| Largo da Saudade tem a ver com Praça da Saudade? Não sei. Mas essa foto, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo... |
domingo, 12 de agosto de 2012
Manaus, amor e memória LXX
sábado, 11 de agosto de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 9/12
Zemaria Pinto
Epílogo, com final
feliz
Sem nunca haver sido publicado antes,
“Os doentes”, assim como o “Monólogo de uma sombra”, provavelmente, foi escrito
às vésperas da edição do Eu. Os dois
poemas se complementam: no “Monólogo”, a máscara lírica já tem o domínio da sua
escatologia; em “Os doentes” ela ainda busca entendê-la, levando o seu
desespero mascarado ao paroxismo do grotesco. A conclusão do poema, com a
afirmação do nascimento de uma nova espécie humana, é o desfecho, o final
feliz, da saga vivida, de modo épico, pela máscara. Se o “Monólogo de uma
sombra” funciona como prólogo, “Os doentes” poderia ter função de epílogo, com
os poemas intermediários funcionando ora como episódios, ora como reflexões.
“As cismas do
destino”: centro irradiador
“As cismas do destino” traz de forma
concentrada o tema e os motivos da poesia de Augusto dos Anjos, que, em 1908,
ainda estava em fase de estruturação – enquanto os poemas citados anteriormente,
de 1912, tema e motivos já estavam consolidados. Antes, afirmáramos que o
“Monólogo” funciona como um prólogo do Eu.
Neste ponto, precisamos rever essa afirmativa, pois “Monólogo de uma sombra” é
o coroamento de “As cismas do destino”, que o antecipa – assim como a outros
poemas –, funcionando como uma súmula do pensamento e da poesia expressionista
de Augusto dos Anjos. A propósito, da primeira à última quadra – do clima noir à alegoria da destruição da
natureza, sem esquecer o superlativo discurso do Destino –, Augusto dos Anjos
mantém a corda expressionista tensionada ao extremo, tanto do ponto de vista
formal, com suas imagens construídas como cenas, distribuídas de modo caótico,
a partir de vocábulos os mais inusitados, como do conteúdo: áspero,
contundente, antinaturalista.
Não temos como afirmá-lo, porque não há
nenhuma documentação a respeito, mas parece-nos que é por essa época, aos 24
anos, que Augusto dos Anjos se deixa “fisgar”, definitivamente, pela filosofia
de Schopenhauer. Já não contava mais a dor individual ainda expressa, sob o
disfarce da máscara lírica, em poemas como “Queixas noturnas”, “Poema negro”,
“Gemidos de arte” e “Tristezas de um quarto minguante”, mas uma dor coletiva,
trágica:
Observe-se aqui
algo de suma significação para toda a nossa visão geral de mundo: o objetivo
dessa suprema realização poética não é outro senão a exposição do lado terrível
da vida, a saber, o inominado sofrimento, a miséria humana, o triunfo da
maldade, o império cínico do acaso, a queda inevitável do justo e do inocente.
E em tudo isso se encontra uma indicação significativa da índole do mundo e da
existência. É o conflito da Vontade consigo mesma, que aqui, desdobrado
plenamente no grau mais elevado de sua objetividade, entra em cena de maneira
aterrorizante. (SCHOPENHAUER, 2005, p.
333)
Absorvida a lição de que Ideia é
intuição, o poeta lírico se transporta aos palcos da tragédia, para criar
personagens como esse Destino ou, mais adiante, a Sombra. Mas a sua grande
personagem já estava criada: era a máscara lírica, com a qual ele ousava
escrever não apenas a sua história individual, mas a história da Humanidade:
Reproduzem-se na
poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que
milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas
situações, visto que retornam continuamente, e ali encontram a sua expressão
apropriada. [...] O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela
o que ela sente e pratica. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 328-329)
Por outro lado, o pensamento de
Schopenhauer sobre a imanência do sofrimento no ser humano, enquanto os
organismos simples pouco ou nada conhecem dele (SCHOPENHAUER, 2005, p. 399-400),
vem ao encontro das ideias de Haeckel e Spencer sobre o monismo e a evolução,
que Augusto dos Anjos conhecera ainda adolescente.
Ora, não sendo senão um homem comum, mas
ciente de seu potencial como artista, Augusto dos Anjos desenvolve a ideia de
“dor estética”, que seria exposta no “Monólogo”, como um subterfúgio a sua
incapacidade de criar com expressividade a partir de seu próprio eu. Até aqui,
a máscara atuara intuitivamente; agora, ela estava embasada filosoficamente,
por uma metafísica ética e por uma metafísica estética, cujo estuário místico
seria o budismo.
“As cismas do destino”, pelo que tem de
original e de singular, ocupa o centro irradiador das ideias veiculadas no Eu, e na poesia feita depois do livro
publicado.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
A Bandeira da Cidadania
David Almeida
Assim como vi essa bandeira na popa de
um barquinho, às margens plácidas do rio Andirá, eu vejo o povo brasileiro, que
busca aos trancos e barrancos sobreviver; ficar de pé e mostrar a sua raça, a
sua força de viver caminhando sempre, contra tudo e todos desafiando até a
morte.
| Foto: David Almeida. |
Essa é a bandeira da cidadania, tal qual
a maioria dos habitantes desse País, que dizem ser abençoado por deus e bonito
por natureza. É uma cidadania improvisada, aprovada e liberada pelo “Ministério
do Jeitinho Brasileiro” (MJB), criado pelo povo, por livre e espontânea pressão,
em busca da sobrevivência. Tipo assim: quando não se tem picanha para o
churrasco, alivia-se a fome com churrasquinho de gato ou qualquer coisa que
preencha o eterno vazio do estômago.
Envolto em uma sociedade imensuravelmente
injusta, o cidadão brasileiro ainda levanta orgulhosamente, a sua bandeira da
cidadania, ainda que rasgada, esfarrapada, desbotada, mas tremulando ao vento;
impoluta, heróica, impávida, colossal, sob o céu dessa pátria varonil.
Custa caro ser cidadão, nesse País, sim,
senhor! Mas, a bandeira da cidadania, idolatrada, vívida! Resiste ao tempo
imposto pela mão de quem nunca sentiu, e nem vai sentir, a brisa acariciar a
vida do seu tempo, porque o tempo verdadeiro da vida não é fabricado, não tem
preço, portanto, não é um produto, e o seu tempo de validade é uma consequência.
Essa Bandeira da Cidadania é, realmente,
um símbolo de igualdade, porque representa verdadeiramente a maioria da nossa
gente. A nossa gente, que, em busca de dias melhores, ajudou na construção
daquela estrada; suou na edificação daquele edifício; tomou umas e outras na
inauguração da ponte que cruzou o rio; enche a igreja na missa aos domingos;
elegeu aquele político que ficou rico da noite pro dia, e às vezes chega em
casa, não tem o que comer. Mas o orgulho de ser brasileiro está ali, estampado
na sua Bandeira da Cidadania, mesmo avariada, já sem as estrelas, sem ordem e
nem progresso, com suas cores já desbotadas, sem quase nada, mas representando
tudo. O povo é feliz de vê-la desfraldada, balançando ao vento, mostrando que
apesar das dificuldades, a vida é bela, e viver a vida é preciso.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
“Poesia solta na rua” começa nesta quinta-feira
O tema da
Escola de Samba Reino Unido da Liberdade em 2013 será O Livro –porque no
Morro o Samba é Lê-ler.
A referência
no título é a um projeto da comunidade, que leva livros para as escolas: o
Samba Lê-ler. Mas a abrangência do desfile será bastante ampla: desde as
origens do livro até os formatos digitais, focando, entretanto, não no livro
como objeto, mas como instrumento de transmissão do conheceimento.
Como parte
do projeto de conscientização da comunidade, bem como para aproximar da Escola
os escritores de Manaus, será realizado, de 09/agosto a 27/setembro, sempre às
quintas-feiras, de 20h30 às 22h00, na quadra da Escola, o evento Poesia
Solta na Rua, que teve edições memoráveis – em 1999 e em 2001.
O formato do
evento é o seguinte:
. três a quatro
poetas por noite;
. 15 a 30
minutos de apresentação para cada um (os mais experientes, com livros lançados,
terão mais tempo; os mais jovens, menos), de sorte a ocupar 60 minutos, no
máximo, deixando os 30 minutos finais para uma atração musical.
Os poemas
serão de livre escolha dos autores.
Programação
de abertura, dia 09/08:
20:30 –
recital de poemas: Zemaria Pinto, Nelson Castro, Lidiane Pires e Magda Ribeiro
21:30 –
musical: Candinho & Inês
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Uma antologia do Amazonas
Rogel Samuel
Tenho em mãos, seis anos depois de sua publicação, a “Poesia e poetas do
Amazonas”, dos senhores Tenório Telles e Marcos Frederico (Valer, Manaus,
2006).
Comprei,através da “Estante Virtual”, de um sebo de Cuiabá (Bazar do
Livro), mas o livro veio quase novo.
De saída, fui atraído pela beleza do projeto gráfico. A bela capa sobre
um quadro de Afrânio de Castro é magnífica.
Deve ser a melhor antologia do tema publicada até hoje.
Como o assunto é de minha predileção, ouso dar aqui algum depoimento
sobre poucas omissões e escolhas de alguns poetas e textos, que em nada diminui
a obra.
Afinal, criticar é fácil; fazer é difícil.
Logo dei pela ausência de um poeta importante: Djalma Passos, que, apesar
de acreano, viveu em Manaus e publicou livros importantes como As Vozes amargas - 1952; Bazar de angústia Miscelânea 1972; Poemas do tempo perdido - 1947; Tempo e distância - 1955.
Quem quiser conferir leia-o em
http://historiadosamantes.blogspot.com.br/search/label/DJALMA%20PASSOS
De Hemetério Cabrinha eu
publicaria dois clássicos: “Falando a meu coveiro” e “O Cristo do Corcovado” (o
melhor poema já escrito sobre o símbolo da cidade do Rio de Janeiro):
Falando a meu coveiro
É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste,
junto a este mausoléu. Pega uma enxada, cava sete palmas de chão! Anda depressa, grava
no teu semblante mudo o riso que escondeste!
Abre o meu leito eterno... O meu lugar é este!
Quero nele abafar minha paixão escrava!
Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava...
Depressa! A minha dor de dores se reveste!
Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!
Ela, assim como está, torna-se muito feia,
profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!
Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!
(Vereda iluminada! 1932 )
No escalavrado píncaro da serra,
Que o luar alveja e a luz do sol estanha; E onde a cidade, abençoando a terra,
Se espreguiça na falda da montanha;
Ergue-se o Cristo-Redentor, coitado!
Braços ao ar, o triste olhar cravado
Na base de granito que o suporta
De alma apagada e a consciência morta.
O Cristo cujo busto alvinitente,
Granítico, imponente E lavado de sol;
Aureolando de alvura o Corcovado,
Qual Prometeu, virado
Para o horizonte, a medir o arrebol;
E, de distância imensurável, visto
Qual uma forma etérea É apenas um Cristo
Feito à custa de angústias e miséria.
..................................
De Ernesto Penafort faltou o soberbo soneto:
noutros tempos, olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia ao vale, e o vale fértil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silêncio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silêncio nasce e morre.
De Farias de Carvalho é imperdoável não se ler os famosos:
Desses mortos ocasos esquecidos
chega-me agora o pássaro de cinza; de ontem são suas asas, de silêncio
o seu bico pousado sobre a ponte
entre o vencido vale e o bosque a entrar,
bica-me o peito onde marés antigas jogam restos de mastros e fantasmas
desses velhos piratas que ficaram
tatuados na penumbra de olhos idos.
E sem saber talvez do inútil intento ninha o vazio do momento, à espera
da comida do sonho que ontem davam
essas mãos que se foram, consumidas nesses mortos ocasos esquecidos...
-------------------------------
Meus mortos hão de vir no fim da tarde
molhados da ferrugem líquida do rio que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe.
Meus mortos hão devir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento; (vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças).
Meus mortos hão devir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo, vamos comer a morte no crepúsculo.
Mas são algumas omissões que não depreciam a obra, que se pode ler
gratuitamente em:
http://www.call.org.br/ebooks/poesia_amazonas_.pdf
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Carta aberta aos magistrados do I Congresso Internacional do Meio Ambiente no Amazonas
CARTA
ABERTA AOS MAGISTRADOS DO I CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEIO AMBIENTE NO
AMAZONAS
Manaus,
capital do amazonas, de 08 a 11 de agosto, vai recepcionar o I Congresso
Internacional do Meio Ambiente sob a orientação do juízo In Dubio pro
Natura. Na oportunidade, o Movimento Socioambiental S.O.S. Encontro das
Águas e o Projeto Jaraqui, que congrega várias pessoas físicas e jurídicas,
manifestam-se por meio desse instrumento público, pontuando questões em defesa
da salvaguarda do Meio Ambiente Amazônico, particularmente, contrários a
iniciativa do governador do Amazonas Omar Aziz, que através do Projeto de
Lei 186/2012, a tramitar em forma de Mensagem na Assembleia Legislativa do
Estado, quer porque quer promover à revelia da Sociedade Civil “a regularização
fundiária das terras situadas em áreas de domínio do Estado do Amazonas,
visando à regularização de ocupações, incentivos às sociedades empresarias, à
criação de projetos de assentamentos e à proteção às comunidades tradicionais”.
Para tanto, o governador Omar Aziz,
de caso pensado, determina nos termos do Projeto em questão, que:
Compete ao Chefe do
Poder Executivo decidir sobre:
I) a oportunidade e conveniência de autorizar a regularização da ocupação de
bem imóvel estadual ou determinar a retomada do bem; II) a alienação ou
concessão de direito real de uso para fins de incentivo a sociedades
empresariais no Estado do Amazonas; III) a criação de projetos de assentamento
e a proteção às comunidades tradicionais; e IV) a oportunidade e conveniência
da dação em pagamento com imóveis dominicais para quitação de dívidas do Estado
do Amazonas, nos termos de legislação pertinente, (Art.6°).
Dos 50 artigos expressos no corpo do
Projeto de Lei, em nenhuma alínea ou inciso manifesta-se o juízo da prevenção
relativo à proteção ambiental de nossa flora e fauna, ao contrário, é
célere na ocupação das terras públicas do Estado e por consequência põe em
risco a vida e o Meio Ambiente em nome de uma racionalidade econômica que
propugna pela especulação imobiliária e pelo lucro fácil.
Senhoras e Senhores Magistrados, o desenvolvimento é construção social coletiva
fundamentada na relação quantidade/qualidade. Esta equação deve ser
resolvida, considerando a participação, a soberania e a cultura das comunidades
tradicionais, em respeito à proteção, conservação dos recursos ambientais e
a sustentabilidade das comunidades e sociedades, primando pelo equilíbrio entre
proteção e necessidade regrado por políticas públicas centradas no protagonismo
dos Agentes Locais, o que deve ser feito por meio de consultas públicas e
não de forma autoritária como se apresenta a reforma fundiária do governo
do Amazonas.
Da mesma forma, Senhoras e Senhores
Congressistas, o governo do Amazonas tem se
comportado em relação à homologação do tombamento do Encontro das Águas, dos
Rios Negro e Solimões, onde começa o Amazonas em território brasileiro,
manifestando-se contrário ao tombamento desse patrimônio, posicionando-se a
favor da construção do Terminal Portuário da Vale do Rio Doce, ferindo de morte
o Encontro das Águas, esse corpo vivo que reclama por Direito.
No entanto, por força de Liminar, em
articulação com o Ministério Público Federal e Advocacia Geral da União, conseguimos
garantir o tombamento provisório do Encontro das Águas como patrimônio
cultural do povo brasileiro. Ferido em seus interesses corporativos, o governo
do Amazonas recorreu, impetrando Ação Ordinária de Anulação de tombamento, o
que não prosperou até o presente e, ademais, o Supremo Tribunal Federal por
meio do Ministro Dias Toffoli decidiu que a competência é desta Corte e
portanto:
Pelas razões expostas, ressalvado
melhor juízo quando do julgamento de mérito, defiro a liminar para (i) suspender
o curso da Ação Ordinária de Anulação nº 780-89.2011.4.01.3200 e da Ação Civil
Pública nº 10007-40.2010.4.01.3200, em curso da Justiça Federal – Seção
Judiciária do Estado do Amazonas e (ii) obstar o início ou prosseguimento de
obras na região nos autos denominada “Encontro das Águas dos Rios Negro e
Solimões”.
Vigilantes e atentos, manifestamos ao plenário do
I Congresso Internacional do Meio Ambiente, para que APROVE na Carta de
Manaus da Magistratura, o total apoio a homologação do Encontro das Águas, como
patrimônio do povo brasileiro, bem como, VOTO DE REPROVAÇÃO para
qualquer forma de Ação Governamental que ignore a participação popular. Se
assim fizerem estarão dando prova do seu profundo respeito ao povo do Amazonas
e, sobretudo, garantindo à preservação e a conservação dos nossos Rios e
Florestas, para o bem do Brasil e do mundo.
Publicado no site do Núcleo de Cultura Política do Amazonas - NCPAM.
Curso de Arte Poética
Jorge Tufic
A
Legislação Teórica
A conceituação antiga
e a contemporânea
Nos
dois quadros que esquematizam os gêneros literários (o da Antiguidade e o
Contemporâneo), observa-se que todas as transformações processadas em dois
milênios, não atingiram o essencial.
Segundo
Nelly Novaes Coelho, “os gêneros continuam a ser poesia, prosa e teatro, porque são expressões das
experiências humanas básicas: a vivência “lírica” (o Eu voltado para si próprio
e suas emoções, cuja expressão essencial é a poesia); a vivência épica (o Eu em
confronto com o mundo social, e cuja expressão natural é a prosa) e a vivência
“dramática” (o Eu entregue ao espetáculo da Vida, no qual ele próprio é
personagem e cuja expressão básica é o diálogo).
A
esses três gêneros o nosso tempo tende a acrescentar mais um: o da crítica
Estética, expressão da vivência eu/texto,
dinamizada pela inteligência analítica e crítica. Mescla de ciência e intuição,
a Crítica é uma expressão ambígua que depende de um conhecimento racional mesclado a um pensamento criador. Isto é, participa da objetividade exigida pela teoria e da subjetividade natural à Arte.
As
demais transformações, registradas pela atual conceituação dos gêneros, são contingentes, isto é, efêmeras, porque
representam “momentos” de evolução da Humanidade e por isso estão destinadas a
uma contínua mudança.
A
grande alteração deu-se, sem dúvida, ao nível da legislação teórica que, nas diferentes épocas que nos precederam,
se exerceu tiranicamente sobre a criação literária. Hoje já não há mais regras
ou normas absolutas a que a liberdade do artista deva se submeter. Como
sabemos, todas as leis, normas, regras e fronteiras foram postas em questão
pelo nosso século, tanto ao nível da vida humana e social, quanto ao nível da
Arte (ou do Pensamento em geral). Daí a liberdade, ou melhor, a anarquia de
formas que se expressa na “cultura de mosaico” característica do nosso tempo.
A
única “norma” que jamais mudou (e que em cada época foi codificada de um modo)
é a da coerência orgânica do discurso
e sua forma significante. Da unidade
essencial de ambos resulta a verdade, a força e a beleza do texto ou da obra
literária. No alcançar tal unidade revela-se o maior ou menor gênio do poeta,
do ficcionista e do dramaturgo.
Foi
na busca dessa coerência ou unidade interna do texto literário, que os gregos estabeleceram
determinados tipos de verso para determinados tipos de experiência expressa. A
cada vivência corresponde uma linguagem específica e um ritmo que lhe é
essencial. Foi também em busca dessa unidade que retóricos de todos os tempos
procuraram defender determinadas “formas” como ideais... Mudados os ideais,
mudam-se as formas...
Nos
dois quadros acima referidos, o gênero poesia dispõe das formas Lírica e Épica,
e das espécies literárias como elegia, canção, soneto, idílio, balada, ode etc.
A natureza de sua linguagem é poética, e seu objeto se encontra no mundo lírico
(o mundo do “eu”) ou no mundo épico ou heróico (o mundo das grandes ações).
Temos, deste modo, que gênero, forma, espécie, natureza da linguagem e objeto
(ou fonte da matéria) são os componentes ou partes em que se divide,
modernamente, o estudo da Poesia. Na Antiguidade, porém, em razão da própria
época e de seus costumes, o gênero aparece no lugar da forma, e a maneira da
“imitatio”, passando pelo objeto da “imitação” ou FACE da realidade imitada,
condiciona ou está condicionada à reação do leitor (ou espectador). Exemplos
(resumos dos quadros):
|
GÊNERO
|
FORMAS
LITERÁRIAS
|
MANEIRA
DA “IMITAÇÃO”
|
OBJETO
DA “IMITAÇÃO” ou FACE da realidade imit.
|
REAÇÃO
DO LEITOR
|
|
Lírico
|
Ditirambo
(poema lírico breve: culto de Dionísio)
Elegia
(=pranto)
Hino
(=canto a divindade) Canção (=canto bodas ou dramático etc)
|
cantada
– versos pentâmetros ou elegíacos; sáficos; alcaicos etc
(ritmo
leve)
|
O
mundo interior: o “eu” do poeta em face de suas emoções e do mistério da
vida. A “persona” em face da vida.
|
Emoção
que leva o leitor a se concentrar.
|
|
Épico
|
Epopeia
|
Recitada
– versos hexâmetros (ritmo que corresponde ao tom grandioso, acima do tom
comum).
|
O
mundo exterior ao poeta: o mundo das grandes ações, dos grandes gestos que
atuam no mundo exterior e o transformam. A vida heróica ativa.
|
Admiração
que leva o ser a se expandir.
|
O gênero Poesia, segundo a conceituação
contemporânea:
|
GÊNEROS
|
FORMAS
LITERÁRIAS
|
ESPÉCIES
LITERÁRIAS
|
NATUREZA
DA LINGUAGEM
|
OBJETO
(ou fonte da “matéria”)
|
|
Poesia
|
Lírica
|
Elegia Ode
Canção Balada
Soneto Madrigal
Idílio etc.
|
Linguagem
Poética
|
O
mundo lírico (=o mundo do “eu”).
|
|
|
Épica
|
Epopeia
homérica, “Canções de Gesta”, Poemas épicos renascentistas, Poesia social
etc.
|
|
O
mundo épico ou heróico (=o mundo das grandes ações).
|
domingo, 5 de agosto de 2012
sábado, 4 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 8/12
Zemaria Pinto
Título: o Eu despersonalizado
Neste ponto, faz-se necessário entender
o título do livro. Muito já se escreveu sobre essa palavra de duas letras, que
tem um significado tão intenso. Se lemos o título do livro de Augusto dos Anjos
tendo em mente que ele era um estudioso do budismo, e que isso se refletia na
sua obra, esvaziamos a palavra “eu” de qualquer sentido, pois o “eu”, finito em
si mesmo, é a única razão da dor individual. Siddharta Gautama, o primeiro
Buda, distinguia duas formas de se viver:
A primeira – a
maneira aleatória, não-reflexiva, na qual o sujeito é puxado e empurrado pelos
impulsos e circunstâncias como um galho numa enxurrada de tempestade – ele
chamou de “perambulação”. A segunda – a trilha do viver com intenção – ele
chamou de o Caminho. (SMITH; NOVAK, 2008, p. 47)
Augusto dos Anjos escolhe para sua
poesia escrever com intenção, definindo-lhe um caminho inédito. A começar pelo
título do livro, que, numa primeira e apressada leitura, seria a manifestação
de um ego inflado, é, ao contrário, a manifestação de um eu que se
desmaterializa, porque não fala por si mesmo, mas por uma ideia preexistente. A
raiz desse pensamento está nas Quatro Verdades, preconizadas na “metafísica de
Abidarma”, cujas três primeiras verdades, simplificadas ao extremo, podem assim
ser expressas: a vida (a trajetória do eu) é traduzida em sofrimento; e a causa
desse sofrimento são os desejos pessoais (do eu) não realizados; é preciso
despir-se de qualquer ambição pessoal (anulando o eu) para encontrar a
libertação (SMITH; NOVAK, 2008, p. 40-45).
“Multidão, solidão”
Em “Os doentes”, o “cientificismo” de
Augusto dos Anjos é apenas uma leitura possível, mas óbvia e desgastada. “Os
doentes” se enquadra naquela tradição fundada por Baudelaire, que promove o
intercâmbio entre as excludentes representações mentais de multitude e solitude:
Multidão,
solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta diligente e fecundo. [...] O
poeta goza do incomparável privilégio de ser, à sua vontade, ele mesmo e
outrem. Como as almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando lhe
apraz, na personalidade de cada um. Para ele, e só para ele, tudo está vago; e,
se alguns lugares parecem vedados ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não
valem a pena de uma visita. (BAUDELAIRE, 1995b, p. 289)
O deus dos políticos e o deus dos pobres
David Almeida
Fazendo
uma comparação e analisando a fé, a dedicação e o respeito que o povo tem pelo
seu Deus – e quase nada recebe em troca, a não ser a sua pobre existência –,
tive a certeza de que quanto mais o povo reza, ora, mais difícil a vida fica;
mais vulnerável ele se torna aos aproveitadores de plantão, que adoram vê-lo na
miséria, enfraquecido por um sistema que o conduz ao estado de inércia.
A
fome e as doenças se alastram cada vez mais num mundo globalizado, com a
maioria de miseráveis, onde a fé veiculada pelas “religiões” nos meios de
comunicação ultrapassa fronteiras, prometendo aos fiéis a salvação e
consequentemente o “paraíso”. As procissões se arrastam serpenteando nas ruas,
com centenas de pessoas carregando pedras na cabeça, cruzes, velas... Descalços
ou de joelhos, pagando suas promessas, numa demonstração de que não mentem e
são tementes, fiéis ao seu Deus e que estão agradecidos pela “graça” alcançada.
Nas igrejas ou nos templos evangélicos, as missas, novenas, os cultos –
ministrados pelos padres ou pastores, através das orações e dos cânticos de
louvação – buscam o conforto espiritual para amenizar seus sofrimentos
materiais, numa sociedade onde o paraíso esperado fica só nas promessas dos
políticos quando querem se eleger.
Na
contramão dessa fé, chego à conclusão que o “deus dos políticos” é mais forte e
poderoso que o “deus dos pobres”. Com raras exceções, eis que permite que
roubem, mintam, estuprem, matem... Enriqueçam ilicitamente, em apenas um mandato
e ainda gozem de extremo prestígio. Os políticos são imunes, intocáveis e às
vezes mal sabem ler, mas são protegidos por seu deus, que lhes permite fazer da
terra o seu paraíso e o inferno para o povo. Historicamente, a religião e a
política sempre andaram lado a lado tornando-se um mal avassalador, poderoso,
contra o povo, causando a tão falada desigualdade social.
Ora!
Como dizer que Deus é para todos? Não! Não é para todos. Ou então, tem mais de
um. Um com mais poder e outro com menos. Como explicar essa diferença? Ou será
que o Deus dos pobres por serem tantos; milhões e milhões nesse planeta ainda
azul, a ajuda vai enfraquecendo até chegar ao último? Então só assim podemos provar
que existe outro Deus: “o Deus dos políticos”! E é mais poderoso; mais
competente, trata bem os seus discípulos, não os deixa nunca desamparados,
cuida para que estejam sempre por cima da carne seca, amém! Mesmo que eles
sejam corruptos, sanguessugas e recebam “mensalão”. E quando são pegos em
alguma “falcatruazinha de nada”, não podem ser presos como cidadão comum. Tem
fórum especial. Aí eu rolo, rio, rumino e me rendo. Realmente, é mais poderoso
“O Deus dos políticos”.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Virtual macabro
Pedro Lindoso
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