Amigos do Fingidor

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

A poesia é necessária?

O poeta veste-se

Luiz Bacellar (1928-2012)


Com seu paletó de brumas

e suas calças de pedra,

vai o poeta.


E sobre a cambraia fina

da camisa de neblina,

o arco-íris em gravata

vai atado em nó singelo.


(Um plátano, sobre a prata

da água tranquila do lago,

se debruça só por vê-lo).


Ele leva sobre os ombros

a cachoeira do lago

(cachecol à moda russa)

levemente debruada

de um fino raio de sol.


Vai o poeta

a caminhar pelas serras.


(pelos montes friorentos

mal se espreguiça a manhã)


com seu pullover cinzento

(feito com lã das colinas)


com seus sapatos de musgo

(camurça verde dos muros)


com seu chapéu de abas largas

(grande cumulus escuro).


Mas algo ainda lhe falta

para a elegância completa:


súbito para, se curva,

num gesto sóbrio e perfeito,


um breve floco de nuvens

colhe e prende na lapela.