Pedro Lucas Lindoso
Quando
eu era um curumim de calças curtas, só havia um edifício aqui em Manaus, o
IAPETEC. Pertenceu a um dos vários institutos de aposentados e pensionistas que
foram extintos, dando origem ao atual INSS. Fica na esquina da 7 de setembro
com a Governador Vitório.
O
primeiro arranha-céu da cidade foi orgulho de muitos que desejaram ver nossa
cidade “cheia de IAPETECs”. Como no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
Como se
o progresso, a beleza e a riqueza arquitetônica de uma cidade fossem medidas
pela quantidade de prédios altos. Ledo engano. Brasília é linda sem arranha-céu
em suas asas. Paris, uma das mais belas cidades do mundo, não tem arranha-céu
no seu centro. A cidade cresceu em forma de espiral, com múltiplos pontos
centrais. Paris é dividida em vinte “arrondissements”,
que podemos traduzir como distritos, divididos em “cartiers”, que seriam
bairros. O arrondissement 1 começa perto do Louvre e por lá não existem prédios
altos.
O nosso
já não mais tão famoso IAPETEC foi construído no local onde havia o cine teatro
Éden. Uma das várias joias da Belle Époque destruídas na vontade desvairada de
encher a cidade de “IAPETECs”.
Para
alegria de muitos, a Manaus de nossos dias cresceu. Hoje está cheia de
“IAPETECS”, na Vila Municipal, Vieiralves e Morada do Sol.
Quando
a cidade acordou e resolveu preservar os prédios da “Paris dos Trópicos”,
vários “IAPETECs” monstrengos já nos agrediam e descaracterizavam a beleza
arquitetônica com origem no auge do Ciclo da Borracha. Maltratando deveras a
nossa cidade. O que mais me incomoda é o que substituiu o Palacete Miranda
Correa, na Praça do Congresso. Foi erguido um monstruoso “IAPETEC”. O preço
pago pela cidade foi a triste demolição de um tesouro arquitetônico construído
pela tradicional família Miranda Correa. Demolição imperdoável. Perto dali há uma modernosa Agência dos
Correios, onde um dia foi o Palácio da Secretaria de Saúde. Outro insuportável
acinte. Há vários outros.
Uma
senhora jogou um fogão velho no igarapé. Questionada pelo fiscal da Prefeitura,
confessou o ato abominável, dizendo:
– Tudo
que é velho e não presta a água leva.
As
águas de nossas chuvas jamais levaram nossos prédios antigos. Que eram belos e
prestavam. Os homens, não as águas, foram os que os levaram pela destruição.
Como dizem os franceses. Quel dommage! Ou seja, que pena!
