Amigos do Fingidor

domingo, 12 de agosto de 2012

Manaus, amor e memória LXX

Largo da Saudade tem a ver com Praça da Saudade? Não sei. Mas essa foto, mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo... 

sábado, 11 de agosto de 2012

Fantasy Art - Galeria

Daniel dos Santos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 9/12

Zemaria Pinto
Epílogo, com final feliz



Sem nunca haver sido publicado antes, “Os doentes”, assim como o “Monólogo de uma sombra”, provavelmente, foi escrito às vésperas da edição do Eu. Os dois poemas se complementam: no “Monólogo”, a máscara lírica já tem o domínio da sua escatologia; em “Os doentes” ela ainda busca entendê-la, levando o seu desespero mascarado ao paroxismo do grotesco. A conclusão do poema, com a afirmação do nascimento de uma nova espécie humana, é o desfecho, o final feliz, da saga vivida, de modo épico, pela máscara. Se o “Monólogo de uma sombra” funciona como prólogo, “Os doentes” poderia ter função de epílogo, com os poemas intermediários funcionando ora como episódios, ora como reflexões.


“As cismas do destino”: centro irradiador

“As cismas do destino” traz de forma concentrada o tema e os motivos da poesia de Augusto dos Anjos, que, em 1908, ainda estava em fase de estruturação – enquanto os poemas citados anteriormente, de 1912, tema e motivos já estavam consolidados. Antes, afirmáramos que o “Monólogo” funciona como um prólogo do Eu. Neste ponto, precisamos rever essa afirmativa, pois “Monólogo de uma sombra” é o coroamento de “As cismas do destino”, que o antecipa – assim como a outros poemas –, funcionando como uma súmula do pensamento e da poesia expressionista de Augusto dos Anjos. A propósito, da primeira à última quadra – do clima noir à alegoria da destruição da natureza, sem esquecer o superlativo discurso do Destino –, Augusto dos Anjos mantém a corda expressionista tensionada ao extremo, tanto do ponto de vista formal, com suas imagens construídas como cenas, distribuídas de modo caótico, a partir de vocábulos os mais inusitados, como do conteúdo: áspero, contundente, antinaturalista.

Não temos como afirmá-lo, porque não há nenhuma documentação a respeito, mas parece-nos que é por essa época, aos 24 anos, que Augusto dos Anjos se deixa “fisgar”, definitivamente, pela filosofia de Schopenhauer. Já não contava mais a dor individual ainda expressa, sob o disfarce da máscara lírica, em poemas como “Queixas noturnas”, “Poema negro”, “Gemidos de arte” e “Tristezas de um quarto minguante”, mas uma dor coletiva, trágica: 

Observe-se aqui algo de suma significação para toda a nossa visão geral de mundo: o objetivo dessa suprema realização poética não é outro senão a exposição do lado terrível da vida, a saber, o inominado sofrimento, a miséria humana, o triunfo da maldade, o império cínico do acaso, a queda inevitável do justo e do inocente. E em tudo isso se encontra uma indicação significativa da índole do mundo e da existência. É o conflito da Vontade consigo mesma, que aqui, desdobrado plenamente no grau mais elevado de sua objetividade, entra em cena de maneira aterrorizante.  (SCHOPENHAUER, 2005, p. 333)


Absorvida a lição de que Ideia é intuição, o poeta lírico se transporta aos palcos da tragédia, para criar personagens como esse Destino ou, mais adiante, a Sombra. Mas a sua grande personagem já estava criada: era a máscara lírica, com a qual ele ousava escrever não apenas a sua história individual, mas a história da Humanidade: 

Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações, visto que retornam continuamente, e ali encontram a sua expressão apropriada. [...] O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 328-329)


Por outro lado, o pensamento de Schopenhauer sobre a imanência do sofrimento no ser humano, enquanto os organismos simples pouco ou nada conhecem dele (SCHOPENHAUER, 2005, p. 399-400), vem ao encontro das ideias de Haeckel e Spencer sobre o monismo e a evolução, que Augusto dos Anjos conhecera ainda adolescente.

Ora, não sendo senão um homem comum, mas ciente de seu potencial como artista, Augusto dos Anjos desenvolve a ideia de “dor estética”, que seria exposta no “Monólogo”, como um subterfúgio a sua incapacidade de criar com expressividade a partir de seu próprio eu. Até aqui, a máscara atuara intuitivamente; agora, ela estava embasada filosoficamente, por uma metafísica ética e por uma metafísica estética, cujo estuário místico seria o budismo.

“As cismas do destino”, pelo que tem de original e de singular, ocupa o centro irradiador das ideias veiculadas no Eu, e na poesia feita depois do livro publicado.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Bandeira da Cidadania


David Almeida


Assim como vi essa bandeira na popa de um barquinho, às margens plácidas do rio Andirá, eu vejo o povo brasileiro, que busca aos trancos e barrancos sobreviver; ficar de pé e mostrar a sua raça, a sua força de viver caminhando sempre, contra tudo e todos desafiando até a morte.
Foto: David Almeida.


Essa é a bandeira da cidadania, tal qual a maioria dos habitantes desse País, que dizem ser abençoado por deus e bonito por natureza. É uma cidadania improvisada, aprovada e liberada pelo “Ministério do Jeitinho Brasileiro” (MJB), criado pelo povo, por livre e espontânea pressão, em busca da sobrevivência. Tipo assim: quando não se tem picanha para o churrasco, alivia-se a fome com churrasquinho de gato ou qualquer coisa que preencha o eterno vazio do estômago.  

Envolto em uma sociedade imensuravelmente injusta, o cidadão brasileiro ainda levanta orgulhosamente, a sua bandeira da cidadania, ainda que rasgada, esfarrapada, desbotada, mas tremulando ao vento; impoluta, heróica, impávida, colossal, sob o céu dessa pátria varonil.

Custa caro ser cidadão, nesse País, sim, senhor! Mas, a bandeira da cidadania, idolatrada, vívida! Resiste ao tempo imposto pela mão de quem nunca sentiu, e nem vai sentir, a brisa acariciar a vida do seu tempo, porque o tempo verdadeiro da vida não é fabricado, não tem preço, portanto, não é um produto, e o seu tempo de validade é uma consequência.

Essa Bandeira da Cidadania é, realmente, um símbolo de igualdade, porque representa verdadeiramente a maioria da nossa gente. A nossa gente, que, em busca de dias melhores, ajudou na construção daquela estrada; suou na edificação daquele edifício; tomou umas e outras na inauguração da ponte que cruzou o rio; enche a igreja na missa aos domingos; elegeu aquele político que ficou rico da noite pro dia, e às vezes chega em casa, não tem o que comer. Mas o orgulho de ser brasileiro está ali, estampado na sua Bandeira da Cidadania, mesmo avariada, já sem as estrelas, sem ordem e nem progresso, com suas cores já desbotadas, sem quase nada, mas representando tudo. O povo é feliz de vê-la desfraldada, balançando ao vento, mostrando que apesar das dificuldades, a vida é bela, e viver a vida é preciso.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

“Poesia solta na rua” começa nesta quinta-feira


O tema da Escola de Samba Reino Unido da Liberdade em 2013 será O Livro –porque no Morro o Samba é Lê-ler.
A referência no título é a um projeto da comunidade, que leva livros para as escolas: o Samba Lê-ler. Mas a abrangência do desfile será bastante ampla: desde as origens do livro até os formatos digitais, focando, entretanto, não no livro como objeto, mas como instrumento de transmissão do conheceimento.

Como parte do projeto de conscientização da comunidade, bem como para aproximar da Escola os escritores de Manaus, será realizado, de 09/agosto a 27/setembro, sempre às quintas-feiras, de 20h30 às 22h00, na quadra da Escola, o evento Poesia Solta na Rua, que teve edições memoráveis – em 1999 e em 2001.
O formato do evento é o seguinte:

. três a quatro poetas por noite;
. 15 a 30 minutos de apresentação para cada um (os mais experientes, com livros lançados, terão mais tempo; os mais jovens, menos), de sorte a ocupar 60 minutos, no máximo, deixando os 30 minutos finais para uma atração musical.

Os poemas serão de livre escolha dos autores.



Programação de abertura, dia 09/08:

20:30 – recital de poemas: Zemaria Pinto, Nelson Castro, Lidiane Pires e Magda Ribeiro


21:30 – musical: Candinho & Inês


Local: quadra da Reino Unido da Liberdade. Entrada franca.

Fantasy Art – Galeria

Karol Bak.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma antologia do Amazonas


Rogel Samuel

Tenho em mãos, seis anos depois de sua publicação, a “Poesia e poetas do Amazonas”, dos senhores Tenório Telles e Marcos Frederico (Valer, Manaus, 2006).

Comprei,através da “Estante Virtual”, de um sebo de Cuiabá (Bazar do Livro), mas o livro veio quase novo.

De saída, fui atraído pela beleza do projeto gráfico. A bela capa sobre um quadro de Afrânio de Castro é magnífica.

Deve ser a melhor antologia do tema publicada até hoje.

Como o assunto é de minha predileção, ouso dar aqui algum depoimento sobre poucas omissões e escolhas de alguns poetas e textos, que em nada diminui a obra.

Afinal, criticar é fácil; fazer é difícil.

Logo dei pela ausência de um poeta importante: Djalma Passos, que, apesar de acreano, viveu em Manaus e publicou livros importantes como As Vozes amargas - 1952; Bazar de angústia Miscelânea 1972; Poemas do tempo perdido - 1947; Tempo e distância - 1955.

Quem quiser conferir leia-o em
http://historiadosamantes.blogspot.com.br/search/label/DJALMA%20PASSOS

De Hemetério Cabrinha eu publicaria dois clássicos: “Falando a meu coveiro” e “O Cristo do Corcovado” (o melhor poema já escrito sobre o símbolo da cidade do Rio de Janeiro):



Falando a meu coveiro


É aqui neste lugar, ao pé deste cipreste,
junto a este mausoléu. Pega uma enxada, cava
sete palmas de chão! Anda depressa, grava
no teu semblante mudo o riso que escondeste!
Abre o meu leito eterno... O meu lugar é este!
Quero nele abafar minha paixão escrava!
Quero enterrar-me logo... a vida já me agrava...
Depressa! A minha dor de dores se reveste!
Alarga-a mais um pouco, afasta mais a areia!
Ela, assim como está, torna-se muito feia,
profunda-a mais... trabalha! Este dinheiro é teu!
Que é isso? Um crânio aí? Dá-mo, quero beijá-lo.
Limpa-lhe bem o pó! Dá cá, quero estudá-lo
Como alguém algum dia há de estudar o meu!

(Vereda iluminada! 1932 )


O Cristo do Corcovado (alguns versos)


No escalavrado píncaro da serra,
Que o luar alveja e a luz do sol estanha;
E onde a cidade, abençoando a terra,
Se espreguiça na falda da montanha;
Ergue-se o Cristo-Redentor, coitado!
Braços ao ar, o triste olhar cravado
Na base de granito que o suporta
De alma apagada e a consciência morta.

O Cristo cujo busto alvinitente,
Granítico, imponente
E lavado de sol;
Aureolando de alvura o Corcovado,
Qual Prometeu, virado
Para o horizonte, a medir o arrebol;

E, de distância imensurável, visto
Qual uma forma etérea
É apenas um Cristo
Feito à custa de angústias e miséria.

..................................


De Ernesto Penafort faltou o soberbo soneto:


noutros tempos, olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fértil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silêncio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silêncio nasce e morre.


De Farias de Carvalho é imperdoável não se ler os famosos:

Desses mortos ocasos esquecidos
chega-me agora o pássaro de cinza;
de ontem são suas asas, de silêncio
o seu bico pousado sobre a ponte

entre o vencido vale e o bosque a entrar,
bica-me o peito onde marés antigas
jogam restos de mastros e fantasmas
desses velhos piratas que ficaram

tatuados na penumbra de olhos idos.
E sem saber talvez do inútil intento
ninha o vazio do momento, à espera

da comida do sonho que ontem davam
essas mãos que se foram, consumidas
nesses mortos ocasos esquecidos...


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Meus mortos hão de vir no fim da tarde
molhados da ferrugem líquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe.

Meus mortos hão devir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças).

Meus mortos hão devir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo.


Mas são algumas omissões que não depreciam a obra, que se pode ler gratuitamente em:
http://www.call.org.br/ebooks/poesia_amazonas_.pdf



 Publicado no blog de ROGEL SAMUEL

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Carta aberta aos magistrados do I Congresso Internacional do Meio Ambiente no Amazonas


CARTA ABERTA AOS MAGISTRADOS DO I CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEIO AMBIENTE NO AMAZONAS



Manaus, capital do amazonas, de 08 a 11 de agosto, vai recepcionar o I Congresso Internacional do Meio Ambiente sob a orientação do juízo In Dubio pro Natura. Na oportunidade, o Movimento Socioambiental S.O.S. Encontro das Águas e o Projeto Jaraqui, que congrega várias pessoas físicas e jurídicas, manifestam-se por meio desse instrumento público, pontuando questões em defesa da salvaguarda do Meio Ambiente Amazônico, particularmente, contrários a iniciativa do governador do Amazonas Omar Aziz, que através do Projeto de Lei 186/2012, a tramitar em forma de Mensagem na Assembleia Legislativa do Estado, quer porque quer promover à revelia da Sociedade Civil “a regularização fundiária das terras situadas em áreas de domínio do Estado do Amazonas, visando à regularização de ocupações, incentivos às sociedades empresarias, à criação de projetos de assentamentos e à proteção às comunidades tradicionais”.



Para tanto, o governador Omar Aziz, de caso pensado, determina nos termos do Projeto em questão, que:



Compete ao Chefe do Poder Executivo decidir sobre: I) a oportunidade e conveniência de autorizar a regularização da ocupação de bem imóvel estadual ou determinar a retomada do bem; II) a alienação ou concessão de direito real de uso para fins de incentivo a sociedades empresariais no Estado do Amazonas; III) a criação de projetos de assentamento e a proteção às comunidades tradicionais; e IV) a oportunidade e conveniência da dação em pagamento com imóveis dominicais para quitação de dívidas do Estado do Amazonas, nos termos de legislação pertinente, (Art.6°).



Dos 50 artigos expressos no corpo do Projeto de Lei, em nenhuma alínea ou inciso manifesta-se o juízo da prevenção relativo à proteção ambiental de nossa flora e fauna, ao contrário, é célere na ocupação das terras públicas do Estado e por consequência põe em risco a vida e o Meio Ambiente em nome de uma racionalidade econômica que propugna pela especulação imobiliária e pelo lucro fácil.



Senhoras e Senhores Magistrados, o desenvolvimento é construção social coletiva fundamentada na relação quantidade/qualidade. Esta equação deve ser resolvida, considerando a participação, a soberania e a cultura das comunidades tradicionais, em respeito à proteção, conservação dos recursos ambientais e a sustentabilidade das comunidades e sociedades, primando pelo equilíbrio entre proteção e necessidade regrado por políticas públicas centradas no protagonismo dos Agentes Locais, o que deve ser feito por meio de consultas públicas e não de forma autoritária como se apresenta a reforma fundiária do governo do Amazonas.



Da mesma forma, Senhoras e Senhores Congressistas, o governo do Amazonas tem se comportado em relação à homologação do tombamento do Encontro das Águas, dos Rios Negro e Solimões, onde começa o Amazonas em território brasileiro, manifestando-se contrário ao tombamento desse patrimônio, posicionando-se a favor da construção do Terminal Portuário da Vale do Rio Doce, ferindo de morte o Encontro das Águas, esse corpo vivo que reclama por Direito.



No entanto, por força de Liminar, em articulação com o Ministério Público Federal e Advocacia Geral da União, conseguimos garantir o tombamento provisório do Encontro das Águas como patrimônio cultural do povo brasileiro. Ferido em seus interesses corporativos, o governo do Amazonas recorreu, impetrando Ação Ordinária de Anulação de tombamento, o que não prosperou até o presente e, ademais, o Supremo Tribunal Federal por meio do Ministro Dias Toffoli decidiu que a competência é desta Corte e portanto:



Pelas razões expostas, ressalvado melhor juízo quando do julgamento de mérito, defiro a liminar para (i) suspender o curso da Ação Ordinária de Anulação nº 780-89.2011.4.01.3200 e da Ação Civil Pública nº 10007-40.2010.4.01.3200, em curso da Justiça Federal – Seção Judiciária do Estado do Amazonas e (ii) obstar o início ou prosseguimento de obras na região nos autos denominada “Encontro das Águas dos Rios Negro e Solimões”.



Vigilantes e atentos, manifestamos ao plenário do I Congresso Internacional do Meio Ambiente, para que APROVE na Carta de Manaus da Magistratura, o total apoio a homologação do Encontro das Águas, como patrimônio do povo brasileiro, bem como, VOTO DE REPROVAÇÃO para qualquer forma de Ação Governamental que ignore a participação popular. Se assim fizerem estarão dando prova do seu profundo respeito ao povo do Amazonas e, sobretudo, garantindo à preservação e a conservação dos nossos Rios e Florestas, para o bem do Brasil e do mundo.



Curso de Arte Poética

Jorge Tufic

A Legislação Teórica



A conceituação antiga e a contemporânea
 

                   Nos dois quadros que esquematizam os gêneros literários (o da Antiguidade e o Contemporâneo), observa-se que todas as transformações processadas em dois milênios, não atingiram o essencial. 

                   Segundo Nelly Novaes Coelho, “os gêneros continuam a ser poesia, prosa e teatro, porque são expressões das experiências humanas básicas: a vivência “lírica” (o Eu voltado para si próprio e suas emoções, cuja expressão essencial é a poesia); a vivência épica (o Eu em confronto com o mundo social, e cuja expressão natural é a prosa) e a vivência “dramática” (o Eu entregue ao espetáculo da Vida, no qual ele próprio é personagem e cuja expressão básica é o diálogo). 

                   A esses três gêneros o nosso tempo tende a acrescentar mais um: o da crítica Estética, expressão da vivência eu/texto, dinamizada pela inteligência analítica e crítica. Mescla de ciência e intuição, a Crítica é uma expressão ambígua que depende de um conhecimento racional mesclado a um pensamento criador. Isto é, participa da objetividade exigida pela teoria e da subjetividade natural à Arte. 

                   As demais transformações, registradas pela atual conceituação dos gêneros, são contingentes, isto é, efêmeras, porque representam “momentos” de evolução da Humanidade e por isso estão destinadas a uma contínua mudança. 

                   A grande alteração deu-se, sem dúvida, ao nível da legislação teórica que, nas diferentes épocas que nos precederam, se exerceu tiranicamente sobre a criação literária. Hoje já não há mais regras ou normas absolutas a que a liberdade do artista deva se submeter. Como sabemos, todas as leis, normas, regras e fronteiras foram postas em questão pelo nosso século, tanto ao nível da vida humana e social, quanto ao nível da Arte (ou do Pensamento em geral). Daí a liberdade, ou melhor, a anarquia de formas que se expressa na “cultura de mosaico” característica do nosso tempo. 

                   A única “norma” que jamais mudou (e que em cada época foi codificada de um modo) é a da coerência orgânica do discurso e sua forma significante. Da unidade essencial de ambos resulta a verdade, a força e a beleza do texto ou da obra literária. No alcançar tal unidade revela-se o maior ou menor gênio do poeta, do ficcionista e do dramaturgo. 

                   Foi na busca dessa coerência ou unidade interna do texto literário, que os gregos estabeleceram determinados tipos de verso para determinados tipos de experiência expressa. A cada vivência corresponde uma linguagem específica e um ritmo que lhe é essencial. Foi também em busca dessa unidade que retóricos de todos os tempos procuraram defender determinadas “formas” como ideais... Mudados os ideais, mudam-se as formas... 

                   Nos dois quadros acima referidos, o gênero poesia dispõe das formas Lírica e Épica, e das espécies literárias como elegia, canção, soneto, idílio, balada, ode etc. A natureza de sua linguagem é poética, e seu objeto se encontra no mundo lírico (o mundo do “eu”) ou no mundo épico ou heróico (o mundo das grandes ações). Temos, deste modo, que gênero, forma, espécie, natureza da linguagem e objeto (ou fonte da matéria) são os componentes ou partes em que se divide, modernamente, o estudo da Poesia. Na Antiguidade, porém, em razão da própria época e de seus costumes, o gênero aparece no lugar da forma, e a maneira da “imitatio”, passando pelo objeto da “imitação” ou FACE da realidade imitada, condiciona ou está condicionada à reação do leitor (ou espectador). Exemplos (resumos dos quadros): 



GÊNERO

FORMAS LITERÁRIAS

MANEIRA DA “IMITAÇÃO”
OBJETO DA “IMITAÇÃO” ou FACE da realidade imit.

REAÇÃO DO LEITOR
Lírico
Ditirambo (poema lírico breve: culto de Dionísio)
Elegia (=pranto)
Hino (=canto a divindade) Canção (=canto bodas ou dramático etc)
cantada – versos pentâmetros ou elegíacos; sáficos; alcaicos etc
(ritmo leve)
O mundo interior: o “eu” do poeta em face de suas emoções e do mistério da vida. A “persona” em face da vida.
Emoção que leva o leitor a se concentrar.
Épico
Epopeia
Recitada – versos hexâmetros (ritmo que corresponde ao tom grandioso, acima do tom comum).
O mundo exterior ao poeta: o mundo das grandes ações, dos grandes gestos que atuam no mundo exterior e o transformam. A vida heróica ativa.
Admiração que leva o ser a se expandir.

  
O gênero Poesia, segundo a conceituação contemporânea:


GÊNEROS
FORMAS LITERÁRIAS
ESPÉCIES LITERÁRIAS
NATUREZA DA LINGUAGEM
OBJETO (ou fonte da “matéria”)


Poesia

Lírica
Elegia       Ode
Canção     Balada
Soneto      Madrigal
Idílio          etc.


Linguagem Poética
O mundo lírico (=o mundo do “eu”).



Épica
Epopeia homérica, “Canções de Gesta”, Poemas épicos renascentistas, Poesia social etc.

O mundo épico ou heróico (=o mundo das grandes ações).




domingo, 5 de agosto de 2012

Manaus, amor e memória LXIX

O poeta Luiz Bacellar, aos nove anos, com irmãs e amigas.

sábado, 4 de agosto de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A invenção do Expressionismo em Augusto dos Anjos 8/12

Zemaria Pinto


Título: o Eu despersonalizado

Neste ponto, faz-se necessário entender o título do livro. Muito já se escreveu sobre essa palavra de duas letras, que tem um significado tão intenso. Se lemos o título do livro de Augusto dos Anjos tendo em mente que ele era um estudioso do budismo, e que isso se refletia na sua obra, esvaziamos a palavra “eu” de qualquer sentido, pois o “eu”, finito em si mesmo, é a única razão da dor individual. Siddharta Gautama, o primeiro Buda, distinguia duas formas de se viver:  

A primeira – a maneira aleatória, não-reflexiva, na qual o sujeito é puxado e empurrado pelos impulsos e circunstâncias como um galho numa enxurrada de tempestade – ele chamou de “perambulação”. A segunda – a trilha do viver com intenção – ele chamou de o Caminho. (SMITH; NOVAK, 2008, p. 47) 

Augusto dos Anjos escolhe para sua poesia escrever com intenção, definindo-lhe um caminho inédito. A começar pelo título do livro, que, numa primeira e apressada leitura, seria a manifestação de um ego inflado, é, ao contrário, a manifestação de um eu que se desmaterializa, porque não fala por si mesmo, mas por uma ideia preexistente. A raiz desse pensamento está nas Quatro Verdades, preconizadas na “metafísica de Abidarma”, cujas três primeiras verdades, simplificadas ao extremo, podem assim ser expressas: a vida (a trajetória do eu) é traduzida em sofrimento; e a causa desse sofrimento são os desejos pessoais (do eu) não realizados; é preciso despir-se de qualquer ambição pessoal (anulando o eu) para encontrar a libertação (SMITH; NOVAK, 2008, p. 40-45).


“Multidão, solidão”
 

Em “Os doentes”, o “cientificismo” de Augusto dos Anjos é apenas uma leitura possível, mas óbvia e desgastada. “Os doentes” se enquadra naquela tradição fundada por Baudelaire, que promove o intercâmbio entre as excludentes representações mentais de multitude e solitude:  

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta diligente e fecundo. [...] O poeta goza do incomparável privilégio de ser, à sua vontade, ele mesmo e outrem. Como as almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando lhe apraz, na personalidade de cada um. Para ele, e só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem vedados ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não valem a pena de uma visita. (BAUDELAIRE, 1995b, p. 289)

    É usando a máscara que o poeta deixa de ser um solitário na multidão. E como “tudo está vago” as possibilidades de máscaras se multiplicam ao infinito. Walter Benjamin, refletindo sobre Baudelaire, afirma que “a multidão metropolitana despertava medo, repugnância e horror naqueles que a viam pela primeira vez” (1994, p. 124). Mas Baudelaire rompe com a atitude romântica de que a cidade é intrinsecamente não poética: a cidade é sim material poético – o mais poético da modernidade. Depende de como se a olhe (HYDE, 1999, p. 275-277). Augusto dos Anjos vai além do que pode aprender com Baudelaire, desenvolvendo processos expressionistas, que ele certamente não conhecia, deformando a realidade, plasmando-a com as sensações que ela desperta, criando imagens novas, entre o delirante e o grotesco.

Ykamiabas - filhas da lua, mulheres da terra

O deus dos políticos e o deus dos pobres

David Almeida

Fazendo uma comparação e analisando a fé, a dedicação e o respeito que o povo tem pelo seu Deus – e quase nada recebe em troca, a não ser a sua pobre existência –, tive a certeza de que quanto mais o povo reza, ora, mais difícil a vida fica; mais vulnerável ele se torna aos aproveitadores de plantão, que adoram vê-lo na miséria, enfraquecido por um sistema que o conduz ao estado de inércia.

A fome e as doenças se alastram cada vez mais num mundo globalizado, com a maioria de miseráveis, onde a fé veiculada pelas “religiões” nos meios de comunicação ultrapassa fronteiras, prometendo aos fiéis a salvação e consequentemente o “paraíso”. As procissões se arrastam serpenteando nas ruas, com centenas de pessoas carregando pedras na cabeça, cruzes, velas... Descalços ou de joelhos, pagando suas promessas, numa demonstração de que não mentem e são tementes, fiéis ao seu Deus e que estão agradecidos pela “graça” alcançada. Nas igrejas ou nos templos evangélicos, as missas, novenas, os cultos – ministrados pelos padres ou pastores, através das orações e dos cânticos de louvação – buscam o conforto espiritual para amenizar seus sofrimentos materiais, numa sociedade onde o paraíso esperado fica só nas promessas dos políticos quando querem se eleger.

Na contramão dessa fé, chego à conclusão que o “deus dos políticos” é mais forte e poderoso que o “deus dos pobres”. Com raras exceções, eis que permite que roubem, mintam, estuprem, matem... Enriqueçam ilicitamente, em apenas um mandato e ainda gozem de extremo prestígio. Os políticos são imunes, intocáveis e às vezes mal sabem ler, mas são protegidos por seu deus, que lhes permite fazer da terra o seu paraíso e o inferno para o povo. Historicamente, a religião e a política sempre andaram lado a lado tornando-se um mal avassalador, poderoso, contra o povo, causando a tão falada desigualdade social.

Ora! Como dizer que Deus é para todos? Não! Não é para todos. Ou então, tem mais de um. Um com mais poder e outro com menos. Como explicar essa diferença? Ou será que o Deus dos pobres por serem tantos; milhões e milhões nesse planeta ainda azul, a ajuda vai enfraquecendo até chegar ao último? Então só assim podemos provar que existe outro Deus: “o Deus dos políticos”! E é mais poderoso; mais competente, trata bem os seus discípulos, não os deixa nunca desamparados, cuida para que estejam sempre por cima da carne seca, amém! Mesmo que eles sejam corruptos, sanguessugas e recebam “mensalão”. E quando são pegos em alguma “falcatruazinha de nada”, não podem ser presos como cidadão comum. Tem fórum especial. Aí eu rolo, rio, rumino e me rendo. Realmente, é mais poderoso “O Deus dos políticos”. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fantasy Art – Galeria

Equinox.
Todd F. Jerde.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Virtual macabro


Pedro Lindoso



Manhã de domingo. Ana Rosa e o marido, Clóvis, tomam café da manhã, ainda com os corações compungidos com a ida à missa de sétimo dia de Arminda, moradora no condomínio onde residem. Ana Rosa, espantada, comenta com o marido que recebeu um e-mail de Arminda, ontem. Clóvis lhe diz ser provavelmente algum engano. Ana Rosa não se convence. Não. O horário registrado era ontem, depois da novela. A mensagem era definitivamente do e-mail dela. O anexo continha fotos de Paris, com a música la vie em rose. Tipo de e-mail que Arminda repassaria aos amigos.  Deveria  estar enganada. Ana Rosa verificou que, além dela, a falecida se comunicava por mensagens, pelo menos sem cópias ocultas, com mais três amigas: Lucinda, Virgínia e Ademildes. Ana Rosa pensou em telefonar para Virgínia, a única das três, que conhecia, vagamente. Perguntaria se teria recebido também o estranho correio eletrônico, mas deixou para lá. Estava incomodada porque nada havia mudado na casa da falecida. A varanda continuava com os mesmos vasos de flores. No quarto, com a cortina entreaberta, viam-se roupas da morta no cabide. A cama arrumada como sempre. Revistas e jornais no porta-revista. Palavras cruzadas e uma caneta, em cima da mesinha da varanda. O único filho de Arminda, Adriano, disse ao porteiro que iria morar no apartamento da praia, a uns dez quilômetros dali. Não tomou nenhuma providência prática sobre o apartamento e as coisas da sua mãe falecida. Na terça-feira, outro e-mail. Agora eram fotos de Praga, República Tcheca. Na quarta, Ana Rosa recebeu lindas fotos de Portugal, com música de Amália Rodrigues. Sempre no mesmo horário. Após o término da novela das oito. Estava nervosa e assustada com os e-mails. Ninguém mais se chamava Arminda nesse mundo.  Só a falecida. O e-mail era dela. Seria brincadeira de alguém? Hackers, como dizem. Mas para quê? Com que finalidade? Ficou altamente abalada ao saber que Lucinda, amiga de Arminda, que conhecera de vista no enterro, passou mal repentinamente. Isso na última segunda-feira do mês, vindo a falecer ao dar entrada no hospital. No dia seguinte, os e-mails continuavam. Fotos da Grécia, com a música de Zorba, o grego.  Alguns dias se passaram e veio um e-mail com paisagens argentinas ao som de La Cumparsita. Ana Rosa resolveu ligar para Virgínia. A amiga disse que seu computador havia dado pane e que estava sem internet antes mesmo do falecimento da inesquecível Arminda. Ana Rosa não teve coragem de expor o motivo da ligação e desconversou. Perguntou se Virgínia conhecera Lucinda. Virgínia a conhecia de vista, mas uma amiga em comum disse-lhe que ela havia passado mal depois da visita de uma mulher desconhecida, ruiva. Esse era o único detalhe que a empregada se lembrava. E foi o detalhe dado aos parentes. Ninguém sabe quem é essa tal ruiva. A única ruiva amiga de Lucinda era a falecida Arminda, já morta e enterrada. Mas não deram muita importância, porque a morte foi diagnosticada como parada cardíaca e as artérias dela estavam meio que comprometidas. Ana Rosa perguntou ao porteiro se alguém da família havia ido ao apartamento. Ele disse que só conhecia Arminda e o filho. Não recebiam visitas. Parentes moravam longe, em outro estado. Eram mãe e filho. E só. O rapaz, de quase quarenta anos, foi morar no apartamentinho da praia e vem pouco aí. Também não tem amigos. Vivia grudado na mãe. Mas não tem aparecido. Quando vem, pega sempre algumas coisas, que parecem ser roupas e sai logo. Adriano sempre foi muito esquisito e caladão. Vinte dias se passaram e soube-se do atropelamento de Ademildes. O carro, furtado, era dirigido por uma mulher ruiva. Encontraram o veículo num barranco e a polícia investiga o caso. Vagarosamente, como de costume. Ana Rosa ficava cada dia mais apavorada. Os e-mails continuavam. Sempre após a novela das oito. Paisagens da Escandinávia, ao som das Quatro estações, de Vivaldi. Ana Rosa andava com os nervos à flor da pele. Agora dava para receber telefonemas em seu celular, do celular da amiga falecida. Um desassossego. Diariamente mandava rezar missas para Arminda. Pensou em bloquear os e-mails, mas desistiu. Teve então a ideia de deletar o e-mail de sua lista de contatos. Talvez assim, os e-mails da morta parassem de aparecer. Ledo engano. Paisagens da Alemanha ao som de músicas de Wagner. Era tudo muito tétrico e Ana Rosa estava com medo, muito medo. Talvez fosse a um centro espírita. Um e-mail com fotos do Rio de Janeiro, com músicas de Tom Jobim, foi o último dessa semana.   Das quatro pessoas que recebiam e-mails de Arminda, duas estavam mortas. A terceira estava sem usar o computador. E a quarta era ela. Um frio na espinha. Um tremor constante. Passados três meses de tanta agonia, resolveu que ligaria novamente para Virgínia. Os telefonemas do celular da morta continuavam.  O marido de Virgínia lhe disse que ela havia feito uma cirurgia plástica. Passou mal e não resistiu às complicações. Uma mulher ruiva desconhecida havia lhe feito uma visita horas antes de partir. Mas isso era só um detalhe insignificante. Perguntou se Ana Rosa conhecia alguma ruiva amiga de Virgínia. Ana Rosa lhe disse que só conhecia a Arminda, que falecera havia quatro meses. Tudo muito estranho. Novo telefonema do celular de Arminda. Teve a ideia de deletar o número da amiga morta. Talvez os telefonemas parassem. Ninguém falava nada mesmo. 30 segundos de silêncio e desligavam.  É apavorante. Agora só restava ela, das quatro amigas do e-mail.  O marido, Clóvis, não lhe dava crédito. Dizia que estava estressada e que deveria arrumar uma ocupação que a tirasse do computador e da internet. Aquilo era um vício e estava deixando a mulher maluca. Trocou o número do celular. Resolveu trocar de provedor. Pediu cancelamento de seu e-mail. Por que não havia feito isso antes? Finalmente parecia quer tinha paz. Sentia-se entretanto esquisita, como se tivesse matado a amiga. No dia seguinte, soube que o filho de Arminda estava no apartamento. Quis ir vê-lo. O porteiro achou tudo muito estranho. O rapaz, o tal de Adriano, entrou ontem, e está lá até agora. Nunca ficou tanto tempo. Já liguei no interfone e ninguém responde. O telefone fixo também não respondia. O porteiro já tinha tocado na campainha e nada. Ana Rosa lamentou ter deletado o telefone celular da falecida. Chamaram a polícia. O rapaz estava no banheiro. Morto por asfixia de gás. Vestido com a camisola da mãe, devidamente maquiado e com peruca ruiva, igualzinha a da falecida.