Amigos do Fingidor

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Prefácio (onde se fala de memórias e de afetos)

Zemaria Pinto


Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.

Nescio, sed fieri sentio et excrucior.

(Catulo)

 

Nas minhas memórias afetivas, o cofre dos meus afetos, o latim tem um lugar muito especial, acionado pela audição da língua falada ou cantada e pela visão da língua escrita. Certa vez, perguntei à minha mãe porque os padres falavam diferente, durante a liturgia. A resposta foi rápida e ríspida: é a língua sagrada. Em seguida, quase com carinho, como a se desculpar, ela disse-me que um dia eu iria falar aquela língua. Em segredo, os moleques zombavam do ritual sagrado, arremedando a fala dos oficiantes, com trocadilhos sórdidos: só de ouvir aquilo já me sentia em pecado. E, hoje eu sei, não sofria com isso: me sentia independente, dono do meu pequeno nariz. Peccata mundi. Vem daí a minha crônica ironia?

Anualmente, visitávamos o São João Batista, em 2 de novembro. Numa dessas visitas perguntei à mamãe o que era “Laborum meta”, a inscrição nos portões do cemitério. Do seu jeito peculiar, ela respondeu-me que era latim e a língua, associada à morte, passou a ter para mim um peso de maldição.    

Mamãe se foi, sessenta anos depois, sem esclarecer o que queria dizer com aquele vaticínio de que “um dia...”. Eu ainda menino, a missa passou a ser celebrada em vernáculo e o latim foi esquecido. Mas não por muito tempo.

O movimento “Tropicália” lançou, em 1968, um LP chamado “Panis et circencis”, com dois títulos em latim: “Miserere nobis” e a música que nomeava o disco. As letras eram cantadas em português. Mas a ousadia já não assustava: no ano anterior, Caetano Veloso, uma das cabeças do movimento, lançara um disco com uma letra toda cantada em latim: “Ave-Maria”.

É claro que a embalagem de respeito à tradição dos rapazes baianos e sua horda era pura caçoada, como diria minha avó. E a gente amava aquilo.

Mais tarde, quando eu já andava sozinho pelo Centro da cidade, deparei-me com a inscrição do Relógio Municipal: “Vulnerant omnes, ultima necat”. Anotei-a e levei para minha professora Joaquina, que não só explicou-me o que significava como ainda passou-me a tradução alexandrina de Bilac, que guardei como uma nova maldição. Determinista, explicou-me a doce Joaquina:

 

Todas ferem, passando: e a derradeira mata.

 

Com o mestre Osvaldo Coelho aprendi o significado de “Libertas quæ sera tamen”, extraído de um poema de Virgílio, e a importância da luta pela liberdade. Aprendi que era preciso escolher um lado. E desde então eu escolhi.

Anos mais tarde, já adulto, não tendo mais com o que me espantar, Caetano e Elza sacudiram-me do marasmo:

 

Flor do Lácio, sambódromo

Lusamérica, latim em pó

O que quer, o que pode essa língua?

 

Eu também gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Ainda que ela venha do galego, pois este não veio do latim? Se o galego é uma língua-filha, como diz o outro Caetano, o Galindo, o português é uma língua-neta, ora pois.

Se você me acompanhou até aqui, leitora/leitor, deve estar se perguntando: e O ensino de latim em diferentes abordagens teórico-práticas? Lembro uma lição que aprendi com Cícero à época em que dei aulas de Literatura Latina, há mais de 30 anos, e que cito de memória, em português: “domina o assunto e não te faltarão palavras.” Entendeu, leitora? Entendeu, leitor? (Emoji de piscadela).




É louvável que um grupo de jovens estudiosos se reúna para mostrar a quem interessar possa que o latim continua vivo, fazendo parte da vida cotidiana, conforme fartamente demonstrado ao longo do livro, cuja leitura me deu a ideia de falar das minhas memórias afetivas com a língua.

O livro aborda, com riqueza de detalhes, e sem perder de vista o contexto histórico, os métodos e materiais disponíveis para o estudo/ensino da língua, esclarecendo porque estudá-la/ensiná-la é necessário, bem como é fundamental associar o ensino da gramática à convivência com a literatura clássica – uma não existe sem a outra.

Da mesma forma, o ensino da língua portuguesa precisa do latim como fundamento. A querida Joaquina, que me ensinou a ler literatura, falava isso e me assustava. E essa assertiva não é válida apenas para o português, mas para o aprendizado de qualquer das línguas românicas.

O intertexto com a personagem Harry Potter é uma prova cabal de que o latim continua vivo e atuante. O jovem bruxo cativa leitores/espectadores ao redor do mundo com sua dupla vivência, onde o latim é uma metáfora da sabedoria ancestral, passada de geração a geração, através dos séculos.

Por fim, o levantamento de marcas e de produtos comerciais vistos em Manaus é mais uma evidência da sobrevida e uma alegoria da perenização da língua, se nos lembrarmos que o próprio Deus concedeu a Adão o poder de nomear a tudo quanto existe. O levantamento mostra que – se não Deus, que fala todas as línguas – Adão dominava o latim.

Lembro-me novamente de Cícero, ao citar Solão, em Da velhice: “Envelheço aprendendo muitas coisas todos os dias.” Simples, quase tolo. Um reflexo da vida banal. Pois quem não tem mais nada a aprender não tem mais o que viver. Eu aprendi muito com a leitura de O ensino de latim em diferentes abordagens teórico-práticas.

 

PS: a epígrafe de Catulo tem duas funções:

1 – é um exemplo do quanto o latim pode ser expressivo; e

2 – escrito há mais de dois mil anos, é um dos poemas mais belos de um dos maiores poetas de todos os tempos: volte e leia com atenção.   

 

 



Prefácio ao livro O ensino de latim em diferentes abordagens teórico-práticas, organizado pelos professores Soraya Paiva Chain e Adílio Junior de Souza.

Para obter o livro em PDF, gratuitamente, clique aqui.