domingo, 31 de agosto de 2014
sábado, 30 de agosto de 2014
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Dabacuri – memória 4/5
Zemaria Pinto
sonolento,
um carro de boi atravessa
a praça deserta
flores de jambeiro
espalhadas pelo chão
– caminho de cores
espalhadas pelo chão
– caminho de cores
memória desperta –
a bola de cernambi
quica na calçada
vela derretida
em pingos que se combinam
– destino anunciado
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Aborto sob a vigilância laica
João Bosco Botelho
A
ausência de registros laicos proibindo ou punindo sugere que os métodos
abortivos utilizados como contraceptivos poderiam ter sido usuais na
antiguidade. Não é razoável pressupor a inexistência ou que não eram utilizados
na gravidez indesejada. Dois dos mais antigos textos legislando a ação médica,
o Código de Hammurabi, do século 17 a. C., e as leis de Eshnunna (1825‑1787 a.
C.), não fazem referência ao assunto.
Por outro lado, a leitura do juramento
de Hipócrates mostra a clara expressão contra o aborto dos médicos gregos da
Escola de Cós: "...Não darei venenos mortais a ninguém, mesmo que seja
instado, nem darei a ninguém tal conselho e, igualmente, não darei às mulheres
pessário para provocar aborto". É possível pressupor que essa passagem do
juramento de Hipócrates esteja estritamente ligada às interdições de qualquer
procedimento médico capaz de provocar a morte, semelhante ao da cirurgia para
retirar pedra na bexiga, já que ambos seriam capazes de matar o doente e nesse
caso não poderiam ser executados. A essência da estrutura teórica da Escola
hipocrática estava assentada na existência da Medicina e dos médicos para manter
a vida! Seria impensável aceitar qualquer a ação médica capaz de ocasionar a
morte do doente!
No
mesmo período, houve certa indulgência em Aristóteles (Política, VII, 4) que aconselhava a interrupção da gravidez frente
às necessidades médicas, desde que o embrião não tivesse recebido o sentimento
e a vida. Essa posição aristotélica valorizando “o sentimento e a vida” do
embrião como limite à prática abortiva serviu de instrumento teórico dos Doutores
da Igreja, em diferentes períodos, no medievo cristão, para proibir mais ou
menos o aborto. Sob outro argumento, teoricamente, as complicações do aborto
provocado são mais graves na medida do avanço da gravidez. Desse modo, não é
também possível dissociar a precaução de Aristóteles quanto as possibilidades
de o aborto causar a morte da gestante.
Após a cristianização das práticas médicas, na
Europa medieval, é fácil e imediato reconhecer a influência do pensamento
cristão nas leis sobre o aborto. No século 6, os visigodos adotaram a pena de
morte para quem quer que fornecesse drogas para provocar aborto. A mulher, se
fosse escrava, seria punida por meio de castigos físicos; se fosse livre, seria
degradada. No século seguinte a pena de morte passou a valer tanto para o
vendedor da droga como para o marido da gestante, caso este ordenasse ou consentisse
no crime.
Na França, até a Revolução Francesa, os médicos e parteiras
que praticassem aborto, quando descobertos, eram condenados à forca. Com o
advento da Revolução Francesa esta pena foi reduzida para vinte anos de cadeia.
Depois
de quase dois mil anos de limitações impostas pelos poderes laicos, a estimativa
do número de abortos ilegais, sob condições precárias de higiene, por ano, no
mundo, é impressionante: entre 46 a 55 milhões e 78% realizados em países subdesenvolvidos
e em desenvolvimento, como no Brasil, causando milhares de mortes por infecção.
Sob esse forte impacto, noventa e sete países, inclusive a Itália, possuem leis
que permitem o aborto até três a quatro meses da gestação.
As
análises dos dados da Organização Mundial de Saúde permitem assegurar que a
diminuição da perigosa prática do aborto como método anticoncepcional caminha
ao lado da educação sexual obrigatória nas escolas de ensino médio e da
melhoria socioeconômica das populações.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
terça-feira, 26 de agosto de 2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Inspiração
A inspiração é uma deficiência psicológica que ataca artistas amadores.
(Millôr Fernandes)
domingo, 24 de agosto de 2014
sábado, 23 de agosto de 2014
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Dabacuri – memória 3/5
Zemaria Pinto
mais um velório:
a família se reúne,
mesmo sem querer
Dia dos Pais –
a família reunida,
relembrando
crianças no jardim,
adultos na sala
– visitas
flores sobre o chão
espalhadas pelo vento
– Parque Tarumã
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O aborto entre o rigor do Didaqué e a teologia de Santo Agostinho
João
Bosco Botelho
A compreensão ético-teológica de Santo
Agostinho (354‑430) se afastou da de Tertuliano e se aproximou da de São
Jerônimo. Possivelmente para abrandar a interdição intransigente contra o
aborto do Didaqué, manual ético‑moral, escrito nos anos 100, a análise agostiniana
de modo genial reconstruiu a separação aristotélica etária dos fetos, o que
possibilitou amenizar a proibição do aborto em até cinco a seis semanas de gravidez:
“Pois uma vez que o grande problema da alma não pode ser decidido
apressadamente com julgamentos rápidos e não fundamentados, a LEI não prevê que
o ato seja considerado como homicídio, uma vez que não se pode falar de alma
viva num corpo privado de sensações, numa carne não formada e, portanto, ainda
não dotada de sentidos”.
Na Idade Média, a Igreja cristianizou
algumas comemorações oriundas do politeísmo. A da Natividade do Senhor, uma das
primeiras, no fim do século 4, iniciando os atributos sagrados às concepções. Seguida
da Natividade da Imaculada Conceição de Maria, celebrada no dia 8 de dezembro, e
a da Anunciação, ou festa da concepção de
Cristo, respectivamente nos séculos 6 e 7. Essas celebrações também
contribuíram para impor maior simbologia sagrada à gestação.
A dúvida sobre a data do início da
animação do feto, oriunda dos conceitos aristotélicos, retomada por Santo
Agostinho, atravessou os séculos. O magnífico São Tomás (1225‑1274), mais
próximo da teologia agostiniana, sustentou que só o aborto de um feto animado
era homicídio. A força da moralidade tomista para a estrutura dogmática da Igreja
influenciou decisivamente no afrouxamento da proibição oriunda do Didaqué.
O papa Gregório XIV, em parte apoiado nas
construções teóricas de São Jerônimo, Santo Agostinho e São Tomas de Aquino, revogou
a Bula de Xisto V (1588), que punia civil e canonicamente os que praticassem o
aborto em qualquer fase do feto.
O retorno da Igreja, no século 19, ao rigor do
Didaqué contra o aborto como método anticoncepcional, tem dois componentes inseparáveis:
um teológico e outro político. O primeiro, teológico, promovido pelo papa Pio
XI, acabou com a distinção multissecular de feto animado e não animado, oriundo
do aristotelismo. O segundo, político, possivelmente relacionado à industrialização
crescente do Ocidente junto à necessidade de mão de obra, já que historicamente
os abortos atados às complicações, inclusive à morte da grávida, alcançaram muito
mais as mulheres oriundas dos estratos sociais mais pobres.
No famoso discurso dirigido às obstetras,
em 1951, O Papa Pio XI se mostrou enfático ao atribuir vida intrauterina plena
antes do nascimento e condenar o aborto em todas as formas: “Todo ser humano, até
mesmo as criancinhas no seio materno, recebe o direito à vida diretamente de
Deus... Não há nenhum homem, nenhuma autoridade humana, nenhuma ciência, nenhuma
indicação médica, econômica, social, moral, que possa exibir título jurídico
válido para dispor direta e deliberadamente de uma vida humana inocente...visando
sua destruição”.
O documento conciliar Gaudium et Spes, considerado
progressista em muitos aspectos da ação social da Igreja, manteve a interdição
incondicional muito próxima do Ditaqué: “A vida, uma vez concebida, deve ser
tutelada com o máximo de cuidado e o aborto, como o infanticídio, são delitos
abomináveis”.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Lábios que beijei 27
Zemaria Pinto
Ilsa
Ilsa, dos cabelos
falsamente louros e pele de abacate passado – dizia que tinha 16 anos, mas o
corpo ainda em formação denunciava 13 ou 14 –, era apenas uma entre centenas de
prostitutas adolescentes de uma cidade em ruínas: um ano após a desativação do
canteiro de obras que deu origem a Brasília, São Luís, sua principal
fornecedora, reduzira-se a um lugar de onde os homens desapareceram em busca de
um Eldorado qualquer, deixando as mulheres à mercê dos que se dispunham a pagar
por elas. A falta de voos diários me obrigava a uma permanência de cinco dias,
quando minha missão no banco não me exigia mais que três. Ao final do terceiro
dia, levaram-me a um bar, no centro da cidade, onde tocava uma melancólica
música latina, falando de traições e vinganças. Ela estava lá, entre tantas
outras meninas de aluguel. Não era a mais bonita ou a mais fornida, mas tinha
os olhos docemente blues. Levei-a
para o hotel, com receio de que não permitissem a sua entrada – fizeram de
conta que ela nem existia. Não desgrudamos mais um só instante. E logo deixei
de me incomodar com as possíveis críticas ao inusitado casal – o homem branco
maduro com a meninaputa pretinha. Foram dois dias de êxtase total: a menininha
fazia sexo como poucas mulheres que eu conhecera. Algumas horas antes de ir
para o aeroporto, depois de nova sessão de sexo arrasa-quarteirão, senti-me
estranhamente sonolento. Acordei no dia seguinte, sem dinheiro e sem o relógio
suíço, presente de Cláudia. Como era sábado, tive que ficar mais dois dias em
São Luís. Mas não procurei Ilsa. Feitas as contas, até que foi barato.
domingo, 17 de agosto de 2014
sábado, 16 de agosto de 2014
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Dabacuri – memória 2/5
Zemaria Pinto
no Mercado Grande,
a cidade em passarela
– manhã de domingo
a cidade em passarela
– manhã de domingo
chocolate, vinho e carne –
depois da abstinência
a mesa farta
domingo de Páscoa:
a família ora em torno
de um cordeiro assado
morangos maduros
sobre a mesa de domingo
– aroma de ausência
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