Amigos do Fingidor

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 8/10



Zemaria Pinto

 

 
1.  Chanchadas amazônicas


Antes, uma palavra sobre chanchada, vaudeville e revista. As três têm a música popular como suporte e uma origem marginal, ligada ao mau gosto e ao riso fácil. Com o tempo, entretanto, mudaram de status e viraram temas de laudatórias pesquisas acadêmicas, que reconhecem nos gêneros manifestações culturais da época, seja na Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil. Ligada especificamente ao cinema, a chanchada caracterizou-se por apresentar comédias de baixo custo de produção e alto apelo popular. Ao relacionar as peças tratadas neste capítulo como chanchadas, estou apenas referindo as ligações de Márcio Souza com o cinema, sem nenhuma pretensão de mudar os gêneros nos quais ele classificou suas criações – vaudeville e revista. Afinal, como afirma o próprio autor: “Brecht já nos havia ensinado a entender Marivaux” (1984, p. 46).  

Encenada pela primeira vez em 1976, As folias do látex (1997b, p. 65-121) é uma delirante viagem por quase duzentos anos de história do Amazonas, misturando informações projetadas e um vaivém de personagens, ora alegóricos, como o Coronel de Barranco, a Amazônia, o Lusitano, o Britânico e o Americano; ora saídos provisoriamente dos livros de história, como La Condamine, o casal Agassiz, Eduardo Ribeiro, Plácido de Castro, Euclides da Cunha e Stradelli. Tudo isso para louvar “os ignorantes mais refinados da Linha do Equador”: nós. Concebido com um vaudeville, As folias do látex é composto de vários quadros, conduzidos por um mestre de cerimônias e uma pianista nascida no mesmo ano de inauguração do Teatro Amazonas, o mais glorioso símbolo do ciclo da borracha. O resultado não deixa de ser funcionalmente engraçado, mas o riso é amargo, pois o objetivo do autor não é apenas a caricatura, mas sim a reflexão.

A sequência da trilogia farsesco-reflexiva é A resistível ascensão do Boto Tucuxi (1997c, p. 9-52), estreada em 1982, tendo os anos 1950 como cenário. Após um leve alento durante a segunda guerra mundial, a economia do Amazonas voltou ao fundo do poço. Manaus, que já fora a Paris dos trópicos, era uma cidade em ruínas. É nesse cenário que as personagens desse drama brechtiano, encenado como um patético vaudeville, rastejam, entre bruxas macbethianas e tipos tirados de enredos de horror, numa síntese histórico-jocosa da política amazonense daquela época. Infelizmente, passados quase sessenta anos, mudaram os atores, mas o texto é o mesmo: 

– O Boto Tucuxi, herói da leseira baré, tão amazonense quanto leibniziano nesta terra onde a classe dominante é uma panglossiana confraria, não é mais que a Desrazão Insuficiente da nossa vontade extrativista. Com ele descobrimos a nossa pantomima, arcano da degenerada teodiceia do ciclo das águas, na neutralidade sublime da província iletrada. 

Na última cena, o Cabaré La Chunga, onde se passa toda a ação da peça, transforma-se na linha de montagem de uma fábrica de relógios da Zona Franca de Manaus, como a anunciar a terceira peça do grupo, Tem piranha no pirarucu (1997b, p. 137-174), originalmente intitulada (e censurada como) Zona Franca, meu amor. Encenada em 1978, trata-se de uma alegórica revista carnavalesca, que zomba do modelo econômico legado pela ditadura instaurada em 1964, para concluir, melancolicamente: “Porto de Lenha, tu nunca serás Liverpool...”. Condessa de Nivico, Coronel Bubu, Mister Pyle e Maria Piranha, mais o representante da “classe artística”, El Biscateiro, são alguns dos personagens cujos nomes já identificam o tipo. A conclusão não poderia ser mais simbólica: uma índia “magra, o corpo dilacerado de torturas, arrastando-se penosamente” lê o seguinte telex (ou fax ou e-mail): 

– Saigon (urgente): as primeiras sementes de Zona Franca roubadas pelos americanos de Manaus acabam de germinar no Jardim Botânico de Westmoreland. Os cientistas acreditam produzir racionalmente Zonas Francas dentro de dez anos. O monopólio amazonense de Zonas Francas estará assim quebrado.   

Essa veia satírica do teatro de Márcio Souza é a que mais se aproxima do romancista de Galvez, o imperador do Acre, O brasileiro voador ou O fim do terceiro mundo, tributários do humor corrosivo e anárquico de Oswald de Andrade, em cuja obra dramática pode ser vislumbrada a ascendência das chanchadas amazônicas de Márcio Souza. Em As folias do látex, o Mestre de Cerimônias justifica a forma: 

– Nada como o vaudeville para se entender aquele tempo. Não, não é piada. Pode achar graça, se quiser, é uma constatação: o vaudeville como expressão da monocultura enlouquecida. A única arte que se aproxima do delírio.  

Mas se Oswald mira na decadência burguesa e na ascensão do socialismo, Márcio não nutre ilusões, restando-lhe rir, apenas, aquele riso amargo, como se deduz destas falas do Coronel Bubu e de Mister Pyle: 

– Manaus, o sorriso da vitória-régia. É um subúrbio meio distante do Rio de Janeiro.

– Minha multinacional estar interessada em investir aqui. Penso em montar fábrica de coçadores de costas automáticos. Dizem que, com a quantidade de mosquitos que tem por aqui, deverá ser o mercado ideal.   

Para coroar o desfile dos bufões amazônicos de Márcio Souza, nada como relembrar o Hierofante, na última fala de A Morta: 

– Respeitável público! Não vos pedimos palmas, pedimos bombeiros! Se quiserdes salvar as vossas tradições e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se preferirdes a polícia! Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado! Salvai vossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo! (ANDRADE, 2005, p. 73) 

O espírito trágico paira sobre a obra dramática de Márcio Souza, mesmo quando ela se propõe cômica, ecoando o “princípio de atualidade” de Artaud – “atualidade de sensações e de preocupações, mais do que de fatos” (apud ROUBINE, p. 189) – e levando ao extremo o pessimismo de Camus, para quem o niilismo só tem valor quando transcendido (2008, p. 346-351). Lembra-me um velho poema de Drummond, “Congresso Internacional do Medo”, onde a esperança aparece de forma enviesada no último verso, quando já não havia mais porque ter esperança: “e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas” (1974, p. 49).
 
O pessimismo é um traço da modernidade, desde Cervantes. O escritor moderno usa da ironia para transcendê-lo. É nesse ponto delicado que se dá a comunicação entre o autor e o leitor: se este subverte o código, virando pelo avesso a mensagem, a obra está salva. Se a leitura for direta e objetiva, entretanto, não terá havido comunicação.
 

Renascimento como resistência à morte

 

João Bosco Botelho

 

 

A necessidade incontrolável de dar sentido à vida, diferente da dos outros animais, e de minimizar a morte, expressa com transparência na História, contribuiu para materializar, como opostos, saúde e doença, prazer e dor. Saúde e prazer, sinônimos de vida, ficaram ligados ao bem, bom, belo; doença e dor, compreendidas como mal, ruim, feio, antecipavam o falecer temido, a morte.

            A pulsão inata para desvendar a forma visível, em especial o corpo, dotado com propriedades sensíveis de comunicar-se e locomover-se, para fugir da dor e da morte, pode ser considerada como a primeira verdade material. É verdadeira em si mesma, porque dá forma ao viver, num movimento caleidoscópico, composto na carnalidade da pele quente, realidade dos sentidos, da respiração e do ritmo cardíaco. Atinge e entrelaça o ser no mundo! .

            Quando a morte advém, como antítese da vida, emudece a memória, descolora a pele, resfriando-a e tornando-a insensível à dor, o pior dos tormentos. O movimento respiratório e o coração param. O corpo desfigurado pelo rigor cadavérico enche de sentido a vida dos que choram. É quando o vivo se apercebe da própria existência e rejeita a morte refletida na do outro.

O ser-tempo (homens e mulheres visíveis e mensuráveis), para reafirmar a vida e rejeitar a morte temida, serve-se da ficção para compor a possibilidade de o corpo morto do outro poder renascer entres os seres-não-tempo (almas e espíritos não visíveis, não mensuráveis). Essa incrível construção da inteligência humana prolonga a vida depois da morte, fortalece a crença de um renascimento, premiado ou castigado, nos moldes da vida vivida.

É a dialética fundamental entre a vida e a morte, atando com uma ligadura indissolúvel o ser-tempo e o ser-não-tempo.

Talvez nunca seja possível saber como a linguagem edificou esse pilar estrutural das relações sociais: a crença no renascimento que aprimora e prolonga os sentidos, marcando a separação do ser-tempo (homem vivo) do ser-não-tempo (homem morto) dos outros animais.

O imaginável renascimento dos homens e mulheres, empurrando os limites da vida, tem acompanhado as culturas, possivelmente, muito antes dos registros da linguagem escrita, entre ricos e pobres, numa dimensão e repetição que não podem ser atribuídas somente ao ordenamento social.

            É possível estabelecer relação teórica da vida após a morte com a ideia arcaica de renascer a partir dos ossos descarnados (Gn 2, 21-24 ). Datando da pré-história, com registros confiáveis, a prática da exumação ritual seguida da pintura dos ossos com ocra de cor vermelha, em associação ao sangue, como o maior símbolo da vida, sem o qual o renascimento seria impossível, e a rearrumação em sepulturas rituais. O professor Leroi-Gourhan, já falecido, da Sorbonne, no seu livro "As religiões da pré-história", editado em 1964, afirmou: "Já muito se disse sobre o papel dos corantes e sobretudo do ocre, no paleolítico superior: matéria-prima das pinturas parietais, considera-se também que serviu para colorir as sepulturas e os corpos dos vivos, simbolizando de um modo geral o sangue e, consequentemente, a vida, particularmente a do morto"

Fica difícil atribuir a crença no renascimento após a morte somente às culturas. Desse modo, é valido também teorizar sobre a possibilidade de existir uma memória-sócio-genética, que modula geneticamente certos aspectos da vida social, de modo semelhante a qualquer outro aspecto do corpo, como o da cor dos cabelos e dos olhos.

 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria



Pirotess on a pale horse.
Alan Gutierrez.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Escrever para quê, se ninguém me lê?



Tainá Vieira

 

Há muito ando a procura de algo que não sei o que é. Por mais que eu tenha tudo que uma mulher pode ter, sempre sinto que falta algo. E não estou falando de coisas materiais ou sentimentais, não, o que falta é uma coisa que devia estar em mim, na minha alma, não sei. Os evangélicos diriam que eu deveria aceitar Jesus, me converter etc. Pois, segundo os evangélicos, esse vazio que algumas pessoas sentem é a falta de Deus. Se não tiver pai, filho e espírito santo, você será como o vento que voa sem direção.

Há muito que não escrevo, parei um pouco, pois percebo que não sou boa para isso, escrever é coisa séria, e eu só escrevo alguma coisa quando estou triste e isso eu não acho justo, um bom escritor tem que escrever sobre todas as coisas e não contemplar somente a tristeza, do contrário esse escritor será como o falso crente que só se lembra de Deus quando está em desespero. Bem, eu acho que não sou crente, pois quando entro em desespero recorro aos livros. Dom Quixote é bom para espantar a tristeza, os romances machadianos são bons para sonhar com o amor real e não como aqueles dos contos de fadas da Disney, Os Lusíadas e A Divina Comédia são ótimos para refletir sobre a vida, criar opinião etc.

Há algum tempo atrás quis ser poeta, no entanto vi que não nasci para isso, depois quis ser ficcionista e logo descobri que também não tinha talento... E foi nesse instante que me lembrei de que quando criança eu desenhava muito bem, sempre era eu a escolhida para fazer os desenhos na escola e todo mundo achava maravilhoso, aí pensei será que devo voltar a desenhar?! Rapidamente, peguei papel e um lápis e comecei... a pensar, porque pintar que é bom... nada. E lá se vai mais um sonho frustrado. E então foi que decidi dedicar-me somente à outra área que domino: a culinária. Ah, quando cozinho, realizo-me, gosto dos temperos, dos peixes, dos vinhos, das sementes, adoro preparar a mesa, deixá-la bem bonita para os convidados... Porém, cozinhar todo dia me cansa, me enjoa, gosto de cozinhar sim, mas uma vez ou outra. Nada mais. É, penso que o meu problema é sério mesmo. Nem poesia, nem prosa, nem desenho, nem cozinha...

Em nenhum me encontrei, ou talvez sim e estou a fugir deles. Não sei, não sei, “não sei se fico ou passo”. Todos os meus sonhos foram frustrados, devia ter vivido no tempo de Sócrates... Não, não seria uma boa ideia, pois do jeito que gosto de dizer a verdade sobre as pessoas, com certeza eu iria tomar cicuta também. Talvez eu vá para Nárnia, quem sabe lá eu me torne princesa e viva rodeada de súditos e assim exerço o que mais gosto de fazer: mandar. Não, penso que seria infeliz em Nárnia. Gostaria muito de encontrar-me com o “José” e seguir para “Pasárgada”, talvez lá eu preencha o vazio que sinto na alma.

 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Lábios que beijei 8



Zemaria Pinto
Rita


A pele branca, as sardas combinando com os cabelos ruivos, o corpo magro, mas sem ossos, Rita levou meu sorriso, meus planos, os meus 13 anos, como na canção, que eu aprenderia muito tempo depois. Eu não sabia o que fazer com aquela menina que falava e agia como uma mulher. Mais velho, eu era apenas um joguete em suas mãos. Sua língua diminuta quase não entrava em minha boca, mas tinha um gosto tão doce, que poderia ficar horas sorvendo aquele mel que milagrosamente manava da flor anacarada. Mas Rita não me permitia mais que alguns segundos. Ainda hoje, acordo de sonhos inquietos sentindo o gosto da língua de Rita, abruptamente tomada de mim.

domingo, 15 de dezembro de 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria

 
Night Elf.
Todd F. Jerde.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 7/10




Zemaria Pinto

 

Sem registro de encenação ou data de escritura, Contatos amazônicos de terceiro grau (1997a, p. 197-207) retoma a temática indígena, porém nos dias atuais, mostrando, em um ato rápido, o jovem casal Catuauá e Nudá, pertencentes a um povo rio-negrino ainda não contatado. A referência direta ao filme de Spielberg, que é de 1977, é uma ironia: os contatos do título referem-se ao encontro de Nudá com um branco “fazedor de trovão”, que lhe entrega um gravador de fita cassete. Catuauá repreende a mulher por trazer para casa “essas coisas porcas que não compreendemos”. Os dois brigam e um movimento casual faz funcionar a engenhoca, “uma flauta que toca sozinha”, no entendimento de Nudá, “uma música bonita”. Catuauá considera que sua flauta “toca música mais bonita” e que aquela flauta “é perigosa porque nela não passa o sopro de um homem vivo”. Nudá está enfeitiçada pelo que ouve: “– O que importa o sopro se a música cativa o nosso ouvido? Dize-me, homem, aquele que faz uma música bonita com esta, será capaz de matar, de nos matar?”

A iminente invasão é anunciada pelo trovão dos tratores, cada vez mais próximos. A música que toca no pequeno aparelho é o Requiem, de Mozart. Nada mais apropriado. 

Contatos amazônicos é o coroamento de dois ciclos, tanto em relação ao universo índio quanto à tragédia coletiva amazônica. A referência ao filme e o aparelho citado podem dar a ideia de sua criação lá pelo final dos anos 1970, mas sua temática continuará muito atual, enquanto os povos do rio Negro insistirem em resistir. No inevitável desenlace, Catuauá e Nudá serão alegorias de uma cultura que perdeu a energia vital para se deixar aprisionar na mera literatura.

Renascimento após a morte: a maior das curas


João Bosco Botelho

 

    O cuidado com a saúde pode ter começado em qual­quer ponto da escala genealógica do homem. Sem dúvida que o aperfeiçoa­mento da linguagem teve grande importância, já que a elaboração dos sons para caracterizar a dor do seu desconforto deve ter sido um dos pontos de partida para o domínio da natureza com objetivo de gerar o conforto, consequentemente fugindo da dor e do sofrimento de qualquer natureza. A abordagem de Engels continua interessante como um dos precursores que entenderam o processo da hominização por meio das transformações do traba­lho e das linguagens.  

    A medicina surgiu como especialidade social em comunidades ágrafas de caçadores e coletores. Nessa fase, milhares de anos antes da linguagem escrita, os ancestrais distantes comunicaram as experiências e sentimentos por meio das ações concretas, gestos isolados, olhares ou com o silên­cio. Pode ter sido por meio dessa linguagem simbólica que nossos antepas­sados referiram a dor no braço estraçalhado em acidente de caça ou o desconforto causado pela febre.

    Nessa época remota, os nossos antepassados utilizavam as cavernas para proteção contra as intempéries da natureza gelada, fabricavam e usavam artefatos de pedra e osso trabalhados com delicadeza e objetividade, além de usar fogo domado e de praticar o sepultamento ritual dos mortos.

    O historiador Mircea Eliade, com propriedade incompará­vel, atribuiu a dificuldade quase intransponível de mensurar esse passado no fato de que as crenças e as ideias não serem fossilizá­veis. Quando os arqueólogos descobrem um túmulo com significação histó­rica, todos os detalhes do esqueleto e das oferendas são importantes para compreender o grupo social, porém grande parte dos valores e revelações intrínsecas do morto continuará nas suposições. Essas dificuldades são proporcionalmente maiores na medida em que recuamos no tempo. Por esta razão, alguns reconhecidos autores, como Leroi-Gourhan, assumem posição crítica em relação à existência de religiosidade anterior há 40.000 anos.

    A partir dessa data é claríssima a presença nos sepultamentos rituais da crença na vida após a morte. Os mortos foram enterrados acompanhados de artefatos de caça e pesca e grandes porções de carne.

    O imaginável renascimento após a morte pode representar, em última análise, a mais importante das curas, quando as doenças e sofrimentos são superados pela possibilidade de recomeçar a vida. Essa fantástica busca pode ter começado com o juízo arcaico de ser possível renascer a partir dos ossos, ligada ao sepultamento ritual. Nesse sentido, essa construção pode estar relacionada às passagens do Antigo Testamento: a mulher, a partir da costela do primeiro homem (Gn 2, 21‑24), e o renascimento a partir dos ossos descarnados (Ez 37, 1‑8). Assim, não deve parecer estranha a crença popu­lar no poder curador dos ossos dos santos, conservados como relíquias e amuletos contra a doença e o infortúnio.  

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria

 
Autor desconhecido.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A vida de uma obra: Cidadão Kane

 
Clique aqui, para saber mais.

Cidadão Kane na Academia Amazonense de Letras - amanhã

Chamada para uma apresentação de Cidadão Kane.
30 anos depois, o Don Corleone de Marlon Brando lembraria o Kane de Orson Welles.



O roteiro de Cidadão Kane faz uso de um expediente que viria a ser banalizado (e batizado) por Alfred Hitchcock: o MacGuffin – algo que se procura por todo o filme, mas que, ao final das contas, não tem importância nenhuma para o seu desfecho. O MacGuffin de Kane é o significado da palavra “Rosebud”, a última palavra pronunciada por Kane, ao morrer, logo no início do filme. Todo o filme é a busca pelo significado dessa palavra e a reconstituição da vida do magnata. E, claro, o filme termina sem que se encontre o tal significado – mas nós, espectadores, ficamos sabendo o que é “Rosebud”. Para nossa decepção, aliás, pois não havia naquela palavra nenhuma intenção metafísica ou mesmo psicanalítica.
Arte real-socialista ajudou a disseminar a lenda de que Welles era comunista.
Cidadão Kane é uma festa para os olhos e para a mente. O roteiro de Welles e Herman J. Mankiewicz, associado à extraordinária fotografia de Gregg Toland, cujo nome aparece nos roteiros junto ao do diretor Welles, no derradeiro fotograma, e à montagem ensandecida de Robert Wise, que brilharia mais tarde como diretor de Amor, sublime amor, entre outros clássicos, ainda hoje provoca vertigens. Literalmente. Cidadão Kane é uma viagem entre o paraíso artificial de Xanadu e o inferno das inúmeras perdas de Charles Foster Kane, das quais a única verdadeiramente importante era Rosebud.
(Zemaria Pinto)
 
O enfant terrible Orson Welles:
Shakespeare no Harlem e H. G. Wells no rádio.


 
 



O projeto de extensão “A VIDA DE UMA OBRA:” é uma iniciativa de professores do Programa de Pós-graduação em Letras e Artes da UEA, vinculados igualmente aos cursos de graduação em Letras e Música, em parceria com a Academia Amazonense de Letras.

O objetivo do projeto é promover, no âmbito da sociedade local, a discussão sobre arte e cultura, ao mesmo tempo em que procura contribuir com a educação da sociedade manauara, referente ao aspecto estético e cultural, além de reforçar os laços entre o conhecimento acadêmico, sobretudo produzido pela pós-graduação, e o conhecimento da sociedade em geral.

Quando: dia 11 de dezembro de 2013, às 18h30min

Onde: Academia Amazonense de Letras, rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com Tapajós – Centro

Tema: Cidadão Kane
 
Palestrantes: Zemaria Pinto e Berenice Carvalho


 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Eu e as timidezes 3/3



Letícia Cardoso


Às vezes, confesso que exagero na timidez. Por exemplo, pedir uma pizza é algo fácil. Se você estiver em casa, basta escolher a pizzaria, os sabores e ligar para o local. Certo? Não, para os tímidos isso é uma tarefa muito difícil. E que por azar foi dada a ele.

Toda vez que preciso cumprir esse tipo de missão, antes faço um plano mental sobre o que devo falar. Preparo-me para perguntar o tamanho, o preço, os sabores, as possibilidades de sabores juntos, os tipos de refrigerante, o tempo de entrega etc. Mas se por acaso o atendente me disser que não entendeu meu pedido, eu logo travo e começo a gaguejar. Começo a pensar que minha voz saiu baixa, que eu não fui clara o suficiente. As pessoas que estão comigo olham para mim querendo saber o que houve. Eu tento com um gesto dizer que está tudo sobre controle, quando na verdade estou pensando que consegui estragar a noite de todo mundo. Sim, todo esse drama durante o pedido de uma pizza. Drama para você, epopeia para mim.

Recentemente, estava eu, à tarde, na minha querida UEA para mais uma aula de Teoria da Literatura. Ao invés da aula, a professora orientou-nos brevemente sobre nossas próximas atividades e nos convidou a participar da discussão a respeito da Estatuinte da universidade. Ótimo. Seguimos então para o nanoauditório (apelido carinhoso dado ao auditório devido seu pouco espaço). E ao chegar lá, obviamente, fui para fileira da parede oposta a da porta, e sentei-me na antepenúltima cadeira. Sim, eu poderia ter ficado mais próxima da porta, mas estava cheio de gente lá. E escolhi justamente o lugar bem ao fundo, pois sabia que minha presença na frente ou no centro da sala não era necessária. Enfim, vamos ao que interessa. (Tímido pode não ser bom com conversas face a face, mas quando precisa escrever é um perfeito tagarela).

Uns cinco minutos depois, chega uma das professoras que eu mais admiro. E para o meu desespero ela foi sentar na minha frente. Eu sorri quando ela sorriu para mim, mas só o que eu pensava era: e agora, será que ela conversará comigo? Eu não me preparei para estar aqui. Não diga nada estúpido, Letícia.

Quando já estava um pouco mais tranquila e interessada na discussão que acontecia na mesa (leia-se aqui enquanto eu tinha parado de divagar sobre estupidezes que eu não deveria fazer ali), minha professora me dá um chiclete. Nossa, nunca fiquei tão feliz por causa de um chiclete! Não era qualquer chiclete, era um chiclete dela. Isso significava que eu não tinha feito nada de errado. Mais tarde, após traçar uma estratégia para atravessar a sala sem ser notada, tomei coragem para sair e, quando voltei, trouxe água para minha professora. Eu ofereci, porém acho que ela nem entendeu o que eu disse, mas com um copo d’água na mão estendido a você, quem não entenderia? Ela entendeu e aceitou. Bingo, bola na rede.

Uma coisa que você deve saber sobre pessoas tímidas: elas sentem vontade de conversar, no entanto não sabem como fazer isso. Há vontade de puxar assunto, mas, ou o tímido não é ouvido porque fala baixo demais ou passa muito tempo pensando no que dizer e acaba optando por contemplar o chão, a parede, o que tiver de “interessante”. Por isso, se ele te oferecer alguma coisa – água, café, chocolate, bolacha, ou seja lá o que for – é porque ele gosta de você. E esse é só um jeito tímido dele dizer: Olha, posso parecer a pessoa mais estranha do mundo, mas eu gosto da sua companhia.

A reunião terminou e eu saí do nanoauditório com uma sensação de incompletude causada por duas coisas: as burocráticas, por motivos óbvios, e as desse estúpido travamento que toda vez me abate quando estou com alguém. Às vezes ensaio diálogos inteiros na minha mente, em meus pensamentos até já fiquei amiga de pessoas com as quais eu nunca tive a oportunidade de dizer um “Oi!”, mas na realidade é bem diferente. Se fico a sós com a tal pessoa da minha imaginação, esqueço tudo o que tinha pensado em falar e, por fim, é sempre o silêncio que resiste. A única coisa que consigo fazer é baixar a cabeça e pedir para Deus tirar de mim essa timidez que tanto atrapalha a minha vida.

domingo, 8 de dezembro de 2013

sábado, 7 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria


Chelin Sanjuan.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 6/10



Zemaria Pinto


Tragédia do homem comum, tragédia coletiva, Pequeno teatro da felicidade (1997b, p.9-63), estreada em 1977, desloca o eixo das atenções do universo índio e mergulha num mundo de referências brancas. Metateatro recheado de alusões intertextuais tem como pano de fundo a pequena e pobre Manaus de 1836, ocasião em que o conflito entre cabanos e legais recrudesce e torna-se mais sangrento. A peça inicia com três atores mambembes fornecendo informações ao público que irá assistir ao espetáculo que eles vão representar com seu grupo: 

– No ano de 1836 a vila de Manaus ficou seis meses sob ocupação dos revolucionários cabanos. Ainda que no início a revolução buscasse altos ideais, aos poucos ela foi degenerando em anarquia e pasto para os mais diversos tipos de caudilho. Em 1836, todos os ideais tinham se perdido.     

Na peça encenada dentro da peça os atores mambembes representam-se a si mesmos como personagens. Tem início a trama: uma jovem, filha do ferreiro, que se preparava para a vida monástica em Belém, fora assassinada na noite anterior, próximo de onde estavam acampados os atores. Era a terceira ocorrência semelhante em poucos dias: duas outras noviças também foram mortas e seviciadas nas mesmas circunstâncias. O acusado do crime é Geraldo Taqueirinha, oficial cabano, filho de Freire Taqueirinha, o segundo homem mais poderoso do governo cabano em Manaus, que fica furioso, pois sabe que o filho é um devasso inconsequente. Hermínia, sua esposa, não apenas defende o filho como incute no marido a ideia de que o castigo não se abaterá somente sobre o rapaz, mas sobre toda a família, ainda mais que se tratava de crime político: as moças, das poucas pessoas letradas do lugar, eram acusadas de escrever um manifesto em nome dos legais. Pedro, o sapateiro, um homem de muitas leituras, que não simpatizava com a violência, obtém dos atores o testemunho definitivo: um deles viu o assassinato precedido de tortura e violência sexual. Um tribunal de investigação é instalado, sob a presidência do Vigário Geral, que recebera a denúncia de Pedro e dos atores. O tribunal revela-se uma farsa: o sapateiro é torturado e morto, sendo-lhe imputada a morte da filha do ferreiro; os atores renegam o depoimento anterior, afirmando ter visto um mapinguari violentando e degolando a moça.

Sem se deixar envolver pelas armadilhas do maniqueísmo, o texto deixa clara a ideia de que o poder, nas mãos de quem quer esteja, é instrumento de destruição. A cabanagem foi a mais sangrenta revolta do período da Regência – e os livros de história registram que a rebelião, antes de ser tomada por líderes populares emergentes, deu-se em função de mesquinhos interesses privados. E registram também inúmeras atrocidades da outra parte, que, afinal, saiu-se vencedora. O que poderia ser um punhado de dramas individuais transforma-se numa grande tragédia coletiva, onde o homem comum é manipulado, tornando-se algoz de seus próprios interesses. Aqui não há heróis e todos, sem exceção, em algum momento, são pusilânimes: o sapateiro sente um estranho remorso pela morte das jovens, pois era ele que deveria ter escrito o manifesto; não o fez por medo. Por medo, os atores voltam atrás em seu depoimento. Por medo, o Vigário Geral precisa manter o impossível equilíbrio entre o secular e o sagrado. O próprio Taqueirinha sofre do medo de perder o poder: “– O governo é talvez o fardo mais pesado que um homem pode carregar. E muitas vezes carrega sozinho contra o próprio povo.”

A cadeia de pusilanimidades permite que os atores brinquem com a figura do chefe do governo cabano, Correia Sena, que em boa hora vai a uma reunião na vila de Serpa, apresentando duas versões para o fato: ele sabia ou não sabia dos planos de seu substituto? A viagem de Correia Sena deixa a Freire Taqueirinha o encargo de decretar o estado de guerra, com direito a fuzilamento sumário dos legais. Estava salva a reputação da família.

A opção por fazer teatro dentro do teatro remete-nos de pronto a Shakespeare, para quem o mundo é um palco e nós meros atores. A opção pela metalinguagem tem, entretanto, um componente mais prático: evitar o óbvio realismo que uma representação direta dos fatos históricos exigiria. Assim, o que é encenado é uma ilusão da ilusão, uma superilusão, que não permite o mínimo vestígio naturalista. Na leitura, é claro, esse efeito tende a se esvanecer.

Ao leitor amador da boa literatura não passará despercebida a influência da Commedia dell’arte no modo como a companhia mambembe se organiza e “encena” o texto, bem como no nome dos atores-personagens, relacionados com o espírito medieval: Pampineia, narradora de Boccaccio, o cruzado Bohemond e Rossinhol, o rouxinol, tema caro aos trovadores. Há também referências explícitas aos irmãos Marx, no início e no fim, bem como à composição de uma Lady Macbeth portuguesa, na figura da ambiciosa (e pusilânime) Hermínia Taqueirinha. Pequeno teatro da felicidade é um jogo de espelhos, desde o falso título ao falso tom de comédia com que inicia e termina: o público/leitor, se olhar/ler com atenção, ver-se-á, mero simulacro, a entrar e sair da prodigiosa carroça dos atores.

A vida de uma obra: Cidadão Kane

 
Indicado para nove prêmios Oscar, Cidadão Kane levou apenas a estatueta de melhor roteiro original, perdendo o prêmio principal para o chatíssimo Como era verde o meu vale, do glorioso John Ford, que também levou o peteleco de melhor diretor. Mas o Oscar nunca foi sério. Se fosse, Kane deveria levar pelo menos os prêmios técnicos de montagem, fotografia e cenografia, áreas que o filme revolucionava. A piada corrente durante muito tempo foi: Welles não entendia nada de cinema, por isso virou a maneira de fazer cinema, literalmente, de cabeça para baixo, reinventando-a.
(Zemaria Pinto)
 
Orson Welles e Joseph Cottton, em cena onde a profundidade de campo é explícita.
 
 
O projeto de extensão “A VIDA DE UMA OBRA:” é uma iniciativa de professores do Programa de Pós-graduação em Letras e Artes da UEA, vinculados igualmente aos cursos de graduação em Letras e Música, em parceria com a Academia Amazonense de Letras.
O objetivo do projeto é promover, no âmbito da sociedade local, a discussão sobre arte e cultura, ao mesmo tempo em que procura contribuir com a educação da sociedade manauara, referente ao aspecto estético e cultural, além de reforçar os laços entre o conhecimento acadêmico, sobretudo produzido pela pós-graduação, e o conhecimento da sociedade em geral.
Quando: dia 11 de dezembro de 2013, às 18h30min
Onde: Academia Amazonense de Letras, rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com Tapajós – Centro
Tema: Cidadão Kane
Palestrantes: Zemaria Pinto e Berenice Carvalho


A coisa sagrada: o corpo da medicina popular gerando conflito – 2

 

 João Bosco Botelho

 

     Os dois pressupostos ─ a existên­cia da coisa sagrada nas crenças religiosas como instrumento de cura e a religião mantendo diversos níveis de conflito com a medicina universitária ­─, contribuíram para estruturar pensamentos que conduziram o Homem no duplo papel de executor e objeto das práti­cas de curas, para enfrentar o determinismo da morte.

     Também por essa razão não é adequado entender a religião como Portter: "A religião foi a mãe das ciências e das artes...”, mas ampliar o horizonte dos debates em Jung, que fundamentou a confissão reli­giosa na transformação provocada pela experiência pessoal do "numinoso ", seguida da fidelidade à coisa sagrada.

     É possível identificar várias tentativas para entender a religião a partir das palavras latinas "relegere" e "reli­gare", porém todas são passíveis de críticas, já que esses termos latinos não tinham, exatamente, o atual sentido de religião. É possível que indicasse também um conjunto complexo de regras e interdições não relacionadas à coisa sagrada.

     É importante relembrar que há diferen­tes formas de ideias religiosas, presentes na maioria da população do planeta, entre as quais também predominam entendimentos das doenças e da morte atados à coisa sagrada.

     Os livros de medicina e religião não pararam de ser escri­tos, de geração a geração, para além dos sistemas de valores de refe­rência e de interpretações aos quais se ligam. Até um passado recente, a maior parte tecida nas historias lineares quantitativas, onde as estruturas das mentalidades foram seguidamente pouco valorizadas. A literatura que trata dos mesmos temas, nos últimos quarenta anos, por meio da Nova História, se afastou dessa análise acrítica e se enriqueceu nos trabalhos, associando a intencionalidade de curar das práticas religiosas e da coisa sagrada..

     Os progressos teóricos para melhor entender os movimentos sociais por meio da História das Mentalidades, estão se fazendo de modo contínuo, inclusive no que diz respeito às abordagens das doenças e curas atreladas à coisa sagrada.

     Nessa trilha, existem antigas evidências da associação da coisa sagrada à cura e à luta ancestral para vencer o determinismo da morte. Uma das mais significativas é a data da comemoração do dia do médico — 18 de outubro — que corresponde, na mitologia grega, à festa do filho de Apolo, Asclépio, o mais importante deus curador do panteão grego. Pela importância da festa nas tradições populares da antiguidade, o cristianismo provocou inteligente sincretismo e manteve o mesmo registro festivo, no calendário cristão, ao nascimento de São Lucas, o Evange­lista médico.

     Pode ter sido essa epopeia — edificada na luta contra a morte inevitável —, desde a pré-história, um dos fatores que contribuíram no aparecimento da especialização que ungiu a procura sistemática do con­forto e da saúde, ligada à coisa sagrada.         

     Nessa época remota, os registros Neandertais demonstram o entendimento da morte dos entes queridos entrelaçado à coisa sagrada e ao sepultamento ritual. Muitos esqueletos mostram as cabeças voltadas ao leste, acompanhados de generosas porções de carnes e de instrumentos de caça e pesca.

     O imaginável renascimento após a morte — mais significante de todas as coisas sagradas —, que prolonga a vida ao tempo infinito, é o alicerce que mantém vivo o conflito de competência entre a medicina e a religião.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria


Yuehui Tang.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Cidadão Kane - A vida de uma obra





 
É de uma simplificação atroz dizer que Cidadão Kane baseou-se na vida do magnata da imprensa marrom William Randolph Hearst, que moveu todo o seu arsenal de poder para destruir Welles. Hoje, quando já esquecemos quem foi Hearst ou Howard Hughes (outro que se ofendeu com a personagem), Charles Foster Kane é uma alegoria da selvageria capitalista, disfarçada sob o tênue véu da democracia norte-americana, ameaçada, no início dos anos 1940, de um lado, pelo nazismo, e de outro, pelo comunismo.
(Zemaria Pinto)



O projeto de extensão “A VIDA DE UMA OBRA:” é uma iniciativa de professores do Programa de Pós-graduação em Letras e Artes da UEA, vinculados igualmente aos cursos de graduação em Letras e Música, em parceria com a Academia Amazonense de Letras.

O objetivo do projeto é promover, no âmbito da sociedade local, a discussão sobre arte e cultura, ao mesmo tempo em que procura contribuir com a educação da sociedade manauara, referente ao aspecto estético e cultural, além de reforçar os laços entre o conhecimento acadêmico, sobretudo produzido pela pós-graduação, e o conhecimento da sociedade em geral.

Quando: dia 11 de dezembro de 2013, às 18h30min

Onde: Academia Amazonense de Letras, rua Ramos Ferreira, 1009, esquina com Tapajós – Centro

Tema: Cidadão Kane

Palestrantes: Zemaria Pinto e Berenice Carvalho



Orson Welles, vivendo Charles Foster Kane.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Lábios que beijei 7



Zemaria Pinto
Ondina


O corpo nu de Ondina, na moldura da janela, foi meu primeiro alumbramento. A pele clarovioleta, a bunda em concha, os seios pequeninos, os ossos salientes. Tudo no corpo de Ondina era mistério, mesmo ao alcance dos meus olhos, quase ao alcance das minhas mãos, a ponto de sentir-lhe o cheiro que emanava dos dedos, que se alternavam na vulva de pelos fulvos. O encontro com Ondina e seus dedos cheirando a flores silvestres eram parte de um ritual cotidiano que se repete na minha memória como se fosse sempre a primeira vez que vejo um corpo de mulher a rolar sobre a cama – as mãos, os dedos, a carne doce de Ondina, o meu desejo em desespero.

domingo, 1 de dezembro de 2013