Amigos do Fingidor

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Manifesto Madrugada


Publica-se este texto, dado como perdido na sua completude, às vésperas dos 59 anos de fundação do Clube da Madrugada, ocorrida a 22 de novembro de 1954, pela sua importância histórica e pela sua contribuição a futuros estudos.
Transcrito, com a necessária adequação gráfica, da Revista Madrugada, número único, que circulou em Novembro de 1955, recuperada do acervo do professor Mário Ypiranga Monteiro pelo pesquisador Roberto Mendonça.
 

 

No momento em que o Brasil sofre uma crise total em todas as suas forças intelectivas, morais, educacionais, econômicas e sociais, a mocidade consciente do Amazonas, agrupada sob a égide do Clube da Madrugada, une-se para defender esta herança social inesgotável que herdamos de nossos antepassados, em cujas causas concernentes à debacle, atuam grupos de caráter negativo anacrônicos, divorciados da realidade brasileira e defensores de posições cômodas e de princípios apátridas.

Nesta senda, quanto mais penetramos, apresentam-se fatores desintegradores que clamam por uma tomada de posição definida por parte da mocidade, em torno dos problemas que se nos antolham prementes, menosprezados por esta geração que passa, e que em dias muito breves virão acarretar as consequências imponderáveis para o alicerçamento de nossa cultura na sua formação geral.

Se analisarmos, mais profundamente, a contextura total de nossa sociedade, iremos encontrar nos elementos que formam a nossa elite intelectual dirigente, uma apatia criminosa, no que diz respeito à formação e renovação de valores, que serão responsáveis vindouros de nossos destinos, e, subsequentemente, continuadores de nossa posição continental. Semelhante atitude gera, nos moços, uma repulsa que nos impulsiona a restaurar esta contextura social, e apresentar novo programa de ação, com a finalidade primordial orientada no sentido de elevação dos padrões intelectuais, morais, econômicos e sociais.

Face a esta situação, o Clube da Madrugada define-se perante as várias categorias que  pensamento humano expressa:

Literatura: Não há literatura no Amazonas. Primeiro, fatores culturais e morais determinaram nos homens ditos de letras, uma posição acomodatícia, geradora de um individualismo exacerbado, cuja consequência derivou o afastamento de valores positivos que pudessem fazer perigar o seu totemismo aceito como absoluto. Segundo, fatores de ordem econômica contribuíram para que elementos de valor intelectual procurassem novos meios, onde espíritos esclarecidos lhes ofereciam melhores oportunidades, em virtude de seu talento. Como prova do que asseveramos, vimos estes elementos afirmarem-se nos meios centralizadores do pensamento, onde a luta pela expressão das ideias não era sustentada por oligarquias intelectuais, fenômeno este instituído no Amazonas, há longa data. Fácil será observar o que acontece na esfera convencionada chamar-se acadêmica[1], onde campeia a servidão a estilos e ideias antiquadas, importadas diretamente da Europa, no século passado. Desconhecem francamente, por meio de um indiferentismo olímpico, a existência de uma literatura puramente nacional. Tal ignorância redunda, consequentemente, numa arrogante indiferença diante dos próprios valores da terra. Porque estes procuram renovar ideias e conquistar formas novas de expressão e não encontram apoio numa crítica evoluída. Disto resultou o êxodo anual de moços em direção ao Sul do país.

Por isso o Clube da Madrugada inspira-se nos elementos formadores de nosso ambiente, para a efetivação de uma literatura condizente com os princípios de liberdade imanentes ao artista, na sua expressão literária, conjugados com os itens acima referidos, os quais estratificam uma literatura sadia. Desde já, o Clube da Madrugada exproba o patrocínio de dogmas do Estado e de elementos que queiram fazer instrumento seu, a obra que pretendemos edificar.

Escultura, Pintura e Arquitetura: Infelizmente, stricto sensu, não há os três ramos de Arte marginados, no Amazonas, digna de menção. Os resquícios que por ventura existem não formam uma unidade, no ambiente intelectual. Não apresentando material necessário a uma análise, nos abstemos de aprofundar, neste particular, uma crítica dentro dos ditames da arte.

Sociologia: Apesar de o Amazonas ser uma unidade da Federação, que apresenta elementos vastíssimos para a pesquisa sociológica, apenas temos alguns estudiosos que se detêm nos problemas superficiais que afetam nossa região. Lastimável sob todos os aspectos, principalmente, para a valorização do amazônida, quando a presente conjuntura se preocupa na revalidação dos padrões que regem a Ciência Social, que tem por objeto a integração do homem no meio cultural. A ciência do homem, que hoje revela os múltiplos ângulos pelos quais o indivíduo é envolvido na sua mesologia, é ainda, no Amazonas, olhada com a desconfiança dedicada à magia negra, na Idade Média. Vive-se, deste modo, preso a um imediatismo criminoso responsável pela incúria em que, atualmente, se encontra o homem da gleba. Tanto assim que as pesquisas mais sérias realizadas na região são aquelas feitas por entidades alienígenas, sem qualquer laço com o nosso pensamento. Deste fato resulta, muita vez, a deturpação completa dos denominadores encontrados nesses trabalhos. Por isso, acreditamos ser necessária a formação de uma elite iniciada nos assuntos da ciência do homem, em decorrência das necessidades amazônicas, a fim de que seja revelada a verdade social acerca de nossas populações, por pesquisadores insuspeitos, irmanados por liames culturais ao homem do Vale.

Nesse sentido, o Clube da Madrugada está forjando a colimação desse objetivo, por intermédio de seus membros, dentro de uma nova dinâmica sociológica, consubstanciada nos processos analíticos e sintéticos de nossa realidade mesológica, em sua fonte. Erradicando, destarte, os trabalhos de gabinete que têm surgido sobre os nossos problemas, os quais falseiam, despudoradamente, a verdade cientifica e moral. Urge, portanto, o trabalho planejado e científico, olhando para o futuro, deixando de lado este pragmatismo pernicioso, para nós, dos homens que se dizem práticos.

Economia: No Amazonas, os estudiosos desta matéria são muito poucos e têm se colocado à parte, não tomando posição ante a renovação por meios culturais adequados que venham beneficiar nossa região. Estudos econômicos que se têm feito no Amazonas não procuram observar a realidade, apegando-se estes a sistema geral, não penetrando na análise econômica. Essa deficiência de estudiosos do ramo da Ciência Econômica tem provocado, por parte dos administradores, atitude que, em vez de incentivar a produção, tem aniquilado novos empreendimentos econômicos em detrimento de uma nova fase de desenvolvimento para o Vale.

O Clube da Madrugada estudará e pesquisará, por intermédio de seus membros, os problemas que mais afligem a nossa região, e que são resolvidos, comumente, por “jornalistas”, sem conhecimento de causa, levando o povo a uma falsa orientação. Dependerá, sobremaneira, de estudos esclarecedores da matéria, uma nova atitude governamental, em relação a assuntos econômicos ligados diretamente ao desenvolvimento da Amazônia. Para este fim, por certo, contribuirá uma elite realista, conhecedora dos verdadeiros problemas da terra.

Filosofia: Pouco existe no ramo, mesmo porque os homens de letras do Amazonas apegam-se, como impertinência, aos estudos acadêmicos da filologia, em cujo labirinto perdem-se, em prolongadas polêmicas, sem resultado algum. E quando encontramos indivíduo interessado nos estudos filosóficos, é apenas superficialmente, sem nenhuma profundidade, conhecendo, de soslaio, a história da filosofia. Existem poucos filósofos no Brasil, e no Amazonas nenhum. Contra esse descaso levanta-se o Clube da Madrugada, procurando sistematizar um estudo dos princípios e fins do homem no Cosmo. Estudo este direcionado nos métodos universitários de amplo debate, quando entram em especulação sistemas filosóficos dos mais antigos aos modernos: sejam dos aleatas, jônicos, epicuristas, sofistas, espiritualistas, materialistas, aos marxistas, existencialistas e os neossistemas que têm aparecido. Demócrito, Epicuro, Sócrates, Platão, Plotino, Confúcio, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, Bergson, Kierkegaard e tantos desfilarão nos seminários que pretende realizar este movimento de renovação.

Esposando os princípios encimados e refutando o conservantismo rancoroso, o Clube da Madrugada tem por escopo plasmar uma nova consciência pertinente à realidade brasileira. Desta assertiva queremos dirimir quaisquer resquícios niilistas ou iconoclastas, mas, simplesmente, fazer ver aos nossos compatriotas que vivemos uma época de decrepitude senil. Deste modo, somos contra a concepção de um statu quo estático. Nascendo desta premissa, a nossa concepção dinâmica do processo histórico, determinando novas representações no pensamento humano, que se coadune com a evolução de nossas necessidades sociais. Lutamos, portanto, nesta segunda fase de nossa existência pela emancipação mental de nossa ideologia. Para o Brasil: artes, ciências sociais, sistema político e econômico eminentemente nacional, surgido da premência de nossa idiossincrasia. Esta nossa atitude, achamos conscientemente, não nos classifica como xenófobos. Pelo contrário, lutamos contra a xenomania de todos aqueles que advogam soluções literárias, políticas, econômicas e sociais com a já celebre sentença: MADE IN...

Esperamos, desde já, as compreensões dos homens de mentalidade abstrusa, que tiveram capacidade intelectual para acompanhar a nossa evolução social. Porém, a esses, haveremos de arrostar os empecilhos levantados, com o idealismo moço que nos anima a encetar esta cruzada, com o objetivo sacrossanto dos jovens livres, qual seja a libertação do Brasil dessa visão daltônica dos dirigentes, em todos os setores, responsável por uma consciência amorfa, numa geração que se forma. 

a)            Saul Benchimol, Francisco F. Batista, Luiz Bacellar, Jorge Tufic, Carlos Farias de Carvalho, Moacir Couto de Andrade, Alfredo Campos, Teodoro Botinelly Assumpção, Afrânio Mavignier de Castro, Fernando Collyer, Humberto Paiva, Miguel Barrela, João Bosco de Araújo, Djalma Passos.

 




[1] Uma referência direta à Academia Amazonense de Letras, não, como se poderia pensar, à Universidade, que, à época, não existia.

Vinicius de Moraes na Academia Amazonense de Letras

 
Será neste sábado, 23/11, a partir de 10h (não de 9h30), a palestra do professor Maurício Matos
"A benção Vinicius de Moraes, o 'branco mais preto do Brasil'".
Após a palestra, de 60 minutos, a palavra será franqueada ao público.

Escolha do médico: elo de confiança


 
João Bosco Botelho

 

         A doença não existe só em si mesma; é uma entidade abstrata, nominada e classificada pelas pessoas, como história de longa duração.

         A conjunção simultânea dos sinais e sintomas que a doença determina no corpo humano – a síndrome – impõe a observação pelo médico ou outro curador da doença como mal. Essa situação assume na prática o ponto de partida para retirar as doenças das construções teóricas abstratas.

         Aquilo que a enfermidade causa, na essência entendido como mal que deve ser extirpado, constitui o principal pilar que alicerça a abordagem do doente, montando o elo de confiança entre o enfermo e o curador, não somente como fenômeno biológico, mas também como parte da totalidade sociocultural de ambos, curador e  doente.

         Não é somente a doença que depende desse conjunto de influências, a própria organização dos serviços de saúde é envolvida, fazendo com que ambas, saúde e doença, sejam parâmetros para analisar as características da cultura dominante de determinada comunidade.

         Ao longo da História, o controle das endemias sempre esteve diretamente ligado a essa realidade. O historiador Jaques Le Goff é enfático: "La maladie n'appartient pas seulement à l'histoire superficielle des progrès scientifiques et technologiques mais à l'histoire profonde des savoirs et des pratiques lies aux structures sociales, aux institutions, aux representations, aux mentalites".

         Um dos exemplos mais marcantes é a hanseníase. Essa doença começou a desaparecer da Europa ainda no século 17, trezentos antes do início do tratamento considerado efetivo. Aqui reside um dos pontos cruciais do atual entendimento da medicina enquanto pratica social: é preciso que as nossas escolas de medicina repensem as metodologias para que os alunos compreendam a dimensão social da doença.

         A análise cultural das doenças pode contribuir também para esclarecer como se processa a escolha que o doente faz na procura do médico ou do curandeiro, consolidando o elo de confiança.  Em determinadas culturas distantes milhares de quilômetros entre si, esse encaminhamento é concretizado de modo semelhante, isto é, as pessoas se baseiam no sistema referencial dos amigos e não em indicadores objetivos do êxito profissional.

         Após a escolha do curador, não necessariamente médico, as práticas se distanciam rapidamente. Em certo sentido, em especial na construção do elo de confiança, a medicina popular é mais integral que a medicina das universidades. O médico tende, como resultado da sua formação desvinculada do sociocultural, a abordar exclusivamente a doença em compartimentos corpóreos, enquanto que o curador‑popular se envolve com o dominante cultural e o utiliza no seu objetivo de curar.

          A milenar crença de que a doença é um castigo divino ainda é marcante em muitas culturas. Nas grandes religiões judaica, cristã e muçulmana, em certas circunstâncias, continua sendo utilizada em larga escala como instrumento de controle social.

         A compreensão das enfermidades como forma de desvio social foi teorizada por Parsons, em 1951. Essa abordagem foi marcada pelo etnocentrismo americano da década de cinquenta, que acabou legitimando os Relatórios Flexner quando afirmou: "O paciente tem a obrigação de buscar ajuda técnica competente (fundamentalmente, um médico) e cooperar no processo de recuperação".

          A compreensão de Parsons estabeleceu o pressuposto de que as pessoas não podem se ajudar mutuamente e transformou todos em seres passivos e obedientes que devem se submeter inteiramente ao poder médico e da Medicina.

         Essa conduta fortaleceu a medicina e a morte hospitalar e fixou relação de absoluta dependência entre o doente e o médico. É evidente que o estudo de Parson só poderia ser aplicado nos países industrializados, com grandes recursos disponíveis para empregar na saúde. É inaceitável nos países subdesenvolvidos, onde a maioria esmagadora da população não tem acesso à medicina hospitalar.         Nessa situação, na qual o doente sofre forte influência da mídia, descrevendo, diariamente, os "sucessos da tecnologia curando doenças temidas", se transforma em duro confronto com a realidade vivida, sem cuidados primários com a saúde, tornando impossível a construção dos elos de confiança entre doente e médico.

          

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Fantasy Art - Galeria


Alex Alemany.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O dia dos mortos bem vividos



David Almeida

 

Num sistema extremamente capitalista, injusto – causador de desconforto para a maioria da população – oportunamente, tudo vira produto, e enche os bolsos daqueles que têm o capital nas mãos. Portanto, o dia dos mortos fomentou um mercado bem vivo, para os “vivos”. Produtos de todas as espécies foram vendidos nos cemitérios. Os camelôs e não camelôs se aproveitaram do momento para faturar um pouco mais, e complementar a sua renda, na corrida pela sobrevivência. É “O Dia dos Mortos bem Vividos”.

As velas, que por muitos séculos eram consideradas de luxo na Europa, nesse dia são encontradas de todo o preço e em qualquer quantidade. Essa fonte luz é, na realidade, a luz para todos, pois está a todo alcance: pobres, ricos e remediados, nesse momento, tornam-se iguais e rezam por sobre os túmulos de seus entes queridos, na claridade dessa efêmera chama – vale ressaltar, que a diferença existe somente na ostentação dos túmulos.

Depois vem as flores, que perfumam ou não, e dão um colorido todo especial a esse dia: coroa de flores, grinaldas, flores de papel, flores de plástico, flores natural... Elas simbolizam o amor, o carinho e a saudade dos vivos pelos seus mortos, é um gesto fraterno de gratidão, que, emocionalmente, extravasa do coração. É um dia – para alguns – aliviarem o peso da alma.

A fé, de certa forma, vira produto também, ninguém escapa de uma cantada dos evangélicos, eles são muitos, e oferecem aos visitantes copos com água, santinhos, querendo a todo custo, que você aceite Cristo no coração, mesmo que já tenha aceitado, e, em contrapartida, lhes oferecem o paraíso, e, consequentemente, a salvação. A caça às almas penadas é implacável, não da para fugir.

A religião Católica, também, não fica por baixo e protagoniza uma missa em frente ao Cemitério São João Batista, ministrada pelo bispo da capital Amazonense. Os católicos se emocionam, choram, rezam e cantam hinos de louvor aos céus, por seus mortos... “segura na mão de Deus, segura na mão de Deus”.

Tudo tem para vender nesse dia, e não é exagero: na questão gastronômica, o primeiro do cardápio é o mais que famoso “churrasquinho de gato”, depois vem bodó assado, jaraqui e pacu frito, bife do “olhão”, refrigerante etc.  Bijuteria, imagens de santo, rosário, CD pirata e muito mais...De vez em quando, você até escuta o subindo pelas paredes do Príncipe do Brega, Nunes Filho. E pra finalizar, se os fieis quiserem – depois de terem se emocionado com seus parentes que estão do outro lado do mundo – podem cair na realidade, e ainda levar, também, uma pizza pra casa, porque religião e pizza é uma coligação partidária perfeita. Na sequencia, como estamos no final do ano, só pra lembrar de acontecimentos na capital federal, um “panetonezinho” vai bem, também, “né mermo”?   

E nessa romaria toda, o dia dos mortos é bem-vindo para os muitos dias dos “vivos.” É o dia dos mortos bem vividos.
 
Entorno do cemitério de São João Batista, no último dia 2 de novembro.
Foto: David Almeida.
 
 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Lábios que beijei 6


Zemaria Pinto
Lilia


O rádio era uma novidade, e Lilia era “a estrela mirim da canção manauara”, uma criança cantando música de adultos, falando de dor de amor, desilusão, separação. Lilia cantava e, com o perdão do clichê, encantava – bolero, valsa, samba-canção, rumba e até algumas canções em inglês, consagradas pelo cinema. Só via Lilia de longe. Ordinariamente, na saída para o colégio, o uniforme azul e branco, incluindo algo sobre a cabeça, que nunca soube definir. Mas se no dia a dia a visão se repetia em cores e formas, no final de semana, quando ela saía para os shows de auditório, nas duas ou três rádios da época, era sempre um novo figurino. Ficar colado no rádio, aguardando sua participação, era uma suave tortura. Quando a ouvia pelas ondas médias, ficava imaginando Lilia, exatamente com aquele figurino com que ela planara na rua lamacenta, para pegar a condução que a levaria à gloria. Por muito tempo, Lilia frequentou minhas fantasias. Um dia, soube que a loura Lilia fora embora para o Rio de Janeiro, onde ficaria conhecida, sim, mas sem nunca alcançar o brilho de cabrochas como Elizeth, Ângela ou Dolores – até sumir, na voragem da indústria do entretenimento. Lilia, adolescendo, cantava Rosa com uma doçura ímpar, jamais igualada. Ainda hoje ouço, no fundo fosso de minha memória, ecoar a voz límpida e azulada de Lilia – “o teu coração junto ao meu, lanceado...”

domingo, 17 de novembro de 2013

Manaus, amor e memória CXXXIV


Praça da Saudade, com dois monumentos ao mau gosto: ao centro, a sucata de um avião de passageiros; à esquerda, um prédio onde funcionava um órgão público. 

sábado, 16 de novembro de 2013

Fantasy Art - Galeria



The Angel of Chelsea.
James Yale.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Deuses, heróis, bufões – uma dramaturgia amazônica 3/10


Zemaria Pinto

 
Do mito cosmogônico passamos ao mito de origem, do herói-civilizador. Jurupari, a guerra dos sexos (1997a, p. 91-152), encenada pela primeira vez em 1979, é a versão Tariana do mito, em três atos. Para Camara Cascudo, Jurupari “é, geograficamente, o mito mais prestigioso, com vestígios vivos em quase todas as tribos” (1988, p. 420). A força do mito é a provável responsável pelo ardil missionário de classificá-lo como um demônio, na concepção cristã. Ironicamente, uma autoridade católica, D. Frederico Costa, em documento de 1909, defende o herói da desonra que seus pares tentaram lançar-lhe, enumerando os oito mandamentos de Jurupari e concluindo que tanta reserva moral não caberia num espírito maligno (apud CASCUDO, 1983, p.76-77). Ainda para Câmara Cascudo, Jurupari “é o legislador divinizado, que se encontra como base em todas as religiões e mitos primitivos” (1988, p. 420).
A ação de Jurupari se passa num tempo mítico, anterior ao que possa ser admitido como História, mas sem que esta possa negá-lo de todo. Uma peste dizima os homens da tribo, deixando apenas alguns velhos, entre eles um pajé, que, para Naruna, a matriarca, era apenas “uma raiz, uma planta antiga”. Desoladas, as mulheres vão banhar-se no lago Muypá, que lhes era proibido, por ser o lago sagrado onde Ceucy, a estrela, banhava-se todos os dias, “lavando o suor de seus amantes”. Para surpresa das mulheres, o velho pajé lhes aparece no corpo de um jovem belo e forte, anunciando um castigo por haverem ignorado a interdição: “pelo crime cometido, a geração que nascerá amanhã excluirá a mulher para sempre de tudo o que for sério e grave”. Ele mergulha no lago e desaparece entre as mulheres. Depois de passadas dez luas, “todas as mulheres pariram ao mesmo tempo”. Naruna deu à luz uma menina, a quem chamou Ceucy da Terra.
Adolescente, Ceucy, ainda virgem, come uma fruta proibida e o sumo dessa fruta escorre-lhe pelo ventre, fecundando-a. Dez luas passadas, nasce Jurupari. O recém-nascido desaparece como por encanto e seu choro é ouvido próximo à árvore do fruto proibido. Ceucy deixa-se ficar junto à árvore e, durante algum tempo, sempre que adormece, sente o filho sugar-lhe o seio. Vinte anos decorrem até que ele reapareça para assumir o lugar que lhe fora reservado. Aos poucos, sua liderança vai sendo imposta aos homens, a quem fala sobre a música, a agricultura do milho, da mandioca e da banana, e sobre o novo tempo em que eles assumirão o destino da tribo. Essas informações devem pertencer somente aos homens: são os segredos de Jurupari. Numa das reuniões proibidas às mulheres, Ceucy, que ouvia escondida, é descoberta e recebe o castigo de morte do próprio filho. Naruna foge com as outras mulheres para o “lago de águas verdes”, recebendo os homens uma vez por ano.       
Mas Naruna não desiste de conhecer os segredos de Jurupari, que só os iniciados dominam. Este, por sua vez, aplaca a tensão dos homens prometendo que dentro em breve as mulheres voltarão. A jovem Diádue, a serviço de Naruna, consegue seduzir o maduro e experiente Uálri, que é condenado a morrer pela traição. O “segredo” revelado às mulheres é o conhecimento erótico de Uálri: “ele agiu com uma sabedoria nova e não resumiu o amor em poucos gestos”. As mulheres, então, retornam, deixando Naruna e algumas poucas que lhe permaneceram fiéis. Jurupari ensina aos homens acerca das flautas sagradas: 

– Minhas flautas farão os desejos ondularem como ramagens saudando o tempo, na alta copa da mata, esvaindo todo o travo das frustrações na torrente distante espumando na descida. E os homens crescerão sem medo, como o trêmulo pássaro parado na margem antes do ocaso.
O terceiro ato começa mostrando outro legado de Jurupari: os adornos. Os homens vão ao encontro anual com as últimas defensoras do matriarcado. Jurupari, pela primeira vez, vai junto. No encontro com Naruna dá-se o inevitável: ele a mata. Quando retornam, ainda sob os reflexos do incêndio que consome a maloca de Naruna, Jurupari e Diádue fazem amor, mas ele a adverte: 

– Esta será a nossa primeira e última noite. Quando os séculos se consumarem eu voltarei a te encontrar e viveremos juntos. Eu mergulharei em ti e repousarei das minhas fadigas e sustos. 

Pela manhã, Diádue transforma-se num lago. Antes, entretanto, Jurupari revelara-lhe um último segredo: o Trovão Avô do Mundo queria casar-se e incumbira-o de encontrar a mulher perfeita. Ele precisava continuar sua busca por uma mulher paciente, que soubesse guardar segredo e não fosse curiosa...
Sem um Luiz Lana por perto, Márcio Souza trabalhou à vontade as inúmeras variantes do mito de Jurupari e deu-lhe uma formatação literária condizente, amarrando-o com sua concepção anterior da criação do mundo e com outras histórias, como a das Amazonas, que seriam as guerreiras lideradas por Naruna. O mito de Jurupari é uma “história verdadeira” e explica a origem de vários costumes e práticas: a música, a agricultura, os adornos, o patriarcado. Mas sua fama de legislador deve-se aos mandamentos coligidos por D. Frederico Costa:  

1º A mulher deverá conservar-se virgem até a puberdade;
2º Nunca deverá prostituir-se e há de ser sempre fiel ao seu marido;
3º Após o parto da mulher, deverá o marido abster-se de todo trabalho e de toda comida, pelo espaço de uma lua, a fim de que a força dessa lua passe para a criança;
4º O chefe fraco será substituído pelo mais valente da tribo;
5º O tuxaua poderá ter tantas mulheres quantas puder sustentar;
6º A mulher estéril do tuxaua será abandonada e desprezada;
7º O homem deverá sustentar-se com o trabalho de suas mãos;
8º Nunca a mulher poderá ver Jurupari a fim de castigá-la de algum dos três defeitos nela dominantes: incontinência, curiosidade e facilidade em revelar segredos. (apud CASCUDO, 1983, p.76-77) 

Sobre o oitavo mandamento, que é também o epílogo da peça, Stradelli o apresenta como o desfecho da aventura humana de Jurupari, numa missão que lhe fora atribuída pelo Sol: o de procurar a mulher perfeita, que não tivesse nenhum daqueles defeitos (apud CASCUDO, 1967, p. 58).
A despeito do título, que pode levar o leitor incauto a pensar na Lisístrata, de Aristófanes, Jurupari, a guerra dos sexos é um texto dramático, de alta densidade poética, perpassado de um erotismo sutil, que, quando necessário, se escancara, sem cair na vulgaridade. O sexo é mostrado como um índice de civilidade, muito além da mera função reprodutora. Jurupari, por outro lado, é uma personagem atormentada, desprovida de humanidade, centrada na sua missão, como um herói grego consciente de seu destino, previamente traçado pelos deuses.

Tecnologias, saúde e doença



João Bosco Botelho

 

            Renomados pesquisadores sociais contribuíram para consoli­dar a estreita ligação das ciências sociais com a medicina, bus­cando explicações para os componentes não biológicos do binômio saúde-doença.

            A descrição de Engels das condições de trabalho e da saúde dos operários ingleses, em 1844, representa o divisor de águas do quanto é importante a prévia compreensão da realidade social e as condições de trabalho.

             Não existe qualquer possibilidade de dúvida, mesmo aos mais irresponsáveis, de que a industrialização desordenada com desmonte do ecossistema e o descaso pelas normas elementares de respeito à vida humana levará a todos, ricos e pobres, para o mesmo buraco.

            No início do século, em 1910, o famoso Relatório Flexner sobre as cento e cinquenta faculdades de medicina existentes, naquela época, nos Estados Unidos, seguido dois anos depois pelo segundo Relatório Flexner, que descrevia os cursos médicos da França, Inglaterra, Alemanha e Áustria, selaram o destino da nova metodologia do ensino da medicina.

            Entre as consequências dos Relatórios Flexner, passou a ser considerado exclusivamente como verdadeiro e produtor de saúde as relações científicas vindas da ciência e da tecnologia. Tudo apoiado no pressuposto de que a utilização de aparelhos para intermediar a ação médica seria responsável, em futuro muito próximo, pela melhoria das condições de saúde do homem.

             Os anos que se seguiram mostraram exatamente o contrário: a melhoria da vida coletiva e o aumento da longevidade não está atrelada à parafernália da tecnologia médico‑industrial e a supermedicalização e sim às medidas básicas de saneamento, moradia, educação, trabalho e lazer.

             Os Relatórios Flexner contribuíram efi­cazmente para a atual situação de descalabro em que se encontra a prática médica na atualidade. Os abusos dos medicamentos e das tecnologias passaram a ser utilizados como suporte indispensável ao exercício da medicina. O resultado final se concretizou na entrada definitiva da medicina no consumismo incontrolável da produção industrial, sem que tenhamos qualquer comprovação de que este fato tenha participado para a melhoria da qualidade da vida.

             O processo de industrialização acelerado do pós‑guerra, nos anos 1950, fincou a ação dos poderosos grupos econômicos defensores do lucro a qualquer preço, especialmente, ligados à venda da parafernália médico-hospitalar desnecessária e predatória à saúde pública. Essa inquestionável realidade impediu, de diferentes maneiras, que as universidades discutissem plenamente as relações sociais da medicina. Assim, foi mantida fora das salas de aula a clara causalidade entre a estrutura social e a nosologia.

            É evidente que esta situação, valorizando o exclusivamente tecnológico na prática médica, e que tornou impagável a dívida dos sistemas públicos de assistência médica nos países industrializados, está sendo modificada.  O início dessa revisão e mudança se concretizou na análise dos indicadores de saúde dos países industrializados: a saúde de um povo não está ligada à tecnologia do aparelho médico-hospitalar, mas à educação, saneamento básico, condições de trabalho e lazer:

             1. A Escola de Chicago centralizou as atenções, a partir de 1939, com as análises psiquiátricas encontradas entre os operários das periferias urbanas. As conclusões se voltaram de modo incisivo para a associação entre as doenças encontradas e as bruscas mudanças ocorridas na urbanização pós‑industrial;

            2. Os estudos financiados pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Pan-americana de Saúde, enfocaram o componente sociocultural nos mecanismos determinantes das doenças;

            3. A medicina fundamentada no consumo tecnológico começou a sofrer severas crítica, a partir dos anos 1960, por meio de estatísticas mostrando que a supermedicalização em nada contribuía na melhoria da vida.

           

 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Fantasy Art - Galeria

 
Regeneration.
Jonathon Earl Bowser.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A vida de uma obra: cultura Maku



Amanhã, quarta-feira, 13/11, às 18h30min, o grupo MemoCult em parceria com a Academia Amazonense de Letras promoverá o segundo encontro do ciclo de palestras 2013/2014 do projeto “A vida de uma obra:”. A participação no evento é aberta a todos e a entrada, gratuita.


O tema desta edição será a cultura indígena Maku, composta por povos indígenas que habitam a região interfluvial da Amazônia entre Brasil e Colômbia. O debate será conduzido pelos pesquisadores em etnolinguística Prof. Valteir Martins e Profa. Silvana Martins, ambos docentes dos cursos de graduação e pós-graduação em Letras da UEA.

Gaudêncio Thiago de Mello (1933 - 11/11/2013)



O multi-instrumentista Gaudêncio Thiago de Mello,
irmão do poeta Amadeu Thiago de Mello,
faleceu ontem em Nova York, onde residia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Eu e as timidezes 1/3



Letícia Cardoso

 

Há algumas coisas sobre timidez, na verdade várias, mas que não caberiam numa crônica e, sim, num tratado, que seriam interessantes tornarem-se claras. No entanto, pontuarei alguns fatos, aparentemente inofensivos, corriqueiros para os mortais, ou melhor, desinibidos, que devem ser esclarecidos a respeito das pessoas tímidas.

Uma das coisas que você precisa saber, meu caro leitor, é que tímidos sentem-se desconfortáveis para falar ao telefone. Você me questiona por isso com um “até para falar através do frio aparelho metálico que desde o século XIX ocupou-se em diminuir as distâncias?” Sim, meu caro, até para isso. A única exceção que fazemos é para nossas mães. Elas são as únicas pessoas com quem nos sentimos 100% confortáveis para atender ligações, pois não precisamos nos preocupar com saudações tampouco em puxar conversa. Elas cuidam de tudo isso.

Também é da natureza dos tímidos ensaiar diálogos. Para marcar consulta ou mesmo solicitar algum serviço de entrega, o tímido passa antes alguns minutos ensaiando o que falar. Em ambientes públicos, o tímido também ensaia para pedir alguma informação e, antes de tomar esse grande passo, é possível vê-lo dando voltas no lugar, tudo isso numa tentativa de atrasar o momento, de arranjar uma desculpa, de ter uma grande ideia para não ter que pedir a orientação. E pior, é que pode ser que, por seu nervosismo, ele nem consiga saber o que quer ou desista antes mesmo de tentar.

Saiba que pessoas tímidas costumam ser pontuais. O tímido evita chegar atrasado a palestras, ou qualquer outro tipo de evento, para não chamar a atenção dos outros. Se chegar tarde demais, é possível que ele nem assista mais ao debate, mesmo com a possibilidade entrar durante o intervalo, pois sua imensa vergonha o fará acreditar que todos ali sabem que ele se atrasou.

Essas são algumas situações, experiências, que parecem bizarras para você, mas que fazem parte da vida de uma pessoa tímida como eu. Hoje, por exemplo, tive que ir ao salão de beleza, pois precisava dar um retoque na raiz do cabelo. E para meu desespero, minha mãe disse que não poderia acompanhar o procedimento. Pronto! Seja bem-vinda, timidez.

Tenho vergonha de ir ao salão de beleza sozinha (e mesmo acompanhada), porque cabeleireiros geralmente são muito expansivos e nos enchem de perguntas a todo o momento. Minha mãe é extrovertida, por isso se sai bem nesse tipo de ocasião. Vai ver que é por ela ser assim que eu não desenvolvi muito bem o meu “lado social”.

Na hora de lavar o cabelo, a cabeleireira deixou cair shampoo no meu olho. Doeu pacas! Você pensa que eu gemi? Você pensa que eu chorei? Você pensa que eu gritei/esperneei? Não, me mantive firme e forte, aguentando a ardência e pensando na prescrição que há nessas embalagens de produtos químicos: em caso de contato com os olhos, enxague abundantemente. Pois se não bastasse ser tímida, eu sou meio neurótica com esse tipo de coisa. Mas, enfim, ela percebeu quando eu comecei a lagrimar e me socorreu. Amém!

Mesmo podendo ter perdido a visão, preferi não reclamar. Tenho vergonha até para fazer isso. Eu evito qualquer constrangimento, mas no final não deixo de me sentir constrangida por ser tão tapada e ter medo de fazer tanta coisa por simplesmente sentir receio em me expor.

Acho que não há uma fórmula para extirpar a timidez. Há algumas pessoas que dizem que já foram mais tímidas. “Mais” tímidas, pois agora se tornaram menos. Não há ironia nisso. Acredito que há graus de timidez, uns mais elevados, outros nem tanto. Mas se você conhece alguém tímido, saiba que há certas coisas que talvez causem retraimento nele, não importa de qual tipo de timidez ele sofra.

Tenha paciência e cuidado para não colocá-lo em situações embaraçosas ou que o façam se sentir constrangido. Às vezes, uma simples brincadeira sobre a sua introversão em falar com alguém importante para ele, pode magoá-lo e deixá-lo mais acanhado. Saiba respeitar o espaço e tempo dele, não tente forçá-lo a virar uma pessoa mais comunicativa e expansiva, por favor, isso é a pior coisa que você poderia fazer com ele. Acredite, uma pessoa tímida tem muito o que compartilhar e adoraria dar um abraço em alguém especial quando o encontra, ela só não tem muita coragem para fazê-lo.

Pois ser tímido é ser incapaz de explodir raiva, de questionar, de sair pela tangente, de não se machucar pelos falsos amigos – esses que aparecem todos cheios de paciência e carinho por você, mas em troca querem alguma coisa. Ser tímido é estar só em meio à multidão. É sentir-se deslocado, é não saber participar da vida. É também cansar os outros pela sua dificuldade em se expressar e, sobretudo, superar seus medos. E você não venha me dizer que não é assim. Porque eu sinto isso na pele todos os dias.
 

domingo, 10 de novembro de 2013

sábado, 9 de novembro de 2013

Carta para Luiz


Tainá Vieira

Dos meus devaneios

  

Olá, meu caro Visconde de Monte de Alegre. Amanhã, dia 04, é teu aniversário. E como amanhã estarei ausente, aproveito este momento para comunicar-me contigo. Espero que estejas bem. Uma pena que não poderemos mais ir tomar aquele café da manhã regional ou almoçar aquele pato com arroz selvagem, como tu apreciavas... Mas deixemos o pato, o café e as lamentações de lado e falemos de outras cousas.  Outro dia, eu li um pouco de Sêneca e encantei-me, não porque eu seja uma nefelibata de carteirinha, é porque eu sempre me encanto com as coisas que me dizem algo gratificante.  Deu para ver que Sêneca era um homem iluminado, sua sabedoria é inexplicável. Ele discorreu sobre a importância de todas as coisas da vida, desde o “valor da amizade” até sobre a “brevidade da vida.” E quão é breve a vida, Luiz, isso não é bom. Ou talvez seja. Não sei, há coisas neste mundo para as quais minha compreensão é pequena demais. Só sei que é difícil de conviver com as ausências e as dores que elas nos causam. Eu bem sei disso. A vida poderia ser mais fácil, ela deveria estar sob nosso comando, olha que maravilha, se uma pessoa quisesse viajar para o outro plano, que fosse, mas quando a saudade apertasse e doesse, era só chamarmos e essa pessoa voltaria. Voltaria para nossos braços, nossos almoços e nossos encontros e nossas vidas. Só que a vida é cruel. Eu acho que é cruel. Ou sou eu que sou egoísta?! Não, não acho que sou egoísta, digo apenas que no meu medíocre coração existe amor por todos aqueles que um dia me fizeram ou me fazem bem. Amar não é egoísmo, pois o amor é o alicerce de todas as coisas. É como o tijolo. Para construirmos uma casa boa e forte, necessitamos que tenha tijolo, não há como usarmos somente os ferros e o cimento, tem que ter tijolo e sua presença é indispensável, do contraio, desabará.  E assim é o amor, na amizade tem de ter amor, em todos os relacionamentos também. Senão tudo acabará desabando como uma casa sem tijolos.

E como disse no inicio desta, amanhã é teu aniversário. Meus parabéns! Espero que estejas bem mesmo. Lerei um poema teu em tua homenagem. Só não tomarei um cálice de vinho, porque não sou boa para isso... Sabes Luiz, já faz um ano que viajaste e ainda sim, tenho a impressão que vamos nos encontrar a qualquer momento, e, eu verei teu sorriso de galã mais uma vez. Ah, perdoe-me, perdoe-me, por não te deixar seguir em paz, mil vezes perdoe-me! Mas é mais forte, e eu não te esqueço. Não quero esquecer. Pois sei que um dia nos encontraremos e tu me reconhecerás e riremos muito dessas minhas tolices. Perdoe-me pela ousadia, mas tu sabes, sabes muito bem do que estou a te dizer... Até breve, cavalheiro iluminado!

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Janet Fairy.
Raffaelle Marin.