Zemaria Pinto
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse
requiris.
Nescio, sed fieri sentio et excrucior.
(Catulo)
Nas minhas memórias afetivas, o
cofre dos meus afetos, o latim tem um lugar muito especial, acionado pela
audição da língua falada ou cantada e pela visão da língua escrita. Certa vez,
perguntei à minha mãe porque os padres falavam diferente, durante a liturgia. A
resposta foi rápida e ríspida: é a língua sagrada. Em seguida, quase com
carinho, como a se desculpar, ela disse-me que um dia eu iria falar aquela
língua. Em segredo, os moleques zombavam do ritual sagrado, arremedando a fala
dos oficiantes, com trocadilhos sórdidos: só de ouvir aquilo já me sentia em
pecado. E, hoje eu sei, não sofria com isso: me sentia independente, dono do
meu pequeno nariz. Peccata mundi. Vem
daí a minha crônica ironia?
Anualmente, visitávamos o São
João Batista, em 2 de novembro. Numa dessas visitas perguntei à mamãe o que era
“Laborum meta”, a inscrição nos portões do cemitério. Do seu jeito peculiar,
ela respondeu-me que era latim e a língua, associada à morte, passou a ter para
mim um peso de maldição.
Mamãe se foi, sessenta anos
depois, sem esclarecer o que queria dizer com aquele vaticínio de que “um
dia...”. Eu ainda menino, a missa passou a ser celebrada em vernáculo e o latim
foi esquecido. Mas não por muito tempo.
O movimento “Tropicália” lançou,
em 1968, um LP chamado “Panis et circencis”, com dois títulos em latim:
“Miserere nobis” e a música que nomeava o disco. As letras eram cantadas em
português. Mas a ousadia já não assustava: no ano anterior, Caetano Veloso, uma
das cabeças do movimento, lançara um disco com uma letra toda cantada em latim:
“Ave-Maria”.
É claro que a embalagem de
respeito à tradição dos rapazes baianos e sua horda era pura caçoada, como
diria minha avó. E a gente amava aquilo.
Mais tarde, quando eu já andava
sozinho pelo Centro da cidade, deparei-me com a inscrição do Relógio Municipal:
“Vulnerant omnes, ultima necat”. Anotei-a e levei para minha professora
Joaquina, que não só explicou-me o que significava como ainda passou-me a
tradução alexandrina de Bilac, que guardei como uma nova maldição.
Determinista, explicou-me a doce Joaquina:
Todas
ferem, passando: e a derradeira mata.
Com o mestre Osvaldo Coelho
aprendi o significado de “Libertas quæ sera tamen”, extraído de um poema de
Virgílio, e a importância da luta pela liberdade. Aprendi que era preciso escolher
um lado. E desde então eu escolhi.
Anos mais tarde, já adulto, não
tendo mais com o que me espantar, Caetano e Elza sacudiram-me do marasmo:
Flor do
Lácio, sambódromo
Lusamérica,
latim em pó
O que
quer, o que pode essa língua?
Eu também gosto de sentir a
minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Ainda que ela venha do galego,
pois este não veio do latim? Se o galego é uma língua-filha, como diz o outro
Caetano, o Galindo, o português é uma língua-neta, ora pois.
Se você me acompanhou até aqui,
leitora/leitor, deve estar se perguntando: e O ensino de latim em diferentes
abordagens teórico-práticas? Lembro uma lição que aprendi com Cícero à
época em que dei aulas de Literatura Latina, há mais de 30 anos, e que cito de
memória, em português: “domina o assunto e não te faltarão palavras.” Entendeu,
leitora? Entendeu, leitor? (Emoji de piscadela).
É louvável que um grupo de jovens
estudiosos se reúna para mostrar a quem interessar possa que o latim continua
vivo, fazendo parte da vida cotidiana, conforme fartamente demonstrado ao longo
do livro, cuja leitura me deu a ideia de falar das minhas memórias afetivas com
a língua.
O livro aborda, com riqueza de
detalhes, e sem perder de vista o contexto histórico, os métodos e materiais
disponíveis para o estudo/ensino da língua, esclarecendo porque
estudá-la/ensiná-la é necessário, bem como é fundamental associar o ensino da
gramática à convivência com a literatura clássica – uma não existe sem a outra.
Da mesma forma, o ensino da
língua portuguesa precisa do latim como fundamento. A querida Joaquina, que me
ensinou a ler literatura, falava isso e me assustava. E essa assertiva não é
válida apenas para o português, mas para o aprendizado de qualquer das línguas
românicas.
O intertexto com a personagem
Harry Potter é uma prova cabal de que o latim continua vivo e atuante. O jovem
bruxo cativa leitores/espectadores ao redor do mundo com sua dupla vivência,
onde o latim é uma metáfora da sabedoria ancestral, passada de geração a
geração, através dos séculos.
Por fim, o levantamento de
marcas e de produtos comerciais vistos em Manaus é mais uma evidência da
sobrevida e uma alegoria da perenização da língua, se nos lembrarmos que o
próprio Deus concedeu a Adão o poder de nomear a tudo quanto existe. O
levantamento mostra que – se não Deus, que fala todas as línguas – Adão dominava
o latim.
Lembro-me novamente de Cícero,
ao citar Solão, em Da velhice: “Envelheço aprendendo muitas coisas todos
os dias.” Simples, quase tolo. Um reflexo da vida banal. Pois quem não tem mais
nada a aprender não tem mais o que viver. Eu aprendi muito com a leitura de O
ensino de latim em diferentes abordagens teórico-práticas.
PS: a epígrafe de Catulo tem duas funções:
1 – é um exemplo do quanto o latim pode ser expressivo; e
2 – escrito há mais de dois mil anos, é um dos poemas mais
belos de um dos maiores poetas de todos os tempos: volte e leia com atenção.
Prefácio ao livro O ensino de latim em diferentes abordagens teórico-práticas, organizado pelos professores Soraya Paiva Chain e Adílio Junior de Souza.
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