Amigos do Fingidor

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Medicina na mitologia grega
João Bosco Botelho

Vênus de Milo, modelo grego de beleza - e de saúde.

A história das mentalidades assinala que a relação entre a Medicina e a compreensão mítica da realidade se perde no tempo. É impossível separar os muitos mitos relacionados ao entendimento que as pessoas fazem da saúde e da doença. É possível que esse pressuposto esteja vinculado ao apoio oferecido pelos mitos para apaziguar a angústia pessoal e coletiva nas sociedades que ainda não conseguem explicar de outra forma as contradições da vida e da morte.

É importante assinalar que os mitos com as respectivas metamorfoses nascem da relação com o mundo da natureza empírica, mas acima do meramente empírico.

As primitivas relações míticas do homem com outros animais, na pré-história, resultaram na valorização do sangue como o mais importante elemento simbólico. Posteriormente, depois do sedentarismo dos caçadores-coletores, o sangue foi substituído pelas novas relações com a terra cultivada, quando ocorreu o deslocamento dos mitos de origem em direção aos valores dos frutos da terra.

A lenda do guaraná dos índios maués, no Amazonas, tratando a fruta como remédio para todos os males, é um entre muitos exemplos de como os mitos de origem podem se relacionar com as mentalidades, sustentando, durante centenas de anos, explicações pontuais da saúde e da doença, da vida e da morte.

Nesse sentido específico, a construção dos mitos junto à terra cultivada contribuiu para fortalecer o uso das plantas na busca da saúde.

Muitos traços dessa mitologia passando do sangue à terra cultivada, como elementos essenciais à sobrevivência dos homens e das mulheres, evoluíram da Epopeia de Gilgamesh, dos babilônios, à gênese judaico-cristã, passando pela Yebá beló, a lenda dessana da criação do Sol.

Apesar da melhor compreensão da transformação do pensamento mítico e das incontáveis metamorfoses, a dificuldade da interpretação aumenta na proporção do tempo passado.

No Ocidente, a partir do século VI a.C., na Grécia, é possível construir, com alguma segurança, um perfil mítico da Medicina, em torno de metamorfoses que perduram até os dias atuais.

Na mitologia grega, a Medicina começou com Apolo, filho da união de Zeus com Leto. Inicialmente, Apolo era considerado como o deus protetor dos guerreiros; depois, foi identificado como Aplous, aquele que fala verdade. Esse deus curava as pessoas purificando a alma por meio de lavagens e aspersões e remédios obtidos das plantas medicinais. Por essa razão, Apolo era considerado como o deus que lavava e libertava o mal.

Um dos seus filhos, Asclépio recebeu educação do centauro Quíron para ser médico. A escolha do centauro não foi por acaso; ocorreu porque dominava os saberes da música, magia, adivinhações, astronomia e Medicina. Além dessas habilidades, Quíron possuía incomparável destreza: manejava com a mesma habilidade o bisturi e a lira.

Nos muitos templos espalhados nos territórios sob influência grega, Asclépio, o deus da Medicina grega, era celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro.

Asclépio conquistou fama inimaginável: demonstrava a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Os doentes que não obtinham a cura em outros oráculos procuravam os milagres desse deus taumaturgo. Mais cirurgião do que médico, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por ordem de Zeus, temendo que a ordem do mundo fosse transtornada, foi morto com os raios dos Ciclopes.

Asclépio deixou duas filhas e dois filhos. As filhas: Hígia, celebrada como a deusa da saúde perfeita; Panaceia, como vínculo das relações míticas com os frutos da terra cultivada, curava todas as doenças por meio das plantas medicinais. Os filhos, Machaon e Podalírio, os famosos médicos guerreiros, descritos por Homero, se destacaram recuperando a saúde dos guerreiros feridos na guerra de Troia.

Coube a Panaceia continuar a linhagem de médicos, fazendo do seu filho Hipocoonte, um médico famoso e ancestral de Hipócrates.

Existem muitas comprovações arqueológicas das dádivas de agradecimentos dos doentes para Asclépio. Especialmente, na ilha de Cós, onde floresceu a Escola Médica de Hipócrates, na Grécia, foram encontradas várias esculturas com o nome do doente a descrição da doença e da cura obtida. Outras esculturas contendo o nome de Asclépio, produzidas entre os séculos 6 e 2 a.C., contêm a serpente enrolada num bastão.

O simbolismo mítico da serpente ligado à Medicina já estava presente na civilização babilônica, dez séculos antes da formação da polis grega. Existe no Museu do Louvre, em Paris, um vaso de cerâmica encontrado na região de Lagash, representando o deus da cura babilônico – Ningishida – duas serpentes entrelaçadas.

De modo geral, os mitos que envolvem a serpente ligam-se à transcendência da morte. Entre as mais conhecidas explicações para entender a relação da Medicina com a serpente se destacam: a serpente pode viver em cima e embaixo da terra, atuando como mediador entre os dois mundos, e a capacidade da serpente para mudar a pele de tempos em tempos, encenando o renascimento. Esta última interpretação está relatada no Rig Veda (1.79,1), no qual os Adityas são descritos como os descendentes das serpentes, que, ao perderem a pele velha, venceram a morte e adquiriram a imortalidade.

Após a conquista romana da Grécia, Asclépio foi latinizado como Esculápio e as festas de celebração desse deus curador foram mantidas no dia 18 de outubro.

Com a cristianização de Roma, a partir de Constantino, no século 4, as festas populares comemorando o poder curador de Asclépio, no dia 18 de outubro, continuaram e se espalharam na Europa cristã.

O poder eclesiástico romano, sem força para interromper essa festa greco-romana, decidiu que o dia 18 de outubro, marcado pelas celebrações de Asclépio e Esculápio, fosse associado ao nascimento de São Lucas, o Evangelista médico.

A serpente de Asclépio se enrolou na cruz cristã e formou um dos mais belos sincretismos da história da humanidade. A primeira, símbolo da imortalidade embaixo da terra; a cruz, como a representação do inatingível acima da terra, fecham o ciclo mítico pendular entre o desconhecido situado acima da cabeça e abaixo dos pés do homem.

É possível que alguns dos médicos que se reúnem, nos dias atuais, para festejar a Medicina no dia 18 de outubro, desconheçam que continuam celebrando Asclépio.
.

Asclépio, com a serpente, e os filhos Hígia, Panaceia, Machaon e Podalírio.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Boris Vallejo.
drops de pimenta 36


─ Ah, não; mais uma sexta-feira com aqueles...
─ Aqueles?...
─ Aqueles “porres” é redundância, né?

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os Sertões – uma tragédia brasileira (5/8)
Zemaria Pinto













segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinte anos da derrubada do muro de Berlim:
a busca da liberdade
João Bosco Botelho

A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte.
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida.
A gente quer bebida, diversão, balé.
(Fragmento da música “Comida”, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito)

A histórica noite de 09 de novembro de 1989.

Para compreender os múltiplos fatores que culminaram com a queda do muro de Berlim, construído sob a ordem de Nikita Khrushchev, o presidente do poderoso partido comunista da extinta União dos Estados Socialistas Soviéticos (URSS), em 1961, é indispensável relembrar que o pressuposto socialista-comunista, nos anos cinquenta e sessenta, como chamamento coletivo em direção a uma sociedade mais justa, contrapondo o horror nazista-fascista, encantou incontáveis pessoas plenas de vontade para diminuir as diferenças e injustiças sociais. Particularmente, na América latina, onde a miséria e a exploração dos trabalhadores atingiam níveis desumanos, ocorreu maior resposta.

Os fatos mostraram que a propaganda socialista-comunista, prometendo comida, educação e moradia para todos, tendo à frente o simbolismo da bandeira vermelha com a foice e o martelo, estava muito distante da realidade vividas pelos povos da Europa do leste.

Os sinais do fracasso socialista-comunista
O processo da ruína da ordem socialista-marxista, no leste da Europa, foi claramente mostrado ao mundo, em especial, aos que possuíam informações suficientes para interpretar os fatos, em dois momentos distintos:
– O levante, em 1956, contra o presidente do partido comunista húngaro Matias Rikosi;
– A revolta da primavera de Praga, no dia 20 de agosto de 1968, quando os tanques soviéticos entraram na capital da Tchecoslováquia para impedir as propostas reformistas do dirigente Alexander Dubcek.

O muro
Entre as muitas consequências da derrota do nazi-fascismo, destacou-se a divisão político-territorial da Alemanha em dois segmentos: a parte oriental ficou sob a guarda russa e a ocidental na custódia da Inglaterra, França e EUA.

Nos primeiros anos após a divisão territorial não havia dificuldade para cruzar as fronteiras. Os empecilhos foram aumentando a partir da revolta popular, em 1953, na Alemanha Oriental, contra o partido comunista. Com a gradativa perda das liberdades pessoais, a moradia, a comida e a escolaridade garantidas perderam o sentido.

Sob a égide de que casa, comida e escola não eram tudo o que todos desejavam, até 1960, ocorreu a fuga de quatro milhões de pessoas para o lado alemão ocidental, incluindo os milhares de cientistas, pesquisadores e técnicos especializados.

No dia 13 de agosto de 1961, para tentar conter o maior esvaziamento populacional da Alemanha Oriental, o Partido Comunista da URSS ordenou a construção do muro de Berlim. Em poucos meses ergueu-se a gigantesca barreira de três metros de altura, com 160 quilômetros de extensão, rodeada por área em torno de 200 metros quadrados, equipada com detectores eletrônicos de calor, minas e arame farpado.

O muro conteve parcialmente a fuga na busca da liberdade. Mesmo após o término da edificação, 188.000 pessoas ainda conseguiram escapar. Os métodos usados foram belos e surpreendentes: balão artesanal confeccionado durante três longos anos, túneis cavados na calada da noite, asilo político nas embaixadas estrangeiras e, simplesmente, enfrentamento das metralhadoras ao escalarem o muro da vergonha.

Desgraçadamente, 187 pessoas foram metralhadas e mortas ao tentarem buscar, a qualquer preço, mais liberdade do outro lado do muro. O alucinado ditador Eric Honecker, presidente do Partido Comunista da Alemanha Oriental, autor da célebre frase “O muro vai durar um século!”, foi responsabilizado pela ordem para matar, sem vacilação, os que tentaram viver longe dos comunistas.

Homenagem aos mortos do muro.

Vendo de perto a ausência da liberdade
Nas férias do verão de 1981, durante o doutoramento em Paris, estive com a minha família na Alemanha Ocidental, junto ao muro. Ao chegarmos, presenciamos uma cena que permanece viva até hoje: sobre uma plataforma de madeira, um homem jovem, fortemente abraçado pela esposa, levantando sobre a cabeça uma criança de poucas semanas, por meio de gritos e gestos enfurecidos, ambos chorando convulsivamente, gritavam: “Esse é o seu neto! Seu neto! Um dia, Deus permitirá nosso reencontro longe desses assassinos!”

A queda do muro de Berlim
Em junho de 1989, ocorreu um novo e espontâneo movimento de fuga da Alemanha Oriental. Milhares de homens e mulheres cruzaram as fronteiras austríacas e húngaras, menos vigiadas. Cinco meses depois, o muro foi derrubado com a força descomunal das picaretas de milhares de pessoas que gritavam a esperança de mais liberdade.

Como na queda da Bastilha, em 1789, não houve resistência. As contradições internas do sistema socialista-comunista alcançaram um ponto insuportável. Nas palavras de Egon Krenz, presidente do partido comunista alemão, a quem coube concretizar o desmanche do regime: “Aprendemos uma lição que não vamos esquecer!”

A ruína do positivismo marxista
No Leste da Europa, o resto veio mais rapidamente do que todos os historiadores poderiam esperar: dissolução dos Partidos Comunistas, as muitas universidades do socialismo-comunismo fecharam as portas, derrocada da gerontocracia comunista, os tanques soviéticos partiram de Praga, os julgamentos “éticos” alimentados pela calúnia obsequiosa foram tornados públicos, os restos mortais dos que resistiram ao stalinismo foram exumados como heróis, restaurada a liberdade de consciência e religião e os dissidentes tchecos e húngaros deixaram de ser loucos.

Finalmente, os registros da KGB (polícia política da URSS) indicaram mais de 4 milhões de assassinatos e como a Stasi (polícia política da Alemanha Oriental) fabricou o escândalo homossexual do general Kiessling, do Alto Comando da OTAN.

Novos muros
A frase do historiador alemão Smyser, no livro From Yalta to Berlim, ajudará as futuras gerações a não esquecer: “A queda do muro é desses eventos que dividem épocas. Talvez os historiadores escolham aquela noite como o fim da Idade Contemporânea.”

Infelizmente, a lição da queda do muro Berlim não foi suficiente aos governos. Sob novos pressupostos políticos e ideológicos, também desumanos, outros muros foram construídos em várias fronteiras, restringindo as liberdades:
– Entre os Estados Unidos e o México, para conter o fluxo de imigrantes ilegais;
– Em Ceuta e Malilla, cercas metálicas com holofotes potentes e sensores, separando a Espanha do Marrocos;
– Entre Israel e a Palestina, para restringir o acesso de palestinos aos territórios em conflito militar;
– Entre as duas Coreias.

Todos os muros que cerceiam as liberdades são frágeis! Mais cedo ou mais tarde, cairão como castelos de cartas!

O muro da vergonha.

O novo acordo ortográfico
Tenório Telles


A vida é feita e se faz pelas mudanças. Sem as transformações a existência se cristalizaria, as relações sociais se tornariam exaustivas e as ideias repetitivas e vazias de sua força e significados. O poema “Moto contínuo”, de Zemaria Pinto, é expressivo da inconstância que caracteriza as coisas, o fazer humano e nossa percepção sobre o mundo: “Tudo muda, tudo passa,/ tudo está em movimento/ sobre a terra e sob o céu,/ inclusive o pensamento”.

A língua, como fenômeno humano e social, não está imune a esse processo. Prova disso são as alterações que a língua portuguesa sofreu ao longo de sua evolução. O ano de 2009 entra para a história do idioma como o marco de uma ação política para aproximar, por meio de um acordo ortográfico, os falantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O documento foi aprovado em Lisboa, em 12 de outubro de 1990, pela Academia de Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações dos demais países que têm como língua oficial o Português. Segundo o que estabelece o documento, o ato foi “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”.

Não é a primeira mudança vivida pela “última flor do Lácio”, como se referia Olavo Bilac ao idioma: em 1911, na primeira Reforma Ortográfica, Portugal tomou a iniciativa de uniformizar e simplificar a escrita de certas formas gráficas. Com essa reforma desapareceu o “ph”, usado em palavras como “pharmacia”. Quatro anos após, a Academia Brasileira de Letras realizou a unificação da ortografia brasileira com a portuguesa, experiência que não se consolidou.

Em 1931, foi aprovado o primeiro Acordo Ortográfico entre Brasil e Portugal, em que se pretendia abolir as diferenças e unificar a língua portuguesa. No ano de 1943 ocorreu a Convenção Ortográfica entre Brasil e Portugal que resultou na elaboração do Formulário Ortográfico, que, em 1945, tornou-se lei na pátria de Camões, situação que só foi corrigida no Brasil, em 1971, com a promulgação das alterações na ortografia, o que contribuiu para reduzir as divergências ortográficas em relação a Portugal. Essas iniciativas convergiram para o entendimento entre os governos dos países de fala portuguesa e resultaram no Acordo que entrou em vigor no início deste ano. O prazo de adequação é até 31 de dezembro de 2012.

As mudanças geram resistências e polêmicas. Apesar disso, o Acordo Ortográfico entrou em vigor e todos começam a se adaptar às novas regras quanto ao uso da língua. O fato é que, apesar das críticas, o português deixará de ser um idioma com dois cânones oficiais (um europeu, falado em Portugal, e outro brasileiro), o que facilitará o seu aprendizado em outros países, a comunicação e a integração entre os falantes do idioma. O filólogo Antonio Houaiss, defensor histórico do Acordo, ressaltava as inconveniências geradas pelo problema da duplicidade ortográfica: “A existência de duas grafias oficiais acarreta problemas na redação de documentos em tratados internacionais e na publicação de obras de interesse público”.

Como já ocorreu nas mudanças anteriores, os falantes se adaptarão gradativamente e a língua se firmará e ganhará mais espaço na comunidade internacional, sem falar que o intercâmbio de conhecimentos e livros será facilitado, especialmente nos países de língua portuguesa. Além da aproximação entre essas nações, haverá uma ampliação da circulação de livros, potencializando o mercado editorial nos diversos países, com a redução dos custos de produção e adaptação das obras. Desse modo, um livro editado no Brasil poderá circular sem restrições em Moçambique, Angola, Portugal e demais países da Comunidade de Língua Portuguesa.

As mudanças propostas pelo Acordo abrangerão fundamentalmente a ortografia. Os demais aspectos gramaticais e linguísticos, relacionados à pronúncia e às particularidades de significados dos países, não sofrerão alterações. As alterações ortográficas são um bom pretexto para voltarmos à gramática e, quem sabe, nos reencantarmos com a beleza dessa língua que se tornou bela e melodiosa, e legou à civilização algumas das vozes mais belas da literatura universal.

domingo, 8 de novembro de 2009

Oyama Ituassu (21/09/1916-07/11/2009)


Membro da Academia Amazonense de Letras, a qual presidiu de 1990 a 1995, professor de Direito Internacional Público na Universidade Federal do Amazonas, juiz e desembargador, Oyama Ituassu deixou, entre outros títulos: A luta pela formação de uma consciência nacional, Aspectos do Direito, Direito Público Internacional (2 volumes), A escravidão no Amazonas e Histórias das ruas de Manaus. Seu livro mais recente, de 2007, é O colonialismo e a escravidão humana.
Anselmo Duarte (21/04/1920-07/11/2009)

Letícia
II
Allison Leão


Há algumas semanas, num domingo, José chegou da feira. Quase como adivinhação de eventos singulares, teríamos uma iguaria no almoço: tucunaré cozido. Trouxe cebola, cheiro-verde e tomate numa sacola; dois peixes enrolados em folhas de jornal; e um tempero de esquisitices na cara, no qual se podia distinguir a vermelhidão do colorau e o calor da pimenta murupi. Entrou em casa calado, mas falante na expressão. Passou por nós deixando no ar o suspense. E o pitiú, é claro. Seguiu num mergulho eufórico até a cozinha. Fomos lá conferir. Urgente como quem passou muito tempo sem amar, ele abriu o pacote sobre a pia. Com a água da torneira, limpou uma manchete do jornal suja pelo sangue dos tucunarés. E pudemos ler por cima de seus ombros, entre um peixe e outro: “O Corpo de Baile do Teatro Amazonas tem agora em seu quadro uma verdadeira estrela: integrou-se ao grupo a mundialmente aplaudida bailarina Letícia etc. etc. etc.” Os tucunarés, de cara um pro outro, estavam boquiabertos.

Até então, Letícia fora uma caixa de não e nem, enterrada sob a tabatinga. Ordem dada na palavra do silêncio de José. Uma vez, no mormaço cambiante da programação televisiva, José, de repente, estacou num canal que passava uma apresentação de balé. Estávamos apenas os dois na sala, e depois de tantos anos nem atinei que poderia ser Letícia. Talvez nem fosse. Em meu irmão, a lembrança de Letícia talvez doesse mais que Letícia. Agora, uma coisa ou outra ressurgia no meio do domingo, erguia-se do sangue do pescado e dançava o passado na nossa cara. Felizmente, não havia retrato dela no jornal. Senão, quem sabe, até eu teria me apaixonado.


Na sua proposta de mixar tendências contemporâneas de dança com as tradições da cultura amazonense, o Corpo de Baile do Teatro Amazonas não sabia que misturava nisso as sobras do coração de José. Até a estréia de Letícia, duas semanas depois, ele era só a bebedeira da ansiedade. Coçou até o osso a contagem das horas e minutos. Errou troco no ônibus, para mais e para menos. Deu bom dia ao velho Mercedes Benz e ignorou o fiscal da linha. E nós, semanas a pão e ovo. José, que quase não falava desde a remota rejeição ao seu sotaque, agora cantava. Eu não conhecia aquelas canções. Muitas palavras nem as reconhecia. Uns instantes, elas resvalavam no Português, para logo em seguida se afundarem no castelhano e depois voltarem lá do fundo, num idioma desconhecido para mim – uma mistura que me confundia no entendimento, e mesmo assim me acalmava no ouvido. Como ele trouxera de Tabatinga aqueles cânticos, na bagagem? Mas estavam ali, anos de naftalina exalando na voz de meu irmão, a música saindo pela cumeeira e pelas frestas entre as tábuas de nossa casa. Umas vezes José abria as janelas, e a torrente sonora ficava maior. E a vizinhança comentava.

No dia da estréia de Letícia, meu irmão era uma presença que enchia a casa e a rua. Após o almoço, saiu para comprar flores de plástico e toalhinhas de tricô, com as quais enfeitou a TV, o aparelho de som, a geladeira e a mesa da cozinha. Lavou a louça que já estava limpa, varreu a casa, passou pano e depois encerou. Fora da casa, capinou o mato, retirou o lixo da rua numa distância de cinco casas a partir da nossa, para a direita e para a esquerda. Chegou a recolher um gato apodrecido que fora atropelado dois dias antes. Não solicitou nossa ajuda para nada. Não sei se ele sabia que eu acompanhava, curioso, suas ações sentimentais.

No começo da noite foi para o quarto, e pude ouvi-lo revirar os anos de amor e mágoa socados nalgum baú que ele escondesse embaixo da cama. Quando saiu de lá, vestia uma roupa tão antiga e patética, que só chamava menos atenção que o cabelo emplastado de gel fixador, o produto se confundindo com o suor na testa. Agora não sei. Talvez a roupa não fosse tão antiga assim. Quem sabe era meu irmão que estava antigo dentro daquela roupa. Estourando por entre os botões da camisa, não cabia direito nem a barriga nem a expectativa. Passou por mim sem parar. Não lhe interessava saber nem de aprovação nem de rechaço. Mas, antes que a porta se fechasse, pude ouvir: “¡Hasta luego!” E saiu.

Um pouco antes de o sono esmagar minha espera, fui à janela ver a noite. Não tinha luar. Nem brisa suave. Tampouco céu estrelado. Uma noite entre a rotina da anterior e o comum da seguinte. Quente. Até agora, inusitado apenas o hasta luego de meu irmão.

Imaginei José na Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, onde aconteceria o espetáculo de Letícia. Muita gente havia ido à praça aquela noite. “A cultura de portas abertas”, diziam as propagandas do governo. Espetáculos gratuitos. Quando José chega à esquina da 10 de Julho com a Eduardo Ribeiro, percebe que muita gente quer entrar por essa porta hoje à noite. Mas a porta que interessa ao meu irmão é outra. Ao se aproximar, José sente pequenas vibrações dentro do peito. Pensa que é o coração querendo chegar antes dele. Mas não demora a perceber que se trata da percussão da Amazonas Filarmônica.

Muito longe e elevado, o palco. José só pode acompanhar a magistral coreografia por um telão, e de tão próximo que ficou, quase pode tocar a tela. Mas ali, de pertinho, o que enxerga não é propriamente a cena; enxerga apenas os infinitos, diminutos e inconciliáveis pontos do telão. Depois, no entanto, entre com-licenças e empurrões, ganha certa distância e outra perspectiva, até poder encher os olhos com os corpos e a luz e a música. Se fosse eu, eu me perderia em distrações da cabeça: o que vêem os bailarinos e as bailarinas quando olham para o público, lá em baixo? uma cena inteira? pontos? E se descessem do palco e olhassem as pessoas rosto a rosto? Um homem que dorme. Uma criança que chora. Uma mulher que ri. Uma moça que boceja. Um cão que mija. Uma velha que aplaude fora do tempo. Mas a luz é para o palco, não para a platéia. Bailarinos e bailarinas dançam para uma ilusão feita de trevas. Se não o fosse, talvez descessem do palco e se assombrassem porque, enfim, não vendo, veriam meu rosto que não foi à praça, ficou em casa olhando para uma noite que nada prediz, pensando: que será de José e seu coração espremido pelos cotovelos do povo?

Nem a multidão nem o Corpo de Baile do Teatro Amazonas chegaram a ouvir que o peito de meu irmão atravessou o ritmo da Filarmônica quando enfim Letícia pisou no palco.


Caí no sono antes que se encerrasse o primeiro ato de meus pensamentos. De manhã, a ansiedade sacudiu minha rede. Na cozinha, encontrei José Luiz e José Américo. Sorviam o café frio e envelhecido pelo descuido de nosso irmão e mastigavam um debate sobre a natureza de Letícia. Absortos, nem me perceberam. Após ouvir um pouco das considerações que ambos faziam a respeito de Letícia, fui ao quarto de José e de passagem vi que as flores não haviam murchado. (Na hora, nem me toquei que eram de plástico.) Encontrei a cama cheia de todo o vazio que têm as camas arrumadas.

José Américo e José Luiz ainda não chegaram a uma conclusão sobre a natureza de Letícia. Sequer sobre sua presença em nossa casa após a estréia. José Américo diz que ela era uma luz que vinha em ondas visíveis. Que a graça de seu caminhar nem sabia o chão. José Luiz, entretanto, fala que, se viu algo naquela noite, era um buraco negro no meio da escuridão, uma massa densa e obscura. Apenas o silêncio continuado, uma ensurdecedora agulhada nos ouvidos.

Não vejo em mim tendência a fechar com qualquer um dos dois. Não tento analisar o que é Letícia. Talvez um dia o faça, como hoje fazem meus irmãos. Por ora, eu apenas sinto, como se sente uma fome. É algo assim que temos em comum, eu e meus três irmãos, em relação a essa mulher: fome. E como José Luiz e José Américo vivem de ser o contrário um do outro, não pretendo lhes dizer que há algo de muito parecido nas suas noções a respeito de Letícia, pois a fome é ao mesmo tempo, e poderosamente, uma presença e uma ausência.

Em seus debates meus divergentes irmãos não tocam no nome de José, que até onde eu sei não voltou para casa desde aquela noite. Isso foi há semanas. Mas, se ele estivesse aqui, não sei se faria muita diferença. Certamente não me contaria sobre seu encontro (ou desencontro) amoroso. Uma hora dessas, sairia para a rua sem dizer nada. Às vezes cogito que, nessas últimas semanas, ele tenha aparecido aqui em casa. Talvez tenha passado por mim, sem se fazer notar, como de costume. Talvez ainda more aqui, mais discreto que nunca. Mas não sei por que o silêncio de seu castelhano tem ecoado nas tábuas das paredes, retinido no zinco de nossa casa e reverberado na minha cabeça.

sábado, 7 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Daniel dos Santos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A alegria do velho palhaço é ver o circo pegar fogo
Zemaria Pinto

Este não é o Caetano Veloso; é que eu precisava colocar alguma coisa agradável neste post...
.
Caetano Veloso já faz parte da história da música popular brasileira (em minúscula, mesmo: MPB é o cacete!). Mas Caetano, antes de ser o cantor excelente e o compositor exemplar, caracteriza-se por ser um polemista de boca cheia: tudo o que ele falou nos últimos 43/44 anos transformou-se em polêmica. A imprensa autofágica serve-se do velho palhaço há mais de quatro décadas para divertir a plebe ignara – que Caetano Veloso, aliás, tanto despreza.

E haja opinião: Caetano já construiu/destruiu mitos (alguns dos quais sequer mereciam beijar-lhe os ossudos pés) e a imprensa canalha, covarde, vil, segue extorquindo do velho palhaço suas opiniões idiotas. Caetano tem opinião formada sobre tudo: seja sobre Woody Allen, que não sabe quem é Caetano, seja sobre Lula, que prefere música sertaneja e forró. Caetano só não tem opinião sobre essa imprensa abjeta, porque ele se alimenta dela (sei do cacófato), como um verme que se alimenta da podridão do seu entorno. Caetano é um parasita desse corpo apodrecido chamado imprensa, que precisa de Caetano para continuar alimentando o zé povim estúpido com polêmicas idiotas, vazias, manipuladoras. É um podre poder.

Certo está a Partimpim: “Vamos comer Caetano!”, mas só quando ele estiver cantando (nem que seja o Peninha!), porque quando ele fala é amargo, azedo, venenoso – podre. Certo estava aquele personagem do Almodóvar (amicíssimo de Caetano), em Hable con ella, que, após ouvir o velho palhaço cantando La Paloma (aquela do “cucurrucucu”), diz, com os olhos marejados: “Ese Caetano me encrespa los pelos del culo.”

O velho palhaço posando para a RS em seu figurino favorito.
Macunaíma e a reforma ontográfica.

O nascimento de Macunaíma, por Carybé (1911-1997).

Como encerramento de suas atividades no ano de 2009, a Cátedra Amazonense de Estudos Literários – CAEL – promoverá palestra com o Prof. Dr. Fernando Scheibe, professor de Literatura na UFAM. Ministrando no Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia uma disciplina a respeito de Macunaíma, principal obra de Mário de Andrade, o Prof. Scheibe centrará nesse livro sua palestra, cujo título é Macunaíma e a reforma ontográfica. Livro fundamental de nossa literatura, Macunaíma tem no seu inesgotável acervo erudito e popular um material para debates constantes, com os quais a UEA agora contribui. Com este evento, a CAEL fecha um ano em que as discussões sobre a literatura no Amazonas tiveram intensa participação dos membros do grupo. Destacou-se em 2009 a realização do I Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário, sediado na UEA, que contou com a participação de pesquisadores de várias procedências do Brasil e do exterior. Das palestras realizadas naquela ocasião, a do Prof. Scheibe, que tratou da obra de Guimarães Rosa, foi uma das que mais se destacaram. Agora o pesquisador visita mais uma vez a UEA, numa nova oportunidade de incrementar os debates literários. Além do Colóquio, destaca-se como atividade da CAEL o aparecimento da revista de estudos literários ContraCorrente, a ser lançada em breve.

A palestra de Fernando Scheibe será realizada na Escola Normal Superior, dia 13 de novembro, às 10h.

na trilha do eterno


por três vezes
subiu a montanha.
por três vezes
contemplou a lua cheia
banhando de ouro o templo.
por toda a eternidade
dissemina a essência do
belo.

(Adrino Aragão)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da selva de pedra à selva amazônica


Será no sábado, às 10h, o lançamento de Da Selva de Pedra à Selva Amazônica, um livro que mistura ficção e realidade. Com o intuito de narrar sua aventura, Jurandir de Souza Macedo nos leva a viver momentos doces da infância e nos leva de encontro aos mais cruéis problemas sociais de nosso país, envolvendo o leitor pela imaginação, exaltando os belos lugares que visitou e as realidades que conheceu.

A obra chega a ser um guia com opções turísticas pra qualquer aventureiro e amante da natureza. Mais do que registrar as belas paisagens que contemplou em viagens e as arriscadas aventuras que viveu, percorrendo a metade do território brasileiro, em meio à poeira, atoleiros e vários outros obstáculos, Macedo convida o leitor para uma viagem diferente, onde o transporte é a mente e os destinos são as mais importantes lembranças, agradáveis ou não. O medo do desconhecido, o pavor de não completar a jornada, dão lugar a coisas bonitas, onde o verde encanta a visão dos mais exigentes e ainda a sensação de pioneirismo, como se fosse os conquistadores da fabulosa Amazônia.

Ao narrar as fases de sua viagem, o autor relembra sua infância. Os costumes, valores familiares e culturais daquela época são passados de forma descontraída, instigando o leitor a uma avaliação sobre as transformações sociais ocorridas no Brasil, com a mudança da família do interior para a cidade grande, nos anos 50.

O Autor
Jurandir de Souza Macedo, nascido em Santarém-PA, veio para Manaus em 1956. Residiu no Rio de Janeiro de 1966 a 1978, onde prestou serviços ao Exército brasileiro e teve oportunidade de mostrar a arte cabocla através de suas pinturas. Desde tenra idade, começou suas atividades artísticas pintando e desenhando paisagens amazônicas e figuras da sociedade. É formado em Educação Artística pela UFAM. Em 1964, realizou uma exposição de pintura e desenho sob o patrocínio do Governo do Amazonas e do Jornal do Comércio.


Evento: Lançamento de livro
Título: Da Selva de Pedra à Selva Amazônica
Autor: Jurandir de Souza Macedo
Páginas: 164
Valor do livro: R$ 30,00
Data: 7 de novembro de 2009 (sábado)
Horário: 10h
Local: Livraria Valer – Rua Ramos Ferreira, 1195 – Centro
Contatos: 3635-1324 (Editora Valer)
Medicina nas primeiras cidades: Egito e Mesopotâmia
João Bosco Botelho

Sitala, a deusa da varíola.

Com a consolidação do sedentarismo, nas margens dos rios piscosos, em torno de 5.000 anos, no Norte da África — Egito e Mesopotâmia — e algumas áreas da Ásia — Índia —, importantes modificações foram se processando nos antigos grupos nômades de caçadores-coletores. Entre as mais significativas, que mudariam para sempre as relações sociais humanas anteriores, se destacaram: a construção das elites dominantes laicas e religiosas, as práticas agrícolas, os ajustes e a defesa da territorialidade e os panteões.

Como fruto dessas mudanças, as sociedades francamente hierarquizadas acolheram regras destinadas às propriedades privadas, moldando os assentamentos mais duradouros.

Os aldeamentos foram substituídos pelas primeiras cidades e, no milênio seguinte, as civilizações regionais se consolidaram e assimilaram diferentes formas de poderes, predominando o teocrático e o mercantil-escravista. As guerras contínuas pela posse do território ofereciam escravos e terras, fortalecendo a escravidão e a propriedade privada.

Muitas mudanças provocadas pelo sedentarismo contribuíram para fortalecer a figura social do médico. De modo geral, os registros disponíveis, no Egito (Novo Império, XVIII a XX dinastias, 1.540 a 1.069 a.C.), Mesopotâmia (Babilônia, no período de Hammurabi, 1792-1750 a.C.) e Índia (Mohenjo-Daro, 2.500 a.C.), indicam que apesar de poucos, os médicos já eram personagens sociais reconhecidos e com nominação própria, instruídos na arte de curar por meio de remédios e cirurgias.

Os médicos dessas cidades sem um processo teórico que explicasse a saúde e a doença, apesar de terem iniciado a Medicina como uma especialidade social, ficavam atados às crenças e idéias religiosas, onde a vontade dos deuses e deusas era mais poderosa que os remédios e as cirurgias.

Por outro lado, mesmo com a comprovação histórica da estreita ligação dos médicos ao panteão — Medicina divina — em ensaios de acertos e erros, compondo o conhecimento historicamente acumulado, houve a busca de novos saberes da natureza circundante para curar as doenças — Medicina empírica. É possível que a proximidade entre essas duas práticas médicas, em especial as praticadas nos templos pelos representantes dos deuses e deusas, os sacerdotes e as sacerdotisas, tenha promovido a semente que levaria à construção da Medicina oficial, amparada pelo poder dominante.

De certo modo, mutatis mutandis, nos quatro cantos do planeta, continuamos comprovando a existência dessas três Medicinas.

ÍNDIA: MOHENJO-DARO
Em algumas áreas geográficas da atual Índia, especialmente, numa das mais antigas cidades do mundo, Mohenjo-Daro, floresceram práticas médicas também ligadas aos deuses e deusas, mas com impressionante número de livros que tratavam de questões médicas ainda hoje pouco compreendidas.

A principal característica dessa Medicina, em relação às do Egito e da Mesopotâmia, é o fato de cada doença ter sido tratada como certa categoria. Dessa forma, não havia a compreensão da nosologia em grupos de moléstias causadas pela mesma origem. Como consequência, gerou um enorme edifício de identidades dissociadas.

As rígidas regras religiosas, antes do período bramânico, interditaram o acesso à anatomia e fortaleceram as fórmulas mágicas contra demônios e os representantes humanos, com registros do Atharvaveda, o Veda da longa vida.

A Medicina divina estava nas mãos dos brâmanes, que transmitiam os saberes de Brama, e a Medicina empírica nas dos práticos, Vaidya, fora dos templos.

O deus principal ligado à Medicina, uma divindade menor, Dhanvantari ou o médico dos deuses. Apesar de não ser citado nos Vedas, aparece com especial realce nos Puranos. O principal texto da Medicina da Índia antiga, o Susruta Samhita (I, II, 12, 16), identifica-o como médico divino que recebeu de Brama o Ayurveda.

É interessante assinalar que, se comparada com outras divindades dos muitos panteões que povoaram as ideias e crenças religiosas, o deus Dhanvantari perdeu gradativamente a importância: retirado da posição divina para a de avatar de Vihnu, assumiu a forma humana, rei e médico, que morreu da mordida de uma cobra.

No período bramânico, iniciaram-se os esboços do estudo da anatomia. No livro o Susruta Samhita (III, 5), o corpo humano teria 300 ossos, 90 tendões, 210 articulações, 500 músculos, 70 vasos sanguíneos, 3 humores, 3 espécies de secreções e 9 órgãos dos sentidos. Trata-se de grande avanço na construção das ideias medicais, porque esse entendimento materializou partes do corpo fora do panteão.

Como acréscimo à materialização, ao largo do domínio dos deuses e deusas, a saúde e as doenças eram compreendidas, respectivamente, pelo equilíbrio e desequilíbrio de três humores ou partes vitais, essenciais, do corpo: o espírito, a bile e a fleuma.

Essa interessante estruturação de novas categorias, absolutamente originais, para materializar as moléstias seria retomada e ampliada na Escola de Cós, na Grécia do século 4 a.C., por Políbio, o genro de Hipócrates.

Como na Mesopotâmia, as primeiras culturas da Índia antiga, igualmente assentadas em áreas de várzea, nas margens do Rio Indo, com mosquitos proliferando na beira-rio fértil, a febre era a mais importante de todas as doenças, dividida em sete tipos diferentes; de acordo com o intervalo entre as exacerbações, era associada à cólera do deus Siva.

A varíola, claramente descrita com todas as complicações, inclusive causando a morte, era associada à deusa Sitala, nome que também designava a doença.

Um dos aspectos mais espetaculares dessas práticas médicas foi tecido em torno da cirurgia com descrições de técnicas cirúrgicas, como o retalho indiano, até hoje utilizado na reconstrução do nariz ou rinoplastias, regras para os curativos pós-operatórios e instrumentos específicos para facilitar a execução cirúrgica, como os vinte tipos de objetos cortantes, afastadores e as agulhas curvas de diferentes tamanhos.

As rinoplastias tornaram-se uma das cirurgias mais comuns por que a mutilação nasal era imposta como castigo em vários delitos, entre eles o adultério, descrito nas Leis de Manu.

Esse mesmo código de leis e procedimentos determinava importantes regras de higiene pessoal e coletiva: limpeza diária do corpo, lavagem da boca após as refeições, e retirar de dentro da casa as água servidas, fezes e urina.
.
Rua de Mohenjo Daro.
Os Sertões – uma tragédia brasileira (4/8)
Zemaria Pinto
.








quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Fantasy Art – Galeria

Fenestre.
Luis Royo.
drops de pimenta 35


─ Eu sei de casos... Eu não falo pra você...
─ Segredo comigo?
─ Não é segredo; é discrição.
─ ...
─ Tem dois da nossa turma que só funcionam com Viagra...

(Zemaria Pinto)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As safadinhas encantadas de nossa velha infância

Simão Pessoa

Se você tem mais de 40 anos, teve uma boa infância e gostava de HQs, é quase impossível que em algum dia de sua vida não tenha se deparado com a coleção “Clássicos Disney em Quadrinhos”, uma série de contos de fadas famosos (“Branca de Neve”, “Cinderela”, “Peter Pan”, “A Espada era a lei”, “A Bela adormecida” etc.) ricamente ilustrados pelos lendários desenhistas do estúdio Disney.

E se você era verdadeiramente espada-matador desde a primeira infância, também é quase impossível que não tenha tido sonhos molhados recorrentes com, digamos, a Sininho e aquele seu indescritível (e delicioso) saiote verde musgo. Sim, éramos docemente pervertidos desde pequenos, fazer o quê?

Pois agora você já pode extrapolar seus desejos mais secretos com essa coletânea de quadros criadas por J-Scott-Campbell e coloridas por Bakanekonei, a cargo do estúdio Deviant Art. Pra ficar com mais tesão, clique nas imagens.

Sininho.

Little Miss Muffet.


Cachinhos de Ouro.

Branca de Neve e amiguinhas.

Branca de Neve.

Alice Maravilhosa.

A Pequena Sereia.

A Madrasta boazuda.

A Bela e a Fera.

A Bela Adormecida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Quarta Literária: Os contos de Milton Hatoum


Realizada sempre na primeira quarta-feira de cada mês, a Quarta Literária do mês de novembro acontecerá no próximo dia 4, tendo como tema Os contos de Milton Hatoum. A palestra, ministrada pela professora Nícia Zucolo, tomará como base o conto “A natureza ri da cultura”, texto que traz o viajante, o estrangeiro, a memória, a sobreposição de narrativas – entre outros aspectos recorrentes do livro – para movimentar-se no universo recriado pelo autor. Antes da palestra será exibido o filme Nas asas do condor, de Cristiane Garcia, baseado no conto de Milton Hatoum. No filme, de 20 minutos de duração, Milton é um menino de saúde frágil que encontra nas asas de uma velha aeronave, a cura para uma grave crise respiratória.

A cidade ilhada, lançado em fevereiro deste ano pela Companhia das Letras, traz 8 contos reescritos e já publicados em revistas nacionais e internacionais, além de 6 inéditos. Nesses contos, encontramos seres em trânsito, seja no espaço, seja no tempo, tentando reconstruir a própria existência, a partir de alguma madeleine que lhes desencadeie lembranças tangíveis. São essas memórias insuladas em um universo peculiar, buscando caminhos para aflorarem, que conferem a unidade que um bom livro de contos deveria ter. Trabalhando com temas aparentemente comuns e tendo como cenário sua velha Manaus de rios e turistas estrangeiros, Hatoum constrói contos repletos de silêncios e sutilezas, exigindo um leitor atento e participativo e retribuindo com conflitos profundos e universais.

Milton Hatoum nasceu em Manaus 1952 e formou-se em arquitetura. Ensinou literatura brasileira na Universidade Federal do Amazonas e na Universidade da Califórnia, em Berley. Morou em Brasília, na Espanha, na França e nos Estados Unidos. Reside desde 1999 em São Paulo. É autor, pela Companhia das Letras, de Relato de um certo Oriente (1989), vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano; Dois irmãos (2000), também vencedor do prêmio Jabuti e traduzido para oito idiomas; Cinzas do Norte (2005), vencedor dos prêmios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2008 publicou Órfãos do Eldorado, com o qual foi contemplado com o segundo lugar no prêmio Jabuti. A Cidade Ilhada (2009) é a sua primeira coletânea de contos. Atualmente, é colunista do Estado de São Paulo e do Terra Magazine.

A palestrante
Nicia Petreceli Zucolo, radicada no Amazonas desde 1997, é graduada em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (1995), e mestre pelo programa Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (2005), com dissertação sobre O outro e outros contos, livro de Benjamin Sanches. Atualmente, é professora de Literatura na UFAM, onde coordena um grupo de pesquisadores em um projeto chamado Conto Amazonense em Perspectiva, no qual, entre outros livros estudados, encontra-se o de Milton Hatoum.


Evento: Quarta Literária
Tema: Os contos de Milton Hatoum
Palestrante: Nícia Zucolo
Data: 4 de novembro de 2009
Horário: 18h30
Promoção: Livraria e Editora Valer
Local: Espaço Cultural Valer – Av. Ramos Ferreira, 1195, Centro
Quanto: Entrada franca
Contatos: Valer – 3635-1324;
A formiguinha
Tenório Telles


A amizade é coisa rara neste tempo de solidão e desconfiança entre as pessoas. Fazemos parte da comunidade humana e não fomos capazes de construir um mundo fundado em relações verdadeiramente fraternas. Vivemos sob o reinado da mentira e da esperteza. Somos milhões convivendo no mesmo espaço e entre nós reina a distância e a indiferença. Os gestos de carinho e amizade são olhados com desconfiança.

Como conseguimos viver sem carinho e bondade? O que aconteceu com os sentimentos e nossa capacidade de amar e querer bem? São perguntas que rumino sem encontrar uma resposta. Creio, entretanto, que lá no fundo, escondidinho no coração, o amor jaz como uma brasa, encoberta de cinzas, à espera do sopro e do gesto capaz de reacendê-lo. Talvez seja por isso que as pessoas têm adotado os animais como companheiros: cada dia mais solitários, buscamos a companhia de cachorros, gatos e passarinhos. Alguns, desejosos de amizades mais exóticas, fazem-se amigos de sapos, lagartos e até cobras.

Como as relações se tornaram impessoais, há dias que sentimos falta do convívio afetivo dos amigos, de ser ouvido e estar próximo, protegido pelo cuidado e aconchego. Nesta sociedade, em que prevalecem sempre os interesses e as conveniências, ter um amigo de verdade é coisa rara. Há mais de dois mil anos, o comediógrafo grego Menandro já chamava a atenção para o fato: “Feliz daquele que encontrou um amigo digno desse nome”. Note, leitor, que o conteúdo da frase está no singular: “um amigo”. Se foste premiado com este presente, trate de cuidar, porque a amizade é um remédio para os males da alma.

Quando falo de amizade não me refiro apenas em relação ao ser humano. Pode ser por um cão ou por um passarinho. Esses dias, ando afeiçoado por uma formiguinha. Em meio aos papéis, dispostos sobre minha mesa de trabalho, ela anda apressada, como se procurasse o caminho de casa. Escala os livros, pára, cheira as palavras e avança. De vez quando levanta a cabeça, olha para os lados e segue em frente. Para testar sua determinação, coloco lápis e canetas em seu percurso: não recua, vence todos os obstáculos e vai em frente.

Penso que ela se perdeu de sua colônia. Todos os dias ela aparece. Minha mesa é o seu refúgio. Fico imaginando como chegou aqui, tão longe do seu formigueiro e, além do mais, sozinha! Estendo a minha mão e ela pára, mexe as patinhas, cheira e sobe pelos meus dedos. Brinco com ela, coloco a mão para cima, para baixo, não se intimida. Distraio-me e desaparece entre os papéis. Enfastiado pelos afazeres, sinto sua falta e a procuro. Reviro as folhas, removo os objetos, quando menos espero lá aparece minha boa amiga. Recomeçamos o nosso jogo: demonstro que estou alegre com sua presença, sopro-a carinhosamente. Noto que fica aborrecida, levanta as patas como se esperasse um ataque. Calma, segue em sua busca.

O que procura a minha amiguinha? De onde vem? Para onde vai? Preocupado com sua saúde, dou-lhe uns pedacinhos de bolacha. É tão pequenininha que desaparece sob os cubos de “cream cracker”. Encontra um fragmento de biscoito, prende com suas garras e foge apressada. Sigo-a com os olhos até que desaparece na floresta de papel sobre a mesa. Anoitece e vou para casa, receoso de não mais encontrá-la no dia seguinte. Ah, formiguinha, companheira de solidão e resistência neste mundo de brutalidade e vazio, que bom tê-la nestes dias insípidos. Já fazes parte de mim e habitas o meu carinho.

domingo, 1 de novembro de 2009

Letícia
I
Allison Leão


A namorada de meu irmão mais velho. Seu espectro já nos flutua há muito tempo. Para José Américo, meu segundo irmão, ela é um belo sorriso, embora comedido. A aparição de Letícia, para ele, foi esse dá-e-tira. Mas ela estava lá, em presença, disso ele não tem dúvida: aquela noite foi um chute na nossa miséria: mesmo os músculos do seu corpo de bailarina acordam qualquer delicadeza em nossos olhos, foi o que entendi do que disse meu irmão José Américo.

Será de fato assim Letícia?

Esqueço. Penso na descrição que meu terceiro irmão José Luiz faz dela. A Letícia de José Luiz tem a inconsistência de um nada feito pedra fechada. Se para José Américo ela existe na condição de maravilha, de movimento e curva e brilho, para José Luiz ela tem os olhos como um lance de vista a ponto nenhum. É bem possível que houvesse naquela noite uma vontade imensa de saber Letícia por algum contorno, mas só havia essa vontade, e vontade é outro nome para ausência – assim me pareceram as palavras de José Luiz.


Quando ainda morávamos em Tabatinga, ela havia sido o amor-criança de José, meu primeiro irmão. Até aí, José Américo e José Luiz concordavam em relação a ela: isso porque não tinham nenhuma opinião sobre a moça. Concordavam no desconhecê-la. 14 e 13 anos tinham, respectivamente, José Américo e José Luiz. E parece que Letícia era tão qualquer coisa quanto qualquer uma das cunhãs do lugar. (Eles só a teriam notado quando ela dançou uma noite inteira com nosso irmão, na Fiesta de la Confraternidad. Foi quando o casal começou o namoro. Letícia estava com José – que por si só já era bonito no dançar –, dançava melhor que qualquer uma e quando rodopiava eram três quartos de pernas à mostra: não tinha como ignorar.) É que, antes disso, José Américo e José Luiz já tinham aprendido nos livros de História a ver cara de índio tudo igual – embora em casa, no cada-qual-com-seu-focinho, confundissem os aprendidos. Às vezes pediam dinheiro a turistas, juntos, apenas 10 meses e talvez 4cm separando um do outro. Diziam-se gêmeos. Os turistas franziam o cenho, olhavam, desolhavam, tresolhavam. Indiozinhos gêmeos: valia de fato um tostão. Quando nosso irmão lhes descobriu a esperteza, aplicou neles uma surra roxa. E depois que a carne dos curumins acalmou-se, nunca mais foram parecidos um com o outro. Letícia admoestou meu irmão: aquilo era um exagero de correção. Fizesse noves fora, veria que era nada. Mas José devia ter lá suas razões. Eu era muito novo, o caçula da casa. Não sei dos motivos dele.

Letícia, dizia eu. Toda a alegria e toda a tristeza de meu irmão nela contidas. Os namorados tinham lá suas idéias-juntas. José queria descer o Solimões, viajar para Manaus. Ia fazer “curso grande para professor”, dizia que. Em casa e na vizinhança ele já era autoridade escolar. Havia feito viagens longas (até além de umas montanhas de que eu só ouvira falar) e tinha livros na cabeça. Foi ele quem me ensinou a ler e a escrever – e também a todos de minha idade naquelas redondezas. Letícia, porém, era outra terra: não tinha outro sonho senão que meu irmão fosse seu. Como isso já acontecia, Letícia não tinha sonhos. E no entanto foi nesse salto vazio da ausência de sonhos que Letícia voou para longe.

No final do primeiro ano de namoro, ela dançava novamente com meu irmão, na Confraternidad. As pernas ainda mais mulher, Letícia fora escolhida Rainha das Três Fronteiras. Naquele ano, como de costume, visitantes tinham ido ver como o povo da fronteira é diferente. Para nós, era oportunidade de mais uma vez saber como os visitantes eram esquisitos. Talvez eles também fossem de alguma fronteira, longe da nossa. Iam lá para ver tradições tikunas ao vivo. Danças – que os missionários nos ensaiavam. Mas a maior parte de nós não era ticuna desde o nascimento. E se não o éramos, brasileiros ou colombianos ou peruanos também não sei se tanto. Ou será que alguém viajaria a tão longe para ver outro de si? Viajaria? Para nós, era corriqueiro atravessar do Brasil à Colômbia para comprar pão ou cigarro. Uns enchiam a cara no Peru e iam ter ressaca na Colômbia. Uma troca de olhares na Colômbia podia acabar numa cama no Brasil. Ora, quando flutuávamos em nossas canoas, nas águas entre um país e outro, não víamos barreira nenhuma a conter o fluxo do rio.

Nossa familiaridade com a fronteira dos três países e estranheza aos países ficava mais evidente quando turistas do distante Peru, da Colômbia longínqua e do Brasil que nem imaginávamos haver visitavam nossas festas. Olhávamo-nos, nós e eles, com olhar tão estrangeiro que nos sentíamos atravessar pelo desconhecimento mútuo. E naquele ano de 1990 mais ainda, pois alguns deles nos olhavam com o olho do olho de vidro das filmadoras.

Uma equipe da BBC fazia um documentário sobre festas populares no Alto Solimões. Quando as lentes chegaram a Letícia, apaixonaram-se. Demoraram-se nela, Rainha, quadro inteiro, um bom pedaço de tempo. E Letícia correu mundo, primeiro assim, dentro da tela da TV. Depois foi embora com as próprias lindas pernas. A convite do Ballet del Teatro Municipal de Santiago, foi estudar no Chile. Iam ser apenas três meses, “además, una oportunidad como esta no se puede perder”, pensou meu irmão, que sempre foi, afinal de contas, uma pessoa bem esclarecida.

Letícia, de fato, retornou. Mas apenas para entregar a José os cravos-de-defuntos da despedida. “¿Qué?”, desesperou-se, quis compreender meu agora nada esclarecido irmão. E Letícia contou – a um metro e meio de distância de José, com menos de meio metro de sílabas.


Santiago estava reencontrando dias claros e democráticos, sem sequer saber o que estava dizendo, assim dizia Letícia, pois assim ela ouvira. A Plaza de Armas já não tinha tanto peso no nome como poderia ter tido nos anos anteriores. Lá, viu toda a reunião da novidade aos seus olhos: vendedores de livros, malabaristas, vagabundos, pedintes, novos poetas. E soldados ainda vigiando a liberdade e a democracia. Três pessoas juntas, dizia-se, não eram mais encaradas como ameaça à ordem. Letícia não sabia nada sobre a história chilena. Caminhou certamente por ruas em que nalgum distante ano instalaram-se barricadas, ou por outras, onde muitos haviam tombado. Mas Letícia não deu fé do passado sob seus pés. O passado sob os pés; o presente à altura dos olhos: havia sempre as luzes dos importados abarrotando prateleiras, sons de brinquedos ou eletroeletrônicos que falavam inglês, cuja incompreensão tornava-os ainda mais atraentes. Seus companheiros na escola de dança, muitos vindo de outros países da América Latina, assemelhavam-se a ela na ignorância e na fascinação. E os amigos chilenos repetiam empolgações aos visitantes, acolhidos pela caridade que pode haver entre os pobres.

A Plaza de Armas era excelente para entusiasmos. Foi lá que Letícia conheceu Johnny Hernández, um não sei quem que fazia não sei quê. Sei que conquistava. Johnny foi ligeiro na investida. Ao som de um flautim que alguém por perto tocava, já chegou chegando. Ensinou à bailarina como é que se baila. A primeira dança etérea de Letícia, seus pés acarinhando o ar. E, com um olhar inapelável, liquidou: “¿Es verdad o solamente un producto de mi locura?”


Locura foi meu irmão. Mas qual loucura? Viu Letícia sair da nossa porta para a carreira internacional sem chamá-la de volta. Não era o grande amor da sua vida? Era. Mas José tinha seus modos. Dentro dele crescia, em silêncio, um ricochete desse grande amor. E crescia igualmente grande, e movimentado, como a dança com Letícia na Fiesta de la Confraternidad. Mas muito dentro. Ribombava no coração magoado, sacudia-se no estômago, estremecia nos intestinos e explodia na privada. Seu jeito de desabafar. Meu irmão gestante daquele amor, mas ao avesso – ele, José, dentro da cápsula –, desde que viu Letícia ir embora.


Alguns meses ainda permanecemos em Tabatinga, a vida passando como rio, água após água. Meus outros irmãos quiseram perguntar sobre qualquer andamento, mas José era de um silêncio conservado. Quando ia cozinhar, demorava-se catando o feijão, encalacrado. Fazia um monte com os brocados, separava os gorgulhos, as pedrinhas e todo tipo de fiapos e sujeiras, e outro com os grãos sadios, de lisa perfeição. Depois, com o indicador, conferia ambos os montes, catava tudo de novo. E foi assim, grão por grão, que um dia, um pouco antes de irmos dormir, ele virou a panela dos pensamentos sobre nós: “¡Mañana!” No dia seguinte, estávamos rumo a Manaus.

Daí em diante, a vida passou no encompridamento dos dias. Quer dizer, no rasteiro de cada dia, separado dos outros, a vida tinha a morosidade de uma lagarta-de-fogo, tanto lenta quanto ardida. Às vezes, a vida dava uma volta sobre si mesma; olhava por cima do ombro, buscava o dia anterior e anteriores dias ao anterior. Não via muita coisa além do embaralho ancestral das lembranças de Tabatinga. Via ainda água, barco. Mas logo depois via uma cidade, gente espocando na nossa vista. A seguir, o asfalto quente, o ônibus lotado, o calor e os calos, a mão de José a me guiar, me perder e tornar a encontrar-me. Dias de um calor que vinha de fora, sim, mas também de um frio de olhos arregalados que me comia por dentro. E logo depois um calor que era só pele: vinha da terra seca onde erguemos nosso barraco, numa área devastada e tórrida, nos limites da cidade, sem uma árvore que esfriasse a monotonia escaldante da terra despelada; vinha da chapa de zinco quente da cobertura do 4x6.

No rolo dos anos, porém, foi outra velocidade. Dois anos após termos chegado a Manaus, José pôde dar início ao seu curso grande de professor. Grande mesmo: meu irmão foi estudar à noite no Instituto de Educação do Amazonas, e teve de cumprir dois anos além dos três ordinários do curso, por conta de ter sido reprovado duas vezes. O diploma – antes de encher o estômago e o intelecto das traças – chegou a ficar pendurado na parede, olhando lá do alto para nós, sem se mexer. Seis meses, e nada de José conseguir emprego em escola alguma. Apesar de o documento certificar-lhe o curso grande de professor, era para professor de criança pequena, e foi rejeitado em várias escolhinhas porque não pegava bem. Era o sotaque. Esse jeito de falar, enrolado na compreensão, escorregadio no som e no ritmo... Tudo isso pode atrapalhar as crianças em pleno aprendizado do nosso idioma português, disseram a ele. Que faça vestibular para Letras e se torne professor de espanhol... ou castelhano... o que vem a dar no mesmo, eu acho, alguém ainda buscou lhe encorajar. Fez o vestibular, por quatro vezes, sem sucesso. Tornou-se cobrador de ônibus. E de fato ninguém notava, ao vê-lo calado em tal função, que se tratava de alguém de fala tão esquisita. Acordava o dia antes de o dia se levantar. Quando partia para o trabalho, ainda dormíamos e talvez por isso pegou o costume de não se despedir toda vez que saía, mesmo em dias de folga. Se ele estava ou não em casa, era sempre difícil afirmar. Foi-se sumindo na massa de tempo das horas dos dias e de meses dos anos. Nunca chegou a ser professor de escola, mas manteve-se o chefe em casa. Fazia questão de deixar a comida quase pronta para nós, que já bem podíamos estar um palmo acima de sua autoridade. Devo a ele as primeiras páginas que li e estas que agora escrevo – aquelas porque foi ele meu primeiro professor, como já contei, e estas pelo inusitado dos recentes acontecimentos.

(conclui no próximo domingo)