ovas de jaraqui ou bolinhos de piracuí, pode mesmo ter como tema a vida 

Bacellar e sua pescada aberta.
Foto: Zemaria Pinto (2008).
Peço então a Bacellar que fale sobre um de seus assuntos favoritos: gastronomia. Afinal, ele é um criador de pratos, como a famosa “pescada aberta à Luiz Bacellar”, que já fez a fama de mais de um restaurante de Manaus. Mas não é só: a “salada minimalista” – mistura inusitada de agrião com tucumã –, a “caldeirada à Luiz Bacellar” e a “moqueca de ovas de matrinxã” são iguarias regionais, feitas com elementos caros à cozinha cabocla, inventadas por um raffiné. Brincando, ele diz que, mais que pela sua poesia, vai ser lembrado mesmo pelos pratos que inventou.  

O poeta de Satori, que por duas temporadas esteve na Europa e , fala e escreve em italiano, espanhol, inglês e francês, além de ler em alemão (“um pouco”, ele declina com modéstia), é um grande contador de histórias – a começar pelas de sua própria ascendência, que, pelo lado de sua mãe, tem alguns nomes ilustres, como o terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, e o cacique Araribóia. A família deu a D. Pedro II um ministro dos Estrangeiros, o senador pelo Maranhão Felipe Franco de Sá, que foi também ministro da Guerra por um pequeno intervalo. Aliás, as famílias Franco de Sá e Bacellar estão fortemente enraizadas no Maranhão.  

Nesse ponto, chamo-o a um assunto que sei delicado: sua posição política. A resposta quase atropela a pergunta: “sou antiesquerdista e republicano!” A ascendência ilustre e um interesse obsessivo pela história do Brasil no período monárquico, aliados a uma postura naturalmente aristocrática, deram-lhe a fama de monarquista. Ele lembra que esse pretenso monarquismo, colado nele como um estigma, foi uma piada de Farias de Carvalho, seu contemporâneo no Clube da Madrugada, conhecido pelo humor corrosivo. 

E que tocamos no assunto escritores, pergunto-lhe “quem um dia você quis ser?”. Pensei que ia receber uma resposta atravessada, mas, em vez disso, percebo um momento de rara comoção. Cita inicialmente três portugueses: Fernando Pessoa, Eugênio de Castro e Cesário Verde; mas revela-se “vidrado e até hoje encantado” com Vicente de Carvalho. E confessa: sempre que visita a irmã Inês Maria, em Santos, vai até o monumento dedicado ao poeta – e chora 

Observo que não vejo aproximação estética mais forte com os poetas citados. Ele então discorre sobre João Cabral, Rilke e Prévert. Sobre Cabral não se escusa a uma crítica contundente: “Pedra do sono, O engenheiro e Psicologia da composição são livros soberbos; o resto é mera repetição da mesma fórmula”. Procuro tirar mais informações, provoco-o, mas ele se mantém reticente. Diz admirar Drummond, Afonso Félix de Sousa, de quem foi amigo, Paulo Mendes Campos e Joaquim Cardozo. Tento a última cartada provocativa – e o Concretismo? A resposta, em latim, é quase ríspida, não viesse acompanhada de um muxoxo irônico: “carmen figurativum!”, referindo-se aos milenares poemas em formas de figuras, que seriam “o verdadeiro Concretismo”, para concluir: “o Concretismo não existe, nunca existiu, é uma falácia, uma ilusão.”
 
Obs: entrevista produzida em 2008, para o número 2 da revista Amazônia Viva.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Frank Frazetta.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic



                   SEXTINA - É um poema de FORMA FIXA cuja invenção se atribui ao provençal Arnaut Daniel e que consta de seis ESTROFES de seis VERSOS cada, além de um REMATE de três; as RIMAS pretendem fazer-se pela simples repetição das mesmas palavras no fim dos VERSOS de todas as ESTROFES, e, para terminar, nos HEMISTÍQUIOS do REMATE: também deve repetir-se no primeiro VERSO de cada ESTROFE a terminação do último da anterior, como na “Sextina a uma amigo”, de Diogo Bernardes (ibidem):


Se pretendeis, senhor, do louro verde
o prêmio alcançar da mão de Febo,
no fresco Pindo celebrado monte,
não deixeis de seguir pelo caminho
que começaste, com louvor das Musas,
que tudo vence um valeroso peito. 

Em ócio vil um grande e forte peito
passar não deixa a sua idade verde:
querem trabalho e tempo as altas Musas,
não se descobre sempre a luz de Febo,
pouco a pouco se mostra o bom caminho
por entre as brenhas do cerrado monte. 

Ora no fundo rio, ora no monte,
mil vezes acontece dar de peito
o que cuida que vai por bom caminho,
direito chão pisando a relva verde;
mas logo a quem (na volta) mostra Febo
seguro passo, com favor das Musas. 

Não que entendam de vós, as brandas Musas,
que tudo vos parece áspero monte
por onde vos obriga a subir Febo:
não entre tal receio em vosso peito,
que em secos troncos acha-se erva verde,
sombras e fontes no pior caminho. 

Ponde os olhos no fim deste caminho:
vereis no cabo dele estar as Musas,
junto da clara fonte em prado verde,
na mais alegre parte do seu monte,
soltando doces versos do seu peito
ao som da lira do suave Febo. 

Segui, senhor, segui o brando Febo,
pois sempre vos guiou por bom caminho,
inspirando de novo em vosso peito
segredos altos que convém às Musas
para vos dar capela no seu monte,
da sua (que foi Ninfa) planta verde. 

Ora seco, ora verde, o seu caminho
nos mostra Febo, sempre firme peito
para das Musas cultivar o monte.

domingo, 2 de setembro de 2012

Manaus, amor e memória LXXIII

Cervejaria Miranda Correa.
Paisagem cheia de bossa: o rio, o barquinho, a fábrica de cerveja...

sábado, 1 de setembro de 2012