Pedro Lucas Lindoso
Faz
calor. Nada melhor do que um dia relaxando. Perto de um igarapé. Almoçando
aquele tambaqui assado. De preferência de rio e não um ruelo de viveiro.
Antigamente
dizíamos que íamos para um “banho”. Havia os banhos em que se tinha que ser
sócio. Como o Bosque Clube e o Guanabara. Havia os banhos de amigos. Quando fui
para Brasília, lá há os clubes. Menino de calças curtas, vindo de Manaus, disse
na escola que no domingo iria ao banho. Aquilo foi motivo de risada. Bullying,
como se diz hoje em dia.
O certo
é que no domingo passado fomos ao banho. Os banhos agora são chamados de
balneários ou até de resorts. Mas para mim podem dar o nome que
quiserem. Clube, resort, day use, balneário. Banho é banho. Ora essa!
O banho
estava maravilhoso. Praia do Rio Negro. Tambaqui assado no almoço. Pescado pelo
caboclo que nos servia. Pescador, garçom e filho da cozinheira.
O dia
passou rápido. Eram quase seis horas da tarde. Dois curumins, já adolescentes
conversam, enquanto limpavam as mesas. Não dá para entrar mais na água. Vai dar
seis horas.
Aí eu
entrei na conversa. Perguntei o porquê. E o caboclo respondeu que às seis horas
da tarde é um “momento perigoso”.
Achei
estranho. A Igreja Católica costuma chamar esse momento de “Hora do Ângelus”,
associado a memória da anunciação. Reza-se geralmente a Ave Maria.
Aprendi
com os rapazes que caboclos ribeirinhos não entram nos rios às seis da tarde.
Os rios não são só lugares naturais são também espaços entre terra e água,
entre cotidiano e mundo espiritual.
Penso
que evitar entrar no rio nessa hora sugere uma regra de prudência e
proteção. O fim de tarde seria quando
“as coisas” ficam mais ambíguas. Acredito que seja por perigo real, como
correnteza, encalhe, visibilidade, seja pelo medo do sobrenatural.
As
tradições, a cultura, os mitos e lendas amazônicas são de diversidade e riqueza
impressionantes. Segundo aqueles rapazes, nesse horário podem ser percebidas
presenças, assombrações ou encontros com “encantados”.
Eles me
relataram histórias. Em algumas, os seres aparecem no rio. Em outras, a “hora”
é mais importante do que o tipo de criatura.
Já em
casa fiquei pensando se a hora do Ângelus pode ter virado um marcador que a
comunidade usa para reforçar um comportamento seguro “ficar fora da água”.
Como a
religiosidade católica se mistura com o imaginário dos povos ribeirinhos é
comum haver sincretismo cultural. A prática católica do Ângelus, invocação de
Nossa Senhora, convive com narrativas do nosso rico e surpreendente folclore
amazônico.
Pelo
sim, pelo não fui logo avisando à turma:
– Saiam
fora d’água. Hora de ir para casa.