Amigos do Fingidor

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Curso de Arte Poética


Jorge Tufic
 
II.3 – O VERSO
 

                   Originário de verto (voltar para trás), o verso pode ser definido como sendo uma linha, “frase ou trecho de frase, cujas sílabas perfaçam um determinado número formando sistema, em que os acentos métricos coincidem com os acentos prosódicos” (“Dicionário de Rimas”, Teófilo Braga, Liv. Lello & Irmão, Porto-Portugal). 

                   “A classificação dos versos, pelo número de sílabas, é feita por prefixos numerais gregos: versos dissílabos, trissílabos, tetrassílabos, pentassílabos, hexassílabos, eneassílabos, decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos (estes conhecidos como alexandrinos). Os italianos chamam de versos bárbaros os que ultrapassam as doze sílabas e podem ser: bi-heptassílabo, de quatorze versos, demarcado por uma pausa (hemistíquio) de sete sílabas (mesmo um alexandrino, de doze sílabas, pode ter um hemistíquio de seis sílabas); tri-hexassílabo, com dezoito sílabas e três hemistíquios de seis; tripentassílabo, com quinze sílabas e três hemistíquios de cinco. O verso, para gregos e latinos, em seu significado original, era o sulco, a linha, aberto no campo pelo boi que puxava o arado. Linhas que iam e voltavam, vendo os gregos aí um paralelo com a sua escrita, da direita para a esquerda, e voltando desta para a outra, e assim por diante” (“Vocabulário Técnico de Literatura”, Assis Brasil, Ed. de Ouro, 1979). 

                   “Linha escrita, de sentido completo ou fragmentário, que se caracteriza pela obediência a determinados preceitos rítmicos, fônicos, ou meramente gráficos, pelos quais diferem das linhas de PROSA. No princípio era o verso – poder-se-ia escrever, começando alguma história geral das literaturas, e para falar tão só das origens da poesia tem cabimento o testemunho de Zambadi: “Assim como a gente canta e baila caminhando, assim a poesia era cantada em seus primórdios e devia acompanhar o ritmo da música”. Tal asserção permite considerar, sem náusea, a divergência dos padrões poéticos de uma época para outra e de um lugar para outro, observando que mesmo a música dos povos árabes, hindus, chineses e japoneses, por exemplo, pouco têm de semelhante à nossa. Também cabe lembrar que a versificação portuguesa procede da greco-latina, decerto com os efeitos da influência mourisca na Península Ibérica, e se até hoje não contamos as sílabas LONGAS e BREVES, entremeando-as no verso conforme a QUANTIDADE, à maneira dos Aedos e de seus aprendizes do Lácio, é porque a própria poesia latina acabou abdicando esses cânones e adotando o esquema silábico-acentual, com outros recursos – RIMA, ALITERAÇÃO etc. – no período da chamada literatura latino-cristã. Foi esse o tipo de VERSIFICAÇÃO que ficou nas línguas romances, e foi o que herdamos. Conforme tenha a sua base morfológica na DURAÇÃO ou QUANTIDADE das sílabas que o compõem, ou no número delas, ou no esquema de ACENTOS, o VERSO é dito, respectivamente, QUANTITATIVO, SILÁBICO, ACENTUAL. Os primeiros, quando PUROS, são denominados de acordo com o número de PÉS ou METROS; quando mistos ou COMPOSTOS recebem, às vezes, apelidos dos poetas que os inventaram ou consagraram: ADÔNIO, ALCAICO, ANACREÔNTICO, ARQUILÓQUIO, ARISTIFÂNIO, ASCLEPIADEU, ELEGIAMBO, ESCAZONTE, FALÉCIO, FERECRÁCIO, GALIAMBO, GLICÔNIO, ITIFÁLICO, PAREMÍACO, PRIAPEU, SÁFICO, SOTADEU e outros. Os versos SILÁBICOS são quase sempre nomeados conforme o número de SÍLABAS, havendo também alguns de apelido especial: REDONDILHA, REDONDILHA MENOR, QUEBRADO ou HERÓICO QUEBRADO, HERÓICO, GAITA GALEGA, SÁFICO, ARTE MENOR, ALEXANDRINO, TRÍMETRO ANAPÉSTICO, TETRÂMETRO ROMÂNTICO, HEXÂMETRO IAMBICO, além dos chamados metros bárbaros que contam mais de doze sílabas. Também se costumam chamar de ARTE MENOR os VERSOS de sete SÍLABAS ou menos, e de ARTE MAIOR os outros” (“Pequeno Dicionário de Arte Poética”, Geir Campos, Ed. Conquista).  

                   Não devemos também esquecer o LINOSIGNO, criado por Cassiano Ricardo, em resposta à modificação da estrutura linear do verso tradicional pelos poetas de Vanguarda. O linosigno, de linha (lino) e “signo”, reivindica o espaço do “verso” quebrado, de linha cruzada, vertical etc. (Vide Jeremias Sem Chorar, do mesmo autor). 

 
DIDÁTICA

Esta palavra é um cinzeiro
onde pouso meu cigarro;
o cigarro joga a cinza
mas no dedo fica o sarro. 

Esta palavra é um cigarro
que se gasta enquanto fumo,
a nada mais se compara
se a fumaça não tem rumo. 

Esta palavra é uma cinza,
apenas cinza que espalha
na cor dos dias vindouros
seu gosto amargo de palha.

Esta palavra é palavra,
despojada do seu tema,
vem outra; agora são duas,
terminam juntas o poema. 

(“Poesia Reunida”, de Jorge Tufic, Ed. Puxirim, Manaus, 1987).

domingo, 7 de outubro de 2012

Manaus, amor e memória LXXVII

Antes dos bondes, as carroças; depois dos bondes, o caos!

sábado, 6 de outubro de 2012

Fantasy Art - Galeria

Cris de Lara.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De Catulo a Simão Pessoa – dois mil anos de poesia e escracho 2/4

Zemaria Pinto


Marcial – Na língua de Catulo, outros poetas mantiveram acesa a chama do lirismo que vê além das pequenas grandes dores individuais, rindo-se de si mesmos ou tematizando o amor e o erotismo muito além do permitido pela moral vigente: o elegíaco Propércio, o decadente e censurado Ovídio e o epigramático Marcial sobreviveram a dois mil anos de guerras, revoluções, flagelos e boleros. Marcial, tendo vivido no primeiro século da era cristã, é o grande cronista daquela época, com seu estilo conciso e alegre:


Afra tem amas e amos – mas é ela
a maior mama entre amos e mucamas.
(8)

Corre o rumor,Chione: nunca foste fodida,
e nada mais puro existe que tua cona.
Nessa parte (por vestes velada) nem te lavas.
Se é pudor, desnuda a cona e vela a face.
(9)

A Faixa Peitoral

Comprime, de minha amante, os dois seios em botão
para que caibam sempre no oco de minha mão.
(10)



Mas se o título deste artigo fala em dois mil anos de poesia, e até agora mal chegamos a cem, demos um salto no tempo e no espaço, e observemos a lírica escrachada da última flor do Lácio. O que quer, o que pode esta língua?

 

Gregório de Matos – Segunda metade do século XVII, Bahia. Gregório de Ma­tos, o Boca do Inferno, é a gargalhada barroca aprisionada durante séculos em sonetinhos de piedade e arrependimento, só recentemente libertada. Gregório escarnece de políticos, do clero, do povo e de si mesmo, dessacralizando modelitos seculares, e criando em língua portuguesa as bases mais sólidas das vanguardas do século XX. A pro­pósito, o cardeal Augusto de Campos apaixona-se:


Há muito mais novidade, mais juventude em Gregório do que em muito blá blá blá de vanguarda que anda por aí. Gregório já rompe os limites entre a poesia de produção e a de consumo: faz poemas requintadíssimos e faz canção popular, vai do grosso ao fino, do bronco ao barroco, com a maior liberdade.

 

Vejamos alguns fragmentos, como exemplo, das “Queixas Da Sua Mesma Verdade”, onde o poeta define os “maos modos de obrar na governan­ça da Bahia”:


1 Que falta nesta cidade?..................................................... Verdade
Que mais por sua desonra................................................. Honra
Falta mais que se lhe ponha............................................... Vergonha


O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,

numa cidade,onde falta
Verdade, Honra,Vergonha.


3 Quais são os seus doces objetos?..................................... Pretos
Tem outros bens mais maciços?........................................ Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...................................... Mulatos

Dou ao demo os insensatos,

dou ao demo a gente asnal,

que estima por cabedal

Pretos, Mestiços, Mulatos.

 

5 E que justiça a resguarda?................................................. Bastarda
É grátis distribuída?........................................................... Vendida
Que tem,que a todos assusta?.............................................Injusta

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

 



7 E nos Frades há manqueiras?............................................ Freiras
Em que ocupam os serões?............................................... Sermões
Não se ocupam em disputas?.............................................Putas

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lides todas de um Frade
são Freiras, Sermões e Putas.

9 A Câmara não acode?....................................................... Não pode
Pois não tem todo o poder?............................................... Não quer
É que o governo a convence?............................................. Não vence



Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
não pode, não quer, não vence.


Quanta atualidade nestes trezentos anos de Gregório!

 

Traduções:
(8), (9): Luiz António de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda
(10): José Paulo Paes

terça-feira, 2 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Curso de Arte Poética

Jorge Tufic
                  
 
                   PANTUM - Tipo de poema ESTRÓFICO, oriundo da Malásia e introduzido na literatura francesa por Victor Hugo; compõe-se de uma série de QUARTETOS, em que o segundo e quarto VERSOS de um vão ressurgir como primeiro e terceiro do seguinte, até ao último que termina com o VERSO inicial do poema. Olavo Bilac tem, em Sarças de Fogo, um PANTUM perfeito, que termina (ib):
 

Clarearam a extensão dos largos campos,
vinha, entre nuvens, o luar nascendo.
Fosforeavam na relva os pirilampos
e eu inda estava a tua imagem vendo. 

Vinha, entre nuvens, o luar nascendo:
a terra toda em derredor dormia...
E eu inda estava a tua imagem vendo,
quando passaste ao declinar do dia! 

                   TERÇA RIMA - Tipo de poema ESTRÓFICO usado por Dante na Divina Comédia e constituído por uma série de TERCETOS cujos VERSOS primeiro e terceiro rimam entre si e com o segundo da ESTROFE anterior, terminando a composição por uma linha final que se acrescenta ao último TERCETO  e que faz RIMA com o segundo VERSO dele, como na “Última jornada” em Americanas de Machado de Assis, que termina (ib): 

Lava os olhos na viva aurora pura
em que vê penetrar, já longe, aquela
doce, mimosa, virginal figura. 

Assim no campo a tímida gazela
foge e se perde; assim no azul dos mares
some-se e corre a fugidia vela. 

E nada mais se viu flutuar nos ares;
que ele, bebendo as lágrimas que chora,
na noite entrou dos imortais pesares,
e ela de todo mergulhou na aurora 

                   VILANELA – Tipo de poema ESTRÓFICO formado por uma série de TERCETOS em que há uma RIMA para os VERSOS primeiro e terceiro, e outra para o segundo, ligando todas as ESTROFES, até à última, que é aumentada de um quarto VERSO rimando com o segundo, como em “Chama e fumo” do livro A Cinza das Horas de Manuel Bandeira (ib):
 

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
o fumo vem, a chama passa... 

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça... 

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
o fumo vem, a chama passa... 

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?...- chama, e, depois, fumaça:
o fumo vem, a chama passa...

domingo, 30 de setembro de 2012

Cruz e Sousa e a academia dos bacharéis


Zemaria Pinto 

 
No último dia 25, ao noticiar a eleição do acadêmico que irá ocupar a cadeira n° 23 da Academia Amazonense de Letras, o jornal onde o eleito trabalha noticiou o fato, informando que o patrono da referida cadeira era um tal de Cruz e Silva. Como notícias de jornais são descartáveis, imaginei que a pessoa que escreveu a matéria no calor da luta confundiu o poeta Alencar e Silva, o ocupante anterior, com o genial poeta catarinense Cruz e Sousa, o verdadeiro patrono da cadeira 23.

Já esquecera o incidente quando, há pouco, lendo o tal jornal onde trabalha como advogado e assina colunas o futuro acadêmico, deparo-me novamente com a aberração: o “patrono Cruz e Silva”, citado em matéria de mais de meia página, com o sorridente bacharel e futuro acadêmico. Jornalistas não precisam conhecer literatura, claro. Mas acadêmicos não podem ignorar seus símbolos. Quem deu a informação errada? O próprio “novo nome da academia”? O presidente, bacharel e jornalista? Os eleitores bacharéis? Tenho certeza que o vice-presidente, também bacharel e jornalista, não foi, porque em seu “dicionário biográfico”, ele dá a informação correta, apesar de tropeçar na grafia – Cruz e Souza, com z -, o que não chega a ser incomum.

Podia continuar calado, no meu canto, mas agredir o autor de Broquéis e Faróis duas vezes em menos de uma semana é demais pro meu estômago.

Como a poesia continua sendo necessária, apesar dos bacharéis, dos jornalistas e dos acadêmicos, fiquem com um poema de João da Cruz e Sousa:

Acrobata da dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que, desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço. 
      
 
Cruz e Sousa (1861-1898)
 

Manaus, amor e memória LXXVI

O Grande Hotel metamorfoseou-se aos poucos, abrigando lojas de quinta categoria,
até consumir-se de vez num incêndio criminoso.
Deve ser o final do jogo de empurra da Biblioteca Pública, na esquina oposta.
Não o incêndio, mas o transformar-se em loja de quinquilharias...
Cultura é isso, meus filhos!

sábado, 29 de setembro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

De Catulo a Simão Pessoa – dois mil anos de poesia e escracho 1/4


 
Zemaria Pinto
 
CATULO A Lírica latina tem seus primeiros registros em meados do século I a.C. Caius Valerius Catullus (87-54 a.C.) é a expressão máxima daqueles a quem o azedo Cícero chamou desdenhosa­mente de “poetas novos”, jovens que preferiam as formas breves, pre­conizadas havia 300 anos pelos alexandrinos, às longas e invariavelmen­te chatas epopeias. Havia nos novos poetas romanos ecos de um tempo ainda mais distante: Safo, poeta grega, de Lesbos, século VII a.C, foi descarada e amorosamente copiada por Catulo, que a homenageou nomeando sua musa como Lésbia. A Lésbia, frívola e inconsequente – cujo nome real era Clódia –, Catulo dedicou a maioria dos 116 carmes legados à posteridade. Entre o amor avassalador e o ódio desmedido, o poeta sintetizou num dístico imortal o dilema trágico de sua in­constância:
 
Odeio e amo.Talvez perguntes por que faço isso.
Não sei, mas sinto que acontece e me torturo.                                  (1)
 
Mas o lírico refinado – sobre quem Carpeaux afirmou ser “no pri­meiro século antes da nossa era, um poeta moderno” – é também o in­trodutor na cultura latina de uma linguagem sarcástica e ferina, no limiar do que os convencionais e puristas de todos os matizes e oca­siões chamariam simplesmente de chula. O Carme 32, por exemplo, é um convite de assustar qualquer mocinha casadoira:
 
Te peço, minha doce Ipsilila,
delícias minhas, graça, mimos meus,
ordena, que finda a sesta, eu te procure,
e caso ordenes, cogita tais cuidados:
despe de trava ou tranca a tua porta,
não te assaltem coceiras de sair.
Mas fica em casa, em raro preparo
de nove, gota a gota, nove fodas.
Se assim quiseres, pressa!, não hesites,
que eu, já almoçado, e farto à farta,
perfuro a um só tempo toga e túnica!                                                (2)        
          
Se Ipsilila despertava uma devastadora paixão priápica, o mesmo não se dá com Ameana:
 
Ameana, mulher super-usada,
me pediu a quantia de dez mil!
Uma mulher de nariz grotesco,
amante de um caipira sem dinheiro!
Parentes, que se preocupam com a moça,
chamem os amigos e os médicos:
a moça está doente. E nem precisa
perguntar o que é: ela  delira!                                                           (3)            


Nem a adorada Lésbia escapou da fúria de Catulo: 

Ah! Célio, a nossa Lésbia, aquela Lésbia,
a própria Lésbia a quem Catulo amou
mais que a todos os seus, mais que a si próprio,
agora, nas encruzilhadas e nos becos,
esfola os netos do magnânimo Remo.                                                 (4)
 

Mas é para os amantes de Lésbia que Catulo guarda a maior dose de, digamos, maldade: 

Imundo puteiro, e vocês, companheiros de putaria
(nona pilastra depois do templo dos irmãos de barrete),
pensam que só vocês têm culhões,
podem  comer  tudo quanto  é moça
e que os outros não passam de bodes?
(...) Pois a minha menina, que fugiu de meus braços,
amada  tanto quanto nenhuma será amada,
pela qual travei tantas batalhas,
senta-se aí, com vocês.
Com ela, vocês todos, nobres e ricos,
fazem amor e, contudo, o que é uma indignidade,
são todos mesquinhos e depravados da sarjeta (...)
                           (5)              

Ao ex-amigo Gélio, que ousou cobiçar (só?) a amada, Catulo lança imprecações terríveis: 

Gélio é esguio, como não seria?: tem ele mãe tão boa
e tão robusta, e tão encantadora irmã,
e tão bom tio, e tão completa abundância de jovens
parentas... Como poderia ele deixar de ser magro?
                 (6)            

Ou: 

Que faz o homem, Gélio, que com sua mãe e sua irmã
satisfaz seus desejos e, sem roupa, passa a noite inteira?
Que faz o homem que não deixa o tio ser marido?
Por acaso sabes que grande infâmia comete? Comete, ó Gélio, qual nem a extrema Tétis
nem o Oceano, pai das ninfas, pode lavar;
pois nenhuma outra infâmia pode ir mais além
mesmo se ele, com a cabeça abaixada, chupasse a si mesmo.           (7)
 
Traduções:
(1), (5), (6), (7): Paulo Sérgio de Vasconcelos
(2), (4): Luiz António de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda
(3): Zélia de Almeida Cardoso
 
OBS:  Escrito e publicado em 1993, em forma de plaqueta.
 
Catulo e Lésbia, por Lawrence Alma-Tadema (1836-1912).
 

Ovada ou cusparada?


 

                                                      David Almeida


Meu caro amigo leitor, e eleitor, já que estamos em plena campanha política – e esse tema está em evidencia –, venho por estas poucas linhas perguntar: se você ganhasse um prêmio e tivesse que escolher entre uma “ovada” e uma “cusparada”, qual dos dois você escolheria? Quero que fique bem claro, transparente, que não estou acusando ninguém, e nem “cusparando” ou “ovando” quem quer que seja. Só vou comentar sobre as palavras: cusparada e ovada, na mira da simplicidade popular, nada científico!  

Bem, no meu caso, como sou ator, compositor e jornalista, formador de opinião, compromissado com a ética e respeito pela cidadania, preferiria a “ovada”. E sabe por quê? Porque, o ovo é um símbolo de fertilidade, o ovo produz a vida, e alimenta a vida. O ovo mata a fome, e é barato. Quem já não ouviu essa frase: “só quer ser gatinho mas só come ovo!”. O ovo faz parte de uma gastronomia mais que democrática! Todos: ricos, pobres, miseráveis tem acesso a essa iguaria. Uma “ovada” é energizante, cura até doença. Quem está fraco, sem prazer para vida, mais que devagar, é aconselhado uma “ovada”.  Uns amigos meus, inclusive jornalistas que já estão dobrando o Cabo da Boa Esperança, estavam já sem animo, sem apetite, em todos os sentidos, quando a famosa Mãe Diná, lhes receitou, “ovada” (gemada) todas as manhãs, seguiram a risca a receita da vidente, e hoje estão rindo com as paredes, cheios de vitalidade.  A vida depois de uma “ovada” nunca será mais a mesma.  

A “ovada” tem vários sentidos, tanto para o bem quanto para o mal, mas tem muito mais para o bem. Se eu fosse o compositor de “Geni e o Zepelim” (Chico Buarque de Holanda), não teria jogado pedra, nem bosta na Geni, e sim uma “ovada”.  Será, parente? Só para ilustrar, eu, quando completei 50 anos, fui metralhado com um “cartelada” de ovo, pelo corpo inteiro, os meus amigos estavam felizes e resolveram me presentear com essa chuva da fertilidade, depois vieram os abraços, os parabéns, enfim, foi uma “meladeira” só, todos também se lambuzaram de ovo e de felicidade. Eu quase chorei, apesar de índio não chorar, assim, tão fácil, mas foi emocionante. A dor foi física, por causa do impacto da “ovada”, mas a alma estava extasiada de prazer. 

No entanto, a saliva, matéria prima de onde se deriva a “cusparada” é de fundamental importância, fisiologicamente é responsável pela lubrificação da boca para que as palavras fluam de uma melhor maneira, e a sua dicção não seja prejudicada e o alvo seja atingido. Agora quando não tem mais palavra, aí, a “cusparada” é um assunto sério, ademais, nunca vi ninguém fazer uma homenagem com uma “cusparada”, é algo deprimente, depreciativo, nojento. E quando uma pessoa olha pra outra e cospe no chão, fere na alma, é sinal de extremo desprezo. 

Só se cospe quando algo na boca não está dando certo, a cusparada está em sintonia com sujeira, com o que é ruim, sem gosto. Tudo que você prova e não gosta é cuspido, portanto, serve também como uma manifestação, espontânea, de insatisfação com qualquer coisa, que não esteja em sincronia com o seu pedaço de chão.  

Mas, dependendo do momento e do gosto do individuo, uma “ovada” ou uma cusparada será ou não bem-vinda. Rezemos ao senhor!

Poesia solta na rua – última noite




 

A 3ª edição do projeto Poesia Solta na Rua, realizado na quadra da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, que teve inicio dia 09 de agosto, encerra nesta quinta-feira, 27 de setembro, com os poetas convidados: Elson Farias, Tenório Telles, Dori Carvalho e Tainá Vieira, além de participações especiais de João Bosco P. Rocha (Bosquinho Poeta), Amanda Figueiredo e do ator e jornalista David Almeida. Na música, vão estar presentes: Grupo Folha de Mamão, Nicolas Junior, Dudu Brasil, Rosangela Costa e Aguinaldo do Samba.

O evento começa às 20:30h; a entrada é franca.

terça-feira, 25 de setembro de 2012