Um artesão de imagens e sua doce canção no chão do tempo
Márcia Antonelli
Chegou-me em mãos “Canções no chão do
tempo” do professor, escritor e poeta Arcângelo Ferreira, também autor das
obras “Na claridade do luar: História e Literatura do Clube da Madrugada”,
Diálogos entre História & Literatura em Órfãos do Eldorado, de Milton
Hatoum. “A Sombra e seus duplos” (contos) e “A Merda do Mundo” (contos), em
coautoria com o escritor Thiago Roney (contos).
Atesto que este seu livro de poemas
“Canções no chão do tempo” é um desfrute. Um deleite. Um encanto. Um doce passeio pelas várias
construções e linguagens poéticas. Tudo é uníssono e nos embala ao som de uma
cítara invernada. É como se as palavras voltassem ao útero materno para enfim
descansar da luta. E talvez de fato fosse este o propósito quando o poeta
dedica sua obra à própria mãe.
Fui e vim no embalo das palavras
tocando o chão do tempo. Imagem, som, cheiro, sabor, o espectro do tempo, os
escombros da vida. Fui lendo. Fui gostando. Me envolvendo. Velejando à procura
de mim, talvez. Li em três dias esta obra. Deixei-me mesmo embalar. Levar-me
por ela. A poesia é toda aquela que se planta sem ambição no peito e se planta.
E apaixona-se. “Só se vive eternamente/se se encontrar o esconderijo de
Artémis.”
Impressionante o domínio e a leveza
de Arcângelo no trato com as palavras. Como se desejam e se pertencem
mutuamente. Tão poucas vezes senti paz e alegria e também ternura ao ler um
livro de poemas como este, sem grandes ambições, apenas expressando verdades
simples. Um trabalho original e valoroso, cheio de ritmos e imagens. Palavra e
tempo. Um apelo minucioso com a técnica concretista e haicaísta. Saúdo e celebro esta obra. Tanto quanto a
recomendo.
Amostras poéticas:
Saudade
vou pelo mundo
na imaginação, grito
saudade de tudo...
o que pude viver.
o que ainda não posso?
o que iria/irei erguer...
vou pelo mundo
preso, neste confinamento,
vem saudade de tudo...
Acácias
manto de chuva
no silêncio das acácias –
instante de viver
Vaga Luz
Vaga o crepúsculo,
Lume, a noite que chega –
“ave minúscula”
