Presságio
Rojefferson Moraes
Passamos a vida toda construindo
coisas
Para morrermos sozinhos dentro dos
nossos castelos
Abandonados e fiéis ao nosso orgulho
tolo
Firmes à melancolia profunda da nossa
alma
Feito uma chaga incurável
Criamos nossos filhos como anjos
Na esperança de que não se tornarão
monstros
Na esperança de que não cometerão
atrocidades
Nem com os outros, nem com nós mesmos
Passamos a vida preocupados com os
pilares do mundo
Enquanto nossos ossos enfraquecem
A tal ponto de ser impossível
permanecermos de pé
Incapazes de prosseguir na caminhada
No compromisso com a causa, com as
paixões e com o amor
Uma vida encoberta pela casca da
força
Mas recheada de dor, incerteza e luto
Tantos projetos e planos para
amanhecer um dia
Sozinho, no chão, aos prantos, fraco
e sem fé
Tantos planos para ver desmoronar
cada um deles
Uma vida inteira de tradição para
findar jogado
Como uma folha descartada pela árvore
Tentando rir, tentando demonstrar
força para manter o mínimo de dignidade
Passamos uma vida inteira limpando
quintais
Para morrermos entre os capins e os
escombros da velha casa onde ninguém mais quer morar.