Amigos do Fingidor

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A serpente e a medicina


 

João Bosco Botelho

 

          A importância da cobra nas construções metamórficas da proteção contra a dor, à morte e aos infortúnios está presente desde muito tempo.  A naja enfeita em posição superior e em destaque a belíssima máscara mortuária de ouro maciço do jovem faraó Tutankamon.

          A asso­ciação entre a serpente e a Medicina estava presente na sociedade babilônica, em torno de 1500 a.C. O deus da cura Ningishzida, da região de Lagash, era representado por duas cobras enroladas em um bastão.

         É possível estabelecer pelo menos duas imagens simbólicas unindo a cobra à Medicina. A primeira está ligada ao fato desse animal poder viver acima e abaixo da terra, mediando dois mundos diferentes. A outra, mais importante, pelas ligações metafóricas com o renascimento, por meio da renovação periódica da pele. 

          O caminho trilhado pelo imaginário humano na busca da imortalidade ligada à cobra, também está presente em dois fantásticos registros mais ou menos da mesma época:

1. Rig Veda, onde os Adityas são descri­tos como descendentes da cobra porque ao perderem a pele se tornam imortais;

2. Epopéia de Gilgamesh, on­de esse herói mítico, príncipe de Uruk, após vencer incríveis obstáculos para garantir a posse do vegetal capaz de garantir o renascimento do amigo morto numa batalha, num instante de descuido, presencia o réptil renovar a pele após comer a planta sagrada, a plena posse da vida eterna. Restou a convicção da inevitabilidade da morte.

          Como não é possível separar a luta humana para viver para sempre das práticas médicas, a mais significativa herança ocidental das relações da serpente à Medicina é oriunda da mitologia grega. De modo geral, o herói grego estava associado à arte de curar. Grande número de deuses e deusas possuía o dom de curar doenças e feridas de guerra. Um dos filhos de Apolo, Asclépio, foi educado pelo centauro Quirão para ser médico. O centauro detinha o completo conhecimento da música, magia, adivinhação, astronomia e da Medicina, além de ter a maior habilidade entre todos, a ponto de manejar com igual destreza o bisturi e a lira.

     Asclépio conquistou fama inimaginável; possuía a delicadeza do tocador de harpa e a habilidade agressiva do cirurgião. Todos os doen­tes que não obtinham cura em outros oráculos procuravam os servi­ços desse deus curador. Muito mais que cirurgião, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Na famosa trilha de curas extraordinárias, ressuscitou alguns mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios dos Ciclopes.

          Zeus matou Asclépio porque temia que a ordem natural que rege a vida e a morte de todos os seres vivos – especialmente a dos homens, das mulheres e das coisas – fossem subvertidas nas ressurreições dos mortos.

          Asclépio se tornou o maior dos curadores do panteão grego; era celebrado em grandes festas públicas, no dia 18 de outubro.

          Após a conquista da Grécia pelas legiões romanas, com o passar do tempo, alguns aspectos da mitologia grega foram absorvidos pelos gregos: mantiveram a narrativa teogônica e rebatizaram Asclépio de Esculápio.    

          Logo após a cristianização do império romano, a partir de Constantino, não ocorreram mudanças significativas na data de comemoração do dia do Médico no Ocidente.  Muitos afrescos retratando Asclépio, entre os séculos 5 e 1 a.C., contêm a cobra enrolada no bastão.

          Essa história de longa duração é tão forte que, ainda hoje, entre as alegrias dos pais plenos de orgulho, quando o filho ou a filha é aprovado no vestibular para Medicina, é presenteá-lo com o broche ou caneta contendo o milenar símbolo das práticas médicas: a serpente.

      

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fantasy Art - Galeria

O nascimento de Vênus.
Chelin Sanjuan.
 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pequeno tratado sobre a melancolia



 
Tainá Vieira

 
 

Eu queria escrever um tratado, uma teoria seria mais difícil. Gostaria de dissertar sobre algo que me deixasse contente. Contente, eis aí o problema, no meu vocabulário não há espaço para as palavras contente e alegre. Contente é aquele que teve um desejo realizado e alegre é aquele que tem, sente e manifesta alegria. E eu não me encaixo em nenhuma dessas, pois tudo na minha vida é cinza, o céu é cinza, o mar é cinza, as folhas das arvores são cinza, até meu sangue é cinza. Tudo é cinza. Tudo ao meu redor é tão mórbido, tudo está parado, calado, nada tem vida, e eu me sinto uma egoísta, pois estou só num mundo vazio, morto. Esse é o meu mundo. Triste. Sem hipérbole, nasci no dia da tristeza.

Talvez eu possa discorrer sobre isso, sobre a tristeza, tristeza que é a falta de alegria, ou talvez seja melhor tratar sobre a melancolia, que é algo mais profundo do que a tristeza. Melancolia é um estado mórbido, caracterizado pelo abatimento mental e físico, estado de tristeza e desencantamento geral; depressão. Penso que jamais tive um encantamento na vida, pois desde o dia em que me entendi como gente, a tristeza me acompanha e se não for curada se agrava e se torna melancolia. E foi o que me aconteceu. Começou com pequenas perdas, algumas rejeições e muitos desencontros.  Mais tarde, quando já estava um tanto amadurecida e sonhava com a alegria, parecia que mais triste eu ficava.  A melancolia é a pior de todas as enfermidades, ela chega aos poucos, vai contaminando lentamente, primeiro tira os sonhos, depois o sono e a fome, acaba com suas forças, deixa o ser humano sem vontade para nada, até para chorar ou se lamentar, e por ultimo, é a fase terminal, deixa tudo cinza, tão cinza que quando o sol tenta se aproximar, seus olhos doem, pois já estão acostumados com o dia cinzento. Isso é lastimável, é dolorido demais, não deixem, leitores, que a melancolia chegue perto de vocês, não queiram entrar num estado melancólico, pois este é um passo para morte, aliás, esta que fica rondando o leito do paciente melancólico e coloca visões e vozes na sua cabeça. A morte aparece em forma de anjo, um anjo tão lindo que sua beleza confunde o paciente e é por isso que este se entrega totalmente a ela.  Engana-se quem pensa que a morte é uma coisa horrorosa, não, ela é tão simpática e amiga, ela tira o paciente do estado melancólico e o leva embora, prometendo-lhe um lugar melhor, feliz.  Eu já vi a morte, já ouvi suas conversas e quase dei a mão a ela, mas estava tão sem forças que preferi esperar mais um pouco. E hoje a morte vive me rodando. Ela tornou-se meu guarda-costas. Mas ainda bem que quando ela chega perto de mim deixa-me algumas ideias que passo para o papel. Eu sou uma paciente melancólica que mesmo sem forças consigo pensar um pouco.  Talvez eu não me cure dessa doença, mas fica aí o meu alerta.

Entrar num estado melancólico é quase por um fim na vida. Muitos não conseguem escapar, conheço um ou dois que escaparam, foi muito difícil, não sei como fizeram, no entanto, hoje dão seus depoimentos. E esses ex-melancólicos vivem a dizer que mesmo tendo sido curados, às vezes, sentem-se um pouco melancólicos, não com tanta intensidade, mas sentem-se. Eu, sinceramente, se é para ficar sentindo recaídas, prefiro dar as mãos ao anjo da noite... Ah, para melancolia não há remédio, desconheço algum, penso que nem caseiro tem.  Mas tenho um palpite para saber da cura de um ou dois ex-melancólicos: devem ter feito um trato com a morte!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Lábios que beijei 10



Zemaria Pinto
Célia


Célia tinha um ar esquisito que hoje identifico com sexo – Célia transpirava sensualidade: os olhos oblíquos, mas não de cigana, de cabocla; os lábios cheios, levemente entreabertos; os seios túmidos, revelando-se sob o vestido de chita. E as coxas. Se Deus fosse dado a coxas, aquelas seriam a sua perfeição. Eu desejei Célia como desejava manga espada ou jaca da bahia – um desejo úmido e cheio de cheiros. Célia perturbou-me os sentidos por muito tempo. Passava pelo seu quintal-jardim várias vezes ao dia, para vê-la e adivinhá-la os odores e comê-la com meus olhos já míopes e, sobretudo, desejá-la a distância. Lembro-me de Célia como num quadro de Boucher: a cabocla balançando, quase alçando voo, num jardim tropical. Em vez de ceroulas, coxas. As coxas de Deus.

domingo, 5 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
Siren's Lament.
Anne Stokes.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 10/10



Zemaria Pinto

 

1.  Concluindo

 

A relação de Márcio Souza com o teatro está longe de se esgotar, mas já faz parte da história: uma história sem textos herméticos ou representações idem; sem textos engavetados, pasto de traças insensíveis; sem apelos de facilitação ao gosto mediano do distinto público. O que contamos como uma saga de sucesso, na verdade tropeçou em muita incompreensão e censura. Se hoje Márcio Souza é (quase) uma unanimidade, não é porque mudou o dramaturgo; mudou, sim, o público, que, naturalmente, aguçou sua percepção, embora sua referência dramatúrgica ordinária ainda sejam as novelas de televisão, os abjetos reality shows e, novidade (!), as abomináveis comédias stand up.

Márcio Souza inscreve-se hoje entre os grandes dramaturgos deste país, ainda que sob o risco de ser tachado de “regionalista” por uma crítica cosmopolitamente provinciana. O dramaturgo Márcio Souza é universal na medida em que suas peças refletem a intricada relação entre o homem contemporâneo, com suas práticas e hábitos sociais e mentais, e as perspectivas históricas mais diversificadas – do tempo mítico à temporalidade mais banal; da leitura dos jornais de hoje, por exemplo. A província e a floresta de Márcio Souza são tão universais quanto as províncias de Balzac e de Gogol e os sertões de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa, no que esses autores transcendem a mera geografia para se inserir como repositórios das mais recônditas experiências humanas.  

Este é o resumo de uma obra em construção. Uma obra que se pauta pela aguda participação nas questões cotidianas, sem descuidar do apuro estético – esse amálgama que dá longa vida à obra de arte. Os deuses, os heróis e os bufões de Márcio Souza contam parte de nossa história – e ainda a contarão por muito tempo. 

 

Referências

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Reunião: 10 livros de poesia. 6. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

ANDRADE, Oswald. A morta. 3. ed., São Paulo: Globo, 2005.

ARISTÓTELES. Arte poética. In: A poética clássica. 3. ed. Tradução: Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 1988. p. 19-52.

BACHELARD, Gaston. Fragmentos de uma poética do fogo. Trad. Norma Telles, São Paulo: Brasiliense, 1990.

CAMUS, Albert. O homem revoltado. 7. ed. Tradução: Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2008.

CASCUDO, Luis da Camara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: EDUSP, 1988.

_____________. Em memória de Stradelli. 2. ed. Manaus: Governo do Estado do Amazonas, 1967.

_____________. Geografia dos mitos brasileiros. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: EDUSP, 1983.   

ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Tradução: Manuela Torres, Lisboa: Edições 70, 1986.

KRÜGER, Marcos Frederico. Amazônia: mito e literatura. Manaus: Valer / Governo do Estado do Amazonas, 2003.

KUMU, Umúsin Panlõn; KENHÍRI, Tolamã. Antes o mundo não existia. Introdução e texto final: Berta Ribeiro. São Paulo: Cultura, 1980.

PEREIRA, Nunes. Moronguêtá – Um Decameron Indígena – Vol. 1. 2. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Brasília: INL, 1980.

REIS, Arthur Cézar Ferreira. História do Amazonas. 2. ed., Belo Horizonte: Itatiaia, Manaus: Superintendência Cultural do Amazonas, 1989.

ROUBINE, Jean-Jacques. Introdução às grandes teorias do teatro. Trad. André Telles, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. 1º tomo. Tradução: Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

SOUZA, Márcio. Breve história da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.

______. O palco verde. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1984.

______. Teatro I. São Paulo: Marco Zero, 1997a.

______. Teatro II. São Paulo: Marco Zero, 1997b.

______. Teatro III. São Paulo: Marco Zero, 1997c.

Micrologia das doenças sem perder a bondade




João Bosco Botelho

 

O mais importante dos mecanicistas foi Marcelo Malpighi (1626-1696), aluno de Santório. Esse inigualável teórico representa na história da ciência o pioneirismo na construção do pensamento micrológico, isto é, a visão de estruturas vivas por meio das lentes de aumento.  

Pode-se afirmar, sem risco de errar na imprudência do exagero, que após as publicações de Malpighi, a medicina-oficial de distanciou das outras práticas de curas e começou a própria história como ciência.

O pensamento microscópico mobilizou a doença da macroestrutura (corpo) para a microestrutura (célula). Com esse fato se abriu a porta que desvendaria a base de toda a medicina da atualidade: o diagnóstico microscópico.

Na atualidade, a maior parte do diagnóstico, tratamento e prognóstico das doenças que continuam afligindo a humanidade é alicerçada no diagnóstico da infecção ou do tumor, portanto micrológico, a identificação da doença por meio do microscópio.

Para que se tenha ideia da grandeza dos estudos de Malpighi, a maior preocupação das pessoas e dos serviços de saúde, no mundo, nos dias atuais, são os diagnósticos e tratamentos das infecções e dos tumores, ambos realizados graças à microscopia.

As descrições de Marcelo Malpighi são empolgantes, plenas do novo que desloca o anterior: "a pulga é horrível, o mosquito e a traça os mais belos e foi com grande contentamento que vi como fazem a mosca e outros pequenos animais para caminhar...".

O conjunto das novas observações consequentes da utilização das lentes de aumento, compondo o microscópio rudimentar, se mostrou tão importante que se formaram associações científicas, onde eram comunicadas e discutidas as descobertas da microestrutura do corpo humano.

Entre muitas aplicações imediatas, no século 16, da construção teórica de Malpighi, se destacou a identificação do ácaro, como agente causador da sarna. Essa doença da pele, já era conhecida desde os tempos bíblicos como contagiosa, mas até então, sem explicação de como se dava a contaminação.

Por outro lado, a certeza de poder fazer o diagnóstico por meio das lentes de aumento determinou mudança no comportamento do médico, antes mais próximo do leito do doente, como determinavam os preceitos de Hipócrates, desde o século 4 a.C. Recebeu forte crítica a frieza com que os médicos se  ataram à concepção mecanicista, reduzindo o corpo à máquina.

As críticas dessa medicina mecanicista atingiu consolidação adequada com as publicações de Thomas Sydenham (1624-1689), que trabalhou até os últimos anos da vida voltado à demonstração de que o ponto fundamental da medicina era a presença do médico na cabeceira do doente, utilizando os recursos que pudessem auxiliar na cura.

Essa questão crítica da prática médica continua muito atual. Em muitas circunstâncias, alguns médicos ficam afastados das cabeceiras dos doentes, somente utilizando os recursos tecnológicos. Essa atitude leva ao enorme hiato que dificulta a compreensão do componente social no aparecimento e desaparecimento das doenças.

Algumas escolas de medicina ainda não se afastaram dos conceitos mecanicistas do Renascimento. Alguns estudantes de medicina são treinados no diagnosticar da rara doença cardíaca utilizando sofisticados aparelhos; se diplomam sem saber diagnosticar a verminose ou conduzir o parto normal.

De certo modo, a agudização dos conflitos entre médicos e doentes está assentada na ausência dessa relação humanitária: o médico amigo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fantasy Art - Galeria

 
The Chastity.
Dorian Cleavenger.
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Uma história




Tainá Vieira

 

O meu primeiro livro eu o encontrei na casa de meu avô, Sandoval Gomes. Como eu sei que um dia iriam pesquisar sobre minha vida, família, meus gostos etc, etc, já vou logo adiantando um pouco. Esse meu avô era um cara muito incomum, sim, incomum dos outros avôs daquela cidadezinha do Oeste do Pará. Ele era conhecido pela sua bravura, era muito respeitado e temido por muita gente, e seus filhos e netos também eram respeitados. Fazer parte da família e carregar o seu sobrenome era uma honra. Seu Sandoval Gomes dos Santos foi um pracinha, expedicionário do exército brasileiro, foi à guerra, mas adoeceu e retornou da Itália. Não sei bem a história, só sei que quando o me entendi por gente ele era conhecido como Tenente, era mais respeitado do que o delegado, tinha muitas terras, muitas cabeças de gado e dinheiro também. Ele tinha uma casa imensa na qual morava sozinho, sozinho entre aspas, pois todos os dias o casarão ficava cheio de trabalhadores que iam cuidar de suas terras e plantações. 

Todo trabalhador queria trabalhar para o meu avô, pois ele pagava bem e a comida era muito boa, ele matava boi e porco, para alimentar seus serviçais.  Lembro-me também que havia cozinheiras e lavadeiras no casarão, essas que depois do jantar iam aquecer a cama de meu avô, pois ele era separado da vovó. Lembro-me também que meu avô tinha um motorista. Ele tinha dinheiro, podia desfrutar de tal lazer. Meu avô dava festas em datas comemorativas, como o dia do soldado, natal etc. As festas eram grandes e comentadas por toda a redondeza. Em relação à família, filhos e netos, ele foi inigualável, todos o adoravam. Quando chegávamos ao casarão tínhamos toda a regalia do mundo, mesa farta, criados para nos servir, podíamos fazer tudo lá, brincávamos naquele casarão e o deixávamos de cabeça para baixo. Mas também, tínhamos que ser obedientes e bem comportados, porque, afinal, tínhamos um nome. Hoje em dia quando leio romances brasileiros, aqueles que abordam os coronéis, senhores de engenhos e grandes fazendeiros, lembro-me de meu avô. Um dia, já fui princesa ou sinhazinha e já vivi em um reino. 

Eu disse que o meu primeiro livro eu o encontrei na casa de meu avô. Foi no tempo em que eu contava 10 anos, o último ano da existência dele na terra. Eu estava sozinha na casa e comecei a bisbilhotar, entrei num quarto onde meu avô passava a maior parte do tempo, tinha uma mesa, uma cadeira e uma estante com jornais velhos, e alguns livros, e também muitas caixas. Olhei para as caixas e elas estavam cheias de papel, ou melhor, livros e cadernos, me sentei ali e comecei a mexer naqueles livros, eles me atraíam muito, não tive como me conter, por isso continuei mexendo. Eram muitos livros, fiquei encantada, nunca tinha visto tantos livros na vida. Hoje, quando me lembro daquele dia, ainda fico impressionada, pois não era algo comum ou normal, não para um avô no interior, ou para um lugar como aquele. Acho que vem de meu avô a minha paixão com os livros. No casarão, sei que tinha muitos e sei também que meu avô os lia, pois eu lembro que gostava de ouvi-lo falar, ele falava bonito, tinha uma voz firme, uma pose e elegância quando dizia palavras.  

O livro pelo qual me apaixonei, era de capa dura e de cor vermelha com o título em letras douradas e parecia bastante antigo, era uma edição de Quincas Borba, de Machado de Assis. Havia outros livros do Machado, que mais tarde, já adulta, eu iria ler, mas eu gostei mesmo foi desse, Quincas Borba. Nunca havia contado a ninguém sobre essa história do meu primeiro livro. Como lembro sempre do meu falecido avô, resolvi contar. Foi minha primeira vez... Eu peguei o livro e o levei dali, meu avô não deu falta dele; no outro dia, à tardinha, eu o devolvi. Gostei demais. Depois, já mais velha, o reli, o reencontrei, e na faculdade, li-o pela terceira vez, foi quando fiz uma "análise" sobre ele.  "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas". Se fosse a autora dele, daria mais vida ao Quincas, gostei dele, era um homem inteligente, merecia viver mais. Acho-o até um pouco parecido com Dom Quixote, não sei, são coisas minhas, eu sou assim, lembro de muita coisa ao mesmo tempo, mas não esqueço uma coisa: o Quincas. Então, a história começa com o seu Sandoval Gomes, que era meu avô, que tinha um casarão cheio de livros, eu era neta dele e peguei um livro seu e o li, me apaixonei por Machado e muito mais por Quincas Borba e por outros loucos iguais a ele, como Dom Quixote, e assim me tornei uma lunática também e com um propósito: lembrar dos loucos.
 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Lábios que beijei 9


Zemaria Pinto

Negra



Esqueci o seu nome. Nem sei mesmo se alguma vez o soube. Só o seu rosto redondo encimando o corpo negro me vem nítido à memória. Mas algo me incomoda nessas lembranças: a resistência pétrea de sua carne. Tudo nela era rijo como pedra. Não de uma dureza maleável, como se esperaria de um corpo quase adulto. Pedra fria. Quando penetrei seu corpo, naquela tarde de sábado, na praia de Ponta Negra, estava úmida e dura. Nenhuma diferença entre os dentes e os seios. Uma tarde chuvosa, dezenas de enchentes depois, contei a história da minha primeira vez ao amigo poeta Alcides que, nervos à flor da pele, em plena mesa de bar, escreveu num guardanapo o sublime Na praia da Ponta Negra: “...Mas quando te sonho nua / na praia da Ponta Negra, / com gestos de pré-amar...”. Como era sua voz, como eram seus cheiros, a maciez de seus toques, a volúpia de seus beijos? A cena me vem silenciosa e muda, um melancólico filme antigo, nenhuma palavra, nenhum gemido, ao menos, um ai de dor ou de prazer. Apenas a rigidez da pedra fria: menina mulher, talhada em ônix.

domingo, 29 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria


Jiansong Chen.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 9/10


Zemaria Pinto


1.  Peças cariocas

As peças tratadas neste bloco, além do cenário motivador do título, escancaram o tema político dos anos 1960/70, sem subterfúgios: depois de tanta censura, a promessa do general Geisel, de uma distensão lenta e gradual, permitia ousar uma crítica menos velada ao “sistema”. Essa objetividade redunda em textos cuja leitura só se completa sob a perspectiva histórica da época. Para os amazonenses, há um outro estranhamento: o referencial geográfico carioca, distante daquele teatro amazônico, trágico-iconoclasta, pleno de poesia.
Desentranhada do romance Operação Silêncio, de 1979, O elogio da preguiça, encenada pela primeira vez em 1980, põe em cena uma embaixatriz e um general ociosos e saudosos de tempos ainda mais duros, em oposição aos representantes da “classe operária”, Maria, a “afilhada” da embaixatriz, e João, que entra na história que nem o J. Pinto Fernandes, do poema “Quadrilha”, de Drummond. Recheada de expressões e situações chulas, bem ao gosto das platéias cosmopolitas, O elogio da preguiça cumpre sua função de farsa clássica, no emaranhado de quiproquós e na pouco sutil, mas muito engraçada, sessão espírita, onde o infeliz ectoplasma do camarada Stalin resolve dar o ar de sua graça. 
Ação entre amigos retoma o pano de fundo político, numa paisagem de fim de semana. Sem data de encenação ou escritura, trata-se de um thriller, com um crescendo que vai de uma tenebrosa tempestade a múltiplos assassinatos, com intermezzos de pesadelos, que ajudam a delinear melhor as principais personagens. Nesse tipo de trama, é melhor não adiantar nada para não frustrar o clímax, mas garanto que o culpado não é o mordomo, até porque não há um nesse drama motivado pela vingança de uma vítima do regime militar. 

As peças cariocas parecem hoje deslocadas no conjunto da obra dramática de Márcio Souza, mas, do ponto de vista de sua evolução como escritor – dramaturgo, romancista, ensaísta –, elas são como elementos que se encaixam num grande painel de época. Se as metáforas das peças míticas, das tragédias e das chanchadas perduram é porque mantêm a “atualidade de sensações e preocupações”, enquanto as peças cariocas tratam de temas historicamente – talvez seja mais sensato dizer “presentemente” –  superados, como a ameaça ao estado democrático, ainda que subtemas, como a corrupção política e o ócio de uma classe decadente e improdutiva, nunca tenham sido tão atuais. De qualquer forma, a denúncia do grotesco representado pela tutela imposta pelo estado policial-militar é parte indissociável do legado do autor.    

Mecanicismo: construções do diagnóstico, tratamento e prognóstico



João Bosco Botelho


            A principal diferença entre a medicina-oficial (reconhecida pelo Estado), cujo represente é o médico, e as praticadas pelos curadores de todos os matizes, sejam as inseridas nas estratégias de catequeses das ideias e crenças religiosas (medicina-divina), cujos representantes, entre muitos outros espalhados nos cinco continentes, atados às respectivas culturas, são padres, pastores, médiuns, benzedores, pais e mães de santo, e as dos conhecedores do saber historicamente acumulado (medicina-empírica), com o pajé sendo o agente mais importante, reside no fato de a medicina-oficial estar assentada em torno de processos teóricos que constroem o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico.
            Um desses processos teóricos – o mecanicismo – teve profunda influência nas práticas médicas oficiais a partir do século 16. Um pilar dessa mudança pode ser sentida nas palavras de Galileu Galilei (1564-1642): "Aquilo que acontece no concreto, acontece do mesmo modo no abstrato, os cálculos e raciocínios feitos com números abstratos devem corresponder aos cálculos feitos com moedas de ouro e prata. Os erros não estão no concreto ou no abstrato, na geometria ou na física, mas no calculador, que não sabe calcular".
Essa afirmação de Galileu retrata muito bem o pensamento dominante no Renascimento europeu: o progresso da ciência estava nas mãos dos homens. O conceito de máquina substituiu o de fábrica nos tempos de Galeno, na Roma do século 2. Desse modo, entre os séculos 16 e 17, os homens e mulheres da ciência começaram a medir a "máquina humana" em níveis nunca antes imagináveis.
Os antigos conceitos dos fenômenos fisiológicos e anatômicos de Hipócrates e Galeno foram criticados e substituídos com base na nova concepção científica. O corpo foi desvendado, dividido em partes e estas comparadas com o fole (pulmão), dentes (tesoura), filtro (rim) e outros. Apesar dos exageros, estava aberto outro caminho na compreensão do diagnóstico, tratamento e prognóstico.
O médico Santório (1561-1636) foi um dos primeiros a aplicar na medicina-oficial as novas concepções de medidas. Esse homem extraordinário mediu o ritmo por minuto da respiração e do coração, as quantidades diárias de saliva, urina e fezes. Comparando com o peso do alimento ingerido, concluiu que o corpo deveria eliminar por outras vias, parte do que era ingerido. No século seguinte, esses estudos serviriam de base para a primeira ideia daquilo que seria conhecida por metabolismo basal (conjunto de reações químicas endógenas para a produção de energia indispensável à vida).
A produção de Santório, publicada, em 1614, no livro Distatica Medicina, descreveu com incrível clareza a construção teórica comparando o corpo humano como uma fábrica, com os acontecimentos biológicos, longe de serem mágicos, seriam reproduções dos fenômenos físicos.
Nesse conjunto efervescente de saberes e dúvidas, se destacou Marcelo Malpighi, o precursor do pensamento micrológico, com a magistral descrição do invisível aos olhos, usando a lente de aumento: "Contemplei inúmeros animais pequenos com admiração infinita: entre eles, a pulga é horrível; o mosquito e a traça, os mais  belos, e com grande contentamento vi  como  fazem  a  mosca  e  outros pequenos animais para caminhar".
Os mecanicistas não estabeleceram relação coerente entre as partes, isto é, entre outros exemplos, como o coração se relaciona com o rim e o pulmão. Essas dúvidas seriam parcialmente aclaradas no século seguinte com os estudos experimentais de Claude Bernard.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria


Artista desconhecido.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Café de dezembro



Tainá Vieira

 

Então naquela manhã de dezembro, eu acordei muito magoada, coração ferido, era o segundo dia sem dizer palavra um para o outro, ele saiu sem se despedir. Fiquei pensando, dez anos de amor e tem que acabar assim?  Custei a internalizar aquela ideia de fim de casamento. Foi a primeira vez que não chorei, nas brigas anteriores só chorava, chorava tanto que meus olhos sumiam de tão inchados que ficavam. Mas naquele dia não queria chorar, prometi a mim mesma não chorar, não valia mais a pena. Meu peito ardia, meu corpo todo se contorcia de dor, de tristeza, de culpa, de remorso e de ódio. E um nó imenso na minha garganta que parecia que ia explodir a qualquer momento, e por um instante senti um pingo d’água quente sobre minha face, e desesperada gritei um “não”. Não podia ser lágrima, logo me acalmei e percebi que era suor, pois aquela manhã de dezembro estava demasiadamente quente, e quando notei, estava na cozinha preparando o meu café, a água já estava borbulhando na chaleira, por isso suei.

 Toda manhã, eu preparo o meu café, só eu o sei fazer, gosto-o não muito fraco e nem muito forte, nem muito doce e nem muito amargo, a empregada jamais acertou prepará-lo, aliás, empregadas nunca aprendem o que a gente ensina, elas sempre fazem tudo à sua maneira, elas fazem questão de não aprender, logo, eu tenho que preparar o meu café toda manhã. Quando olhei aquela água ali, borbulhando, muito quente, pensei na minha vida, estava daquele jeito, em reboliço, toda bagunçada, coloquei o açúcar na água quente e mexi, depois joguei a água sobre o pó de café que já estava no coador, senti um arrepio forte quando vi a água quente tocar o pó seco, era como se aquela água estivesse caindo sobre meu corpo, segurei firme a chaleira para não cair e continuei derramando a água. Quando caiu a ultima gota, agora já de café, passei horas de olhos fixos no pó assassinado, pois foi assim que o vi, morto, sem aroma, sem alegria, e novamente estava a pensar na minha vida, encontrava-me praticamente como o pó de café, a diferença é que eu ainda vivia, só não sabia até por quanto tempo.

Coloquei o café na garrafa e preparei a mesa, toda e qualquer refeição, eu gosto de fazer a mesa, mesmo sozinha, pois as refeições são como símbolos para mim, representam algo que é mais que sagrado, ainda que eu esteja magoada ou com raiva, sempre faço questão da mesa posta. Iniciei o ritual da primeira refeição, comia, bebia e pensava na minha vida, pensava nele, não, ainda não acreditava que aquele era o fim, eram dez anos, uma vida, não podia acabar assim, não, não ia terminar desse jeito, sem conversa, sem uma tentativa de recomeço... Foi aí que me lembrei de que já havia tido muitos “recomeços” e que todos os “recomeços” duravam apenas uma semana, e logo vinha o fim e foi assim que se passaram dez anos de fins e recomeços e todas às vezes eu encontrava-me ali, preparando o meu café, eu engolia um pouco de café e um pouco de mágoa, demorava a passar o café pela garganta que continuava com o nó. E meus olhos já estavam a ficar vermelhos, e repetia mentalmente, não vou chorar, não vou chorar...

De repente algo aconteceu, naquele dia, o café estava com um gosto diferente, não podia ser, falava sozinha, eu sempre acertei o ponto, o que fiz para agora estar tão amargo?! Enrubesci, não podia acreditar, café é para mim como uísque era para Vinicius, não podia acreditar que tinha errado o ponto, corri para a pia e fui olhar o coador na tentativa de ver se tinha posto pó a mais, não deu para perceber, fui ao açucareiro, será que coloquei açúcar a menos?! Também não deu para perceber, retornei a xícara e tomei um pouco mais de café, nossa, estava horrível, voltei ao coador, e aquele pó parecia chorar para mim, aí pensei, não podia ser, eu o vi morrer quando joguei a água quente sobre ele. E agora esse pó parece estar sorrindo para mim! Lembrei-me de meu marido naquele momento, não sei por que, só sei que com certeza haveria outro recomeço. Terminei meu delicioso café da manhã, corri à biblioteca e comecei a escrever esta crônica.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Antônio




Letícia Cardoso

 

 Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia[1]

 

Já era tarde e eu não conseguia dormir. O trabalho na firma me deixava fatigado, o número de processos aumentou nos últimos dias por conta da suposta contaminação da água. A “Águas puras” teria que pagar indenização às quatro mil pessoas que moram ao redor de sua adutora. Isso sem falar dos outros cidadãos que consumiam a água dali e obviamente foram afetados por ela. Para a minha sorte, eu não sou advogado da empresa, faço parte da acusação.

O problema é que os martírios dos outros quando ouvidos com muita frequência, como é o meu caso, acaba nos afetando. Hoje, por exemplo, ao tomar o café da manhã não pude deixar de me recordar da história de seu Geraldo. Um velho agricultor que mora há 30 anos na região de Plácidos e além de trabalhar na fazenda próximo à empresa de água também era consumidor dos seus serviços.

Naquela semana voltava para casa entre as onze horas e meia noite. Não comia nada nesse horário, ia direto para o banho e depois dormia. Mas naquela madrugada de sexta as coisas pareciam diferentes.

Saí do meu quarto, fui atrás de algo para beber na cozinha. Encontrei apenas água. Ao bebê-la notei um bilhete pregado na cafeteira. Dizia que Antônio, nosso empregado, não estaria em seu horário de costume, pois sua mãe tinha passado mal no fim da tarde. Em outras palavras, teria que tomar meu café no botequim da esquina.

A madrugada quente e a insônia repentina fizeram da minha vida um inferno pelas quatro horas que se seguiram depois que voltei da cozinha. A cama molhada pelo suor das minhas costas rangia e tornara-se pequena para o meu corpo carente por descanso. Eis que às 4h20 ouvi a porta da frente de casa se abrir. Pensei em descer e ver quem chegava àquela hora, decerto deveria ser meu irmão vindo da esbórnia.

Como não ouvi barulho de nada sendo quebrado, realmente fiquei preocupado. Pois isso confirmava que não era o beberrão do meu irmão quem entrara em casa. Já próximo à porta do meu quarto entendi que o indivíduo encaminhara-se para a cozinha.

Pronto para descer, percebi que os passos eram leves e os ruídos denotavam o andar de Antônio e não de um bêbado. Do alto da escada ainda pude ver um pequeno vulto gordo entrar no dormitório do empregado. Descoberta a minha charada, voltei para a cama. Feliz por não ter que ir ao botequim de manhã, consegui, por fim, dormi um pouco.

Quando vi que o café não estava pronto resolvi bater na porta de Antônio. Não era possível que ele tivesse esquecido dos horários! Bati, chamei, mas não tive resposta. O vadio do meu irmão olhou-me de seu quarto reclamando do barulho.

– Ora! O santinho precisa de descanso?! – respondi-lhe atravessado.

Irritado comigo ele disse que fosse ao botequim tomar meu café, pois Antônio ainda não havia retornado. Antes mesmo que pudesse contestá-lo, o imprestável fechou a porta de seu quarto e minhas palavras acabaram por morrer nela.

Pedi uma média do Adalberto e quando me sentei em uma das mesas do botequim, Clóvis, o motoboy da empresa, abordou-me para contar sobre a morte de seu Geraldo. O pobre homem morrera desidratado. Davam-lhe água, soro caseiro, mas nada adiantava porque a sede de seu Geraldo só aumentava.

Clóvis, assustado, ainda disse-me que seu Geraldo morreu com os olhos petrificados no copo d’água que lhe serviram e a língua seca para fora da boca. Quando colocado em seu caixão, sua pele apesar de escura tinha uma transparência em que podia ser visto o sangue coagulado.

Eis que mais três dias se passaram e Antônio não voltara para casa, embora todas as madrugadas, ainda vítima da insônia que me acometera nos últimos tempos, ouvia os passos que iam para o quarto do empregado. Meu irmão disse que a imagem que vira da última vez deveria tratar-se da gata grávida que adorava dormir ali perto da cozinha. Não concordei, mas também não disse que discordava. Nunca se pode dar valor demais ao que os vadios falam, pois senão você acredita neles e aos poucos cede aos seus vícios e eu pretendo crescer na firma.

Eram três da manhã e eu não havia dormido ainda. Desci à cozinha e tomei um pouco do leite destinado à gata. Percebi que o sujeito de todas as madrugadas já adentrara o quarto do empregado. Espreitei no corredor e segui para o dormitório de Antônio. Ao chegar lá, o vi se contorcendo, tive que segurá-lo para que não se machucasse, sua boca estava seca e a pele escura, como a de seu Geraldo, também era fria e tinha cheiro similar a algo pútrido. Dei-lhe água duas, três, quatro vezes, até que ele se restabeleceu e dormiu. Ao acordar, percebi que ele não estava mais ali.

Faltei ao trabalho naquele dia. Fui atrás de meu empregado. Procurei-o na casa de sua mãe, mas ela me disse que não o via há uma semana. Encontrei com Paula, sua noiva, e esta contou-me que seu noivo não aparecera desde o fim de semana em que foram ao balneário da “Águas Puras”. Se antes apenas desconfiava, agora tinha certeza: Antônio tinha sido afetado pela água. Porém, estranhando a saúde de Paula, interroguei-a sobre o tal passeio. Ela me contou que não entrou na piscina. Odiava o tal lugar porque era abarrotado de gente e sempre acabava em confusão. Por isso, Paula preferiu ficar sentada no quiosque, observando seu noivo nadar.

– Ah, os caprichos das mulheres! Superficiais para nós, homens, mas, não raro, cobertos de razão – pensei. Na madrugada seguinte, a agonia de Antônio se repetiu. Eu o ajudei como da outra vez. Já fraco dormiu por dois dias, às vezes se debatia durante o sono e eu ou meu irmão o segurávamos. Chamamos um médico, mas ele disse que para o estado de Antônio não havia cura. Uma semana passou e meu empregado estava mais magro e estranhamente novo. Os momentos de grande crise eram no período noturno. Senti que o fim dele estava próximo. Por isso, mandei buscar sua mãe e sua noiva para que se despedissem dele. Paula não conseguiu entrar no quarto, desmaiou por causa do mau cheiro e pelo nervosismo diante daquela situação. A mãe, no entanto, manteve-se firme e entrou no dormitório. Dona Conceição segurou a mão de seu filho, acariciando-a. Uma lágrima caiu de seus olhos e eu a ouvi sussurrar:

– Durma em paz, filhinho...

Pedi uma licença de interesse particular na firma e acompanhei os últimos dias e noites de Antônio. Sua aparência escurecida e a força com que sua mão gélida me agarrou contrastavam com seu corpo pequeno de criança. Por um instante nossos olhares se cruzaram e eu pude ver um rastro de lucidez em seus olhos. Opacidade. E de repente, já estava morto.



[1] Brecht. “Aos que vão nascer”. In: Poemas 1913-1956: Bertolt Brecht. Seleção e tradução de Paulo César de Souza – São Paulo: Ed. 34, 2000. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Fantasy Art - Galeria

 
Luis Royo.